quinta-feira, 23 de junho de 2011

Os dias do FALE chegaram. E por isso estou insone, depois de dias e dias e noites e noites... Vai ser bonito do jeito que já está sendo:


domingo, 19 de junho de 2011

Bernardo Carvalho pensa

exausta, sem saber mais exatamente como me manter acordada, ou, na impossibilidade, como me manter sentada com esta dor tamanha embaixo da costela, resultado de dias e dias diante deste computador, vago pela internet atrás de algo que faça qualquer coisa com esta minha vontade - já quase insana - de entrar em off, que se fodam todos os meus compromissos pré-FALE. Encontro, então, esta postagem de Bernardo Carvalho e, de repente, descubro porque continuo lendo seus livros, apesar da antipatia por seu cerebralismo. Adoro esta sacada de que os provincianos são os outros e que temos mais é que ignorar este modo tosco de classificação dos lugares:

"(...) A coisa vai mais ou menos bem (mais para menos do que para mais) quando minha amiga me pergunta sobre as viagens, sobre a urgência de estar do lado de fora, no exterior, sobre a atração pelo estrangeiro como uma forma de estranhamento. E eu caio na asneira de responder com um exemplo recente – que, depois de uma leitura no norte da Alemanha, o mediador me perguntou: “Mas, afinal, onde está o Brasil na sua obra?”. E que isso tinha a ver com um preconceito, pois ele nunca faria a mesma pergunta a um americano ou a um inglês ou a um francês que tivesse escrito um romance sobre o Japão ou a Mongólia. O exótico não pode falar do exótico. É insuportável, não tem credibilidade. Um clichê não pode falar de outro, porque se anula. Prossigo (embora tudo – a começar pela cara da minha amiga – me alerte de que é hora de calar a boca), dizendo que as identidades nacionais também são ficções, mas ficções vividas como religião, como crença, transparência e normalidade, e que a ficção literária, ao mostrar sua construção, sua fragilidade, sua opacidade, pode servir como uma alternativa e um antídoto à crença nas identidades – e não apenas nacionais. É essa a literatura que me interessa, uma literatura desconfortável, cuja força vem da sua fragilidade".

A postagem completa está aqui. Em tempo: Bernardo Carvalho está em Berlim. E uma de suas obrigações de escritor residente é escrever um blog (algo que ele não gosta).
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sábado, 11 de junho de 2011

Álbum de memórias - Canoa Quebrada

Canoa quebrada, no Ceará, é um pequeno pedaço do paraíso. Verdade que não tem o mesmo encanto de Jericoaquara. E eu não sei especificar bem por que. Talvez a distância de Jeri conte a favor. Canoa é bem ali, se estamos em Fortaleza. E quando eu estava ainda bastante doente, minhaPrincesa foi para Fortaleza. E eu achei que não devíamos ficar entre quatro paredes só porque eu não estava bem. Todos eles vibravam de vida, engavetados de tédio. Fomos a Canoa então, bem ali. A viagem foi muito sofrida. Senti cada osso. Mas o que são os ossos, se podemos ainda viver? Se podemos ver um ser muito amado voar? Registrei o voo da Princesa. Quando eu voltar em Canoa Quebrada, prometo, vou voar também.











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quarta-feira, 8 de junho de 2011

Vou pra FLIP



Flip. Desejo antigo. Não sei como é. Mas vivenciar a literatura como uma festa sempre foi uma tentação. Ando em crise com minhas escolhas acadêmicas, já que me roubaram o que de mais precioso eu tinha em mim: a leitura literária. Então vou me dar ao direito de passar um mês no universo da literatura. Vou também para a Abralic falar sobre um escritor que é estranho.  É  estranho e por isso gosto um tanto. Aqui e ali. Joca Reiners Terron.  Vou conhecer Curitiba. Embora. Embora quando pense em Curitiba, penso na Curitiba de Adriane Hernandez, a Driamada, que me fez ver a desumanidade de uma cidade planejada. Poderia lembrar de Paulo Leminski, e sentir Curitiba como a palma da minha pica que não tenho. Mas penso em Adriane. E compreendo bem por que. Qualquer um que morou na casa do Brasil, em Paris, sabe o que há de desumano na “casa planejada”. Para manter o plano, que todo excesso seja contido. Seja restrito ao sótão. 
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Mas vou. E é certo que me deixarei fotografar naqueles lugares tão turísticos. Vou à ópera de arame. E lá me lembrarei de Madri, onde tem uma ópera igual. A daqui, réplica de lá, talvez?  Lembrar daqueles dias de Madri. Ali eu vi Guernica e O jardim das Delícias. E duvido que exista ser no mundo que não se dilacere diante. E eu estava cambaleante nas suas ruas. Como só ficamos quando alguma dor martela. Senti um tanto de dor e um tanto de poesia naquilo que sentia em mim. Noites em claro num bar tão babel - e no sótão. Diverti-me horrores com a minha solidão. Tem um quê de aventura ficar bêbada numa cidade estranha em que apenas um e outro turista como você fala a sua língua ou a língua que agora lhe serve de sua. Algumas experiências são muito libertadoras, e por isso voltam de forma mais constante do que outras. Assim é minha memória de Madri. Mas era da Flip, em Paraty, que eu falavra. E da Abralic, em Curitiba, não?
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A ideia era entre Paraty e Curitiba passar uma semana em São Paulo – a Sampa que eu amo. Mas julho, será? Me deu uma desvontade. Paraty está entre o Rio de Janeiro e São Paulo. E meio de repente deu uma vontade doida de sentir o sol do Rio. O Rio, onde só fui para ser feliz.  Mas agora. Agora eu estou tão institucional. Vou morrer de saudade do meu filho, que não vai. Morrer de saudade do Tatupai, que também não vai. Eu vou. Mas de repente não amo mais São Paulo. Nem o Rio. Nem Curitiba. É assim. É o tempo. O que ele faz conosco. Isso assombra. E ao mesmo tempo é o que nos acalenta. Nos redime.
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terça-feira, 7 de junho de 2011

luz amarela




poeminha é meio água. para ele, tudo é motivo de. e a luz na nossa casa amarela é amarela. amarela como a cadeira. quem diria.
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domingo, 5 de junho de 2011

bicicleta na parede - e sobre o que é bom


a bicicleta foi parar na parede. o bacana é que não está apenas na parede. tatupai procurou, procurou até encontrar a atividade  física que lhe dava prazer. agora já está até fazendo trilhas. acorda cedo aos domingos. ele diz que a paisagem não é de brincadeira - de alumiar. a turma também. há algum tempo a busca pela vida saudável bateu a porta aqui em casa. Poeminha é, em larga medida, responsável pelas mudanças. e nos contagiamos. frutas de todas as cores. refeições balanceadas. e tatupai, pouco a pouco, foi percebendo a necessidade de se cuidar.  sobrepeso, cansaço. logo ele, um cozinheiro de mão cheia. é bom porque os sabores agora experimentam outros sabores. longe da gordura, das massas de todos os dias. é difícil - a começar pelo preço. produtos de qualidade são sempre os mais caros das prateleiras::: ainda mais aqui na mata, em que o monopólio dos supermercados mantém os preços nas alturas. mas não dá para abrir mão. e tenho que agradecer esta "consciência", mais uma vez, às pessoas que tive a sorte de encontrar. ninguém na minha família pensa com amor na alimentação. heranças. de certo modo, comer sempre me pareceu nada mais que uma necessidade fisiológica... até encontrar carla, mariamada, tatupai. não descarto a possibilidade de Poeminha um dia querer viver à base de sanduíches, mas não vai ser aqui em casa que ele vai aprender. todas as noites, eu faço um "resumo" a ele das "delícias" do dia. o abraço apertado. o livro. o filminho. a brincadeira demorada. a ida a  bisavó - e agora a avó que está aqui. o almoço. a bicicleta do pai. o a ida a praça. o jantar - e repito: "filho, a vida é bonita. vale a pena gostar de gostar; você ouviu aquela música em que dancei com você? pluct plact zuum. mamãe chorou porque no tempo dela tudo era falta. agora não, filho. você não tem tudo. nem precisa. mas amor e cuidado não lhe faltam. você sente?" e ele se espalha todo em cima de mim. seguro. inteiro. e às vezes, nesses momentos de ternura, eu lembro daquela longa estrada ao meio dia de muitos desejos. quase nunca satisfeitos. e ainda bem que o tempo passa - tantas vezes ao nosso favor. 

e a bicicleta na parede. a busca pelo saudável. o cuidado com o filho. a parada contrariada, mas necessária. tudo isso faz parte do savoir faire. de um desejo de viver bem - que se concretiza porque a história existe, mas nem sempre perdura. ainda bem. 
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quinta-feira, 2 de junho de 2011

o micróbio do samba da adriana

a música é mais forma do que conteúdo. porque prescinde das palavras. e não há quem duvide disso. porém algumas vezes é preciso abrir exceção para esta lei. quando a novidade é tamanha. desde que ouvi pela primeira vez o micróbio do samba, o novo cd de adriana calcanhoto, pensei nele como uma exceção. e uma exceção muito bonita. vigorosamente bonita. adriana veste-se de samba, invertendo seus sentidos. e o faz dando voz a mulher - uma (in)certa mulher que se apropria do discurso masculino. até aí tudo bem. quem acompanha, sabe que esta apropriação às vezes é vista mesmo como um retrocesso. não neste caso, é certo. muitas cantoras, nos últimos tempos, flertaram com o samba, mas nenhuma com o vigor de adriana::: marisa monte e maria rita talvez sejam os primeiros nomes que vêm à mente. mas tem teresa cristina e martinália, a quem amo desde muito (mas elas não apenas flertaram; elas são o "próprio" samba). só que nenhuma delas incomodou-se de dar voz à submissão da mulher. ou se incomodaram pouco::: o eu lírico reproduziu aquilo lá: a dor, a saudade, o silêncio da mulher. a malandragem, a sedução, a esperteza do homem. o vigor da adriana está neste contrário: aqui a mulher comanda. reiteradamente. música após música é uma mulher forte e linda que comanda seu próprio mundo de desejos. e a singeleza que é seu samba não deixa que essa escolha resvale em nenhum momento para o panfletário. a que canta é a mulher de agora. pode ser eu. e pode ser você, tão lindas para o mundo, no mundo. e não tenho como não me apaixonar por este universo-mulher: pode se remoer/ se penitenciar/ eu encontrei alguém/ que só pensa em beijar. uma mulher liberta dos anseios tão firmemente sedimentados. com tudo aquilo que advém da beleza de ser mulher::: segura livre leve. um risco, claro: te deixo a geladeira cheia e sem promessa/ que findo o carnaval eu tô de volta/ não chora, neguinho, não chora/ ... / tá na minha hora, tá na minha hora. um risco delicioso - com gosto de invenção que veio pra ficar. certeza que qualquer outra cantora que resolva se arriscar daqui em diante no micróbio do samba não vai ignorar a voz - o tom da voz - de adriana. se o homem tiver voz, que se aproprie do que um dia foi a voz da mulher: ... por você seria aquele que você mandasse ser/ nunca chegaria tarde com a barba por fazer/ vem cá, vem ver, vem ver. a voz da tradição está toda aí. mas o tom agora é outro.
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terça-feira, 31 de maio de 2011

palavrinhas

gosto muito de muitas coisas. e de muitas pessoas. marie me liga de paris e disparo a chorar. um pensamento me atravessa: "se tivesse morrido, não ouviria mais a voz de marie". ou não existiria mais a possibilidade de vê-la. a possibilidade de não mais existir é, definitivamente, muito perturbadora. ainda estou assim. o corpo melhora, mas a alma ainda dói. meus dedos dos pés ainda estão dormentes. e de fato não são uma bela imagem. quando minha avó morreu, a mãe do meu pai, por quem eu tinha verdadeiro amor, figura tão miúda, e já estava no caixão há algumas horas, eu toquei nos seus dedos e levei um grande susto ao senti-los duros, petrificados, carne morta. meus dedos dos pés estão assim - curvados e duros como dedos de mortos. isso dificulta um pouco meu equilíbrio. mas muito menos do que antes. agora quase caio porque esqueço de que meu equilíbrio ainda é tosco - o que é um bom sinal. 


amo muita gente, mas paradoxalmente estou muito retraída. planejo telefonar para cada um dos meus amigosamados e dizer-lhes como sou feliz por eles existirem. mas acabo por não fazê-lo. o telefone é sempre uma arma apontada para mim. não. não estou deprimida. estou entristecida. e muitíssimo ocupada. um parafuso em busca da posição mais acertada. volta e meia me pego a pensar que sou uma sobrevivente. e isso é muito incômodo. porque é como se eu tivesse a obrigação de fazer TUDO - mas eu não posso. de tudo o possível - então eu agarro bem forte o meu filho e também o livro que mais quero ler e não posso - não posso! - porque também preciso cumprir meus compromissos. fazer o melhor naquilo que me propus a fazer. e como? como, meu jesuscristinho, não me embrutecer? não entristecer? o que é a vida, quando sentimos que a vida poderia não mais existir? ainda bem que ninguém me pergunta. não saberia responder. também não sei ao certo como agir depois de quase ter morrido.
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voltei para a universidade intempestivamente, porque na verdade não havia saído dela - meus projetos me mantinham bem colada ao seu cotidiano. mas sinto tantos espaços estéreis. talvez por isso me agarro loucamente às mil tarefas. e o anúncio da minha volta?... ah, não falo! tenho humor, sempre tive. gargalhei imaginando que seriam preciso dez anos de análise para superar aquela frieza toda. mas não. não pago um tostão pela falta de emoção do outro. basta que eu sinta como é importante estar de volta, basta que minhas mãos tremam ao anunciar a minha volta. depois... depois não tem importância. manter o foco do que é importante. e lembrar da ternura em volta. o que importa, importa para mim. para o tatu. para meu filho. para minha família. para os amigosamados. e não é isso que importa? isso é tudo. então um dia quem sabe, é o que penso. e será um alívio. para mim, sobretudo. é isso. sou eu, ainda. uma menina. uma mulher que chora ao ouvir a voz da amiga d'além mar. uma amiga que chora ao falar para a melhor amiga: "não mereço". mas mereço. estou aqui. e farei o melhor. nunca, jamais, me entregar ao ódio em volta. ao descaso em torno. à incompetência, à perseguição. sem estoicismo. farei o melhor. e para mim, melhor para mim, porque só amo em volta de mim porque, como já me  disseram, tenho um profundo amor por mim. e estou viva. e é muito bom estar viva. porque o milagre da vida é a própria vida. parece frase de auto-ajuda. mas não é. é a certeza de que, estando aqui, o milagre da vida ainda persiste.   
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quinta-feira, 26 de maio de 2011

Blog das 30 pessoas

A partir de agora, todo dia 26 de cada mês, eu escreverei aqui. uma moça bonita me convidou. trocamos emails cheios de ternura. de cara me apaixonei pela ideia. 30 pessoas. 30 visões de mundo. 30 linguagens. topei na hora. mas confesso que fiquei nervosa na primeira postagem. bebi uns chopps para encarar a escrita. a obrigação de escrever. ainda mais hoje que verti muitas lágrimas. de emoção, ainda bem. mesmo assim, lágrimas. sempre fica um nervo exposto. sangue transparente que escorre na face. ainda mais hoje em que nós, Tatupais, tivemos que ficar bem perto do Poeminha, ficar ali sentindo a sua dor impossível. apesar de tudo isso, depois do chopp, no trajeto de carro para casa, "escrevi" mentalmente uma postagem LINDA. ilusões do pensamento, é claro.  quando sentei aqui, não lembrava palavra. o branco. afinal, lá eu sou uma estrangeira. diferente daqui, que é meu lugar. ainda assim, escrevi. pela mesma razão por que escrevo aqui::: pelo prazer de escrever. 
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a imagem foi a que postei

quarta-feira, 25 de maio de 2011

uma conversa amorosa com a literatura

muitas experiências. e elas tomam conta de mim. deixo abertas as frestas. existem.  nem que sejam por pouco tempo. de todas, a leitura. o ensino. o saber. qual é este mesmo?

neste sábado, precisei condensar mais de cem anos de literatura brasileira em oito horas. demarquei, então, o impossível. registrei o engodo e por dois dias histéricos busquei sistematizar estes mais de cem anos. uma tentativa de estancar o desague de palavras que com certeza jorrariam. ou o silêncio, nunca se sabe. qual efeito, ainda não sei dizer. mas para meu próprio deleite, falei oito horas ininterruptas, declarando meu amor ao período moderno e contemporâneo - "meninos, creiam, salvo Machado de Assis, tudo que vale a pena está neste século". e autobiográfica como sou, jurei: "diante da morte, conta muito pensar: eu li a obra completa de graciliano ramos, desde caetés até memórias do cárcere, passando pelo enorme abismo que é angústia". tem hora que a literatura pede só uma declaração de amor. ainda mais nestes tempos em que qualquer amor parece sem sentido. eu quero todos os seus sentidos. sou, afinal, uma leitora, antes de ser professora. e antes de tudo, sou um sujeito - com ânsias medonhas. 

talvez por isso eu rejeitei o material com o qual deveria falar sobre literatura. e criei meu próprio material. rejeitei-o. ou ele me rejeitou, não sei. dados e fatos não me interessam. lembrei-me, mais uma vez, de barthes. e achei que valia a pena apostar no sentido amoroso da conversa. 
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e de quebra, ainda namorei. Poeminha ficou com a avó e a bisa. e nós, Tatupais, aproveitamos a visão das estradas, a música no carro, o lugar para dois.

terça-feira, 17 de maio de 2011

bizarrices

não faço parte dos doisbilhões (!!!) de pessoas que assistiram ao "casamento real". eu até achei que veria algo na reapresentação do Fantástico, na Globonews, mas na hora de começar, veio a notícia da morte de Bin Laden e, em lugar do Fantástico, apareceram ininterruptamente imagens do "terrorista mais procurado do mundo". 

achei que essa "coincidência" diz muito sobre nosso tempo e sobre o modo como vivo esse tempo. não vou aqui detalhar porque acho tão estranha a estranha lei de "olho por olho, dente por dente". não sei se seria justa com tantas vidas que se foram. mas não posso deixar de dizer que acho deprimente o modo como absorvemos discursos artificiais e tornamos nossas algumas palavras que, de fato, não são nossas. são construtos de uma época. "guerra ao terror" é uma dessas expressões forjadas. 

e qual é mesmo a graça de observar dia após dia um casamento? o que há de anormal no fato de um casal de jovem resolver casar? só se for pela longevidade do namoro. e os elogios pra lá de exagerados à noiva? é como se de repente todo o nosso imaginário tivesse sido suplantado. desde quando o "ocidental" acha algo de extraordinário numa moça com tão poucos atributos? esta moça me parece um moça comum, com um rosto mais para feio do que para bonito, envelhecido pela dieta draconiana que teve de suportar para estar "linda" no dia do casamento. e que se veste de uma maneira insuportavelmente careta para a sua idade. fiquei imaginando por quanto tempo ela vai suportar as lentes do mundo voltada para ela. quanto tempo demorará para enlouquecer. 

Enfim, achei bom não ter tempo para vivenciar essa histeria coletiva. bizarrices. de um lado, um morto; de outro, uma viva emparedada. ando tentada a pensar que faltam às pessoas experiências reais. faltam vivências que suplantem os contos de fadas que outros supostamente vivem. eu ando meio histérica - envolvida com um tanto de coisas: umas que quero muito e outras que ajudam a pagar as contas fim de mês. mas me consola saber que são minhas experiências. é minha vida. minhas decisões. meus impasses. é meu brilho no olho - que compartilho com o filho. este que sorri deste modo tão inteiro. falei dias desses para um grupo de alunos que só sei ser assim: na paixão. pode ser uma imagem e nem ser real. mas me sustenta. ao menos, não sou espectadora da vida dos outros (embora não me furte de dar uma olhadela). sou a protagonista de mim. 

sábado, 14 de maio de 2011

Fotografias para explicar uma frase

fotografias que não me deixam mentir: "em Mapplerthorpe, não.  uma flor pode ser tão sensual quanto um corpo. mas nunca um corpo é singelo como uma flor".








imagens: http://www.mapplethorpe.org/

terça-feira, 10 de maio de 2011

para o filho

poeminha, não sei que magia você intui nos barulhos variados da máquina de lavar. só sei que desde algum tempo a cada vez que a máquina muda de função, sobretudo se é a de centrifugar, você corre ao meu encontro para que eu lhe ponha nos braços e, assim, você possa observar o movimento da máquina pela tampa. você não sabe, mas essa interrupção contínua é por vezes exasperante e inconveniente. porque às vezes vem no meio de uma frase escrita ou lida, de um email quase a ser enviado, de um descanso necessário ou mesmo de uma cena de filme imperdível. e ainda assim, quase nunca eu lhe furto desse prazer. intuo que há ali um encanto que não cabe a mim quebrar. o que você pensa é a mim interdito. mas gosto de pensar que tem a ver com os sentidos do mistério que você constrói aos poucos. é o girar, é o cair da água, é o intervalo entre um e outro.

e você quebrou, pela primeira vez, um objeto de valor, sentimental que seja. continua com sua delicadeza, mas vivencia constantemente uma curiosidade atenta em relação às coisas. eu estava viajando. e ainda bem que estava. não sei se, num impulso, não teria dado uma bronca sumária. como era o olhar amoroso e condescendente de sua bisavó que lhe vigiava, o que restou do acontecimento foi a sua narrativa. e você ainda não pronuncia palavras e frases inteiras. filho, e foi linda a sua narração. seu pai chegou mesmo a dizer que valeu a pena você ter quebrado só para que pudéssemos presenciar o seu contar. um contar a mim, que tantas vezes lhe interditou o objeto agora quebrado. você ia e vinha, apontava para a outra peça semelhante que sobrou, e balbuciava uma cantilena que finalizava sempre com "bou", "bou" - "bou", de quebrou, como você já aprendeu devido às xícaras da gaveta. e me deu uma alegria, filho. lembrei das tantas vezes que apanhei por ter feito alguma coisa "errada". e das tantas vezes que fiz silêncio com medo de. já adulta, apanhei porque galinhas quebraram as louças da sua avó. supostamente só podia ter sido eu a deixar a porta aberta. e ouvindo a sua história, filho, prometi a mim mesma nunca roubar a sua coragem de dizer. esta de agora. você, ali, resoluto, firme, decidido a narrar da forma mais clara possível, como a não deixar dúvida. e no meio da promessa, já pressenti como será fácil cumpri-la. não se trata, filho, de não ensinar o certo e o errado. trata-se de aceitar o erro como parte da história que nos cabe cumprir por aqui.
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domingo, 1 de maio de 2011

Só garotos, de Patti Smith

... O artista busca entrar em contato com sua noção intuitiva dos deuses, mas, para criar seu trabalho, não pode permanecer nesse domínio sedutor e incorpóreo. Ele deve voltar ao mundo material para fazer sua obra. A responsabilidade do artista é equilibrar a comunhão mística com o trabalho criativo. Patti Smith

quando estava em paris, fui a uma exposição num daqueles "museus do sexo" - ou sexshop - que há em montmartre. lembro que senti um certo enfado, fotografei uma coisa e outra, batalhei um tempo por um copo de vinho no balcão e nada mais.  provavelmente, eu não lembraria desse fato, se não tivesse lido, no feriado de páscoa, o livro de Patti Smith, Só garotos. numa das paredes, havia uma fotografia de Robert Mapplerthorpe, e foi sobre ela que, depois da exposição, falei horas. eu queria encontrar em francês as palavras certas para dizer que ali havia a potência, a chama, a incógnita, a arte. algo muito diferente, por exemplo, de alguns ensaios da Playboy, que para dar um ar de pseudoarte, retiram toda a sexualidade. e a nudez perde, assim, seu caráter erótico, profano, sensual. 

em Mapplerthorpe, não.  uma flor pode ser tão sensual quanto um corpo. mas nunca um corpo é singelo como uma flor. lembrei de tudo isso enquanto lia Só garotos, o canto de amor de Patti Smith a Robert Mapplerthorpe, seu amante, amor e amigo de uma vida inteira. e senti de novo muito fortemente porque não devemos aquiescer diante da normalidade. é preciso sempre uma válvula para o imaginário. para o por que não? os anos 1960 e 1970 brincam com nosso desejo de ser outro, totalmente outro. o poder de tudo poder. tudo é da ordem do imaginário. e Patti Smith tem uma linguagem muito delicada, muito verdadeira, para falar desse tempo, para se reconhecer como uma das protagonistas.  na verdade, é a história de um amor impossível. porque as histórias de amor, quase sempre, são da ordem do impossível. e há aquelas histórias de amor que seriam completas, se não fosse a ausência de desejo do corpo. a de robert mapplerthorpe e patti smith, é uma dessas histórias. almas que disputavam com corpos que queriam outra outra coisa. 

para mim, ler o livro foi como mexer em velhas fotografias,  trazendo até a mim o fascínio do passado, um recordar intenso e poético. gostei mais quando ela não queria explicar nada, ou se desculpar por nada - quando assumia por inteiro a loucura daquele tempo. aquele. rebeldia e nenhuma vergonha em estarem alheios às ordens impostas - sexo, drogas, rock and roll como sinônimo de liberdade, juventude e busca intensa de um lugar no mundo - com uma complexidade comovente e desafiadora que é própria dos artistas.
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quinta-feira, 28 de abril de 2011

de recife


... naquela tarde. a teimosia. filho. marido. irmã. sobrinha. lindo demais.

terça-feira, 26 de abril de 2011

correspondência

no facebook, respondi assim a uma mensagem do meu amigo alberto:

"alberto, li a última tradução mesmo de Ana K. siscar, meu orientador, ria desta minha vontade de ler todos os clássicos! mas eu continuo com vontade. o que me falta é tempo. q coisa! quando viramos professores universitários parece que só nos sobra tempo para fazer as burrocratices! Mas de todo jeito vou ler O homem sem qualidades ainda este ano. saudade de você sempre."

e ele me respondeu com estas lindezas de palavras: 

"mi, o q importa é q vc está e sempre esteve no caminho mais forte, mais potente. o resto é seguir burlando as burocratices, tentando não se envolver demais e escrever: não apenas ler. não parar de ler, mas escrever. criar e recriara vc nessa luta com as palavras, q é apenas uma metáfora das lutas vitais. adorei te ler e te ver novamente. o tempo passa rápido demais. são vidas infinitas q temos de viver e esgotar antes de morrer. e quanto mais cheias estiverem mais a vida toda é uma delícia. espero q tua vida teja assim, plena. saudade. e beijo. com beijo especial com abracinho em poeminha."

alberto é uma das pessoas mais inspiradoras que eu já tive o prazer de conhecer. inspirador e inquietante. amo amo amo. 

quarta-feira, 20 de abril de 2011

uma emoção

estive em campo grande, onde nasceu manoel de barros. esqueci minha máquina fotográfica e não tenho registro do lugar. pena. fomos para o eel - encontro de estudos literários da uems. fiquei com a impressão de que vou voltar. adorei as pessoas. de verdade. voltei mais cheia de luz, se é verdade que carregamos um pouco da luz das pessoas.  tão cheia de sonhos.  três ou quatro professores da universidade do estado do mato grosso do sul têm feito uma pequena revolução por lá. e uma revolução que nos pareceu - a mim, sandra, rosana e fátima - uma revolução amorosa. de quem ainda acredita no mundo da letras. e acredita, assim, numa educação para o humano. não disse, por pudor, mas queria ter dito a um dos professores que ele me emocionou como há tempos. e num ato involuntário, que é melhor ainda. eu já havia achado estranho terem tão prontamente nos acolhido, colocando-nos em mesa-redonda e minicurso, quando bem sabemos que em eventos desse tipo toda a atenção que se quer dar são para as "estrelas".  e nós, bem, nós somos professoras na floresta. e eu já disse em algum lugar como é comum pensarem que somos todas descerebradas. 

a emoção veio em razão de: uma pessoa que se parece com aquelas típicas dos anos 1970, deslocada num mundo em que os devaneios são como britadeiras no asfalto, foi um dos conferencistas do encontro, que imediatamente se transformou em um lugar para se ouvir uma voz dissonante. não digo que não fiz parte da plateia que, entre incomodada e desatenta, ouvia os lampejos de beleza daquele moço magro e barbudo, dizendo da dificuldade da travessia, seja da leitura, seja da literatura. 

bem depois, o professor que fez o convite a pessoa contou-nos, com um sorriso cúmplice, de que a conhece há anos. são amigos desde muitos anos. e foi assim que senti a emoção que por pudor não proferi. havia ali um amigo na sua concepção mais genuína. pois ele sabia do risco. sabia que o amigo podia ir por veredas estranhas ao público, sabia que a partir do momento em que ele estivesse com o microfone, os dois estariam expostos, como dois perdidos num deserto muito grande, como são todos os desertos. os dois expostos aos lobos da severidade. e mesmo assim, o amigo correu o risco. isso me fez lembrar que ainda é possível, num tempo precário como o nosso, num espaço regrado como o da Universidade,  gestos como esse, de pura transgressão, de pura aposta no dizer incomum. 

sim. acho que vou voltar. e acho que quero semear sonhos desse tipo. pois isso significa acreditar no humano, por mais diferente que ele pareça ser. 
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sábado, 9 de abril de 2011

na escola

por um lado, um trabalho reflexivo sobre a escola de ensino fundamental e médio, por outro, um trabalho prático. e desde ontem, em que tanto se pensa, tristetriste, sobre o espaço da escola, começo a pensar no quanto ela se modificou desde a última vez que lá estive como professora - e nem faz tanto tempo assim, embora pareçam séculos. 

foi ali, professora, que eu aprendi a amar a balbúrdia escolar. e a não temê-la. não fui uma boa professora, tenho quase certeza. era uma menina - imatura, interessada em muitas coisas, entristecida com outro tanto, mas lembro perfeitamente de como tudo aquilo me empolgava. sempre fui atraída pelos rebeldes, pelos incompreendidos, pelos "problemáticos". não era diferente como professora. achava que podia "salvar" todos. que podia dar minhas aulas para adolescentes à beira da marginalidade sem, de fato, colocá-los em guetos. entendia perfeitamente a pulsão erótica que impregnava o ar daqueles meninos machões encolhidos entre a vontade de liberarem o amor pela garota linda e a obrigação de se firmarem perante os amigos. nunca senti medo perto de nenhum deles. nunca me senti ameaçada pela ironia, pela raiva, pelo desinteresse que constantemente os assolava. e ficava bem longe do ódio que fazia da sala dos professores o ambiente mais contaminado da escola. aquele ódio a jovens tão cheios de vida me parecia tão fora de foco. entre a frieza da instituição e a desordem da  alegria, eu não tinha a menor dúvida de que lado estava. 

e sabia dar aula de forma mais divertida, mais leve, do que consigo hoje. uma certa irresponsabilidade que perdi. uma certa leveza que o passar do tempo me roubou. e fico triste, realmente triste, ao constatar que o quadro agora é ainda pior. não sei se foram os jovens que mudaram ou se foi o ódio que exacerbou de forma insuportável. eu não sou ingênua. sei que os jovens podem ser bem malvados. mas será mesmo que são tão violentos assim? agora não se diz mais que um jovem é rebelde. dizem logo que é violento. pois eu acho que não. as suas posturas podem muito bem ser uma reação à ignorância, a incompetência, ao despreparo de tanta gente que os rodeia.  

de certo modo, são essas coisas que tento dizer aos dois alunos que acompanho agora num projeto de extensão. assustados e decepcionados com o que julgam ser um total desinteresse de boa parte dos alunos, vejo constantemente como se sentem tentados a repetirem os preconceitos tantas vezes repetidos. e o que tento é deflagrar a chama. é fazer com que vejam que o que há ali, no espaço da escola, é o humano em ação. o adolescente que nos olha com ironia  enquanto falamos é o mesmo que impõe o tom irônico na medida certa do poema de Leminski. será que não dá para perceber? eu acho que dá. basta estar aberto. basta usar a linguagem a nosso favor. basta sorrir que não faz mal a ninguém. basta perguntar o nome e ouvir suas histórias e compreender seus silêncios e suas balbúrdias. 

na verdade, eu me sinto de novo tocada por aquela centelha de paixão. tenho lembrado como é bom estar ali, no meio da moçada. e é isso. e ainda bem que é isso. as fotos não me deixam mentir.















sexta-feira, 1 de abril de 2011

dom quixote


Não há leitor que não carregue no seu imaginário dom quixote, o cavaleiro andante. Eu li há muito tempo. E já é hora de reler. Penso nisso sempre que olho para "os daqui de casa". Um eu comprei em Toledo, depois de percorrer de ônibus parte da região da Mancha. O outro compramos, os Tatus, numa feira em Fortaleza. Já combinamos que o próximo a fazer companhia aos dois será Sancho Pança.
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segunda-feira, 28 de março de 2011

sinuca embaixo d'água

antes de ler sinuca embaixo d'água, da gaúcha carol bensimon, eu li seu antigo blog, que ela escreveu quando estava em Paris. imaginei uma porção de coisas antes de ler o livro. imaginei mesmo que não ia gostar, embora tenha gostado bastante do seu blog - um certo encanto blasé que, na verdade, lembrara muito minha própria experiência em Paris. volta e meia a discussão sobre a figura pública do escritor adentra minha seara e, na época, uma série de questionamentos passava pela minha cabeça, do tipo: "será que preciso mesmo ler os livros dos escritores que "descubro" na internet?", mas como eu continuei a acompanhar a carol no seu novo blog - dromedário -, gostando cada vez mais da sua escrita, comprei o livro e o li na semana que passou. e não sei se eu já estava imersa em penumbra ou se foi o livro que me fez adentrar nesta espécie de dor difusa que é a perda de alguém, mas o certo é que gostei muito.

valendo-se de um artifício poderoso como o é a morte, carol faz um livro sobre o luto. sobre os sentimentos devastadores que se acumulam quando temos que conviver com a irreversibilidade da morte. e não qualquer morte, mas a morte de um amigo. em cada personagem que fica, a amizade incondicional por aquela que se foi. a dimensão terrível da presença de uma ausência. o pior é ter que lembrar que ela não está mais ali, como diz o irmão em certo momento do livro. o lugar da sinuca embaixo d'água já ruína antes mesmo de ser. 

é um livro que não conta exatamente uma história. há até um momento em que pensamos que se constituirá  um mistério, para mais lá na frente percebermos que é só mais um clímax frustrado, pois o que de fato se conta é o peso do momento na vida de cada um daqueles que perdem Antônia, cuja imagem  que se projeta é a de alguém que era a "alma" dos que agora sentem a dor da sua ausência - uma ausência que nunca é completa, porque há a dor do luto. não é que Bernardo, Camilo, Polaco e alguns outros não tenham vida "própria"; é o exato contrário. é como a trilha sonora que não para de tocar, embora, antes do tempo, pareça fora de moda. a vida própria fora do tempo.  

essa atmosfera só não é mais densa - ou tensa - porque Carol insiste em se fixar nas ações de cada um, em vez de esmiuçar o interior de cada personagem, o que não é um problema. fica a dor contida de cada um, sempre prestes a extravasar. a romper os diques. uma promessa que não se cumpre. como nos filmes de lucrécia martel em que ficamos esperando que algo de terrível aconteça para, no fim, nos frustrarmos de uma maneira inexata. não há nada (mais) para acontecer, porque o que havia de terrível para acontecer, já aconteceu.
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sábado, 19 de março de 2011

FALE






O FALE é um andarilho. É de muitos lugares. Apesar de o seu nome próprio – FALE – ser um imperativo, em suas andanças, quer reter a grande sangria do já dito que, em muitas situações, amordaça. A obrigação de falar do estudante de Letras, e também de outras áreas, exaustivamente repetida na Universidade através da fórmula “escreva com suas próprias palavras”, sem que se constitua nenhuma discussão sobre o significado dessa expressão, pode muito bem ser uma aterradora forma de silenciamento. De fato, a constituição de um discurso próprio só se faz quando, antes, amordaçamos os imperativos que repelem a diferença.  A verdadeira reivindicação do FALE, quando levanta a bandeira da pesquisa na graduação, é a de constituir sentidos novos à ideia de pesquisa. Nos dizeres de Lan Pacheco, “pensar a pesquisa como uma busca, para encontrar algo que faça sentido ou que traga um sentido novo e diferente no meio de inúmeras referências semelhantes”.   Não é pouca coisa querer trocar a ideia da ‘exposição’ pela de ‘reflexão’. Não à toa “o FALE é um evento rebelde”, que nasceu nas entranhas do curso de Letras com o intuito de abalá-lo, de revolvê-lo, para que dessas entranhas seja possível escutar a voz do estudante de Letras. Mais que nunca, diante das tantas demandas da Universidade, o imperativo do FALE quer vir acompanhado da responsabilidade de gerar novos sentidos à obrigação da fala.
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Este é o texto de boas-vindas do FALE,  que agora está aqui, tomando meu tempo, minha paciência, meu sono. E, sobretudo, me fazendo lembrar que é assim que se deve fazer Universidade. Sintam-se convidados, minha meia dúzia de leitores. E visitem nosso site, porque há ali muito de sonho, pois a matéria do GEPEC é o sonho. É o fazer.

desencanto

ando melodramática. como um cancro que demora. a gente se acostuma. o que me perturba, perturba mesmo. foi a vizinhança com a morte, talvez. ou talvez sempre foi assim. foi mesmo. eu quero poder duvidar. e ao mesmo tempo sentir que é possível acreditar. esta constante crise com as instituições. uma maré à revelia, numa luta surda, embora bem humorada e com longas tréguas. porque sou leitora de Kafka. porque prefiro amar gente - nem todas e nem muitas - a me devotar a algo que é uma laje fria. é porque acredito. e porque duvido. eu tinha muitas expectativas. e ainda as tenho. quase três anos depois, a empolgação é a mesma. mas atravanco às vezes. e expresso o meu desencanto, a minha dor, o meu cansaço. e choro. porque chorar não faz mal a ninguém. é meio ridículo, eu sei. vão me taxar de desequilibrada qualquer hora, se já não o fizeram. mas não me importo. prefiro isso ao equilíbrio frio.  lembrei de uma coisa ontem enquanto me balançava na rede com o Poeminha. no tribunal onde eu trabalhava, todo mundo se espantava com minha postura "nem aí". eu era visceralmente "trabalhadeira". e isso não combinava com minha postura "este não é o trabalho da minha vida". para contrabalançar, eu chegava atrasada, sempre com sono, por causa da insônia. e às vezes de ressaca, porque naquele tempo as noites eram longas e loucas. é que aquilo não me encantava. não me interessava toda aquela gente de plástico, apesar das exceções tão lindas que até hoje perduram. e hoje me vejo na mesma situação. mas a situação é totalmente outra. este é o trabalho da minha vida. e esta doença me empata a ressaca inevitável. mas vou dizer. assim, a dor é bem maior. como disse meu amigo, é que eu fico com vergonha das pessoas que, embora não sejam de plástico, se contentam. talvez sem o saber adotam o discurso mais fácil. e deixam de sonhar. e consequentemente tiram a vontade de outrem sonhar.
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quarta-feira, 9 de março de 2011

Quarto & sala etc.

Quarto & Sala sonha para o alto e avante. Com o bom morar, bom produzir, bom criar, bom trabalhar. Mira, atento, para a maneira que gira e funciona o universo ao nosso redor. Vê poesia na simplicidade e quer, bastante, se afastar da sofisticação boba que atenta ao luxo clássico.

decoração é algo de que realmente gosto. se eu tivesse bala no cartucho, teria uma casa m-a-r-a-v-i-l-h-o-s-a, daquelas de cinema (não de novela, que são sempre tão certinhas, tão caretinhas). eu espicho o olho pra blogs de decoração e volta e meia fico toda assanhada com alguma ideia. e quando viajo, compro revistas de decoração. voltei com uma debaixo do braço que falava sobre o dono de um blog de modo bem bacana. e a casa do sujeito, oh, muito  estilosa. fui conferir, então. é assim: ele fotografa casas nada convencionais e escreve um pequeno texto sobre elas. nada a ver com casas que aparecem nas revistas e, mesmo, na maioria dos blogs. não sei se eu moraria em nenhuma daquelas casas, mas fiquei feliz por elas existirem, se assim posso dizer. sabe quando a vida pulsa? pois é. livre de modismos, de tendências, de imposições. e se gostei, é porque penso que toda casa deve ser assim. eu mesma nunca terei uma casa clean. aqui em casa, tudo conta uma história. e eu tenho muitas histórias, amém. fotinhas do blog do moço, que ainda por cima é um baita fotógrafo de interiores.






terça-feira, 8 de março de 2011

eh samba

é difícil lembrar que é carnaval, a não ser talvez pelo fato de que, já em casa, minhaManeca veio me visitar, e estamos as duas, aqui, tagarelando há alguns dias, na malemolência típica de uma casa quando com visita. o fato é que o tempo faz as suas mudanças. e se sinto falta de carnavais antigos e imagino que ainda irei lá em Recife em carnavais futuros, a verdade é que estou absolutamente à vontade no meu "mundo vasto mundo". sinto-me em paz. isso parece bobeira - ao menos me parecia há algum tempo. mas de fato é bom estar em paz. é prazeroso.traço planos a dois. vivo a três e tudo me parece muito certo. oxalá perdure. não tenho tempo. mas os tempos me parecem bons. e eu pensei tudo isto enquanto ouvia um cd antigo do rômulo fróes, um músico que me cativou desde a primeira audição. há muita verdade no seu samba. muita doçura e muita dor. recomendo muito. qualquer um dos seus cds é uma experiência única, inclusive o último, onde ele tenta fugir do samba, sem conseguir, o que não é nenhum problema. "no chão sem o chão" busca outros ritmos, mas o samba, como um hóspede indesejável, está ali, atrelado a voz do seu músico. é bonito, verdadeiramente bonito. e mais não digo nesta tarde de sol frio.  

quarta-feira, 2 de março de 2011

longe da cria

Então é assim. É isso que sentimos quando deixamos a cria. Quando estabelecemos uma distância que o olho não pode ver, o corpo não pode tocar. Eu imaginei. E comecei a sentir, ali, quando o coloquei para dormir na noite anterior a minha vinda. O choro veio fácil, antecedendo a dor física que senti ao deixá-lo, ali, na manhã seguinte, com outra que não eu. Ele tocou meu rosto com sua mão delicada, uma, duas, três vezes, ao me ver chorar, e cravou aquele olhar em mim. Ficamos, ali, demorando naquele tempo de delicadeza. Fiz ele gargalhar para  espantar minhas lágrimas. No meio de um destes risos, ele se aconchegou em cima de mim, encostou a cabeça e dormiu. O nome disso é amor. Por isso, estou aqui, como diz aquela protagonista de novela antiga, toda amarrotada por dentro. Ele, não. Ele está se saindo melhor do que eu. Porque amo, crio Poeminha para amar pessoas. E ele ama. E me troca sem nenhuma cerimônia por estas pessoas. É verdade que à noite só quer a mim. Empurra o pai se acorda. E aponta lá pra fora para dizer quem quer. E se eu não venho logo, se levanta, e vai atrás. Mas de ser assim, de dormir comigo, de só dormir  quando nos deitamos juntos na rede e eu cantar ou contar histórias não faz dele uma criança dependente, chorona, frágil. De jeito nenhum. Ele chega mesmo a nos assustar com tamanha independência. Na possibilidade do primeiro braço, na primeira oportunidade de brincadeira, liberta-se de nós e vai. Abana os braços de felicidade quando chega no quintal da sua Bisa e nos dá tchau já de costas. Ainda bem que nos recebe de volta com o mais lindo dos sorrisos e com o mesmo abanar de braços. Um ano e cinco meses e nenhum resquício de insegurança, de medo. Sorridente, tranquilo, tartamudeador, teimoso quando quer, é assim Poeminha. E é por isso que estou aqui,  com esta enormidade de sentimento. Porque saiu de mim. E porque partilhamos esta vida, estou toda zonza de saudade, de falta, também do Tatu, não vendo nenhuma lógica em estar longe dele. Veja se pode uma coisa desta. Veja como é bom sentir este deslocamento. Tudo isso me faz cheia de espanto.
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quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

no avião

Escrito em 20 de fevereiro

acabei de ver a lua acima das nuvens, e lá embaixo, as luzes e o rio, provavelmente o tietê. puta lua. sim. aquele rio. e aquela vida que passou, e ainda bem que passou, e ainda bem que existiu. última fileira de um avião enorme. sem os pés na terra. destino: fortaleza. família primeira. missão: consulta no sarah kubitschek. a remota hipótese de que lá recupere mais rápido a minha força, que por ora continua longe das minhas pernas. mas para ser sincera, tudo que eu mais quero é que me mandem embora o mais rápido possível de volta para casa. e para minha vida – que vai muito bem, obrigada, apesar da resistência do guillain-barré em me abandonar. como em outras vivências, eu queria encontrar as palavras para dizer como é viver há sete meses com os pés dormentes, com este pouco equilíbrio e esta pouca força que mal sustém minhas pernas. e qual a exata sensação de quentura que me obriga, com ar condicionado ligado, a dormir com os pés fora do lençol. mas não. ainda não encontrei as palavras. porque não quero melodrama. busco palavras secas. queria encontrar a devida distância, algo como mudar de corpo para poder escrever sobre o corpo. e, no entanto, recentemente descobri que me fragilizo quando me exponho ao olhar das pessoas. e aos perigos das calçadas e, percebo agora, dos inúmeros batentes, buracos e desnivelamentos da cidade. tenho que fazer força para não chorar quando alguém, educadamente, estende a mão para me apoiar. ou o contrário, quando sozinha subo a rampa da universidade e me vejo no vidro da porta, aquela figura capenga, com as pernas meio tortas, que mal levanta os pés do chão e precisa caminhar muito devagar. ou quando, como hoje, tenho que agarrar o corrimão com as duas mãos para ter força de subir míseros lances de escada, seja dois, seja dez, seja vinte, que mais não consigo. palavras, quais. ainda há muitas lágrimas. tem isso, mas tem o casulo, a proteção. em casa praticamente esqueço que estou doente. cumpro minhas mínimas promessas. há exatos cinquenta dias trabalho todos os dias até altas horas. depois disso, quero entrar num ritmo mais feliz de vida. um ritmo que me permita namorar todas as noites ao menos uma horinha. um ritmo que me deixe ficar ainda mais ao lado do Poeminha. e das leituras felizes. então não cabe melodrama. há o corpo flácido, desapropriado que está da tal mielina, e isso me assusta um pouco. me faz soltar um “pronto, fudeu, agora tudo desabou de vez”. e sempre há os momentos críticos, como aqueles em que caí. e veio o choro sentido, bem alto, porque assim que é bom. tudo por causa de um reles tapete, ou por causa da imprudência da moça que não fixou direito as borrachas no banheiro da hidroginástica, o que me fez escorregar, bater a testa na parede, e aquela confusão de mãos procurando um apoio que só a cabeça encontrou. ou quando o sobrinho amado esbarrou sem querer em mim e caí feito um saco de batatas em plena rua. mas nada disso é motivo para que eu tenha piedade de mim. nem mesmo o fato de eu ter que me encostar na parede para ficar um minutinho com o Poeminha nos braços. tudo faz parte do contexto desta doença. e qualquer um que a tenha, ou a teve, passa, ou passou, por situações assim e, na maior parte dos casos, por situações bem piores. de fato, não há nenhum oba-oba, nenhum champanhe estourado porque estou viva. duvido que alguém que sinta a enormidade das dores que eu senti, aquelas facas espetando meu corpo no mínimo movimento, faça um oba-oba porque sobreviveu. ao menos, em mim, o que ficou foi uma perplexidade feliz e silenciosa, um agradecimento a seja a quem for. um dia destes, felizinha, aconchegada, num relance da sucessão de acontecimentos que levou a demora no meu diagnóstico, eu disse ao Tatu entre trágica e aliviada: “Tatu, realmente, se assim houver, havia uma força superior me ajudando, porque com tantos erros, como pode ter dado tudo tão certo? como pode eu não ter chegado a um estado mais crítico? como pode eu não ter morrido?”. depois, já deitada, me veio outro pensamento: e por que não dá o nome de Deus a esta força? nem que seja para agradecer a enorme corrente de fé que fez meu nome rodar o Brasil todo em inúmeras igrejas, em inúmeros templos, e fez que até mesmo a minha mana Morg – ela sim, religiosa – ofertar um culto em razão da minha lenta, mas gradual, recuperação? ora, então que exista Deus. que tenha sido ele a tramar para que eu tivesse uma mana Mácia. e que fosse ela a mover céus e terra para que eu fosse tratada. porque, talvez com a figura de Deus, seja mais fácil, para mim, continuar acreditando que estou aqui pra viver bem, pra ser feliz. e para poder ver de tão perto esta lua, aqui, no meio do vazio, a não sei quantos mil pés do chão. e para fazer parte deste vazio, desta fé que todas estas pessoas no avião deve sentir. porque só pode ser fé o que faz com que eu, e todas estas pessoas, aparentem tanta calma, assim, soltas no vazio.
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sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Poeminha, as coisas e a delicadeza

Poeminha está com um ano e quatro meses. Cada dia, uma delícia, um acontecimento. Ontem, eu gritei no supermercado porque descobri um dente no lado esquerdo. Tatupai já havia descoberto dois. Eh, eu sou lenta mesmo. E também ontem Dinalva, que está me ajudando nas minhas mil e duas tarefas em atraso, descobriu um bicho de pé. Eh, um bicho de pé. E não se fez de rogada: tirou-o. Enquanto eu e Tatupai olhávamos estupefatos. Mas o que me faz babar mesmo é o relacionamento que ele tem desenvolvido com os livros. E com as coisas. Aqui em casa é uma tranqueirada só. Esta mania de trazer o mundo para dentro de casa. E todo mundo fazia diagnósticos aterradores. Eu imaginava que decerto acabaria por inventar um método de flutuação de coisas. Poeminha se aproximaria e as coisas levitariam rumo ao teto. O fato é que não tirei nada do lugar. Nem o que achava que obrigatoriamente deveria tirar por segurança. Ao invés do sistema de flutuação de coisas, desenvolvemos paciência de Jó regada a encantamento do olhar. 
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É lindo de ver, acreditem. Ele é MUITO delicado. Pega tudo com uma delicadeza espantosa. Ele elegeu alguns objetos, e volta constantemente a eles, mas não é todo dia nem a toda hora: dvds e cds de uma ÚNICA fileira, livros de UMA só parte da estante, um ovo do Brennand, uma boneca africana que trouxe de Paris e uma gaveta com xícaras. E com todos esses objetos, são ele e sua delicadeza. Tira os dvds e cds para analisar minuciosamente. E carrega o ovo e a boneca para me entregar. A gaveta de xícaras para tirar uma de lá e pedir água. E com os livros, uma só página rasgada, e acidentalmente. Puxou de um jeito meio enviesado e rasgou. E, ainda assim, todas as vezes que folheia o livro de novo,  olha com pesar. 
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Não sei se tive sorte, ou o quê. Mas acho que tem sido uma educação a dois. No início, eu estava muito ansiosa. Não queria tirar os objetos imaginando que a mágica da flutuação seria bem mais interessante, mas não queria brigar a cada segundo caso não soubesse realizar a mágica. E, sim, impacientei-me. Qualquer mãe sabe que os objetos que elenquei aí em cima já são suficientes para uma bagunça bem bagunça. Mas agora estou muito tranquila. Sei que caminho junto com meu limite. E eis que descubro que está de bom tamanho. Sem gritos, sem alardes, sem sustos. 
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Talvez esteja dando certo, porque a ordem aqui em casa é trânsito livro pros seus brinquedos. Tudo, absolutamente tudo que é seu, está bem à mão. Em cada canto da casa, seu lar.
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