foi perturbador acompanhar a 68ª Reunião da SBPC durante cinco dias - um dia na SBPC Educação, em Teixeira de Freitas; e quatro, na SBPC, em Porto Seguro. se eu fosse jornalista, ou fotojornalista, precisaria de um sem-fim de leituras para especificar o grau do meu espanto, nesta reunião que se coloca como o encontro científico mais importante do país.
senti uma espécie de constrangimento -- e isso para além do que ocorre e diz respeito apenas à UFSB, anfitriã deste ano. porque neste ponto, nada de novo. a hospitalidade festiva não escondia o mesmo de sempre: um corpo incapaz de estar aberto a outros corpos - um corpo incapaz do exercício da escuta; de querer-aprender com o outro, de querer-saber da pesquisa dos corpos científicos das outras universidades e associações que ali estavam; para quê movimentar estudantes e professores a ouvirem um grande pesquisador, a participarem dos resultados de uma pesquisa por demais importante, se o que importa mesmo é criar o discurso da excelência e do único? a UFSB criou, assim, uma programação paralela intensa, para além da oficial constante no catálogo, ausentando-se, portanto, daquilo que ajudou a planejar. o
corpo docente e discente da UFSB transitou quase que exclusivamente
pelas reuniões e mais reuniões de portas abertas ou fechadas nas quais
se discutiam apenas o seu "grande projeto" de universidade que acredita pairar sobre todas as outras. assim, em vez de, como anfitriã, ter recebido seus convidados, discutido com eles, retirou-se para espaços outros, para partilhar com seu corpo fechado o grande delírio de estar na vanguarda, ainda que seus estandes fossem, de longe, os mais esvaziados de sentidos - um nada ainda a mostrar. no fundo, movimentos agônicos de sustentação de um poder que rui ante sua própria incapacidade de enfrentamento dos impasses. patético, risível e previsível.
como disse, não foi somente isso. mas a própria concepção da Reunião da SBPC é por demais perturbadora. difícil acreditar que, apenas neste ano, foram despendidos R$8.000,000,00 dos cofres públicos para sua realização; e não exatamente porque a estrutura não seja, de fato, dispendiosa, mas porque é óbvio que essa estrutura absurdamente cara tem menos a ver com os debates sérios, científicos e imprescindíveis que ocorrem durante o evento, e mais com o que acontece em seu entorno, que a faz parecer uma grande feira barulhenta e festiva. o catálogo da programação expunha o caráter minguado das discussões, mas ninguém parecia se importar: fininho, com grandes espaços e letras garrafais, denuncia largamente a falência do modelo "seminário". na SBPC da sustentabilidade, não vi um único invento que se relacionasse com o tema. as mesmas lixeiras coloridas, os mesmos banheiros "sustentáveis" e a aclimatação dos pavilhões feita por potentes ares-condicionados, como gigantes brancos no fundo a denunciar a inércia dos homens a quem servia. pensando que minha memória podia estar me traindo, ao chegar em casa hoje, procurei os catálogos de grandes eventos da minha área, também de associações: Abralin, Abralic, Anpoll, buscando ali pistas para a gravidade e densidade que lembrava ter sentido em alguns deles, com uma pontada de desconfiança de que talvez tivesse me enganado quando presente em tais eventos. e senti uma espécie de alívio. os catálogos estão aqui: densos, graves e grossos, o que me faz concluir que não apenas eu mudei nos últimos anos, mas, sem dúvida, a concepção de eventos desse porte.
tudo beirava ao kitsch. kitsch eram a Expotec e a SBPC jovem com suas feições de feiras de ciências de colégios de ensino médio, as quais pareciam dizer respeito apenas às muitas levas de estudantes que entravam nos estandes como ovelhas livres de seus cercados. logo na entrada da SBPC Jovem, uma "invenção" demonstrava que corpos de mãos dadas, quando um leva um choque, todos também levam. apontei a câmera para fotografar, mas uma espécie de pudor me deteve. não tirei uma única foto em nenhum desses pavilhões, embora tenha perambulado demoradamente por eles. achei melhor deixar que a minha parca memória se encarregasse de ruir - como certamente se encarregará - o que vi e o que me espantou.
na melhor das hipóteses, pode-se pensar o quanto inesquecível é para um jovem acadêmico participar de evento tão aparentemente grandioso. e se é para almejar que alguns estereótipos nos redimam, em vez de cientistas engravatados,
com ares carrancudos, uma horda jovem e alegre vez ou outra tomava
conta dos corredores largos do centro de convenções transformado em
universidade. espiando uma sala e outra, nos debates simultâneos,
raramente vi mais do que trinta pessoas reunidas, mas lá fora as pessoas iam e vinham sem saberem exatamente para onde, sem a paciência devida para pararem, mas, em um desses momentos fugidios, vi-me também como parte dessa horda alegre e festiva. senti-me liberta com esse músculo que pulsa tão pleno. e se soubesse rezar uma outra oração além das tradicionais, teria deixado a reza tomar conta de mim, agradecendo sentimentos que dizem respeito apenas a mim.
e para voltar ao cerne da questão, eu diria, parafraseando de memória Laura Erber, que acreditar que uma reunião desse tipo contribui para o avanço científico do país é o mesmo que acreditar que a Bienal de Artes de São Paulo forma uma leva grande de novos apreciadores de artes. Ou a Flip, essa festa literária tão colocada à baila nas duas últimas semanas, muda os rumos da produção literária contemporânea. tudo carece, de fato, de um propósito. e perguntas urgentes deveriam ser feitas: para quê mesmo uma reunião como esta? e para quem? mas como ter a grandeza de enfrentar os impasses? A diretora da SBPC, em uma das reuniões de última hora, renunciou diante de uma onda de vaias e gritos de "Fora, Temer", pois em nome da defesa da ciência, defendeu imparcialidade e necessidade de negociar com o governo golpista. E na assembleia seguinte foi "reconduzida" ao cargo que, de fato, nunca abandonou. pão e circo na grande tragédia farsesca do tempo presente brasileiro.
talvez a imagem emblemática da Reunião SBPC seja esta aí de cima. de longe, parecem ocas indígenas, tanto quanto podem ser confundidas com quiosques mais sofisticados de beira de praia. e talvez não sejam nem uma coisa nem outra: meio ocas, meio quiosques, custaram de todo modo o olho da cara. e essa indecidibilidade é o preço que temos que pagar por vivermos neste país tropical em que tudo acaba em samba. literalmente.









