sexta-feira, 23 de julho de 2010

a casa do avô

Iracema, no seu miolo, mudou pouco.
Uma ou outra casa diferente.
Uma ou outra fachada a anunciar uma loja, um supermercado, um bar, que não havia no meu tempo. 
Mas a casa do meu avô praticamente desapareceu.
Queria ter fotografado esta desaparição, mas uma camionete atrapalhou.
.
.
As casas que desaparecem levam um pouco de nós.
De nossa história.
Como se estivéssemos continuamente desaparecendo.
,
,

para o filho


Poeminha, seu avô adentra cada vez mais no seu mundo particular.
É de lá que ele nos olha com espanto.
(Um espanto que me espanta).
E ainda assim tem os beijos e abraços mais doces que eu conheço.
.
.
Eu quis tanto ver isto: você com ele.
Ele a lhe chamar de hominho.

um tio


De perfil, não dá para ver, mas ele é muito elegante.
Talvez seja seu modo de sentar.
Ou sua magreza de faquir.
.
.

E sua camisa sempre aberta no peito.
Que também não dá para ver de perfil.
.
.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

em casa

(fotos depois)

muitas coisas me fazem lembrar que nasci aqui, em Iracema. e muitas outras me fazem lembrar que parti. gosto sobretudo das pessoas. é como se voltasse a ter quinze anos. havia muito amor a amparar o pouco amor. era bonito. hoje sei que era bonito. talvez por isso me venha esta moleza. para além da crise da garganta que me deixou no fundo da rede nos primeiros dias de férias, sempre que venho há como que uma parada no tempo.  sinto vontade de mudar uma porção de coisas e, ao mesmo tempo, me é tudo familiar. 

nunca sinto que estou de passagem (e estou de passagem há vinte anos). tenho vontade de ficar. e ficar por muitos dias. meses, talvez. até que viesse a saturação e eu tivesse certeza de que já não sou daqui. pois o que eu sinto é que jamais deixarei de ser daqui. as loucuras, as carências, as alegrias, o riso solto, o choro alto, o medo de que nada dê certo, tudo veio daqui. muitas lembranças me assaltam. e eu as conto ao Tatupai, aos risos, para, talvez, deixá-las definitivamente no passado.

e quando aos risos, minha amigaamada da infância, me lembra que eu era uma adolescente que fantasiava poses e posses, um pensamento me parte ao meio: hoje minhas fantasias são outras. assumo a pobreza que castigou minha infância e minha adolescência não como uma forma de me tornar heroína de uma vida que "deu certo", mas como uma forma de dizer que a sorte ou o acaso ou os encontros ou um pouco de perseverança fazem toda a diferença.

tudo bem. talvez não seja nada disso. na volta para casa, eu só queria mesmo ver meu pai carregando meu filho no colo, sentir o abraço da minha arev, comer buchada e queijo, repetir mais de uma vez que não gosto de coalhada e ficar olhando para a casa e como no jogo de sete erros tentar adivinhar quais móveis apareceram e quais desapareceram, quais saíram de lugar,  quais eu mesmo faria desaparecer, como um modo de reconhecer minha mãe, que está aqui, a brincar com meu filho.


sábado, 3 de julho de 2010

diário de viagem

Os tatupais começam assim uma viagem::: um tatu pai ansioso demais para ajudar a tatumãe a arrumar as malas. E uma tatumãe enlouquecida entre o que levar e não levar para uma viagem de 45 dias. A tatumãe quer se redimir e não levar mil tranqueiras desnecessárias... Por fim, a tatumãe se redime em parte. E mesmo assim, a bagagem fica grande. Culpa do Poeminha, o filho. O tatupai faz noitada de despedida com os amigos. A tatumãe aproveita para ir ao salão fazer mão, pé, cabelo, sobrancelha, como se tudo já não estivesse feito.
.
.
Depois de 30 horas, e uma pausa para ver os minutos finais da seleção brasileira na Copa, em um aeroporto emudecido de emoção, chegamos aqui:::


Eu acho meio over. É trauma. Todo parque temático me lembra a Disney e as descerebradas que para lá correm em suas férias. Meio over, mas delícia. Eu já decidi que o Poeminha vai ter todos estes programas de criança. Se um dia ele me pedir para ir a Disney, eu levarei. Nunca meu filho vai me esperar em vão à porta da escola. Talvez por isso eu não pensei duas vezes quando a mana Mácia nos propôs, no primeiro dia de férias, ir ao Beach park, aqui em Fortaleza. Eu nunca tinha ido. 
.
.
Poeminha se divertiu à beça. E os tatupais também. E as manas estavam no aeroporto. E os sobrinhos também. Acho que vai ser bom demais. É que vim para casa. Mostrar o Poeminha para minha mãe, meu pai, minhas duas irmãs que moram aqui. Vim para vê-los. E apresentar minha familinha. Quantas histórias sairão deste baú? Quantas vezes voltamos ao útero ao longo da vida, sem nunca mais de fato poder retornar? Ou retornar como mãe é uma forma de?

Tão bom.
.
.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

livro aberto


começo aqui uma seção. mais uma. existe já "para o filho". porque os livros fechados me incomodam. um livro fechado é um morto encerrado em seu caixão. à espera de. sobretudo, porque quero compartilhar os livros que eu amo. e no momento em que descubro que a parte técnica da fotografia me parece cifrada, mais me apaixono pela foto em si. tenho agora a máquina dos sonhos e eis que não nos entendemos. talvez por isso. amar bresson para uma amadora de fotografias é um lugar comum. mas eu já disse aqui::: não tenho medo do lugar comum. desde que ele me leve sempre mais longe. uma seção, então.

* Henri Cartier-Bresson: fotógrafo. São Paulo: Cosac Naify, 2009.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Sobre Saramago e as lembranças


Fico grávida de memórias quando penso em José Saramago. E quis o acaso que, depois de muito tempo sem lê-lo, eu tivesse na cabeceira da cama um livro dele quando soube da sua morte. Quis ficar triste, vazia toda por dentro. Mas logo em seguida pensei que quem soube viver como ele, poderia ir quando fosse a hora, se existe a hora.
 .
Quando fazia Letras, eu planejei ler toda a sua obra, tamanho o meu espanto diante de O evangelho segundo Jesus Cristo. Este livro ajudou a formatar meu gosto pela leitura. Nunca posso esquecer o que senti quando o li. Trago em mim uma convicção que surgiu daí e não mais me largou: não tenho medo da linguagem da literatura, não importa qual  seja o seu grau de dificuldade.
.
Lembro de mim e da Mari, em uma daquelas enormes rodoviárias de São Paulo, exaustas, depois de perambular o dia inteiro. E entre ir ou não assistir a O evangelho segundo Jesus Cristo, que então era encenada, olhei para ela e disse:  "Agora que estamos cansadas, estamos propensas a não ir. O que decidiríamos se não estivéssemos cansadas?". Essa pergunta em tom de desafio foi determinante para que meia hora depois cochilássemos no teatro. Não posso afirmar com certeza se a peça era boa. A lembrança mais nítida que tenho é do frio que sentia nas minhas pernas, que subia para a bunda, que fazia doer minha garganta, que não me deixava dormir quando era o que mais desejava.
.
Li Ensaio sobre a cegueira em um dos momentos mais confusos e ao mesmo tempo mais lindos da minha vida. Nunca mais fui tão interessante e tão desesperadoramente contraditória. Ali rompi com tudo que eu era. Caí na noite, bebi muitos porres, menti, fui feliz demais, vivi só. Tudo, muito. Ali fiz e disse as coisas das quais mais me orgulho e das quais mais me arrependo. Hoje já não  sou aquela menina, mas continuo pensando que todo mundo merece viver um tempo em que se acha a pessoa mais poderosa do mundo.  Era tudo tão intenso que eu literalmente senti os cheiros de Ensaio por dias seguidos. Encontrei muitos outros cheiros fértidos - em Lúcio Cardoso, em Artaud, em Bernhard, em Suskind, mas nenhum como aquele. Talvez porque nenhum tempo mais foi como aquele.
.
Memorial do convento é a história de amor mais bela que já li. Nenhuma  havia me dito antes que podemos carregar o amor nas vísceras; que depois de andar milhares de léguas, podíamos senti-lo antes mesmo de vê-lo. Blimunda e Baltasar me ensinaram a amar, se o ensino tem a ver com o desejo de. 
.
Paro por aqui, quando muitas outras lembranças ainda me agarram. Professora, hoje leio Viagem do elefante. Brado aos ventos surdos que é um pecado sair do curso de Letras sem ter lido um livro inteiro do Saramago. No fundo, procuro em cada aluno o gosto agridoce da aluna que eu fui.  
.
Obrigada, Saramago, por estar na minha vida há tanto tempo. Acho que sempre estará. 
.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Objeto de desejo



E nem é tão cara assim...
Proibida, no entanto!

sábado, 12 de junho de 2010

Meus


Amo.
Simples assim.

Para ouvir


Não é medo, nem é riso/ Não é raso,
não e pouco, nem é oco/ Não é fato,
nem é mito / Não é raro, não é tolo,
não é louco / Não é isso, não é rouco
Não é fraco, não é dito, não é morto

Móveis coloniais de acaju.
Vale a pena

terça-feira, 8 de junho de 2010

dias


então assim. louise bourgeois morreu. eu senti como se alguém muito próximo.  kazuo ohno também - antes que eu fizesse quadros dos seus retratos que tenho há muito tempo. é uma pena que o corpo se deteriore com o tempo. até se esvair. fiz quadro do yellow submarine dos beatles, e o poeminha continua dando risadinhas quando olha para. são assim os dias. cada vez mais longe do passado. cada vez mais fincada no presente. soltei desaforos via email. e recebi desaforos de volta. antes, sofri um bocado. agora, às risadas, reconheço que morei dois dias na minha cabeça, acumulando rancores para depois soltá-los ao vento, que não vale a pena. não vale a pena alimentar nenhuma loucura. nem a minha. nem a dos outros. a não ser a loucura produtiva. a loucura dos que têm fome.  foi assim que reencontrei valdir. as ideias do valdir. e me contaminei com elas. vale a pena registrar este tipo de beleza. já estava escrito, só pode. espero que eu consiga ter no 22º FALE os mesmos sonhos e as mesmas ousadias que eu e mari, quase meninas, tivemos no 10º FALE. só agora reparei como foi bonito. foi bonito "eu não tenho nada, apenas a mim". teria sido arrogante, se minha voz não tivesse tremido. se o mar não fosse meu rival. então. 22º FALE aqui, no próximo feriado de corpus christi. neste, estivemos no 21º. bonito como sempre. e ainda mais com nós três. tatupai, tatumãe, poeminha. falei em público e não fiquei nervosa. talvez porque meu filho estivesse ali e eu o procurasse todo o tempo, enquanto estava presa à mesa. e tem as amigas. deixo lastros. faço amigos. e gosto cada vez mais. e, sim, não ganhamos o tão desejado edital. chorei. pelas noites em claro, pelo lindo projeto por ora suspenso. cada centava seria tão bem empregado, se eles soubessem. seja lá como for a seleção, eles não poderiam adivinhar todos os desejos que a sigla GEPEC congrega, como trabalhamos com alegria e com tesão. quem sabe o próximo? porque dá vontade de desistir diante do não, mas apenas por algumas horas. depois. depois tudo recomeça. como esta tentativa do poeminha. por várias vezes, tentou agarrar o girassol, até que.

sim, à vida.
.
.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Precisos líquidos, de Louise Bourgeois

"O significado da arte moderna é que você tem de encontrar sempre novos meios para se expressar, para expressar os problemas, que não há meios definitivios, nem uma abordagem fixa. É uma situação dolorosa, e a arte moderna trata dessa dolorosa situação de não haver absolutamente uma maneira definitiva de se expressar. É por isso que a arte moderna continuará, porque essa condição permanece; é a condição humana moderna... É sobre a dor de não ser capaz de se expressar adequadamente, de expressar suas relações íntimas, seu inconsciente, confiar no mundo o suficiente para se expressar diretamente nele. É tentar manter a sanidade nessa situação, ser prudente e temporariamente são expressando a si mesmo. Toda arte vem de fracassos terríveis e de necessidades terríveis que temos. É sobre a dificuldade de ser um self, porque somos desprezados. Em todo o mundo moderno há desprezo, a necessidade de ser reconhecido que não é satisfeita. A arte é um modo de reconhecer a si mesmo, e é por isso que sempre será moderna".

BOURGEOIS, Louise. Desconstrução do pai, reconstrução do pai: escritos e entrevistas 1923-1997. São Paulo, Cosacnaify, 2000. p. 166.


Preciosos líquidos, no Centro Georges Pompidou, toscamente fotografados por mim.

Louise Bourgeois est partie

 
Louise Bourgeois est partie. Há cinco anos, eu comprei seu livro de escritos e entrevistas e escrevi: "Sei apenas de uma coisa: gostaria de ficar, de viver assim tanto e tão intensamente".

segunda-feira, 31 de maio de 2010

espanto ou o quê




O amor é de tal modo um espanto que chega a doer. Daquelas dores que são pura beleza. Eu olho, voyeur, e me vem a pergunta: que sentimento tão grande é este? 
.
.





Para o filho

Poeminha, que história bonita para guardar::: diante do pôster dos Beatles, que penduramos no seu quarto, você abre o sorrisão. Na verdade, dá uma gargalhadinha. Na primeira vez, pensei: "ah, é só a novidade!" Qual não foi a minha surpresa quando você repetiu a mesma gargalhada. E ainda agora, depois de dias com o quadro ali, você olha, se demora, olha pra mim, depois para o quadro, e sorri, e gargalha e mexe as mãos em frenesi. O que você sente, filho, e por que sorri assim? Sim, filho, há muitos mistérios neste mundo. Os Beatles são um deles. Um dia você vai saber. E quem sabe também se apaixonar por eles - e lamentar por não ter estado , lamentar por não lhes ser contemporâneo, mesmo que isso significasse ser bem mais velho. Um lamento que com certeza virá acompanhado da alegria de saber que a música é eterna. Simplesmente está - como esse quadro no seu quarto. Vai que ele se demora, filho? Vai que você queira que ele fique sempre ali? Tomara...
Posted by Picasa

sexta-feira, 28 de maio de 2010

A imagem


Tenho visto poucos filmes. Não é um lamento; só constatação. Tempo tempo tempo, mano velho.  E as escolhas. Porém, confesso que senti uma vontade danada de emendar um filme depois do outro quando vi o cartaz do Festival de Cannes deste ano. Que já passou. Mas achei tão bonita a Juliette Binoche no cartaz que resolvi postá-lo. Lembrou-me os espetáculos do Bob Wilson. Bonito ver Binoche não como uma estrela do passado, mas como uma reverência ao presente e ao futuro - que já chegou.

domingo, 23 de maio de 2010

Só agora Avatar


Muito se falou sobre Avatar. Qualquer interessado em cinema, ligou as antenas. Demorei para assistir. Não estava errada quando pensei que era daqueles filmes para se ver no cinema, e não em casa. A imagem, tudo. Não vi em 3D, mas o vi na teconologia Blu-ray, a que Tatupai me fez conhecer para que eu adiantasse seu presente de aniversário em alguns meses. Desde o primeiro filme em blu-ray, eu disse: é a imagem hiper-real. A saturação de cores não se relaciona com aquilo que nossos olhos habitualmente veem - o mundo real não é tão colorido. É o mundo das HQs,dos desenhos animados, do videogame. Não à toa é uma tecnologia que veio daí.

No entanto, teimamos em pensar que o mundo bem poderia ser tão colorido. A ideia do duplo - um mundo em dobro, um sujeito que se reparte em dois, ou mais - há muito tempo encanta o espaço ficcional. James Cameron joga com essas duas possibilidades - a imagem e o fascínio do duplo - para construir seu filme.
.
Entretanto, sem contar até dez, o seu filme é bem decepcionante. É espetacular na criação das imagens, mas totalmente previsível no enredo. Se fosse um livro, seria bem ruinzinho. Reiteradamente, carrega nas tintas dos estereótipos do melodrama.  Cheguei a pensar que é proposital, como faz, por exemplo, os filmes de Indiana Jones. É possível adivinhar a cena seguinte sem nenhum esforço. Acresça-se a isso doses excessivas do politicamente correto; e eis Avatar.  Poderia ser uma encomenda do greenpeace. No entanto, há as imagens. E como as imagens foram geradas. Por isso, não dá para ficar indiferente. É bonito de se ver. A cena final, especialmente. Só se transforma em um outro aquele que prepara tanto o corpo quanto o espírito para tal acontecimento. É um poder xamânico, este. Daí, ser tão especial.
.
.
Eu fiquei com a impressão de que o cinema foi muito longe como um meio que é essencialmente imagem, sem que saísse do lugar como meio que também cria histórias.
.
.

sábado, 22 de maio de 2010

Os véus da escrita autobiográfica em Jacques Derrida

Artigo meu bem aqui.
.
.
Feliz, sabe. Quando escrevi este texto, quando apresentei este texto, estava quase feliz, mas ainda não sabia. Soube aos poucos. A certeza veio em Belo Horizonte. Foi lá que conheci pessoalmente o Halem. E foi lá que fiquei horas de conversa com a Lu, que me hospedou. Foi lá que recebi milhares de mensagens do Tatupai. Segundo ele, para que eu não esquecesse. A quase felicidade. Depois, por inteiro. 
.
.
O texto não revela nada disso. Porém, o fato de ele existir funciona para mim como a madeleine de Proust. É o dispositivo da memória. 
.
.

Cor


A tia do Tatupai veio - a que fez o enxoval do Poeminha. Ainda não o conhecia. Foi ela quem soltou aquela frase: "Meu Deus, é o Ney". E entre delicadezas e guloseimas, deixou o sofá cheio de flores. E quando as flores ferirem demais nossos olhos, deixou também a versão preto-e-branco. Lindezas! Ela e as flores.
*
*

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Eu digo não


Flores no deserto. A promiscuidade intelectual abre a imaginação, é o que penso. Quanto a mim, leva-me onde nunca iria se me restringisse ao preto e branco. Digo não a qualquer tipo de afunilamento. Não sou derridiana, nem barthesiana, nem estruturalista, nem culturalista. Nenhuma ana e nenhum ista me interessam. Não acredito no regionalismo, nem no universalismo. Minha religião é a literatura. E minha fé é nas pessoas. 

Não sou boazinha.  Estou fora dessa lavagem cerebral de que se deve preservar a qualquer custo a pureza de uma Amazônia mítica. Por aqui, as pessoas comem, bebem, dormem, defecam, sofrem, como em qualquer lugar do mundo. Qualquer lugar é um lugar. Querem moldar meu corpo para me ensinar como se goza - preferencialmente, para o bem da coletividade. É porque a "diferença" dá dinheiro pra caramba. Expor na feira os indigentes, os relegados do mundo, e assim equipar as paredes ocas da Universidade. Pesquisa tupiniquim. Não entenderam nada do mau caratismo de Macunaíma. Escolheram o Guarani, porque é muito mais rentável. Já eu prefiro o herói sem nenhum caráter; pelo menos tem mais humor e putaria. 
.
A dúvida, sempre. Escolher minha forma de gozo.
.
Foi assim quando me aventurei a entrar na vida acadêmica pra valer. Na seleção de mestrado, disseram-me que eu não passaria de jeito nenhum com "aquele" assunto. Era preciso adaptar-me aos gostos dos outros, tão contrários ao meu. Passei em primeiro lugar. E segui em frente, tão teimosa como uma mula. Tão feliz como não se pode ser. E vou continuar assim. Mandarei seja quantos projetos for para estas máquinas oficiais de moer gente, até me darem dinheiro para fazer o que eu quero. Se querem saber a cor da cor da cor do verde da Amazônia, que venham aqui e coloquem suas botas compradas em Londres no lamaçal.  Levi-Strauss foi mais inteiro e por isso ninguém ainda fez melhor, apesar daqueles equívocos todos. Botas sujas com sinceridade no olho. Só querem que eu leia o zépovinho para poderem continuar lendo Dosto. Eu digo não, caetaneamente. Se o suor é meu, que todo o resto também seja. E sempre que puder, vou dizer como eles são ridículos vestidos de Antonieta mandando dar brioches, já que falta pão. Superioridade camuflada de. Por azar, estarão sempre no poder, reinventando suas formas de modelagem. Como disse, tô fora.

Outramente é tão mais bacana.

E ainda nem me disseram não. Talvez nem digam.
.
.
.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Sobre a perda de tempo

Eu falava de perder tempo - e da necessidade de perder tempo. Eu sou muito agitada. Já acordo dobrando o lençol. E todos os dias, passo ao menos uma hora num frenesi doméstico. No entanto, nestes dias, observando outras pessoas, percebi que sei perder tempo. Para ouvir o outro, para ver o outro, para sentir o outro.
.
Hoje, qualquer coisa que dure mais de meia hora já deixa as pessoas em estado de frenesi. Eu sinto a impaciência rondando por todos os lados. Ontem, pessoa linda, e mesmo assim me perguntou: "vamos ver tudo?". Como se só houvesse tempo para a metade. Sim! O todo é tão legal. Marisa Monte diz que não deixa fazer coletânea dos seus discos porque cada um tem sua concepção e que, por isso, só deveriam ser apreciado no seu todo... Sei o quanto isso soa démodé.
.
Como é que chegamos neste estado nervoso das coisas? Nesta onda de querer falar, de querer saber, sem dar o tempo? É esquisito. Eu sinto pudores. Fico nervosa quando me pedem para falar sobre algo, mesmo que eu já o tenha visto várias vezes. Sempre penso que, lesada, deixei passar os pontos essenciais e que é preciso ver um pouco mais, perder um pouco mais de tempo com aquilo.
.
Lembro de uma conversa que tive com uma amiga na Tate Gallery. Estávamos com outro amigo e, diante daquelas várias exposições, ficamos um tempão na de Kandinsky, no fundo com um pouco de pesar por não termos mais tempo e disposição para as outras. Já sentadas, exaustas, nosso amigo finalmente se dispõs a ir vê-la. Quando ele saiu, ela, que tem uma lentidão toda especial no olhar, me falou: "Quer apostar quanto que ele voltará daqui a cinco minutos e falará como se tivesse visto tudo com a maior atenção do mundo?". Dito e feito, ele voltou e foi logo dizendo: "é a melhor exposição de Kandinsky que eu já vi!" 
.
Com pesar, eu tenho achado que o mundo todo decidiu que ver é só passar os olhos e, em seguida, criar o discurso do já-visto. Pena.
.
.

Escrever por puro gozo

Eu adoro isto aqui. Adoro este lugar de escrita. Eu não sabia quantos me liam, ou sequer se era lida para além dos meus três ou quatro comentadores que às vezes me deixam recados. Por isso, coloquei o marcador aí do lado. Curiosidade. Eu sou mesmo um ser curioso. E fiquei surpresa ao descobrir que diariamente têm uns quinze acessos por aqui. Ok, não é quase nada, se comparado a... Os blogs de decoração que eu vejo têm diariamente mais de 2000 acessos. Só que eu, humildemente, me contento com meu número de visitantes. Por outro lado, mais uma curiosidade: não daria um dedo, é certo, mas pagaria uma prenda para saber nominalmente quem são estes meus quinze.

Mas o que eu ia dizendo é que adoro escrever aqui - e gosto justamente porque é sem compromisso, porque é algo que faço por puro gosto. Por puro gozo. A escrita por nada. 2h da manhã estendendo roupas no varal. 3h da manhã lavando louças. 4h da manhã tentando encerrar projeto com data para ser entregue. 1h da manhã revisando texto mal escrito de doutoradeuniversidadechique - morro e não revelo o nome -. Aí vem a vontade de escrever aqui, mesmo sem assunto definido. Aí, escrevo. Sem obrigação alguma. O inverso das coisas do cotidiano. É uma das minhas miudezas, das minhas inutilidades. Por isso, não abro mão. 
.

domingo, 16 de maio de 2010

regional versus universal

*
*
*
brinco de menina levada no meio da noite. e como uma criança egoísta e malvada, encanto-me com meu próprio gesto, correndo o risco de me afogar no meu lago narcísico. estou cada vez mais convencida de que o grande barato da vida é ter o impulso - qualquer um. e quando é um que te oferece um risco, que seja ele que te defina. no meio de toda farsa, de toda pose, poder sorrir para dentro é a verdadeira saída. eu não quero espantar os anjos que devem rondar por aqui... eu quero dizer somente que eu estou feliz como há muito tempo não me sentia. como talvez eu tenha me sentido poucas vezes na vida. e tudo isso porque, de repente, eu sinto uma fé tremenda em mim mesma. e sim, mesmo diante do lago, eu ainda reconheço: muita gente me ajudou a chegar até aqui, até a este ponto, diante deste lago, observando a minha face - que balança.
*
*
*

Dias ali

Ainda não tive tempo de explorar meu novo brinquedo. Um ou outro registro bacana. Na maior parte dos cliques, silhuetas borradas. E não vejo a hora de cair logo no mundo com o filho no colo, eu e Tatupai. Ouvi o cd dos Móveis coloniais do acaju e gostei muitíssimo. Também vi o documentário Coração vagabundo, sobre o Caetano, e gostei um pouco menos. Bom mesmo foi cruzar Rondônia, pela segunda vez, durante 10 horas para chegar a Porto - eu e Poeminha. Que dias bons. Encontrei Marcos por lá. Teve jantar oferecido pela Carla e, de quebra, Binho tocando violão.  E o dia na rede, naquele sítio. E minhas duas meninas, sempre. E ainda almoço na Ida, como nos velhos tempos. Manu, na plateia da conferência do Marcos. E que moço simpático, aquele Marcelo. 

Nem parecia que eu estava a trabalho.

Quando é que foi tudo isto mesmo? Já vai fazer um mês? Puxa, como é que pode?
.
.
.

terça-feira, 11 de maio de 2010

O traço de cyane



o traço delicado de cyane é de puro horror. horror é uma palavra que ela usa. e aquilo que só percebe quem olha detidamente. muito de perto. de longe, sua tela é uma tela branca. ela vai na contramão desde aí: na decisão de exigir daquele que vê o movimento da atenção. um movimento difícil nos tempos de hoje. o que perturba é a androginia absurdamente humana - algo ou alguém, não se sabe quem, ou o quê, fisgado por anzóis que perfuram, comprometem, aniquilam. assim, um traço. um traço perturbador. amo amo amo. aquele amor que dedico a quem me perfura, me corta, me estrangula. e me enternece ao mesmo tempo.
.
.

sábado, 8 de maio de 2010

Recaída - Ou Jimmy Corrigan


Sim, não devia. Não devia, mas estou lendo. Sabe o que é dormir às 4h da manhã três noites seguidas para tentar dar conta de fazer um projeto? Dormir às 4h e, por causa disto, não ouvir seu filho chorar às 8h da manhã? E com lágrimas nos olhos agradecer aos céus, aos deuses, ao acaso, ser o dia da diarista que ouviu e o acalmou, sem que eu nada ouvisse? Pois tem sido assim meus dias nesta última semana. E se eu ainda estou por aqui, a esta hora acordada, é porque a adrenalina não me deixa dormir.

E ainda asim, estou lendo/vendo, aos pouquinhos, Jimmy Corrigan, O meino mais esperto do mundo, de Chris Ware, a HQ mais estranha, mais esquisita, mais diferente que eu já tive o enorme prazer de conhecer. É porque tudo me doi. Vai ver nem é tão brilhante assim; vai ver é porque me doi (não levem isto a sério, pessoas muito mais sérias do que eu - e por razões muito mais sérias - se encantaram com esta história!). Me doi não porque sou eu, mas porque poderia ser eu. E porque estes vazios, este desenho tão sóbrio e que, no entanto, dá a aparência de ser quase infantil, geram um incômodo tremendo. Porque de algum modo, é como se o tempo todo nos pedisse: aprenda a ler
.
.
É isso, então. 
É bonito e é triste. 
É muito triste. 
.
E eu sinto medo. 
Como mãe, sinto medo.
Como filha, sinto medo. 
.
E ainda assim, agradeço. 
Quem sabe, com medo, eu possa errar menos. 
.
Esqueçam. 
Jimmy Corrigan nada tem a ver com isto. Com este medo. 
É simplesmente fabuloso. E isso é muito.
.
.

Para o filho


Poeminha, sua tia-avó, aquela que fez todo o seu enxoval,  hoje finalmente lhe conheceu, e, realmente surpresa, exclamou: "Meu Deus, é o Ney!"

Ney, como você já sabe, é o Tatupai.

E ela sabe o que fala, filho. Conheceu seu pai quando bebê. Depois, mais calma, mas não menos surpresa, falou: "É como se Ney tivesse nascido outra vez". 

Viu, filho, que bonita esta parecença tão grande! Eu já perguntei para o seu pai o que é ter um filho tão parecido. E se perguntei, é porque também me espanto. Por várias vezes, ao ver vocês dois juntos, me veio uma emoção grande. É porque vocês realmente se parecem. Não posso mostrar aqui, filho, mas já os fotografei no banho - realmente vocês são tão parecidos... E não é só físico, filho. Desde já, não é só físico. É o olhar, o gesto, o encolher as sobrancelhas... É tudo.
.
.
.
E o que há em você meu? Ainda não descobrimos. Eu me contento em saber que você saiu das minhas entranhas. E que se alimenta do meu corpo. Já me é muito. Mas lá no fundo, talvez, eu sinta um certo ciúme. Mas ciúme, filho, nunca foi um sentimento que admiti, embora já o tenha sentido. É porque ciúme é uma forma egoísta de amar. E o amor, filho, é passarinho... Esqueça não, Passarinho... 
.
.

domingo, 2 de maio de 2010

O último suspiro de Buñuel

Livro lido há um tempão.  

.
.
Meu último suspiro é um livro incrível do Luis Buñuel - não tanto pela linguagem, um pouco decepcionante para quem está acostumada com seus filmes, mas pela vida intensa deste cineasta. Ele conta seus feitos como se tudo tivesse sido por acaso, como se os acontecimentos da sua vida pudessem ocorrer com qualquer um.  Esta ideia sempre me  encantou: creditar as vitórias e também as derrotas a um caminho feito meio às cegas. Talvez por ele ser um gênio, assinalar a sua genialidade e a de seus amigos não teria cabimento.  Lembrou-me uma frase do Domingos de Oliveira. Em seu programa com a Deborah Colker, ele falou mais ou menos assim: "Como continua com esta simplicidade? Um  sábio não sabe que é sábio". E assim é Buñuel. Ao invés de apresentar um relato crítico, ele insiste em dizer que tudo foi obra de  alguns jovens que tinham em comum apenas a intensidade dos dias vividos em grupo.E neste tudo consta, por exemplo, o movimento surrealista (!!).

Os dias.  Espanha. Paris. As amizades da juventude - as únicas que ficam para sempre. Os amores. O amor. Um e outro acontecimento sobrenatural. Aquele encontro. O pai. A familia. A saudade do passado.  Acho que a vida, qualquer uma, é feita disto. Mudam-se os lugares, as pessoas, mas a base vem sempre do encontro, que é sempre um acaso.
*
*

sábado, 1 de maio de 2010

Estaaindaeu

Saudade do blog. Saudade. Esquisito, né? Bem aqui, a saudade. Tanta gente tão longe. E a vida na correria. Sinto-me centrada. Todos os dias, os afazeres. Os afazeres de todos os dias. E ainda assim, feliz. Sim, feliz. É porque há uma brecha. É porque estou na Universidade. E eu queria ser isto: uma pesquisadora. É porque eu sou mãe. Não sabia que queria sê-lo, mas, sendo, sou por inteira um ser. E agora, aqui, eu e ele, ligeiramente bêbados. Por inteiros, cheios de ternuras. Se queres saber, ainda sou uma leitora. Dias e dias com Fernando Pessoa. E agora, tão aqui, Mário de Sá-Carneiro. Ah, ele que sofre. Ele, todo volúpia.Quando leio? Enquanto a Bisa não o deixa sentir minha falta. Belisque-me. Ou me deixe nesta ilusão: de que não importa o lá-fora. Aqui, somos por inteiros amores.
.
.
.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

afff

Três dias sem telefone e semana sem internet. A Oitelecom fazendo das suas. Por outro lado, tempo para fazer uma porção de outras coisas. Poderia ser o paraíso. Tive até recaídas de leituras. Mas o fato é que hoje a internet é um mal necessário. A vida prática deixa de andar. 
.
.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Certa manhã acordei de sonhos intranquilos, de Otto


Se o cd anterior de Otto era uma celebração ao amor (todo os seus fãs lembram que as músicas giram em torno de uma viagem feita com seu amor), este é um cd que canta as dores do amor quando ele acaba. E por isso é tão pujente, tão dolorosamente belo. Otto é uma figura ímpar na música brasileira contemporânea. Não tem o refinamento de um Lenine nem os trocadilhos geniais de um Zeca Baleiro (só para citar alguns dos seus "próximos"), mas tem uma candura visceral que não se encontra em qualquer um.

Ele cria versos pungentes, tais e quais as estocadas que o vimos dar nas fotografias do álbum. Amei o cd desde a primeira música: Crua: "há sempre um lado que pesa/ e outro lado que flutua a tua pele/ é crua". E o título é genial. Referência a Kafka, que nos ensina a estabelecer uma ligação com toda e qualquer vida que corre sem sentido. Otto goza. Otto sofre. E diz tudo em suas músicas. É muito foda. Ou é muita foda. Tudo transpira. Suas releituras de músicas bregas do passado dizem que todos temos um coração que sangra - frase brega por excelência. E quando ele urra com a sua voz está por inteiro tomado por essa breguice: "[...] nasceram flores/ num canto de um quarto/ escuro/ mas eu te juro/ são flores de um longo/ inverno".

Tem um verso mais lindo que o outro, mais perturbador que o outro: "conforto alucinante/ tranquilidade na clareira do caos". Até quando regrava, escolhe aquilo que é mais pungente: "beleza são coisas acesas por dentro" (Mautner e Jacobina).  E se no cd anterior, tinha a voz de Alessandra Negrini, o amor perdido, neste tem as belas vozes de Céu e de Julieta Venegas. Por essas e outras, esse cd não para de tocar aqui em casa.  
.
.

terça-feira, 13 de abril de 2010

Quequéisso

Difícil. Algo entre muito e muito difícil. Por inteiro meu corpo reclama: todas as lutas reivindicatórias da mulher deram nisso? Eu falei para o Tatupai: "É porque antes eu vivia como homem, embora sempre tenha havido em mim uma porção mulherzinha". Gente, quequéisso? Impossível dar conta de tudo. Meu grau de exigência é grande. E o que tenho aprendido nestes dias é baixar a bola. Como ser professora, pesquisadora, mãe, mulher, donadecasa? E ainda ser leitora? Ainda ter tempo de encostar a cabeça na rede e ouvir um cd? E ver um filme? Por dez ou vinte minutos ler um livro fora do programado? ... Eu fico aqui, então, como quem sabe que a vida antiga me foi inteira roubada. E que a vida de agora, embora o tempo todo tenha me consumido, é muito boa. É porque ardo de desejos. É porque me queimo nas minhas neuroses. Por que, jesuscristinho, não consigo ficar em paz com uma casa pelos ares? Por que tenho vontades tantas? Talvez porque o corpo aguenta. Sábado, meus pés latejaram um tanto. Sete horas e meia falando para alunos que... deixa pra depois. E, no entanto, o depois sempre tão bom: filho nos braços. E tanta coisa - como se estes minutinhos de inteireza  fossem definidores de tudo que importa. Este sorriso de quem sabe que - ok - é difícil, mas é tão bonito.
*
*

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Noiteadentro


Noiteadentro. Filhodormedepoisderesmungar. Maridoespera. Umaeoutraalegria. Eumedivirtonasaladeaula. Digoaosalunossemdizer: a-pro-vei-tem a beleza. hábeleza, podemcrer. Talvezporquepasseiodialendoflorbelaespanca. Comoébonito! Aqueladortãomaçante. É o que t-e-n-t-o: sempre a alegria. Sempre o desejo. Sempresempreoagora. Tudo em mim é imenso: osdesejososdesejos. Por isso compreendo tão bem. Porissoadmiroacasaquesefazaolonge. É seu único porto. Seu único amparo. A-M-P-A-R-O. Nem o meu, nem o seu, mas o dela. Perdoar é a grande sacada. Saber que todo e qualquer outro é uma bolha. Quando alguém gritar com você, e por isso você chorar, lembrar que nada é pessoal. O outro grita. Mas gritaria com qualquer outro. Não é por sua causa. Saberdissoéograndemilagre. É a chave. E sentir. Amar aquele menino doido e doído que já fui um dia. Amar este moço que me espera. Amar meu filho que dorme. E não me deixar levar pela ausência do que não tenho. Terei algum dia. Ounãoterei e aprendereiaconviver com isto. E o presente. É tão bonito. Étantooqueeuqueria. Merci,Tatu. Agora, sim, ir bem ali. Earquivartudo. O arquivo como um ato amoroso. De quem ama.

para o filho


Poeminha, você é um glutão - como o seu pai. Maça banana pêra caqui melancia melão uva, tudo você já comeu. E também feijão arroz carne peixe legumes. E sem passar no liquidificador. Você mastiga como quem sabe. Sorri, abre a boca, agita os bracinhos e vai provando os sabores do mundo. E não teve nenhuma dor de barriga, como tanto nos alertaram. Uma revolução, Poeminha, na nossa geladeira, sempre tão cheia de guloseimas industrializadas ou tão vazia de donos que almoçam fora. E, filho, ontem fiz seu primeiro almoço. E você logo vai saber: eu não sei cozinhar. E não gosto. Mesmo assim, senti-me tão orgulhosa, tão feliz fazendo a sua comida. Nem sucos eu sei fazer, filho. Ou melhor, não sabia. Diante de uma melancia: "e agora, põe água ou não?" E com o melão: "coa ou não coa?" E com as uvas: "tira as sementes?". Assim, filho, atrapalhada, eu vou me descobrindo, encontrando respostas que viram deliciosos sucos e almoços que passam pelo crivo do Tatupai, ele, sim, o cozinheiro da casa. Viu, filho? Você é um sortudo. E eu também: seu pai está aqui pronto para te salvar e  salvar a Tatumãe dos apuros da cozinha: "quanto tempo deixo a carne cozinhando?". "Ah, tá, então tá".
.
.   

sábado, 3 de abril de 2010

Decor

Eu gosto muito de blogs de decoração.
Acho que é meu lado voyeur espiando o gosto dos outros.
Ou será porque eu gosto muito de decoração?
Sempre bom buscar as causas menos psicanalíticas = rir de mim mesma como forma de não me levar tão a sério.
E mesmo assim, sempre me causa espanto ao perceber o quanto estes blogs têm seguidores.

Gosto especialmente destes:

http://www.desiretoinspire.net/
http://www.casadevalentina.blogspot.com/
http://www.decoeuracao.com/ 
.
.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Beckett fotografado

O que eu queria mesmo era ser a autora destas fotos.
Na impossibilidade, fico aqui sonhando com o livro.

BANIER, François-Marie. BECKETT. Gottingen: Steidl, 2009.
Imagens: http://www.fmbanier.com/node/2580
.
.