sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Sobre Cindy Sherman, escrito em 2006

(E por falar em arte contemporânea, lembrei que tinha escrito sobre Cindy Sherman, quando  eu conheci a sua obra, em uma exposição no museu Jeu de Paume, em Paris. Ela está no livro As vidas dos artistas. Foi o primeiro perfil que eu li. E me deu uma alegria  danada ler. Começa assim: "Muitas vezes as pessoas se surpreendem que alguém tão agradável como Cindy Sherman possa ser uma grande artista. Com agradável eu quero dizer gentil, modesta, simpática, atenciosa, tranquila - qualidades que geralmente não associamos ao ego artístico". Tudo bem que eu não sou nada policialesca: os enfant terribles da arte são absolutamente necessários... mas é bom saber que por trás de uma obra como a dela existe uma pessoa encantadora, daquelas que se sente vontade de ser amiga). 

Enfim, segue aí  o texto que fiz sobre ela. E: todas as vezes que leio o blog daquela época, lamento por ter "perdido" aquela linguagem. Gosto muito dos cortes abruptos, da pouca reverência à gramática das frases... Agora estou "factual" - talvez porque a vida seja mais feliz, mas nada interessante no sentido de vivências culturais (o que me faz uma falta de doer!). Essa constatação daria uma boa conversa - e deu: noites dessas, com um amigo no msn, eu dizia o quanto estou feliz, embora essa felicidade diga respeito tão-somente a minha vida pessoal. 


Terça-feira, 25 de julho de 2006

CINDY SHERMAN


A literatura é o essencial, ou não é nada. O mal - uma forma aguda do Mal - do qual ela é a expressão, tem para nós, creio, valor soberano. Mas essa concepção não pede a ausência de moral, ela exige uma "hipermoral". [Tradução tosca - minha - de um fragmento de A literatura e o mal, de Georges Bataille]

Alguém conhece a Cindy Sherman? Eu não a conhecia antes de uma fila imprevista... Ela é fotógrafa; e a fotografia é tratada como arte menor, ou não-arte, mesmo que ela nos tenha dado Mapplethorpe e Salgado. Aí fica mais difícil conhecer = minha já conhecida indignação!

A Cindy é... poeta-cineasta-escritora, sendo fotógrafa. Saí tonta da sua exposição: suas fotografias mexem com a sensibilidade e a memória, evocando imagens do cinema, da pintura, da literatura sem que seja possível chegar a uma conclusão se de fato são apenas evocações ou fotogramas. Na recusa de ser simples mimetismo, os tipos, as personas põem em evidência a cópia - Cindy n vezes copia e se copia. Numa fileira de fotos de "personas", dá para ver também o fio da máquina que permite a fotógrafa ela mesma se fotografar. Escancaramento do "método" a revelar a pose previamente trabalhada no (auto)-retrato - toda e qualquer tentativa de dizer sobre si passa pelo performático e, por outro lado, estar em relação estreita com o outro - a busca de si e do outro = a minha tese.

A exposição ocupa o museu inteiro (Jeu de Paume) e segue a ordem cronológica; é espantoso e inquietante observar como a artista vai cada vez mais fundo na exposição do grotesco, do animalesco - como se a paixão e a loucura se apossassem aos poucos do seu "corpo", adentrando no que antes era apenas moldura crítica. Não há apenas jogo, simples representação; há todo um mal estar espalhado: mesmo nos auto-retratos que indiciam as musas do cinema, parece-me, está à vista um olhar duro e severo sobre a contemporaneidade, no que esta tem de efemeridade, de mutações que privilegiam a persona, e não a pessoa.

De uma a outra sala, o mal estar ganha corpo e incorpora outros corpos: o corpo humano, antes tendo como suporte o corpo da fotógrafa, é substituído por próteses com buracos em pontos estratégicos [a prótese = o que hoje não o é?]. E ainda há os palhaços absurdamente tristes nos seus sorrisos = o incômodo do clown - o meio riso. É o próprio fantasma da (não)identidade. A violência extrema de uma perda que é, à revelia, a nossa própria face.

Embora eu nada saiba de fotografia, sei que não é a primeira vez que rosto e máscara contracenam: Man Ray já o fez, mas por um procedimento diferente. Em Cindy, há a junção, como se dissesse: não há rosto sem máscara: é a constatação de que só a arte pode nos fazer crer sem que haja discurso panfletário - a grande sacada é o fato de seu corpo ser o lugar da crítica ácida, o que a retira do lugar cômodo da isenção. Admirável num tempo em que todo discurso de "denúncia" acaba por eximir-se de qualquer participação no estado das coisas.

Não sei nada de Cindy Sherman: escrevo sobre o que vi ou penso que vi: e me abalo pela constatação de que é no horror que habita o meu conceito de arte: o belo me encanta, sim, mas quando nele há o espaço do feio, grotesco, desumano, mal; quando traz em si uma carga de negatividade ou de paixão indizível. Seja em Farnese com suas bonecas queimadas enclausuradas em transparência, seja nas mãos cortadas da Louise Bourgeois (que descobri casualmente andando pelo jardim do museu enquanto conversava com a Mari), pressinto que meu olho desatento me leva à dor, à estranheza do abjeto. Quem pode me salvar? As linhas brancas de Brancusi? As ninféias de Monet?, pergunto-me quase trágica, quando me recordo (e associo a Cindy) das violetas podres de Lúcio Cardoso e do cheiro de mijo e de merda das sarjetas de Jean Genet. E mais uma vez experimento o prazer que senti ao ver, ler e sentir tudo isso pela primeira vez.

De repente, sou invadida por uma espécie de gratidão a Cindy Sherman = com tanta imagem no mundo, ela nos acrescenta estas - difíceis de ver - mas absolutamente necessárias.
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terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

As vidas dos artistas, de Calvin Tomkins

Eu já disse por aqui que gosto muito de arte contemporânea. As minhas andanças pelos museus da Europa deram-me a certeza de que, apesar de admirar a pintura clássica, são as loucuras da arte moderna e  contemporânea que me deixam sem prumo. Então, quando eu li uma resenha do livro As vidas dos artistas, de Calvin Tomkins, soube de imediato que precisava lê-lo. Porque os artistas a que se referem o título podem ser considerados os nomes mais expressivos da arte contemporânea: Damien Hirst, Cindy Sherman, Julian Schnabel, Richard Serra, James Turrel, Matthew Barney, Maurizio Cattelan, Jasper Johns, Jeff Koons e John Currin.

Se eu não tivesse um filho para criar, teria lido de uma sentada, como se diz. Calvin Tomkins, um dos principais críticos de arte, durante uma década, escreveu na revista The New Yorker, esses perfis agora traduzidos no Brasil. E o fez de modo arrebatador. Ele parte da premissa de que a vida dos artistas têm a ver com a sua arte, renegando o preceito estruturalista de que só a obra interessa. No entanto, o que é interessante é que ele não escreve estas biografias atrás do choque do escândalo. O que ele faz é desmistificar o escândalo da vida (as bebedeiras, os egos inflados, as brigas, as disputas) para que o escândalo das obras fique intacto. Fica evidente que Tomkins admira estes artistas. Talvez seja mesmo mais que admiração. Seja amor. 

E talvez seja isso que o livro nos ensine: é preciso amar a arte contemporânea para admirá-la. Não é porque a arte de agora está próxima da indústria, do espetáculo, da sociedade de consumo, que ela perdeu o seu traço transgressor. Por que um tubarão conservado em formol? Uma estátua de cera de John Kennedy em tamanho natural deitado em um caixão? Por que fotos pornográficas do próprio artista? Porque pinturas com a excelência do traço clássico servindo-se a cenas pornográficas? Por que enormes estátuas de bonecos do Incrível Hulk? Que arte é esta?

Tomkins não responde a estas perguntas. O que se lê é o rastreamento de momentos decisivos da arte contemporânea. Ele simplesmente nos diz que estas obras existem, são vendidas por milhões de dólares e muitas vezes possuem uma beleza desconcertante e rara, daquela beleza que só a arte pode oferecer. 
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Meus três quilos a mais

Escrevi na minha lista de tormentos os meus três quilos. E menti. No máximo, incomoda um pouquinhoassim. Sem dor alguma, eu me vi dando uma olhada em biquinis um pouco maiores, com a firme certeza de que vou aposentar os meus tamanho P. O fato é que o corpo conta nossa história. E meu corpo conta que um menino passou por ele, que eu tenho 35 anos, que eu nunca fiz exercício algum, que eu sou uma bebedora de cerveja e coca-cola. Não que eu não seja vaidosa. Para quem um dia só usou calças e camisetas largas. Para quem um dia nem sabia que se distinguiam roupas pela marca. Para quem só alinhou as sobrancelhas aos 27 anos - a cada dia eu sou mais vaidosa. Nunca vou ser uma mulher podre de chique - até porque as podres de chique têm sempre um pé no brega-, mas tenho lá meu estilo. E ando mais exigente: sem abandonar minhas calças folgadas, acrescentei aos poucos outras peças no meu guarda-roupa: vestidos, lenços, camisas. O que eu não vou fazer é me violentar em busca daquele corpo da adolescente que eu já fui um dia. Tenho uma vida para viver. Amores para cuidar. Livros para ler. Aulas para dar - daqui a um mês volto ao batente, se é que saí! Então, se estes três quilos ficarem por aqui, que fiquem.
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segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

imagem

gosto muito desta foto. já faz tempo. nesta época, os cds ainda não tinham a estante que hoje é nosso xodó, mas os dias em que esta foto foi tirada foram dos mais felizes. é meu amigo que está nela. eu, ele e ela, em sintonia perfeita. é raro, muito raro dias como aqueles. só ocorrem com pessoas que se amam, que amam estar juntos e que amam o entorno - neste caso, música, livros, filmes.
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preguiça. 
estou ali na rede lendo.
ou andando para lá e para cá com um menino que ama braços e beijos. 
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sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Por aqui no carnaval


O carnaval passou bem ali longe. Fiquei aqui com meus dois homens e alguns livros. Já fui boa carnavalesca, mas não senti falta alguma. Melancolia, nenhuma que envolvesse as festas momescas. Lembrei de Marie e de nós na praça de Recife. Lembrei de Cy e Alberto. Mas ali já não era carnaval. Eram muito mais as pontes, Brennand, as obras, os livros, a casa linda.

Na véspera, o correio liga e avisa: ou pega agora ou só depois do carnaval.  Tudo depois do carnaval. Fomos lá, então, meninos peraltas. A alegria de pegar livros com cheiro de novo. Dia inteiro com angústia - por onde começar? Comecei assim: "Nos últimos anos de sua vida, minha mãe foi perdendo aos poucos a memória". Luis Buñuel, em Meu último suspiro. Depois larguei e fui até ao fim com A viagem do oriente, de Le Corbusier. No pesqueiro, voltei a Buñuel. Ainda o vaivém com os livros. Prometo que.

Durante todos estes dias, também não tirei a minha amiga Arev da cabeça. Sua filha casou. - aquela menina linda. O que é o casamento de uma filha? Eu quis muito perguntar, quis muito ouvir sua voz, suas risadas. Não compreendo isso que não tem cura. Não tem cura este tormento desde muito: o telefone.

No último dia, me tranco sozinha em casa e ligo para minha mãe. Nada indica nenhuma anormalidade. Talvez só a pressão forte do fone nos meus ouvidos. Depois, exausta, não consigo cumprir a lista de intenções e me enrolo toda até que eles voltem. Tem sempre algo que cala.
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Para o filho



Poeminha, de um dia para o outro, você aprendeu a emitir vários novos sons, como se os estivesse guardando para soltá-los de uma só vez. Você já resmunga um "aiaiai" impressionante. E lá vamos eu e seu pai atrás de sua dor, como se ela existisse. Dois segundos depois, já não sente mais nada. É engraçado. Cada vez mais você anseia pelos nossos braços. E cada vez mais ansiamos pelos seus. E como sorri! Já gargalha "dobrado". Sua tia Maneca foi a primeira a ter o privilégio de ouvir sua gargalhada. Agora, ri, gargalha, como se não quisesse parar mais. E está mais curioso. Descobriu que não precisa mamar sofregamente. Agora, vira a cabeça, procura algo com o olhar, e leva meu bico do peito junto... e, ao fazê-lo,  uma cara de safado, como se soubesse que faz peraltices. Se seu pai fala, aí, sim, você esquece mesmo o peito e sai à procura da sua voz. E quando encontra, abre o sorrisão. Uma delícia, filho!

E que delicadeza, filho:  você descobriu que as mãos servem para segurar coisas e levá-las até à boca. Você já parece saber o que é concentração. E carinho. Às vezes, agarra meu rosto com as duas mãos, aproxima a cabeça da minha e fica ali me segurando, me "reinando", me apalpando. E eu fico como se a vida toda fosse as suas mãos.
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sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Maus, de Art Spiegelman


Eu não li Primo Levi. Nem Hannah Arendt. Tenho muita vontade. Mas nunca dá para ler tudo que quero. Muitos acabam ficando para um depois que demora. Mas leio Marcio Seligmann-Silva e Jeanne-Marie Gagnebin - e sempre repito: junto com Marcos Siscar, quando os leio, penso: "quando crescer, quero ser como eles". Porque eles são fodas! Além  da inteligência fora de medida, escrevem muito bem. E Seligmann e Gagnebin, professores da Unicamp, têm um trabalho sobre a memória que bebe na fonte de Levi, de Arendt, de Benjamin - a memória do holocausto. Sempre a vontade de me aprofundar mais. E por que não o faço, além da falta de tempo? Porque virou moda. Hoje, na universidade, todo mundo quer falar sobre memória, sobre o holocausto - e haja repetição, diluição...  o horror!

Maus, de Art Spiegelman, que trata sobre estas questões, caiu de pára-quedas nas minhas leituras, cada vez mais aleatórias. Daqueles impulsos  que só fazem bem.  Maus é uma porrada, seja qual for a linha que se segue, seja qual for a moda. Perfurou-me profundamente. E é uma HQ! Está tudo ali.  A estrutura narrativa é muito simples - e também está na moda - mas é, como já disse, uma porrada: não há um herói. Os judeus não são heróis. O sobrevivente, menos ainda. Pelo contrário, um velho ranzinza e pão duro ao extremo - a exposição da caricatura, que se dilui como caricatura. Eu ri e chorei. E li para meu filho. E vou colocar na sua prateleira, torcendo para que um dia ele o leia.

Reconstituir a memória de um outro, no fundo, é dar-lhe um lugar no mundo, na história. É o que faz o Art, autor e narrador. Mas o que ele busca é, antes, a História. E não a história do pai. Mas apreender a História é estar disposto a enfrentar as cinzas daquilo que foi. É saber que não estava lá - e que isso faz toda a diferença, sobretudo quando se deveria ser o herdeiro daquele que lá esteve. Art explora isto - a própria história, a história do pai, a história da História, fazendo assim um relato memorável, perfurante, assustador.
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quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Sobre ser mãe e a teimosia


Cada vez me convenço mais. Não podemos oferecer aquilo que não temos. Óbvio, não? Difícil mesmo é sabermos a exata noção do que temos... ou somos. Em tempos de Internet, os nossos atos correm o risco de se parecerem cada vez mais com os dos outros. A priori, isso não é de todo ruim, afinal nos constituímos em interação com outrem. O problema, como sempre, está se não soubermos distinguir, escolher, selecionar o que verdadeiramente nos toca, nos atinge, nos auxilia. Quanto a mim, se por um lado sou influenciável, por outro tenho uma personalidade muito teimosa. Meus melhores amigos sabem o quanto sou refratária a conselhos! 

E agora, sendo mãe, sinto que ser assim tem sido primordial. Às vezes, eu. Às vezes, o outro.  No Mamíferas, a mãe-blogueira Nanda pergunta: "você conhece alguém, ou você mesma já colocou aquele CD de música clássica para o bebê ouvir enquanto dorme". Ela parece duvidar. E apesar de poder responder afirmativamente a sua pergunta, concordo com a discussão que ela levanta por lá: não dá para seguir receitas. 

Por mais que eu busque informações sobre o melhor modo de agir (e toda mãe tem mesmo que buscar informação!), não posso perder a naturalidade e começar a fazer tudo que me dizem que é bom. Birrenta como sou, posso dizer, sem remorsos, que até agora só fiz o que quis (pra variar!). É muito conselho para um só menino - perdi as contas de quantas receitas de chazinho já ganhei, e até agora Poeminha não bebeu outra coisa que não fosse o leite do meu peito. Mesmo se o pediatra me dissesse para dar outr alimento, eu não obedeceria.  E isso porque tenho convicção de que o  bebê não precisa de outro alimento que não o leite materno até os seis meses. É claro que isso vem das tais informações, mas se eu não as tivesse, o meninão que vejo a cada dia ficar maior e mais esperto seria suficiente para me mostrar que, sim, só o leite materno é suficiente.

E estendo essa teimosia a outros campos. Tenho cá para mim que uma mãe que põe música clássica para o filho só porque "ouviu dizer" que era bom, fará isso duas ou três vezes e não mais. Depois, o próprio filho vai perceber a "farsa". Quando eu era professora primária, muitas mães reclamavam porque os filhos não queriam ler, e eu sempre tascava a mesma pergunta: "Você lê?". 

E agora, como mãe, interessa-me saber o que posso oferecer. Música clássica é uma delas. Música de todos os tipos. Mas não é algo artificial. Apesar do meu ouvido sofrível, uma das minhas paixões é a música. Faz parte da minha vida, da do Tatupai. E consequentemente também da dele.

E assim com todo o resto. Nesta semana, pela primeira vez, ele fez o gesto de estender as mãos para pegar algo, e este algo foi um livro enorme de pano. Imaginem a emoção desta mãe-traça? É claro que poderia ter sido outro o objeto do seu desejo, mas o fato de ser um livro tem a ver com a educação que quero dar a ele, a qual, por sua vez, é baseada em minhas crenças. Enquanto ele não crescer para bagunçar essas crenças, eu aproveitarei, fazendo algo como: "está vendo, filho, eu gosto disto, acho bem legal, quem sabe você também...".
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segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Família e amigos é que são bons


Uma semana rodeada de carinho e atenção. Maneca e Princesa vieram. Ida, amiga do tempo das Letras, também. E veio com Irma, quase moça, que nem existia quando nos conhecemos. O apê ficou pequeno, mas ficou tão bom. É bom quando é assim: pertinho. Tudo respira amor. O que sentem por mim, estendem ao meu filho. Emoção enorme de vê-lo com a Princesa; ela, meu primeiro amor de filha. Dorme no seu colo, como se. E eu fico olhando e sentindo. E ainda aquelas longas conversas com Maneca, que conta tudo tim tim por tim tim. Tim tim por tim tim é que é bom.

Atormentam-me

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meus excessos.
os livros não lidos.
a casa quando desarrumada,
as notícias tristes do mundo.
meu francês desaparecendo.
impaciência sem razão.
saudade dos de longe.
telefone.
coca-cola.
o tempo que corre.
horas perdidas na Internet.
textos inacabados.
os não publicados.
as manhãs.
viagens não feitas.
aquele maldito.
este lugar.
os medos que agora sinto.
insônia. vez ou outra apenas.
oportunidades abandonadas.
o que não disse.
o que disse em excesso.
o que não fiz.
os três quilos a mais.
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quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Música mundana, de John Neschling

(Um apêndice antes de começar: não dá para ler Ulisses tendo um bebê em casa. O grosso volume é uma concorrência e tanto. Como diz o Bozoca: livro grande demais é desconfortável. Pesa! Então, voltei por ora às leituras menos ambiciosas. Nas madrugadas, estou lendo Um homem sem profissão, de Oswald de Andrade. Fácil de segurar. E hoje, enquanto esperava o peixe delicioso feito pelo sogro, terminei Música mundana, de John Neschling).


Sempre tive grande admiração por este homem, embora nada entenda de música clássica. A cada vez que lia algo sobre ele, relacionava-o a pessoas que muito admiro e que pautam sua vida pela disciplina e seriedade nos seus projetos de vida. Uma admiração que vem da minha vontade - e incapacidade - de ter esta mesma disciplina. Não sei quantas vezes eu e minha amiga Mari planejamos assistir a um concerto na Sala São Paulo, mas o pouco contato com esse tipo de música sempre nos impediu. No fundo, achava que Neschling sempre estaria lá. Haveria tempo. Como a história nos mostrou, eu me enganei.

O livro, autobiografia concisa,  foi escrito após a sua saída tumultuada da Osesp. Subrepticiamente, não trata de outra coisa, mas o faz de modo verdadeiro e apaixonado, contando sua vida desde os primeiros momentos de interesse pela música. Os seus arroubos, as  suas histerias, a sua fama de mal,  devem ocupar apenas seu corpo. A sua escrita é de um erudito. Um homem elegante com a sua dor. E isso me instiga muito. Se ele errou na condução da Osesp, o fez porque toda a sua vida foi pautada pela obsessão da perfeição.  Talvez seus inimigos estejam certos, e a criatura, de tanto amar a sua criação, acabou por destrui-la.  O fato é que ele construiu uma orquesta do nada. E hoje, mesmo quem não tem intimidade com música clássica, sente enorme orgulho da existência da Osesp. Não se encontra muita gente que consiga realizar um  feito assim. Não à toa as pessoas obcecadas pela perfeição reclamam de enorme solidão. Para Neschling, não existe nada mais além da música. E assim ser, tem seu preço.
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quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

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"Quem me dera que, ainda que inventadas, essas memórias fossem minhas".

In: Satolep, de Vitor Ramil.
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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

para o filho


Poeminha, a vida é um milagre. E às vezes esquecemos disto, você logo vai perceber. Porque a morte é o inverso da vida, agimos como se ela não existisse. Mas ela existe, filho. Os perigos são muitos. Por isso, ontem, eu, sua avó e seu pai demos uma choradinha depois de um pequeno tombo seu. Não foi quase nada, mas foi muito para nós. Não estamos preparados para que qualquer coisa de ruim aconteça com você. Nunca estaremos. E eu acho isto uma das coisas mais loucas de ser mãe. Não tem volta, filho. Eu sinto muito fortemente que, se você desaparecer antes de mim, nunca mais poderei ser feliz outra vez. E isso é muito amedrontador. As tantas perdas por que já passei me ensinaram que tudo pode ser superado. E que há perdas que nos trazem ganhos ainda melhores. Filho, pode-se perder um amor, aquele amor que juramos ser para sempre, que queremos que seja para sempre, e pouco tempo depois já estarmos prontos para um novo amor, uma nova história. Aconteceu assim comigo, e é por isso que você existe. Mas até mesmo pensar na possibilidade da perda de um filho é intolerável. Não há suporte. É como disse aquela atriz meio desmioladinha (no bom sentido), a Maria Paula, amor pelo filho é um amor com medo. Medo da perda. Porque o amor é demasiado grande. E assim como é intolerável pensar na perda, eu me vejo não querendo desaparecer - o que me era tão fácil. Faz dias que quero voar de monomotor com um amigo nosso... mas agora mil pensamentos me assaltam. E se algo acontecer? e se o avião cair? Mas não precisa ter medo, filho. Deixa que eu tenho. Sei que este medo vai se assentar aqui em mim. A vida é um milagre, entre outras coisas, porque vivemos como se nunca fôssemos morrer. E é assim que deve ser para que nos sobre apenas a alegria.
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terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Satolep, de Vitor Ramil


Meu caso de amor com Vitor Ramil é antigo. E é musical. Fã de carteirinha. De ir ao show, pedir autógrafo e tirar fotografia ao lado. Então, ler Satolep é uma extensão deste amor. É uma declaração deste amor. Vivo um tempo de declarações.  E este livro é também uma declaração de amor a cidade de Ramil, Pelotas. A história se faz a partir de fotografias da cidade antiga. Vemos os casarões antigos, as ruas, as praças... O preto e branco enche-nos de nostalgia. Mas a história não é nostálgica. Surpreendentemente, é quase um suspense, movido pelo fantástico, em que cada lance é decidido pelas fotografias. E mesmo com a instauração do fantástico, a narrativa é sóbria. Para o narrador, trata-se de não aceitar que a Satolep que ele vê seja ruínas um dia, enquanto que para o autor trata-se de fazer mover a memória - pessoal, insubstituível, fantasmagórica - para não se deixar vencer pela desaparição inevitável. Vê-se uma Satolep que não mais existe.

Assim, as histórias das personagens funcionam como uma forma de provar a existência do que não existe mais. O fotógrafo que retorna à cidade, renegando a casa do pai e se encontrando com personagens próprias e ilustres do Rio Grande do Sul, quer, no fundo, não se deixar vencer pelo esquecimento. Daí que a lógica das fotos não é óbvia. Elas são não "o que aconteceu", mas o que acontecerá, como se o ser humano, e só ele, pudesse refazer tijolo por tijolo aquilo que o tempo fez desmoronar. Daí a narração para interlocutores que só têm voz no último texto ser tão necessária (não vou dizer aqui que, virtualmente, somos nós leitores estes interlocutores, porque estou farta de textos que aludem ao leitor!!!) . É a narração que presentifica as fotos, que esvai a nostalgia, instalando o suspense.

Como está dito em algum lugar do livro: "o inesperado é a regra".
Queria ser aquela que fotografou a cidade da infância.
Por diversas vezes, pensei nisso.
E por diversas vezes adiei esperando ter a máquina perfeita.
Quando vou aprender que o tempo leva tudo?
E que não adianta esperar?
Queria eu escrever as memórias da minha cidade.

Seriam memórias totalmente opostas, é certo. Porque o frio, a bruma, a umidade tomam conta de Satolep, assim como o sol toma conta do Nordeste brasileiro, de onde vim. É a estética do frio de que fala Ramil e que, no livro, está na boca, por exemplo, do Cubano: "o frio geometriza as coisas", um frio que não vai embora nem quando o calor começa. Pelotas como lugar frio é uma maneira de demarcá-la como diferente, apreensível apenas para aqueles que, como o personagem Selbor, a vivencia através de seus mitos, seus homens, de uma forma particularizada e poética.
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sobre o presente



um blog é, principalmente, sobre o presente. às vezes, eu volteio pelo passado. atrás das  minhas memórias. ou são elas que vêm atrás de mim e ficam pisando em meus calcanhares até fazerem calo. e ainda assim,  fica tudo distorcido pelo presente, que é a matéria-prima desse tipo de escrita. daí por que sempre imagino mil postagens, e destas saem duas, três. o presente se impõe.
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"Muita gente anda pelo mundo sem saber pra quê: vivem porque veem os outros viverem. Alguns aprendem à sua custa, quase sempre já tarde demais pra um proveito melhor. Eu sou um desses".

Frase de Satolep, de Vitor Ramil, atribuída a João Simões de Lopes Neto, que preciso ler.
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quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

revisteiro coca-cola



Quando eu vi a ideia no blog da Mika Lins, não resisti. Imaginei logo que queria algo parecido. A caixa dela tem mais bossa - é de madeira. Mas achei esta em uma tarde maravilhosa. Vi que era a hora. Estava tão encardida, tão suja, tão jogada... Já estava carregada de histórias. Como tudo aqui em casa, tem muito a ver comigo. Afinal, coca-cola é meu maior vício. Eu nunca tive nada contra a coca-cola. Pelo contrário. Na gravidez, foi mais fácil parar de beber cerveja do que. Já no tempo da ideologia, eu achava estranho o ódio a coca-cola, que representava o ódio aos Estados Unidos e tudo que eles supostamente representam. Também não tenho ódio aos Estados Unidos - e, acreditem, sempre fui de esquerda, quando fazia sentido usar este rótulo. E ainda agora, quando não faz mais sentido, preparo-me para votar na Dilma. E mesmo assim, tenho muita vontade de andar pelos museus de Nova Iorque - e quem sabe não será em breve... A Disney, acho um horror. Mas é culpa dos brasileiros. Todo descerebrado adulto que tem dinheiro vai a Disney nas férias... Mas quando estava em Paris fui a Eurodisney... que é uma cópia pálida da de Orlando. E por aí vou - sem rótulos. Não misturar alhos com bugalhos. Não seguir as palavras de ordem, eis.


O que eu gosto é de  não ser escrava de nenhuma moda. Gosto da liberdade que a casa dá. E apenas a casa dá. Porque a casa é um parque de diversões. E pede autoria. Não pede quadro que combina com sofá. Pede a a bobeira, o trash, o kitsch.

Loucos por cinema 2

O cinema já me salvou muitas vezes. Quando era criança, imaginava-me psicóloga. Depois, jornalista. Não deu nem uma nem outra. Na época, não existiam estes cursos em Porto. Escolhi Letras - porque gostava de ler. Mas se pudesse retroceder no tempo, teria feito Cinema. O cinema já me salvou muitas vezes. Quando morei em Campinas, não conheci a cidade por causa dos filmes. Em um ano, praticamente não conheci nada. Via um, dois, até três filmes todos os dias. E isso me bastava. Em Paris,  já foi o contrário. Conheci muito da cidade por causa dos filmes. Escolhia os cinemas a partir dos lugares que não conhecia. Antes dos filmes, sempre dava umas voltas pelos arredores. Agora os filmes me salvaram outra vez. Porque é foda ficar janeiro em casa. A impressão é que o mundo todo está em alguma ilha de Caras - e nós em casa, curtindo uma conta no vermelho. Ok, não tão dramático nem tão vermelho, afinal temos o Poeminha. E evidentemente não é na ilha de Caras que quero ir, mas, sim, na lista de lugares que ainda quero ir antes de morrer). Mas  como ia dizendo, é certo que o cinema já me salvou muitas vezes. E salvou-me agora. Eu estava bem entre os livros. Mas sempre vinha uma nostalgia, uma tristeza. Até que vieram os filmes. Três noites, oito filmes. Delícia, delícia. Todas as histórias fazendo da minha uma história bonita. O paraíso, simplesmente o paraíso.
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E, claro, deu uma puta vontade de comprar um datashow, que estão cada vez mais com uma qualidade espantosa - cinema em casa. Este da foto é emprestado de um amigo. O bom é que é daqueles amigos que se pode sempre pedir emprestado. 
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terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Loucos por cinema


  • Amantes [EUA, 2009], de James Gray
  • 500 dias com ela [EUA, 2009], de Marc Webb
  • Revólver [França, Reino Unido], de Guy Ritchie
  • Valsa com Bashir [Austrália, Bélgica, Finlândia, França, Alemanha, Israel, Suíça, EUA ], de Ari Folman
  • Revanche [Áustria, 2008], de Götz Spielmann
  • Rio congelado [EUA, 2008], de Courtney Hunt
  • Bastardos inglórios [EUA, 2009], de Quentin Tarantino
  • Estômago [Brasil, 2007], de Marcos Jorge
Recomendo todos. Porque, modéstia às favas, eu entendo um pouco do babado.

    para o filho




















    Poeminha, eu te amo cada dia mais.
    Sem eufemismo.
    A cada dia, mais amor.
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    sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

    para o filho



    Poeminha, amar é tão fácil. educar é que são elas. filho, eu  temo não ser uma mãe perfeita. tenho lido alguns sites de mães na ânsia de entender o que significa este troço danado de fácil e danado de difícil. na maioria das vezes, acho-as bem melhor do que eu. embora, na sã consciência, eu saiba que  pensar assim é bobagem. é porque eu sinto que serei uma mãe exigente e às vezes ausente. amorosa, sim. muito amorosa. eu não poderia contar quantos beijos e abraços lhe dou por dia, nem quantas vezes digo que lhe amo. e cuido de você sozinha. não temos babá. e não sei quando teremos. muitas mamadas. e colos. e banhos. e arrumo você todo. você ja é estiloso desde agora (gostará de sê-lo quando crescer?). e faço massagens em você todos os dias. e me chicoteio porque não consigo acordar cedo para lhe dar banho de sol. você é cheiroso, muito cheiroso. gosto de homens cheirosos, filho. sempre gostei. e  agora você é meu homenzinho.

    eu recolho cada sorriso seu. que são muitos. você é muito, muito sorridente. já leio histórias para você. e lhe mostro o mundo colorido. hoje ficamos à beira do rio. e eu sacudi meus pés na água como você faz na banheira para que você sentisse que o rio não é mais do que a sua banheira em tamanho maior. assim não é preciso ter medo. falo isso tudo para você. falo como adulto, sem colocar os "l" no lugar dos "r". mas minha voz às vezes sai meio infantilizada. e automaticamente faço o barulho de "carrinho" que você aprendeu com seu pai e não para de repetir. enfim, nada lhe falta. meio criança meio adulta, é assim que sou com você.

    mas sou exigente, filho. não acho que deva sempre lhe dizer sim. você tem apenas três meses e eu já acho isto. é por isso que agora você chora no berço. eu e seu pai estamos tentando lhe ensinar a dormir mais cedo. é muito cedo para dormir tão tarde, filho. preparamos seu cantinho - e seguimos o mesmo ritual todas  as noites. e mesmo assim você chora. não lhe abandonamos. vamos lá de cinco em cinco minutos dizer-lhe que está tudo bem, que é apenas hora de dormir. mas ainda assim você chora. até quando? não sei, filho. mas sei que como estava, era muito difícil para mim e seu pai. horas e horas lhe ninando, balançando na rede, e você nem dormia nem ficava em paz acordado. aí resolvemos seguir o conselho do médico: "ensine seu filho a dormir sozinho". e assim tem sido. quando você finalmente resolve, crava os olhos no seu coelho e dorme gostoso. só acorda manhã alta. foi sempre assim. se alguma vez me ouvir dizer que, quando você nasceu, perdi noites de sono, pode me desmentir (logo você vai perceber que as mães adoram exagerar seus feitos!). você apenas não quer dormir cedo, embora a irritação, o choro, as mãozinhas esfregando os olhos deixem claro que você tem sono. mas não quer dormir e, por isso, chora. e chora como quem pede colo.

    poderei evitar todos os seus choros, filho? acho que não. aprender doi. existe o sim e o não neste mundo. muitos sins e muitos nãos. e eu posso estar enganada, mas tenho cá em mim que se eu lhe disser apenas sim talvez contribua para que você seja como estes seres sem vontade que eu vejo a cada dia. seres sem força, sem ação, sem paixão - engolidos pela vida de todos os dias. entediados pela quantidade de facilidades que a vida lhes ofereceu. todos os sins do mundo. nenhum não.

    nestas noites, você tem ouvido seus primeiros "nãos". é a primeira bola que lhe jogo. agora, você vai ter que aprender a dormir sozinho, no seu berço. e descobrir que mesmo assim está protegido.

    dói, filho. mas eu sou durona. e você vai ter que aprender a lidar com isso.


    segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

    Opinião de amiga

     A Kotz disse: "olha como é legal esta luminária!". E depois acrescentou: "mas o que não é legal neste apartamento?". ok, opinião de amiga não vale. Mas é bom ouvir...

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    eu não disse que ficávamos paquerando?
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    ainda agora, na varanda, a chuva cai. e nós.
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    sábado, 9 de janeiro de 2010

    Soda acústica



    conheci o soda acústica no palco do Itaú Cultural de Sampa. na época, eu não sabia, mas vivia uma solidão a dois dos diabos. pois foi assim, numa solidão a dois, que ouvi pela primeira vez o Soda. e me apaixonei por eles ali. eu e minha solidão. uma amiga me disse que o nome da banda cheirava a coisa de adolescente. mas eu garanto que não é coisa de adolescente. não o nome, e sim a música que vem da banda. esta rapaziada - Rinaldo, Anderson, André -   é pop. é jovem. é cabeça (ainda se usa esta gíria?). é uma delícia de ouvir.

    é bem inteligente sem ser pretensioso. quer dizer, às vezes é pretensioso - numas letras que querem salvar alguma coisa - demoEGOcracia. mas tem uma ironia tão boa, uma utopia tão boa, que vale ouvir muitas vezes. um som que soa diferente. pouquinhas notas. mas coisa fina - aqui e ali,  a repetição comanda e - epa - uma nota arranha  diferente, estranha, surpreendente, dissonante. um cuidado com a palavra. poesia. coisa de poeta  - adoro se "e se eu for um arremedo/ o início de um ano velho/ janeiro sem enredo"::: a expressão do nosso tempo, da nossa  hesitação diante das coisas do mundo. tem um quê de bandas alternativas. me lembram uma porção de bandas e me lembram nenhuma ao mesmo tempo - e isso se chama originalidade (mais uma palavra démodé). me lembram Arnaldo Baptista. me lembram os the darma lóvers. e como disse, lembram eles mesmos - uma consiciência musical de quem sabe por que canta, por que quer ser artista, por que quer fazer música.  

    sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

    (re)soluções do novo ano

    - voltar a assistir a um filme por dia (ao menos).
    - voltar a tirar fotografias com a mesma constância e alegria.
    - cuidar menos da casa. mas comprar uns mimos para ela que estão na lista.
    - gastar menos.
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    o bicho da seda tece. não sabe se uma colcha colorida. ou algo mais sóbrio - preto e branco talvez. agora ele trabalha bem na minha frente. paqueramos. dividimos a mesa. e a felicidade. às vezes, me deixa sozinha. eu peço. e ele deixa. 
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    quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

    bortolotto


    estou vindo agora da leitura do "atire no dramaturgo", do mário bortolotto. aquele, que levou três tiros e trouxe de volta a discussão sobre a segurança na praça roosevelt, em são paulo. aquele responsável pela tão propalada "revitalização" da mesma praça. leio o blog do bortolotto faz tempo. não teve nada a ver com os seus tiros. tem a ver com a minha paixão pelo teatro de sampa, que me faz falta como o diabo. assisti a algumas peças na praça roosevelt. o ar underground é ducaralho. eu gostaria de ter me embriagado lá mais vezes. na última vez que fui a sampa, aniversário, perambulei por lá. já faz tempo. nem eu podia adivinhar como minha vida mudaria a partir dali. talvez eu desconfiasse dada a quantidade enorme de telefonemas que recebia do Tatu enquanto perambulava, extasiada com a constatação de que nenhuma lembrança de um amor partido tirava a minha alegria de estar ali, de conhecer o espaço cultural de sampa como a palma da minha pica, se tivesse uma  - à la leminski. agora tudo acontece sem mim. mas eu engreno outras vivências. e a saudade de lá é sempre domada pela nova vida que se faz. eu olho e agradeço. eu olho e me espanto.

    mas leio que não sou besta, amém. viver como ameba nem um único dia, que por aqui o tempo pode ser curto. e se for? terei vivido tudo. estou só esperando que minha conta corrente coopere um pouquinho mais comigo para cair no mundo. difícil demais quando me faço tão indisciplinada. a disciplina é sempre tão careta. a piada aqui em casa é que eu gasto meu salário, o do tatu, meus bicos e também os dele. mas agora é novo ano e eu vou criar juízo. depois perco de novo.

    mas, voltemos.  lindo o modo como bortolotto lidou com a sua sobrevivência. ele ele ele. chorei um bocadinho. ando assim. vida longa ao dramaturgo que ele merece. vida longa à praça roosevelt e aos bêbados que passam por lá querendo respirar um pouco dessa loucura sã que é querer viver acreditando que a cultura vale - até mesmo três tiros.
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    quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

    Show do Binho e a vida



    A vida é mesmo linda. Com meu filho ficou  fácil. Nunca gostei da tristeza. Já fui triste, mas mesmo quando era deixava que meu sorriso comandasse e acomodasse as tristuras. Às vezes, basta-me um filme. Ou uma frase em algum livro. Nem isso. Só uma folheada já me faz ganhar o dia. Ou um email. Comunico-me  menos com aqueles que estão longe, mas mesmo a falta de comunicação me traz o prazer do gesto raro. Saturada das facilidades da Internet, comovo-me quando venço a mim mesma e chego até ao outro. Bebo uns goles de vinho nas quase madrugadas. Poeminha há de perdoar algumas gotas que vão para ele: "filho, vinho é tão bom, sair um pouco de si mesma é melhor ainda!". Todos em mim: mari, marie, binho, manu, maneca, jéssica, mana, arev. Tanta a distância de tantos que amo.

    Fomos ver o show do Binho em uma cidade a quatro horas daqui. Ji-Paraná. O show foi ducaralho. Bado estava lá nos violões. Mettal nas projeções. E Carlos Moreira nos poemas. Eles são desconhecidos em âmbito nacional, mas é uma turma fudida de boa. Música de primeiríssima qualidade. E são gentes raras. Amo tanto o Bado e o Binho que nem sei. Ensinam-me um mundo a cada vez. Plateia quase vazia. Ser público é para quem tem sorte. Eu tenho muita. Eu, meu filho, Tatu, o amigo dele nas estradas, ouvindo muita música e jogando muita conversa fora. A vida é mesmo linda. E depois do show sempre rola um barzinho. Eu, meio preocupada com o barulho por causa do Poeminha, mas ele dormiu entregue aos seus sonhos, e eu senti que podia ser eu mesma sendo mãe.

    Tenho seguido meu caminho. É o meu modo de me proteger do mundocão e de mim mesma. Dois, três dias sob tensão e já me vem uma vontade de esquecer tudo - tempo, tempo, tempo, salve-me. Depois do show do Binho, passamos a tarde em um hotel fazenda. No meio da floresta, escorreguei, quase ralei o joelho e lembrei do que realmente vale a pena, e por que estou aqui.
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    O cinema

    "O cinema não tem regras. Por isso ainda o amam"
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    "É preciso viver as histórias para inventá-las".

    Jean-Luc Godard, em Paixão.
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    tão difícil a reinvenção de si.
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    segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

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    3 dos 90 dias. vamosverseconsigomereinventar.
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    sábado, 2 de janeiro de 2010

    para o filho


    Poeminha, você foi a estrela do natal e da festa do ano novo. a família do seu pai em volta de você. datas importantes, filho. para mim, sempre alguma saudade. e alguma tristeza dos muitos natais que não tive. você os terá, filho. eu prometo.

    à meia-noite, eu e você vivemos um momento lindo. posso lhe garantir que vivi um dos momentos mais poderosos da minha vida (e olha que cultivo com amor momentos poderosos). saímos de casa para ver a queima de fogos. eu não queria ir. vontade de lhe proteger. como imaginei, você se assustou. com os primeiros barulhos, chorou forte. e eu, instintivamente, lhe ofereci o peito. e o peito, eu descobri, é muito mais que um alimento. é um escudo, filho. nada mais lhe assustou. nem um único movimento indicou que você ainda escutava os barulhos que segundo antes tanto lhe assustava. foi tão bonito. veja, meu filho. a sua presença, a sua tranquilidade fez dessa "virada" a mais bonita de toda a minha vida. e sabe por que, filho? porque, quando lhe protegi, me senti inteira. foi você quem me protegeu. chorei. e de pura felicidade. senti que todos os vazios ou todos os transbordamentos de ano novo foram nada se comparados com o que eu e você vivíamos ali. comunhão plena.

    nem sempre será assim, você vai ver. nem sempre poderei lhe proteger das dores do mundo. muitas vezes, você estará sozinho. em outras, não vai querer minha proteção. ou não vai precisar. mas saiba, filho, que eu descobri algo no primeiro minuto de 2010: que, enquanto eu viver, você poderá contar comigo. eu estarei sempre a postos.

    obrigada, meu filho, por existir. você e seu pai me completam.
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    terça-feira, 29 de dezembro de 2009

    Sobre os amigos ou "o que desejo"


    Eu queria fazer um texto bem especial para o fim do ano. Mas nada me vem. Eu poderia falar da leitura de Maus. Ou do cd do Otto, que amei. Ou do Soda acústica, que ouço e me orgulho como se fosse parte de mim. E nada. Fica tudo aqui. Então eu lembrei que não escrevi realmente sobre o SILIC, simpósio de literatura contemporânea que organizamos. E de como foi maravilhoso ter hospedado meus amigos Binho, Márcio e Mettal, que foram convidados para o simpósio. O SILIC foi arquitetado amorosamente pelo grupo de pesquisa. Não tivemos financiamento institucional. Um ficou no sofá, outro na rede e outro no colchão de casal que era do Tatupai antes de encontrar a Tatumãe. O que só se faz com os amigos, bem poderia ser o título. Acho que para todos foi uma grande festa, tanto que ou por necessidade ou por vontade todos deram uma "esticadinha"depois do simpósio. Poeminha ainda estava na barriga, mas foi muito paparicado. Memórias. Depois que eles se foram, foi um baque - amortecido pela chegada do Poeminha e pela vinda da minha família. Quando o apê ficou de novo vazio, e eu e Poeminha ficamos por aqui, bateu forte a solidão. E haja relembrar. Isso tudo porque Márcio, Mettal e Binho são amigos maravilhosos. Eu passaria toda a vida conversando com eles. Como é bom! Conta, sim, eles serem muito sabidos. Eu sei levar bem as conversas corriqueiras, mas, ao pensar nos "meninos", me vem a certeza de que, nestas conversas, há um certo "fingimento social", pois o que eu gosto mesmo é de partilhar saberes, sobretudo quando não há nenhum pedantismo. Quando tudo flui naturalmente. Fala-se de coisas interessantes porque vive-se de forma interessante. Nada de assuntos institucionais. Os meninos vivem no corpo os seus interesses. Não leem ou estudam ou ouvem música ou veem filmes por obrigação. Não há pose. Só entrega. E eu sinto falta disso. Sinto falta deles. E de mais um tanto de gente que conheço. Eu brinco: "será que meu filho vai gostar de coisas ou vai gostar de não gostar?". Sinceramente, eu espero que ele escolha a primeira opção. Viver como um lesma, sem gostar de gostar, é um pouco como estar morto. Tem muita gente morta por aí e não sabe.
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    Então é isto que eu quero desejar a minha meia dúzia de leitores: que gostem de gostar. Que aprendam a reinventar o seu dia a dia. Eu também quero aprender muito mais. Meta? Mergulhar ainda mais no meu paraíso artificial. Tenho ensaiado. E tem sido bom. É isto. A todos, um grande mergulho em si mesmos. Nem todo dia o céu é azul. E nestes dias, só o paraíso artificial nos salva.
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    Tenho vontade de sair pelo mundo. E às vezes cantarolo baixinho com algum espanto e algum medo: "será que eu vou virar bolor?". Sempre muitas perguntas no fim do ano, mesmo que se preencha todo o tempo. Deve ser por isso. Preencher tudo para que não sobre nenhuma pergunta. Eu gosto de perguntar. Mas às vezes, muito medo de responder. Sou muito lúcida. Sou. E por sê-lo, por vezes fujo. Viver no exílio é sempre uma forma de vivenciar a dor. E eu me sinto no exílio. Embora me sinta em casa. Contradições de que a vida é feita. Ano 10 depois do fim do mundo. Tempo tempo tempo. Ano lindo, este que está passando. Um pedaço de mim foi gerado, cresceu, saiu para o mundo e agora está aqui por inteiro. Não tem nada igual. Procuro alguma foto no hd para dizer que ainda assim algumas vezes sou só eu. Eu na minha cabeça. com minhas vontades meus desejos minhas frustrações. Mas não tenho nenhuma foto sozinha no último ano. E isso me assusta um pouco. Um bocado. Então me sobra uma foto do palhaço do cirque de soleil - um momento todo meu. Mais não digo. Divã online pede sutileza. Elegância não faz mal. E por falar em elegância, hoje eu estava no supermercado, uma gripe de dá dó, e vejo uma moça elegantíssima. Nada fora do lugar. E antes que eu sentisse inveja, ou motivada pela inveja, um pensamento me cai como um raio: "que tipo de gente se produz assim para vir ao supermercado? é o cúmulo da deselengância". Ponto de vista. Gostar de cara lavada e sandália havaiana dá nisso. Então tá. Estou lendo Ulisses. Há três dias, acordei decidida a ir até ao fim desta vez. Por que? cansei de ir de um livro a outro. Exceto Maus, nenhum de fato realmente me arrebatou. Um ou outro me encantou, me divertiu, fez passar o tempo, mas... sempre o mas. Acho que é hora de. Estou em busca, eis. Ainda sou aquela menina.
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    quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

    para o filho


    Poeminha, seu pai sempre dança com você. e sempre dança para mim. você vai ver: dou muitas risadas nestes momentos. ele e sua cara de menino maroto dançando pela casa, olho no olho esperando a minha reação. também dançamos juntos, eu e ele.

    e não há um só dia em que eu não faça o mesmo com você. eu e você agarradinhos. já cantar, não dá. tudo que consigo fazer é uns "humhumhum". não tenho voz. não tenho ritmo. mas lhe embalo como quem sabe. aproveito agora que você não percebe que não sei.

    talvez você já perceba que nunca falta música aqui em casa. eu coloco várias pensando em você. dizem que música clássica é bom para afinar seu ouvido. por isso, temos ouvido muito. chopin schubert mahler nelson freire. e também muito jazz. mas também escutamos "todo tipo". eu gosto muito de vozes femininas. seu pai gosta muito de chico buarque. desde a barriga que ele coloca para você ouvi-lo. e agora estamos ouvindo o novo cd do otto. na primeira vez, ele tocou inteirinho com nós dois na rede. muito, muito bom. ora você arregalava o olho, ora resmungava, ora chupava a mão, e já no finzinho se espreguiçou todo como quem diz "já chega".

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    coleções


    O colecionador é um escravo. É como alguém num deserto: sempre sedento. Nunca se satisfaz com o que tem; o olhar está sempre no que, aparentemente ao seu alcance, ainda não lhe pertence. O "ainda não" é o copo de água do colecionador. É o que lhe impulsiona.


    Sempre me espantam os números dos colecionadores. Ed Motta disse numa entrevista que tem mil garrafas de vinho. Um amigo meu tem uns três mil vinis. Outro, uns cinco mil livros. Eu tenho mais de mil cds. Quantos livros, não sei. Não conto. Só sei dos cds por causa da estante. Tenho vários amigos que ultrapassam a casa do milésimo em relação aos seus gostos musicais e livrescos. O número mil parece ser um número fetiche. É excessivamente tentador para um colecionador.

    Quanto a mim, considero que só tenho uma coleção: a de corujas, que anda meio combalida e está muito longe de alcançar este número. Falta muita água para matar minha sede. E acho que sempre faltará.
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    para o filho


    Poeminha, você é como a sua mãe. dorme bem tarde da noite. e durante a manhã. tem dias que só acorda meio-dia. então, quando você crescer, se continuar a ter insônia, vou lhe dar um conselho: goste da noite. é preciso gostar daquilo que lhe chega como um espanto - e de modo irreversível. não se torture tentando dormir. quando eu comecei a ter insônia passava horas de olhos arregalados no escuro. hoje passo muitas horas de olhos arregalados, mas nunca mais no escuro. você vai perceber logo: olhos servem para ver o mundo. e a noite é um mundo todo.

    pode ser em uma destas noites que você leia o livro da sua vida, ouça uma música que nunca vai esquecer, beba seu primeiro porre, passe a noite inteira conversando com um amigo ou com um amor que você nunca mais vai amar como naquela noite. ou talvez seja em uma noite assim que você veja um filme do bergman e lamente que ele não esteja mais vivo para continuar fazendo pérolas de beleza e dor.

    Pode ser também que em uma dessas noites você nine seu filho para que ele aprenda a dormir um pouco mais cedo do que você.

    domingo, 20 de dezembro de 2009

    Faça você mesma


    Eu não sou muito adepta do "faça você mesma". Falta-me criatividade e paciência para o manuseio da "coisa". Além de sempre achar tudo meio tosco. No entanto, em tempo de grana parca, com papéis se espalhando pela casa toda, "fiz eu mesma" esta estante com caixotes de supermercados e pedaços de madeira. Estes me acompanham há um tempão, desde a morada em Rio Preto. A versão anterior da estante era com tijolo, mas era muito, muito tosca. Feria demais meu senso estético. Cheguei nesta, enfim! É ainda tosca, mas me parece mais bacana. Continuo imaginando algum móvel bonito neste lugar, mas agora dá para esperar. Afinal, meu mantra para consumir menos tem sido "PRECISO ir bem ali mostrar o mundo aos meus dois homens".
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    sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

    O livro amarelo do terminal, de vanessa barbara

    "o livro amarelo do terminal", de vanessa barbara, é bárbaro (hehe! como resistir a este trocadilho infame!? só se eu escrevesse tão bem quanto ela!). eu já sabia disso antes de darem a ela o Prêmio Jabuti 2009 de jornalismo. em 2003, vanessa perambulou pelo tietê para escrever a reportagem de conclusão do seu curso de jornalismo. e deu no que deu: um livro delicioso. dizem que é reportagem. eu acho que é crônica, daquelas de dar água na boca. e uma pontinha de inveja: "por que não fui eu a escrever isto?". a primeira frase já me pegou de jeito: "A rodoviária do tietê é uma cidade de coisas perdidas". eu já disse aqui que gosto de definições. e esta é inusitada. e é assim, de inusitado em inusitado que ela vai tecendo a vida dos que passam e dos que vivem na rodoviária do tietê. esta é uma boa sacada: há uma multidão que por lá passa, mas que por lá também vive, mesmo que temporariamente: os vendedores, os balconistas, os vigilantes etcetcetcetcetcetc. e ela fala com toda esta gente. e nos conta histórias deliciosas sobre eles. as páginas são irritantemente amarelas e azuis. o projeto gráfico bem que podia ser menos exagerado. mas isso é o de menos. importante é que o leitor se diverte e aprende. muitas historinhas de bastidores. tem espaço pra tudo: até pra desancar seus colegas de jornalismo, em uma seção intitulada "a imprensa". nela, finalmente entendi porque todas as reportagens parecem iguais. porque são mesmo. um "gerador automático de reportagens" dá conta de dar todas as informações do movimento do Tietê em épocas de ( ) carnaval, ( ) páscoa, ( ) natal. todas as informações, vírgula. é esta diferença que faz o livro de vanessa. ela foi atrás do que ninguém vê. e a partir daí disse de um jeito que ninguém diz. deve ter aprendido com os grandes que a matéria de toda boa história - seja jornalismo, seja ficção - é o humano.

    para o filho

    "Poeminha, quase todos os dias vamos à casa da sua bisa. a sua avó, que mora longe, também está aqui. tem também a tia. três mulheres que ficam enlouquecidas quando lhe veem. disputam cada um dos seus sorrisos. é bonito de ver. mas bonito mesmo é ver a cara de felicidade do seu pai. ele nem precisa ser expansivo - sim, sim, você vai ver que ele tem um sorriso tímido - para que eu perceba todo o amor que ele sente por elas. por nós".
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    tarde saudade

    em uma tarde como esta, chuvosa, com o filho dormindo na rede, sinto saudade de muitas coisas e muitas pessoas. "A saudade/ é brigitte bardot/ acenando com a mão/num filme muito antigo".
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    sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

    Cabelo liso

    O mundo quer cabelo liso. Eu que tenho poucas melengas lisas sempre achei muito estranho. Tanta mulher linda estragando o seu cabelo lindo... Até quem tem cabelo liso, quer mais liso ainda, aí fica todo mundo igual com cara de quem acabou de sair do cabeleireiro. Sem querer, perde-se a noção da diferença. Mas isto não é de agora. Que o diga Sarará miolo, do Gilberto Gil, que é boa para dançar e para pensar.

    Sara, sara, sara, sarará
    Sara, sara, sara, sarará
    Sarará miolo

    Sara, sara, sara cura
    Dessa doença de branco
    Sara, sara, sara cura
    Dessa doença de branco
    De querer cabelo liso
    Já tendo cabelo louro
    Cabelo duro é preciso
    Que é para ser você, crioulo
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    acordinho

    Acho que vou fazer um acordo comigo: a cada vez que ler um livro, terei direito a outro. O que pode à primeira vista parecer uma grande vantagem é na verdade uma forma de punição. Sempre compro mais livros do que dou conta de ler. O tempo é tirano.
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    quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

    O melhor açúcar do mundo


    Um filho vem e ensina a cada dia uma coisa. Registro isto para não esquecer. Tenho sentido vontade de escrever mais sobre o Poeminha. Explico: este blog existe porque não tenho boa memória. Esqueço muito facilmente tudo que me acontece, seja uma leitura, um filme, um acontecimento. Uma psicóloga que à época me parecia muito incompetente me falou uma vez que minha memória só lembrava do que tinha acontecido de ruim. Por via das dúvidas, resolvi me prevenir. O blog, desde a sua primeira versão, que sumiu no buraco da net, foi feito para funcionar como uma espécie de memória artificial: eu não queria esquecer os anos de doutorado.

    Durante a gravidez, escrevi muito pouco sobre o fato em si. Sobre o que sentia, o que pensava, o que fazia por causa deste acontecimento. Pudor. Não queria dizer o que toda mãe diz: tudo açucarado demais para o meu paladar que passou a gostar de doce de leite apenas durante a gravidez (talvez porque gostava na adolescência e havia esquecido). Nem biscoito recheado eu engulo. Nem chocolate.

    Mas nestes dias me veio um susto. Eu trocava a fralda do Poeminha e constatava mais uma vez que é nesta hora que ele, aos dois meses, mais emite ruídos (solta gritinhos, gemidos, de modo alegre e concentrado). Parece que quer conversar. E o que dizer das caras engraçadas que faz logo depois que mama? Acomodando o leite, preparando-se para "arrotar", ele se espreme, geme, se espreguiça, faz biquinho... E que delícia é isto, que alegria infinda observar tudo que ele faz. O susto: e se eu não lembrar depois, se for para o sumidouro da memória, onde está a maioria de tudo que vivi e não registrei? E se eu não tiver nada para lhe contar deste tempo? Ou pior: e se ele ler, um dia, este blog e perceber que eu escrevi muito pouco sobre ele? Eu que já morro de medo de que ele cresça tendo a sensação de que eu lhe abandono por causa dos livros e dos filmes?

    Como minha meia dúzia de leitores já está acostumada à mistureba que é este blog, fica então o aviso: vez em quando, vai ter conteúdo açucarado - o melhor açúcar do mundo. Isso me traz uma certeza: a escrita, qualquer que seja ela, é antes para si do que para o outro. Porque ninguém mais se deleita e/ou se tortura com o que escreveu do que o autor. E nada neste meu momento é mais importante do que cuidar do meu filho, aprendendo com ele como se nasce, como se cresce, afinal eu não lembro de como nasci, como cresci. Fico pensando que observar o filho é também uma forma de se observar, de se ver em um tempo em que isto ainda não é possível. Que eu seja então fiel ao meu princípio, que este blog continue sendo o que procurava ser: "Sem análise nem crítica. Somente aquilo que advém de Barthes: humores. O jogo estéril do gosto/ não gosto. "Para guardar". "A regra = oferecer o íntimo, não o privado".
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