

"Tudo que vem a seguir participa o máximo possível (nem sempre se pode largar um caranguejo cotidiano de cinqüenta anos) dessa respiração de esponja em que continuamente entram e saem peixes de lembrança, alianças fulminantes de tempos e estados e matérias que a seriedade, uma senhora ouvida em excesso, consideraria inconciliáveis. Eu me divirto pensando neste livro e em alguns de seus previsíveis efeitos na referida senhora, um pouco como o cronópio Man Ray pensava em seu ferro de engomar cheio de pregos e outros estupendos objetos quando afirmou: "De maneira nenhuma eles deviam ser confundidos com as pretensões estéticas ou o virtuosismo plástico que em geral se espera das obras de arte. Naturalmente - acrescentava a corujinha de óculos pensando na tal senhora -, os visitantes da minha exposição ficavam perplexos e não se atreviam a divertir-se, porue uma galeria de pintura é considerada um santuário onde não se brinca com a arte".
Tem mais:
"Já se deve ter notado que aqui chovem citações, e isto não é nada perto do que vem pela frente, ou seja, quase tudo. Nos oitenta mundos da minha volta ao dia há portos, hotéis e camas para os cronópios, e além disso citar é citar-se, como ja disseram e fizeram mais de meia dúzia, com a diferença de que os pedantes citam porque veste bem e os cronópios porque são terrivelmente egoístas e querem monopolizar seus amigos..."
E como falei da Dêamada, vale uma explicação: ela não se conforma de que eu não tenha lido ainda Histórias de cronópios e de famas, porque ela diz que eu sou um cronópio. E me chama de Cronopinha, quando eu lhe digo algo que parece uma travessura, mas eu estou começando a ter certeza de que ela é a verdadeira cronópia; esta moça que não gosta de claridade e que, por causa disso,quando estou lá, vem se arrastando com os olhos fechados e os braços esticados até a "minha" janela para fechá-la. Só depois disto, ela se senta na beira da cama e iniciamos ali nossas conversas infindaveis, para horror da Djoia, que morre de ciúmes e fica latindo a nossa volta.
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