Mostrando postagens com marcador reflexões. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador reflexões. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 2 de outubro de 2020

do que agora me importa

 



tenho estado em silêncios. ainda não tanto como planejo em mim, mas ainda assim silêncios. me preparo para voltar a mim. por isso, escrevo agora no blog. hoje. não sei se vai durar. se haverá outras postagens. tenho escrito quase todos os dias, no instagram e facebook, um diário de quarentena. às vezes, gosto; outras, me arrependo. algumas vezes, sinto meio que vergonha, porque parece um diário retardado de adolescente. e algumas raras vezes, fico com aquela alegria de quem pensa que criou involuntariamente uma imagem bonita. mas cumpro a cada dia que acordo uma decisão::: não apagar, seja qual for o sentimento que me domine sobre a tal postagem do dia, geralmente escrita nas madrugadas.

gosto da escrita. me preparo para voltar a escrever meus artigos tortos sobre o que me interessa. não escrevo para ter uma produção científica --- é para mim. para forçar o trabalho do pensamento. para deixar registrado. foi Marcos quem me disse que eu podia. e que devia fazê-lo. ainda hoje me parece que tudo que escrevo é pela metade, porque vagueio por interesses tantos. porque minha memória brinca com campos vazios. mas não vou mentir::: danço quando escrevo. sou feliz. o corpo vagueia, os dedos bailam, a mente devaneia. como que me embriago. e gozo. gozo.

é por isso que vou voltar a escrever artigos tortos. a-científicos::: porque não devemos nos afastar do que nos tira do sério. do siso. da normalidade vil. não me importo com o valor que possam dar. não me importo que não valha um tostão. e somente muito longe penso o quanto a pesquisa nas universidades é escandalosamente sinônimo de ciências. das ditas ciências exatas. o tempo é sempre muito velho, é o que penso. por isto, Nietzsche ainda hoje está aí::: para que a gente não esqueça da gaia ciência. não esqueça que há outra via::: à revelia, à contrapelo, na cara dos caretas. e que esse estado de coisas tacanho, pequeno, feio, pobre, não deve nos impedir de dançarmos como bailarinas. 

se eu escrevesse da forma como falo - bruta, amarga, irônica, exigente, atrevida -, eu me arriscaria a tentar alguma ficção. mas escrevo assim::: nesta forma que me parece meio lírica, meio poética no mal sentido do sentido; numa linguagem que, para ser bem sincera, tento fugir, em vão, como o diabo foge da cruz. tenho em mente dois ou três nomes bem estrelados com os quais identifico parecenças com isso que pode ser identificado como minha escritura ---- e por isso desisto de perder tempo na ficção. 

.

.

e a imagem que recobre este texto? somos nós::: eu, o menino e o pai do menino. coloquei porque é tão rara. o pai do menino não gosta de fotos de família. talvez porque perceba a precariedade da pose. talvez porque não goste de se ver rodeado. não sei. não insisto. mas gosto de nos ver assim juntos ---- esta família são como meus artigos tortos::: profundo amor. e do mesmo modo, penso muitas vezes que cuido pela metade. porque não sei como ser de outro modo. li hoje que "o amor atual, em toda a sua vivacidade, 'ensaia' o momento da ruptura ou antecipa o seu próprio fim". Deleuze é foda. dá é ódio ler uma frase assim, pois, se eu pudesse, estacionava naquele momento em que se acredita na eternidade::: nós três inteiros e juntos. 



  

segunda-feira, 10 de junho de 2019

Casamento da Princesa






pois este ano tem me feito revirar um bocado. agora, fui para ver o casamento da Princesa, dela que provocou, involuntariamente, meu primeiro e mais importante deslocamento, há quase trinta anos.

por diversas vezes, nos dias que antecederam e procederam o casamento, eu pensei que ainda via a Jéssica, ora Princesa, ora Doidinha, como a adolescente que ela era em 2004, quando fui embora de Porto Velho. até ali tínhamos uma convivência quase diária permeada de muito afeto, muito amor, muita admiração. depois, perdemos a cumplicidade dos dias; tanto eu como ela avessas de comunicação à distância. vez ou outra, nesses dias, senti falta dessa cumplicidade agora memória. e me vi investigando em silêncio o que ainda há. e sei que da minha parte é um desmesurado amor. 

eu nunca casei num ritual como esse, e nem tenho lembrança se alguma vez o quis, mas quase tudo que me é estranho é da ordem da emoção. eu fui assim --- para viver os dias em nome deste lugar que é dela em mim. e foi bonito. é o que eu tenho a dizer::: foi bonito --- como tudo que lembro que vivemos. e isso é um milagre. por fim, é um milagre::: ter alguém que se ama tanto e só ter boas lembranças desse amor. 

e foi o que desejei -- a ambos::: que seja bonito o casamento. que haja mais dias felizes do que tristes. isto do caminhar junto - que nunca é fácil, mas é o que quase sempre queremos viver::: o encontro com o outro. 

ainda em casa, tomei ciência de que deveria ir entregue aos rituais, atenta à praticidade que me obrigo a ter vez por outra. me arrumar, arrumar o Poeminha, estar atenta ao que precisassem - pouco, muito pouco. quis encontrá-la, encontrá-las, ela e Maneca; ela, Maneca, Ed e Josimar, com amor, porque, se não me engano, foi o que sempre nos permeou. e é o que posso dar, desatenta que sou::: a minha presença, quando ali estou. e isso me trouxe alegria, muita alegria. estar ali, estar com. 

fotografei toscamente quase todo o casamento. e me embrulhei de emoção diversas vezes. dancei muito e comi muito. e me concentrei para não beber além da. para poder registrar.  pois é o que se tem a fazer em uma festa de casamento: dançar, comer, beber e achar tudo bonito. foi assim. lembrei muito do mano. ele foi a presença que nos faltou nestes dias. e ainda lá, me veio o pensamento de não querer normatizar nem moralizar o luto que ainda dói, ainda que doa. flagrei a dor do meu pai e da tia Fá na pouca luz da festa. e guardei-os, aqui, em mim.   

pela primeira vez, nos encontramos - as quatro irmãs - sem ser no Ceará. Morg finalmente foi nos encontrar. e eu espero que esta primeira viagem tenha sido bonita para ela também. para que ela possa vir aqui, na minha casa. minha maior alegria é ter irmãs, como já disse outras vezes aqui. é um assombro: os mesmos sorrisos, os mesmos vários tiques, as fisionomias tão próximas. em algum momento, expressei nossas diferenças, como um apelo para que estas não nos afastem nem retirem de nós isto que tem nome de amor; amor como um sentimento imperfeito, afeito à curvatura do que temos de próprio em cada uma. 
.
.
.
a primeira lembrança que tenho de Jéssica é dela correndo na praça da cidade de minha infância. ela tinha um ano. na minha memória, era um vestido amarelo, com laços de fita branco. não sei se inventei essa memória. ou se a construí a partir de alguma fotografia. ali, aos quinze anos, eu já dava início a um dos princípios básicos da maternidade que eu exerceria vinte anos depois: cuidar sem violência. e agora, quando escrevo, me dou conta que também Maneca fez este pacto. e também Josimar. tantos foram os dias e as noites que nos colocamos à sua disposição. para brincar, correr e acalentar. ela não tem a delicadeza que poderia ter se constituído aí. porque é para dentro --- como nós três, arrisco-me a dizer: sua mãe, seu pai e eu. e deve precisar de um esforço extra para lidar com quem está a seu redor. talvez quando ela for mãe - se for -, a delicadeza que há ali, e que é preciso arrancar vez por por outra, prevaleça. ou já agora::: ela e Ed juntos nos dias que virão. tão longos, tão longos, é o que desejo. 


domingo, 24 de dezembro de 2017

minha biblioteca












penso que jamais terei uma biblioteca de encher os olhos. isso ---- no que diz respeito aos móveis. estou condenada a estas estantes feitas quando eu não tinha um tostão no bolso e precisava de todo modo de prateleiras para abrigar os livros que se avolumavam. sempre que imagino estantes até o teto, feitas sob medida, eu lembro em seguida que não sou uma pessoa de posses. nem suficientemente madura para fazer planos a longo prazo --- economizar, pagar a vista depois de meses de organização financeira, me é algo tão estranho que sequer cogito. sim, estantes de quinze anos atrás que abrigam os livros de antes e os de agora, como que por milagre. sempre há um jeito de caber um pouco mais. inclusive, há o jeito de aceitar como abrigo caixotes coloridos de supermercado, acompanhando a tendência do decor-faça-você-mesmo, que é só uma forma de glamourizar a pobreza.

nesse pouco mais, está a minha história. uma vida inteira. como toda pessoa que compra livros --- e já disse isto outras vezes aqui ---, compro mais livros do que dou conta de lê-los. é tanto um espanto como um acalanto a cada vez que mudo de casa e tenho que fazer com que eles caibam nesses espaços. os livros são a materialidade, a prova, dos meus excessos. não há nenhuma época da minha vida que não esteja contaminada pelos livros --- pelo que li e deixei de ler. assim como as razões pelas quais li e as por que não li.

e mesmo sem memória, consigo identificar a história de cada livro. e o que havia ali de promessa. não a história do livro, mas a que está por trás de sua compra. e do seu desejo - realizado ou não - de leitura. continuo agrupando-os por gêneros e nacionalidades, começando pela prosa brasileira e finalizando com a poesia. a razão por que não estão juntas prosa e poesia brasileiras diz muito sobre a leitora que sou::: antes de tudo, uma leitora de romances.  eu sei que há toda esta bobagem de antagonizar a prosa e a poesia, mas não é por essa razão que sou uma leitora de romances::: meu amor pelos romances vem da infância; é aquela menina que tomava emprestado livros de capa grossa da biblioteca da escola que aprendeu a amar histórias grandes. aquela menina ainda existe nessa resistência do amor aos romances, é o que gosto de pensar. não há memória da infância que não seja também contaminada pela leitura. tanto as boas, poucas, como as ruins, muitas, falam do meu amor precoce pelas palavras escritas. o saber ler aos cinco anos. as palavras escritas nas paredes de tijolo. a mãe professora. a ida à escola. a primeira professora. a minha alegria e o sofrimento do meu irmão na mesma escola por anos seguidos. a descoberta da biblioteca. a surra por causa da leitura, ainda criança, de romances de amor  --- tudo é ferro marcado no corpo.

a poesia é, talvez para sempre, um desejo continuamente adiado, embora nunca me falte um estar-junto de alguns poucos poetas.

nesta última mudança, limpei os livros um por um. foram dias e dias de uma conversa imaginária com tudo aquilo que me rodeia. todos os dias sou rodeada pelos livros::: porque eu gosto de trabalhar no meu escritório. é aqui que suporto bem o preenchimento dos formulários. é também aqui que planejo as aulas. e aqui tenho as melhores ideias no enfrentamento da escrita. não existem dias mais felizes do que aqueles em que resolvo escrever algum texto. por conta dessa felicidade, sei que deveria enfrentar, mais uma vez, uma escrita mais longa. já faz dez anos que escrevi o meu mais longo texto, que foi a minha tese. como eu já disse tantas vezes, percebo nesta um sem-fim de buracos, mas lembro, sobretudo, do amor que havia na ponta dos meus dedos enquanto a escrevia. há muito amor e muito adeus em minha tese. sem dúvida, eu deveria experimentar novamente tamanha entrega.

neste ano, enfrentei a leitura porque não havia muito o que fazer. atravessei o luto com a leitura de livros nas longas noites insones. e por isso, nesse ano, aprendi a amar, sobretudo, Javier Marías, José Luis Peixoto e John Berger. nunca se sabe ao certo se é assim mesmo. o que poderia ser feito e o que não se pode fazer porque é além da capacidade. decidir nada dizer sobre a prostração o medo a dor a tristeza a letargia a não ser também pela escrita --- para que não sejam lamúrias, para que sejam o que apenas são. se poderia ser de outro jeito, não sei, porque foi o modo que encontrei. de alguma maneira, poder conversar com o meu irmão - e com a morte do meu irmão - através dessas longas noites.

os livros nos impõem o enfrentamento do sofrimento e também da própria vida. não me surpreende que, por estes dias, eu esteja às voltas com Thomas Bernhard, um autor que meu amigo Alberto me ensinou a amar há muito tempo, mas que eu havia esquecido até que minha amiga Aline me lembrou que esse amor é uma das minhas estranhezas. ainda hoje penso no Alberto quando leio Bernhard. aquela elegância trágica está também nele. é difícil ler Bernhard e depois me religar com o entorno. há muita dor e muita mágoa espraiadas em cada linha. como levantar a cabeça e enfrentar o mundo? é difícil. nas páginas finais de Origem, Bernhard relata como a leitura de Os demônios, de Dostoiévski, deixou-o incapacitado por muito tempo para outras leituras, tamanho o impacto. é também assim que me sinto::: há escritores que estragaram para sempre meus gostos literários, porque me fazem buscar em cada um aquela mesma sensação em uma meia dúzia de escritores que me atormentam.

talvez seja por isso que eu compro livros de escritores que nunca li ---

--- mas eu li a quadrilogia de Elena Ferrante e digo, sem temor, que ela é uma grande narradora. foi por conta do meu desgosto com os brasileiros contemporâneos que desandei a ler, novamente, os estrangeiros. dessa vez, não mais os russos ou os franceses. sim, foi neste ano que perdi o pudor de dizer  o quanto o romance brasileiro contemporâneo que eu leio está tão pouco impregnado de invenção. ainda encontro algo de distinto em alguns escritores, mas não naqueles que havia aprendido a amar. Joca Reiners Terron ainda e continuamente me surpreende. e nenhum outro nome me vem à mente. parece-me que os outros estão sentados acomodados em suas vitrines mercadológicas --- e são os que ganham os prêmios. para meu espanto e meu desgosto.

porque há isso em toda biblioteca. os grandes amores. as paixões passageiras. os planos de estudo. as decepções. os livros que serão relidos mais de uma vez. os que jamais serão lidos. os que não deveriam ter sido comprados. os que deveriam mesmo que não sejam lidos. os que serão lidos ainda este ano. os que estão numa lista extensa de leitura. os que foram lidos há muito tempo e é como se tivessem sido ontem. os que foram lidos e não resta uma linha, mas que ficaram para sempre cravados em mim. os livros que aterrorizam porque foram lidos. os que atormentam porque não foram. 

e o inclassificável. o imponderável. o que não tem fim. o que é uma herança.
.
...
.
existem os livros. 


** para Aline, que me pediu. com amor. para que eu não esqueça. e ela saiba.


sábado, 31 de dezembro de 2016

retrospectiva [quase] sem querer



eu sempre levo a câmera para os dias de sossego [estou mais a fim de sossego nos últimos tempos do que propriamente de férias]. alguns hiatos porque ninguém é de ferro e eu tenho estado muito cansada de tudo. quer dizer, não de tudo. e  mais do que me faz falta. eu sinto saudades::: saudades de mim, da leveza que me guiava. sempre levo a câmera, mas sempre tiro menos fotos do que penso que vou tirar.agora, não foi diferente. agora que cheguei de nove dias de sossego.

o ano foi difícil e isso todos sabemos. quer dizer, eu quero crer que quem eu conheço e passa por aqui vez ou outra são daquelas pessoas que sofreram com tudo que se passou no Brasil. para mim, foi devastador. e continua sendo. por vários meses, fui mais espectadora dos acontecimentos do que propriamente autora de minha vida. tive que me conectar outra vez para acompanhar a política brasileira. preferi sempre os "ao vivo". mas fiz questão de me manter bem longe da rede Globo, como faço há mais tempo do que consigo me lembrar. e as poucas vezes que topou de bater meu olho, foi aquele assombro. um enojamento sem tamanho.

mentira. ou quase. eu assisti a Velho Chico. quase toda. minha amiga Lilian me levou a essa novela. e ela tem tanto fascínio por novelas que eu, por fim, me rendi. e achei toda bonita. toda toda. não acreditava que a novela não tivesse a audiência esperada. como pode? tanta belezura! mas, claro, faltavam as gritarias, os nus, as longas sequências nas camas; tudo que hoje é a tônica das novelas, pelo pouco que consigo ver aqui e acolá.

daí que chorei quando Montagner morreu. chorei demais neste ano. chorei por Dilma. chorei em todas as etapas do golpe. e muito. e sempre. choro de revolta e de ódio. desacreditei de vez das instituições. cartas de baralho desmonumentalizadas. e desacreditei de muita gente. infelizmente. e senti que era hora de desacelerar. de parar com a obsessão do trabalho. e consegui muito.  

daí, uma retrospectiva é impossível, mas é sempre tentador puxar os fios.

Poeminha continua crescendo. e continua lindo. agora, grita bem mais. e nos últimos dois meses, tenho descuidado das nossas leituras. ele descobriu outras belezas, à minha revelia. mas de certa forma, com minha anuência. continua apaixonado por bonecas e bonecos. e é um grande inventor de histórias e de cenários. perdeu parte da delicadeza para agregar teimosia e impaciência. eu também fiz algumas bobagens, porque perdi parte da minha paz. como já disse, espectadora. mas nunca perdemos a delicadeza dos muitos gestos ao longo das horas dos dias. o que meu filho mais ouve de mim ainda é "que sorte, que sorte, você existir". ou a minha pergunta mais que retórica: "quem você é?", cuja resposta vem fácil: "seu amor e seu filho". sim, meu amor e meu filho. a maternidade me é leve. e é ainda o que de mais bonito tenho.  o que eu e Tatupai temos.

neste ano que Tatupai voltou, foram tantos os momentos bonitos. ainda há muitos silêncios. e muitos ditos. e a ser dito. mas eu me peguei muitas vezes com o mesmo pensamento de quando tudo era bonito::: eu gosto de estar casada. de ter uma casa. de ter uma família. de estar com ele. de estar-em-dois.

de novo, foi um ano de poucas leituras. e isso definitivamente, é o que eu tentarei mudar neste ano que já vem aí. e de pouca escrita. tanto aqui quanto em outros lugares. e no entanto, lembro dos dias bonitos em que estive próxima da escrita Laura Erber::: Esquilos. e de tudo que ela me indicou. são sempre bonitos os dias de escrita. e das leituras que a escrita exige. houve também outros escritos. os projetos "vagalumes". e os inícios. e os desejos. e as aulas. se eu tivesse que falar de um livro apenas, eu escreveria o título: De A a X, de John Berger, porque dentre tantas, encontro esta frase:


Não pode haver erro maior do que acreditar que uma ausência é uma inexistência. A diferença entre as duas  é uma questão de cronometragem. (Sobre a qual eles não podem fazer nada.) A inexistência vem antes, e a ausência, depois. às vezes, é fácil confundir as duas; por isso, algumas de nossas dores.

e neste ano, teimei muito comigo mesma de uma teima bonita. foram muitas as tentativas de destituir-me do descuido comigo mesma::: entregar-me às massagens e descobrir que isso realmente é bom. ter alguém com nome para cuidar de mim; foi isso que encontrei no ano passado e que cultivei ao longo de todo esse ano, mesmo quando tive que deixar as massagens por falta de grana. e houve outras tantas tentativas: pilates, caminhadas, corridas, bicicleta.descobri uma doença no meio disso tudo. encontrei o nome da doença. e guardei apenas uma frase do médico: "no dia que você caminhar, você não sentirá dor; no dia que você não caminhar, sentirá dor". heranças. uma família quase toda com essas doenças de ossos. mas resolvi tomar emprestada uma frase do meu tio Tontonho para ver se emprenho em mim a frase do médico e me reinvento de vez ::: "eu morrerei com esta doença, e não desta doença". pois. quanto ainda há a ser feito, quando tem que ser feito. 

e houve a viagem. e houve o encontro ainda a se concretizar com o MST. e houve a outra viagem. e houve o projeto "Respeite minha história"; quase no fim do ano. por isso, puxar os fios é tão tentador.
.
.
.
imagem: nas ruas de Sampa, eu fotógrafa.


sexta-feira, 26 de agosto de 2016

A responsabilidade da forma - ainda a abertura das olimpíadas


 Agora que a pira olímpica já apagou, sob chuva e música de Marisa Monte, me dá vontade de tratar, de forma extemporânea, um pouco sobre a abertura das olimpíadas em contraponto com o seu encerramento. --- nada demais. duas ou três palavras para guardar. 

Assisti com prazer à abertura e emocionei-me em vários momentos, como teria me emocionado diante de qualquer espetáculo bem realizado, e também tive fastio em outros momentos, como em qualquer espetáculo muito longo, sempre mais propenso a altos e baixos. E poderia acabar aí o que eu tinha a dizer, uma vez que não pensei na abertura como uma prova de capacidade, de transfiguração, de heroicidade, de representação do Brasil e do povo brasileiro. 

Aliás, tive ímpeto de assistir porque sabia previamente que havia ali uma assinatura, ou melhor, assinaturas de artistas que admiro desde muito. Poderia mesmo dizer que foi por conta de Deborah Colker, que coordenou a coreografia, assim como já me dispus a fazer um trajeto de mais de duas horas, com direito a pegar metrô, ônibus e táxi, para assistir ao seu espetáculo , no Teatro Alfa, em São Paulo.  

Talvez por conta desse "ímpeto das assinaturas", não tive muita paciência diante das inúmeras críticas negativas que surgiram em nome do que chamaram de "estetização", "espetacularização", "apoliticismo", advindas de diversos setores e, sobretudo, do artístico. Como acontece muitas vezes, quando vejo críticas desse tipo, que exigem uma posição do artista que responda a anseios de palavras tão gastas como "conscientização", "responsabilidade política", lembrei-me de uma ideia também muito gasta, mas cada vez mais em desuso na nossa crítica tupiniquim, a qual propaga hoje por uma responsabilidade do artista geralmente ligada à concepção de que este deve se manifestar sobre as mazelas do mundo de modo direto e cru, como se estivesse dado o que seja "direto" e "cru". 

Lembrei-me, pois, de Roland Barthes e do tipo de responsabilidade que ele propunha, quando escreveu que "a escritura é ... essencialmente a moral da forma". Ao apontarem que o espetáculo comandado por Andrucha Waddington, Daniela Thomas, Abel Gomes, Fernando Meirelles e Deborah Colker foi revestido de contradições que o levavam, de imediato, à impostura artística, não pude deixar de pensar que a exigência hoje não é pela responsabilidade da forma, pela depuração da linguagem própria do artista, mas, sim, pela anulação dessa linguagem em prol do grande alarido do mundo, que exige cada vez mais uma "correção" das linguagens. 

O que me parece mais perverso nesse tipo de exigência é que ela aparece apenas quando se aponta o que o outro faz, não se sabendo distinguir o que seja da ordem da posição do artista e do que seja da ordem da linguagem de sua obra. Qualquer um que conheça os trabalhos de Andrucha, Daniela, Abel e Fernando, facilmente reconhece ali a "Natureza" de suas linguagens; há mesmo releituras explícitas do que já fizeram em outros trabalhos. As exigências, portanto, situaram-se para além dessa "natureza", apesar de ser contra esta que as vozes se elevaram. Então, é uma crítica que não analisa a obra em si, mas "como" ela deveria ser segundo os ditames do "tempo". O que não se percebe é o quanto isso constitui um fechamento nas possibilidades artísticas que, em última análise, afetam a todos os artistas. Uma foto que circulou muito no Facebook, na qual se tinha a visão de um grupo de pessoas em um barraco vendo ao longe o espocar dos fogos no estádio olímpico, virou o signo do que parecia ser a "irresponsabilidade" de tal festividade diante da precariedade do real.  Fico imaginando escritores, músicos e tais que, no dia a dia, exercem um trabalho de crítica sobre o que acontece no meio político e artístico, mas que em suas obras resvalam para outras discussões em que não expressam claramente esse vínculo crítico-criador e muito menos essa "precariedade do real". Queimaremos todos esses artistas ou consideraremos apenas o seu trabalho crítico? É esse tipo de escolhas que se coloca sub-repticiamente no tipo de crítica que exige uma abertura das olimpíadas mais política, menos festiva, que dessacralizasse a idealização da formação do Brasil. 

As contradições foram muitas: o tom ecológico (uma desfaçatez diante do fato de que não se foi capaz nem de despoluir a baía de Guanabara); os negros em cima dos navios negreiros estilizados, acompanhado da troca de "escravidão" por "força de trabalho" (o que me fez perceber com estupor que a "narrativa" eleita sobre a abertura era a das narrações da Globo, que deveriam ser vistas apenas como uma dentre as tantas narrativas possíveis e, provavelmente, a mais irrelevante); as passadas largas e estilizadas de Gisele Bündchen sob o som de Tom Jobim (mas quando, no ensaio, ela era interpelada por um menino de rua, levantaram-se de imediato a denunciarem preconceito, impondo assim apenas as suas passadas); Anitta no meio de Caetano e Gil (e me vieram pelo menos meia dúzia de cantoras "duvidosas" que já estiveram ao lado dos dois).
 
Todas essas críticas podem ser justas e não descarto a sua necessidade. O que me impede de ver nelas uma via possível de crítica para pensar a cena cultural brasileira é o fato de que não me parece dizer respeito à proposta da abertura. É certo que a estereotipia é como uma espécie de recalcado, mas me parece inegável que havia ali o desejo de fuga da estereotipia tão marcada na festa de encerramento da carnavalesca Rosa Magalhães - do qual a crítica feroz aparentemente silenciou. E viva Carmem Miranda e suas bananas! Viva a força do direto, sobre o qual não é preciso nem mesmo falar.

 --------------

De Barthes: "Colocada no cerne da problemática literária, que não começa sem ela, a escritura é [...] essencialmente a moral da forma, é a escolha do domínio [em francês: l'aire] social no seio do qual o escritor decide situar-se na Natureza de sua linguagem."




 

terça-feira, 12 de julho de 2016

68ª reunião da SBPC - um outro registro





nos tantos anos que escrevo neste blog, algumas postagens causaram polêmica. e geraram tantos outros discursos. e sempre optei por não responder. um texto que gera outros textos a ponto de se perder é o que deseja todos que escrevem. mas quebrarei um pouco essa “regra” em razão do cuidado com algumas pessoas a quem respeito e que me interpelaram de modo igualmente cuidadoso, mostrando-me outros pontos de vista que me escaparam. e não pretendo que esse texto se configure como resposta aos que me detrataram em suas páginas pessoais ou mesmo na página coletiva da UFSB em rede social. ainda que me cheguem as notícias, não me interesso por esse tipo de contenda. meu esforço, desde sempre, tem sido pela construção do pensamento. por isso, tal texto é sobre o mesmo assunto  em outro registro de linguagem. 


minha crítica dirige-se à concepção que norteia a organização das reuniões anuais da SBPC, e não apenas a esta; reuniões que, dada a sua importância, recebem um alto valor do governo federal, devidamente registrado no Diário Oficial da União. não são recursos escusos nem indevidos, assim como seus usos também estão à mostra, seguindo a publicidade obrigatória referente a esses tipos de recursos. tanto o repasse como o seu uso são de conhecimento público. é só buscar no Diário oficial, no portal da transparência, que está tudo lá. fica a dica. 


antes de tecer a minha crítica, analisei a programação científica da SBPC, comparando-a com outros eventos de grande porte da grande área de Letras/ Linguística; eventos com mais de uma dezena de conferências simultâneas, mais de uma dezena de mesas-redondas simultâneas, com programação cultural, sessões de comunicação e de pôsteres etc.. e concluí que, embora a programação científica da SBPC pareça gigantesca e diversificada e sua composição advenha de diversas associações, não é maior do que a desses outros eventos, que são igualmente problemáticos no tocante à espetacularização e à monumentalização, mas que, nem de longe, recebem o mesmo apoio financeiro da SBPC. e além disso, fiz uma conta simples: quantos eventos poderiam ser realizados, em diversas universidades brasileiras, inclusive aqui, se pensarmos que a média de apoio de um órgão como o CNPq no custeio de eventos de pequeno/médio porte é de 20.000,00 e de grande porte, 100.000,00. é só fazer as contas. 


o que denominei de espanto não se refere, portanto, ao valor em si, como uma espécie de defesa do não uso do dinheiro público, mas trata-se de repensar as suas formas de uso. refiro-me, portanto, ao que chamei de “indefinição” do que seja, de fato, a questão primordial da reunião da SBPC, se crermos no que está dito na página do evento: “a Reunião Anual da SBPC é um importante fórum para a difusão dos avanços da ciência nas diversas áreas do conhecimento e um fórum de debates de políticas públicas para a ciência e tecnologia”. a meu ver, essa falta de indefinição notória entre o que se propõe a ser e o que, de fato, é gera um descompasso visível entre o que se gasta para erguer a sua estrutura de megaevento (grandes tendas, praças de alimentação, construções etc..) e o que se gasta com a programação científica (hospedagem, alimentação, diárias para conferencistas etc..). 


em outras palavras, minha reflexão parte de um posicionamento político de quem acredita que é preciso questionar essas estruturas de megaevento acadêmico, científico e mesmo artístico-cultural, não apenas pelo fato de ser dispendiosa, mas porque não atinge seus propósitos no alcance devido. a comparação com a Bienal de Artes e com a Flip não foi por acaso. são também megaeventos, ainda que cada um tenha propósitos distintos, imprescindíveis para suas áreas; importância que não oblitera – pelo contrário, deveria enfatizar – os questionamentos feitos, muitas vezes, por aqueles envolvidos em sua concepção e construção, em busca do redimensionamento de seus traços composicionais. 


não se trata de requerer as suas extinções, e sim de reformular suas políticas. minha crítica não coteja o fim de nenhum desses eventos, embora partilhe pontos em comum com quem defende tal posicionamento. o que está na base de minha crítica é o desejo de reconfiguração do que está posto como modelo de megaevento acadêmico-científico e, se esmiuçada, chegaria, sim, aos modos de recepção dos estudantes da educação básica. o que se apresenta como inclusão – ainda que absolutamente necessária e proveitosa – é, a meu ver, apenas um “roçar” de corpos que não se juntam de fato. explico para não enveredar pela linguagem metafórica: diálogo, discursividades em trânsito, trocas aconteceriam se professores e estudantes da educação básica estivessem, por exemplo, inseridos nas discussões da programação científica, e não apenas como ouvintes, mas, sim, com cadeira garantida nas grandes mesas de discussão. ou se estivessem ali para serem ouvidos, ou para escutarem, a respeito das políticas públicas destinadas às ciências e tecnologias. enquanto forem apenas visitantes a interagirem com o que parecem ser “brinquedos tecnológicos”, quando são, muitas vezes, objetos manipuláveis resultado de pesquisas sérias e substanciais, aparentemente será apenas isto: um parque de diversões onde meu filho de seis anos se divertiria muito. e sim, meu filho tem seis anos e, por inúmeras vezes, pensei no quanto ele se divertiria ali (só não o levei porque coincidiu com a sua viagem de visita à bisavó). 


ao contrário do que normalmente se diz, sessão de pôsteres é uma forma muito questionável de inclusão, pois é óbvio que o modelo de “exposição”, de “apresentação” não funciona no que deveria ser espaço de debate, de diálogo.  há centenas de artigos científicos que questionam esse modelo. fica a dica. é um meio, sempre incompleto e imperfeito, criado, justamente, quando os eventos acadêmicos foram ficando cada vez maiores, para supostamente dar voz àqueles que iniciam pesquisas ou aos pesquisadores a quem nunca darão assento nas conferências e mesas-redondas. ou seja, foram pensados para propiciar um espaço, ainda que exíguo, aos que, de fato, pagam parte da estrutura do evento por meio das inscrições. não deixa de ser, assim, apenas uma das estratégias para garantia de público. e os estudantes, os pesquisadores, devem saber disso não para se sentirem diminuídos pela participação nessa modalidade, mas para batalhar por outros espaços de participação em vez de ficarem apenas agradecidos e acomodados com aquele ter-lugar. o nome disso é consciência política.  


nos campos de força constitutivos de eventos acadêmicos, sessão de pôsteres é menos do que sessões de comunicação e, estas, menos do que conferências e mesas-redondas. e não fui eu que atribuí essa carga valorativa precária e injusta; pelo contrário, desde o primeiro evento que organizei, há mais de vinte anos, como estudante de Letras, rompi com esse modelo. guardo até hoje as fotos que mostram que quem teve assento na mesa de abertura fomos nós, então estudantes, organizadores do evento. não havia uma única “autoridade” acadêmico-administrativa, embora o financiamento tenha vindo da instituição. e também guardo as fotos em que os estudantes falavam sobre suas pesquisas no mesmo auditório, na mesma mesa, em que os professores convidados palestravam. e não foram ações por acaso. eram, então, decisões políticas, que faziam muito sentido naquele momento de reivindicação de direitos. e como organizadora de eventos acadêmicos, avancei sempre mais na ruptura desses modelos preestabelecidos de eventos, misturando, por exemplo, numa mesma mesa-redonda convidado estrangeiro e aluno de graduação, e não apenas como apresentador, mas como debatedor; pondo aluno de graduação como conferencista e tantos outros gestos de tentativa de ruptura da engrenagem maquinal que compõe os eventos acadêmicos-científicos. 


acato as opiniões dos que disseram que fechei o meu texto apenas na crítica, não abrindo espaço para o que foi relevante e, mesmo, distinto. com isso, deixei de proteger as pessoas que trabalharam para erguer a SBPC. e talvez não o fiz, justamente porque eu era uma dessas pessoas e não achei que precisava de defesa, porque minha crítica não se dirigia a elas, que, em última instância, eram também eu. se eu dirigisse uma crítica a mim, só poderia ser uma: o fato de ter participado, se tenho tantas críticas ao modelo do megaevento acadêmico-científico. sei exatamente por que me envolvi na organização: porque, desde o primeiro momento, achei de uma importância fundante e simbólica que a SBPC se realizasse aqui, numa universidade recém-criada devido à política de interiorização do ensino superior. parecia-me então um movimento de resistência muito bonito para que eu abdicasse de fazer parte dele.


porém, creio agora que não aproveitamos tanto quanto poderíamos. a SBPC deveria ter sido pensada, por nós da UFSB, como um grande fórum de resistência ao golpe democrático que sofremos. vem daí também meu espanto com o ar festivo de comemoração. não poderíamos ter feito do nosso solo acadêmico um espaço de comemoração nesse momento histórico que atravessamos: deveria ter sido um solo de resistência, de provocação, de luta, de reivindicação. não tínhamos nada a perder e muita dignidade a ganhar, se assim tivesse sido, pois reforçariam as construções discursivas que sustentam algo como a Formação Geral desta Universidade, como espaçotempo de construção de pensamento crítico em relação ao estado de coisas contemporâneo. essas lutas, reivindicações, resistências, podem, sim, estarem entranhadas numa grande festa. tanto melhor, se estiverem. mas é preciso proferir essa resistência, senão resta apenas a festa. é preciso dizer por que se festeja, como fizeram as mulheres do bate-barriga de Helvécia ou o grupo de boi-bumbá, de Eunápolis, que localizaram politicamente seus festejos como atos políticos de resistência ao apagamento de suas histórias. provavelmente, tantos outros a que não assisti fizeram o mesmo. em gestos assim, estão as grandes lições. e nós, festejamos por qual razão? somente por que a SBPC veio para nossa recém-construída universidade? para mim, é pouco, muito pouco. 


e não. os movimentos de resistência que aconteceram não foram criados por nós, mas por alguns daqueles que vieram de fora. uma professora convidada, espantada, disse: “achei que chegaria aqui e haveria faixas contra o golpe em todo lugar”. e estendeu sua faixa solitária bem à vista dos nossos olhos aparentemente acometidos de cegueira histórica.  e presenciar isso, como professora da UFSB, reforça ainda mais minhas convicções que, tantas vezes, têm entrado em confronto com outras convicções. igualmente válidas, indubitavelmente, mas com as quais não posso compartilhar, senão dialogar, se for possível a criação de um espaço dialógico ético. 


apesar de não me considerar avara em elogios, aclamações, confirmações, não acredito que políticas públicas substanciais advenham daí. por exemplo, toda e qualquer mudança nas políticas públicas de educação é resultado da luta, da vigilância atenta aos mecanismos dos micropoderes que trabalham para a supressão desses direitos. nesse sentido, teríamos muito a aprender com um movimento como o do MST, sempre atento à própria formação política. é o fato de estar na UFSB, e acreditar no seu projeto, que me leva a atentar para os seus pontos críticos. é o fato de ter participado da SBPC que me permite lê-la do modo como eu a li. engana-se quem pensa que o não-questionamento edifica qualquer construção; serve tão somente para a monumentalização. perseguir a diferença entre construção e monumentalização talvez seja o caminho para que as discussões não descambem para os personalismos, o deboche e a desclassificação dos sujeitos que falam.  e acrescento: não tenho nada contra o kitsch na sua potência de subversão, de crítica, mas tudo contra quando perde essa potência e resta apenas o modelo desfigurado.


era a algo assim que me referia quando falei, logo no início do meu texto, sobre o fechamento da UFSB, o qual sua hospitalidade festiva não escondeu. sempre quando me deparo com alguma ação de extrema incoerência, eu sinto falta da presença do conselheiro, no sentido lato da palavra. quem me conhece, já me ouviu com cara de espanto, muitas vezes, a perguntar: “não tinha ninguém do lado destas pessoas para aconselhar a não fazer isto?”. foi exatamente isso que pensei quando vi toda a programação paralela construída pela UFSB para tratar tão somente da sua atual situação política. não sou contrária a esses fóruns de discussão, mas, no meio da SBPC, sendo a anfitriã, pareceu-me  inapropriado e oportunista, uma vez que estávamos ali, ou deveríamos estar, para tratar das questões propostas pela SBPC – propostas nas quais a UFSB teve participação, se acreditarmos no que disseram os organizadores em diversas ocasiões. ao invés disso,  propuseram, intempestivamente, uma programação extensa para tratar de nossas questões internas, a ponto de gerar um documento de conciliação com o governo ilegítimo, ainda que transmudado de reivindicação. é só ler para averiguar.


e para mim, o virar às costas simbólico (porque evidentemente eu sei que muitos professores e estudantes participaram também da programação oficial da SBPC) advém de um discurso que se tem difundido na UFSB e tem causado muitos danos e equívocos; que é o discurso que, ao traçar uma linha histórica da universidade brasileira, coloca a UFSB como um marco divisório, muito à frente de qualquer outra. é um discurso tão sedutor quanto falso. e o seu equívoco advém, sobretudo, desse traçado linear, quando todo o esforço da História, como disciplina, tem sido negar essa ideia de linearidade. somos, sim, uma universidade com um projeto instigante de ruptura a alguns dos paradigmas que construíram não apenas as Universidades brasileiras, mas a ideia de Universidade que as sustenta, porém não estamos à parte dessas Universidades, nem rompemos, ainda, com muitas dessas ideias. E as provas pululam por toda parte ante nossos olhos espantados. e esse lugar distinto da UFSB, ainda que exista como porvir, não deveria nos levar a desprezar todo o saber agregado até aqui por essas outras instituições. reconhecer isso não nos diminuirá em nada como instituição e negar tampouco nos engrandecerá. muitas das ações que buscam construir nosso projeto diferenciado de universidade já foram pensadas e testadas em outros espaços educacionais, resultam de lutas travadas e avanços alcançados em outras arenas. não se originaram de um único ser demiurgo e visionário, mas, sim, são resultado de uma série de outros espaços de luta, de reivindicações que germinaram no interior das universidades públicas brasileiras. 


por isso, eu me pergunto constantemente a quem serve esse discurso de originalidade e vanguardismo. e fazer essas perguntas não deveriam me colocar num lugar caricatural de inimiga. é também um construto discursivo que interessa, ou deveria interessar, tão somente àqueles a quem o questionamento incomoda. a quem interessa a não crítica à SBPC? certamente, a sua presidente, que diante da discordância armou o circo que inevitavelmente só poderia reposicioná-la ainda mais forte no lugar que ela provavelmente nunca pretendeu abandonar. circo noticiado na página da SBPC de uma maneira que deveria nos causar indignação. compreender essas sutilezas talvez nos ajudasse a perceber que a crítica que teci talvez devesse interessar a toda universidade anfitriã da SBPC, que recebe um modelo pronto no qual tem muito pouco espaço de representatividade. 

lembrei-me, agora, da expressão ouvida do conselheiro Joelson, quando ele afirmou que ia  “arrombar as portas”, e não ficar indefinidamente agradecendo porque supostamente a Universidade resolveu abrir as portas para seu povo. e isso advém da sua consciência de que ter-lugar não é algo dado; é construído por meio de gestos de luta. e ainda na sua lógica, sei que isso exige tempo. e é preciso considerar esse tempo. no entanto, é preciso construir esse tempo no agora. resta saber quantos de nós estamos preparados para tamanha responsabilidade e tamanha percepção histórica
.
.
.