quinta-feira, 24 de outubro de 2013

miolo mole

 branco céu niemeyer

deve ser meu miolo mole. mas eu defendo que devemos ter um pouco de "miolo mole". é o único modo de trapacear (no sentido barthesiano, claro) com a vida. de não encaretar de vez. de não ficar cada vez mais chata. porque o cotidiano - não a vida! - é muito avaro. apaga a inteireza de muita coisa. e isso não significa viver num eterno adolescer. estou cada vez mais empenhada em cuidar dos meus 39 anos, que farei daqui a dois dias. mas tenho pensado cada vez mais numa vida que não deixe para trás os desvãos. não nos deixe abandonar a vontade de cobrir a vida com hiatos. 

pensava nisso e em outras bobagens enquanto via o Vanguart no Sesc Pompéia. estava numa alegria inteira. há algumas semanas decidimos que viríamos a São Paulo para aproveitar parte da Mostra de cinema - o hiato. pela primeira vez, toda a familinha veio perambular por aqui. sempre viemos separados, mas nunca nos faltou vontade de virmos juntos. então, viemos. e aqui nos juntamos com outros amigos. manaMácia chegou segunda. domingo passamos o dia com Marcos, Margarida e Pedro. foi um dia muito bonito. bonito mesmo. falamos bobagens, demos muita risada, vimos a ópera de Pequim no Sesc Mariana, almoçamos no Lelis, um restaurante maravilhoso, com jeito de cantina. e depois bebemos até ficarmos bêbados num barzinho perto da Paulista. 

noite dessas assisti ao filme Antes da meia-noite. E passei vários dias num banzo terrível a cada vez que pensava nele. neste último filme da trilogia de Richart Linklater, senti todo o peso não exatamente do "antes", mas do "depois". Em Antes do anoitecer, eu já havia implicado um pouco com o papel de Celine, personagem da atriz Julie Delpy. Achei à época que a consciência política lhe havia deixado meio chata, com todo aquele papo de militante francesa (pardon!). Mas aí o fim do filme, naquele estúdio parisiense, com aquela música, levou para longe essa implicância. E neste, sem redenção, achei que a passagem do tempo encaminha a mulher para um plano devastador, do qual escapar é quase impossível. como resistir, é o que penso desde lá. como não ser Celine? sim, porque sua inteligência, seu humor, sua ironia, continuam lá, mas ao mesmo tempo não estão. e o que resta não me agradou. e não me agradou justamente porque estas questões têm passado por mim há muito tempo. há muito tempo venho numa batalha para não deixar o cotidiano me engolir. 

e por causa do filme, e porque comentávamos sobre o fato de como as mulheres distribuem "senhas falsas" num início de namoro, tatupai me disse o que já desconfiava há tempos::: que eu continuo tendo as características pelas quais ele se apaixonou, mas... só que mais chata! (sim, sim, tanto eu como o Tatupai praticamos bastante o esporte perigoso da sinceridade). e eu não tive como discordar. pois hoje a vida me tem muito mais peso. há cinco anos, quando nos conhecemos, eu tinha uma carga de responsabilidade muito menor. sei que há aí toda uma discussão de gênero. e aqui falo muito superficialmente apenas das consequências. se eu for me ater às causas, seria inteira Celine. ela está certa. as reivindicações são justas. e por isso me doeu. ser mulher doi.

e por isso estou aqui. hiato. miolo mole. mostra de cinema. amigos. familinha fora de casa. retardar. ou ao menos trapacear com o inevitável.   
*
*
*  

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Noite de Bozo

(postagem muito antiga, de um blog meu que não existe mais. me fez pensar no que ainda sou eu e no que não é mais possível ser. nesta noite em que, insone, preciso dormir).



Chego à casa que não é minha com muito sono; e a insônia vela por mim às três da manhã. No email, lixos eletrônicos e um tanto de palavras. Alguma ausência é sentida, mas as presenças reduzem tudo a algum ponto que logo deixarei para trás. Tem email de editor pedindo o novo endereço. Fico pensando que bom seria se isso fosse comum, mas é só uma publicaçãozinha de nada. Certo, a revista é poderosíssima, cheia de exigências porque passou pelo crivo do céu das publicações – o tal sciello. Mas não passa de uma publicação que quase ninguém lê. É o ramo universitário se alimentando de si mesmo – parasitas, talvez.

Queria dizer tanta coisa – à la Rousseau que se confessava para provar que os outros é que eram uns filhos da puta. Mas eu queria mesmo era ser uma máquina de escrever. Tac tac tac! Eficiência à toda prova: quinze artigos no doutorado; outros tantos no porvir; mas sou assim::: lenta, desastrada, absorta num sem fim de devaneios. Parece bem “muderno” ser assim; estar inserida e ao mesmo tempo rir das bobagens da internet onde todos são leitores, veem filmes “cabeça” e amam “meu pai, minha mãe e meus irmãos”. É que a miudeza é apenas miudeza mesmo::: a mediocridade cotidiana lustrada de frases floreadas da qual não escapo nem sei se quero escapar.

Nesta noite insone, lendo e escrevendo essas miudezas, queria mesmo era ter a barriga das francesas e a bunda das brasileiras; não pensar em publicações nem em nenhum outro fastio pseudointelectual. E, no entanto, por ora me contento com uma cerveja enquanto a insônia me vela. Quando ficar ainda mais velha, desistirei de vez da barriga das francesas e assumirei um ar de intelectual entediada; algo que não sou::: nem intelectual nem entediada. É cada vez mais fácil representar o que não se é. Quando o corpo escapa e restam as palavras escritas tudo é, antes, ficção. Fácil assim::: decorar três ou quatro frases sarcásticas daqueles autores que todos conhecem e nunca leram; falar mal de outros dois que todos amam; e a receita estará pronta para ser degustada em alguma festa em que todos tristemente se assemelham. Afinal, fazer parte da má-fé ordenadamente posta na mesa é o que mantém o fluxo cultural em dia.

Acho que hoje sou Bozo [não o do canal de TV que nunca vi, mas o de Beckett]. Começo desde já a treinar o ar enfastiado que logo mais representarei.
*
*
*

terça-feira, 17 de setembro de 2013

mariana e o futebol na praia

como pode, não é mesmo? eu ia escrever qualquer coisa triste aqui, resultado do acúmulo, do não saber como fazer em algumas situações. aí, mariana escreveu. escreveu tão bonito - algo que ela pensa que partiu de mim, mas que, na verdade, partiu dela. da beleza que transparece no seu jeito inteiro de ser. ela sabe, porque já lhe falei várias vezes. mas não custa repetir::: mariana me devolveu vários sentires - eu que andava tão sem acreditar na possibilidade de uma troca generosa. então, depois de ler o que ela me escreveu, fiquei fazendo conta de alegrias, buscando aqui e ali.

enquanto isso, procurava, de fato, algum livro sobre Brecht, porque eu sabia que tinha um em algum lugar neste espaço que ora chamo de escritório, ora chamo de biblioteca (e desconfio que chamo de escritório porque me envergonho da palavra biblioteca, como se fosse pedante dizer que tenho uma "biblioteca" em casa). e de repente, me entreguei inteira a esta alegria de ter, sim, uma biblioteca pessoal, individual, intransferível, no sentido de que quase tudo que tem aqui diz respeito a mim, só faz sentido a partir desta junção de variados temas que me interessam, dos quais eu sei ou gostaria de saber. o que explicaria um livro sobre teatro, bem aqui?

e depois de encontrar o livro, pensei ainda mais longe e lembrei de um das tardes em que estava em Porto de galinhas neste ano, quando fotografei um jogo de futebol na praia. dia de semana, à tarde, e todos aqueles jovens jogando futebol na praia. tirei várias fotografias, mesmo sem saber ajustar direito o foco. estava nublado e claro que a qualidade não ficou muito boa. não importa. registrei. e é outra alegria, mais uma. 

"obrigada, mariana, por ter me feito estar com um punhado de sentires esta noite. Com a alegria, sobretudo". e lembrar "do gostar do que se faz. Do querer o que se faz. Do se encantar com as coisas". é bonito demais, não? e é dela.

e com o futebol, novamente, à beira do mar:::









 *
*
*

sábado, 14 de setembro de 2013

cenas (ainda) de umas férias I





demorei muito pra chegar até aqui, neste momento de delicadeza. entre minha avó materna e meu filho, vivi muitas Milenas. algumas das quais tenho muito apreço e outras que tenho até mesmo uma certa vergonha. de todo modo, acho bonito este percurso, que indica um sem-fim de mudanças. o que não mudei, todas os dias, bate à porte. mas o que mudei, idem. 


arev é um amor antigo e duradouro. quando nos conhecemos, só havia em nós uma alegria genuína no meio de um grande deserto. éramos quase sozinhas no mundo. mas tínhamos a certeza de um estar no mundo com inteireza. sua risada, seu despudor, sua coragem de lidar com o mundo, me inspiram desde lá. então, sair de uma cidade a outra, 22h, só para poder passar umas três horas com ela (com eles), não é nada, perto do que ela diz para meu coração. 


descobri com certa tristeza que o mundo que a vida toda meu pai habitou não era um mundo de sonhos, como imaginei desde menina. por um longo tempo, reconstituí a minha maneira este lugar, gastando longas horas na criação de outros mundos, sendo neles tudo que eu jamais poderia ser na vida fora dos sonhos. fazia o que eu imaginava que ele fazia. e ao indagar que lugar é este tão cheio de sombras, o que quis arrancar dele foi este sorriso, quase envergonhado, que de algum modo deve lhe dizer como em nós há um amor infindo por ele.



não é pouca coisa o que trago em mim em relação a elas.  é um amor que sabe que é amor. que é todo sentimento. eu conto uma historinha particular sobre o fato de sermos tão unidas. não cabe aqui. sei que somos. sei que de modos diferentes cada uma salvou minha vida em determinado momento. e sei que me amam. e não me venham com história:::: saber-se amada é meio caminho... 
.
.
.
e em tudo está Poeminha. sempre um agradecimento por senti-lo assim, tão amoroso. meu maior desejo é que ele continue aberto a tanto carinho. meu filho vai fazer 04 anos, e desde lá não há um só dia em que eu não bendiga o seu estar no mundo ao meu lado. se ele se fizer assim, amando os que estão ali, amando-o também, já lhe terei dito muito do que eu mesma penso ser o mais bonito acerca da vida.

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

4º silic


De bandeja eu te daria
Se ao meu alcance
O lance da alegria
O presente deste instante.



Os maiores hiatos do "nenhum lugar" têm a ver com completude, com inteireza. Há longos intervalos que, de certo modo, não precisam de registro, pois ficarão em mim de qualquer jeito. Ou do jeito mais bonito para uma desmemoriada como eu: como lampejos. Lampejos de boniteza. 

Foi assim com o 4º Silic - Simpósio de Literatura Contemporânea. Acho bonito como chegamos até aqui - num evento que já não me recordo exatamente como começou. Sei que Rosana teve a ideia, sei que desde o primeiro foi uma lindeza. Sei que a 2ª edição foi super emocionante porque, afinal, eu era ali uma sobrevivente. E o 3º foi o que pode ser chamado de sucesso. Incrivelmente bem pensado. Porém, eu não queria, dessa vez, a mesma competência. Queria de volta o afeto. De volta, o querer fazer. E a alegria da realização. 

Senti uma vontade imensa de reunir pessoas que eu amava de verdade - a quem o Silic dizia respeito. E tenho a sorte de ter amigos muito sabidos - e que por isso compõem a história do Silic. Desde a escolha do tema, que, nesse ano, deve largamente ao pensamento de Marcos::: "as intermitências da crise", ficou bonito. Foi realmente uma grande emoção: Marcos Siscar, Marcio Renato, Marinalva. Binho, Evando Nascimento, Mariana, Rômulo, Dariete, Berenice. E ainda teve Florência Garramuño, que não conhecíamos, mas que conquistou a todos pela generosidade com que aceitou a longa estrada. E teve o sonho de receber Luiz Costa Lima, que ainda que irrealizado tocou o coração de todos nós. Tudo foi uma grande conversa, um sem-fim de risadas e cumplicidade. Pareço descrever um evento acadêmico? pois foi assim, assino. 

Aconteceu, ainda, o 1º Seminário Interno do Gepec, com a presença de professoras convidadas, Walnice e Simone, que foram tão generosas. Aliás, não faltou generosidade. Mergulhamos todos numa rede de afetos. Também no Seminário de Integração houve muito a dizer e muito a ouvir. E o que foi aquela conversa com o Marcos e o Evando, orquestrada por Mariana, Rômulo e Dariete? Que lindeza! E a ansiedade de Tatupai e Neto para vencer a distância de Costa Lima e nós? E a manhã de sábado com tanta gente para ouvir o Binho falar de um livro de literatura contemporânea? E a tarde, muitos ali, com "Linha de passe"? E o discurso de Marcio sobre nós? Como ele pode achar que pode pegar mal, se o seu coração todo estava ali, deixando-nos atordoados de amor? E Marcos falando mais de uma hora e meia com a sua voz de quem sabe tanto sobre o que fala quanto sobre o afeto? E Evando dizendo que havia sido o convite do Silic que o havia inspirado a escrever um texto tão longo? E Celso, todo inteiro a ofertar sua amizade na beleza do seu drama? E todos eles, aqui em casa? Mais de 100 alunos vieram de Guajará-Mirim, Porto Velho e Tangará da Serra, depositando em nós a alegria de uma grande jornada. Digo assim, sem nenhuma vaidade, com o sentimento de quem passou vários dias com o coração na mão, entregando-o a quem o merecesse. As noites aqui em casa foram longas. Um banquete, sempre. Tatupai cuidando de tudo. E Poeminha perambulando todo livre, encantado entre a multidão, com suas mil balas na mão? E os dias, também. Mariamada ficou aqui e tê-la na minha casa pareceu-me de uma beleza incomum e ao mesmo tempo tão natural. É isto: havia um lastro de história e, com isso, um lastro de amor.

Daí porque não posso cair na tentação de descrever um ou outro acontecimento. Foram tantos. E foram todos muito especiais. E ainda assim caio. Se me perguntarem por que insisto tanto na alegria, a resposta está em momentos como este. como este: "eu gosto tanto de você".
*
*

sábado, 10 de agosto de 2013

Na XIV Fenearte

vimos só um pouco da XIV Fenearte, no Centro de Convenções, em Olinda, mas foi suficiente para querer transformarmos nossa casa num grande celeiro do artesanato pernambucano. saí de lá com uma linda colcha de retalhos. retalho mesmos. nada de patchwork forrado com cada quadrado no seu lugar. uma colcha de retalhos como aquelas que cansei de ver na minha infância no Ceará. 

nós = rô, sandra, manaMácia, Tatupai, Dudu. 









sexta-feira, 9 de agosto de 2013

pausa

estava de férias. não foram as minhas férias. não como eu havia planejado. porque, na verdade, eu só havia planejado a Abralic e, depois, ficar na rede na casa da minha irmã Morg, que mora pertinho do mar, mas, desconfio, ver pouco o mar e, menos ainda, sente o seu sal.

não foram as minhas férias, mas foram boas. ainda estão sendo, pois fico em casa mais um pouco de dias. foram boas, mas uma gripe forte e uma inflamação medonha na garganta me perseguem há mais de mês. foram boas, mas continuo pensando nas férias que não vivi. e ao mesmo tempo me é tão estranho querer umas férias para tão-somente deitar na rede. acho que o desejo tem muito a ver com a gripe::: meu corpo pede descanso. faz tempo.

andando na praia, falei pro Tatupai que a cada viagem imagino ao menos umas vinte postagens - e às vezes não escrevo nada ou, no máximo, duas ou três. mas como o sumidouro da memória me leva tudo, sinto vontade de escrever, ainda que por tópicos.

daria uma postagem, nós - Sandra, eu, Dudu, Rô, Tatupai - em Recife, praia de Boa viagem, Sandra olha o mar e chora. e diz o que nós, nordestinos, tanto sabemos como ansiamos::: o mar é lindo, a praia arregaça nosso olhar. e a lágrima vem. ou o sorriso. porque a beleza está posta. é só senti-la.

tenho medo que ele morra com este cigarro. mas só por isso. porque o sinto tão lindo. e tão meu.


e ele mesmo. e ela. o jogo e a contemplação. n o agora estava todo ali. na sua beleza. e na sua escuridão. e isso bastava. sim. 



 e ele. tem nome: amigo.

sábado, 15 de junho de 2013

texto sobre poesia

terminei o texto sobre marcos. noites e noites sobre a palavra de um outro. um outro determinante na minha formação acadêmica e mesmo no modo como tento me colocar no mundo. 

o que aprendi com o marcos só fui processar muitos anos depois. o que aprendi com mariamada também. na época, eu estava muito absorta exercendo meu egoísmo e meu deslumbramento diante das coisas do mundo. acho que nunca vou me arrepender daquela intensidade toda. mas quando olho para trás sinto imensa vontade de dar um passo atrás e me deixar levar pelo braço. o que teria sido meu doutorado se tivesse deixado que marcos e mariamada fossem ainda mais presentes?

acho que é por isso que volta e meia peço para ele ler um texto meu e que agora esteja empolgada com a possibilidade  de desenvolver um trabalho com ela. quando vim para cá perdi todas as pessoas que determinavam a minha vida de uma maneira muito intensa. e também só fui sentir falta disso muito tempo depois. agora, o que me vem são todos esses aprendizados. e amo estas pessoas de um modo ainda mais forte. agora sobreponho a esse sentimento de deslocamento uma vontade ainda mais bonita de estar com eles. e de estar com todos de uma forma ainda mais inteira. ainda que eu me ausente.

só queria registrar isso. que continuo firme. e estou inteira. já fez um ano que, perdida lá em Belém, carregando as dores todas de uma vida dos últimos três anos, ao invés de sucumbir, eu resolvi sair dali, daquele lugar incômodo de desesperança. contou muito a risada do meu amigo Rivero, que me fez recordar quem eu era antes. foi fácil não. mas o que é fácil? e ainda que eles não saibam, foi neles que mirei. mirei naquela manhã remota em que marcos me disse que sabidinha como eu havia muitas e a diferença não estava ali, mas no que eu deveria fazer a partir dessa condição. ninguém nunca me havia dito nada parecido.  talvez só Manamácia, quando eu tinha 15 anos e saía da casa dos meus pais para nunca mais voltar. na época, ela me escreveu dizendo que havia um mundo a enfrentar e que eu o fizesse com coragem. também mirei na mariamada e nas tantas vezes em que ela apostou todas as fichas em mim, mesmo quando egoísta e teimosa eu me recusava a ouvi-la, como se ouvi-la significasse sucumbir a um mando que fugi toda a minha vida. agora sei que tudo isso foram ensinamentos que me levaram ao movimento, ainda que intempestivamente.

será que envelhecer é isso? ver tudo com tanta clareza? minimizar os próprios acertos e maximizar o dos outros?  talvez sim. e se for, estou gostando muito da experiência. 
*
*
(e o título se explica porque o texto que eu fiz é sobre a poesia de marcos).  

quinta-feira, 6 de junho de 2013

cena caseira

como diz o Tatupai, agora temos um filho e uma gata. ela veio. recusou-se a ir embora. e agora, sonolentamente, acompanha meus dias e minhas noites enquanto escrevo.





sábado, 18 de maio de 2013

café



em 2010, viajei para casa. porque estamos sempre voltando para a casa da infância. queria que meu pai visse meu filho, então com alguns meses. e vi. ele andou com meu filho no colo pelas ruas que já não são as mesmas da infância. e são. porque tudo fica. ele lá no colo do meu pai. nesta volta, dolorosamente, vi a cara da morte. e me deu uma tristeza funda. como eu morreria se meu filho estava ali para ser cuidado? quem cuidaria? a vida passa. e o que me consolava era ter vivido. e vivido bem. a dor é tão silenciosa.

nestes quase três anos depois da quasemorte, não prolonguei minha vida como desejei ali, cara a cara com ela. tropeços. mas sinto que nunca faltou amor ao meu Poeminha. nunca. mesmo quando ele me chama "só um pouco", escancarando a falta, sinto que ele sabe que há em mim um amor imenso. que eu sou feliz, como ele diz. e que ele mesmo é feliz. como aprendeu a verbalizar a diferença? eu não sei. sei que pergunta: "mamãe, você está feliz?". e eu respondo. às vezes sim, às vezes não. às vezes. e ele diz: "eu estou feliz". fiiz.

em 2010, sentia mesmo que voltava para casa. que era uma volta diferente das outras. porque pela primeira vez eu tinha uma família. uma familinha. queria mostrar meu filho àqueles que eu amava. entre eles, Arev, a amiga que me ensinou o que é ser amiga. ela está lá e quase nunca nos falamos. mas meu amor por ela é tão presente que chega a doer. sinto que ela sabe tudo de mim, como Mariamada sabe.

então, eles entenderiam esta noite. mariamada, arev, meu pai. meu pai que agora sofre. que agora perdeu o irmão. o irmão que eu fotografei naquela manhã de 2010. fotografei na área da casa da minha mãe. ele que foi lá ver meu filho, o Poeminha. e agora, foi embora, num repente. naquela manhã, tudo ainda existia. meu pai e minha mãe juntos. minha casa da infância. os móveis já outros que sempre odiei e ao mesmo tempo amei. tudo estava ali. registrei a elegância do meu tio lembrando que na infância ia para a casa dele e roubava as bolachas escondidas no armário. e ali eram todos tão bonitos, tão discretos, que nem demonstravam exasperação por uma ladra mirim de bolachas salgadas. eu, que sentia fome de tudo, principalmente daquela paz que parecia existir ali, naquele ermo longe da cidade.

lembro bem. e se agora doi, sei por que. a família do meu pai tem um olhar profundo. olha-nos como quem sabe. como quem diz. não há véus. ou é amor ou é nada. sabem cultivar o silêncio e exasperam todo e qualquer barulho maledicente. os mais antigos, os que estou vendo partir aos poucos, sabem. por isso, a travessia desta noite triste. eu pergunto sem medo e com a cabeça meio tonteada::: você está aí? você me vê? e me vem uma vontade de reafirmar minhas promessas. e de... tio, lembra daquela casa? lembra do corredor estreito? e dela arrastando seus chinelos? e comendo como um passarinho sentada no fogão de lenha? lembra, tio? era nossa vida. e isso ninguém nos rouba. é nosso. está aqui. ainda que agora tudo nos falte.


foi quase ali, como o que fica nos rastros da memória. as cãimbras nas pernas. o rio. a serra. a serra que não escalei. a água represada. as bolachas. os queijos prensados. o terreiro enorme que dava para o rio. as tias dele que se foram bem antes. a casa grande. sua mulher tão bonita. seus filhos tão louros. a manteiga batida na tigela. a minha meninice quase sempre triste. é nossa história. e se hoje, ele nos falta, se ele se foi, ele, o herdeiro do nome do meu avô, este Inácio como o outro também era, o mundo todo parece acabar junto, mas ficará nos seus, em nós. só posso então atravessar esta noite e desejar que seja assim comigo, que eu vá, sem hora marcada. sem a lenta agonia como a daquela doença de sobrinha que certamente assustou o meu tio naquele agosto de 2010. neste agora, o susto é nosso. e eu me pergunto como não trair aqueles que carregavam a beleza do silêncio. e desejo ser uma herdeira à altura de todos aqueles ensinamentos. de saber manter vivo o que sempre reconheci como o que há de melhor no humano. se foram eles que me ensinaram, herdar. por Poeminha, por eles, por mim, por quem eu amo.
.

.


quarta-feira, 8 de maio de 2013

Kevin, ainda quero falar


O que há, precisamente, num filme como Precisamos falar sobre o Kevin (2011), de Lynne Ramsay, que só agora assisti, é uma contenção a que nos acostumamos a amar no cinema. Uma contenção que, ainda assim, está mais no corpo, nos gestos, da mãe. Talvez porque esteja próximo o dia das mães, talvez porque a relação com a minha nunca tenha sido a que eu desejei, senti-me profundamente tocada por esta mãe - a do filme. 

As resenhas que passei o olho pela Internet insistem que o filme faz uma relação muito direta com a inabilidade da mãe em lidar com a personalidade difícil do filho (e isso é quase um eufemismo). Não acho! Há essa inabilidade, há o filho com a personalidade doentia e, ainda assim, há o não-saber. Ainda que por diversas vezes o tempo vá e volte reconstituindo a vida de Kevin, a cena final ainda é que melhor especifica as razões do filme. Quando se pergunta a razão da barbárie, que é o mesmo que perguntar por que foi daquele jeito, e não de outro, Kevin já não sabe responder. As certezas que conduziram ao horror já não estão ali e resta uma reconciliação impossível. 

No fundo, estão todos mortos - sobretudo os vivos - e, por isso, o vermelho tinge a tela. E aí é preciso pensar no cinema como uma estética, mais do que como uma ética. Há o vermelho, mas também o branco.  Há beleza nessa ausência de rastros que só passa a existir depois do tingimento de vermelho. Ou seja, depois da dor. Até mesmo o quarto dos pais que era o único que trazia algo de próprio, do desejo do sujeito, é respingado pelo "antagonista", daí a assepsia dos outros lugares, desde o quarto de Kevin até a cozinha e a sala da enorme casa, que especificam bem a frieza das relações que não se completam: os pais que se amavam veem o amor interrompido pelo filho; a irmã que ama o irmão, que a odeia; a mãe que não chega a amar o filho que a odeia e a comunidade incapaz de compreender aquela mãe - porque ela própria vítima. E não deixa de incomodar este papel da comunidade - como se o horror estivesse mesmo em ter que viver ali, depois da perda de tudo, daí não poder ser diferente o fim - que parece encaminhar para o vazio, ainda que o branco da luz. O oposto do banho coletivo de sangue do início.

...

Fui dormir doída. Sem Poeminha por aqui, que foi para a casa da avó a quilômetros de distância, só me restou uma dor difusa. 
*
 *
*



 

domingo, 7 de abril de 2013

resíduos


muito do que disse na postagem anterior, tem  a ver com os resíduos de inúmeros trabalhos maçantes que acabo agregando por causa dqueles que, na universidade, realmente dão prazer. há algo de perda da inocência. 

e por outro lado, ontem, eu me senti realmente emocionada por não ser o Bartebly - quem entende? pode vir a ser também uma história de frustração (há sempre paredes), mas há um movimento vivo no aprender, no sair da zona confortável da especialização. por isso, sinto uma espécie de embriaguez junto com o desejo de me envolver em mais um mundo. a isso se dá o nome de alegria.

então vale a pena. não é a aridez dos espaços sem afetividade que deve prevalecer. é preciso contar com o "próprio taco" e dar garantias a mim mesma de que não me transformarei naquilo que rejeito. é a isso que tenho procurado dar valor::: um caminho ainda verdadeiro.

porque há caminhos que parecem tão mais poderosos que o meu::: foi o que senti terça-feira ouvindo duas mulheres especializadas em cegos e surdos (sim, são as palavras, segundo elas. aquilo que é). achei bonito. aprendi um tanto de coisas. me emocionei. chorei mesmo. imaginei que há ali uma espécie de gratidão que não é fácil de ser encontrado.

então, ontem, enquanto meus homens dormiam, passei a manhã lendo a autobiografia de Bergman, Lanterna mágica, lançamento da Cosac Naify. Esqueci as tarefas atrasadas, os livros que realmente precisava ler, os filmes a que queria assistir (assisti à noite), a casa que precisava de uma faxina urgente. Ficamos ali, eu e Bergman. Eu leitora, e ele narrador. 

Causa-me um espanto medonho como tanta dor é colocada em suspenso, ou colocada a serviço, para que toda uma obra se faça. Uma obra que há muito tempo é uma das mais importantes para a construção de mim - e por que não? para além de toda a teoria que sustenta a crítica, não é para se espantar que lemos? e junto com o espanto vir algo. indefinível que seja. o indefinível que sustenta, por fim, os longos dias de trabalho enfadonho, como o dia de hoje.
*
*
* a foto não tem a ver com o texto. mas lembrei de belém. do rivero. e deu saudade.

domingo, 31 de março de 2013

das horas

        imagem da bienal de artes de são paulo que eu esqueci o nome do artista
o problema do excesso de trabalho, às vezes, nem é o excesso. é a vontade de não fazer. há sempre um momento em que dá vontade de ser um Bartebly e sair espalhando: "acho melhor não". e essa vontade de não fazer advém da constatação de que toda a vida está girando em torno do trabalho. eu não sei como me meti nessa roubada. eu que sempre fui tão desatenta com as coisas do cotidiano, envolvida num mundo interior que eu julgava tão conturbado quanto bonito, tamanho o excesso de lindezas a que eu me permitia - um pouco todos os dias.

eu levava tão a sério uma vida voltada para a belezuras que fazia listas e mais listas. do que fazia e do que ia fazer em breve, muito breve. as listas persistem, mas não tenho vontade nem mais de atualizá-las. compro livros que não têm a ver com os estudos muito mais por compulsão do que por acreditar que vou lê-los. teimosa, separei uma pilha desses livros e fiz a lista com um título irônico de "lista-deleite" (uma das bobagens que ando precisando saber para poder não morrer de fome), com a esperança de que... O último leitor, de Ricardo Piglia; A filosofia da composição, de Edgar Allan Poe; Andy Warhol, de J. C. Danto. Reparem que nem são livros de literatura. São ensaios que até servem para os estudos, mas que por não se relacionarem diretamente com as mil atividades que caem diariamente sobre a minha cabeça, têm poucas chances de serem lidos, apesar da minha boa vontade de separá-los em pilhas "especiais".

minha vida tem parecido isto: pilhas especiais de desejos não cumpridos: domingo com os dois homens da minha vida, sono de 10 horas seguidas, 3 a 4 filmes por semana, 50 páginas de leitura por dia, alguma viagem (Inhotim continua lá e eu aqui descascando batatas...), parecem não caber mais; assim, coisas que eu fazia bem, tudo muito, como já me disse Mariamada.

agora, eu só cumpro a lista de "Tarefas diárias". e ainda assim, malemale. quando eu vejo, já há muita coisa acumulada: relatório com prazo estourando, monografias a serem lidas, orientações não dadas, emails não respondidos, organização de evento super atrasada, e os anais do Silic anterior. como assim, ainda não foram enviados aos participantes? e a organização da revista, também nem comecei? e já venceu o prazo da revista que enviaria um artigo? venceu hoje? pois é. uma colega de trabalho, com o mesmo acúmulo desumano de trabalho, me disse que estava com medo de virar uma farsa. ou melhor, já estava se sentindo uma, tamanha a falta de tempo para o exercício da reflexão. assino embaixo. houve um tempo em que eu pensava que ser professora universitária era o grande lance para ter tempo  de estudar, ler, pensar. agora, pareço um camelo. 

daí que volta e meia eu me pego pensando em fazer de novo um concurso que me levaria de volta àquele empregodeassinarpontotodososdias, como o que eu tinha há alguns anos e ganhava mais ou menos o que ganho hoje e tinha tempo de passar longas noites de festas e tempo para ler meus livros, e tinha dinheiro para viajar e também para jantar quase toda noite no que eu considerava o restaurante de peixe mais saboroso de Porto Velho. tudo bem que eu era jovem e gastava mesmo só com estas bobagens. não me importavam em nada as espinhas no rosto, o cabelo oleoso na raiz e as roupas compradas nas lojas Marisa. agora, com quase 40 anos, até as espinhas irritam, para não falar sobre as tais gordurinhas que teimam em se apossar no meu outrora corpo magro. Mariamada, que me conhece como ninguém, não leva a sério estes meus resmungos. no telefone, eu reclamo, resmungo, ameaço chorar e, quando menos esperamos, já estamos dando gargalhada e traçando planos para... mais trabalho (!). assim, nem eu posso me levar muito a sério. de todo modo, hei de encontrar um jeito de refazer o meu percurso para poder me livrar de um tanto de tranqueira. 
*
*

segunda-feira, 25 de março de 2013

a aridez


...
Nosso hino canta essa aridez
- um canto cavo e pesado
feito de sopa, cipó e aço
que afoga os cantores

(Nuno Ramos)

cada vez que algo bem pancada acontece, meu primeiro gesto é ficar meio histérica, falando pelos cotovelos, pensando mil vez mais rápido do que a capacidade humana pode suportar. mas meu segundo gesto, que - ainda bem - vem sempre de forma rápida, quase um tiro certeiro na histeria, é embarcar no meu imaginário. ou seja:::: acionar que sou uma pessoa para quem a arte conta.

isso me leva a buscar bem longe de mim as soluções para a incompreensão. com o tempo descobri que a amargura não passa. ando cada vez mais descrente com as pessoas no mundo. cada vez mais uma dúzia e meia de pessoas são as que me protegem. e cada vez é mais difícil acrescentar alguém a esse grupo seleto. sinceramente, não era isto que queria para mim.

não sei se foi o percurso, mas a descrença não me faz querer embrutecer. só assumir que, sim, há muito gente que me são desprezíveis. que me são. mas há a literatura. sempre há. e há a música. e há os filmes. todos esses dramas que, exteriores a mim, devolvem o meu interior.  
*
*
não se pode amar a arte, qualquer que seja ela, sem reconhecer - ainda que de forma parca - a condição humana e tudo que há nela de inapreensível. é como enrolar esta corda::: deixá-la a serviço da próxima ação; isto é, pronta para desenrolar. lembrei agora dos dias em que li Barba ensopada de sangue. foram dias felizes, ainda que tudo que há ali de inapreensível me intrigasse. lembro dos dias que li. e me vem uma vontade de me afastar, como um recomeço que por ora me é interdito
...
...
...

quinta-feira, 21 de março de 2013

estou lendo ana c.

estou lendo Ana C. suas  cartas. fico toda dolorida. como é que não teve forças para envelhecer? um pouquinho mais de - coragem?. sei que fico com dor no peito. uma intimidade quase ultrajante. é isso ler cartas, não? invadir a privacidade do outro. ainda que o outro não se desfaça do estilo, como ela confessa - culpada - diversas vezes.

na semana, vi Cesar deve morrer, dos irmãos Taviani, enquanto dormitava. quem sou? tem algo dessa pergunta em todo Shakespeare. e é o que possibilita toda a entrega dos presidiários no filme. ser outros. ser. é tudo tão contido que custo a acreditar que não há ali atores - o traço limítrofe da especialização, da profissionalização. me deu vontade de querer outra coisa. e desde lá, uma frase não sai de mim: "falta tempo para sermos o que queremos ser".

onde estará aquela moça em frente à janela com cortinas de tecido cru? sinto falta dela, ainda que agora as portas sejam amarelas. 
*
*
*

quinta-feira, 7 de março de 2013

filminhos

assisti a muitos dos filmes que concorreram ao oscar. se as leituras continuam aquém do desejado, deixando-me sempre aflita com essa demora, com o tempo encolhido, ver filmes tem sido um modo de recuperar uma vida que roubei de mim, envolvida entre tantas tarefas.

e ao ver os filmes oscarizados, com esse peso do que é muito importante, instantaneamente recuperado, fez com que eu fosse mais crítica do que geralmente sou. ou antes:::: por um lado, empolgação por estar me dando este tempo, por outro, uma certa decepção diante dos "resultados". não sei bem definir.

não há do que duvidar que Amor, de Michael Haneke, é um filme dolorido, que provoca uma espécie de horror que só a dor pode causar . há ali uma incrível coragem de mostrar a inevitabilidade do tempo que passa. como se. como se não importasse o quão interessante possamos ser, próximo do fim, se ele não chega de modo inesperado, seremos sempre um fardo. Amor só não me impressionou mais do que A fita branca, do mesmo diretor, que também assisti agora. Assisti também a Tempos de lobo e, embora tenha gostado bem mais do que Lilian e Rô que viram comigo, o certo é que Amor é muito mais impactante do que essa fábula dos fins do tempo que é Tempos de lobo. Dentre todos, Amor é o que deveria ter ganhado a estatueta de melhor filme. E é um filme que depura toda a disposição para o segredo de Haneke.

e eu gostei muito de Argo. O suspense, a tensão, o manter teso o "arco da promessa" é uma grande qualidade do filme. mas ainda agora me pergunto o que o fez ganhar todos os outros grandes prêmios que culminaram no prêmio de melhor filme. e teimo em pensar que, apesar de ter o dom de manter a atenção em alta, não, não é um filme excepcional, não é o "melhor", mesmo que não haja um outro para ocupar o lugar. não entre os que constavam na lista como "oscarizáveis". fiquei com a impressão que é gesto desesperado de hollywood para nos fazer crer na perspicácia e na eficiência da inteligentsia americana. e por outro lado, se pensarmos cinema como entretenimento, sim, talvez.

e lincoln. ah, gostei. inclusive do escuro. e do tédio. sim, é um filme que entedia. se era para lincoln ser o grande homem carismático, ficou mais a imagem de um homem que entende da dor. e entre argo e lincoln para melhor filme, eu teria escolhido o último. acho que há também aí uma espécie de revolta:::: a cada vez que spielberg faz um filme "sério", há um levante contra, como se ele não pudesse fazê-lo. e isso me cansa.


alguns filmes não entendi porque estavam lá. O que é A indomável sonhadora e mesmo O lado bom da vida, como oscarizáveis? bem, a própria academia já deu a resposta, ignorando-os quase que solenemente, embora tenha dado o oscar de melhor atriz para Jennifer Lawrence. O roteiro de O lado bom da vida parece ser um daqueles de sessão da tarde, só que com mais drama. O desajustado que se recupera porque encontra o amor de sua vida (que lhe mostra como a vida pode ser bonita quando se tem um objetivo "bonitinho") é um enredo "universal". Nesse sentido, As vantagem de ser invisível é muito mais interessante, porque trabalha com as mesmas estereotipia do gênero e coloca ali um dado totalmente surpreendente. E A indomável? Gosto muito da estranheza, mas quando fica parecendo muito over, sem um objetivo claro, me incomoda. 

e ainda teve Os miseráveis, Django livre (Tarantino é uma história de amor antiga)... E outros filmes antigos, não tão antigos. safra realmente boa. 

mas se pareço rabugenta, não é que eu não goste da ideia do Oscar, ou de premiações. pode parecer fora de moda, mas eu não sou daquelas que discorda da força dos especialistas, dos críticos. em tudo há um filtro, uma perspectiva. a perspectiva do Oscar é clara = a de legitimar o que é feito no solo norte-americano e, mais ainda, em Hollywood, com a força do que isso significa. o que me incomoda mesmo é essa indecisão, que advém fatalmente da obrigatoriedade de se adequar aos novos tempos. ficar pondo filme com jeito de "independente", mas já mostrando de cara o que de independente pode entrar, não vai apagar os traços conservadores dessa instituição. e convenhamos::: algumas instituições só têm graça, se é que têm, porque são o que são.

afora a isso, que prazer assistir a filmes, nem que não possa ser mais no silêncio - Poeminha está sempre por ali a demandar algum tipo de atenção. E há as amigas que vêm, os horários que não batem, a vontade de ver mais. 
 
é bom ainda assim. ou porque é  assim. ponto.