Mostrando postagens com marcador maternidade. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador maternidade. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

a escola e a (ausência de) diversidade


ultimamente, procuro ter bastante cuidado nos discursos de engajamento. me enjoam tamanhas intolerâncias que por vezes vejo nos discursos que deveriam ser contra a intolerância (ouvi com horror, nestes dias, um relato que dizia que uma negra não poderia se autodenominar negra porque tinha o cabelo liso! hã?). mas não posso deixar de sentir como ainda estamos longe de relações justas que ressignifiquem as diferenças. 

Poeminha está, aqui, em uma escola que é considerada uma das melhores. e sim. há nela boas intenções, mas falta-lhe o essencial: a pesquisa para acolher e incorporar as diferenças.  tenho levado pequenos choques de realidade. e pago pela minha incompetência de batalhar por estar num lugar com mais possibilidades de formas alternativas de educação. 

hoje foi a primeira reunião de pais da qual participei como mãe de Poeminha. e tudo me pareceu de um terror inominável. na apresentação geral do corpo técnico e pedagógico não havia um único negro. não vi um único biotipo entre os funcionários da escola que poderíamos chamar de "feio". não havia nenhum obeso. nenhum parecia ser homossexual. tampouco os pais eram negros; dois ou três. e eu estou na Bahia, gente! onde estão os negros desta terra? as bichas? os gordos? certamente, não na escola de meu filho, pela qual pago uma mensalidade que não poderia pagar - ao menos neste momento.

para piorar, visitei a sala onde Poeminha passa quatro horas e vinte minutos todos os dias. havia um grande painel da "família", recortado de revistas. todos os pais eram heteros, brancos; alguns famosos com seus sorrisos de plástico. não havia nenhuma família negra, homo, obesa. quase vomitei. na lista de materiais, havia a indicação de levar revistas ("Veja, Isto é, Quem"). e eu me recusei, claro. pedi ao revisteiro boa praça a "Carta capital, porque a Veja não serve nem para recortar".

depois de ter comprado o material do Poeminha, no qual gastei uma pequena "fortuna", fui falar com a professora e explicar-lhe por que havia pastas e estojos cor de rosa e lápis da Frozen. expliquei que o mundo de Poeminha era cor-de-rosa e que eu e Tatupai havíamos decidido que isso não seria um problema. suas frases nervosas demonstraram um enorme despreparo para ouvir e compreender o que ali eu dizia. por fim, disse-me: "não se preocupe. falarei de um modo que não constranja os coleguinhas".  "Como assim, cara pálida?". Quem é "constrangido", todos os dias, é o meu filho. e isso quando nem podemos ainda saber qual de fato será sua escolha de gênero. "E não, você não está entendendo. meu filho não gosta somente da Frozen. meu filho gosta do universo feminino". na maioria das vezes, ele acha os meninos uns chatos; ele já percebeu que eles não estão nem aí para as meninas, que as tratam mal; ele já percebeu que eles só querem saber de futebol e de brincadeiras idiotas; ele já percebeu que, na maioria das vezes, são os meninos que o constrange com apelidos como Bernarda e mulherzinha, e isso só porque ele leva brinquedos que, na teoria, seriam para meninas e porque adora as meninas e seus universos de fantasia. e adora dançar. e isso por que ele nem levou, ainda, sua capa lilás para a escola! 

é porque aqui em casa houve um pequeno susto. de repente, veio o medo::: ele suportará os olhos enviesados? que escola é esta que agora meu filho está, apenas para que eu aplaque a consciência de que ele não pode estar numa escola pública, uma vez que eu sou uma servidora pública que ganha uma média salarial muito acima da média salarial do país? o que essa escola pode dizer para meu filho? ou melhor, o que, nele, ela vai silenciar, omitir, retardar?
.
.
.
não é facil não. duas negativas somente para reforçar que este é mesmo um mundo cão. e eu não sei ainda como me colocar nele como mãe. quarenta e um anos de idade. uma vida toda de busca de entendimento. uma vida toda de preparo. de revolta. de pancadaria. eu que já soube confrontar toda minha família em busca de entendimento para as relações de gênero, tenho que continuar e continuar, para abrir os olhos cegos destes lugares - como a escola - que deveriam estar com os olhos mais abertos. 

é como diz minha amiga Lili: "desgraça, viu?!". depois não entendem porque alguns retardados sociais jogam creolina no corpo de calouros, tiram fotos com um golfinho para ele morrer logo em seguida. ou matam travestis, indígenas, negros. depois não sabem por que uma grande empresa não está nem aí quando destrói toda uma cidade e um rio. ... esses lugares são o lugar do fomento de práticas como essas, é tudo que eu sei.

como salvarei meu filho desta barbárie tendo que expô-lo a essa barbárie diária que é a escola - despreparada, prepotente, omissa, analfabeta, alienada? 
.
.
dai-me coragem, jesuscristinho. não quero nem devo retroceder o mínimo que seja.
.
.

domingo, 7 de setembro de 2014

a parte que falta


Poeminha já nasceu com sua minibiblioteca. este sentimento de "posse" já produziu muitos gestos bonitos. um dia, quando era ainda bem pequeno, num gesto espontâneo de mostrar o quarto dele ao nosso amigo Iremar, disparou: "aqui é meu quarto; e estes são meus brinquedos,  e aqui são meus livros. olhe: meus livros". em outro momento, já soltou, com ar de reprovação: "mamãe, por que o meu livro está aqui na sua biblioteca? tem que ficar no meu quarto!". e saiu batendo o pé com o livro embaixo do braço.  e volta e meia diz: "mamãe, meu sono precisa de uma história". já é um leitor, sem ainda saber ler. 

e ontem à noite, como sua leitora, tive mais uma vez o intenso prazer de poder observá-lo enquanto se apaixonava por um livro. trata-se de A parte que falta, de Shel Silverstein. no curso de formação que ministro para orientadores de professores da alfabetização, sempre insisto no fato de que nunca, de fato, sabemos o que vai disparar na criança o amor por um livro. porém, a busca por livros de qualidade deve ser do adulto. vejo muitas mães comprando livros de péssima qualidade somente porque são de capas duras e coloridos. e seria uma conversa muito longa se fosse falar aqui de parte dos livros de ficção distribuídos nas escolas. por isso, insisto que a pesquisa - de uma mãe, de um professor - deve ser também movida pela curiosidade e pelo amor aos livros. o que não impedem os equívocos, claro. já errei bastante. houve livros que eu achei que iriam "abafar" e o interesse não passou da primeira leitura.

e quando sei que acertei em cheio na escolha? primeiro, o olho brilha. não há imagem mais chavão, eu sei. mas quem já não viu um brilho no olho? que se segue a um movimento de corpo, a uma atenção redobrada, a um sorriso de espanto? e no nosso caso, a um aconchego ainda maior - pois quando Poeminha quer chegar mais perto ainda do livro, chega mais perto de mim. ontem, foi um pouco diferente. ele agarrou o livro. folheou antes mesmo que eu terminasse de ler. olhou olhou. e me mandou continuar a ler. e enquanto eu lia, disparava uma porção de perguntas. uma mais difícil que a outra.

"Por que ele está procurando?
"Por que ele deixou a parte sozinha?
"Por que ele segurou tão forte?
"Porque continuou procurando se já tinha achado? 
"Por que não deu certo?"
"Por que? Por que?"

foi preciso ouvir o Poeminha disparar estas perguntas uma atrás da outra para entender o "indireto" barthesiano. e toda aquela conversa de que a grande literatura é a que suscita mais perguntas do que respostas. 
*
*
*
A parte que falta é mesmo um livro espantoso. com seu traçado simples, suas frases curtas, num domínio absoluto da folha em branco, Silverstein trata de questões tão complexas quanto a solidão, a busca por um outro, o abandono, as escolhas e suas consequências. o início é já uma bordoada: "Faltava-lhe uma parte. E ele não era feliz". esse modo seco de dizer, sem nenhuma modulação para o "faz-de-conta", não diminui em nada a delicadeza e a força do que é dito e mostrado. também fiquei maravilhada. assim, grávida de perguntas também. soube não o que dizer ao Poeminha. lembro que disse que a vida às vezes é assim. e que mesmo assim é bem bonita. ou por isso, é bem bonita. e agarrei-o bem forte para que ele se convencesse.  E, por fim, ele disse: "mamãe, gostei demais"". 

=======================================================================

da próxima vez que algum adulto me disser que não lê certos livros para uma criança, ou não diz certas coisas espinhosas, ou eu vou xingar, como algumas vezes dá vontade, ou vou mandá-lo ler este livro para uma criança.   

       

quarta-feira, 2 de março de 2011

longe da cria

Então é assim. É isso que sentimos quando deixamos a cria. Quando estabelecemos uma distância que o olho não pode ver, o corpo não pode tocar. Eu imaginei. E comecei a sentir, ali, quando o coloquei para dormir na noite anterior a minha vinda. O choro veio fácil, antecedendo a dor física que senti ao deixá-lo, ali, na manhã seguinte, com outra que não eu. Ele tocou meu rosto com sua mão delicada, uma, duas, três vezes, ao me ver chorar, e cravou aquele olhar em mim. Ficamos, ali, demorando naquele tempo de delicadeza. Fiz ele gargalhar para  espantar minhas lágrimas. No meio de um destes risos, ele se aconchegou em cima de mim, encostou a cabeça e dormiu. O nome disso é amor. Por isso, estou aqui, como diz aquela protagonista de novela antiga, toda amarrotada por dentro. Ele, não. Ele está se saindo melhor do que eu. Porque amo, crio Poeminha para amar pessoas. E ele ama. E me troca sem nenhuma cerimônia por estas pessoas. É verdade que à noite só quer a mim. Empurra o pai se acorda. E aponta lá pra fora para dizer quem quer. E se eu não venho logo, se levanta, e vai atrás. Mas de ser assim, de dormir comigo, de só dormir  quando nos deitamos juntos na rede e eu cantar ou contar histórias não faz dele uma criança dependente, chorona, frágil. De jeito nenhum. Ele chega mesmo a nos assustar com tamanha independência. Na possibilidade do primeiro braço, na primeira oportunidade de brincadeira, liberta-se de nós e vai. Abana os braços de felicidade quando chega no quintal da sua Bisa e nos dá tchau já de costas. Ainda bem que nos recebe de volta com o mais lindo dos sorrisos e com o mesmo abanar de braços. Um ano e cinco meses e nenhum resquício de insegurança, de medo. Sorridente, tranquilo, tartamudeador, teimoso quando quer, é assim Poeminha. E é por isso que estou aqui,  com esta enormidade de sentimento. Porque saiu de mim. E porque partilhamos esta vida, estou toda zonza de saudade, de falta, também do Tatu, não vendo nenhuma lógica em estar longe dele. Veja se pode uma coisa desta. Veja como é bom sentir este deslocamento. Tudo isso me faz cheia de espanto.
*
*

sábado, 20 de novembro de 2010

Tatumãe

 Pedro - saudade! - e Poeminha no primeiro dia em que demos água no canudo e ele prontamente aceitou 


Li agorinha no blog da Rê sobre amamentação, e resolvi também escrever. Já quis muitas vezes falar sobre este assunto. Pois foi um dos maiores espantos da minha história de mãe descobrir que não era "natural" apenas amamentar nos seis primeiros meses de vida do bebê. Ainda bem que sou teimosa. Entraram por um ouvido e saíram pelo outro os milhares de conselhos que recebi para dar chazinho, um pouquinho d'água, um mingauzinho, um leitinho na mamadeira ao Poeminha. Mas como assim, se desde que me entendo por gente ouço que o bebê não precisa mais do que do leite da mãe? 

Uma só vez caí na besteira de dar um chá, pois ele estava febril, mas ele vomitou. Era só o que eu precisava para ficar surda de vez aos apelos das pessoas a minha volta. E por que caí? Porque a pressão realmente é grande. Eu me sentia maltratando-o. Por outro lado, tinha certeza de que ele não sentia fome. E não posso dizer que amamentá-lo foi tranquilo desde o início. Aquelas propagandas lindas de aleitamento materno, mãe toda de branco, com bebê sorridente, não rolaram aqui em casa. Cheguei a odiar estas propagandas, chamando-as de mentirosas ou, no mínimo, escamoteadoras das dificuldades. Algo como aquelas sobre leitura com o slogan "ler é prazer". Nos dois primeiros dias eu não tive leite, mas devia ter algo lá que o satisfazia, sei lá. E durante mais de um mês meu peito direito ficou ferido. Ferido MESMO, com direito a casquinha que saía a cada nova mamada. Nada que eu colocava sarava o danado.  Um dia, quando percebi, a boca do Poeminha estava cheia de sangue - e uma bola de sangue no meu então enorme bico de peito. E haja pesquisar na net a melhor maneira, a posição mais adequada, até que meu obstetra, e não o pediatra, acertou a pomada.E doía? Doía pracaralho. Mas eu trincava os dentes e continuava. E por que continuava? porque não concebia fazer diferente. E porque, apesar das dores, logo me apaixonei pela delícia que era amamentar. A cumplicidade destes momentos não tem igual. Para mim, foi uma forma de continuar doando o corpo ao meu filho, de criar este vínculo que só vem de verdade se houver proximidade, entrega, emoção. 

E já havia decidido amamentar até quando ele quisesse, quando veio minha doença. Nos primeiros cinco dias no hospital, em Porto Velho, ainda burlamos a segurança e o Tatupai levava-o para amamentar. Mas já na viagem de volta para Fortaleza, eu percebi que quase não tinha mais leite. Ele já mamava por carinho, dengo, mas olhava tristonho para o peito e resmungava. Nem eu aguentava mais segurá-lo, nem havia mais leite. Ele tinha então  dez meses e já comia tudo. Ainda assim, foi um baque grande. Pior do que isso só ficar em seguida 12 dias sem vê-lo e mais de dois meses sem conseguir segurá-lo nos braços. 


E ainda tem a novela depois que ele completou seis meses: decidimos seguir uma dieta que eu também achava que toda mãe razoável seguia: sopinhas, comidinhas, muita fruta, sucos sem açucar e nenhum mingau, já que ele continuava amamentando. Desde o início, Poeminha foi bom de colher. Mesmo assim, foi bombardeio de todo lado. Diziam que sem mingau, ele passava fome, que suco sem açúcar era um horror, que fruta não alimentava, que tirávamos todo o "direito" da criança e por aí vai. Ainda hoje há cobranças, mas continuamos como dantes: sem dar ouvidos. 


Quero esclarecer que não sou xiita. Se dão um suco com açúcar, não faço escândalo; se alguém está tomando sorvete, e ele fica com cara de cachorrinho pidão, eu deixo dar um pouco, e eu mesma já dei. Afinal, ele é um glutão, faz um barulho danado, bate os pezinhos de alegria antevendo a delícia da comida, seja ela qual for, e não raro abre largos sorrisos enquanto come. Mas peloamordejesuscristinho o que passa na cabeça das pessoas? que a criança vai aprender a comer comida saudável se for empanturrada de doces, massas, biscoitos? Dia desses, tomávamos coca-cola e estenderam o copo para eu "colocar um pouquinho" para ele. Como disse o Tatupai: aí já é demais. Coca-cola para um bebê de um ano? é claro que sabemos que ele vai tomar coca-cola, empanturrar-se de guloseimas, mas que seja num tempo mais adequado. Enquanto eu puder adiar, não terei o menor pudor de fazê-lo. Já bati o martelo: antes de dois anos, ele não vai sentir gosto de refrigerante. E biscoitos chocolates balinhas massas, só quando passam por cima do meu cadáver. E tem sempre quem passe, infelizmente. 


Então, acho assim: se uma mãe não quiser amamentar seu filho ou quiser dar cinco mingaus por dia porque dá menos trabalho do que fazer sopas, é uma decisão dela. E não posso fazer nada. Mas lamento. E sou taxativa: a mãe erra quando não amamenta, a mãe erra quando não cuida da alimentação do filho. Eu nem digo para que se sinta culpada, pois sentir culpa não é mais do que uma forma de criar uma discursividade que escamoteia o erro. Mas se a ditacuja não se envergonha de posar de coitadinha dizendo que está sendo pressionada a ser "politicamente correta", eu também não me envergonharei de dizer, como diriam os antigos, de que isso é uma baita safadeza. É um discurso próprio do nosso tempo, em que as pessoas querem fazer tudo do modo mais fácil, sem que isso tenha consequência.


Enquanto eu tiver boca, vou repetir o mantra de que dar o peito a um bebê é um dos grandes prazeres da vida. E lamento muito por aquelas mães que não percebem isto. E acho, sim, que o aprendizado de ser uma boa mãe deveria passar pela experiência da amamentação. 
<
<


quarta-feira, 31 de março de 2010

Coisas da vida

A vida anda rápida, rápida, e eu mais lenta do que poderia. Abril já? Não pode ser. Mas é. Poeminha cresce tranquilo. Delícia isto: um filho risonho, sempre a postos para brincadeiras mil. Quase não chora. Tudo bem que não tem motivos. O tratamento é vip, creio. Mas sei que existem crianças que, apesar de todos os cuidados, chora bastante e por qualquer razão. Poeminha, se chora, quando estamos brincando com ele, é sono. Sigo direitinho os horários das suas mamadas - e agora dos seus sucos e papinhas - mas por duas ou três vezes dei uma escorregadas. E ele, tranquilaço! Nem pra avisar...

Talvez não seja apenas sorte. Talvez o ambiente tranquilo seja o que o faça feliz. Sim, porque tenho certeza de que ele está feliz, embora ainda não saiba o que é este conceito, tão perseguido, tão fugidio.  Eu mesma estou muito mais relaxada.. No início, eu quis seguir várias regrinhas e me angustiei muito "tentando não ser uma mãe igual às outras". Pronto, disse. Acho que ficava lendo de madrugada só para não ter a sensação de que tinha passado o dia entre fraldas. Digo isso porque já não tenho lido de madrugada. Há dias que fico o tempo todo com ele. Em outros,  deixo-o na casa da bisavó no período da tarde. E sem angústia, o que é muito melhor. 

Este negócio de que os filhos nos deixa mais sábia é bem verdade, pois embora eu sempre tenha tido um "ritmo lento", sempre me chicoteei muito por não dar conta de tudo. E meu "tudo" é muita coisa. Lista infindável de livros, de filmes, de cds que não posso morrer sem ler, sem ver, sem ouvir. Pois bem. Posso morrer. E isso não será nenhuma tragédia. Tragédia mesmo, para mim, será morrer cedo... 

Se passasse dois dias sem ver um filme, já ficava inquieta. E ontem eu me dei conta de que não vi ainda nenhum dos filmes ganhadores do Oscar. Ou melhor, não vi nenhum filme nas últimas semanas. Virei então mãe? Virei. Mas uma mãe à la Milena. Sinto que o que Poeminha tem me ensinado é focar nas prioridades. Por exemplo, agora que estou preparando uma disciplina, tenho feito apenas isto. Todas as leituras têm sido direcionadas. E  nem doeu deixar pela metade aquele livro maravilhoso sobre a Clarice, e aqueloutro do Faulkner. 

PS. E estou esperando, ansiosa, a chegada de um presente. O presente mais bacana - senão o objeto de consumo mais cobiçado - da minha vida. Coisas do Tatupai. 
.
.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Sobre ser mãe e a teimosia


Cada vez me convenço mais. Não podemos oferecer aquilo que não temos. Óbvio, não? Difícil mesmo é sabermos a exata noção do que temos... ou somos. Em tempos de Internet, os nossos atos correm o risco de se parecerem cada vez mais com os dos outros. A priori, isso não é de todo ruim, afinal nos constituímos em interação com outrem. O problema, como sempre, está se não soubermos distinguir, escolher, selecionar o que verdadeiramente nos toca, nos atinge, nos auxilia. Quanto a mim, se por um lado sou influenciável, por outro tenho uma personalidade muito teimosa. Meus melhores amigos sabem o quanto sou refratária a conselhos! 

E agora, sendo mãe, sinto que ser assim tem sido primordial. Às vezes, eu. Às vezes, o outro.  No Mamíferas, a mãe-blogueira Nanda pergunta: "você conhece alguém, ou você mesma já colocou aquele CD de música clássica para o bebê ouvir enquanto dorme". Ela parece duvidar. E apesar de poder responder afirmativamente a sua pergunta, concordo com a discussão que ela levanta por lá: não dá para seguir receitas. 

Por mais que eu busque informações sobre o melhor modo de agir (e toda mãe tem mesmo que buscar informação!), não posso perder a naturalidade e começar a fazer tudo que me dizem que é bom. Birrenta como sou, posso dizer, sem remorsos, que até agora só fiz o que quis (pra variar!). É muito conselho para um só menino - perdi as contas de quantas receitas de chazinho já ganhei, e até agora Poeminha não bebeu outra coisa que não fosse o leite do meu peito. Mesmo se o pediatra me dissesse para dar outr alimento, eu não obedeceria.  E isso porque tenho convicção de que o  bebê não precisa de outro alimento que não o leite materno até os seis meses. É claro que isso vem das tais informações, mas se eu não as tivesse, o meninão que vejo a cada dia ficar maior e mais esperto seria suficiente para me mostrar que, sim, só o leite materno é suficiente.

E estendo essa teimosia a outros campos. Tenho cá para mim que uma mãe que põe música clássica para o filho só porque "ouviu dizer" que era bom, fará isso duas ou três vezes e não mais. Depois, o próprio filho vai perceber a "farsa". Quando eu era professora primária, muitas mães reclamavam porque os filhos não queriam ler, e eu sempre tascava a mesma pergunta: "Você lê?". 

E agora, como mãe, interessa-me saber o que posso oferecer. Música clássica é uma delas. Música de todos os tipos. Mas não é algo artificial. Apesar do meu ouvido sofrível, uma das minhas paixões é a música. Faz parte da minha vida, da do Tatupai. E consequentemente também da dele.

E assim com todo o resto. Nesta semana, pela primeira vez, ele fez o gesto de estender as mãos para pegar algo, e este algo foi um livro enorme de pano. Imaginem a emoção desta mãe-traça? É claro que poderia ter sido outro o objeto do seu desejo, mas o fato de ser um livro tem a ver com a educação que quero dar a ele, a qual, por sua vez, é baseada em minhas crenças. Enquanto ele não crescer para bagunçar essas crenças, eu aproveitarei, fazendo algo como: "está vendo, filho, eu gosto disto, acho bem legal, quem sabe você também...".
.
.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

O melhor açúcar do mundo


Um filho vem e ensina a cada dia uma coisa. Registro isto para não esquecer. Tenho sentido vontade de escrever mais sobre o Poeminha. Explico: este blog existe porque não tenho boa memória. Esqueço muito facilmente tudo que me acontece, seja uma leitura, um filme, um acontecimento. Uma psicóloga que à época me parecia muito incompetente me falou uma vez que minha memória só lembrava do que tinha acontecido de ruim. Por via das dúvidas, resolvi me prevenir. O blog, desde a sua primeira versão, que sumiu no buraco da net, foi feito para funcionar como uma espécie de memória artificial: eu não queria esquecer os anos de doutorado.

Durante a gravidez, escrevi muito pouco sobre o fato em si. Sobre o que sentia, o que pensava, o que fazia por causa deste acontecimento. Pudor. Não queria dizer o que toda mãe diz: tudo açucarado demais para o meu paladar que passou a gostar de doce de leite apenas durante a gravidez (talvez porque gostava na adolescência e havia esquecido). Nem biscoito recheado eu engulo. Nem chocolate.

Mas nestes dias me veio um susto. Eu trocava a fralda do Poeminha e constatava mais uma vez que é nesta hora que ele, aos dois meses, mais emite ruídos (solta gritinhos, gemidos, de modo alegre e concentrado). Parece que quer conversar. E o que dizer das caras engraçadas que faz logo depois que mama? Acomodando o leite, preparando-se para "arrotar", ele se espreme, geme, se espreguiça, faz biquinho... E que delícia é isto, que alegria infinda observar tudo que ele faz. O susto: e se eu não lembrar depois, se for para o sumidouro da memória, onde está a maioria de tudo que vivi e não registrei? E se eu não tiver nada para lhe contar deste tempo? Ou pior: e se ele ler, um dia, este blog e perceber que eu escrevi muito pouco sobre ele? Eu que já morro de medo de que ele cresça tendo a sensação de que eu lhe abandono por causa dos livros e dos filmes?

Como minha meia dúzia de leitores já está acostumada à mistureba que é este blog, fica então o aviso: vez em quando, vai ter conteúdo açucarado - o melhor açúcar do mundo. Isso me traz uma certeza: a escrita, qualquer que seja ela, é antes para si do que para o outro. Porque ninguém mais se deleita e/ou se tortura com o que escreveu do que o autor. E nada neste meu momento é mais importante do que cuidar do meu filho, aprendendo com ele como se nasce, como se cresce, afinal eu não lembro de como nasci, como cresci. Fico pensando que observar o filho é também uma forma de se observar, de se ver em um tempo em que isto ainda não é possível. Que eu seja então fiel ao meu princípio, que este blog continue sendo o que procurava ser: "Sem análise nem crítica. Somente aquilo que advém de Barthes: humores. O jogo estéril do gosto/ não gosto. "Para guardar". "A regra = oferecer o íntimo, não o privado".
.
.
.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

confissão incômoda

Depois da leitura de Bibliomania, de Flaubert, sinto-me mais normal. Pensando bem, sinto-me mais cômoda com minha anormalidade. Há tantos zunidos no mundo - e eu me pergunto por que estou com esta vontade medonha. Deve ter sido excesso de gente. Amo, mas enjoo. E este negócio de ser mãe tem um lado complicado. Deus e o diabo querem dizer o que devo fazer. E tudo gira em torno do fato de ser mãe. Falta-me humildade para viver isso com tranquilidade. A relação com o Poeminha, linda. Quando ele chora, dá vontade de colocá-lo de volta no útero, mas não me desespero. Criança chora porque não sabe falar. Dá vontade de dizer isso a todos. Ou dá vontade de não dizer nada. Tatupai está vivenciando isto de outra maneira. Está tão feliz que quer o mundo todo perto dele. E eu, uma ostra, menos para eles dois.
*
*
*

terça-feira, 13 de outubro de 2009

a isso dou o nome de amor


Elas foram embora ontem. Minhas duas irmãs e minha sobrinha. Mana Mácia veio de Fortaleza. Maneca veio de Porto Velho. Distâncias enormes deste Brasil tão grande. Tia Fá também veio. Princesa ficou apenas três dias. Mana, doze. Ela queria ter acompanhado o parto do Poeminha, mas ele estava ansioso para ver o mundo, viver a vida fora da sua "zona de conforto", como disse a Cy. Foram dias bonitos. É bonito como me relaciono com minhas irmãs. Aprendemos a nos amar. Sim, porque amar é um aprendizado, não é uma imposição marcada por laços de sangue. Amar bem. Amor tem a ver com admiração, cuidade, entrega, cumplicidade, emoção. Há muito disso tudo em nós. E cada vez mais. A ausência mais sentida foi a da minha mãe. De tanto perguntarem por ela, comecei a sentir a sua falta. Este ainda é um amor de longe. Ainda bem que é amor.

Minhas irmãs e minha sobrinha têm vindo até a mim. Me comovo quando penso. Foi assim na minha defesa de doutorado. Elas foram. E também foram dias belos. Mas como eu só senti de fato que era um momento marcante na minha vida quando vi os dias acontecendo, a emoção demorou a bater. E na defesa tinha Sampa para mostrar. Era um aperitivo e tanto, o que justificava a ida delas. Aqui em Vilhena não há aperitivo algum. Vivemos à margem da cidade, construindo espaços de delicadeza longe das suas ruas. Então, o que elas viriam fazer aqui? agora, sei a resposta. Vieram por mim e pelo Poeminha, vieram sentir os primeiros dias da sua vida. Como já disse: dou a isso o nome de amor.
*
*
*
post-scriptum: a Mana bem lembrou que, de fato, além de cuidar do Poeminha, o que fizemos o tempo todo foi assistir a filmes, comer e conversar sem parar - esparramadas no nosso sofá tamanho família! Eh vidão!

sábado, 3 de outubro de 2009

poeminha


poeminha Bernardo nasceu. o que acontece todos os dias com tantas mulheres, quando acontece conosco, ganha a forma de um milagre. veio assim, alguns dias antes do esperado, porque já veio sábio, adivinhou que não devia ficar mais tempo na barriga, pois corria o risco de não ver o sol, a lua e as pessoas e ele queria ver o sol e ver a lua e ver as pessoas. chorou como todos os bebês, e eu como todas as mães. não me deixou sentir dor, embora eu, tão pouco afeita à dores, estivesse disposta a senti-las, mas não me frustrei. é bom ser contrariada e depois sentir apenas a beleza do momento. dizem que ser mãe tem um pouco disso. agora estamos aqui envoltos em ternura. cada dia uma descoberta, um susto, uma surpresa. ser mãe é tudo e é tanto. em uma das noites, enquanto ele dormia, eu não preguei o olho - chorei e sorri transbordando a emoção que eu não sabia existir. o que é a plenitude, senão o inalcançável?, é o que sempre pensei. mas ali, no meio da noite, senti a plenitude. e continuo sentindo-a. ele tem um jeito tranquilo mas já com os olhos arregalados para o mundo. atento aos barulhos, aos gestos, aos seus e aos nossos.

eu e o tatupai estamos inundados de amor e de felicidade. ontem, fez um ano que estamos juntos. não deu para comemorar como dita a cartilha dos namorados, mas nos sentimos inteiros confiando na nossa história, nos nossos caminhos. inteiros pai e mãe. inteiros amantes. por inteiro amados e amando.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

...

Imersa.
Inteiramente à espera.
Inteira.

Imensos dias.
Tudo.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

O correr dos dias

Durante o SILIC, meus pés incharam muito. E tendo irmã enfermeira, sem contar todos os conhecidos que viram médicos, benzedeiras, curandeiras, passamos a fazer a maioria das refeições em casa para diminuir o sal, o que, dizem, é essencial para diminuir o inchaço e para que a pressão não suba (esta, sim, o verdadeiro vilão da história). Tatupai não é chegado a sal mesmo, então tem feito uns pratos que não têm sal algum, mas muito saborosos. Minha única contribuição continua sendo as saladas e vez ou outra um arroz. Além de toda trupe de "médicos", ainda topamos com uma daquelas senhoras de posto de saúde que nos disse que uma pressão 12 por 8 em uma grávida já era um perigo iminente. Tatupai não titubeou: comprou um aparelho de medir pressão. E eis que todos os dias averiguamos a pressão, mesmo depois que o médico disse que a tal senhora falou uma grande bobagem. A pressão vai bem, obrigada. E os pés desinchados.

Eis que descanso então! Esta é a outra mudança. Trabalhei incessantemente, e em ritmo acelerado, durante toda a gravidez a ponto de ter a sensação de não ter visto este tempo passar. Começando a carreira acadêmica, a universidade virou prioridade. Mas agora, no último mês de gravidez, barriga pesada, com o fim do SILIC, resolvi desacelerar, embora ainda tenha mil coisinhas pendentes. Estou resolvendo essas pendências a conta-gotas. E ao contrário da maioria das grávidas, embora à noite tenha que negociar horas de sono com o Poeminha, não sinto muito sono de dia. Então estou fazendo aquilo de que mais gosto: vendo filmes, lendo bastante e ouvindo muita música. A barriga incomoda, sim, mas me encho de almofadas ao redor de mim e abro minhas janelas. Não tenho palavras para explicar como isto me faz bem. Difícil compreender as pessoas que se sentem ou solitárias ou entediadas em casa. Eu me sinto viva, totalmente entregue a estes momentos.

Colocamos uma rede ao lado dos cds, no meio da casa, como um convite para os momentos de entrega à música, à leitura, à preguiça. E finalmente temos um sofá exatamente como imaginamos. Eu brinco que tem cara de sofá de "novo-rico" (entendam a ironia: é aquela coisa exagerada, quando o tamanho da sala pediria algo menor), mas como é confortável! À noite, reencontramos o prazer de ficarmos deitados assistindo a filmes, conversando, traçando vidas. E à espera. Ficamos com a sensação de que as noites são nossas.

Enfim, o mundo todo bem aqui conosco à espera.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Barriga

Recebi hoje do meu tio amado:

"Estou meio perdido, sem tempo...fechei os olhos e vi vocês...um homem, uma mulher e uma barriga....".
.
.
.
Sim, também estou sem tempo. E, sim, é o que também vejo. Ver um homem, uma mulher e uma barriga é, de longe, a mais bela visão da minha vida.
.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

sobre ser mãe

nunca tive certeza se queria ser mãe. e já tive certeza de que não queria. sempre tive medo das mães. primeiro da minha. medo que se estendeu a muitas outras que conheci. bicho estranho é mãe. ou é boa demais. e assim faz mal aos filhos. ou é ruim demais. e assim faz mal aos filhos. meus olhos secos sempre acham que uma filha está mentindo quando afirma que nunca odiou aquela que lhe pôs no mundo - nem que tenha sido por um instante. porém, o que me impedia o desejo de ser mãe era a vontade de "correr mundo, correr perigo". sempre tive relacionamentos longos e ainda assim cheguei aos 34 anos sem uma prole. não que eu tenha planejado que assim fosse. não deu certo por uma ou outra razão. dolorosas algumas. daí que eu tinha convicção de que se não tivesse filhos não me frustaria. nem mesmo pensava em outras hipóteses como adotar. a imagem mais corriqueira que eu fazia de mim era envelhecendo em uma casa com gatos, livros, cds e alguns poucos amigos que me ligariam e não esperariam por nenhuma ligação minha, sabedores que seriam da minha fobia por telefone. queria envelhecer do modo que eu já vivia e que sempre me pareceu muito bom, muito charmoso, muito poderoso. nunca fui acometida de solidões que me levassem a pensar que eu precisaria de uma família, de um filho.

então Poeminha veio e mudou tudo. assim que eu soube, comecei a chorar. e as primeiras frases que pronunciei foram: "eu não quero ser mãe. eu não quero estar grávida". as do pai foram bonitas e arrebatadas da paixão que agora vivenciamos dia a dia: "não chore, senão ele vai saber que você não quer". eu achei que choraria a manhã inteira, mas para minha surpresa voltei para a cama e adormeci quase de imediato. sono profundo e repousante. e à noite, já sonhava nomes aconchegada nos braços do pai. escrevo sobre estas coisas porque, agora grávida, submeto-me à hidroginástica e a sessões de shiatsu. primeira vez na vida que me entrego aos cuidados de uma técnica oriental. sempre achei admirável. só nunca tive paciência para buscar este tipo de bem-estar que sempre me pareceu artificial. algo do tipo: "se você não é capaz de relaxar sozinha vendo um bom filme, lendo um bom livro, vivendo sua solidão necessária, então pague a um profissional que lhe dê alegria". burrice, claro. porque o corpo precisa de movimento. e é justamente isso que meu corpo mais fala para mim neste momento grávida. poeminha está com os pés "alojados" na minha costela, na posição vertical desde o princípio. dor latente, incômoda, física. e lá me vem a moça do shiatsu com aquelas perguntas de psicólogo de botequim: "você está nervosa? ansiosa? impaciente? você deseja estar grávida?" e eu lá: "não, não, não; sim, muito". e me diz que toda minha energia está represada por alguma contrariedade. e eu me esforço para encontrar a tal contrariedade. e nada. e penso em freud. em lacan. e me pergunto: "será? será que no subconsciente ainda estou com medo de ser mãe?" e penso nestas coisas. na minha mãe. na minha alegria, nos tantos perdões, na tanta leveza que carrego em mim, nos tantos fantasmas. e decido por conta própria que não tenho energia psíquica nenhuma represada. o que tenho é um menino bernardo com os pés nas minhas costelas e uma enorme alegria por ter me enganado. porque estou amando estar grávida, amando a ideia de ser mãe, e cá para nós: como toda mãe, estou convicta de que serei a "melhor do mundo", no que isso tem de bom e tem de medonho.
.
.

terça-feira, 2 de junho de 2009

A delícia dos dias

Dias muito felizes. Descanso total - atrapalhado apenas por comprinhas. Como toda mãe e todo pai de primeira viagem, nos excedemos nas compras das roupinhas do bebê. Liga-se um automático burro que deve dizer exatamente assim: "em caso de dúvida, leve um modelo de cada", embora as variações nem sejam tantas. Enfim, Poeminha agora tem roupa suficiente para pelo menos os seis primeiros meses. Isso se não crescer demais. Porque com a ajuda da avó e da bisavó, comprei tamanhos do pequeno ao grande.

Agora falta escolher o modelo do quarto. Revistas e sites estão me ajudando - eu fico na bobeira, vendo minhas leituras e buscas mudarem pouco a pouco. As mães são tão previsíveis! Eu já me conformei: estou previsível; totalmente mãe: passo a mão na barriga o tempo todo, converso com o Poeminha, falo como se já fosse ele falando... um horror! E uma delícia!

Por outro lado, tenho me cuidado. Não descuidei muito da aparência - tenho mantido meu jeito esculhambado chique (sabe-se lá o que seja isto!). Comprei várias roupas; não foi difícil encontrar calças - calças saruês estão na moda; o que me consola é saber que eu já usava muito antes de todas as "patricinhas" resolverem usar, levadas pela "última tendência". Encontrei até uma calça jeans com elástico, o que permite vestir as batas que eu já tinha. Aliás, muitas das minhas roupas parecem ter sido escolhidas para uma grávida. E admitamos: agora é mais fácil uma grávida não ficar parecendo uma butija de gás coberta com aqueles panos de decoração floridos, embora o rosto de "adormecida" não desapareça de jeito nenhum.

São tantas as expectativas; tantos os desejos. E o que mais me comove é que tudo parece estar recoberto de delicadeza. Parece que tudo é ainda mais intenso: uma música que ouço, um filme que vejo, um livro que leio... sinto cada ação como uma extensão do amor que agora sinto. Enorme, enorme!

...


quarta-feira, 22 de abril de 2009

...

o sapatinho é um all star.
diz muito sobre a mãe.
.
.
.

quinta-feira, 19 de março de 2009

espanto

o primeiro espanto é o do corpo. antes de qualquer racionalização ou emoção. os seios que parecem querer saltar é apenas o mais visível do espanto. uma pequena revolução parece se fazer à revelia. o que chamam de enjoo é mero eufemismo. sinto um mal-estar geral. e a vontade de ser uma grávida espevitada não é alcançada. um dia, penso: sou aquela que hospeda. não qualquer hospedagem. mas penso naquela teorizada por Derrida. uma hospedagem tão plena que desapropria. uma hospedagem incondicional. e a casa é o meu corpo. por isso, reage. parece querer expulsar este estrangeiro que chegou - sem avisar. vomitar parece ser o caminho escolhido da expulsão. por outro lado, como aquela que hospeda, também me agrada pensar que é o contrário que ocorre: o que o corpo tenta expulsar é o acessório, o desnecessário, o dispensável, para que o lugar fique por inteiro confortável para aquele ou aquela que chega. a imagem de um bebê boiando no que parece ser um vácuo dentro de mim parece confirmar as minhas suspeitas. ignorando todo mal-estar, toda lezeira, e até a dorzinha no pé da barriga que assombram a mim e aos médicos, ele ou ela desliza para lá e para cá num balanço imaginário. o coração parece uma estrela. como marinheira de primeira viagem, custo a saber que aquela estrela que pisca é o coração. digo frases que soam muito engraçadas mas são espanto: "parece um bebê mesmo!" e o médico, acostumado a estas leseiras, sorri e afirma enfático: "é um bebê!". sim, é um bebê, embora com leve aparência de girino, lembra o pai para não perder a piada diante daquele cabeção. e por falta de nome, e para espantar a impessoalidade, passamos a chamá-lo de poeminha. o poeminha ou a poeminha. e eu, a morada.
.
.
.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Um rebento


Pela manhã, eu chorei.
À noite, ganhei a flor com a chupeta.
.
.
.
Depois, dormimos sonhando nomes.