terça-feira, 4 de agosto de 2009

Os relâmpagos de Gullar


Ferreira Gullar me causa estranheza. Gosto muito da sua poesia, mas não gosto das suas entrevistas e de vários de seus textos. Sua luta em defesa da pureza da arte é quase vã. Uma vida toda de mea culpa por ter caído momentaneamente de amores pela poesia concreta. Aí veio o neoconcretismo, a volta à poesia discursiva... Mas nada disso tem importância quando leio seu livro Relâmpagos. A paixão pela tradição aqui tem outro matiz. E o que é imagem viram palavras carregadas de emoção e sensibilidade. Relâmpagos são pequenos instantes de delicadezas, como se Gullar, desnudo, tivesse contemplado por muito tempo cada pintura, cada escultura, e tirado dessa contemplação nem análise nem crítica, mas palavras de quem ama intensamente - palavras de amador, palavras amorosas. Não pode haver melhor transporte, melhor tradução para a arte, do que palavras assim - em carne viva.

ps. para minha surpresa, quando estava à cata de uma imagem, descubro que o livro está digitalizado. Eu ainda prefiro o folhear, mas para quem não se incomoda, é só clicar aqui.

merci!

tanto carinho aí embaixo nas "palavras". merci à tous! fiquei ainda mais cheia de amor. estar à espera do poeminha Bernardo, já sentindo-o por inteiro aqui comigo, é a mais doida das minhas aventuras até hoje. acordo no meio da noite e fico conversando com meus dois homens enquanto eles dormem. é uma lezeira gostosa, esta de expressar em voz alta todo o amor que há agora em mim. como disse a Rê, tudo transborda.
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tudo delira.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

sobre ser mãe

nunca tive certeza se queria ser mãe. e já tive certeza de que não queria. sempre tive medo das mães. primeiro da minha. medo que se estendeu a muitas outras que conheci. bicho estranho é mãe. ou é boa demais. e assim faz mal aos filhos. ou é ruim demais. e assim faz mal aos filhos. meus olhos secos sempre acham que uma filha está mentindo quando afirma que nunca odiou aquela que lhe pôs no mundo - nem que tenha sido por um instante. porém, o que me impedia o desejo de ser mãe era a vontade de "correr mundo, correr perigo". sempre tive relacionamentos longos e ainda assim cheguei aos 34 anos sem uma prole. não que eu tenha planejado que assim fosse. não deu certo por uma ou outra razão. dolorosas algumas. daí que eu tinha convicção de que se não tivesse filhos não me frustaria. nem mesmo pensava em outras hipóteses como adotar. a imagem mais corriqueira que eu fazia de mim era envelhecendo em uma casa com gatos, livros, cds e alguns poucos amigos que me ligariam e não esperariam por nenhuma ligação minha, sabedores que seriam da minha fobia por telefone. queria envelhecer do modo que eu já vivia e que sempre me pareceu muito bom, muito charmoso, muito poderoso. nunca fui acometida de solidões que me levassem a pensar que eu precisaria de uma família, de um filho.

então Poeminha veio e mudou tudo. assim que eu soube, comecei a chorar. e as primeiras frases que pronunciei foram: "eu não quero ser mãe. eu não quero estar grávida". as do pai foram bonitas e arrebatadas da paixão que agora vivenciamos dia a dia: "não chore, senão ele vai saber que você não quer". eu achei que choraria a manhã inteira, mas para minha surpresa voltei para a cama e adormeci quase de imediato. sono profundo e repousante. e à noite, já sonhava nomes aconchegada nos braços do pai. escrevo sobre estas coisas porque, agora grávida, submeto-me à hidroginástica e a sessões de shiatsu. primeira vez na vida que me entrego aos cuidados de uma técnica oriental. sempre achei admirável. só nunca tive paciência para buscar este tipo de bem-estar que sempre me pareceu artificial. algo do tipo: "se você não é capaz de relaxar sozinha vendo um bom filme, lendo um bom livro, vivendo sua solidão necessária, então pague a um profissional que lhe dê alegria". burrice, claro. porque o corpo precisa de movimento. e é justamente isso que meu corpo mais fala para mim neste momento grávida. poeminha está com os pés "alojados" na minha costela, na posição vertical desde o princípio. dor latente, incômoda, física. e lá me vem a moça do shiatsu com aquelas perguntas de psicólogo de botequim: "você está nervosa? ansiosa? impaciente? você deseja estar grávida?" e eu lá: "não, não, não; sim, muito". e me diz que toda minha energia está represada por alguma contrariedade. e eu me esforço para encontrar a tal contrariedade. e nada. e penso em freud. em lacan. e me pergunto: "será? será que no subconsciente ainda estou com medo de ser mãe?" e penso nestas coisas. na minha mãe. na minha alegria, nos tantos perdões, na tanta leveza que carrego em mim, nos tantos fantasmas. e decido por conta própria que não tenho energia psíquica nenhuma represada. o que tenho é um menino bernardo com os pés nas minhas costelas e uma enorme alegria por ter me enganado. porque estou amando estar grávida, amando a ideia de ser mãe, e cá para nós: como toda mãe, estou convicta de que serei a "melhor do mundo", no que isso tem de bom e tem de medonho.
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sexta-feira, 17 de julho de 2009

auto-biblio-grafia

Eu li em algum lugar que a constituição de uma biblioteca pessoal é uma espécie de autobiografia. Concordo. Na quarta, muitas pessoas, épocas e lugares passearam por mim enquanto eu tentava organizar os livros, já que fim de semestre pede uma boa organização. Deliciosas cinco horas. É como se cada época da minha vida estivesse estampada nas capas, desde as primeiras aquisições. Ao empilhar os de capa dura, lembrei-me do tempo em que só tinha dinheiro para comprar as edições que saíam nas bancas de revistas - Machado quase completo, Mestres da literatura mundial, Mestres da literatura brasileira. Muitos já troquei por edições ou traduções melhores, mas não consigo me desfazer de boa parte deles. Também veio à memória a professora de literatura que deu novo rumo às minhas leituras na época da graduação em Letras. Foi ela quem me apresentou Italo Calvino, Borges, Saramago. E quem me fez querer ler todo Guimarães Rosa e Clarice Lispector. Foi aí que adquiri o hábito de comprar as obras completas de um escritor, se ele me interessasse. Hoje, seleciono mais.

E são inúmeros os livros que adquiri por causa da livreira mais sensacional que tive o prazer de conhecer. Ela tinha uma livraria que levava seu nome - Rose - e também o dom de adivinhar antecipadamente os desejos dos compradores; influenciada por ela comprei quase tudo do Cortazar. E foi ela quem me deu "Cartas a Milena", de Kafka. Foram dias inteiros deitada no chão da livraria bebendo chá, folheando livros, jogando conversa fora, fazendo novos amigos leitores. Nunca mais me senti tão poderosa como naquela época. E não apenas eu. As manhãs de sábado nunca mais foram as mesmas depois que ela fechou as portas e partiu para a cidade maravilhosa deixando mais comuns, sem a aura de confraria, todos os leitores da cidade à beira do rio Madeira.

Sempre fui viciada em me deixar influenciar pela leitura dos meus amigos. Embora, por mais que tente, eu não consiga lembrar de quem me indicou Graciliano Ramos. Talvez ninguém. Gosto de imaginar que já o amava muito antes de amar os livros. Binho, Alberto e Manu estão presentes em muitos livros. Comecei a ler poesia por indicação do Binho, um poeta músico fascinado pelos irmãos Campos e por Arnaldo Antunes. Essa influência arrefeceu um pouco no doutorado, quando me interessei pelo oposto da poesia concreta. A poesia de Cacaso, Ana Cristina César e de Leminski ocupam, assim, também minhas prateleiras. A pouca quantidade de poetas como Pessoa, Drummond, Bandeira mostra meu certo "desgosto" pela poesia discursiva. Dostoiévski e Hilda Hilst me lembram, sobretudo, Manu, um aficcionado por esses dois escritores. E foi numa tarde quente, à beira do rio, que Beto Bertagna me falou pela primeira vez de Samuel Beckett. Depois que li sua trilogia, meu gosto literário nunca mais foi o mesmo. Nas livrarias de Paris, comprei tudo dele que encontrei. Eu passava quase todos os dias na Gibert Joseph para ver se tinha algum livro "d'occasion" de Derrida ou de Barthes. Quando não encontrava deles, comprava algum outro. A etiquetinha amarela significava, muitas vezes, o livro novinho pela metade do preço. Ou menos. Marie, minha ruiva, me disse uma vez que as etiquetas eram feias e eu devia retirá-las, mas deixei-as. Elas fazem lembrar das minhas horas em frente às prateleiras à procura delas.

Em Paris, também comecei a comprar livros de artes. Timidamente, claro, devido à grana escassa. Lembro da Adri me dizendo que as pessoas compram os livros introdutórios da Taschen e já saem arrotando conhecimento. Seu ar irônico de quem entende do babado não me deixou arrotar nada. Daí, sempre os leio com um misto de desconfiança e de deleite. Tão baratos, tão bonitos! E por toda parte das estantes, está expresso meu fascínio pela Cosacnaify - as suas edições primorosas enchem os olhos. E o atendimento personalizado me espanta desde que tentei adquirir o livro do Farnese de Andrade e, aconselhada pelo meu orientador de doutorado, pedi um desconto e recebi como resposta a mais improvável das perguntas que já li em um email: "Quanto a senhora acha que pode pagar pelo livro?" Adquiri-o com 50% de desconto.

Foi nesta época do Farnese que comecei a comprar livros sobre cinema, levada pela urgência de entender um pouco mais desta arte que me arrebatou por completo nos dias frios de Campinas e de Paris. Sinto vontade de rir quando lembro das inúmeras horas roubadas dos estudos. Até mesmo "plano de estudo" de filmes eu cheguei a fazer. Como sou dispersa, sempre me fascinou a ideia de adquirir métodos de disciplina. Desde o mestrado, costumo seguir um plano: ler 30 páginas de um livro de ficção antes de começar a estudar. Eu teria lido bem menos sem este "método". Lembro que quando li A montanha mágica estava em pleno furacão: fazia uma disciplina sobre tradução em Campinas, outra sobre música em São José do Rio Preto, escrevia dois capítulos de um livro, aprendia francês, tentava entender Derrida, seguia meu programa de filmes e viajava quase todos os fins de semana para curtir a vida cultural de Sampa... e, no entanto, seguia diariamente a estadia de Hans Castorp no sanatório onde ele chega saudável e sai morto.

Minha vida acadêmica, aliás, está muito bem representada. A cada disciplina cursada, no mínimo, uma dúzia de livros. Isso desde o mestrado - então tem a fileira estruturalista, da semiótica (todos os livros de Umberto Eco), pós-moderna... toda esta parafernália "teórica". E, claro, tem minha grande paixão: Roland Barthes. Este ocupa um lugar à parte, cercado por uma aura de divinização. Olhar para seus livros às vezes me acalma (quando estou lendo algum); às vezes me deixa nervosa (quando faz tempo que não leio nenhum).

E, por fim, espremendo prateleiras que não cabem mais nada, cheguei à constatação óbvia: só agora adquiro os teóricos nacionais. Li neste semestre boa parte da Formação da Literatura Brasileira, de Antonio Candido, que nunca tinha me interessado. E também li Revisão de Sousândrade, dos irmãos Campos, a resposta sofisticada dos esquecimentos daquele. E nunca comprei tanta ficção brasileira como agora: com o grupo de literatura contemporânea, e com o desejo de fazer pós-doc nesta área, é a vez dos escritores contemporâneos nacionais. Ainda aqui é a imagem de um amigo que aparece: as indicações do meu amigo Márcio têm sido fundamentais.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Universidade

Decepção, sim.
Mas emoção também.
Flores na despedida de turma.
E lágrimas.
Talvez seja este mesmo o caminho, embora às vezes doa.
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Uma aluna disse que não se zanga quando digo que determinado trabalho não está bom, pois meu rosto expressa uma espécie de espanto e impotência. E terminou com um: "Você se importa!".
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quarta-feira, 8 de julho de 2009

Sobre as desfuncionalidades do "lar"

Todas as vezes que a avó do Tatu vem aqui ela "descobre" algo que não combina com a curiosidade dos bebês. Daí, tenho pesadelo só de imaginar Poeminha tropeçando, agarrando, nas coisas. Por enquanto, a decisão é, quando ele começar a engatinhar, retirar apenas o que lhe causar perigo, como a enorme coruja de barro que se equilibra em cima dos livros ou os objetos quebráveis que comprei nas minhas viagens... E colocar cerragem ou algo que o valha dentro dos dois enormes vasos marajoaras. Porém, a minha ingenuidade ou a minha dureza de mãe de primeira viagem está crente de que conseguirá ensinar ao seu rebento que há coisas que ele não pode mexer. Talvez porque eu tenha ouvido a minha mãe contar a vida inteira que filho dela nunca mexeu ou porque eu mesma tenha cuidado de uma criança que nunca sequer mexeu nos gatinhos medonhos de porcelana que a mãe tem até hoje...

Olhando em volta eu busco preparar minha alma para hospedar este novo ser que, assim como se hospeda hoje na minha barriga, vai ocupar meu espaço. E eu sou avara com o espaço! Muito! é verdade que tenho aprendido a dividi-lo. Estou feliz com meu 'novo jeito'. A última vez que dividi o espaço foi traumatizante, justamente porque eu não soube respeitar os modos diferentes com que o tratávamos. Comecei a me sentir responsável por tudo e, pressionada com a escrita da tese, virei uma fiscal da limpeza. Estou disposta a não repetir o mesmo erro. Continuo me sentindo responsável, mas estou muito mais leve em relação à presença do outro. Por enquanto, está tudo na paz. E é assim que eu espero que continue quando Poeminha chegar. Eu mandei fazer prateleiras para o quarto dele, mas também dois baús coloridos para jogar todos os seus trecos. Explicando a minha irmã a função destes baús, eu dizia às gargalhadas: "Têm a função de me acalmar. Ao mesmo tempo que me preparo mentalmente para aceitar uma casa cheia de brinquedos espalhados, eu me preparo para não querer que sejam enfileirados, separados por modelo, na estante. Como sei que não suportaria a visão de caixas de papelão meio rotas e rasgadas, mandei fazer os baús!".

Quem lê, pode pensar que eu estou exagerando - que vou me acostumar naturalmente. Eu prefiro acreditar que estou apenas me prevenindo. Costumo dizer que as pessoas, em geral, têm dificuldade de mudar porque não sabem que precisam fazê-lo. Muitas relações acabam devido às pequenas batalhas diárias. Nestas batalhas, a organização da casa tem peso enorme. Geralmente, a mulher toma conta de tudo, tratando os outros como hóspedes que devem obedecer aos limites impostos por ela. Sempre achei isto um horror. Não é o fato de o homem, em geral, não estar nem aí para a arrumação da casa que ele não deva ter seus espaços, para se sentir de fato em casa. Quer coisa mais louca do que uma frase como esta: "tire o pé do sofá, senão vai sujar"? Pois nós estamos procurando um sofá beeeeeeeem confortável, que aguente nossa maneira de se sentar ou de deitar para assistir a filmes. E quando ele ficar mais ou menos feio e fedido, hora de trocar, que sofá não é feito para durar a vida toda. Tenho feito, assim, o exercício de dividir, de perguntar o que o outro quer. Quer um sofá assim e assado? Quer uma TV maior? Então tá. Eu adoro minha TV, a ponto de achar que não existe nenhum colorido mais bonito, mas se o outro quer, quem sou eu para ignorar?

Enfim, acho que não vou conseguir fugir da demarcação dos limites, mas vou alargá-los ao máximo, para que tanto Tatu quanto Poeminha saibam que o espaço é também deles. E tenho me sentido muito bem desse modo. Evidentemente, tenho inveja de quem assim é sem nenhum esforço, e não está nem aí para as desfuncionalidades do lar, mas já que não sou assim, que ao menos eu dê um jeito de não fazer vítimas.

uma vaca ou uma cabra?



Semana passada, às gargalhadas, eu saí com esta, enquanto o pai do Poeminha dizia que eu estava linda:

- Estou parecendo uma vaca! Ou melhor, estou parecendo a cabra de Picasso. Barriga enorme! Tetas enormes! Feia e sublime!

Porque não perder o humor, quando se perde a silhueta, é fundamental.
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terça-feira, 7 de julho de 2009

ossos ocos do oficio

quatro livros começados. nenhum avançando de fato. final de semestre é um estupro para todo professor que se preze. é. há muitos que não se prezam. estes devem ser mais felizes. uma ideia quase romântica me persegue: a de que posso ainda ser a diferença para quem quiser. algum aluno ou alguma aluna com vontade suficiente para ter brilho nos olhos. quantos? três ou quatro com alguma sorte. dias e dias, horas e horas, lendo textos e sentindo na carne a inutilidade do gesto. como alcançar o outro? às vezes me indigno. às vezes me envergonho com o que leio. e agora, com uma barriga de seis meses, me vem pensamentos tresloucados, do tipo: e se ao invés de entregar meu filho a um professor que não sabe fazer uma frase com sentido eu mesma o ensinasse? haha! quero voltar a quantos séculos? quando estou menos umbigo, imagino um trabalho, uma tutoria, um curso específico de produção de texto, algo como parar de ignorar que a situação não nos atinge frontalmente - 4 anos o aluno no curso de Letras e sai sem saber o que diabo é análise literária ou, pior, o que é uma frase com sujeito, predicado e verbo, e que, sei lá, não repita a mesma palavra dez vezes em cinco linhas. ninguém sai querendo estrangular a gramática, simplesmente porque não sabe o que é estrangulamento, o que é certo ou errado. faltam imaginação, audácia, relação conflituosa e bela com o mundo das letras. uma monografiazinha de final de curso, 30 páginas no máximo, pouco maior que um artigo, e na hora de orientar aquela indignação ou aquele silêncio envergonhado. o que é isto?

sim, vivendo há muito mais de um mês única e exclusivamente para a universidade e para este tipo de trabalho infame, hoje estou cansada demais. descrente demais. quero ler meus livros. beijar muito na boca com este barrigão enorme. ver meus filmes. ou simplesmente dormir até acordar sem sentir sono algum. ao invés disso, eu passo mais uma tarde, mais uma noite, corrigindo textos, escrevendo anotações e lembretes nas bordas. e o pior: no fundo, eu sei, tenho certeza, que a maioria não vai dar atenção alguma ou, na melhor das hipóteses, não vai saber o que fazer.

chega.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

pina bausch partiu

pina bausch está aqui em mim, como tudo que me atravessa de forma perfurante. passo todos os dias diante de sua imagem de braços estirados dançando uma dança que desconhecíamos até que ela nos apresentasse. ela está no meio dos meus cds, entre a música que ela amou por toda a vida, porque não se pode amar a dança sem amar também a música. ela está também no livro que se recusa ir para a estante e permanece deitado na mesinha da sala, sempre pronto para ser folheado. e está, sobretudo, em minha memória.

madruguei duas manhãs na fria paris para comprar o ingresso de bandoneon. raridade. insone, dormia sempre até mais tarde. mas a razão era compensadora. eu queria ver aquela mulher que havia me fascinado na abertura do filme fale com ela, de pedro almodovar. e que, por isso, eu havia assistido aos seus vídeos de dança um depois do outro no Pompidou. quando prorroguei minha partida sobretudo para assistir ao seu espetáculo, sequer pensei que a noite da dança também seria a noite da despedida do ano intenso. foi vendo os dançarinos de pina bausch que senti a dor intensa da saudade do que ainda tinha ali e, no entanto, já havia perdido. no thêatre de la ville, os dançarinos de bausch, indiferentes a minha dor, exasperavam a plateia com a mobilidade, a teatralidade, a visceralidade da sua dança, enquanto eu tentava recompor uma inteireza ora perdida. bandoneon cortou com navalha os meus pulsos. e depois os raios da lua refletidos no Sena queimaram minhas pupilas das muitas lágrimas.

onde estaria pina bausch além de na minha memória? foi o que nunca deixei de me perguntar até então. eu sonhava em ver ao menos mais uma de suas danças, afinal todos os anos ela tinha programação marcada na fria cidade. imaginava uma viagem que coincidisse. mas a morte é esta suspensão. este definitivo adeus.

+ Pina Bausch, uma das maiores coreógrafas de dança contemporânea, partiu aos 68 anos, no dia 30 de junho, depois de ter revolucionado o conceito de dança.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

minhas cidades imaginárias

todos sabem da minha paixão por cidades grandes. sabem também que ao menos duas destas cidades têm lugar cativo em mim: são paulo e paris. calha que quase por coincidência, no meio dos meus tantos afazeres, naquela meia hora insone antes de cair nos braços dos mistérios, estou lendo dois livros que falam destas cidades: paris não tem fim, de Enrique Vila-Matas e o livro amarelo do terminal, de Vanessa Bárbara. deliciosos. dá vontade de mordê-los de tão bons. cada qual na sua. depois, quem sabe, resenho-os por aqui.

e por lê-los, caiu em mim esta pergunta: por que amo tanto estas duas cidades? e penso que a resposta que mais se aproxima é por que elas representam a minha juventude - este lugar que quando começa a se afastar vira cada vez mais imaginário: devaneio de luzes e sombras. não fui levada para estas cidades. eu me levei. e o que fui fazer de sério por lá (um doutorado) desde o início foi um pretexto para vivenciá-las. resultou que tenho em mim uma sampa que é só minha e uma paris que é só minha. imaginário. sou incapaz de reclamar do trânsito ou da poluição de sampa e do frio e da indiferença de paris. simplesmente porque nunca os percebi. nunca entranharam em minha carne.

o que se fincou em mim como ideário desta juventude perdida são cidades imaginárias onde cabiam todos os meus interesses que por falta de outro nome chamo de culturais. sampa e paris são sinônimos de teatro, cinema, música, exposições. e aos borbotões. tudo ao mesmo tempo agora. uma vida toda em 4 anos. uma caipira na cidade grande. uma deslumbrada no estrangeiro. sem nenhum medo dos estereótipos porque com arrogância suficiente para me saber capaz de segui-los ou rompê-los quando bem me conviesse.

se me perguntarem por que, ainda mais que sampa, paris ficou em mim, eu responderia pela tangente, com uma frase ambígua: porque foi lá que eu mais me pareci com a pessoa que sempre quis ser: insone, liberta, meio louca, estudiosa, relapsa na medida certa e nem tão certa. e sem ninguém a quem dizer. para quem voltar. nenhuma explicação nunca. manchando os livros de vinho nas noites insones, correndo para pegar a sessão das 11h da manhã no cinema antigo, fugindo da biblioteca para dar um espiadinha em alguma exposição. juventude tardia, mas juventude inteira.

e em sampa foi lindo. imersa naquele espaço amoroso foi impossível enxergar o que ali perdia devido a esse espaço. mas o certo é que toda cidade grande pede uma solidão essencial. pede o ser liberto disposto a acordar sem ainda ter dormido. pede o vazio da ressaca. pede o perder das horas. entrar no meio da tarde no cinema e à meia noite ainda correr para pegar a sessão da praça roosevelt. fiz isso. mas havia as correntes. no meu último aniversário, em sampa, embriagada o suficiente para sentir a vista doer com as luzes neons do bar abafado, lamentei não ter estado só enquanto lá estava e deixei ali minha juventude imaginária. não pedi mais. tanto que não voltei. e sei que quando voltar já estarei mais velha em todos e prováveis sentidos. já terei outro papel. já será outra cidade. já serão outras cidades.

e penso agora sem saudosismo. nada mais triste do que envelhecer querendo manter o sangrar da pele da juventude. seria escolher a caricatura, a máscara, a fantasia enquanto olharia aterrorizada a pele enrugar. estas cidades estão lá. quem não está mais sou eu. e demorei a perceber que isso não é o fim do mundo nem da minha vida. é só o fim de algo que desde o princípio tinha data marcada. que vou voltar muitas vezes ou em definitivo qualquer horas destas é tão certo quanto o futuro que pode não existir. mas aí já é outro papo. já não é mais sobre juventude. é justo o contrário. são os planos da maturidade.
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- foto: fachada do Sesc Consolação, em São Paulo

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Leite derramado, de Chico Buarque



No novo livro de Chico Buarque, cem anos de "tempos mortos". Li Leite Derramado em dias felizes. E os dias felizes trazem o medo da efemeridade, como se o momento seguinte fosse desmanchar o castelo de areia, derramar o leite. E este não é um " livro feliz", o que me faz pensar ainda mais na transitoriedade das coisas. Como saber que a vida não é uma sucessão de enganos, se a percepção sobre nós é sempre meio embotada? Em um hospital imundo, uma TV nunca é desligada. À beira da morte, deitado em um dos leitos, um homem com mais de cem anos não para nunca de falar, como se estivesse amaldiçoado pelas lembranças que não se fecham em um denominador comum. É a narrativa de um homem que passou a vida em engano, lendo os sinais de forma equivocada. Longe de ser um diálogo, é um monólogo; uma cantilena que seria monótona, se no entremeio não houvesse a acidez. É a história de um sobrevivente. Quando quase todos estão mortos, a voz que fala já é quase uma voz além-túmulo.

Chico Buarque está cada vez melhor como escritor. Não que este livro seja melhor que Budapeste, o anterior. São completamente diferentes. E é isso que o faz grande escritor. Com o lançamento, os críticos brasileiros ainda não se cansaram de fazer a relação com Machado de Assis. Para o bem e para o mal, Chico virou o mais novo adepto da escola machadiana... e depois não querem que eu diga que os críticos são quase sempre meros seguidores dos releases das editoras. As referências poderiam ser inúmeras, mas todos preferem falar da parecença com Machado. Porém, a meu ver, neste livro Chico está muito mais próximo da música do que de qualquer influência literária. Como em uma canção de jazz, poucos acordes dão conta de uma vida inteira: uma mulher que ou enlouqueceu ou fugiu com o amante, uma filha que dilapidou seu patrimônio e lhe deu netos e bisnetos, ora desejados ora indesejados. Esses acordes se repetem, mas com variações que causam um torção no andamento do enredo. A cada variação, um novo elemento cria a tensão que permite o próximo capítulo, que não vai ser mais do que variação do anterior e assim... É bonito esse cuidado com a palavra, como se de fato tivéssemos lendo um enorme poema, ouvindo uma longa canção. Não as canções de Chico Buarque, mas uma canção escrita com o mesmo cuidado com que ele deve fazer as suas.
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terça-feira, 16 de junho de 2009

mundocão

o mundo é um mundocão. não à toa a literatura está sempre certa. os roseirais são podados a cada noite, na surdina, para que o nascer do sol não veja nada de novo, a não ser o sempre já visto. ou os roseirais são implantados ali artificialmente, com cheiro de plástico. eu queria que fosse diferente. se eu sacaneio alguém, é quasesempre de modo involuntário. talvez como todos, eu sacaneie de forma mais impiedosa aqueles que eu amo muito de perto. porque aí o que está envolvido é uma rede fina de sentimentos que pede atenção extremada, cuidado, inteireza para uma total - e impossível - compreensão do outro. mas eu não disputo espaços. nem posições. eu tenho ilimitados interesses que me protegem do desejo da glória. o mundo é um mundocão. mas eu quero mesmo é pé no chão, de preferência na estrada. eu quero mesmo é aprender mais. e tem dias como hoje que sinto muito frontalmente que incomodo só porque penso. e porque penso diferente. e porque estou numa posição de poder dizer. sinto-me agredida. na maior parte das vezes, eu ligo um foda-se automático. mas hoje eu queria dizer foda-se e mais um monte de desaforo. mas não vou dizer. ao contrário, vou ficar aqui bem quieta ouvindo Cat Power nas alturas, deixando que a música e as palavras levem isso que não tem importância alguma. o mundo é um mundocão, mas eu tenho uma roseira na minha varanda. e ela não é podada todas as noites nem plantada artificialmente. ela tem cheiro de mato e de flor. e espalha suas folhas secas.
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sexta-feira, 12 de junho de 2009

para ele

como se não fosse um dia qualquer. tudo a primeira vez. primeira vez de tudo. mesmo que não seja. quando a alma invade assim o tempo o desejo o querer tudo é como se nunca fosse acabar. e assim me encho de ternuras. fico avara para o mundo e quero depositar tudo aqui nesta casa que agora amo com esta pessoa que agora amo. dia e noite espero seus passos no corredor e a chave que gira. um tatu chama outro tatu. não me importo se o futuro me levar esse presente. não me importo se tudo outra vez ficar seco. agora tudo é úmido. misturo meus parcos cabelos com a sua farta cabeleira. um urso bagunçando todas as ordens do dia. minha risada bem mais risada. bem mais constante. de vez em quando algo me assalta. para o amor, nenhuma defesa. só a do tempo talvez. daí esta urgência. este querer bem demasiado. afoito, trêmulo e quase humilde. como naquela música que agora não para de tocar. ser roubada do meu corpo - vem e fica e me faz um filho um bem um poema. sou tatuada para todo o sempre mesmo que o tempo. e lhe digo para ficar. oceano bravio na noite de lua cheia. coração arrancado e entregue.
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terça-feira, 9 de junho de 2009

A cidade ilhada, de Milton Hatoum

Demorei a saber o porquê do desencanto com Milton Hatoum. Um desencanto paulatino, como se o fato de ter "descoberto" esse escritor desde o seu primeiro livro me fizesse protelar o seu enterro simbólico. Simbólico, claro, pois como me lembrou um amigo, há tempos a crítica o elegeu um "grande escritor". E uma vez dado o título, dada a preguiça e o compadrismo da crítica tupiniquim, impossível destronar a majestade.

A cidade ilhada, seu último livro, a meu ver, não chega mesmo a ser mediano. Talvez a publicação seja por razões contratuais, afinal é a reunião de contos escritos em ocasiões diversas, o que me leva a pensar nos malefícios da profissionalização do escritor, mas não é por aí que quero me enveredar. Há livros maravilhosos escritos em situações adversas (lembrar de Dostoiévski é apenas o exemplo mais fácil). Não falta unidade no livro de Hatoum. Talvez o problema seja justamente este. Composto por 14 contos, o que vemos é um painel de personagens que transitam em ambientes bem demarcados; porém, enquanto a ambientação é primorosa, as personagens não têm densidade psicológica, beirando à caricatura: é um velho contador de histórias`competindo com a televisão, um velho japonês que por ter dado um passeio de barco com uma professora quer que ela jogue as suas cinzas no rio Amazonas, é um pesquisador que no estrangeiro descobre uma carta de Euclides da Cunha - os enredos são frágeis, sem uma problematização que justifique as suas existências.

E reside aí a minha decepção: Hatoum escolheu a ambientação em vez da construção das personagens. Sua escolha recai sobre uma Manaus do passado, que, segundo seus enredos óbvios, deve ser historicizada para não cair no esquecimento. É uma nostalgia que tenta retratar uma aura que provavelmente nunca existiu. Quem leu Relato de um certo oriente ou Dois irmãos, seus dois primeiros livros, sente o uso forçado de algumas palavras que servem tão-somente para demarcar o ambiente: palavras do cotidiano deste outro lugar, desta outra gente - região típica à margem. Ou seja: ele trocou a literatura pela ideia de cultura e com isso fez uma péssima escolha. Já não me convence mais.
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terça-feira, 2 de junho de 2009

A delícia dos dias

Dias muito felizes. Descanso total - atrapalhado apenas por comprinhas. Como toda mãe e todo pai de primeira viagem, nos excedemos nas compras das roupinhas do bebê. Liga-se um automático burro que deve dizer exatamente assim: "em caso de dúvida, leve um modelo de cada", embora as variações nem sejam tantas. Enfim, Poeminha agora tem roupa suficiente para pelo menos os seis primeiros meses. Isso se não crescer demais. Porque com a ajuda da avó e da bisavó, comprei tamanhos do pequeno ao grande.

Agora falta escolher o modelo do quarto. Revistas e sites estão me ajudando - eu fico na bobeira, vendo minhas leituras e buscas mudarem pouco a pouco. As mães são tão previsíveis! Eu já me conformei: estou previsível; totalmente mãe: passo a mão na barriga o tempo todo, converso com o Poeminha, falo como se já fosse ele falando... um horror! E uma delícia!

Por outro lado, tenho me cuidado. Não descuidei muito da aparência - tenho mantido meu jeito esculhambado chique (sabe-se lá o que seja isto!). Comprei várias roupas; não foi difícil encontrar calças - calças saruês estão na moda; o que me consola é saber que eu já usava muito antes de todas as "patricinhas" resolverem usar, levadas pela "última tendência". Encontrei até uma calça jeans com elástico, o que permite vestir as batas que eu já tinha. Aliás, muitas das minhas roupas parecem ter sido escolhidas para uma grávida. E admitamos: agora é mais fácil uma grávida não ficar parecendo uma butija de gás coberta com aqueles panos de decoração floridos, embora o rosto de "adormecida" não desapareça de jeito nenhum.

São tantas as expectativas; tantos os desejos. E o que mais me comove é que tudo parece estar recoberto de delicadeza. Parece que tudo é ainda mais intenso: uma música que ouço, um filme que vejo, um livro que leio... sinto cada ação como uma extensão do amor que agora sinto. Enorme, enorme!

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quinta-feira, 21 de maio de 2009

Projetos de pif

Pifei. pif. paf. Mais de mês na vida de formiga sentindo o inverno bater nas canelas deu nisso. Nada grave. Apenas cansaço dos grandes. E dorzinhas aqui e ali. Meu corpo demora a se acostumar que agora habita outro corpo exigente. Que exige repouso, dormir na hora certa, comer feito uma leoa, fazer xixi como não sei o quê. Apenas as últimas duas eu estava fazendo direito. Até tenho trabalhado deitada graças a uma mesinha portátil de computador que ganhei do pai do Poeminha. Mas não foi o bastante. É a mente que cansa. Projetos de pesquisa, apostila de literatura clássica, tradução de texto, mesa-redonda em Cuiabá, orientações trabalhosas de monografias, dia de aula 10 horas longe de casa, acompanhamento de alunos via internet, aulas aulas aulas trovadorismo barroco romantismo e mais monte de pequenas coisas. Eu devia saber que era demais.

Agora vou bem ali descansar na rede. Lista de coisas boas para fazer: ficar muito tempo deitada, beijar muito na boca, comprar roupinhas para o Poeminha, ouvir os cds maravilhosos que andei comprando com meus bônus Fnac (sim, compro tanto na Fnac virtual que acumulo bônus generosos!) e ler livrinhos também comprados, mas sem bônus. A maioria, romances contemporâneos para a próxima empreitada de pedido de bolsas para o grupo de pesquisa - grupo que tem me dado muitas alegrias. Toda segunda-feira uma hora e meia de bate papo gostoso com os alunos sobre literatura contemporânea. Cada ideia tem surgido daí... Vem aí o Silic...

Depois de mais de um mês com meu livro de Matisse sem sair da página 50, comecei outro ontem após a ida ao médico. O último do Milton Hatoum, A ilha sitiada. O primeiro conto não me animou. Mais previsível do que uma pifada de grávida. Mas Hatoum tem crédito comigo; é verdade que cada vez mais graças a apenas seus dois primeiros livros... Eu gostaria de saber onde diabo Hatoum perdeu aquele espaço de memória evocativa e lírica de Relatos de um certo oriente e achou esta linguagem plastificada de colecionador de "causos" de uma Manaus idealizada demais para meu senso crítico, com direito a palavra "acoucho"! O cabra queria ser Proust e Kafka no início da carreira e agora está mais para Thiago de Mello, seu conterrâneo.

O próximo da fila é Leite derramado, do Chico Buarque. Este tem crédito graças a tudo. E ainda na fila, De cócoras, de Silviano Santiago e O falso mentiroso, também dele; uma bolsista do grupo quer investir nele. E pedido de jovem sabida e linda é uma ordem: lerei. Ainda tem Tezza e João Gilberto Noll. Será que vai dar tempo? Melhor sentir o clima do correr dos dias...

Vou deixar que as surpresas venham. Andar de mãos dadas nos planos, como tenho aprendido. E me acostumar de vez que agora sou dois corpos.
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terça-feira, 19 de maio de 2009

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uma mão em outra mão. a outra, fica na barriga. às vezes, duas mãos na mesma barriga. quatro mãos ocupadas. sorriso que não cabe.
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isso parece enredo de folhetim barato. ou aquelas propagandas kitsch de margarina. mas é bom pra danar.

morada do poeminha

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hegaram as primeiras coisas do Poeminha feitas pelas mãos da tia-avó. dizer que são lindas é pouco. dizer o que sentimos ao desdobrá-las uma a uma também é impossível. pois fique assim como eu sempre digo: palavras não servem quando o sentimento vai muito longe.
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os gestos de carinho me atordoam um bocado.
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segunda-feira, 11 de maio de 2009

Tchubarubas

i.
No fundo, o que quero como professora é instigar meus alunos para a literatura - como se eu fosse apenas o caminho que pudesse conduzi-los para o espanto de ler. Talvez quase nunca acerte. E quando sei que acertei, me vem uma alegria e uma certeza de que é mais fácil acertar quando os ouvintes estão na mesma sintonia. Foi assim sábado, depois de viajar 10 horas para ministrar uma aula de 8 horas. A disciplina Teoria da Literatura assusta tanto quem vai ministrá-la como quem vai assisti-la, porque teoria sempre é vista como um bicho papão. Mas esta turma de Letras, da tal chamada Universidade Aberta do Brasil (programa do governo federal que minha universidade de origem participa), me surpreendeu desde a primeira vez que lá fui. A empatia foi imediata; e as discussões, deliciosas. Há alunos super atenados com a literatura, cheios de dúvidas, de questões inteligentes e percebo que mesmo os que ficam em silêncio estão de ouvido atento. Eu saio de lá sempre com vontade de ler um tanto de livros. E com a promessa de fazer uma lista de filmes, de música e de livros para eles. Eles me provocam e eu os provoco. Aí fica fácil. Difícil é controlar o minguado tempo, quando um aluno me pergunta sobre Herman Hesse, Kafka, haicai, literatura fescenina, crítica versus criador... Canso? Demais! Mas momentos como este me convencem de que vale a pena insistir nesta inutilidade chamada literatura.

ii.
Enquanto eu dava aula, véspera do dia das mães, ele me liga avisando que escolheu o "motivo" do enxoval do Poeminha. Comparou um e outro e ficou com as pipas voando. Eu abro um largo sorriso e nem questiono se esta seria minha escolha também. Talvez meu filho desde cedo saberá que sua mãe é uma mulher meio avoada e muito ocupada. E talvez se ressinta, como eu me ressenti tantas vezes. Por outro lado, sei que, apesar disso, ele vai saber que é um menino de sorte. Tem um pai que é pura atenção, pura sensibilidade; olho vivo, curioso e ansioso. E a família do pai está grávida junto comigo. Na era do domínio das máquinas, uma tia borda o seu enxoval. Fraldas, lençóis, toalhas, colchas; tudo se faz artesanalmente... Quanto tempo eu não entrava em uma loja de tecidos. E de repente lá estava eu, atrapalhada e indecisa, escolhendo cores e texturas, para que as mãos habilidosas da tia transformassem tudo em beleza.

iii.
Dia das mães. Por falta de mãe, sempre tão longe geograficamente, encomprido um pouco mais a viagem para poder ficar com duas amadas: minha Maneca e minha Princesa. Não nos víamos desde o início do ano - e elas nunca tinham me visto barriguda! Daí talvez por que a saudade parecesse mais comprida, mais urgente. Ficamos o dia juntinhas. Só saímos no fim do dia para nos empanturrarmos de sushis. Foi tanto conversê, tanta palavrinha, tanto chamego, que, quando peguei o ônibus de volta para casa, não pude adormecer nem ler. Estava toda cheia de amor. Nada mais cabia. Então fiquei vendo a noite da janela pensando neste meu primeiro dia das mães como mãe. Sim! Já me sinto mãe. E me vieram um susto e um enternecimento que não têm tradução.

iv.
E hoje meu revisor de barbeiragens me manda de volta a tradução que fiz na semana passada. Texto cheio de bandaid!!! - cochilos, como ele chamou. Depois do susto, olho, olho, comparo. E vou ficando contente outra vez. Como admiro incondicionalmente este moço, vem-me um pensamento besta de menina desejosa de aprovação: "acho que ele gostou". Mas depois, bem depois, me vem algo que parece mais importante - e que diz respeito àquele sentimento de confiança de que todos precisamos para prosseguir.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

hiatos


me deu vontade de escrever sem siso. como já escrevi antes. misturar uma e outra lembrança. como a da tarde em que fotografei a sleeping muse, de brancusi. aquela tarde tão fria. la dernière bande, de beckett, no bolso do meu casaco verde. e minha vontade de atravessar o vidro que me separava da musa de brancusi. aquela cabeça destituída do seu corpo. o pensamento sem o poder da ação. só pensamento. o problema é que agora sou toda presente. por inteira me presentifico. sou toda poeminha. meu corpo minha pele meu pensar. estes seios enormes. estas pernas que engrossam. esta barriga que fica pontuda. linda de perfil. fome gigantesca. fome de muitas coisas. muito pensar. passou o enjoo e me veio uma urgência. chegou eu sei de onde, mas andava amortecida pela força de tantos inesperados. fiz as pazes com a escrita. aquela que nos obrigam. que eu preciso me obrigar a. tem sido bom demais pensar. ler investigar tentar pôr em linhas. egostodequasetudo. estou no plural. eu, ele e o poeminha. me remodelo. corpo e cabeça. o pensamento com o poder da ação. até aprendo a deixar a louça suja - que se foda minha compulsão. eu quero é entender. é ir para a frente. é ir. e, aqui, descansando depois de uma orgia pantagruélica, chorei de pura beleza. e tem de ser assim: hiatos para a emoção, para o deixar vir - gotas de delicadeza. nada menos humano do que o automatismo. e sair do automatismo para aprender com o outro, para apreender a palavra do outro, é uma forma intensa de viver. não me importa se amanhã eu esqueça. agora, eu choro de emoção. e sei que acredito. que acredito no ser humano; mesmo que às vezes necessite de meus espaços de solidão. acredito. se há buracos no não-sentido da vida, eu busco preencher com esta crença na literatura na música na arte nos filmes - que se traduz na crença em pessoas. crença na palavra. não é fuga nem covardia. é apenas uma maneira de acreditar. e de viver. outramente.

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Ainda Valsa com Bashir


Minha amiga Mari, que me indicou Valsa com Bashir, fez uma bela leitura sobre o filme nos comentários, preenchendo os vazios que eu fui deixando. Resolvi colocar aqui. Não resisti e escrevi um pouco mais depois do texto dela:
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"Milena, sim, concordo que cada memória apresenta buracos! Não é possível reconstruir o vivido, ele busca respostas
nos outros, mas estes também apresentam lembranças incompletas. Mas a impossibilidade da reconstrução, a meu ver, se configura pelo que parece ser o grande tormento: o silenciamento diante do massacre. No final do filme, eles assistem às execuções, aos bombardeios do topo de um prédio! Nós assistimos aos bombardeios pela televisão!! É como se o diretor perguntasse o tempo todo: 'como, por que ficamos em silêncio?' Então, se nada ele fez em termos de ação, houve a inação. Lembra da cena em que aparece a família sendo excutada? Houve um silêncio enquanto um grupo agia na calada da noite! O esquecimento fica inaceitável! Lembra do Fernando Bársena que, apoiado na Hannah Arendt, fala do horror dos campos de concentração? No final do texto, Bársena diz que temos que pensar, discutir aquele horror para que não deixamos que ele volte a acontecer. Rememorar, construir uma memória, mesmo que esfarrapada, do que aconteceu talvez seja a forma que o diretor de Valsa com Bashir encontrou de lutar contra o silenciamento da memória (que esquece), contra o normalização do massacre (a autoridade é avisada do que estava acontecendo, mas volta a dormir). Nesse sentido, as imagens finais, naquele tom azul, funcionam numa fronteira de contradição. A cor remete ao que é irreal, mas o mostrado não permite que se fique nesse lugar do sonho, de um possível acontecido! Os corpos retorcidos, empilhados, aquele choro das mulheres (sempre elas, o que lembra as mães argentinas gritando pelos filhos que desapareceram nos porões da ditadura) nos arrancam desse lugar. Funciona como uma sopapo bem forte!!! É como se dissesse: é proibido esquecer!"
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Sem dúvida, é uma luta contra o silenciamento, contra a normalização da barbárie. É um gesto político. Os artistas têm feito o papel que a História sempre fez de maneira incompleta, uma vez que se baseava em um tipo de "leitura por cima", que se desejava imparcial, mas que resultava em um trabalho conivente com a barbárie. Quando destaquei a mistura do real e do sonho, não era no sentido de diminuir a força dos acontecimentos, mas de enfatizar este olhar de dentro, o olhar da testemunha, em que o horror é sempre muito maior e, por isso, resulta em uma memória esburacada. O fato de existir o filme não diminui a culpa, apenas ajuda a conviver com ela; é o legado da nossa geração e das futuras. O que o filme faz é nos dizer que não podemos esquecer tal legado. A força de um filme como este, ou de um livro que testemunha os horrores da Shoah, ou de um quadro como Guernica, está justamente no fato de não ser um discurso da História. O que eles relatam não é um possível acontecimento (e eu não tive a intenção de afirmar isto); o que relatam é um ponto de vista subjetivo de um acontecimento, mas não menos significativo. Há algo mais forte do que um "estive lá", um "eu vi", um "eu vivi"? Não à toa as testemunhas são a principal arma que o Tribunal Penal Internacionacional dispõe para colocar na cadeia aqueles que cometeram crimes contra a humanidade. Daí vem a beleza trágica de um filme como Valsa com Bashir - no meio de uma guerra, às vezes a única saída é dançar. Dançar conforme a música das metralhadoras. Sobreviver a isto é que é o verdadeiro horror. Touché para Folman.

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Imagem: http://blog.uncovering.org/archives/2009/01/valsa_com_bashir.html

terça-feira, 28 de abril de 2009

Valsa com Bashir, o filme

Valsa com Bashir é um daqueles filmes que me explica por que eu gosto tanto da sétima arte! É um filme que incomoda e deleita, que inquieta e encanta. Essa espécie de documentário de animação do iraniano Ari Folman sobre um fato histórico vivenciado por ele é um libelo contra a memória. Não sobre a memória, mas contra; porque o tema é o do inconformismo contra os esquecimentos provocados devido a um fato traumático; no caso, a presença do diretor no massacre ao povo palestino ocorrido no Líbado em 1982. Soldado israelense à época, o que lhe atormenta é não conseguir saber sua real participação no acontecimento. No desenrolar do filme, à medida que o real se aproxima, contraditoriamente, torna-se mais nebuloso. Os depoimentos dos seus amigos que estavam - ou não? - com ele nos dias fatídicos comprovam o que o filósofo Walter Benjamim disse acertadamente sobre a incapacidade de narrar nos tempos de pós-guerra. As narrativas confundem o real e o irreal. Não à toa o estopim da busca da verdade é um sonho, assim como a imagem que persegue o diretor tanto pode ser um sonho como um fato ocorrido, mas que, para ele, se assemelha a um pesadelo. Se existe o real, o acontecido, e isto se comprova historicamente, o problema é que agora só existem os testemunhos. E cada testemunha é atormentada pelos seus próprios fantasmas, possuem os seus próprios buracos negros. Devido a isso, as imagens que vimos a partir dos testemunhos não são da ordem do factual, mas do "estive lá", com toda a carga de subjetividade que isso carrega. O fato de ser um documentário de animação, ao invés de minimizar o incômodo da confissão, reitera a impossibilidade de restabelecer qualquer verdade que não seja calcada na dúvida, na reinterpretação dos fatos. Quando surgem as imagens reais, no mesmo tom azulado-sérpia da animação, é como se despertássemos de uma espécie de pesadelo; mas um pesadelo com trilha sonora e tiros que parecem de festim. Quando o engano se desfaz, o filme acaba. Já é outra realidade.
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Fotos: http://www.interfilmes.com/filme_v4_20887_Valsa.com.Bashir.html#Imagens

domingo, 26 de abril de 2009

ou isto ou aquilo

Minha maior dificuldade? Sem dúvida, estabelecer prioridades. Consequência do fato de desejar por todos os poros. Nunca sei se priorizo as leituras, ou os filmes, ou o tempo com ele. Ou se crio jeito e termino os artigos pela metade que amontoam o chão embaixo da escrivaninha - por falta de gavetas. Ou se tomo vergonha e envio minha tese para editoras antes que ela caduque de vez. E isso tudo rivaliza com a compulsão pela casa limpa. Também nunca sei se guardo dinheiro para uma viagem, para uma super máquina fotográfica, um sofá ou um armário de cozinha. Ou se compro todos os cds e livros que acho que preciso. Agora, o quarto do Poeminha se impôs. A escrita de uma apostila que pagará o quarto, também. E penso que tem sido assim: os prazos mandam em mim. As prioridades se fazem sozinhas. Qual o consolo nisto tudo? Todas as minhas opções são muito prazerosas - ou quase todas.
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isto que sinto agora não tem nome. de tão simples. às vezes, concretiza-se. como hoje. a mesa posta. o sorriso largo.
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sábado, 25 de abril de 2009

a-dios

eu fui uma aluna relapsa. no início, bem mais. e sempre sentei de qualquer jeito. ainda hoje. os alunos fazem graça da dança que minhas pernas protagonizam embaixo da mesa. como aluna, era pior. colocava-os em cima da mesa e abria qualquer livro que me interessasse mais do que as aulas. e ele era um professor discreto, que falava baixo, mas tinha um método que eu como professora gosto muito de aplicar para fugir das cópias de internet. talvez tenha copiado dele. daquele professor com nome de cantor popular. ele nos mandava escrever em sala. e como um professor do ensino fundamental, se gostasse do texto, pedia para que fosse lido em voz alta. foi assim que ele me notou. ou que eu o notei. era o primeiro semestre de Letras. a ordem para que eu lesse meu texto veio acompanhada de uma confissão: ele só acreditava que era eu a autora porque os textos haviam sido feitos em sala. e acrescentou: "como uma aluna que tinha coragem de por os pés em cima da mesa e abrir uma revista na cara do professor, sabia escrever um texto como aquele?" talvez tenha sido aí que eu tenha ganhado confiança. depois a perdi. só muito depois a readquiri. ou nada disso. meu modo de ser não mudou. nem o dele. ele continuou falando baixo e devagar. eu continuei com meus pés sobre a mesa. mas desde então desenvolvemos um código. dois tímidos nos corredores, sorríamos e baixávamos a cabeca quando nos encontrávamos. como se partilhássemos um segredo. ou uma confidência inapropriada e intempestiva. ou uma resposta sempre suspensa. a última vez que nos vimos não foi diferente, embora já fôssemos colegas de profissão. o sorriso que não se sustentava. o respeito mútuo. ontem, soube que ele se foi. cedo demais, como sempre achamos sobre aqueles a quem queremos bem.
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quarta-feira, 22 de abril de 2009

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o sapatinho é um all star.
diz muito sobre a mãe.
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terça-feira, 21 de abril de 2009

em cuiabá, na cidade de 40º

longe de casa. porque alguém me espera, sinto vontade de voltar mais rápido. na cidade de 40º, penso tantas vezes naquele que ficou que ele parece se presentificar. gosto tanto deste momento da minha vida que sinto medo de perdê-lo. sinto uma vontade imensa de não errar. já errei outras vezes. e não me arrependo. já amei e desamei. antes do tempo e depois do tempo. e se não me arrependo dos erros, é porque sem eles não teria chegado até aqui, até a este momento. e se não lamento as perdas, é pela mesma razão. muitas vezes temos que perder para que venha a chance do inesperado. como aquele que ficou e me espera. como este poeminha que agora cresce em mim. hoje comprei os primeiros sapatinhos. meu coração bateu tão forte que achei que ia explodir. muita emoção. estar grávida é muito poderoso. falar disso me enrubesce. todos já sabem o que as grávidas sentem e dizem. e é tudo verdade; esta baita emoção que vem não sei de onde. nunca tive medo do porvir. e agora sinto, mas ao mesmo tempo muito segura com o presente. até as insatisfações deixo que venham sem nenhum disfarce. choro e fico ali até que venha outra emoção menos dolorida. foi assim na sexta depois de mais uma aula frustrante. a sensação que veio depois foi de muita força. fiquei até às 2h da manhã terminando o texto para falar aqui, na cidade de 40º. não apresentei bem porque tenho medo de público. o auditório estava lotado. e quanto mais olho para ele, mais me amedronto. depois, não senti a angústia costumeira. pela primeira vez, encarei como um fato, e não como um fardo. não me culpei. não havia nada que eu pudesse fazer, ao menos conscientemente. eu estava ali, eu tinha um texto na mão que, modéstia às favas, eu achava muito bom, muito perspicaz. eu havia estudado, eu havia lido, eu havia escrito, eu tinha uma opinião muito clara sobre o assunto. e se teve alguém que prestou atenção para além da minha respiração ofegante, decerto deve ter percebido que não é o não-saber que me deixa nervosa. daí a não culpa. achei mesmo que já fui bem pior. e quem pode ir além da sua fronteira invisível? sem resposta, me resta continuar. e é o que vou fazer. agora com mais cuidado. na minha mala, os sapatinhos. e aqui em mim, aquele que me espera e este que fizemos juntos em uma daquelas noites de ternura. e ainda em mim uma louca vontade de dizer àquela moça que me ama e acredita em mim: eu também acredito. e dá uma piscadinha e aquele sorriso maroto que ela reconhece em mim. assim como reconhece o medo que eu tenho que pôr debaixo do tapete para continuar acreditando.

terça-feira, 14 de abril de 2009

Palavrinhas à toa

Hoje li o post em que Caetano se despede no seu blog. Acho que não disse por aqui. Desde que descobri, leio o blog do Caetano. Ele fazia posts enormes. E tem milhares de seguidores. Eu nunca escrevi por lá. Mas pelo que lia, ele dava atenção a todos. Um incansável polêmico. Amo Caetano. Desde que o descobri. Gosto até mesmo das suas bravatas. Maravilha alguém ter coragem de dizer tantas - e de modo tão firme. Ele tem coerência nas suas incoerências. Muito mais interessante do que quem só tem coerência.

Eu leio muita porcaria na internet. Algumas pessoas ficam surpresas quando descobrem. Ou quando eu conto. Leio o blog da Luana Piovani há anos. Não indico porque não presta. Mas leio. E fuço os blogs das estrelas, o tal do bloglog (não à toa falei sobre eles na apresentação da minha tese), embora só leia o do Pedro Neschling, Washington Olivetto e às vezes o do Boni, quando ele escreve sobre viagens. São os únicos passíveis de leitura. Os outros são umas tontices sem fim, sem contar no constante assassinato à gramatica! Tem os humoristas. A minha sobrinha diz que são legais, mas eu não gosto muito de humor. Só quando estou vendo - esta é outra das minhas maluquices.

Halem (que anda bem falado por aqui!) comentava dias desses sobre os blogs afetadinhos. Não foi esta a palavra que ele usou. Mas é por aí. Realmente tem muitos. E se justifica. Todo mundo quer ser sabido. Acho justo. Melhor do que querer ser néscio. Sei que ele não falava sobre meu blog, mas eu expando os pensamentos via umbigo e me vejo perguntando se sou "afetadinha". Acho que sou. Mas não tento falsear. Assim espero. Sou curiosa. Sendo assim, eu sei um pouco sobre um bocado de coisa. Mas não tenho memória. Esqueço a outra metade. Se um casal de amigos chega com um filme embaixo do braço e eu acho que é ruim, eu cometo a indelicadeza de dizer. Se tiver naqueles dias muito sem noção, acrescento que não gosto da ideia de perder tempo. E os faço assistir a um filme de Wong Kar Wai que o amigo acaba por confessar que, para ele, não é sequer suportável. Eu me faço de sonsa e vemos o filme até ao final. Ainda bem que depois tem pizza.

Mas eu não poso de intelectual. Talvez de esforçada. Escrevo sobre o que me interessa. E procuro viver com o que me interessa. Só quem me interessa, eu já dizia há um tempo neste mesmo espaço. Não vejo novela há anos. Sequer tenho o canal da Globo aqui em casa. Na minha outra casa, tinha. E eu encrencava com minha amiga porque ela via. Agora ela me diz que não ver mais. Cansou. Mas às vezes eu via as do Manoel Carlos, que são melodramas para lá de óbvios. Mas justifico dizendo que ao menos têm coerência. Melhor que as de Gloria Perez que sempre me pareceram uma coisa terrificante. A última vez que vi qualquer coisa desta autora foi logo depois que a filha dela morreu. E ela fez umas cenas em que Cristiana Oliveira era torturada em um porão... ou qualquer coisa assim. Passei a achar que ela era meio louca. Mantive-me à distância. Também nunca vi um Big brother. Tentei ver um para tentar entender a razão de todo mundo ver. Mas, sem pose, não consegui. Não sei exatamente as razões do meu afastamento da programação da TV. Eu adoro filmes, mas nenhum programa, por melhor que seja, me pega mais.

Porém, como eu ia dizendo, gosto de muita porcaria na internet. Isso não é bom nem ruim. Talvez mais para ruim, se pensar no fator tempo. E acho que estou contando isso aqui para não ficar com cara de "afetadinha" demais. Estas, geramente, são pessoas chatas. Às vezes, eu sou chata, mas o que gosto mesmo é de ser vista como uma pessoa bacana. Quer dizer, antes eu queria ser bacana para todo o mundo. Agora, desencanei. Só para os que me interessam. Será a tão falada maturidade? Ou mais um aspecto "afetadinho? Enfim, difícil saber o exato de todas estas questões, mas bem excitante pensar sobre elas.
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sexta-feira, 10 de abril de 2009

Reflexões para nada

Halem, ao comentar que o mundo das artes está muito distante da maioria das pessoas, me fez lembrar da minha reação ao ver a exposição de Farnese de Andrade, no CCBB-SP. De tão impressionada com o que vi, veio-me uma revolta por nunca ter ouvido falar de Farnese. Eu perguntava: "como temos um artista brasileiro como este e ele é praticamente desconhecido?". Infelizmente, este desconhecimento não diz respeito apenas às artes plásticas. Eu e Mari sempre comentávamos, observando nossos amigos e conhecidos de doutorado, que a Universidade gerava conhecimentos específicos, mas não gerava apreciadores de cultura letrada. Ou gerava muito pouco. Em cursos como os de Linguística e de Literatura, parecia-nos surpreendente que houvesse tão poucas pessoas interessadas no caldo cultural que estas áreas parecem trazer na sua essência. Concluíamos que isto é resultado da nossa educação, sempre tão tacanha em relação a tudo isso. Professores não podem nos dar o que eles não carregam consigo: o apreço por uma boa música, um bom filme, um bom livro. Uma boa parte é consumidor apenas de novelas e de livros de autoajuda. Não que isto seja errado, mas é muito pouco diante do que temos diante de nós quando nos interessamos por outras "inutilidades", como costumo chamar ironicamente.
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Com os hormônios de grávida a todo vapor, dias desses, em uma das minhas aulas, tive um rompante de ira. Uma ira controlada 24 horas atrás das palavras certas para expressá-la. Só quem dá as literaturas iniciais em um curso de Letras, numa cidade com uma monocultura como a que trabalho em que não há nada além do que o interesse pela música brega, pode saber o quão é difícil chamar a atenção dos alunos. Para mostrar-lhes que Chico é "trovador moderno", que sua música deve muito à cultura portuguesa, levei um DVD com ele andando pelas ruas de Lisboa e falando sobre a relação literatura-música. Enquanto o DVD rolava, era nítido o desinteresse da maioria dos alunos. Foi a gota d'água. Que não prestem atenção nas minhas aulas falando de poesia trovadoresca, vá lá, é até compreensível! Mas que não tenham apreço por uma belezura assim (nem que seja pelos olhos do Chico!!!) me pareceu incompreensível. Os hormônios encontraram a seguinte saída: disse-lhes que a partir daquele dia eles tinham presença garantida nas minhas aulas para me evitarem o dissabor de ter que presenciar tanto desinteresse. Acrescentei também que não tinha problema com quem não sabia, mas que tinha enorme problema com quem não queria saber, pois eu não sabia muita coisa, mas sentia enorme vontade de saber; que mesmo em uma cidade com tão poucas atividades culturais, eu estava sempre procurando o que fazer, senão eu começava a me sentir uma ameba - ou pior, uma vaca pastando. A "ameba" e a "vaca", embora possam parecer palavras advindas dos hormônios, não o são. Eu sempre pensei que é para fugir da mesmice que nascemos gente. Senão poderíamos ser ameba, vaca, um bicho qualquer, que, a nossos olhos, fazem sempre o mesmo.
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No entanto, depois de todo desabafo, sempre procuramos apaziguar nossa decepção em relação a nós mesmas - que não conseguimos incentivar de maneira eficaz - e em relação ao outro, que está cagando e andando para esta tal educação humanista que insistimos em acreditar que vale para algo. E me vem a certeza de que este despreparo todo que o aluno leva para o ensino superior não é culpa deles. Voilá! Falemos em "sistema", mas não como algo abstrato, mas como algo pulsante que reproduz incompetências em todos os âmbitos. Ou alguém acredita que estes alunos, daqui a 2, 3 anos estarão preparados para irem à sala de aula ensinarem língua portuguesa e literatura as nossas crianças? E a crianças de amanhã? este círculo vicioso é o que me espanta e me choca. Quem escapa dele?
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quinta-feira, 9 de abril de 2009

momentos antes

rituais. alguém escapa deles? me preparo para escrever sobre o que não gosto. busco uma linguagem para o que não gosto, mas a certeza de que os futuros leitores também não gostam nem gostarão me atrapalha. talvez um dia deem de cara com saramago, cardoso pires, antonio lobo antunes, se tiverem sorte. para me consolar, lembro que vou ganhar uma boa grana. o que parece ser uma boa grana. penso no quarto do bebê. aquele, como tenho imaginado. talvez assim a escrita flua. ser um prostituta eventual das letras tem lá seu charme. alguém pagando pela minha escrita não soa tão mal. miles davis para acalmar. a arrumação da casa não serviu desta vez. só para sentir falta do que falta. sinto falta da coca-cola. de um armário de cozinha, de um sofá. talvez seja apenas a tarde quente. muito quente. vai chover, é quase certo. talvez um chá. ou esperar a chuva cair. ou simplesmente começar a escrever. talvez começar assim: "talvez vocês estejam se perguntando o por que de estudar literatura portuguesa clássica e medieval. eu mesma me pergunto para que ensinar. uma boa resposta talvez seja que a literatura é um moto contínuo; quanto mais entendemos seu passado, melhor lemos o seu presente". seguir por esta linha, tentando manter a relação com o presente. que se foda quem vai ter que dar aula a partir do que eu escrever. pior seria se fossem os alunos a se foderem. sim, vou começar. tirar os "talvezes". lembrar de colocar as maiúsculas. e misturar as cantigas trovadorescas com as canções do Chico; as crônicas de Fernão Lopes com as de Nelson Rodrigues; Camões com Drummond, Caetano e Haroldo de Campos - fazer a máquina do mundo girar. e dar um pontapé nesta ementa. um pontapé de leve. quando eu achar que estou exagerando, retroceder um pouco. mas manter a linguagem viva. sim. manter a linguagem viva. lembrar de Barthes escrevendo sobre Racine, Loyola, tão ou mais apaixonado pelo passado quanto pelo presente.
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sexta-feira, 3 de abril de 2009

Meu amor pelas artes plásticas

Enquanto zapeávavamos países da Europa pelo mapa do Google, sonhando com o dia em que faremos uma viagem a três (sonho talvez nem tão distante), eu dizia ao Ney que quando moramos em Paris, nem que seja por um curto período, como é o meu caso que passei um ano, mudamos a nossa relação com a arte. Acho que chegamos a este assunto por que eu tentava diminuir minha culpa por ter comprado alguns livros de arte quando tinha jurado que não compraria nenhum livro até pagar todos os que já comprei nos últimos meses. Não sei se essa mudança ocorre com todos. Mas posso afirmar que ocorreu comigo.
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Antes, eu não era totalmente alheia às exposições que ocorria em São Paulo. Lembro de uma manhã inteira perdida nas ladeiras da Vila Madalena para ver uma exposição do fotógrafo Robert Mapplethorpe ou do meu assombro ao ir ao Masp pela primeira vez, onde já voltei inúmeras vezes. Mas foi em Paris, e em cidades da Europa, onde realmente criei o gosto de apreciar obras de arte. Eu quase me arrisco a dizer que passei mais tempo em museus do que em bibliotecas, que por força da minha pesquisa era onde eu deveria estar. Visitei quase todos os museus de Paris, alguns mais de uma vez, além de muitas galerias e inúmeras exposições temporárias. Sem contar o Pompidou, que era minha "sala de estudo". Quando me cansava de pesquisar, ia dar uma volta nas exposições. E em todas as cidades que visitei, os museus eram prioridade. Fui a Madri, sem ter mais um tostão no bolso, apenas porque descobri que era lá que tinha a coleção mais completa de Bosch. E chorei diante do
Jardim das delícias e também diante de Guernica, de Picasso. Outra emoção indefinível foi ver os inúmeros quadros de El Greco em vários lugares de Toledo. E tendo ido a L'Orangerie, em Paris, para ver os nenúfares de Monet, como todos fazem, eu saí impactada de fato pelos quadros de Cézanne e sobretudo pelos de Soutine, de quem eu nunca tinha ouvido falar. Em Londres, viajando com dois artistas plásticos, praticamente não vi a cidade. Foi um entrar e sair de museus. A Tate Gallery me pareceu feia por fora, mas o que há dentro dela vale a volta a Londres muitas vezes. Aliás, visitar museus com a Adriane, uma dessas artistas, eram momentos de rara beleza. Lembro de um dia estarmos em Estraburgo e eu e Mari fazermos um comentário sobre uma obra que, basicamente, era uma espécie de varal onde se encontravam pendurados panos de tons beges. Mari falava da dificuldade de ver beleza naquele tipo de arte. A explicação simples da Adri, ao nos mostrar que a dificuldade residia no fato de a imagem ser um objeto, e não uma pintura emoldurada em um quadro, mas que havia ali seleção de objetos, volume, leveza, nuances nos tons em bege tal e qual em uma pintura, me deixou fascinada. Para mim, que intuitivamente sempre gostei mais de arte contemporânea, foi uma espécie de revelação. Foi apenas em Roma, muito mais do que no Museu do Louvre, que sempre me causava uma espécie de saturação, que me senti próxima da pintura clássica. Lá fui a museus, igrejas, galerias, às vezes, apenas para ver uma pintura. Foi lá que tive a sensação de estar em uma cidade muito antiga. Sem a política de restauração e preservação de Paris, sem a sua riqueza ostentatória, Roma pareceu-me por inteira uma imensa obra de arte corroída pelo tempo.

Entre as muitas caixas de livros que enviei ao Brasil, boa parte delas continha livros de arte (lá muito mais barato do que aqui). E o certo é que eles não viraram peças de decoração. Tem sempre algum que estou lendo; e os leio com o mesmo prazer com que leio um livro de literatura. Daí por que, desde que voltei a trabalhar, tenho aproveitado todas as promoções dos livros de arte da Cosacnaify. Tem chegado aqui cada preciosidade!
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Eu não tenho nenhuma pretensão de entender de arte; tenho dificuldade em memorizar os movimentos, que para mim são incontáveis, daí talvez porque eu pense mais em artistas. Gosto de muitos. Evidentemente, por não ter um conhecimento profundo, assim como ocorre com o jazz, eu acabe conhecendo aqueles que têm um nome mais reconhecido. Porém, nesta miscelânea, eu já consigo identificar muitas das razões por que gosto mais de alguns artistas do que de outros. Tenho, por exemplo, fascínio por Francis Bacon, que não conhecia antes de conhecer a Adri. Assim como mantenho intacto meu amor por Schiele, Bosch, Gauguin e Modigliani, que vem muito antes do meu amor pelas artes plásticas. Gosto demais de Robert Rauschemberg, Louise Bourgeois e Cindy Scherman, que também vi em exposições em Paris. E gosto de Farnese de Andrade, Ernesto Neto, Leonilson e Cyane Pacheco. Exceção, talvez, de Gauguin e Modigliani, todos estes artistas têm algo de grotesco nas suas obras. Possuem algo de perverso, de doloroso, de abjeto.
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Sim, definitivamente, meu olho se emociona diante de tanta beleza - seja estranha ou não. E , na verdade, não sinto culpa alguma ao ler um livro como o que leio agora: "Reflex: Vik Muniz de A a Z". E só o leio agora porque ainda sou do tipo daquelas gentes que têm coragem de gastar seu dinheirinho suado com estas inutilidades que servem apenas para isto: emocionar.
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Foto: Eu nos quartos de Rafael, no Museu do Vaticano, by Mari.

terça-feira, 31 de março de 2009

As faces de Arthur Omar

"Os anjos não vêem as trevas, porque sua visão é uma orgulhosa luz da força divina".
Jacob Boheme (1565-1624), na primeira página do livro de Omar.


no tempo da máquina digital, em que qualquer um faz fotos borradas e pensa que faz foto artística, talvez as fotos de Arthur Omar causem menos impacto. Desconfio que comecei com uma generalidade mentirosa. Recomeço. Não é apenas na imagem meio
flou que está a singularização destas fotos. É uma verdade muito maior, mais visceral, como se nestas 3x4 (gigantes nas exposições) o que ocorresse fosse uma violenta confrontação. Omar descobriu que é do rosto que não podemos fugir, seja do nosso, seja do dos outros. E, antropofagicamente, engole a alma dos seus fotografados. pois o rosto, que é matéria, transcende para o misterioso, virando alma. Daí a razão de pressentirmos o espanto congelado nestas faces, embora a sensação de movimento seja enorme. A elas, deu um nome: faces gloriosas. E criou uma teoria. Mas não quero saber da teoria. Prefiro ficar com o mistério, buscando entender o flagrante da tristeza na face preparada para o carnavalesco. Não um carnaval atual, dos camarotes vips, da monocromia pálida dos abadás, mas daquele que existe apenas no nosso imaginário, tão antigo como nossas mais remotas lembranças. O fato é que o preto e o branco, tal e qual nos mostrou os grandes mestes da arte pictórica, contracenam no mesmo espaço para criarem uma outra cor, disputando cada entranha da face, deixando, ali, congelado, todo um lastro de alegria e sofrimento - a matéria de que todos somos feitos e trazemos estampada em cada uma das nossas linhas. Mesmo as máscaras não simulam nada; estão ali como suplemento ao mistério.

Massagem na parte superior da alma que dá para os fundos

rainha da noite com alfinete de luz

o minotauro


































Leite Zulu para harmonia química nacional
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Obs.: A primeira vez que vi as fotos de Arthur Omar foi em uma exposição em São Paulo. Já não lembro onde, nem o ano. Ficou-me apenas o espanto das fotografias gigantes.

Agora, vejo-as no livro: OMAR, Arthur. Antropologia da Face Gloriosa. São Paulo: CosacNaify, 1997.