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quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

nos dias de São Paulo

Não, não
São Paulo é outra coisa
Não é exatamente amor
É identificação absoluta
Sou eu 
(Itamar Assumpção)













preciso dizer, antes de mais nada, que em um dos dias que perambulei por São Paulo, com uma heinekken na mão na avenida Paulista, sozinha, mas inteira feliz, como naqueles cartões-postais que imprimimos para fantasiar nossa história, eu pensei que estava toda linda. e linda porque estava ali como eu havia imaginado, mas que havia dúvida de não conseguir. e imaginei como era bonito ter coragem de me olhar e ver que havia um tanto bem errado, que ou mudava ou seria um sem-fim de erros. agora que se avizinham meus 42 anos, penso estar mais próxima da velhice do que da juventude. no entanto, quanto mais envelheço, mais quero me rebelar contra a cristalização. quero estar pronta, ainda, para mudar. e eu pensava em Mariamada, Inildo, Manamácia, Maneca; essas pessoas todas tão distintas de mim, mas que aprendi a admirar justamente pelo que não sou. e que só poderei ser cortando uns pedaços da minha carne.

eu sou uma pessoa muito impertinente. as pessoas me amam ou me odeiam. e algumas me amam e me odeiam. sou difícil. mas quero crer, no que vejo de mim, e não posso alcançar no que os outros veem em mim, que sou fácil de lidar. quando gosto, gosto muito. quando não gosto, sei ignorar, embora saiba travar grandes lutas. e apesar disso, de ter uma boa imagem de mim, como parte dessa cegueira que nos constitui, eu quero ser outra o tempo todo. eu quero ser a que muda, a que se rebela diante de qualquer conselho, mas que, com a cabeça longe da predição, no silêncio, ouve, não uma voz interior, mas essas outras tantas vozes - nesse caso, mariamada, inildo, manamácia, maneca. eu quero ser como elas e ele. mas quero ser, sem que minhas vísceras sejam destripadas.

dá para ser assim aos 42 anos? acho que dá. eu quero marretar mil vezes minha cabeça antes de cristalizar meus defeitos. e antes de esquecer minhas alegrias. eu fui uma mãe velha. quando meu filho tiver 15 anos, eu terei 50. é muito tempo. preciso envelhecer até lá com a alegria que ainda me habita agora (e sei que há uma questão de língua portuguesa nesta frase).

e foi assim que fui para São Paulo. fui porque é uma das minhas cidades. como disse Itamar, vai que nem é amor. é identificação. São Paulo::: aquela que cabe na palma da minha pica, se eu tivesse uma. é pequena a minha São Paulo, mas é medonha. fui como um dia fui para Bruxelas ver o show de Bob Dylan --- só porque dava um belo conto que nunca escrevi --- sem tostão algum. fui porque queria ver a Bienal de Artes. apenas isso. não programei mais nada. sabia apenas que queria ver a Bienal e assistir a quantos filmes fossem possíveis. porque um ano inteiro sem ir lá me deu uma baita saudade das salas escuras de cinema. sim, elas são caras. eu driblo essa carestia com meu contracheque de professora --- meia é o que salva.

e foi assim. calhou que pedi abrigo no apê de Talita e Michele. calhou que me apaixonei pelas duas --- tão bonitas na construção de suas vidas a duas. fiquei com inveja danada dos seus cafés da manhã e dos seus banhos a duas. dormitava enquanto elas construíam suas vidas inteiras. não sei se disse a elas, mas o certo é que saí de lá com muita fé na vida a dois. vida a duas. dividi com elas meu amor pelas cervejas. e tentei cuidar de seus amores pelo vinho. fiz um pouco do que minha amiga Lili me ensinou. e acho que diminuí o estorvo de ser hóspede. só elas podem dizer.

e andei e andei. e vi muitos filmes nas salas escuras. e errei direções. e andei em alamedas inteiras entre transitam somente carros. e não fui a nenhum shopping, afinal sempre tive a firme certeza que, quando ia, era somente por obrigação de estar em grupo. também não fui a nenhuma das lojas que costumo ir por amor quando vou a São Paulo. gastei apenas naquilo que valia a pena. naquele restaurante incrível. naqueles catálogos das exposições que eu não queria esquecer que havia ido. e mesmo assim, senti-me como Inildo e Mariamada --- sem miséria alguma. um sentimento intenso de que poderia fazer o que havia feito, por obrigação, há uma década, quando eu e Mari perambulamos pela Europa quase sem nenhum tostão --- por um ano inteiro.

e vi Liniker, por acaso, na Livraria Cultura, quando fui comprar os únicos três livros da viagem (que agora, depois de lidos, caso pudesse, pediria reembolso). e ali achei-o mais bonito do que quando vi o seu show junto com Elza Soares, uma noite depois. Porque Elza é soberana. Elza arrepia, mesmo quando ela não se mexe, na sua cadeira que deve ser uma prisão, mas que é, para nós que a vemos e a ouvimos, um altar::: um lugar para querer estar sempre. vi também Anelis Assumpção. até a última hora, fiquei na dúvida. porque em São Paulo, há sempre tanto a escolher. por fim, Anelis. e que bonita esta moça, filha de Itamar. com voz dela. sua. talvez eu tenha sido a única pessoa na plateia a chorar (respeitem meus cabelos brancos que começam a surgir na minha fronte), porque um arrastão de memórias me dominava vendo Anelis ali --- eu naquela tarde fria, longe longe longe, ouvindo Itamar, e achando que se não houvesse nenhum sentido para a vida, é certo que havia algum sentido em Itamar existir e ser o que ele foi. e vi também Céu --- a mesma moça que vi há mais de uma década. e ainda agora, acho-a inteira linda no palco. tentei entender o que era aquilo que havia sentido há tanto tempo. histórias do pop:: o poder de um corpo e de uma voz. viva Céu. Viva viva. foi uma noite incrível. achei que havia perdido a câmera. imaginem! choro, agonia e cuidado. depois, não era nada. a câmera havia ficado em casa. na casa de Talita e Michele. atrapalhei a noite delas, mas senti que Michele me entendeu. será? ---- eh, alma barroca.

e a bienal de artes deve ser uma história à parte.  no primeiro dia, senti uma dor intensa que vinha das vísceras. é verdade. faz parte do ser exagerado que sou. fiquei inteiramente perdida. e detestei. vi apenas o primeiro pavilhão. e saí de lá como o diabo foge da cruz. perdi a direção. foi aí que andei no meio dos canteiros com uma chuva fina a me molhar. achei que ali era o presente. esse fardo que ninguém sabe o que seja. que horror que horror. depois, com mais calma, voltei mais duas vezes. e encontrei beleza mesmo no primeiro pavilhão. encontrei jonathas andrade e seu peixe. e fiquei ali, apaziguada, por uma hora. ou mais. mas achei que o horror continuava por toda parte; uma visão desvirtuada do que seja arte. ou a arte destituída do que ela seja, tentando ser outra coisa. ou os artistas tentando encontrar o Outro sem saber como. tudo mentira. o contrário da arte. por fim, caminhei mais tranquila. e encontrei muita beleza. dei tempo ao tempo que uma bienal exige. quantas horas foram? muitas. e o tempo me deu outro olhar. não digo que o pensamento mudou. digo que se deslocou. --- pensei na Adri. e no que ela me ensinou naquele museu muito distante.

por fim, agora que escrevo, penso nas estações de metrô. eu sou uma senhora que foi assaltada oito vezes. oito vezes. inclusive, em São Paulo. na Augusta. porém, não tenho medo algum. com muito custo, tento ser cuidadosa. ando sempre com uma grande mochila. câmera sempre mais cara do que posso pagar. todos os documentos na carteira. todos os cartões. e ainda assim, quase nunca tenho medo. andei por essas estações de metrô onde mataram um ambulante bem agora. eu me pergunto se teria reagido. ou se o medo teria me deixado sem ação. a crer em mim, o que teria feito? teria exposto minha cara à loucura dos desgraçados? quero crer que sim. mas tenho medo. quero crer, por meu filho, que teria exposto minha cara a esses ensandecidos. teria gritado. teria reagido. porque, muitas vezes, não tenho medo. talvez sentisse medo apenas quando eu também fosse uma vítima. mas quem pode saber? é o horror de estar no mundo (há muitos anos, assaltada pela terceira vez na rua de casa, eu tive sangue frio para negociar com o ladrão que estava com uma arma na minha cabeça. lembro ainda da frase que hoje me parece inconsequente::: "ah, não, cara, você não vai levar minha carteira de novo. eu não vou tirar meus documentos outra vez de jeito nenhum".

fui ver Laura Erber no CCBB, na Sé. e andei por ali com minha grande mochila. para além do início da noite. assim como andei na Paulista para além da meia-noite. cogitei ir a pé para o apartamento das meninas. mas senti preguiça e peguei o metrô. talvez pensei que estivesse mais segura./// ver Laura foi bem bonito. não vou esquecer seus 'hum. hum. hum. hum". como quem concorda. e como quem não quer acrescentar. é bom admirar alguém que você sabe que pensa. e abrir o tempo para entender parte de seu pensamento. e ver Manuel da Costa Pinto, o entrevistador de Laura, levou-me a outro tempo. a um seminário sobre Barthes na Maria Antônia. eu, Marcia, Fabíola --- naquele tempo era tudo muito bonito --- como é o passado. elas lembram? eu, com minha parca memória, lembro das duas ---- lindas. e de Fabíola dizendo o que nunca mais dirá::: "quando entreguei o livro, não quis dizer que era do meu marido, para que ele não interpretasse de outro modo". há certas frases que só o passado explica, porque o presente decupa tudo. e já é outra coisa.

seria preciso dizer tudo dos dias. mas é impossível. ainda queria falar do "Útero do mundo". e do "Portugal, portugueses". estavam ali ao redor da Bienal, no Ibirapuera. podem até passar despercebidas, mas são exposições que dizem muito sobre o presente. e onde foi muito prazeroso me demorar.  

e o que dizer da minha noite com meu amigo Celso, onde a minha única preocupação era me manter sóbria suficiente para chegar em casa em segurança? bebi umas dez garrafinhas d'água para cumprir meu intento. e dancei. e dancei. e dancei. e misturei as águas, evidentemente. 6h30 da manhã, aguardava um Uber, de cara para o edifício Copan, com o sol nascendo, tonta e grata pela grande noite. ==

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ainda não conheço outra forma mais bonita de trapacear os dias cotidianos, a não ser desta maneira::: nos hiatos. (((prazeres dos gostos))).

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Bill Viola e Karim Aïnouz

se eu tivesse que escolher entre as experiências culturais mais marcantes dos últimos vinte e cinco dias - e foram muitas -, eu destacaria três. sobre uma, pretendo falar depois, quando "resgatar" minhas fotos que, após o assalto, estão a quilômetros daqui, mais exatamente com Mariamada, que, peloscéus, as havia transferido um dia antes para seu computador.

desde que eu vi o filme "Praia do futuro", do Karim Aïnouz, sábado passado, constantemente, algumas das cenas retornam na minha parca memória. digo o mesmo sobre algumas das imagens da exposição do videoartista Bill Viola, no Grand Palais, em Paris. Ao contrário de Karim, eu não conhecia nada de Bill Viola. fui levada pelas mãos da minha ruiva Marie. ficamos umas seis horas nos espaços monumentais do Grand Palais, sem sentirmos o tempo passar. na penumbra que os vídeos exigem. as sensações foram tantas, que - mais uma vez - me será impossível dizê-las corretamente.

porém, após ver o filme de Karim, compreendi melhor o que tanto me impressionou no trabalho desse artista até então desconhecido para mim (mundialmente famoso, explico para minha pobre ignorância). e é simples [e Marie já havia me falado]::: de algum modo, o que vemos tem que nos dizer algo. não falo de beleza propriamente dita, embora eu possa dizer que são belas as imagens dos dois trabalhos. nunca estou falando apenas de beleza. nem apenas de emoção. ou de alguma associação com o que penso ou vivo ou desejo. é um pouco disso tudo, mas é primordialmente outra coisa que tem a ver com o arrancar-me da indiferença e instalar a fórceps uma espécie de incômodo que me obriga a pensar a partir do que vi.

foi assim nessas experiências. Bill Viola, primeiro, exige de nós outra relação com o tempo e aceitamos essa exigência quase sem nenhuma resistência. em boa parte dos vídeos quase nada acontece, mas é por este quase nada que permanecemos à espera. em estado de espera. dez, quinze ou trinta e cinco minutos para cada vídeo de cenas aparentemente imóveis. uma conversa entre mãe e filho de uns quatro anos, diante de quatro tvs que reproduziam lentamente o cotidiano de uma mulher, explica bem esse movimento. a criança pergunta por que nada acontece e a mãe responde: “acontece, sim, preste atenção. veja como as imagens mudam lentamente”. essa atenção demanda um outro tempo. e é nesse outro tempo que a vida requer um pensamento sobre a vida e a morte, sobre a passagem do tempo [e as perdas que vêm com ela]. num mundo quase sempre aquático ou subaquático, vemos e intuímos a morte, o além da morte, os encontros quase sempre fugazes; como no vídeo em que dois homens andam paralelamente numa mesma direção e se encontram por meros instantes para logo em seguida se separarem. ou nos véus de imagens, em que de um lado vemos um homem perdido numa floresta e, de outro, uma mulher, até que as imagens se fundem para vermos os dois juntos por poucos instantes, até a separação. ou no resgate de um afogado que dá errado, em que vemos uma mulher em pé, inconsolável, os gestos lentos dos bombeiros, até que a chuva vem e todos se vão. o afogado, então, ascende em direção ao infinito. é também sobre o mistério do além-vida um dos vídeos mais bonitos, o Ascensão de Tristão. nesse mundo, é quase tudo frágil e violento, diante da iminência do que acontece e está para acontecer.

O que Praia do futuro faz  não é diferente. o mundo também é aquático ou quase. e também é sobre o tempo e o que acontece no seu decorrer. é sobre afeto e perda - o que se explica e o que não tem explicação. é sobre a fragilidade diante do que ocorre e a violência das nossas decisões. e é sobre o amor. até karim diz que o filme não explica muito. e eu concordo. mas para mim Donato se torna um estrangeiro, tendo em seu país uma família para sustentar e um emprego, por amor a Konrad. e é por amor que seu irmão Airton vai atrás dele muitos anos depois. E é também por amor que Konrad age muito antes de Donato saber fazê-lo.

 jesuscristinho, é bonito demais. dá um nó nas tripas. uma vontade de chorar, embora nada tenha de melodramático. e a música vem no momento exato, mesmo quando parece clichê. e o final ainda nos dá outra imagem sobre o mar. é o mar a névoa da Alemanha, é o que vemos. e como em Bill Viola, fiquei imersa num tanto de emoções, de dizeres, de não dizeres. fiquei pensando que nada precisa ser pela violência. contra os discursos da intransigência, do preconceito, cada vez mais desavergonhados, que a outra via seja a poesia, a imagem. as imagens belas do encontro entre Konrad e Donato - Wagner Moura mais uma vez soberbo -, as cenas de sexo e de nudez infinitamente fortes entre os dois. são imagens não apenas magnificamente fotografadas, mas exigentes, como disse Didi-Huberman na conversa que assisti dele. exigem de nós outra forma de contemplação, outra forma de pensamento. e de maneira simples. muito simples.
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como tudo que é indizível.



quinta-feira, 20 de março de 2014

Liliana Porter - El hombre com el hacha y otras situaciones breves











Aqui tudo parece
que era ainda construção 
e já é ruína
(Caetano Veloso)

o que mais impressiona no trabalho de Liliana Porter, artista plástica argentina, que está com a exposição "El hombre com el hacha y otras situaciones breves", no Malba, não é exatamente a dimensão diminuta de suas personagens, mas o que elas, na sua pequenez, provocam. o sujeito é o que desencadeia as ações. e embora exista um ou outro gesto de construção, na maior parte das vezes, o que se produz são destroços. os rastros do homem, assim, de modo geral, são relacionados ao seu enorme poder de destruição. é lúdico apenas para o olhar desatento. o caminho que o humano percorre, e o que ele provoca, é quase sempre devastador. o tamanho e a quantidade das ruínas parecem estar sempre em desalinho com a dimensão do homem. seria fácil criar uma visão redentora do ser humano, como a que às vezes criamos do homem perante a natureza, mas o enorme lastro vermelho que a mulher espalha, numa das cenas mais significativas da exposição, deixa claro que não se trata de redenção, embora a simbologia da mulher e o vermelho permaneça intacta. são cenas de trabalho. e isso é impressionante (desculpem-me usar a palavra mais uma vez, mas foi exatamente assim que eu e Tatupai ficamos: impressionados. vagamente, eu lembrava do nome dessa artista, mas nunca tinha visto uma exposição. daí termos ficado encantados de verdade). não é, portanto, apenas a metonímia das mãos. todo o corpo trabalha nas cenas de Liliana Porter. obras deveriam, portanto, ser construídas. mas a construção são ruínas. cacos de objetos, fios pretos e marrons desalinhados, objetos tombados, a  foice e o martelo, os soldados em sentinela; tudo contribui para a sensação de que o trabalho do homem, mais do que deixar obras inacabadas, produz, de fato, o aniquilamento. a demolição, a ruína, não é posterior; está já na origem do gesto. desalinha-se, assim, um dos maiores mitos modernos: a força de trabalho que constitui a dignidade do homem. que dignidade? que homem?... para as perguntas essenciais, é um pulo: quem somos? o que fazemos? o que queremos?  
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(para as fotos terem ficado boas, precisaríamos de um tripé, para dizer o mínimo. mas eu e Tatupai fizemos várias tentativas. e resigno-me em dizer que as deles ficaram sempre melhores que as minhas)

 

quarta-feira, 12 de março de 2014

abaporu




tenho um sentimento muito indefinível de pertencimento::: não sou daquelas que apregoa que o brasileiro é o melhor povo do mundo, porque quando ouço isso tenho sempre a impressão de que esse pensamento expressa uma mal disfarçada intolerância com a diferença. mas sou daquelas que o coração dispara quando vejo um "pedaço" do Brasil em algum lugar. 

daí que o coração deu um salto quando vi Abaporu no MALBA - Museu de Arte Latinoamericana de Buenos Aires. sim, existe uma emoção ao ver pela primeira vez o que já foi mil vezes visto. o outro nome da aura. ver ali, no museu, em seu tamanho real, o que tantas vezes vi nos livros. toda uma história da arte brasileira, mas também da literatura, percorre esse quadro. e é por isso que parece que sabemos tanto sobre o quadro de Tarsila. do mesmo modo que achamos que sabemos muito de Mário de Andrade e de Oswald de Andrade. quanto a mim, aprecio, desde muito, o ar de rebeldia que parece ter havido ali, naquele exato momento em que o "grupo modernista" reconheceu nosso provincianismo e tentou estancá-lo. deve ter muito de romantismo nesta ideia, mas é talvez devido a esse romantismo que deslumbra apreciar Abaporu.

fiquei, então, com este saber esparso que é uma parte da minha história de leitora, de professora de literatura. a lágrima no olho veio fácil. e é isso que a "primeira vez" das "tantas vezes" deve significar. ela dá sentido a um pertencimento feliz. uma pertença que sabe que o que nos pertence é, de fato, do outro. deve ser o mesmo que sente os mexicanos ao ver um autorretrato de Frida Kahlo, que está logo ali, perto de Abaporu.
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terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Arquivo 4: Adriana Varejão

Para atacá-la como se ataca também um sujeito, deve-se atentar contra o subjétil mesmo, deve-se tratar e às vezes maltratar o sujeito da representação sob o sujeito da representação, violar esse debaixo do debaixo; e já que viemos assistir a tal "bombardeio", a esse "dilaceramento"... (Jacques Derrida)

embora não seja uma especialista em artes plásticas, isso não me impede de distinguir, de escolher, de amar. uma amadora. e quando vi a exposição de Adriana Varejão no MAM, soube de imediato que a amaria para sempre. há na sua obra aquela estranheza que me interpela, que me choca::: o que não se dá de modo plácido - e é como uma estocada a cada novo olhar. as mesmas estocadas a que Adriana submete o seu suporte. ou seu subjétil, como diria Derrida.

ainda agora, quando olho as fotos que tirei (meras sombras), um arrepio me percorre. sim, esta mulher de fendas, de brechas, de feridas, de cortes, de vísceras expostas. o que poderia ser uma imagem plácida, é de repente cortada, bombardeada, cindida, atravessada -  e o suporte não suporta e precisa vir para frente, atingindo o espectador de um modo tão violento que demoro a me recompor. o que deveria estar dentro está fora, como se depois dela nunca mais fosse possível observar um quadro sem que imaginássemos que dali vai jorrar o sangue da violência da nossa História.

uma composição do absurdo::: o mar, ainda que mar, tem algo de ameaçador, de sombrio, como o lugar perfeito para ir às profundezas. o mar de onde chegaram para nos colonizar (uma sinonímia de violência). e o azulejo, no que tem de asséptico, é manchado de sangue. a História é corrompida, quando se mostra o quanto de violência há "debaixo" dela. uma "força de destruição" que dilacera e destrói o que um dia foi sereno (como as paisagens daqueles que passaram por aqui, pintando um Brasil idealizado). e se a serenidade é desfeita é por que a história passa a ser contada por uma subjetividade marcadamente ameaçada (que se torna, então, ameaçadora). 









entretanto, nada me pareceu mais terrível do que aquilo (uma úlcera na pedra quando explode). mas havia, ainda, o fino corte. finos cortes no azul da paz, da tristeza::: ou seja, da imagem estagnada da tradição. é ali, na História, que o corte é dado para fazer irromper as entranhas, como se tudo que há tivesse no seu "dentro" vísceras - que estão vivas. corpo. o que pode ser ferido, machucado, violentado, violado. o que pode ser morto e, ainda assim, parecer tão vivo. nada é agradável ali. tudo que se viu antes agora está separado, retirado da sua origem, como na paisagem tão antiga em que boa parte está separada do "corpo" do quadro e exposta na mesa, autopsiando um e outro suporte::: o que está na parede e o que, já morto, está na mesa como uma oferenda terrível. não há possibilidade de redenção em nenhum. tudo é rasgo, perfuração, dobras. 

e nada é agradável porque nada está a salvo ali. um tormento medonho trespassa tudo, de modo que a abjeção se alastra por tudo que existe. por toda arte.

(e ainda assim foi um momento tão feliz. mariamada estava por ali. sentada, como que me esperando, com um pouco de horror, como o que eu sentia, mas sem insistir em olhar, como eu insistia. mariamada estava ali e tudo me parecia muito bonito, como naqueles anos em que sempre estávamos ali).

(hoje meus dedos estão como "chumbo". fazendo-me lembrar quando estavam dormentes devido àquela doença já tão distante. e não. nada de ser "solidária de plantão". é tão sem emoção todas essas milhares de palavras de compaixão diante da tragédia. passei o dia pensando no que li no blog do zeca camargo. e minha resposta é quase a mesma. diante do horror do mundo, só nos resta, da nossa parte, viver bem. no sentido de não dar trabalho - nem para os outros, nem para nós mesmos. e tentar que o coração esteja em paz, para não fazer nenhum mal. para que a arte ainda seja o melhor dos mundos, para quando o nosso mundo for tirado de nós, for violentado, possamos dizer que não foi em vão estar por aqui).

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Arquivo 3: bienal de artes de são paulo


o título da bienal expressava bem o momento pela qual as artes passam. há uma generalidade do risco, como parece afirmar o título: a iminência das poéticas. como já disse: um título muito bonito, que nos evoca a tomar uma posição, a refletir sobre a nossa própria posição em relação às artes. o que queremos hoje das artes? o que esperamos? o que dizemos? o que ouvimos? lemos? vemos? num mundo com tantas imagens, quais escolhemos? penso que a única saída para não entrarmos na generalidade das afirmações seria pensar sobre a nossa disposição de compreender o fazer de cada artista; buscar ali, nas propostas, o diálogo que estabelecem (ou não) com as questões do presente. e foi o que tentei fazer.  

Como define o curador Luis Pérez-Oramas no texto que abre o catálogo::: "A iminência é a atitude da espera: esperar palavras das imagens; esperar imagens das palavras. E em outro momento::: "A iminência é nosso destino: o que não sabemos, o que acontecerá e está além de nós, independentemente de nossas faculdades, histórias e decisões". Este texto, que li após ter visitado a bienal por dois dias seguidos (com tantas atividades não vi os outros espaços além do prédio da bienal) é tão próximo do que tenho refletido sobre a contemporaneidade que por diversas vezes me deixou embasbacada, como se::: "é o que eu teria escrito, se soubesse".

Porque (sinto) há um movimento, ainda quase imperceptivel, de pôr em dúvida o que está aí posto como verdade, naquilo que diz respeito a um certo desprezo pelas poéticas a favor das políticas, como se desde sempre uma coisa não estivesse agarrada a outra, como se de repente coubesse às poéticas cuidar de todas as dores do mundo, fazendo deste mundo um globo miniaturizado (não seria isto a chamada globalização?). Não à toa a palavra poética, que parecia já uma palavra proibida, tem aparecido aqui e ali. E por mais que fosse difícil constituir uma ideia ante uma quantidade tão grande de artistas e obras, era perceptível a "sobriedade" que recobria a proposta, dando-me mesmo a impressão de que havia ali um conjunto de artistas que deliberavam sobre umas tantas concepções apressadas que revestem nosso tempo. E quando parecia que a bienal estava destituída de emoção (como a que senti naquela que chamei de "bienal do vazio"), surgia-me um artista que me tirava um pouco o meu chão, como  Hans Eijkelboom, Guy Maddin, Eduardo Berliner, ciudad aberta e, claro, Arthur Bispo do Rosário, que assim como outros deixa em todos nós aquela interrogação infinita:::: para ser artista, é preciso ter consciência do ser artista?" 

O que mais gostei foi o fato de poder se "demorar" sobre um artista, não apenas devido à ida dois dias seguidos, mas porque havia como que uma pequena exposição de cada um. Para uma amadora como eu, isso gera um outro movimento::: além do querer ver, o querer conhecer, o querer pensar no diálogo que cada um dos artistas acaba por realizar com outro.



ps1.  (Fiz uma pequena sessão de "pessoas no museu". Sempre este gosto por ver - também - o movimento das pessoas enquanto veem ou passam). 

ps2. (Mariamada passou todo o dia comigo e com a Rô. Vimos juntas parte da bienal. E nos dois dias seguintes, perambulamos em São Paulo. Relembramos um pouco nossas tantas viagens - das quais sinto muita saudade).


sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

O moralismo anacrônico na arte

Nestes tempos de sexo embaixo dos edredons no já tradicional programa da família brasileira, que é o Big Brother (como não dizer isso de um programa que está na 12ª edição?), andei pensando no que aconteceu comigo e ManaMácia quando fomos ver a exposição Em nome dos artistas, no ano passado. Ao chegarmos, acabamos aceitando a companhia de uma “educadora”, que faria o percurso junto conosco. Acabei me irritando enormemente com o seu discurso e só não a deixei falando sozinha porque apareceram umas estudantes de arte que pareciam estar bem interessadas no seu discurso. De fato, a arte contemporânea não é fácil. Entretanto esse “lugar comum” não deveria permitir que os curadores de uma exposição como Em nome dos artistas permitissem que “educadores” supostamente colocados ali para instruírem o público para uma melhor fruição dissessem barbaridades moralizadoras, preconceituosas e desprovidas de qualquer conhecimento teórico acerca.  É melhor que educadores digam nada, ou nem estejam ali, se tudo que tiverem a dizer diante de “Mãe e filho divididos”, de Damien Hirst, for que eles “não podem aceitar” um tipo de arte que corta animais ao meio e que mata borboletas, para, logo em seguida, num tom moralizador, contar uma história de como, numa ocasião, teve cuidado com umas borboletas que se alojaram sem querer no seu quintal.

É claro que é permitido não gostar, e mesmo se opor, ou sentir repúdio, por essas obras. Até o que é visualmente belo, pode ser motivo de escândalo, como as centenas de borboletas mortas que, juntas, formam um dos mais lindos quadros da exposição, também de Hirst, este artista que não pára de escandalizar o mundo das artes. O que me causou revolta e impaciência foi o moralismo – acompanhado de total desinformação –  que vi embutido no que queria parecer piedade. Cheguei a dizer um “Você não pode dizer isto. Não deste modo”. Mas quando as estudantes de arte fizeram um pequeno clamor em favor da “educadora”, agarrei ManaMácia pelo braço e desapareci dali, certa de que, apesar do meu parco saber, ele estava em melhor companhia se estivesse só comigo. Outras coisas também me desagradaram, como as salas proibidas a menores nas quais estavam quadros de Cindy Sherman [eu já disse aqui que, para mim, ela é tudo e mais um pouco] e de Jeff Koons. 

Se não for instituída uma proibição draconiana, causadora de muito stress como toda proibição, qualquer criança hoje pode ver um close microscópico da bunda de Deborah Secco, vestida com roupas sadomasoquistas (este é um dos poucos exemplos que eu posso citar, visto por acaso, já que não assisto a novelas), num capítulo final de novela, mas não pode ver, numa exposição, um nu, uma cena de sexo ou um pingo de esperma no momento mesmo em que pinga da vagina, mesmo se for uma imagem de uma beleza estonteante, o que era o caso do quadro de Sherman, como se estivéssemos vendo o próprio momento da concepção, aquele momento em que um espermatozóide encontra um óvulo e nos permite o milagre do existir.

E por que parece que eu tenho certa ojeriza ao close da bunda de uma atriz num canal aberto de TV e questione a proibição a menores de certas obras numa exposição? Pela simples razão de que um contexto de uma exposição é, ou deveria ser, ele mesmo questionador. Nele, podemos refletir sobre o sempiterno embate entre ética e estética, ou sobre a relação da arte com o consumo, ou ainda a recomposição do objeto cotidiano que retalha a nossa visão costumeira. Assim como podemos meditar sobre o real ou a suposta espetacularização da intimidade, a exposição do corpo, tudo isso definidor do atual estado de coisas.
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Quando “educadores” não dão esse tipo de informação, que poderia fazer o público compreender o que é aparentemente incompreensível ou inconcebível, perdem a oportunidade de o público que se vale deles sair dali mais informado, mais afim com as propostas da arte contemporânea, apesar de seus espantosos procedimentos. O que se nega, e é o que eu acho mais terrível, é o contato com a própria história da arte; cujo conhecimento poderia levar a questões como por que uma pintura hiperrealista de Sherman, ou uma fotografia de Nan Goldin, ou mesmo os quadros gigantes de Jeff Koons, causam mais escândalo do que O nascimento de Vênus, de Boticelli ou a Olympia, de Manet, eles mesmos, à sua época, dignos de escândalos.
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É o que eu me perguntava diante daquelas placas, para mim, totalmente sem sentido. Ou ao fugir da "educadora". Por um lado, as rédeas parecem soltas a uma proporção inimaginável, por outro, a mistificação da desinformação.  É o horror! O horror!
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quarta-feira, 10 de agosto de 2011

a dor de todos nós (ou louise bourgeois)

 explicando ao taxista o que eu ia fazer no instituto tomie ohtake num domingo: "(...) é preciso gostar de arte contemporânea para gostar desta artista". uma imprecisão. a artista em questão era louise bourgeois. esta foi a outra coincidência que me causou espanto. uma exposição de bourgeois em sampa. quando soube, comecei a desconfiar que não era coincidência. e comecei a acreditar no que caetano sempre repete: sampa é o mundo. tudo o tempo todo acontece. amo esta cidade com todas as minhas vísceras. divaguei: viveria numa casinha apertada, como a que estava hospedada, tranquila, só para ter o prazer de vivenciar tal mundo: louise bourgeois. 

a exposição me causou grande impacto. só não chorei mais porque a dor, diante de bourgeois, é sempre uma dor represada. uma dor silenciosa. dor de espanto. mesmo diante do abraço apertado (há  seres que se abraçam), pressentimos que não há ali encontro. a arte de bourgeois é tomada pelo estar só - um estar sozinho visceral, original = que vem da nossa própria origem. seres que choramos quando viemos ao mundo.

os seres pendentes, os seres de panos, os seres com prótese, os seres disformes, as grutas, os quartos, as celas - há aprisionamento em tudo. é difícil atravessar o impacto das imagens, seja das esculturas, seja dos desenhos, seja das frases - de todos os lados, dói. louise bourgeois pode ter se exilado nos estados unidos, mas sua arte é europeia, sem dúvida. em nenhum outro lugar, há tanto frio.

há uma falta de afeto na arte de bourgeois. falta de afeto por quem vê, diga-se. ela não tem piedade pelo espectador. não dá para ficar impassível. como pode? esta cela com este espelho. este corpo numa posição impossível (mas quantas vezes não nos sentimos assim, dilacerados, agônicos, desesperados, numa espécie de dor que é tão psicológica como física?), este ódio a um quarto tão antigo? = todos os nossos traumas estão lá transfigurados por uma beleza transcendente e perturbadora. não é por mim que chorei. não é por ela. é porque há beleza em coisas tão horrendas: nesta aranha a agarrar tudo. é tudo tão abjeto. como a tristeza. a tristeza é abjeta. nus. nus diante de nós mesmos.

e ainda.

era tão tarde. eu sentia muita fome e, mesmo assim, permaneci lá tempo suficiente para os guardas se incomodarem com minha presença, entre uma sala e outra. eu havia me perdido na cidade que vivi por mais de um ano. eu estava com o nariz vermelho. eu queria comprar o catálogo, mas era caro para quem já estava viajando há um tempão (fechei os olhos e comprei, mas, por culpa, como uma criança, fiz questão de dizer ao vendedor que era pobre - em outros tempos, diria que era estudante), eu queria comer naquele restaurante absurdamente caro, mas entre o catálogo e comer, escolhi o catálogo. queria ver minha mãe. e, quando saí, andei, andei, com a minha mochila pesada, com meus pés doendo a cada vez que pisava. queria queria e queria. e pisei forte, muito forte, para sentir a porra dos meus dedos dormentes, olhando ora pro chão ora pra cidade ora pra nada ora pra bem longe. e para me proteger pensei muito no Tatupai. pensei muito no Poeminha. pra lembrar que não estou sozinha. que por ora estou com eles. inteira. ainda que ali, naquele instante, estivesse tão cheia de pedaços espalhados.
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e ainda.
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quem puder ir, não deixe ir. porque de vez em quando é preciso destrancar as dores. no instituto tomie ohtake, até 28 de agosto, grátis, a maior exposição de louise bourgeois já vista no Brasil, uma das maiores artistas do nosso tempo.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

A oficina de Brennand

Sou um senhor feudal supersticioso e pornográfico. Brennand

Um lugar que nunca deixo de ir quando vou a Recife é a Oficina de Brennand. Eu vou, e topo com ele. E levo todo mundo comigo. Brennand me fascina. Mas o seu lugar me fascina bem mais. Já vi exposição dele em Belo Horizonte e em São Paulo, e gostei, claro, mas o deslocamento diminui um pouco o impacto. O que se vê em sua Oficina, a céu aberto, é o resultado de um lento e obstinado trabalho. E o que eu gosto é da obsessão, como se ele não pudesse parar de multiplicar suas esculturas. O prazer muito a ver com a loucura. Fetiche. Quando vejo um objeto fálico nas mãos de Louise Bourgeois, vem à mente questões de gênero. O cérebro pensa. Diante dos inúmeros objetos fálicos de Brennand, o pulsa pulsa. Não é exatamente uma pulsão sexual. É um pouco como assistir a um filme de Pasoliniou ler um livro do Genet. Lutar a favor do desejo, morrer por ele, se preciso for. Ao invés de turistas bem comportados como nós, os corpos deveriam estar nus, libertos das cercanias da moral. Um mundo anterior à ordem, é o que vejo. Um mundo artístico, por falta de outra palavra. É um artifício. Existe ali e em nenhum outro lugar. Por isso, vale voltar sempre.