quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Assim tão inteiro

A familinha ficou maior por três dias. Maneca veio. E veio com a PrincesaJéssica, o Ediseupríncipe e meu cunhado Josimar. Família tem nomes e apelidos. Antes, eu era pródiga em apelidar as pessoas. Depois, contentei-me em cortar os nomes. Ou deixar como está. Carregamos nossos nomes como sinas, é assim que imagino. Rebatizar talvez seja marcar nossa história na história do outro. Foi assim que Maneca, há mais de 20 anos, deixou de ser Marta para mim e para uma porção de pessoas que a conhece a partir de mim. E minha irmã é tão bonita! Tem um sorriso inteiro. Daí, a alegria de eles terem vindo. E hoje que foram embora, fiquei com a impressão de que eu queria mais festa do que eles. Queria festa para mostrar como estava feliz de eles virem até minha casa. Princesa disse que, apesar de eu ser acumuladora, a casa é bem bonita. Acumuladora, eu? Devo ser. Foi assim então. Um acúmulo de sentimentos bons. Muita comida, muito barulho, tudo meio rápido. Maneca me ajudou um monte. Princesa ajuda não, mas sua presença me dá uma paz. Tenho a impressão de não ser preciso dizer como ela me é importante, mas por vezes queria dizer - e conversar um tanto. As amigas ajudaram na festa. Rô fez comidas e mais comidas. E um dia inteiro no meio da natureza, no pesqueiro da Ana Paula. E vaidosas à nossa maneira, fomos às compras. E todas as minhas promessas foram abaixo no meio de roupas e sapatos. Variações de um mesmo gosto. Aqui e ali, a quebra de gosto por algum desejo difuso. Nem conto porque é proibido. Mas digo que foi bonito. Nem a crise alérgica que tem me atacado, deixando-me meio grogue, atrapalhou. Amor nunca atrapalha. Não quando é assim. Assim tão inteiro. 
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sábado, 18 de janeiro de 2014

isto de ser

Tem muita gente
tão bonita nessa terra
Nas minhas contas
são sete bilhões mais eu

...

Só eu sou eu
Só eu sou eu
Além de mim
não tem ninguém
que seja eu
                Marcelo Jeneci

isto de ser é misterioso. o que somos mesmo? o que pensamos ser? o que os outros pensam? ao mesmo tempo? porque tem a miragem. por pudor não digo o que imagino ser. mas posso dizer o que queria ser e, por causa desse querer, talvez seja metade. ::: gosto muito desta figura: metade. e poderia soar como uma definição. mas é uma definição imprecisa ou inexata para quem um dia já foi definida como alguém "tudoaostubos". foi mariamada quem disse assim. e evidentemente, ela que já soube mais de mim do que eu mesma, não tinha em mente só qualificativos. e se "tudoaostubos" fosse o que explica a "metade"?. já se disse que quem quer tudo, não tem nada. pois em tudo, não dá para ter a inteireza, embora o impulso venha sempre do desejo da inteireza. então, às vezes, sinto assim::: queria desejar menos. embora seja bonito ser uma pessoa que deseja. é bonito, não é? mas deve ser bonito também quem deseja só uma coisa, contenta-se só com uma coisa. para poder, aí, ser inteira esta coisa, nesta coisa. ter tempo só para uma coisa em vez de dividir o tempo - sempre tão parco

 algo que é certo é que todo dia é uma peleja. peleja não com a imagem, porque esta, quando se forma, já é quase um cristal. mas com a miragem. e agora, que por vezes ouço minhas frases, meus insensatos gestos que, quando em mim, pareciam tão "charmosos", tão meus, destituídos de mim, da minha história, parecem agora "over". e eu mesma às vezes penso que em mim também devem ser "over". por que dizer bobagens tão grandes? por que rir tão alto? por que todas as calças largas? os sapatos coloridos que não combinam com todas as blusas igualmente coloridas? e os tantos livros que não dou conta de ler? os tantos planos de viagem que não decolam? os tantos filmes? o intenso desejo de fotos que sejam bonitas quando não há nenhuma paciência para aprender a técnica? esta vontade de ser mãe novamente quando mal dou conta de um garotinho? os tantos cds com ouvidos tão parcos? este querer casa bonita antes de ter a casa? este acúmulo infinito de trabalho numa profissão que me desgasta cada vez mais?o tanto amor pelos que estão longe se não dou conta de quase nenhum contato? [no meio da estrada para a ilha, ligo para manaMorg para desejar feliz ano novo e ela diz "que milagre!" e este "que milagre", que não se repetiu com tantas outras gentes que eu queria, ficou ressoando em mim como uma pancada

às vezes, é preciso rasurar a miragem. e ficar em busca do ponto certo. sem o cálculo, mas um voltar para dentro. tenho certeza de que o encontro com o outro, com os outros, que nos são importantes só pode ocorrer a partir daí::: deste ponto em que o desespero de "ser" se conjuga com a "alegria" de ser.
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voltar-me inteira para dentro - é então meu desejo para 2014. 

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Filmes 2013

ah, o fetiche das listas. quem escapa delas? em geral, eu as relego, aí, ao lado. esquecidas, semi-atualizadas, sempre incompletas. memória curta, tenho sempre a esperança de que me servirão para lembrar. mas confesso que, dessa vez, é mais do que isto::: fiquei muito contente quando fui reorganizar a lista de filmes que vi no ano passado, pois descobri que vi muito mais do que havia imaginado. tinha a impressão de ter sido um ano de pouquíssimos filmes. ok. já houve ano que assistia a um filme por dia, às vezes dois; já houve ano que a média era de quatro por semana. e em 2013, eu e Tatupai, num daqueles momentos de planos comuns, havíamos combinado ver, no mínimo, três por semana. e foi o ano em que fomos para São Paulo com a intenção de ver a Mostra de cinema. ok. se penso nisso tudo, foram poucos filmes, mas como eu achava que havia, no máximo, assistido a uns quarenta e olhe lá -::: mais de uma centena de filmes é uma grata surpresa [e há sempre aqueles que esqueci de anotar], pois indica que a vida não foi apenas a "forca" do trabalho, como constantemente eu tenho pensado, no início deste ano, na tentativa de que não ocorra o mesmo em 2014. E que filmes maravilhosos eu vi! uma seleção de encher os olhos. muitos dos que vi devo ao Toca dos cinéfilos e à decisão de assistir no computador, enquanto meus dois homens tomam conta da TV, ou assistir de uma forma inusitada::: enquanto passo a roupa da semana (hehe! toda uma técnica...). há tantos modos de continuar próxima do que realmente nos faz bem -. e, sim, sempre há as sessões ideais com a minha amiga Lilian - ela, sim, uma verdadeira cinéfila, com um incrível bom gosto e um grande saber sobre o cinema.

[e para o fetiche ser completo, marquei em negrito os que mais gostei]. 
 
  • Hotel Mekong [Reino Unido, Tailândia, 2012], de Apichatpong Weerasethakul
  • Procurando Elly [Irã, 2009], de Asghar Farhadi
  • A separação [Irã, 2012], de Asghar Farhadi
  • A caça [Dinamarca, 2013], de Thomas Vinterberg
  • Tese sobre um homicídio [Argentina, Espanha, 2013], de Hernán Goldfrid
  • Marina Abramovic [EUA, 2012], de Matthew Akers
  • César deve morrer [Itália, 2013], de Paolo e Vittorio Taviani
  • Cabra marcado pra morrer [Brasil, 2012], de Eduardo Coutinho
  • Inquietos [EUA, 2011], de Gus Van Sant
  • O grande Gatsby [Austrália, EUA, 2013], de Baz Luhrmann
  • Depois de Lúcia [México, França, 2013], de Michel Franco
  • Precisamos falar sobre Kevin [EUA, 2011], de Lynne Ramsay
  • Eles matam e nós limpamos [EUA, 1996], de Red Braddock
  • No [Chile, EUA, 2012], de Pablo Larraín
  • 007 - Operação Skyfall [EUA, Reino Unido, 2012], de Sam Mendes
  • Gainsbourg - o homem que amava as mulheres [França, 2010], de Joann Sfar
  • Evoé! Retrato de um antropófago [Brasil, 2011], de Tadeu Jungle e Elaine Cesar 
  • Tio Boonmee, que pode recordar suas vidas passadas (2010), de Apichatpong Weerasethakul
  • Pietá [Coréia do Sul, 2012], de Ki-Duk-Kim
  • Assim é, se lhe parece [Brasil, 2011], de Carla Gallo
  • Daquele instante em diante [Brasil, 2011], de Rogério Velloso
  • Mr. Sganzerla - Os signos da luz [Brasil, 2011], de Joel Pizzini
  • Ex isto [Brasil, 2010], de Cao Guimarães
  • Azul é a cor mais quente [França, 2013], de Abdellatif Kechiche
  • Como vive o trabalhador berlinense [Alemanha, 1930], de Slatan Dudow
  • Kuhle Wamp [Alemanha, 1932], de Slatan Dudow
  • A ópera dos três vinténs [Alemanha, 1931], de Georg Wilhelm Pabst
  • Os carrascos também morrem [EUA, 1943], de Fritz Lang
  • Vênus Negra [França, 2009] de Abdellatif Kechiche
  • O quase homem [2012], de Martin Lund
  • Eu sou um cyborg, mas tudo bem! [Coreia do Sul, 2006], de Chan-wook Park
  • Lola [França, Filipinas, 2009], de Brillante Mendoza
  • Preenchendo o vazio [Israel, 2013], de Rama Burshtein
  • Hannah Arendt [Alemanha, França, 2013], de Margarethe Von Trotta
  • Cerejeiras em flor [Alemanha, 2009], de Doris Dorrie
  • O que traz boas novas [Canadá, 2013], de Philippe Falardeau
  • Bastardos [França, 2013], de Claire Denis
  • O balão branco [Irã, 1995, de Jafar Panahi
  • O mestre [EUA, 2012], de Paul Thomas Anderson
  • O som ao redor [Brasil, 2013], de Kleber Mendonça Filho
  • Tabu [Portugal, 2012], de Miguel Gomes
  • Uma juventude como nenhuma outra [Israel, 2006], de Dalia Hager, Vidi Bilu
  • Tão forte e tão perto [EUA, 2012], de Stephen Daldry
  • A canção dos pardais [Irã, 2008], de Majid Majidi de
  • Samaritana [Coréia do Sul, 2004], de Ki-Duk-Kim
  • O joelho de Claire [França, 2003], de Eric Rohmer
  • Dente canino [Grécia, 2009], de Yorgos Lanthimos
  • Frances Ha [EUA, Brasil, 2012], de Noah Baumbach
  • O capital [França, 2012], de Costa-Gavras
  • Os belos dias [França, 2012], de Marion Vernoux
  • Arca Russa [Rússia, 2002], de Aleksandr Sokurov
  • Orlando [Grã-Bretanha, 1992], de Sally Potter
  • Ricardo III [Grã-Bretanha, 1955], de Laurence Olivier
  • Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios [Brasil, 2012], de Beto Brant e Renato Ciasca
  • Almas gêmeas [EUA, Nova Zelândia, 1995], de Peter Jackson
  • Ninotchka [EUA, 1939], de Ernst Lubitsch
  • Toda forma de amor [EUA, 2010], Mike Mills de
  • Elena [Brasil, 2012], de Petra Costa
  • Separado juntos [China, 2010], de Wang Quan'an
  • Além da liberdade [França, Reino Unido, 2012, ] de Luc Besson
  • Criança, a alma do negócio [Brasil, 2012] de Estela Renner
  • Muito além do peso [Brasil, 2012], de Estela Renner
  • Estrela solitária [França, EUA, Alemanha, 2005], de Wim Wenders
  • Pretérico perfeito: o filme da casa rosa [Brasil, 2006], Gustavo Pizzi
  • Tempos de lobo [Áustria, França, 2003], de Michael Haneke
  • Kafka [EUA, 1991], de Steven Sodenberg
  • Caravaggio [Itália, 2007], de Angelo Longoni
  • Arizona Dream [EUA, 1993], de Emir Kusturica
  • A festa de Babette [Francês, 1987], de Gabriel Axel
  • Sobreviventes: filhos da guerra de canudos, de Paulo Fontenele
  • Anos de chumbo 2: Fênix 1980), Cartas da mãe (2003), Memórias finais da república de fardas (2008) e Várias vidas de Joana (2009)
  • Palavra (en)cantada (2009), de Helena Solberg
  • Mutum [2007], de Sandra Kogut / Rio de Janeiro, Minas, de Marily da Cunha Bezerra
  • Sentindo na pele [2009], de Esther Rots
  • Oslo, 31 de agosto [Noruega etc, 2011], de Joachim Trier
  • Ondas do destino [Dinamarca etc.,1996], de Lars Von Trier
  • Submarino [Reino Unido, 2010], de Richard Ayoade
  • Rota irlandesa [Bélgica, França, ...2010], de Ken Loach
  • Sorrisos de uma noite de amor [Suécia, 1955] de Ingmar Bergman
  • As vantagens de ser invisível [EUA, 2012], de Stephen Chbosky
  • Triângulo amoroso [Alemanha, 2010, de Cristian Mungiu
  • Além das montanhas [França, Bélgica, Romênia, 2013], de Cristian Mungiu
  • Indomável sonhadora [EUA, 2013], de Benh Zeitlin
  • Lincoln [EUA, 2013] de Steven Spielberg
  • Incêndios [Canadá, 2011], de Dennis Villeneuve
  • 10 Ten [França, Irã, 2002], de Abbas Kiarostami
  • As aventuras de Pi [EUA, 2012], de Ang Lee
  • Um doce olhar [França, Alemanha, Turquia, 2010], de Semih Kaplanoğlu
  • Os miseráveis [Reino Unido, 2012], de Tom Hooper
  • Shame [Reino Unido, 2012], de Steve McQueen
  • Um alguém apaixonado [França, Japão, 2012], de Abbas Kiarostam
  • Poesia [Coréia do Sul, 2010], de Lee Shang Dong
  • Transamérica [EUA, 2005], de Duncan Tucker
  • O segredo dos seus olhos [Espanha, Argentina, 2010], de Juan José Campanella
  • Argo [EUA, 2012], de Ben Affeck
  • Medianeras [Argentina, Espanha, Alemanha, 2011] de Gustavo Tareto
  • O rito [Suécia, 1969], de Ingmar Bergman
  • Tetro [Espanha, Itália, EUA..., 2009], de Francis Ford Coppola
  • Na estrada [França, EUA, Reino Unido, 2012], de Walter Salles
  • Hannah e suas irmãs [EUA, 1986], de Woody Allen
  • Intocáveis [França, 2012], de Eric Toledano, Olivier N
  • Os palhaços [Itália, França, Alemanha, 1970], de Federico Fellini
  • Elefante branco [Argentina, Espanha, 2012], de Pablo Trapero
  • Família rodante [Argentina, 2003], de Pablo Trapero
  • Django livre [EUA, 2012], de Quentin Tarantino
  • Amor [França, Alemanha, Austria..., 2012], de Michael Haneke
  • A fita branca [França, Itália... 2009], de Michael Haneke
  • O ovo da serpente [EUA, Alemanha], de Ingmar Bergman
  • Oceanos [França, 2009], de Jacques Perrin e Jacques Cluzaud
  • Os guarda-chuvas do amor [França, 1964], de Jacques Demy
  • Cildo [Brasil, Reino Unido, 2010], de Gustavo Moura

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Mundano

tem desejos que são assim mesmo::: mundanos. têm a ver com a curiosidade que os gostos despertam. 
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E isso porque facilmente eu seria uma senhorinha disposta a cuidar com amor de cortinas, tapetes, utensílios, acessórios, sem deixar que perdessem a função de uso, mas sem jamais descuidar da beleza :)




terça-feira, 7 de janeiro de 2014

isto não é uma retrospectiva


estranho isto de medirmos o tempo em anos. e a cada ano recomeçarmos. ou tentarmos recomeçar de um jeito diferente. eu gosto muito da pausa que essa contagem proporciona. fim de ano parece ser um tempo em que nada deve ser feito, como se fosse mau agouro seguir os dias com os afazeres comezinhos. nos últimos anos, não tenho participado nem mesmo da euforia das compra de roupas e presentes. como no ano passado, eu vi filmes, fui para a ilha e li livros. Tatupai e Poeminha cuidaram de mim.  Tatupai diz que eu não mereço, tão absorta fico nas leituras, mas cuida mesmo assim. e eu me encho de gratidão e alegria por tê-lo por perto. Poeminha cria seu mundo no meio das pessoas e vez em quando me agarra e solta um "eu te amo" para me largar logo em seguida.

na contagem, foi um bom ano, o de 2013. a partir de outubro, foi estranho, como se a euforia do Silic, depois que passou, tivesse levado toda nossa energia. as batalhas foram imensas, mas vistas, agora, de longe, parecem coisas sem importância, como de fato foram. ruim é quando atingiu o osso, quando ficou muito próximo, a ponto de eu ter receio. meu percurso está mais solitário. e uma porção de coisa ficou no meio do caminho. 

e não. não é uma retrospectiva. eu bem que gostaria. mas não sei se falha a memória ou se é mesmo pudor. queria ter talento para um tipo de discrição (e não descrição) que dissesse. queria dizer aqui no blog. mas dizer de um modo que não fosse público. que não fosse privado, claro, mas também não se parecesse com estas cenas tristes de famílias que saem de férias e postam no facebook cada pose. por que as pessoas pensam que queremos ver estas fotos que não acertam nem a linha do horizonte? se eu ao menos fosse fotógrafa, poderia pincelar os dias bonitos. mas nem isto. vejamos::: saímos de férias, toda a familinha. e por duas vezes. na primeira, aportamos outra vez em jericoaquara. e fomos juntos pela primeira vez em porto de galinhas. e sobre isso nada foi dito. ou se foi, não do jeito como eu queria. nesta viagem, aconteceram tantos momentos bonitos. voltar pra família, ver mãe e pai e amigos e irmãs... como é bom. eu, desmemoriada, queria ter dito aqui. e se esquecer, como agora já esqueço? e o que dizer do silic? tão bonito! e das noites do silic? e das pessoas que vieram para o silic? e tudo que disseram? o que dizer da abralic, em campina grande? e das noites da abralic? e a travessia das estradas com tantos sonhos sendo tracejados?
os dias em São Paulo também foram bem bonitos. meu encanto pela casa da camila e do luciano, nossa passagem na exposição do cazuza, as primeiras peças de teatro do Poeminha, o dia com Marcos e Margarida, a exposição do kubrick, Poeminha no Ibirapuera, a ida até Santos com a família e, claro, a noite do meu aniversário. ainda, e por muito tempo, vou me lembrar. e ainda teve aquela viagem. ir - é sempre o quê? e quando vamos porque precisamos ir? porque senão depois tudo não será mais possível?

e em 2013 comprei muitos livros. muitos mesmo. e infelizmente, nem de longe as leituras alcançaram o mesmo ritmo. e qual deve ser mesmo o ritmo? meu amigo Marcio diz que lê, no mínimo, um livro por semana. fiquei dias imaginando que esta, sim, é uma boa vida (e os encontros com Marcio, com as conversas e os risos, valeriam todo um dossiê). O saldo é que avancei em leituras que desejava há tempos. no início do ano, estudei longamente a poesia do Marcos. Longamente é uma palavra pomposa e como a última vez que havia me "debruçado" sobre um poeta havia sido na época do doutorado, com o Cacaso, resolvi usar aqui outra vez. alguma seriedade não faz mal a ninguém. e sim, o movimento foi contínuo. e depois de tantos anos, encontrei uma grande interlocutora à distância. mariana e eu, entre uma bobagem e outra, batemos longos papos sobre o que se passa neste mundinho da literatura brasileira contemporânea. e no decorrer do ano, escrevi alguns textos. uns gostei muito e outros nem tanto. alguns foram publicados e outros não. e não exatamente foram publicados os que gostei de escrever. passei minha vida toda para criar coragem e escrever um texto sobre Graciliano Ramos e o parecer que recebi - nem posso dizer aqui! aff. e definitivamente, este não foi o ano de aprovar projetos. foi um não depois do outro. e de tudo só pude concluir que me faltou simplicidade. escrever simples, pouco, direto. pois é, não soube.

como não soube uma porção de outras coisas. por que é assim, não? mas já terminei uma outra postagem desse modo, não? vou encerrar então sem encerrar.  
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E a frase da imagem foi dita por Cazuza. talvez seja este o anseio. não a vida louca e incerta. mas uma certa loucura e uma certa incerteza que deem conta da ternura desejada.   

          

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

do blog de paris

hoje, nem sei como, falei sobre o nenhum-lugar na sala de aula. acho que porque quero desmistificar um tanto de coisas. sei lá. arrependi-me logo depois, mas aí já era tarde. como sabem os que por aqui passam, escrevo para nada, por vontade de escrever. e escrevo de modo descontínuo, sobre o que interessa somente a mim, acho. como Paulo Honório diz, escrevo sobre coisas desimportantes e deixo de escrever sobre outras de mais valia (não é exatamente o que ele diz, mas escrevo de memória - a que não tenho).

e talvez para me certificar de que continuo em segurança, lembrei do blog de Paris, que era hospedado no weblogger, que encerrou todas as contas, e com isso lá se foram meus escritos nesse blog, que eu achava bem bonito (mas só eu achava). tinha uma caricatura minha feita pela Lan e era todo amarelo. senti saudade. sorte que tenho o arquivo. o que será daquela "moça" sete anos depois? agora, sou uma senhora. e tenho menos sonhos - e ainda menos certezas. talvez resultado de uma certa aridez da qual não consigo me despregar, por mais que tente.

fiquei, então, com insônia. a insônia que já me fazia falta. leio de forma descordenada o que não parece ter sido escrito por mim. ou parece? em 18 de dezembro de 2006, escrevi esta postagem, que coloco aqui - metade.


Sobre livros e conversas

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... Dizia a Mari tentando lhe explicar meus recuos: sou de uma geração fundada nas incertezas, nas dúvidas, na incompletude: não tenho certezas - só as das minhas aporias. E acho muito sacal a lógica do sucesso. Em quê? E para quê? Não tenho a segurança de dizer que foi graças a mim que estou aqui. Sou sempre tentada a dizer que foi apesar de mim. Ao menos esses recuos não me precipitam. Demoro, habito, mais em mim. Por muitas vezes só quero poder exercer a contradição: duvidar das possibilidades para não me carregar nem de sonhos nem de ideais. Porque se eles são reconfortantes (profissão, família, dinheiro na poupança), o que preciso ser e fazer para consegui-los é de uma brutalidade imensa comigo. Eu só quero continuar sem saber onde tudo isso vai dar. Acho que é cansativo para quem ouve; afinal só tenho intransigências: não acredito, não sei se vai ser assim, duvido que seja (em outras palavras: sou uma "pentelha", mas tenho algum humor!).

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Daí que os livros são este inatingível de nós. Se quero viver, ou se quero me esconder, se quero tentar, ou se quero negar, se quero planar, se quero; são aqui, com eles, com aqueles que vale, na claridade do assombro, que a vida ganha sentido.

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domingo, 15 de dezembro de 2013

Azul


Assisti à "Azul é a cor mais quente" numa tarde quente, reconciliada com uma cidade que desde sempre me estranhava. E quanto mais penso nele, no filme, mais gosto. Primeiro, ele me causou uma tristeza profunda, que veio de algum lugar pelo qual todos já passamos, o lugar de um grande amor que, apesar de ser grande, acaba por não dar certo. Não pensei em nenhum amor em especial, mas no próprio decurso da vida, na dificuldade dos dias, na exigência da vida, na falta de perdão do erro. 

É bonito e é bonito. Nada no filme de Abdellatif Kechiche é gratuito, nem mesmo, ou sobretudo, a tão comentada cena de sexo entre as protagonistas, Adèle e Emma. Caetano viu um certo esteticismo, que tem mesmo. Eu só consegui pensar, enquanto assistia, que todo ser vivente no mundo merecia ter sexo dessa maneira. E sim, sexo; sem eufemismos como "fazer amor"; sexo na mais pura carnalidade, capaz de levar ao êxtase e perdurar mesmo quando o amor acaba. E a cena no restaurante, em que as duas se encontram (perdão pelo spoiling), é a prova disso.  

É um filme que não pode prescindir dos seus atores, no caso, atrizes, pois seus rostos são de tal modo violados que chega a causar incômodo. Vem daí a proximidade que logo nos leva a pensar analogicamente. E esta talvez seja a grande tacada do filme. Só uma mente muito encaixotada colocaria o filme no gueto de filme gay, no intuito de diminuir seu alcance, embora a questão da homossexualidade feminina esteja ali o tempo todo. Quando as colegas interrogam Adèle, sentimos  o peso do preconceito e as odiamos veementemente. Dizer que é uma história de amor também não diz exatamente sobre o filme, embora, mais uma vez, seja uma afirmação exata.

Daí que o que realmente impressiona é o fato de, durante três horas, num filme com o elenco basicamente jovem, mantermo-nos presos a sua história, sem sentir o tempo passar. Por mais que enquanto assistia eu não pensasse nisso, somente um bom filme, que se utilize de todos os recursos para tanto, é capaz de nos prender desse modo. É o detalhe, como o azul, como uma cena que remete à outra e à outra, o trunfo deste filme. O detalhe é a sua beleza. 
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sábado, 30 de novembro de 2013

os aprendizados do Poeminha. e as alegrias tantas.



em vão eu tento "domesticar", dar ordem, fazer a distinção entre o brinquedo e o objeto; em geral, um objeto que nomeio como meu; objeto que custa dinheiro, que tem valor pra "mamãe". a fantasia sem freios de Poeminha homogeneiza tudo. tudo é brinquedo, tudo é matéria para um fazer-a-mais.as prateleiras das estantes viram pistas de carro, o saleiro vira mesmo saleiro, e não se sabe de onde ele tirou tanto o gosto de sal, a cadeira de design vira suporte de escrita, a porta da geladeira é uma pista onde imãs amalucados fazem círculos, o depósito de sutiã para lavagem na máquina ora vira garagem de carrinhos, ora enormes peitos que se juntam ao meu peito; a lanterna do pai serve para um jogo de luz que, de debaixo da mesa, ele orquestra e comanda sobre o que deve iluminar ou não. o sofá é o depósito dos copos, é o lugar do pula-pula, por falta de.; a caixa de fósforo acende e o olho brilha; a máquina fotográfica tira fotos mesmo e isso o fascina. as fitas adesivas viram arco-íris que se espalham pela casa. e ainda "obras de arte". 
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daí que devo guardar:::: o tom do seu "acho que sim". "acho que não". e o "sim". e "que foi?" - quando, surpreso, busca entender. ou ainda: "éeee", quando também tenta entender. e enquanto os pés dançam doidamente, diz: "meus pés estão doidos".

ou, depois de pensar por alguns instantes, após alguma idiotice minha, tasca: "por que eu tenho que pedir desculpas "mumigo" quando grito, e você não?". fico ali, então, desarmada, buscando a explicação mais inteligente possível, uma explicação que dê conta de um raciocínio tão completo, tão inteiro, tão filho meu. é isto, filho. deixe não. agora você grita e eu tento lhe dizer que isso não é legal. mas não esqueça que eu também não devo gritar. responda sempre na mesma altura, na mesma justeza. faça valer os dias, pois na vida é preciso um tanto de coragem:::  e aquele dia? depois de perambular pela revistaria do aeroporto, lá no alto, vê um livro e aponta. olha, folheia e diz: "quero este. posso?". pode, sim, filho. pode. e esta é a beleza. 

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Vanguart


Continuo achando que o Hélio Flanders tem muito sex appeal no palco, apesar do bigodinho ridículo. Bob Dylan é o fantasma de Flanders, mas convenhamos que não é de todo mal ter Bob Dylan como fantasma. No novo álbum, tem coisas do tipo:

vou embora, 
mas vou te levar comigo
vamos juntos pra ver o sol nascer...

E "Demorou pra ser":

(você é a vida da minha vida)

enquanto eu tiver saúde
enquanto eu tiver de pé
enquanto a gente se amar
enquanto a gente ainda tiver
um coração tão cheio
tão cheio de amanhã
vê? meu coração tão cheio
estou aqui

E ainda:

eu vou até o final,
eu vou até te ver
sob águas claras: carvelas
sigo a estrada do sol no céu
em sonhos antevejo teus vales
respiro a américa
repetindo: - eu vou até o final
eu vou até chegar

O título do novo álbum é "Muito mais que o amor", mas tem muito de amor. Talvez não tenha aquela dor de amor quando o amor acaba. E tem trompete e violino, que cria um tom intimista em várias músicas. Faz tempo que percebo que os músicos - aqueles que antes chamávamos de roqueiros - cada vez mais cantam o amor. E mais que isso, cantam o viver-bem, a passagem do tempo, a vontade de que as coisas deem certo. Claro que falo daqueles que estão envelhecendo junto comigo: Arnaldo Antunes, Lenine, Marcelo Camelo etc.. Desapareceu a raiva. Ainda sinto falta do grito, mas agora bem menos. Como eles, ando sentindo vontade de andar descalço, de olhar em volta, de cuidar mais de mim. E aí, vem todo o movimento: músicas no ipod, dois romances pela metade, o livro de 1000 páginas e terça com cara de sexta.

domingo, 17 de novembro de 2013

Anotações para futuras postagens

[1]
Sempre que fico um tempo com minhas irmãs, ou fico muito eufórica, ou muito pensativa. Ou alterno os dois sentimentos. Sempre me assombro com as semelhanças, inclusive físicas. Nestas horas, é quando penso como há muito de "determinação" nas nossas atitudes diante do mundo. Daí, a razão dos dois sentimentos. Já pensou poder colocar toda a culpa na genética? seria a glória. o problema é que não é só uma questão de culpa. Também há o pensamento. E na mesma medida em que vejo, nas minhas irmãs, a configuração dos meus entraves, vejo também as minhas levezas, embora estas, menos. O que será mesmo de mim? O que me distingue? Prometo escrever sobre isso depois.

[2]
Sou tão gastona como a minha mãe. E digo isso sem orgulho. Acho que muito do olhar impiedoso da minha mãe sobre nós advém das necessidades que os desejos materiais impõem. Isso de precisar de dinheiro para comprar. Eu tive mais sorte do que ela no quesito salário. E também tive mais sorte em relação ao que esperar do outro, pois desde muito cedo me veio uma espécie de certeza de que apenas eu deveria ser responsável pelo meu sustento e, consequentemente, pelos meus excessos. Quando eu ainda me orgulhava de ser gastona, eu costumava dizer que era uma mulher cara, com a vantagem de que me bancava. Agora, eu queria ser menos gastona com coisas materiais. Ando sentindo cada vez mais vontade de ter dinheiro para cair no mundo, o que tem sido cada vez mais difícil; agora que sou também uma família.

[3]
Fico abismada como há cada vez menos público para a cultura. Vejo aqui na mostra de cinema que promovemos no campus de Vilhena da Unir - que nunca se pareceu com um campus, mas cada vez mais me parece um depósito de pessoas que não sabem exatamente o que querem - mas sabem com certeza que não querem o que um curso como o de Letras pode oferecer. Mas vejo também em outros lugares. Minha família também vive ao largo de uma certa movimentação cultural que há em Porto Velho, coordenada pela prefeitura e pelo Sesc. Acabei de chegar de lá e senti bem isso. Havia poucas pessoas no I Festival de Arte e Cultura, promovido pelo Universidade. Às vezes, penso que isso não deveria me incomodar, mas incomoda. Sobretudo, incomodam-me os jovens presos aos seus celulares e a uma vida em que o horizonte de coisas cotidianas interessantes parece se resumir a jogos nos seus celulares. Penso, às vezes, que todos estão usando esta prótese, porque no fundo sabem o quanto são desinteressantes, o quanto não sustentam uma conversa, pois não têm nada a dizer a quem está ali do lado. Estou mesmo ficando velha. Mas não o suficiente para esquecer que, embora fosse menos falante do que hoje, sempre tinha o que dizer a quem estava ao meu lado. Agora, o que tenho vontade de dizer já não há mais quem ouça. Também já não consigo alcançar a quem realmente queria, mesmo a alguns a quem amo de amor grande, mas que os dias distantes tiraram a intimidade.

[4] 
Algumas amizades ficam intactas no decorrer dos anos. Ter encontrado a Márcia, o Binho, a Ida, o Manu, nestes dias me confirmou esta grande alegria. Não que seja como antes, mas o fato de ser quase como antes, de ainda haver uma cumplicidade grande que nos permite dizer as maiores besteiras sem nenhum constrangimento, que nos deixa contar antigas histórias às gargalhadas, rindo de nós mesmos, já é uma façanha e tanto. E há também outras pessoas bonitas que me dão muita vontade de investir na amizade, embora eu seja meio ruim em fazer isso, como o Dudu e a Mariana. E ainda aqueles que sempre que vejo de longe, tenho certeza de que se fosse menos desatenta - ou menos tímida nas abordagens - gostaria muito de ser amiga, como Rinaldo e Deivis. E há os que rodeiam todos eles e que me enchem de ternura. São muitos. Carla, a quem sempre acho que deveria conversar mais, Fernando que me parece tão bonito, Ariana, tão doce e tão forte, Joéser, artista tão inteiro. Edinei, que amo tanto de coração. E tantos, tantos outros.

[5]
Chorei quando vi alguns dos "envolvidos no mensalão" entregando-se à polícia. Ao mesmo tempo que precisamos de uma noção tão movente como Justiça, dá um certo terror averiguar como o ser humano é frágil diante de decisões que se vestem sob o manto da justiça (e um caso de foro íntimo nestes dias só aumentou minha perplexidade!). Acho que levaremos muitos anos para entender o que realmente aconteceu, mas tenho a firme convicção de que não é nada disso que a grande mídia tenta nos vender. Joaquim Barbosa não é o salvador da pátria. E nestas horas, penso nas nossas profundas mesquinharias individuais, nos nossos grandes abismos, e só consigo pensar que tudo é obra do humano, que por sua própria natureza não tem como ser salvador de nada.

[6]
O livro que estou lendo é O remorso de baltazar serapião. Ontem, depois de umas cinquenta páginas, no ônibus, tive que parar. Era terrível demais o que lia. Como mulher, senti todos os meus "buracos" expostos, sob perigo de serem violados. Que livro é este, jesuscristinho? Que condição é esta, a nossa? Chorei choro mansinho. Não queria assustar ao Poeminha, que dormia tranquilo ao meu lado. Fazia tanto tempo que um livro não fazia isso comigo, de me fazer chorar, assim, sem vergonha nenhuma, sem nenhum melodrama. De me obrigar a parar porque não tinha condições de continuar.

[7]
Tatupai acaba de me ligar. Diz que, na ilha, sentiu uma saudade danada de nós dois. De mim e do Poeminha. Ficou imaginando que se algo acontecesse conosco, ele estava na condição de não ter como saber. Penso que ele sentiu algo próximo ao que sinto a cada vez que lembro que fui para a mesma ilha sem levar o remédio de alergia do Poeminha. Faço mil cálculos mentalmente tentando calcular se, diante de uma crise, teria como salvar meu filho sem o tal remédio. E a cada vez vejo que, devido à distância, não tinha e me mortifico diante do ser avoado que sou. É loucura. Mas vou dizer que é loucura advinda de um sentimento de amor desmesurado. E quem tem a sorte de ter amores desmesurados? Pois é assim.
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Sobreviveremos todos, não tenho dúvida. Talvez pela lógica reinante no mundo, sejamos uns perdedores, uns avoados diante das ordens práticas do mundo. Para mim, somos uns sonhadores. Da estirpe dos que não se desgarram dos seus sonhos diante das monstruosidades. Da estirpe dos que, diante de janelas fechadas, consegue tirar dali alguma beleza.
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domingo, 10 de novembro de 2013

Sucumbir e atravessar


“O homem é uma corda, atada entre o animal e o
além-do-homem – uma corda sobre um abismo.
Perigosa travessia, perigoso a-caminho, perigoso
olhar-pra-trás, perigoso arrepiar-se e parar.
 

O que é grande no homem, é que ele é um passar e
um sucumbir.
 

Amo Aqueles que não sabem viver a não ser como
os que sucumbem, pois são os que atravessam.
 

Amo os de grande desprezo, porque são os do
grande respeito, e dardos da aspiração pela outra
margem.”


Friedrich Nietzsche

(citação recolhida da belíssima tese de Daniel Abrão, sobre Catatau, de Leminski)


a cada vez que volto de viagem, volto grávida de desejos, de mínimos desejos; todos eles envolvem pequenas mudanças no dia-a-dia. nem eu mesma levo a sério essas miudezas, mas por dias e dias carrego-as comigo. é o de sempre::: assistir a todos os filmes da extensa lista já feita e continuar a fazê-la de modo diário, de forma amorosa. e ainda ler a enorme pilha de livros urgentes a serem lidos. dividi-los por prioridades, talvez. mas prioridades que digam respeito a algumas urgências, como ler mais hilda hilst, valter hugo mãe e, ainda, ler o novo livro de michel laub, quando ainda não consegui ler nenhum dos anteriores, e este antonio geraldo figueiredo, de que todos falam agora. mas, sobretudo, eu sinto vontade de voltar a ouvir música com a mesma constância de antes. e por isso, e por outras razões, itamar assumpção não para de tocar na nossa vitrola.

assim, desejos mínimos. como mínimo é o tempo. comecei semana passada um movimento que talvez me mantenha próxima a esses desejos mínimos. e comecei pela parte mais difícil: a leitura de um grande livro, de mais de mil páginas. não sei se irei adiante.  reluto em abandonar a sensação de beleza que me acompanha. começou o período das chuvas. e afora que o mofo se aproxima violentamente dos livros, gosto muito das chuvas, do ar brumoso das chuvas. não sei. sinto o gosto de estar reconciliada com a vida que agora acontece, embora existam tantas aparas a fazer. que bela concepção de sucumbir, esta de Nietzsche. e a ela me entrego metade. 
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terça-feira, 5 de novembro de 2013

kubrick no mis

Eu só tinha um parâmetro de comparação sobre a exposição da obra de um cineasta.  Em 2006, vi uma exposição sobre Pedro Almodóvar na Cinemateca Francesa - que até agora me parecia insuperável. Mas ao ver a de Stanley Kubrick, neste ano, no MIS, fiquei tomada por uma emoção intensa. 

Diante da exposição, e dos filmes, de Kubrick, é fácil perceber o cinema como uma arte que ergue tijolo a tijolo novos mundos, como se fossem do nada, embora sejam tão semelhantes ao nosso. Apresentam, no entanto, uma diferença radical, porque regidos por um gesto autoral que faz de cada detalhe um material para se pensar. Há uma assinatura Kubrick; uma assinatura que nos confronta, em geral, com o que há de mais inominável no humano.  E o fato de cada um desses mundos [desses filmes] ser rigorosamente distinto um do outro, é o que mais impressiona. Difícil um cineasta que tenha feito filmes tão distintos uns dos outros e que, ainda assim, seja (re)conhecido em cada um deles. Fiquei um pouco tonta. E ao mesmo tempo, inteira alegria. Nos espaços que foram montados para cada um dos filmes, há um rico material: roteiros originais, objetos, câmeras, muitos vídeos e fotografias; verdadeiras paisagens fílmicas. O fetiche do objeto. E na passagem de cada espaço, cortinas pesadas de veludo escuro. Ao fetiche do objeto acresce-se o fetiche do gesto, levando-nos por um labirinto de sensações, de imagens difusas dos filmes, das sensações provocadas por elas.  

E só uma criança para ver com toda a inteireza o quanto a marca da violência em Kubrick é também lúdica. Poeminha, que havia ficado muito entediado na exposição de Lucien Freud, no Masp, entrou e saiu das salas da exposição interagindo com tudo, com uma curiosidade sempre crescente.









sábado, 2 de novembro de 2013

daqui

(escrito em 28 de outubro)

a vida faz e desfaz. estou aqui em sampa com a familinha enquanto aquele que por diversas vezes cuidou de mim na longa infância está em algum lugar inominável, inabitável talvez, sem que eu saiba se ele vai voltar para que possamos, juntos, pagar a promessa que ele fez, quando achava que eu estava prestes a morrer. não. não. tenho um blog em que a tônica é o modo como interpreto a minha vida e os acontecimentos que fazem parte dela, mas jamais colocarei "luto" na minha página de facebook para correr o risco de "curtirem" com a minha dor. minha dor não é para ser curtida. é para ser vivida por mim. e só por mim. o homem que me ensinou a ouvir histórias não é, para mim, uma estatística. não. as estatísticas nada têm a ver o humano. a dor é íntima. dói aqui onde ninguém pode alcançar. onde não há plateia.

às vezes, me pergunto se toda esta gente sem face, no momento de cortar os pulsos, colocará uma foto minuto antes? e todos esses sorrisos sem alma ainda saberão sorrir longe das próprias câmeras? apesar de me identificarem como um ser alegre, e eu mesma dizer tantas vezes como cuido desta alegria, desconfio muito de quem quer pintar a vida de rosa todo o tempo. o que diabo as pessoas estão fazendo com as suas vidas? que pessoas são estas com as caras enterradas em seus celulares? com suas mentiras alegres? com suas tristezas sorridentes? com seus recados coletivos de amor ao próximo, trancafiados em suas redes de segurança?

não. não. prefiro quem sente. prefiro tocar naquele ponto em que nada parece fazer sentido. prefiro ter medo de mim mesma. prefiro assumir que meus desvãos são tamanhos. prefiro dizer que cada dia é uma negociação. comigo. com o outro. com a vida. com o que desejo. com o que tenho. com o que perco. com o que ganho. pois é assim. de tudo até aqui tenho certeza das minhas tentativas. somente das tentativas. e dos encontros. nada é perfeito. nada está exatamente no lugar. nenhum comercial de margarina. sei que posso perder tudo, como já perdi outras vezes. e por outro lado, sei também do esforço. da vontade. da cumplicidade que tenho com algumas pessoas - que tenho com Poeminha e com Tatupai, especialmente. se não vou chorar lágrimas públicas, não é porque não posso mostrá-las. é porque estarei bastante ocupada com o que as provocou. é também por isso que não escrevo neste blog tanto quanto gostaria de escrever. por diversas vezes, enquanto faço algo que considero que vale a pena ser compartilhado, prometo-me que escreverei aqui depois, mas a força da vivência acaba sendo maior do que a da partilha. não é mais importante viver? aprender a cuidar da vida?

na tarde em que fiz 39 anos, assisti a um musical infantil. foi e não foi bonito. porque, às vezes, a vida é assim. Poeminha sentiu a tal ponto. tudo. e dormiu no final. em algum momento, agradeci minhas lágrimas sinceras. só podemos ver a beleza, quando algo em nós permite que ela exista. estranho, não? posso não hoje explicar. também não posso fugir de um certo melodrama. prometo que é só hoje. daqui a pouco, vou agarrar meu filho pela mão e ver com ele a arte de Lucien Freud. poderia levá-lo ao zoológico, e vou me sentir culpada se não conseguir levá-lo (sempre há quem nos diga o que não é certo, o que deve ser feito!). e por outro lado, se eu pudesse pedir algo por ele, eu pediria aos deuses que meu Poeminha achasse mais importante admirar aquilo que é feito pelo humano do que gostar de ver animais enjaulados. porque talvez não exista nada mais importante na vida do que uma certa abertura para o mundo, uma certa curiosidade, um certo cuidado, um certo desejo que transcenda a miséria humana,  seja a nossa, seja a dos outros. 
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