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terça-feira, 12 de julho de 2016

68ª reunião da SBPC - um outro registro





nos tantos anos que escrevo neste blog, algumas postagens causaram polêmica. e geraram tantos outros discursos. e sempre optei por não responder. um texto que gera outros textos a ponto de se perder é o que deseja todos que escrevem. mas quebrarei um pouco essa “regra” em razão do cuidado com algumas pessoas a quem respeito e que me interpelaram de modo igualmente cuidadoso, mostrando-me outros pontos de vista que me escaparam. e não pretendo que esse texto se configure como resposta aos que me detrataram em suas páginas pessoais ou mesmo na página coletiva da UFSB em rede social. ainda que me cheguem as notícias, não me interesso por esse tipo de contenda. meu esforço, desde sempre, tem sido pela construção do pensamento. por isso, tal texto é sobre o mesmo assunto  em outro registro de linguagem. 


minha crítica dirige-se à concepção que norteia a organização das reuniões anuais da SBPC, e não apenas a esta; reuniões que, dada a sua importância, recebem um alto valor do governo federal, devidamente registrado no Diário Oficial da União. não são recursos escusos nem indevidos, assim como seus usos também estão à mostra, seguindo a publicidade obrigatória referente a esses tipos de recursos. tanto o repasse como o seu uso são de conhecimento público. é só buscar no Diário oficial, no portal da transparência, que está tudo lá. fica a dica. 


antes de tecer a minha crítica, analisei a programação científica da SBPC, comparando-a com outros eventos de grande porte da grande área de Letras/ Linguística; eventos com mais de uma dezena de conferências simultâneas, mais de uma dezena de mesas-redondas simultâneas, com programação cultural, sessões de comunicação e de pôsteres etc.. e concluí que, embora a programação científica da SBPC pareça gigantesca e diversificada e sua composição advenha de diversas associações, não é maior do que a desses outros eventos, que são igualmente problemáticos no tocante à espetacularização e à monumentalização, mas que, nem de longe, recebem o mesmo apoio financeiro da SBPC. e além disso, fiz uma conta simples: quantos eventos poderiam ser realizados, em diversas universidades brasileiras, inclusive aqui, se pensarmos que a média de apoio de um órgão como o CNPq no custeio de eventos de pequeno/médio porte é de 20.000,00 e de grande porte, 100.000,00. é só fazer as contas. 


o que denominei de espanto não se refere, portanto, ao valor em si, como uma espécie de defesa do não uso do dinheiro público, mas trata-se de repensar as suas formas de uso. refiro-me, portanto, ao que chamei de “indefinição” do que seja, de fato, a questão primordial da reunião da SBPC, se crermos no que está dito na página do evento: “a Reunião Anual da SBPC é um importante fórum para a difusão dos avanços da ciência nas diversas áreas do conhecimento e um fórum de debates de políticas públicas para a ciência e tecnologia”. a meu ver, essa falta de indefinição notória entre o que se propõe a ser e o que, de fato, é gera um descompasso visível entre o que se gasta para erguer a sua estrutura de megaevento (grandes tendas, praças de alimentação, construções etc..) e o que se gasta com a programação científica (hospedagem, alimentação, diárias para conferencistas etc..). 


em outras palavras, minha reflexão parte de um posicionamento político de quem acredita que é preciso questionar essas estruturas de megaevento acadêmico, científico e mesmo artístico-cultural, não apenas pelo fato de ser dispendiosa, mas porque não atinge seus propósitos no alcance devido. a comparação com a Bienal de Artes e com a Flip não foi por acaso. são também megaeventos, ainda que cada um tenha propósitos distintos, imprescindíveis para suas áreas; importância que não oblitera – pelo contrário, deveria enfatizar – os questionamentos feitos, muitas vezes, por aqueles envolvidos em sua concepção e construção, em busca do redimensionamento de seus traços composicionais. 


não se trata de requerer as suas extinções, e sim de reformular suas políticas. minha crítica não coteja o fim de nenhum desses eventos, embora partilhe pontos em comum com quem defende tal posicionamento. o que está na base de minha crítica é o desejo de reconfiguração do que está posto como modelo de megaevento acadêmico-científico e, se esmiuçada, chegaria, sim, aos modos de recepção dos estudantes da educação básica. o que se apresenta como inclusão – ainda que absolutamente necessária e proveitosa – é, a meu ver, apenas um “roçar” de corpos que não se juntam de fato. explico para não enveredar pela linguagem metafórica: diálogo, discursividades em trânsito, trocas aconteceriam se professores e estudantes da educação básica estivessem, por exemplo, inseridos nas discussões da programação científica, e não apenas como ouvintes, mas, sim, com cadeira garantida nas grandes mesas de discussão. ou se estivessem ali para serem ouvidos, ou para escutarem, a respeito das políticas públicas destinadas às ciências e tecnologias. enquanto forem apenas visitantes a interagirem com o que parecem ser “brinquedos tecnológicos”, quando são, muitas vezes, objetos manipuláveis resultado de pesquisas sérias e substanciais, aparentemente será apenas isto: um parque de diversões onde meu filho de seis anos se divertiria muito. e sim, meu filho tem seis anos e, por inúmeras vezes, pensei no quanto ele se divertiria ali (só não o levei porque coincidiu com a sua viagem de visita à bisavó). 


ao contrário do que normalmente se diz, sessão de pôsteres é uma forma muito questionável de inclusão, pois é óbvio que o modelo de “exposição”, de “apresentação” não funciona no que deveria ser espaço de debate, de diálogo.  há centenas de artigos científicos que questionam esse modelo. fica a dica. é um meio, sempre incompleto e imperfeito, criado, justamente, quando os eventos acadêmicos foram ficando cada vez maiores, para supostamente dar voz àqueles que iniciam pesquisas ou aos pesquisadores a quem nunca darão assento nas conferências e mesas-redondas. ou seja, foram pensados para propiciar um espaço, ainda que exíguo, aos que, de fato, pagam parte da estrutura do evento por meio das inscrições. não deixa de ser, assim, apenas uma das estratégias para garantia de público. e os estudantes, os pesquisadores, devem saber disso não para se sentirem diminuídos pela participação nessa modalidade, mas para batalhar por outros espaços de participação em vez de ficarem apenas agradecidos e acomodados com aquele ter-lugar. o nome disso é consciência política.  


nos campos de força constitutivos de eventos acadêmicos, sessão de pôsteres é menos do que sessões de comunicação e, estas, menos do que conferências e mesas-redondas. e não fui eu que atribuí essa carga valorativa precária e injusta; pelo contrário, desde o primeiro evento que organizei, há mais de vinte anos, como estudante de Letras, rompi com esse modelo. guardo até hoje as fotos que mostram que quem teve assento na mesa de abertura fomos nós, então estudantes, organizadores do evento. não havia uma única “autoridade” acadêmico-administrativa, embora o financiamento tenha vindo da instituição. e também guardo as fotos em que os estudantes falavam sobre suas pesquisas no mesmo auditório, na mesma mesa, em que os professores convidados palestravam. e não foram ações por acaso. eram, então, decisões políticas, que faziam muito sentido naquele momento de reivindicação de direitos. e como organizadora de eventos acadêmicos, avancei sempre mais na ruptura desses modelos preestabelecidos de eventos, misturando, por exemplo, numa mesma mesa-redonda convidado estrangeiro e aluno de graduação, e não apenas como apresentador, mas como debatedor; pondo aluno de graduação como conferencista e tantos outros gestos de tentativa de ruptura da engrenagem maquinal que compõe os eventos acadêmicos-científicos. 


acato as opiniões dos que disseram que fechei o meu texto apenas na crítica, não abrindo espaço para o que foi relevante e, mesmo, distinto. com isso, deixei de proteger as pessoas que trabalharam para erguer a SBPC. e talvez não o fiz, justamente porque eu era uma dessas pessoas e não achei que precisava de defesa, porque minha crítica não se dirigia a elas, que, em última instância, eram também eu. se eu dirigisse uma crítica a mim, só poderia ser uma: o fato de ter participado, se tenho tantas críticas ao modelo do megaevento acadêmico-científico. sei exatamente por que me envolvi na organização: porque, desde o primeiro momento, achei de uma importância fundante e simbólica que a SBPC se realizasse aqui, numa universidade recém-criada devido à política de interiorização do ensino superior. parecia-me então um movimento de resistência muito bonito para que eu abdicasse de fazer parte dele.


porém, creio agora que não aproveitamos tanto quanto poderíamos. a SBPC deveria ter sido pensada, por nós da UFSB, como um grande fórum de resistência ao golpe democrático que sofremos. vem daí também meu espanto com o ar festivo de comemoração. não poderíamos ter feito do nosso solo acadêmico um espaço de comemoração nesse momento histórico que atravessamos: deveria ter sido um solo de resistência, de provocação, de luta, de reivindicação. não tínhamos nada a perder e muita dignidade a ganhar, se assim tivesse sido, pois reforçariam as construções discursivas que sustentam algo como a Formação Geral desta Universidade, como espaçotempo de construção de pensamento crítico em relação ao estado de coisas contemporâneo. essas lutas, reivindicações, resistências, podem, sim, estarem entranhadas numa grande festa. tanto melhor, se estiverem. mas é preciso proferir essa resistência, senão resta apenas a festa. é preciso dizer por que se festeja, como fizeram as mulheres do bate-barriga de Helvécia ou o grupo de boi-bumbá, de Eunápolis, que localizaram politicamente seus festejos como atos políticos de resistência ao apagamento de suas histórias. provavelmente, tantos outros a que não assisti fizeram o mesmo. em gestos assim, estão as grandes lições. e nós, festejamos por qual razão? somente por que a SBPC veio para nossa recém-construída universidade? para mim, é pouco, muito pouco. 


e não. os movimentos de resistência que aconteceram não foram criados por nós, mas por alguns daqueles que vieram de fora. uma professora convidada, espantada, disse: “achei que chegaria aqui e haveria faixas contra o golpe em todo lugar”. e estendeu sua faixa solitária bem à vista dos nossos olhos aparentemente acometidos de cegueira histórica.  e presenciar isso, como professora da UFSB, reforça ainda mais minhas convicções que, tantas vezes, têm entrado em confronto com outras convicções. igualmente válidas, indubitavelmente, mas com as quais não posso compartilhar, senão dialogar, se for possível a criação de um espaço dialógico ético. 


apesar de não me considerar avara em elogios, aclamações, confirmações, não acredito que políticas públicas substanciais advenham daí. por exemplo, toda e qualquer mudança nas políticas públicas de educação é resultado da luta, da vigilância atenta aos mecanismos dos micropoderes que trabalham para a supressão desses direitos. nesse sentido, teríamos muito a aprender com um movimento como o do MST, sempre atento à própria formação política. é o fato de estar na UFSB, e acreditar no seu projeto, que me leva a atentar para os seus pontos críticos. é o fato de ter participado da SBPC que me permite lê-la do modo como eu a li. engana-se quem pensa que o não-questionamento edifica qualquer construção; serve tão somente para a monumentalização. perseguir a diferença entre construção e monumentalização talvez seja o caminho para que as discussões não descambem para os personalismos, o deboche e a desclassificação dos sujeitos que falam.  e acrescento: não tenho nada contra o kitsch na sua potência de subversão, de crítica, mas tudo contra quando perde essa potência e resta apenas o modelo desfigurado.


era a algo assim que me referia quando falei, logo no início do meu texto, sobre o fechamento da UFSB, o qual sua hospitalidade festiva não escondeu. sempre quando me deparo com alguma ação de extrema incoerência, eu sinto falta da presença do conselheiro, no sentido lato da palavra. quem me conhece, já me ouviu com cara de espanto, muitas vezes, a perguntar: “não tinha ninguém do lado destas pessoas para aconselhar a não fazer isto?”. foi exatamente isso que pensei quando vi toda a programação paralela construída pela UFSB para tratar tão somente da sua atual situação política. não sou contrária a esses fóruns de discussão, mas, no meio da SBPC, sendo a anfitriã, pareceu-me  inapropriado e oportunista, uma vez que estávamos ali, ou deveríamos estar, para tratar das questões propostas pela SBPC – propostas nas quais a UFSB teve participação, se acreditarmos no que disseram os organizadores em diversas ocasiões. ao invés disso,  propuseram, intempestivamente, uma programação extensa para tratar de nossas questões internas, a ponto de gerar um documento de conciliação com o governo ilegítimo, ainda que transmudado de reivindicação. é só ler para averiguar.


e para mim, o virar às costas simbólico (porque evidentemente eu sei que muitos professores e estudantes participaram também da programação oficial da SBPC) advém de um discurso que se tem difundido na UFSB e tem causado muitos danos e equívocos; que é o discurso que, ao traçar uma linha histórica da universidade brasileira, coloca a UFSB como um marco divisório, muito à frente de qualquer outra. é um discurso tão sedutor quanto falso. e o seu equívoco advém, sobretudo, desse traçado linear, quando todo o esforço da História, como disciplina, tem sido negar essa ideia de linearidade. somos, sim, uma universidade com um projeto instigante de ruptura a alguns dos paradigmas que construíram não apenas as Universidades brasileiras, mas a ideia de Universidade que as sustenta, porém não estamos à parte dessas Universidades, nem rompemos, ainda, com muitas dessas ideias. E as provas pululam por toda parte ante nossos olhos espantados. e esse lugar distinto da UFSB, ainda que exista como porvir, não deveria nos levar a desprezar todo o saber agregado até aqui por essas outras instituições. reconhecer isso não nos diminuirá em nada como instituição e negar tampouco nos engrandecerá. muitas das ações que buscam construir nosso projeto diferenciado de universidade já foram pensadas e testadas em outros espaços educacionais, resultam de lutas travadas e avanços alcançados em outras arenas. não se originaram de um único ser demiurgo e visionário, mas, sim, são resultado de uma série de outros espaços de luta, de reivindicações que germinaram no interior das universidades públicas brasileiras. 


por isso, eu me pergunto constantemente a quem serve esse discurso de originalidade e vanguardismo. e fazer essas perguntas não deveriam me colocar num lugar caricatural de inimiga. é também um construto discursivo que interessa, ou deveria interessar, tão somente àqueles a quem o questionamento incomoda. a quem interessa a não crítica à SBPC? certamente, a sua presidente, que diante da discordância armou o circo que inevitavelmente só poderia reposicioná-la ainda mais forte no lugar que ela provavelmente nunca pretendeu abandonar. circo noticiado na página da SBPC de uma maneira que deveria nos causar indignação. compreender essas sutilezas talvez nos ajudasse a perceber que a crítica que teci talvez devesse interessar a toda universidade anfitriã da SBPC, que recebe um modelo pronto no qual tem muito pouco espaço de representatividade. 

lembrei-me, agora, da expressão ouvida do conselheiro Joelson, quando ele afirmou que ia  “arrombar as portas”, e não ficar indefinidamente agradecendo porque supostamente a Universidade resolveu abrir as portas para seu povo. e isso advém da sua consciência de que ter-lugar não é algo dado; é construído por meio de gestos de luta. e ainda na sua lógica, sei que isso exige tempo. e é preciso considerar esse tempo. no entanto, é preciso construir esse tempo no agora. resta saber quantos de nós estamos preparados para tamanha responsabilidade e tamanha percepção histórica. 
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segunda-feira, 15 de junho de 2015

a pata do elefante. ou por que escrevo



a escrita tem me dado muitas alegrias. a escrita me deu alegrias a vida toda. dentre outras razões, é por isso que eu abrigo um blog --- exercitando esse fazer por nada, sob o risco muitas vezes de me sentir meio ridícula de ser uma quarentona que escreve nesta terra-de-ninguém o que se assemelha a um diário --- me deixem acreditar, please, que ao menos tento algo como uma pegada escritural.

mas falo de outra alegria hoje. como esta - de receber na manhã de sábado a revista que tem um artigo meu e uma tradução. o fetiche da publicação. mas o certo é que eu não escrevo apenas em nome da produtividade acadêmica. e demorei muito a fazê-lo. precisei levar seguidas broncas da Mariamada até ter coragem de pôr o meu bloco na rua. escrevo como resultado de ter algo a dizer. de querer ter algo a dizer. e algo que vem das leituras que tento fazer a duras penas. sim, porque somente a duras penas um professor universitário hoje se dedica ao ofício da leitura, tamanha a histeria da "produtividade" em todas as áreas::: pesquisa, extensão, social, aulas, orientação, reuniões para tudo e para nada - e o professor emparedado na própria ignorância que vai se formando como uma crosta. é contra essa ignorância que luto bravamente quando resolvo passar uma manhã toda relendo Ulisses só para encontrar uma passagem que, depois, descubro se resumir a duas linhas!  ou quando passo noites inteiras acordadas à base de coca-cola e cerveja [nesta ordem, geralmente...] escrevendo, como fiz ontem::: agora que me cerco outra vez da vontade de escrever sobre alguém.

Tatupai sempre diz que quando estou escrevendo um texto é quando fico mais feliz --- a alegria da ruminação. é mesmo como me sinto. pois escrever para mim é um modo de pensar sobre o que eu ainda não havia pensado. a expressão "penso com os dedos" tem muito de verdade quando se refere a mim. escrever sobre um autor ou uma questão é também uma forma de garimpo. e gosto muito da fase do garimpo. acercar-me da questão ou do autor por diversas maneiras - muitas vezes de modo aleatório, deixando-me pronta para o acaso, a surpresa. pois vejam como pode ser bonito::: ter um corpo de escrita é buscar, essencialmente, um corpo de leitora.

e tem também a alegria da surpresa (um autógrafo de laura erber na manhã de sexta).  não conto. mas digo da emoção --- que foi tamanha. esquilos de pavlov, que foi o livro de 2014 que mais achei "pancada" na literatura brasileira contemporânea. às vezes, a vida tem coincidências tão bonitas!
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deve ser lindo ser escritor ---- de verdade.  ser um criador. sempre penso em Roland Barthes querendo escrever um romance, acercando-se dele, e o seu romance que não existiu ser a história desse cerco. eu não quero escrever um romance. mas é um não-querer que vem da certeza da incapacidade, da impossibilidade. mas eu quero ser uma pessoa que escreve crítica de um modo honesto, íntegro. e mesmo assim, eu me arrisco o tempo inteiro, porque sou uma pessoa de mil vontades que sempre quer escrever sobre o que gosto, mesmo quando mal sei nada sobre aquilo que gosto - como uma "fisgada" que mal conseguimos localizar. estou nesta agora. e estava quando quis porque quis escrever um texto sobre o marcos siscar. me dava uma emoção me imaginar sendo uma leitora que escreve sobre sua poesia --- o problema é que não sou uma leitora assídua de poesia. o problema é que amo marcos pra caralho e não queria escrever algo escroto ou idiota ou desonesto. daí, o risco. mas um risco que foi bonito correr. dias e dias debruçada sobre o que eu não sabia... e bem ----não sei da qualidade do texto [publicado - agora ele viaja para chegar até a mim], não cabe a mim dizer sobre ela, a qualidade. isso de ser apenas uma das leitoras de sua escrita. como em tudo, há aquele intervalo entre o querer e o poder. a ambição e o saber. mas arrisco a  dizer que o texto tem uma busca de integridade. que todo texto que escrevo tem essa busca. e pode parecer bobagem, mas penso que essa busca existe porque, reitero, escrevo porque gosto de escrever.
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este texto da Alea - gosto bastante, a quem interessar possa. escrevi toda séria. queria falar mal de modo elegante ---- como Derrida fazia. e em uma edição para Derrida. muita emoção. mas elegância é um dos meus impossíveis. quem me conhece, sabe::: eu sou a pata do elefante. mas que graça seria se a pata do elefante não quisesse ser o pouso do passarinho?


domingo, 17 de maio de 2015

dos dias.

destes dias.







vim bem aqui em Itabuna. para um seminário. não não. não o seminário destas fotos. a cada vez que viajo para um novo lugar, levo comigo a esperança de que vou fotografar as miudezas, os instantes. imagino que vou encontrar o tempo a ocasião a imagem que me darão vontade de vencer a dificuldade da técnica. 

mas as ocasiões têm sido escassas. porque fotografar, para mim, tem a ver com aquilo que me toca. com aquilo que quero guardar. carreguei a câmara por três longos dias --- e apenas neste seminário, no qual fui no fim do primeiro dia do seminário de que participava, senti vontade de fotografar. senti ali uma força viva e poderosa. e o contraste entre um e outro seminário me deu um vazio incomensurável. passei da mais profunda indignação para uma letargia triste.

em outros tempos, com menos cuidado de si, eu teria pedido a voz e testemunhado meus assombros. teria demonstrado talvez indignação, talvez desespero. o mesmo desespero que vi em muitos rostos e muitos discursos. talvez ainda o faça --- em qualquer dia que essa letargia resolver dar uma trégua. mas o certo é que a chance do humano no interior da universidade é cada vez mais rara. quando ela parece apontar para isso é quando o humano mais é rechaçado. 

a universidade está corrompida pelos jogos de poderes, pela mesquinhez dos campos de disputas, pela alienação dos que ocupam o lugar das ordens e daqueles que batalham como vespas por estes lugares ou por, no mínimo, estarem próximos deles. 

a arrogância é a marca mais visível. mas não a arrogância alegre e criadora das vanguardas, embora essa palavra tenha sido ouvida a todo instante. talvez no mesmo gesto, por diversas vezes, lembrei que nenhuma ideia, nas artes, envelheceu tão rápido como a ideia de vanguarda. e justamente porque logo perdeu o viço, a alegria, a juventude. e hoje só sobreviva como tradição - vide octavio paz. 

ninguém lembrou de pensar que talvez o gesto pudesse ser o gesto da diferença. não o da inovação, da vanguarda, mas o da diferença. e não exatamente isto: apenas o desejo da diferença, o que permitiria a todo instante contrastar essa vontade com as limitações do real. talvez essa palavra não tenha sido sequer mencionada porque -- se bem pensada -- pudesse abrir o fosso, mostrando, assim, o abismo em que todos estamos metidos. escolher palavras mais ruidosas talvez ajude a esconder as ruínas da nossa própria miséria. 
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talvez, por isso, o fascínio por esta diferença das fotos --- 
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agora, aqui, no fim do terceiro dia, olhando esta dezena de fotos que tirei no hiato, pergunto-me qual a via possível. e daí me lembro de três nomes. três nomes que pincelei no decorrer do longo e triste seminário de três dias. os nomes-esperanças. resolvo, então, por ora, ficar com eles em busca de alguma filiação possível --- para que valha a pena o desgarramento do que já me era conhecido.


As fotos foram tiradas na abertura do 10º Seminário Nacional Religiões Afro-Brasileiras e Saúde: Cultura, Práticas de Cuidado e Políticas Públicas, que aconteceu na cidade de Ilhéus nestes dias. linda a abertura. as fotos mostram meu olhar de espectadora. tirei-as sentadas, enquanto via e ouvia.


quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

carta na janela à turma MEL 2014.2



fiquei pensando, enquanto voltava para casa, depois desta semana intensa, que havia muito ainda a dizer. o que eu não disse. o que vocês não disseram. isto do tempo. e da insuficiência das palavras. relembrei o que pensei como figura da disciplina::::  “A linguagem é uma pele: fricciono minha linguagem contra o outro. Como se eu tivesse palavras à guisa de dedos, ou dedos na ponta de minhas palavras. Minha linguagem treme de desejo ... Falar amorosamente é gastar infinitamente, sem crise; é praticar uma relação sem orgasmo” (Barthes). e quase todo tempo foi isso para mim, acreditam? 

eu dou pouca importância para muita coisa na universidade. o famoso "cago e ando". e estou convicta de que a vida pede isto::::: um certo alheamento para o mundo-cão. viver de tal modo que apenas o que me interessa tenha importância. e a docência me interessa. tem muita importância, portanto. professora, eu penso na minha linguagem como uma forma de tocar o outro. porque sou professora de literatura. e literatura tem muita importância. literatura é onde se podem desfiar as linhas mais torpes e mais doces. é onde se pode falar amorosamente do outro, sobre o outro e onde também se pode morrer, matar, matar o outro. literatura é a linguagem do impossível. 

não sei se deu tempo de dizer a vocês que antes de ler literatura brasileira contemporânea, eu só lia italo calvino, graciliano, thomas bernhard, antonin artaud, kafka, dostoiévski e...  beckett, que descobri no meu penúltimo ano de doutorado. descobri muita coisa no doutorado, acreditem. descobri e/ou alicercei estas experiências-limites de ser leitora desses autores que nunca escreveram para nos dar paz. e vi certamente mais de quinhentos filmes nos quatro anos e não sei quantos livros li porque ainda não tinha a mania de listá-los. mas a lista, se existisse, seria enorme igualmente. listei também as peças de teatro, os shows... e não foram poucos. e os países não cabem nas minhas duas mãos. 

não digo isso para lhes dizer que este é o caminho. talvez diga para constituir uma imagem que eu acho bonita. que é a imagem do desejo. o desejo é o oposto da burocracia, do conveniente. então penso que tudo que fiz no tempo do doutorado é dessa ordem incerta do desejo. a tese é bonita, acreditem. sem que eu diga uma linha, diz muito de todas estas experiências. desta minha experiência de estar inteira para o mundo. não tenho dúvida de que em cada linha está dito::: é por amor que escrevo. e escrevi muito. trocava dias pelas noites. fechava janelas e acendia luzes nas tardes e assim, como um deus brincalhão, fazia com que as noites surgissem antes das noites. e me apaixonei loucamente pelo(s) sujeito(s) sobre o qual(is) escrevi. ainda hoje, quando me vejo num impasse, quando penso que talvez seja preciso estar mais atenta, menos alheia, é nele(s) que me guio. e daí não tenho medo algum. daí estou entregue às experiências de dizer. e dizer como quem acredita. como quem ama. uma amadora (é linda esta imagem do Barthes, já leram?). pois é preciso ler. e ler como nordestino/a. na calada da rede. não nesta rede midiática, mas nesta que range, que é preciso distorcer os punhos antes de nela deitar.
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e quando ensino, e estou no meio de uma turma como a de vocês, que vai passar pela experiência da escrita, da leitura, fico com vontade de espalhar estas incertitudes. de reafirmar toda a potência da experiência da pesquisa. da leitura. do pensar. do vivenciar. tenho vontade de sepultar a burocracia, o conveniente. tenho vontade de dizer: apenas amem. e cuidem de tudo que vier deste amor. se isso lhes trará sucesso, dinheiro, sossego, não vale a pena pensar agora. quanto a mim, posso dizer que trouxe o que eu já tinha em mim:::: desassossego e alegria [é também bonita a alegria barthesiana], vontades e um certo tédio, emoção e uma certa poção de descrença.

para esquecer - ou para intensificar - a experiência das nossas duas semanas, agora vou reler Em busca do tempo perdido - estes temidos sete volumes. Ou serão oito? na minha edição resumem-se a três. enormes catataus de três. e por que escolhi este catatau? porque fiz recentemente quarenta anos, porque a vida é uma narrativa escrita por nós mesmas.  e achei que seria bonito, quando ficasse velhinha, se eu ficar, dizer que reli Em busca do tempo perdido quando fiz quarenta anos. agora, tenho mais certeza de que foi a escolha certa. Proust será, nas próximas semanas, minhas armas. minhas armas de Jorge. conhecem? 

bem aqui, ó! >>>>>. assim mesmo, no improviso. caetaneamente. como tudo. feliz tudo pra vocês nos dias que virão.
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as imagens foram tiradas por mim, enquanto as crias de Nina, nossa "gata peluda", faziam de minha biblioteca um enorme parque de diversão. achei que tinha tudo a ver com o que eu queria dizer a vocês::: pesquisar, escrever, ler, quando passa pelo desejo, é como um parque de diversão. é só se deixar levar pelo ritmo desconcertante de algum brinquedo que gira, gira gira gir gi
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terça-feira, 7 de outubro de 2014

sobre o sell 2014

hoje colocamos quadros na parede. ou melhor, Tatupai, sob a minha supervisão. também dei uma organizada nos livros (no que ainda é possível, pois a urgência de novas estantes já é visível há tempos). e ontem, depois de almoçarmos com o Yuji (esta belíssima pessoa!) e após votar (em Dilma, diga-se de passagem), avancei na noite lendo O que amar quer dizer, de Mathieu Lindon. tenho uma lista tão grande de "livros para ler sem ter razões para lê-los", isto é, livros que nada têm a ver com a docência e a pesquisa, que aproveito sempre estes momentos de "quietude" e "escape" para ler algum deles. 

"quietude" e "escape" foram palavras que utilizei para explicar a minha amiga Rô a razão por que sempre me retraio depois de um grande "projeto", como o do SELL - Seminário de Estudos Linguísticos e Literários! é por isso que ontem foi quietude e hoje, organização; minhas formas de escape. tenho em mim qualquer coisa que se poderia chamar de "compulsão por eventos". a cada ano, crio e recrio a coordenação de um. em seis anos de UNIR, foram seis eventos acadêmicos::: quatro edições do SILIC, uma edição do FALE e, neste ano, o SELL. a cada ano, dá vontade de parar. e a cada ano, vontade de continuar. posso atribuir o mesmo "mal" a minha amiga Rô. fomos sempre parceiras nesta compulsão. 

neste ano, tenho a impressão de ter sido mais difícil. talvez porque pisasse em território desconhecido. o SILIC é nosso, do Gepec - Grupo de Pesquisa em Poética Brasileira Contemporânea. todo e qualquer problema, toda e qualquer desdita, todo e qualquer contratempo são da ordem do entendimento, da soltura. é uma ação de amigos. já o SELL tinha o peso do cargo. foi como chefe de Departamento que me lancei nesta empreitada. e foi como chefe que respondi a todos os problemas que surgiram. e foram muitos problemas. fiquei com medo de que ele ficasse sem alma. mas só tive este receio por pouco tempo. 

quando estava começando a organizar, veio o luto e, mais a frente, o medo de perder um dos meus grandes amigos. foi assim que, muitas vezes, tive raiva de ter me metido nesta. queria viver meu luto em paz. e queria cuidar do meu amigo. ou seja, toda a minha alma já estava neste evento. o que me sobrava era imprimir a emoção; a mesma que é a marca registrada desses eventos todos. e não foi difícil. no aeroporto de Guarulhos, no meio do caminho para enterrar ser tão amado, escrevi o texto para mediar a ideia desta edição. desencavei o verso "o que quer/ o que pode esta língua?", de Caetano. estava inteira naquelas poucas palavras. quantas histórias minhas coloquei ali? e quantas histórias renderam este verso de Caetano? 

serei sempre grata a Wanderley Geraldi, a Veronica Stigger, a Pedro Serra, ao Alvaro Hatther, ao Yuji Gushiken, a Marcia, às meninas das monografias (foi lindo, lindo!) e mais um tanto de gente por terem desdobrado o verso de Caetano e terem feito um SELL tão cheio de emoção, de alegria. é isto mesmo. as palavras são estas. as emoções são estas. e é dessa rasura que eu gosto. enxertar no meio do academicismo uma onda que faça ressoar toda a entrega que é necessária para que um evento como este aconteça.
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foi bonito como tinha que ser. este trabalho em parceira que eu e Rosana inventamos é sempre da ordem da boniteza. foi diferente não este ano. "há marcas em mim no SELL. e há marcas do SELL em mim", foi o que disse na abertura. e esta é uma das muitas bem-aventuranças.
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sexta-feira, 14 de setembro de 2012

cenas da disciplina


Cena de confissão: Entre a proposição da disciplina e a sua organização, um hiato. Desaparece a ambição de catalogação para dar lugar a uma obsessão ainda mais perigosa: a reflexão arbitrária ou intempestiva, como crianças que desistem de colecionar carrinhos para se dedicarem ao trabalho minucioso e exasperante de desmontagem. 

Como em todas as disciplinas, um reconhecimento com espanto da biblioteca. E com isso a impossibilidade de despregar da imagem de Barthes: “Biblioteca de um sujeito = uma identidade forte, completa, um ‘retrato’”. Diferente do despregar do conhecimento acerca de Barthes, cada vez mais distante. É a imagem que nos perfura. E é com a junção de duas bibliotecas que o curso se desloca.

Figura da disciplina: A amizade. Por diversas razões. A impressão de que a Universidade não consegue mais realizar a proximidade com essa figura (Derrida, Blanchot, Agamben). Colocar em cena o que está fora da cena (Derrida, Jean-Luc Nancy). Perfurar, rasurar, sustentar o subjétil da amizade, naquilo que ela tem de ambiguidade: uma necessidade e uma certa desconfiança (Nietzsche, Derrida, Artaud). O que pode sair daí? Quais sentidos poderão se constituir a partir da declaração da amizade?
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foi assim. foi uma experiência muito bonita. aquela, de dar aula no mestrado em estudos literários. tenho certeza de que para mais ninguém foi mais bonito do que para mim. a junção de duas coisas: o querer-fazer e o gostar muito de algumas pessoas que lá estavam. bonito estar num espaço em que mais se ama do que se é amado. sempre essa dissimetria entre professor e aluno. não contei quantas vezes tive que me deslocar de vilhena a porto velho. 12 horas de viagem. e um desejo: o de ensinar na pós-graduação. não fiz nenhuma exigência e aceitei todas as cláusulas. não sei muito bem o teor desta importância. mas me emocionou. e muito. quase passei pelo vexame de chorar em sala de aula no último dia. emoção e saudade são os nomes. criei uma figura para o curso: a da amizade. ministrei junto com binho, meu amigo de muito tempo. um amigo que amo. talvez aquela moça bonita que tenha me dito que meu lugar é na sala de aula daqui a um tempo vai me desferir algum golpe certeiro como outras fizeram, mas no momento eu só consigo pensar que ela tem toda a razão. porque é na sala de aula onde eu mais penso, onde mais quero aprender, onde mais estou em casa.
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