segunda-feira, 31 de maio de 2010

espanto ou o quê




O amor é de tal modo um espanto que chega a doer. Daquelas dores que são pura beleza. Eu olho, voyeur, e me vem a pergunta: que sentimento tão grande é este? 
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Para o filho

Poeminha, que história bonita para guardar::: diante do pôster dos Beatles, que penduramos no seu quarto, você abre o sorrisão. Na verdade, dá uma gargalhadinha. Na primeira vez, pensei: "ah, é só a novidade!" Qual não foi a minha surpresa quando você repetiu a mesma gargalhada. E ainda agora, depois de dias com o quadro ali, você olha, se demora, olha pra mim, depois para o quadro, e sorri, e gargalha e mexe as mãos em frenesi. O que você sente, filho, e por que sorri assim? Sim, filho, há muitos mistérios neste mundo. Os Beatles são um deles. Um dia você vai saber. E quem sabe também se apaixonar por eles - e lamentar por não ter estado lá, lamentar por não lhes ser contemporâneo, mesmo que isso significasse ser bem mais velho. Um lamento que com certeza virá acompanhado da alegria de saber que a música é eterna. Simplesmente está - como esse quadro no seu quarto. Vai que ele se demora, filho? Vai que você queira que ele fique sempre ali? Tomara...
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sexta-feira, 28 de maio de 2010

A imagem


Tenho visto poucos filmes. Não é um lamento; só constatação. Tempo tempo tempo, mano velho.  E as escolhas. Porém, confesso que senti uma vontade danada de emendar um filme depois do outro quando vi o cartaz do Festival de Cannes deste ano. Que já passou. Mas achei tão bonita a Juliette Binoche no cartaz que resolvi postá-lo. Lembrou-me os espetáculos do Bob Wilson. Bonito ver Binoche não como uma estrela do passado, mas como uma reverência ao presente e ao futuro - que já chegou.

domingo, 23 de maio de 2010

Só agora Avatar


Muito se falou sobre Avatar. Qualquer interessado em cinema, ligou as antenas. Demorei para assistir. Não estava errada quando pensei que era daqueles filmes para se ver no cinema, e não em casa. A imagem, tudo. Não vi em 3D, mas o vi na teconologia Blu-ray, a que Tatupai me fez conhecer para que eu adiantasse seu presente de aniversário em alguns meses. Desde o primeiro filme em blu-ray, eu disse: é a imagem hiper-real. A saturação de cores não se relaciona com aquilo que nossos olhos habitualmente veem - o mundo real não é tão colorido. É o mundo das HQs,dos desenhos animados, do videogame. Não à toa é uma tecnologia que veio daí.

No entanto, teimamos em pensar que o mundo bem poderia ser tão colorido. A ideia do duplo - um mundo em dobro, um sujeito que se reparte em dois, ou mais - há muito tempo encanta o espaço ficcional. James Cameron joga com essas duas possibilidades - a imagem e o fascínio do duplo - para construir seu filme.
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Entretanto, sem contar até dez, o seu filme é bem decepcionante. É espetacular na criação das imagens, mas totalmente previsível no enredo. Se fosse um livro, seria bem ruinzinho. Reiteradamente, carrega nas tintas dos estereótipos do melodrama.  Cheguei a pensar que é proposital, como faz, por exemplo, os filmes de Indiana Jones. É possível adivinhar a cena seguinte sem nenhum esforço. Acresça-se a isso doses excessivas do politicamente correto; e eis Avatar.  Poderia ser uma encomenda do greenpeace. No entanto, há as imagens. E como as imagens foram geradas. Por isso, não dá para ficar indiferente. É bonito de se ver. A cena final, especialmente. Só se transforma em um outro aquele que prepara tanto o corpo quanto o espírito para tal acontecimento. É um poder xamânico, este. Daí, ser tão especial.
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Eu fiquei com a impressão de que o cinema foi muito longe como um meio que é essencialmente imagem, sem que saísse do lugar como meio que também cria histórias.
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sábado, 22 de maio de 2010

Os véus da escrita autobiográfica em Jacques Derrida

Artigo meu bem aqui.
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Feliz, sabe. Quando escrevi este texto, quando apresentei este texto, estava quase feliz, mas ainda não sabia. Soube aos poucos. A certeza veio em Belo Horizonte. Foi lá que conheci pessoalmente o Halem. E foi lá que fiquei horas de conversa com a Lu, que me hospedou. Foi lá que recebi milhares de mensagens do Tatupai. Segundo ele, para que eu não esquecesse. A quase felicidade. Depois, por inteiro. 
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O texto não revela nada disso. Porém, o fato de ele existir funciona para mim como a madeleine de Proust. É o dispositivo da memória. 
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Cor


A tia do Tatupai veio - a que fez o enxoval do Poeminha. Ainda não o conhecia. Foi ela quem soltou aquela frase: "Meu Deus, é o Ney". E entre delicadezas e guloseimas, deixou o sofá cheio de flores. E quando as flores ferirem demais nossos olhos, deixou também a versão preto-e-branco. Lindezas! Ela e as flores.
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quinta-feira, 20 de maio de 2010

Eu digo não


Flores no deserto. A promiscuidade intelectual abre a imaginação, é o que penso. Quanto a mim, leva-me onde nunca iria se me restringisse ao preto e branco. Digo não a qualquer tipo de afunilamento. Não sou derridiana, nem barthesiana, nem estruturalista, nem culturalista. Nenhuma ana e nenhum ista me interessam. Não acredito no regionalismo, nem no universalismo. Minha religião é a literatura. E minha fé é nas pessoas. 

Não sou boazinha.  Estou fora dessa lavagem cerebral de que se deve preservar a qualquer custo a pureza de uma Amazônia mítica. Por aqui, as pessoas comem, bebem, dormem, defecam, sofrem, como em qualquer lugar do mundo. Qualquer lugar é um lugar. Querem moldar meu corpo para me ensinar como se goza - preferencialmente, para o bem da coletividade. É porque a "diferença" dá dinheiro pra caramba. Expor na feira os indigentes, os relegados do mundo, e assim equipar as paredes ocas da Universidade. Pesquisa tupiniquim. Não entenderam nada do mau caratismo de Macunaíma. Escolheram o Guarani, porque é muito mais rentável. Já eu prefiro o herói sem nenhum caráter; pelo menos tem mais humor e putaria. 
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A dúvida, sempre. Escolher minha forma de gozo.
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Foi assim quando me aventurei a entrar na vida acadêmica pra valer. Na seleção de mestrado, disseram-me que eu não passaria de jeito nenhum com "aquele" assunto. Era preciso adaptar-me aos gostos dos outros, tão contrários ao meu. Passei em primeiro lugar. E segui em frente, tão teimosa como uma mula. Tão feliz como não se pode ser. E vou continuar assim. Mandarei seja quantos projetos for para estas máquinas oficiais de moer gente, até me darem dinheiro para fazer o que eu quero. Se querem saber a cor da cor da cor do verde da Amazônia, que venham aqui e coloquem suas botas compradas em Londres no lamaçal.  Levi-Strauss foi mais inteiro e por isso ninguém ainda fez melhor, apesar daqueles equívocos todos. Botas sujas com sinceridade no olho. Só querem que eu leia o zépovinho para poderem continuar lendo Dosto. Eu digo não, caetaneamente. Se o suor é meu, que todo o resto também seja. E sempre que puder, vou dizer como eles são ridículos vestidos de Antonieta mandando dar brioches, já que falta pão. Superioridade camuflada de. Por azar, estarão sempre no poder, reinventando suas formas de modelagem. Como disse, tô fora.

Outramente é tão mais bacana.

E ainda nem me disseram não. Talvez nem digam.
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terça-feira, 18 de maio de 2010

Sobre a perda de tempo

Eu falava de perder tempo - e da necessidade de perder tempo. Eu sou muito agitada. Já acordo dobrando o lençol. E todos os dias, passo ao menos uma hora num frenesi doméstico. No entanto, nestes dias, observando outras pessoas, percebi que sei perder tempo. Para ouvir o outro, para ver o outro, para sentir o outro.
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Hoje, qualquer coisa que dure mais de meia hora já deixa as pessoas em estado de frenesi. Eu sinto a impaciência rondando por todos os lados. Ontem, pessoa linda, e mesmo assim me perguntou: "vamos ver tudo?". Como se só houvesse tempo para a metade. Sim! O todo é tão legal. Marisa Monte diz que não deixa fazer coletânea dos seus discos porque cada um tem sua concepção e que, por isso, só deveriam ser apreciado no seu todo... Sei o quanto isso soa démodé.
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Como é que chegamos neste estado nervoso das coisas? Nesta onda de querer falar, de querer saber, sem dar o tempo? É esquisito. Eu sinto pudores. Fico nervosa quando me pedem para falar sobre algo, mesmo que eu já o tenha visto várias vezes. Sempre penso que, lesada, deixei passar os pontos essenciais e que é preciso ver um pouco mais, perder um pouco mais de tempo com aquilo.
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Lembro de uma conversa que tive com uma amiga na Tate Gallery. Estávamos com outro amigo e, diante daquelas várias exposições, ficamos um tempão na de Kandinsky, no fundo com um pouco de pesar por não termos mais tempo e disposição para as outras. Já sentadas, exaustas, nosso amigo finalmente se dispõs a ir vê-la. Quando ele saiu, ela, que tem uma lentidão toda especial no olhar, me falou: "Quer apostar quanto que ele voltará daqui a cinco minutos e falará como se tivesse visto tudo com a maior atenção do mundo?". Dito e feito, ele voltou e foi logo dizendo: "é a melhor exposição de Kandinsky que eu já vi!" 
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Com pesar, eu tenho achado que o mundo todo decidiu que ver é só passar os olhos e, em seguida, criar o discurso do já-visto. Pena.
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Escrever por puro gozo

Eu adoro isto aqui. Adoro este lugar de escrita. Eu não sabia quantos me liam, ou sequer se era lida para além dos meus três ou quatro comentadores que às vezes me deixam recados. Por isso, coloquei o marcador aí do lado. Curiosidade. Eu sou mesmo um ser curioso. E fiquei surpresa ao descobrir que diariamente têm uns quinze acessos por aqui. Ok, não é quase nada, se comparado a... Os blogs de decoração que eu vejo têm diariamente mais de 2000 acessos. Só que eu, humildemente, me contento com meu número de visitantes. Por outro lado, mais uma curiosidade: não daria um dedo, é certo, mas pagaria uma prenda para saber nominalmente quem são estes meus quinze.

Mas o que eu ia dizendo é que adoro escrever aqui - e gosto justamente porque é sem compromisso, porque é algo que faço por puro gosto. Por puro gozo. A escrita por nada. 2h da manhã estendendo roupas no varal. 3h da manhã lavando louças. 4h da manhã tentando encerrar projeto com data para ser entregue. 1h da manhã revisando texto mal escrito de doutoradeuniversidadechique - morro e não revelo o nome -. Aí vem a vontade de escrever aqui, mesmo sem assunto definido. Aí, escrevo. Sem obrigação alguma. O inverso das coisas do cotidiano. É uma das minhas miudezas, das minhas inutilidades. Por isso, não abro mão. 
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domingo, 16 de maio de 2010

regional versus universal

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brinco de menina levada no meio da noite. e como uma criança egoísta e malvada, encanto-me com meu próprio gesto, correndo o risco de me afogar no meu lago narcísico. estou cada vez mais convencida de que o grande barato da vida é ter o impulso - qualquer um. e quando é um que te oferece um risco, que seja ele que te defina. no meio de toda farsa, de toda pose, poder sorrir para dentro é a verdadeira saída. eu não quero espantar os anjos que devem rondar por aqui... eu quero dizer somente que eu estou feliz como há muito tempo não me sentia. como talvez eu tenha me sentido poucas vezes na vida. e tudo isso porque, de repente, eu sinto uma fé tremenda em mim mesma. e sim, mesmo diante do lago, eu ainda reconheço: muita gente me ajudou a chegar até aqui, até a este ponto, diante deste lago, observando a minha face - que balança.
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Dias ali

Ainda não tive tempo de explorar meu novo brinquedo. Um ou outro registro bacana. Na maior parte dos cliques, silhuetas borradas. E não vejo a hora de cair logo no mundo com o filho no colo, eu e Tatupai. Ouvi o cd dos Móveis coloniais do acaju e gostei muitíssimo. Também vi o documentário Coração vagabundo, sobre o Caetano, e gostei um pouco menos. Bom mesmo foi cruzar Rondônia, pela segunda vez, durante 10 horas para chegar a Porto - eu e Poeminha. Que dias bons. Encontrei Marcos por lá. Teve jantar oferecido pela Carla e, de quebra, Binho tocando violão.  E o dia na rede, naquele sítio. E minhas duas meninas, sempre. E ainda almoço na Ida, como nos velhos tempos. Manu, na plateia da conferência do Marcos. E que moço simpático, aquele Marcelo. 

Nem parecia que eu estava a trabalho.

Quando é que foi tudo isto mesmo? Já vai fazer um mês? Puxa, como é que pode?
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terça-feira, 11 de maio de 2010

O traço de cyane



o traço delicado de cyane é de puro horror. horror é uma palavra que ela usa. e aquilo que só percebe quem olha detidamente. muito de perto. de longe, sua tela é uma tela branca. ela vai na contramão desde aí: na decisão de exigir daquele que vê o movimento da atenção. um movimento difícil nos tempos de hoje. o que perturba é a androginia absurdamente humana - algo ou alguém, não se sabe quem, ou o quê, fisgado por anzóis que perfuram, comprometem, aniquilam. assim, um traço. um traço perturbador. amo amo amo. aquele amor que dedico a quem me perfura, me corta, me estrangula. e me enternece ao mesmo tempo.
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sábado, 8 de maio de 2010

Recaída - Ou Jimmy Corrigan


Sim, não devia. Não devia, mas estou lendo. Sabe o que é dormir às 4h da manhã três noites seguidas para tentar dar conta de fazer um projeto? Dormir às 4h e, por causa disto, não ouvir seu filho chorar às 8h da manhã? E com lágrimas nos olhos agradecer aos céus, aos deuses, ao acaso, ser o dia da diarista que ouviu e o acalmou, sem que eu nada ouvisse? Pois tem sido assim meus dias nesta última semana. E se eu ainda estou por aqui, a esta hora acordada, é porque a adrenalina não me deixa dormir.

E ainda asim, estou lendo/vendo, aos pouquinhos, Jimmy Corrigan, O meino mais esperto do mundo, de Chris Ware, a HQ mais estranha, mais esquisita, mais diferente que eu já tive o enorme prazer de conhecer. É porque tudo me doi. Vai ver nem é tão brilhante assim; vai ver é porque me doi (não levem isto a sério, pessoas muito mais sérias do que eu - e por razões muito mais sérias - se encantaram com esta história!). Me doi não porque sou eu, mas porque poderia ser eu. E porque estes vazios, este desenho tão sóbrio e que, no entanto, dá a aparência de ser quase infantil, geram um incômodo tremendo. Porque de algum modo, é como se o tempo todo nos pedisse: aprenda a ler. 
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É isso, então. 
É bonito e é triste. 
É muito triste. 
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E eu sinto medo. 
Como mãe, sinto medo.
Como filha, sinto medo. 
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E ainda assim, agradeço. 
Quem sabe, com medo, eu possa errar menos. 
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Esqueçam. 
Jimmy Corrigan nada tem a ver com isto. Com este medo. 
É simplesmente fabuloso. E isso é muito.
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Para o filho


Poeminha, sua tia-avó, aquela que fez todo o seu enxoval,  hoje finalmente lhe conheceu, e, realmente surpresa, exclamou: "Meu Deus, é o Ney!"

Ney, como você já sabe, é o Tatupai.

E ela sabe o que fala, filho. Conheceu seu pai quando bebê. Depois, mais calma, mas não menos surpresa, falou: "É como se Ney tivesse nascido outra vez". 

Viu, filho, que bonita esta parecença tão grande! Eu já perguntei para o seu pai o que é ter um filho tão parecido. E se perguntei, é porque também me espanto. Por várias vezes, ao ver vocês dois juntos, me veio uma emoção grande. É porque vocês realmente se parecem. Não posso mostrar aqui, filho, mas já os fotografei no banho - realmente vocês são tão parecidos... E não é só físico, filho. Desde já, não é só físico. É o olhar, o gesto, o encolher as sobrancelhas... É tudo.
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E o que há em você meu? Ainda não descobrimos. Eu me contento em saber que você saiu das minhas entranhas. E que se alimenta do meu corpo. Já me é muito. Mas lá no fundo, talvez, eu sinta um certo ciúme. Mas ciúme, filho, nunca foi um sentimento que admiti, embora já o tenha sentido. É porque ciúme é uma forma egoísta de amar. E o amor, filho, é passarinho... Esqueça não, Passarinho... 
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domingo, 2 de maio de 2010

O último suspiro de Buñuel

Livro lido há um tempão.  

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Meu último suspiro é um livro incrível do Luis Buñuel - não tanto pela linguagem, um pouco decepcionante para quem está acostumada com seus filmes, mas pela vida intensa deste cineasta. Ele conta seus feitos como se tudo tivesse sido por acaso, como se os acontecimentos da sua vida pudessem ocorrer com qualquer um.  Esta ideia sempre me  encantou: creditar as vitórias e também as derrotas a um caminho feito meio às cegas. Talvez por ele ser um gênio, assinalar a sua genialidade e a de seus amigos não teria cabimento.  Lembrou-me uma frase do Domingos de Oliveira. Em seu programa com a Deborah Colker, ele falou mais ou menos assim: "Como continua com esta simplicidade? Um  sábio não sabe que é sábio". E assim é Buñuel. Ao invés de apresentar um relato crítico, ele insiste em dizer que tudo foi obra de  alguns jovens que tinham em comum apenas a intensidade dos dias vividos em grupo.E neste tudo consta, por exemplo, o movimento surrealista (!!).

Os dias.  Espanha. Paris. As amizades da juventude - as únicas que ficam para sempre. Os amores. O amor. Um e outro acontecimento sobrenatural. Aquele encontro. O pai. A familia. A saudade do passado.  Acho que a vida, qualquer uma, é feita disto. Mudam-se os lugares, as pessoas, mas a base vem sempre do encontro, que é sempre um acaso.
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sábado, 1 de maio de 2010

Estaaindaeu

Saudade do blog. Saudade. Esquisito, né? Bem aqui, a saudade. Tanta gente tão longe. E a vida na correria. Sinto-me centrada. Todos os dias, os afazeres. Os afazeres de todos os dias. E ainda assim, feliz. Sim, feliz. É porque há uma brecha. É porque estou na Universidade. E eu queria ser isto: uma pesquisadora. É porque eu sou mãe. Não sabia que queria sê-lo, mas, sendo, sou por inteira um ser. E agora, aqui, eu e ele, ligeiramente bêbados. Por inteiros, cheios de ternuras. Se queres saber, ainda sou uma leitora. Dias e dias com Fernando Pessoa. E agora, tão aqui, Mário de Sá-Carneiro. Ah, ele que sofre. Ele, todo volúpia.Quando leio? Enquanto a Bisa não o deixa sentir minha falta. Belisque-me. Ou me deixe nesta ilusão: de que não importa o lá-fora. Aqui, somos por inteiros amores.
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quarta-feira, 28 de abril de 2010

afff

Três dias sem telefone e semana sem internet. A Oitelecom fazendo das suas. Por outro lado, tempo para fazer uma porção de outras coisas. Poderia ser o paraíso. Tive até recaídas de leituras. Mas o fato é que hoje a internet é um mal necessário. A vida prática deixa de andar. 
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quarta-feira, 14 de abril de 2010

Certa manhã acordei de sonhos intranquilos, de Otto


Se o cd anterior de Otto era uma celebração ao amor (todo os seus fãs lembram que as músicas giram em torno de uma viagem feita com seu amor), este é um cd que canta as dores do amor quando ele acaba. E por isso é tão pujente, tão dolorosamente belo. Otto é uma figura ímpar na música brasileira contemporânea. Não tem o refinamento de um Lenine nem os trocadilhos geniais de um Zeca Baleiro (só para citar alguns dos seus "próximos"), mas tem uma candura visceral que não se encontra em qualquer um.

Ele cria versos pungentes, tais e quais as estocadas que o vimos dar nas fotografias do álbum. Amei o cd desde a primeira música: Crua: "há sempre um lado que pesa/ e outro lado que flutua a tua pele/ é crua". E o título é genial. Referência a Kafka, que nos ensina a estabelecer uma ligação com toda e qualquer vida que corre sem sentido. Otto goza. Otto sofre. E diz tudo em suas músicas. É muito foda. Ou é muita foda. Tudo transpira. Suas releituras de músicas bregas do passado dizem que todos temos um coração que sangra - frase brega por excelência. E quando ele urra com a sua voz está por inteiro tomado por essa breguice: "[...] nasceram flores/ num canto de um quarto/ escuro/ mas eu te juro/ são flores de um longo/ inverno".

Tem um verso mais lindo que o outro, mais perturbador que o outro: "conforto alucinante/ tranquilidade na clareira do caos". Até quando regrava, escolhe aquilo que é mais pungente: "beleza são coisas acesas por dentro" (Mautner e Jacobina).  E se no cd anterior, tinha a voz de Alessandra Negrini, o amor perdido, neste tem as belas vozes de Céu e de Julieta Venegas. Por essas e outras, esse cd não para de tocar aqui em casa.  
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terça-feira, 13 de abril de 2010

Quequéisso

Difícil. Algo entre muito e muito difícil. Por inteiro meu corpo reclama: todas as lutas reivindicatórias da mulher deram nisso? Eu falei para o Tatupai: "É porque antes eu vivia como homem, embora sempre tenha havido em mim uma porção mulherzinha". Gente, quequéisso? Impossível dar conta de tudo. Meu grau de exigência é grande. E o que tenho aprendido nestes dias é baixar a bola. Como ser professora, pesquisadora, mãe, mulher, donadecasa? E ainda ser leitora? Ainda ter tempo de encostar a cabeça na rede e ouvir um cd? E ver um filme? Por dez ou vinte minutos ler um livro fora do programado? ... Eu fico aqui, então, como quem sabe que a vida antiga me foi inteira roubada. E que a vida de agora, embora o tempo todo tenha me consumido, é muito boa. É porque ardo de desejos. É porque me queimo nas minhas neuroses. Por que, jesuscristinho, não consigo ficar em paz com uma casa pelos ares? Por que tenho vontades tantas? Talvez porque o corpo aguenta. Sábado, meus pés latejaram um tanto. Sete horas e meia falando para alunos que... deixa pra depois. E, no entanto, o depois sempre tão bom: filho nos braços. E tanta coisa - como se estes minutinhos de inteireza  fossem definidores de tudo que importa. Este sorriso de quem sabe que - ok - é difícil, mas é tão bonito.
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quinta-feira, 8 de abril de 2010

Noiteadentro


Noiteadentro. Filhodormedepoisderesmungar. Maridoespera. Umaeoutraalegria. Eumedivirtonasaladeaula. Digoaosalunossemdizer: a-pro-vei-tem a beleza. hábeleza, podemcrer. Talvezporquepasseiodialendoflorbelaespanca. Comoébonito! Aqueladortãomaçante. É o que t-e-n-t-o: sempre a alegria. Sempre o desejo. Sempresempreoagora. Tudo em mim é imenso: osdesejososdesejos. Por isso compreendo tão bem. Porissoadmiroacasaquesefazaolonge. É seu único porto. Seu único amparo. A-M-P-A-R-O. Nem o meu, nem o seu, mas o dela. Perdoar é a grande sacada. Saber que todo e qualquer outro é uma bolha. Quando alguém gritar com você, e por isso você chorar, lembrar que nada é pessoal. O outro grita. Mas gritaria com qualquer outro. Não é por sua causa. Saberdissoéograndemilagre. É a chave. E sentir. Amar aquele menino doido e doído que já fui um dia. Amar este moço que me espera. Amar meu filho que dorme. E não me deixar levar pela ausência do que não tenho. Terei algum dia. Ounãoterei e aprendereiaconviver com isto. E o presente. É tão bonito. Étantooqueeuqueria. Merci,Tatu. Agora, sim, ir bem ali. Earquivartudo. O arquivo como um ato amoroso. De quem ama.

para o filho


Poeminha, você é um glutão - como o seu pai. Maça banana pêra caqui melancia melão uva, tudo você já comeu. E também feijão arroz carne peixe legumes. E sem passar no liquidificador. Você mastiga como quem sabe. Sorri, abre a boca, agita os bracinhos e vai provando os sabores do mundo. E não teve nenhuma dor de barriga, como tanto nos alertaram. Uma revolução, Poeminha, na nossa geladeira, sempre tão cheia de guloseimas industrializadas ou tão vazia de donos que almoçam fora. E, filho, ontem fiz seu primeiro almoço. E você logo vai saber: eu não sei cozinhar. E não gosto. Mesmo assim, senti-me tão orgulhosa, tão feliz fazendo a sua comida. Nem sucos eu sei fazer, filho. Ou melhor, não sabia. Diante de uma melancia: "e agora, põe água ou não?" E com o melão: "coa ou não coa?" E com as uvas: "tira as sementes?". Assim, filho, atrapalhada, eu vou me descobrindo, encontrando respostas que viram deliciosos sucos e almoços que passam pelo crivo do Tatupai, ele, sim, o cozinheiro da casa. Viu, filho? Você é um sortudo. E eu também: seu pai está aqui pronto para te salvar e  salvar a Tatumãe dos apuros da cozinha: "quanto tempo deixo a carne cozinhando?". "Ah, tá, então tá".
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sábado, 3 de abril de 2010

Decor

Eu gosto muito de blogs de decoração.
Acho que é meu lado voyeur espiando o gosto dos outros.
Ou será porque eu gosto muito de decoração?
Sempre bom buscar as causas menos psicanalíticas = rir de mim mesma como forma de não me levar tão a sério.
E mesmo assim, sempre me causa espanto ao perceber o quanto estes blogs têm seguidores.

Gosto especialmente destes:

http://www.desiretoinspire.net/
http://www.casadevalentina.blogspot.com/
http://www.decoeuracao.com/ 
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sexta-feira, 2 de abril de 2010

Beckett fotografado

O que eu queria mesmo era ser a autora destas fotos.
Na impossibilidade, fico aqui sonhando com o livro.

BANIER, François-Marie. BECKETT. Gottingen: Steidl, 2009.
Imagens: http://www.fmbanier.com/node/2580
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quarta-feira, 31 de março de 2010

Coisas da vida

A vida anda rápida, rápida, e eu mais lenta do que poderia. Abril já? Não pode ser. Mas é. Poeminha cresce tranquilo. Delícia isto: um filho risonho, sempre a postos para brincadeiras mil. Quase não chora. Tudo bem que não tem motivos. O tratamento é vip, creio. Mas sei que existem crianças que, apesar de todos os cuidados, chora bastante e por qualquer razão. Poeminha, se chora, quando estamos brincando com ele, é sono. Sigo direitinho os horários das suas mamadas - e agora dos seus sucos e papinhas - mas por duas ou três vezes dei uma escorregadas. E ele, tranquilaço! Nem pra avisar...

Talvez não seja apenas sorte. Talvez o ambiente tranquilo seja o que o faça feliz. Sim, porque tenho certeza de que ele está feliz, embora ainda não saiba o que é este conceito, tão perseguido, tão fugidio.  Eu mesma estou muito mais relaxada.. No início, eu quis seguir várias regrinhas e me angustiei muito "tentando não ser uma mãe igual às outras". Pronto, disse. Acho que ficava lendo de madrugada só para não ter a sensação de que tinha passado o dia entre fraldas. Digo isso porque já não tenho lido de madrugada. Há dias que fico o tempo todo com ele. Em outros,  deixo-o na casa da bisavó no período da tarde. E sem angústia, o que é muito melhor. 

Este negócio de que os filhos nos deixa mais sábia é bem verdade, pois embora eu sempre tenha tido um "ritmo lento", sempre me chicoteei muito por não dar conta de tudo. E meu "tudo" é muita coisa. Lista infindável de livros, de filmes, de cds que não posso morrer sem ler, sem ver, sem ouvir. Pois bem. Posso morrer. E isso não será nenhuma tragédia. Tragédia mesmo, para mim, será morrer cedo... 

Se passasse dois dias sem ver um filme, já ficava inquieta. E ontem eu me dei conta de que não vi ainda nenhum dos filmes ganhadores do Oscar. Ou melhor, não vi nenhum filme nas últimas semanas. Virei então mãe? Virei. Mas uma mãe à la Milena. Sinto que o que Poeminha tem me ensinado é focar nas prioridades. Por exemplo, agora que estou preparando uma disciplina, tenho feito apenas isto. Todas as leituras têm sido direcionadas. E  nem doeu deixar pela metade aquele livro maravilhoso sobre a Clarice, e aqueloutro do Faulkner. 

PS. E estou esperando, ansiosa, a chegada de um presente. O presente mais bacana - senão o objeto de consumo mais cobiçado - da minha vida. Coisas do Tatupai. 
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segunda-feira, 29 de março de 2010

Eu, professora. Eu, Milena

Havia desencanto ontem. Ou antes de ontem. Já não sei mais. Por isso, o texto daí debaixo. É o sofrimento de sair da bolha. De saber que apenas nela me sinto plena. Hoje, sem desencanto. Ir sempre além da imagem. Forçar o entorno e acreditar. Estou às voltas com 100 anos de literatura portuguesa. É uma insanidade, sem dúvida. Mais uma ementa inapelavelmente sem sentido. Porém, tão instigante. E eu me renovo nisto. Na possibilidade de ler muitos livros que ainda não li, ainda não conheço. O desconhecido, eis. Disse ontem aos alunos: gosto de aprender. Eles não devem gostar. Devem preferir o professor que veste a persona de sabe tudo. Eu arrisco umas ironias, mas jamais a soberba. Então, eu leio. Que maravilha: Fernando Pessoa, Cardoso Pires, Saramago, Lobo Antunes, Teolinda Gersão, Adília Lopes... E vários outros. Arriscar-me, eis. 

Na ida a Porto Velho para a aula inaugural do mestrado, visitei os amigos do antigo trabalho. E embora eu sempre diga que detesto a ideia do sacrifício ou da batalha árdua (porque tudo foi, no fundo, uma grande festa!), foi bom lembrar que fiz escolhas. Eu poderia ainda estar lá, confortável com o rico dinheirinho que o emprego de revisora me possibilitava; e não estar deve-se unicamente ao fato de não querer estar. Mari, que escreveu nos comentários, tem razão. É bom lembrar minha trajetória. Ela é bonita. E eu  não quero esquecer disto. E quero que continue sendo bonita.  Quero que as malas sirvam não para que eu tranque desejos, mas para que eu as encha de vontades. Devo isto a mim. E agora ao meu filho.

ps. adorei a imagem. Encontrei-a lá no "imagens" do google.
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sábado, 27 de março de 2010

Peixe pequeno

Recebi hoje no meu email, um cartaz da ABRALIC. Pra quem não sabe, a ABRALIC é a Associação Brasileira de Literatura Comparada que promove um dos encontros mais bacanas de Literatura do meio acadêmico.  Eu gostaria de ir, mas há uns dois meses decidi não ir -  escolhas. Porém, ao ver o cartaz, fiquei por aqui experimentando sentimentos que não deveriam ser públicos - e ao mesmo tempo não há por que não sê-los. Lembrei do que um dia a Mari, minha melhor amiga, me disse: algumas universidades, alguns seminários, já nascem grandes. E seus organizadores, seus dirigentes, resmungam como se assim não fossem. Como se fossem grandes devido a uma batalha árdua e corajosa. O fato é que lembrei disto por que a Universidade onde estou é peixe pequeno. Nasceu peixe pequeno. E não importa o que se faça, o que se deseja fazer, continuará sendo peixe pequeno. E seus dirigentes, seus organizadores, se digladiam ou se confraternizam como se assim não fosse, porque é a forma que eles encontraram para assim não sentirem a  pequenez. 

Nesta semana, participei da aula inaugural do mestrado do qual farei parte como docente. Oficialmente, tenho minha primeira orientanda. E não poderia ser mais bacana, afinal ela é uma das participantes do  grupo de pesquisa do qual faço parte. Para retirar a medida de emoção inerente a um momento deste, problemas de toda ordem. E os salgadinhos, ah, os salgadinhos, foram por conta da boa vontade de um dos professores (não era para ser uma vaquinha?), afinal por que a Universidade deve se preocupar com isto?
 
Ainda hoje, como líder de um grupo de pesquisa, pus o meu capacete de burocrata e fui atrás de uma sala maior para abrigar os cerca de 20 interessados que, às segundas-feiras, dia do encontro, têm lotado nossa minúscula sala. Não consegui, evidentemente. Só coloquei mesmo meu capacete porque ele combinava com meu penteado. Para consertar os computadores que há por lá, não tive nenhum pudor de tirar o capacete e barganhar o meu corpitcho com um Tatupai em troca de uns serviços técnicos de informática. 

Gracinhas à parte, as verdades que me assaltam exigem respostas. Ou exigem que eu me cale. Há cerca de um mês, assisti ao filme Foi apenas um sonho. E lembro que uma das partes mais doídas é quando a personagem descobre que só suportava aquele território inóspito por que se achava diferente. Eu devo ter me identificado. Porém, já faz tempo que não me sinto diferente. Ou a minha sensação de ser diferente sempre veio acompanhada de uma desconfiança em relação a mim que preexiste a qualquer sentimento de diferença. 

Não sei se estou sendo clara. Também não precisa. O que eu precisava mesmo pôr para fora é que eu piso em território inóspito, sinto-o sob meus pés, perdendo a crença, a delicadeza. E com isso não desmereço pessoas. Não estou falando de conhecimento. Ou de competência. Estou falando de estrutura. Do fato de ser peixe pequeno. Arranho vez ou outra as escamas que me cabem como parte deste peixe pequeno, sem de fato arrancá-las de vez. O que me resta, então? 

A consciência é insuportável.  É dolorosa.
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sexta-feira, 19 de março de 2010

Sobre o trabalho

Volto a trabalhar na próxima semana - e hoje comecei a ensaiar a volta (ou seja, comecei a preparar a parte que me me cabe neste semestre!). Causa espanto quando digo que poderia passar a vida sem trabalhar, mas, sim, eu poderia. É certo que eu batalhei para ser professora universitária. Por essa profissão, submeto-me a um corpo de forasteira. Porém, jamais diria uma frase como: "o trabalho é a minha vida". Nem de longe o meu foco está apenas no trabalho - nunca me entedio aos sábados, domingos e feriados. E isso desde sempre. Trabalhar é bom para ganhar dinheiro. E para mim, "dinheiro é um pedaço de papel,.... Dinheiro tem valor quando se gasta". Eis uma das lições valiosas do moço lindo Arnaldo Antunes.

Existem muitos pequenos prazeres - e são por eles que vale a pena viver - e trabalhar. Nestes seis meses, vivenciei muitos desses pequenos prazeres. E custa-me sair da bolha! Não foi apenas ser mãe. Foi descobrir ainda mais a delicadeza. A emoção de viver fazendo o que se gosta, com quem se gosta. Sinto-me, sim, invariavelmente cansada; olheiras, muitas.  É uma mão-de-obra ser mãe! Porém, eu fiz tanta coisa. Li uma porção de livros - e deu tempo de adquirir outro hobby. Sim, sim, agora sou uma senhora que assiste a séries de TV. No caso, quatro: The good wife, Brothers and sisters, House, 24 horas. A princesa passou por aqui e implantou este vírus nos Tatus. 
Eu sinto uma grande alegria por ser assim. Respeito muito a história de quem passa a vida trabalhando e faz disto a base de sua vida, mas não me serve de exemplo. Eu sempre achei que precisava dar um passo a mais, cultivando o estar à toa na vida. E cavando muito bem as minhas horas à toa, sem desperdiçá-las com porcarias como este tal de Big Brother (desculpem-me adentrar neste assunto, mas enquanto escrevo não consigo parar de pensar em uma das chamadas do Yahoo, que diz que mais de 70 milhões votam nos "paredões". Quequéisso, meu jesuscristinho. Pensando bem, pra quê tempo livre para este 70 milhões?!!).
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quinta-feira, 18 de março de 2010

Uma casa sem a casa

Mudamos. Bem que ainda posso dizer no gerúndio: estamos mudando. Dias e dias organizando os livros.  E mais um dia e uma noite, os cds.  No dia que trouxemos tudo, caiu uma chuva de lascar. Roupas do Poeminha, na lama. Ainda estão ali com a esperança vaga de voltarem a ser brancas. E aquele ovo comprado em Paris, num bairro remoto onde fui pegar minha carte d'étudiante, este não teve jeito: quebrou. Dava para passar superbonder, mas não gosto de remendar, emendar nada. De que adianta uma beleza remendada?

Já fui menos apegada às coisas, foi o que descobri nesta mudança. Antes, quando algo quebrava, eu me consolava pensando que já tinham cumprido seu tempo por aqui. Desta vez, talvez pelo excesso de quebra-quebra e arranhões, fiquei mal humorada um par de horas; não mais que isso, pois mau humor por muito tempo é falta de educação.

Foi o susto. Não menos do que uma centena de caixas. É o que dá ter uma casa sem de fato ter a casa. No fundo, passamos a vida no provisório, mas procurando viver como se assim não fosse. Agora, olhando em volta, consola-me ver tudobonito. Ok. A pia da cozinha ainda não chegou. Tatupai ainda não organizou a sua estante de tralhas. O ainda. Mas como diriam os mais velhos, o pior já passou. E muito por causa da minha compulsão de fazer tudo o mais rápido possível.

Espanta-me a quantidade de vezes em que ouvi que mudança é assim mesmo, demora dias, meses - até anos - para pôr tudo em ordem. Não, não. Não consigo. Só senão fosse filha da minha mãe. Meu desejo é fazer tudo logo para que assim a vida comece a andar em outro compasso. Sinto falta do outro compasso.
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sexta-feira, 12 de março de 2010

Para o filho


Poeminha, quase seis meses. Nova casa para você. Agora, sim, espaço para você andar, quando assim decidir. Longe da beira da estrada - imagem tão valiosa para sua mãe; uma simbologia que relutei em me desfazer. Nestes dias, tive medo, filho, de ficarmos presos aqui para sempre. Como carregaremos mundo afora todo este peso? Estes pensamentos tortos no meio da noite, quando você dormiu pela primeira vez no seu quarto, no seu berço, que deve lhe parecer enorme, em comparação com o que estava no nosso quarto - tão bonito, aquele. Sentirá saudades dos balanços? Fiquei de olhos arregalados no escuro, filho, porque já não podia simplesmente abrir os olhos e lhe ver pelas frestas, como se o pequeno espaço que agora nos separa à noite fosse um vão enorme. Não é, filho. Certamente, acordei com seu primeiro movimento. Você terá percebido que estava sozinho? Se percebeu, você foi bem discreto. Logo parou de resmungar quando eu lhe acalentei na nossa cadeira de balanço. Uns "golinhos" de leite, como eu costumo brincar, e você já de novo dormia.

E foi assim que com medo vi o medo passar. Não, filho, não ficaremos presos aqui. Não estamos presos. E sei que iremos qualquer dia. Nada que um grande caminhão não possa levar - um caminhão como aquele que trouxe a  cadeira que nos balançamos à noite. Exceto os livros e os cds, nada que não possa ser deixado para trás, apesar de sua mãe tanto gostar. Somos de nenhum lugar, filho. E ainda caminharemos muito pelo mundo. Tenho certeza.
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eh mundocão!


E vão ficando os caretas, os picaretas, os caras de pau... e toda a tralha sem nenhum humor.  E indo muito cedo aqueles que nos fazem uma falta danada. Não faz nem dois meses que eu e o tatupai morríamos de rir com a reedição da Chiclete com banana, que veio em uma caixinha beleza com as primeiras edições. Os números seguintes ainda estão saindo nas bancas. Líamos e repetíamos: "estes caras são bons demais". E ríamos, ríamos... Agora, o humor de Glauco se foi. Mas ficará por aí em reedições e reedições para nos lembrar que este mundocão ainda nos dá algum motivo para rirmos, mesmo que devezcommuitafrequência nos passe a perna e deixe o dia cinza, como hoje...
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quarta-feira, 3 de março de 2010

Sobre coisas espalhadas e Nelson Rodrigues


Bozoca vem aqui e espalha livros, revistas e cds. Ele não é o único. Eu costumo brincar que alguns devem ver aqui como um parque de diversões cultural. No outro dia, só dá eu recolocando coisas no lugar. Noites destas, depois de desencavar uns cds maravilhosos, ele deixou A cabra vadia, de Nelson Rodrigues, em cima da mesa de centro. E eu, ao invés de guardá-lo na estante, comecei a lê-lo. E não parei mais. Nelson Rodrigues é o maior cronista que o Brasil já teve. E digo isso sem titubear, mesmo sem ter lido os outros (ok, chibatadas por esta pretensão). Mas é possível existir alguém melhor? Alguém que escreve quase sempre o exato contrário do que que você pensa, e mesmo assim  maravilha? Pois Nelson é assim. Cada frase equivocada, um manjar dos deuses; cada obsessão, uma nova volta no parafuso; cada assunto secundário é sempre mais saboroso do que o "essencial".
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terça-feira, 2 de março de 2010

Nova casa

 
As coisas de Poeminha por toda parte 

Sábado, vamos mudar do apê para uma casa. E começando a desarmar o circo, penso que é quase desumano mudar com a quantidade de coisas, coisinhas e coisonas que fui juntando ao longo da vida. Quando vim morar neste apê, imaginei que só sairia daqui em duas hipóteses: para uma casa minha ou se fosse embora da cidade. Mas eu era apenas uma. O escritório com todos os livros, a sala com a TV, a salinha de som - tudo se mistura. Não é lugar para um filho, que teria de ser repreendido a cada passo. Lá na casa tem um espaço de terra, onde plantaremos grama. Na grama, piscininha de plástico. Espaço pequeno, mas terra. E uma grande área para ele engatinhar, andar, perder-se entre os brinquedos. Enfim, por ele e para ele. Gosto da praticidade do apê, mas me encanta a ideia de poder oferecer o espaço que ainda é possível ser oferecido a uma criança, quando se mora numa cidadezinha. Fazia tempo que procurávamos uma casa para alugar. Já estávamos desanimando quando a casa veio bater na nossa porta. Assim que a vimos, sabíamos que era o que procurávamos.

Agora é assim, aprendo a me dividir, a abrir mão da imagem - entre choros, fraldas, vassouras, ouço de uma aluna que já não sou mais a mesma. E não sou mesmo. Alguma dor sempre rola por conta do que tem sido deixado para trás. Mas não me espanta o sentimento de que nunca fui tão feliz. E isso não é pouco: afinal, há mais de dez anos assinei um pacto com a felicidade - e de tudo tenho feito para não descumpri-lo. 

Voilá! Se será bom para o Poeminha, e para o Tatupai, que finalmente terá um lugar para suas maquinarias, será bom para mim.  
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sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Sobre Cindy Sherman, escrito em 2006

(E por falar em arte contemporânea, lembrei que tinha escrito sobre Cindy Sherman, quando  eu conheci a sua obra, em uma exposição no museu Jeu de Paume, em Paris. Ela está no livro As vidas dos artistas. Foi o primeiro perfil que eu li. E me deu uma alegria  danada ler. Começa assim: "Muitas vezes as pessoas se surpreendem que alguém tão agradável como Cindy Sherman possa ser uma grande artista. Com agradável eu quero dizer gentil, modesta, simpática, atenciosa, tranquila - qualidades que geralmente não associamos ao ego artístico". Tudo bem que eu não sou nada policialesca: os enfant terribles da arte são absolutamente necessários... mas é bom saber que por trás de uma obra como a dela existe uma pessoa encantadora, daquelas que se sente vontade de ser amiga). 

Enfim, segue aí  o texto que fiz sobre ela. E: todas as vezes que leio o blog daquela época, lamento por ter "perdido" aquela linguagem. Gosto muito dos cortes abruptos, da pouca reverência à gramática das frases... Agora estou "factual" - talvez porque a vida seja mais feliz, mas nada interessante no sentido de vivências culturais (o que me faz uma falta de doer!). Essa constatação daria uma boa conversa - e deu: noites dessas, com um amigo no msn, eu dizia o quanto estou feliz, embora essa felicidade diga respeito tão-somente a minha vida pessoal. 


Terça-feira, 25 de julho de 2006

CINDY SHERMAN


A literatura é o essencial, ou não é nada. O mal - uma forma aguda do Mal - do qual ela é a expressão, tem para nós, creio, valor soberano. Mas essa concepção não pede a ausência de moral, ela exige uma "hipermoral". [Tradução tosca - minha - de um fragmento de A literatura e o mal, de Georges Bataille]

Alguém conhece a Cindy Sherman? Eu não a conhecia antes de uma fila imprevista... Ela é fotógrafa; e a fotografia é tratada como arte menor, ou não-arte, mesmo que ela nos tenha dado Mapplethorpe e Salgado. Aí fica mais difícil conhecer = minha já conhecida indignação!

A Cindy é... poeta-cineasta-escritora, sendo fotógrafa. Saí tonta da sua exposição: suas fotografias mexem com a sensibilidade e a memória, evocando imagens do cinema, da pintura, da literatura sem que seja possível chegar a uma conclusão se de fato são apenas evocações ou fotogramas. Na recusa de ser simples mimetismo, os tipos, as personas põem em evidência a cópia - Cindy n vezes copia e se copia. Numa fileira de fotos de "personas", dá para ver também o fio da máquina que permite a fotógrafa ela mesma se fotografar. Escancaramento do "método" a revelar a pose previamente trabalhada no (auto)-retrato - toda e qualquer tentativa de dizer sobre si passa pelo performático e, por outro lado, estar em relação estreita com o outro - a busca de si e do outro = a minha tese.

A exposição ocupa o museu inteiro (Jeu de Paume) e segue a ordem cronológica; é espantoso e inquietante observar como a artista vai cada vez mais fundo na exposição do grotesco, do animalesco - como se a paixão e a loucura se apossassem aos poucos do seu "corpo", adentrando no que antes era apenas moldura crítica. Não há apenas jogo, simples representação; há todo um mal estar espalhado: mesmo nos auto-retratos que indiciam as musas do cinema, parece-me, está à vista um olhar duro e severo sobre a contemporaneidade, no que esta tem de efemeridade, de mutações que privilegiam a persona, e não a pessoa.

De uma a outra sala, o mal estar ganha corpo e incorpora outros corpos: o corpo humano, antes tendo como suporte o corpo da fotógrafa, é substituído por próteses com buracos em pontos estratégicos [a prótese = o que hoje não o é?]. E ainda há os palhaços absurdamente tristes nos seus sorrisos = o incômodo do clown - o meio riso. É o próprio fantasma da (não)identidade. A violência extrema de uma perda que é, à revelia, a nossa própria face.

Embora eu nada saiba de fotografia, sei que não é a primeira vez que rosto e máscara contracenam: Man Ray já o fez, mas por um procedimento diferente. Em Cindy, há a junção, como se dissesse: não há rosto sem máscara: é a constatação de que só a arte pode nos fazer crer sem que haja discurso panfletário - a grande sacada é o fato de seu corpo ser o lugar da crítica ácida, o que a retira do lugar cômodo da isenção. Admirável num tempo em que todo discurso de "denúncia" acaba por eximir-se de qualquer participação no estado das coisas.

Não sei nada de Cindy Sherman: escrevo sobre o que vi ou penso que vi: e me abalo pela constatação de que é no horror que habita o meu conceito de arte: o belo me encanta, sim, mas quando nele há o espaço do feio, grotesco, desumano, mal; quando traz em si uma carga de negatividade ou de paixão indizível. Seja em Farnese com suas bonecas queimadas enclausuradas em transparência, seja nas mãos cortadas da Louise Bourgeois (que descobri casualmente andando pelo jardim do museu enquanto conversava com a Mari), pressinto que meu olho desatento me leva à dor, à estranheza do abjeto. Quem pode me salvar? As linhas brancas de Brancusi? As ninféias de Monet?, pergunto-me quase trágica, quando me recordo (e associo a Cindy) das violetas podres de Lúcio Cardoso e do cheiro de mijo e de merda das sarjetas de Jean Genet. E mais uma vez experimento o prazer que senti ao ver, ler e sentir tudo isso pela primeira vez.

De repente, sou invadida por uma espécie de gratidão a Cindy Sherman = com tanta imagem no mundo, ela nos acrescenta estas - difíceis de ver - mas absolutamente necessárias.
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terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

As vidas dos artistas, de Calvin Tomkins

Eu já disse por aqui que gosto muito de arte contemporânea. As minhas andanças pelos museus da Europa deram-me a certeza de que, apesar de admirar a pintura clássica, são as loucuras da arte moderna e  contemporânea que me deixam sem prumo. Então, quando eu li uma resenha do livro As vidas dos artistas, de Calvin Tomkins, soube de imediato que precisava lê-lo. Porque os artistas a que se referem o título podem ser considerados os nomes mais expressivos da arte contemporânea: Damien Hirst, Cindy Sherman, Julian Schnabel, Richard Serra, James Turrel, Matthew Barney, Maurizio Cattelan, Jasper Johns, Jeff Koons e John Currin.

Se eu não tivesse um filho para criar, teria lido de uma sentada, como se diz. Calvin Tomkins, um dos principais críticos de arte, durante uma década, escreveu na revista The New Yorker, esses perfis agora traduzidos no Brasil. E o fez de modo arrebatador. Ele parte da premissa de que a vida dos artistas têm a ver com a sua arte, renegando o preceito estruturalista de que só a obra interessa. No entanto, o que é interessante é que ele não escreve estas biografias atrás do choque do escândalo. O que ele faz é desmistificar o escândalo da vida (as bebedeiras, os egos inflados, as brigas, as disputas) para que o escândalo das obras fique intacto. Fica evidente que Tomkins admira estes artistas. Talvez seja mesmo mais que admiração. Seja amor. 

E talvez seja isso que o livro nos ensine: é preciso amar a arte contemporânea para admirá-la. Não é porque a arte de agora está próxima da indústria, do espetáculo, da sociedade de consumo, que ela perdeu o seu traço transgressor. Por que um tubarão conservado em formol? Uma estátua de cera de John Kennedy em tamanho natural deitado em um caixão? Por que fotos pornográficas do próprio artista? Porque pinturas com a excelência do traço clássico servindo-se a cenas pornográficas? Por que enormes estátuas de bonecos do Incrível Hulk? Que arte é esta?

Tomkins não responde a estas perguntas. O que se lê é o rastreamento de momentos decisivos da arte contemporânea. Ele simplesmente nos diz que estas obras existem, são vendidas por milhões de dólares e muitas vezes possuem uma beleza desconcertante e rara, daquela beleza que só a arte pode oferecer. 
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Meus três quilos a mais

Escrevi na minha lista de tormentos os meus três quilos. E menti. No máximo, incomoda um pouquinhoassim. Sem dor alguma, eu me vi dando uma olhada em biquinis um pouco maiores, com a firme certeza de que vou aposentar os meus tamanho P. O fato é que o corpo conta nossa história. E meu corpo conta que um menino passou por ele, que eu tenho 35 anos, que eu nunca fiz exercício algum, que eu sou uma bebedora de cerveja e coca-cola. Não que eu não seja vaidosa. Para quem um dia só usou calças e camisetas largas. Para quem um dia nem sabia que se distinguiam roupas pela marca. Para quem só alinhou as sobrancelhas aos 27 anos - a cada dia eu sou mais vaidosa. Nunca vou ser uma mulher podre de chique - até porque as podres de chique têm sempre um pé no brega-, mas tenho lá meu estilo. E ando mais exigente: sem abandonar minhas calças folgadas, acrescentei aos poucos outras peças no meu guarda-roupa: vestidos, lenços, camisas. O que eu não vou fazer é me violentar em busca daquele corpo da adolescente que eu já fui um dia. Tenho uma vida para viver. Amores para cuidar. Livros para ler. Aulas para dar - daqui a um mês volto ao batente, se é que saí! Então, se estes três quilos ficarem por aqui, que fiquem.
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segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

imagem

gosto muito desta foto. já faz tempo. nesta época, os cds ainda não tinham a estante que hoje é nosso xodó, mas os dias em que esta foto foi tirada foram dos mais felizes. é meu amigo que está nela. eu, ele e ela, em sintonia perfeita. é raro, muito raro dias como aqueles. só ocorrem com pessoas que se amam, que amam estar juntos e que amam o entorno - neste caso, música, livros, filmes.
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preguiça. 
estou ali na rede lendo.
ou andando para lá e para cá com um menino que ama braços e beijos. 
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sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Por aqui no carnaval


O carnaval passou bem ali longe. Fiquei aqui com meus dois homens e alguns livros. Já fui boa carnavalesca, mas não senti falta alguma. Melancolia, nenhuma que envolvesse as festas momescas. Lembrei de Marie e de nós na praça de Recife. Lembrei de Cy e Alberto. Mas ali já não era carnaval. Eram muito mais as pontes, Brennand, as obras, os livros, a casa linda.

Na véspera, o correio liga e avisa: ou pega agora ou só depois do carnaval.  Tudo depois do carnaval. Fomos lá, então, meninos peraltas. A alegria de pegar livros com cheiro de novo. Dia inteiro com angústia - por onde começar? Comecei assim: "Nos últimos anos de sua vida, minha mãe foi perdendo aos poucos a memória". Luis Buñuel, em Meu último suspiro. Depois larguei e fui até ao fim com A viagem do oriente, de Le Corbusier. No pesqueiro, voltei a Buñuel. Ainda o vaivém com os livros. Prometo que.

Durante todos estes dias, também não tirei a minha amiga Arev da cabeça. Sua filha casou. - aquela menina linda. O que é o casamento de uma filha? Eu quis muito perguntar, quis muito ouvir sua voz, suas risadas. Não compreendo isso que não tem cura. Não tem cura este tormento desde muito: o telefone.

No último dia, me tranco sozinha em casa e ligo para minha mãe. Nada indica nenhuma anormalidade. Talvez só a pressão forte do fone nos meus ouvidos. Depois, exausta, não consigo cumprir a lista de intenções e me enrolo toda até que eles voltem. Tem sempre algo que cala.
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Para o filho



Poeminha, de um dia para o outro, você aprendeu a emitir vários novos sons, como se os estivesse guardando para soltá-los de uma só vez. Você já resmunga um "aiaiai" impressionante. E lá vamos eu e seu pai atrás de sua dor, como se ela existisse. Dois segundos depois, já não sente mais nada. É engraçado. Cada vez mais você anseia pelos nossos braços. E cada vez mais ansiamos pelos seus. E como sorri! Já gargalha "dobrado". Sua tia Maneca foi a primeira a ter o privilégio de ouvir sua gargalhada. Agora, ri, gargalha, como se não quisesse parar mais. E está mais curioso. Descobriu que não precisa mamar sofregamente. Agora, vira a cabeça, procura algo com o olhar, e leva meu bico do peito junto... e, ao fazê-lo,  uma cara de safado, como se soubesse que faz peraltices. Se seu pai fala, aí, sim, você esquece mesmo o peito e sai à procura da sua voz. E quando encontra, abre o sorrisão. Uma delícia, filho!

E que delicadeza, filho:  você descobriu que as mãos servem para segurar coisas e levá-las até à boca. Você já parece saber o que é concentração. E carinho. Às vezes, agarra meu rosto com as duas mãos, aproxima a cabeça da minha e fica ali me segurando, me "reinando", me apalpando. E eu fico como se a vida toda fosse as suas mãos.
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sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Maus, de Art Spiegelman


Eu não li Primo Levi. Nem Hannah Arendt. Tenho muita vontade. Mas nunca dá para ler tudo que quero. Muitos acabam ficando para um depois que demora. Mas leio Marcio Seligmann-Silva e Jeanne-Marie Gagnebin - e sempre repito: junto com Marcos Siscar, quando os leio, penso: "quando crescer, quero ser como eles". Porque eles são fodas! Além  da inteligência fora de medida, escrevem muito bem. E Seligmann e Gagnebin, professores da Unicamp, têm um trabalho sobre a memória que bebe na fonte de Levi, de Arendt, de Benjamin - a memória do holocausto. Sempre a vontade de me aprofundar mais. E por que não o faço, além da falta de tempo? Porque virou moda. Hoje, na universidade, todo mundo quer falar sobre memória, sobre o holocausto - e haja repetição, diluição...  o horror!

Maus, de Art Spiegelman, que trata sobre estas questões, caiu de pára-quedas nas minhas leituras, cada vez mais aleatórias. Daqueles impulsos  que só fazem bem.  Maus é uma porrada, seja qual for a linha que se segue, seja qual for a moda. Perfurou-me profundamente. E é uma HQ! Está tudo ali.  A estrutura narrativa é muito simples - e também está na moda - mas é, como já disse, uma porrada: não há um herói. Os judeus não são heróis. O sobrevivente, menos ainda. Pelo contrário, um velho ranzinza e pão duro ao extremo - a exposição da caricatura, que se dilui como caricatura. Eu ri e chorei. E li para meu filho. E vou colocar na sua prateleira, torcendo para que um dia ele o leia.

Reconstituir a memória de um outro, no fundo, é dar-lhe um lugar no mundo, na história. É o que faz o Art, autor e narrador. Mas o que ele busca é, antes, a História. E não a história do pai. Mas apreender a História é estar disposto a enfrentar as cinzas daquilo que foi. É saber que não estava lá - e que isso faz toda a diferença, sobretudo quando se deveria ser o herdeiro daquele que lá esteve. Art explora isto - a própria história, a história do pai, a história da História, fazendo assim um relato memorável, perfurante, assustador.
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