5 mulheres para acompanhar os passos:
Há 10 anos
Fotinha: eu e as meninas by amado.
A idéia de restos me fascina. Esta aposta de Muniz no insignificante é o que me levou a sua exposição no Paço das Artes (no ano passado). Não há nenhuma singeleza na brincadeira maldosa de usar entulhos, restos de objetos industrializados, para refazer obras de arte. Assim como não havia singeleza nas suas celebridades de chocolate e açúcar. O Narciso de Caravaggio me chama a atenção mais do que todos. Talvez porque eu tenha visto o “próprio” em Roma e vejo-o ali destronado de sua “propriedade”, refeito de parafusos e latarias, mas mantendo intacta a sua beleza. As intervenções em grandes descampados de minas de ferro parecem reter um sentido mais político, mas talvez a decisão de não perder a ironia faça com que os objetos escavados e depois retratados à longa distância, do alto, sejam também insignificantes, desprovidos de simbologia (a chave, o dado, a colher...). Vik Muniz brinca com nossa obssessão pela imagem. Ou com a sua? E gosto muito disso.
Sem ter visto as performances ao vivo de Yoko, perambulo pelas salas do CCBB para ver a exposição. Embora adore o espaço, sempre certa estranheza de obras expostas em corredores, como se não estivessem no local apropriado. Xícaras quebradas em uma enorme mesa; pregos em pequenos quadros, quadros borrados de tinta, objetos pintados de sangue, objetos para conter água::: esse sentido de coletividade parece muito bonito na arte de Yoko Ono, me comove, mas não me convence. Comove porque me faz pensar em um tempo que não vivi: a geração paz e amor. Apenas uma sala realmente me faz pensar em arte. Aquela em que os objetos estão partidos ao meio. Gosto também das perfomances que vejo em vídeos, sobretudo a que ela, quase impassível, expõe seu corpo à tesoura.
Difícil não se encantar com este fotógrafo. As perfomances fotografadas – ou as fotografias-performances – têm sempre um objeto que faz o olho parar exatamente ali: nos pneus, nos pães, nos enormes sapatos etc. O fotógrafo parece querer direcionar nosso olhar através do grotesco das situações. No entanto, algo escapa do sentido o tempo inteiro, embora eu não saiba exatamente o quê. Serão os rostos infindamente tristes, de uma beleza melancólica? Sei que não é a relação com a sua mãe nem a repetição das pessoas nas fotografias. Há uma textura íntima nas muitas fotos espalhados no primeiro subsolo do Masp, mas essa intimidade é suavizada pelas cores berrantes; me leva novamente à imagem, ao exagero. Talvez seja isso que escapa. Na relação gosto/não gosto; gostei muito. As meninas!
Adriane Hernandez está expondo em Porto Alegre. Adri é minha amiga desde que me apaixonei por ela assim que a vi. Tirei-a do meu baú de memória. Quando preciso pensar em delicadeza, sentir a delicadeza, imagino o azul da Adriane. Imagino Adri nuazinha em pêlo envolta em um papel quase transparente de tão azul. Será que havia uma instalação com ela assim na abertura da exposição? Adri tem um sorriso tão tímido que fica difícil imaginá-la com seus pêlos apenas sugeridos no meio de uma galeria. Talvez ela tenha se entregue apenas ao olhar amoroso do fotógrafo. O que vejo mesmo é um guarda-chuva sendo banhado por migalhas de chuvas azuis. E me vem de imeditato a chuva torrencial que nos pegou num fim de tarde já distante. A arte da Adri é assim: arte da memória do azul. É o inabitado que nos persegue nos momentos de delicadeza e também nos momentos de fúria; mas uma fúria que imediatamente se arrebenta diante de uma memória ainda mais forte, ainda mais aguda; aquela que esquecemos de trazer até nós quando perdemos o prumo. Adri me emociona em tudo. As migalhas que ela insiste em espalhar pelos lugares mais inesperados são como o prolongamento da sua voz, do seu corpo, do seu cheiro. Adri cheira. Adri sente. Adri é. Sua arte diz tudo isso. E sempre algo mais, tamanha a força de sugerir, de tocar no lugar mais bem escondido como se as coisas ganhassem um corpo. Ainda coisas, mas já outra coisa.
Nestes dias, vi dois filmes sobre Goya. Os dois, belíssimos. Impressionante como dois filmes tão diferentes conseguem dizer tanto de um homem – ou do imaginário que cerca este homem. O primeiro dispensa apresentação: Goya, de Carlos Saura, saído em 2001. Um Goya velho, de 82 anos, confessa para a filha os acontecimentos da sua vida. Conta as perdas e os erros da juventude sem, no entanto, se lamentar de fato. Para mostrar o homem dividido, Saura escolhe uma luz muito próxima da dos quadros de Goya, sobretudo as da sua fase negra. As primeiras cenas são de tirar o fôlego; e o que se segue é uma belíssima mostra de como Saura entremeia imagens e sons para fazer o espectador se sentir na própria obra de Goya. Por vezes o cenário é quase um teatro com sua luz vermelha; um ambiente onírico que nos leva à angustia da rememoração com delicadeza no que ela tem de brutalidade.
Comprei agenda nova. Ou melhor; o refil. A capa de couro já me acompanha há 4 anos. Me danei a pensar que ano novo é também assim::: traz a capa do ano anterior. Os sonhos, as promessas, os medos, os desejos vêm todos juntos na virada. Por mim, eu quero fazer mil promessas e desfazer uma a uma em seguida para refazê-las logo depois. De tudo que sei é que 2008 será ano de ganhar maioridade outra vez. Vou sair à revelia do hiato de 4 anos que tem sido o doutorado (fiz questão de ser por inteira aluna, completamente alheia ao tempo do trabalho. Em nenhum momento fui operário-padrão; tão-somente estudante nos meus horários noturnos; como este que agora escrevo). Daí que nesta mudança de agenda tem friozinho na barriga, mas tem uma crença infinda no porvir (não no futuro, que é certo; mas no porvir que é incerto e se faz na tessidura dos dias). Talvez dê certo como tem dado até agora; talvez haja curvas mesmo dando certo. Talvez eu faça uma viagem. Talvez eu fique por aqui mesmo. Talvez eu cresça. Talvez quem sabe seja esta a palavra::: talvez. (Olho minha capa mais uma vez e folheio os dias em branco do refil. Escrevo uma frase que pertence apenas a mim no dia 2 de janeiro, antes mesmo que ele exista. Escrevo com uma confiança duvidosa no porvir. Chegarei até ele?).