sexta-feira, 28 de março de 2008

Terminei a tese!

Terminei a tese. Enviei-a ontem pelo correio aos professores que estarão na banca de defesa daqui a um mês. Simples assim! Quando se escreve uma tese parece que esta palavra nunca vai chegar: “terminei”. De fato, ao menos para mim, chegou à revelia. Eu queria continuar escrevendo. Ainda tanto a dizer e... tanto a ler para poder dizer. Hoje, ainda muito cansada, veio-me a lembrança de tudo. Quando disse que esta tese me deu muito, não estava brincando. Creio que vivi, nos últimos quatro anos, os mais felizes da minha vida. E olha que não acho que minha vida tem sido ruim há pelo menos dez anos! Nada do que eu poderia ter hoje devido ao meu emprego – que me pagava quase três vezes mais do que ganho com a bolsa de doutorado – poderia se comparar a todas as experiências que me dei durante este tempo. Eu sinto como se tivesse sido um grande mergulho em tudo que me espanta, me comove, me leva adiante, me tira do comezinho da vida. Não apenas o ano em Paris, nem as tarde na Biblioteca Nacional Miterrand, mas o tempo em Rio Preto, onde conheci pessoas maravilhosas, o tempo em Campinas onde vi milhares de filmes, o tempo em Sampa onde vive o amado e agora vivemos. Dei-me o direito de vivenciar tudo que apenas pressentia – as peças de teatro (minhas longas incursões ao subúrbio de Paris para acompanhar o Ano Beckett; os muitos shows, teatro, dança de Sampa). Se pudesse, viveria estes quatro anos por todo o resto da minha vida... E, no entanto, sei que a vida tem que continuar, ir mais adiante, avante. Estou pronta, como sempre estive para a vida!

quinta-feira, 20 de março de 2008

Ultima semana de tese

(considerem que meu computa francês não possui alguns acentos)

Estou na minha ultima semana de tese. Imaginem uma "moça" sentada dia e noite tentando alcançar o que não alcançou em quatro anos. Pode parecer dolorido, mas não o é. Não para mim. Tem algo de dionisiaco nos meus gestos - uma alegria irresponsavel por tudo que esta tese me deu. Eu acho que ganhei muito. Muito mais do que estou sendo capaz de transformar em escrita. O que eu penso mesmo da minha vida é que a cada dia tenho aprendido a vivê-la melhor, cumprindo a minha promessa feita ha tantos anos. Hoje, enquanto carregava a minha impressora pesada no metrô porque ela resolveu não funcionar mais, fiquei pensando que o fato de eu me autodenominar "não mais cristã", advenha do fato que me recuso a sentir culpas. Recuso-me a todas estas leis cristãs que nos dizem tão descaradamente que devemos padecer aqui na terra; Eu não quero padecer, porque tenho ca pra mim que todo padecimento - dadas as boas condições em que vivo - seriam meros muxoxos que so serviriam para alimentar meu ego que se julgaria preocupado com o que os "simples mortais" não se preocupam. Eu me preocupo bastante, eu choro bastante, eu devaneio muito, eu me enfezo mais do que percebem normalmente, mas trago em mim um profundo amor pelo insignificante, pelo contentamento, pela euforia. Eu faço questão de não me levar a sério - e acho muito chatas as pessoas que se levam totalmente a sério. Tenho fascinio pelos loucos, pelos degredados filhos de Eva... Sou capaz de morrer defendendo quem não tem nenhuma razão. O que gosto mesmo é de ver a loucura transbordando nas palavras, nos gestos, nos minimos rumores, nos maximos humores; e é por isso que escrevo minha tese sobre Derrida. Não vou falar aqui de Derrida - do não lido e do não compreendido Derrida. Vou dizer apenas que o adoro - inclusive o que não entendo. O que me fascina é minha aventura pessoal por isto que não é de todo compreensivel. Odeio textos faceis demais, que não mexem com meus brios, que não me deixam nervosamente enfeitiçada! Se me pedirem uma unica razão porque faço o que faço, direi: porque nunca soube onde isso iria dar. E ainda agora não sei.

segunda-feira, 17 de março de 2008

recordações de chuva


amo o cheiro da chuva. e o barulho da chuva que agora ouço na janela à falta de um teto. sinto o cheiro da infância quando esperávamos por ela. meu pai mais do que eu. porque rara, a visão de muita água escorrendo é uma das poucas alegrias daquele tempo. tantos relâmpagos, tantos trovões ecoam daquela época. e sinto também em mim a chuva da tempestade; o vento zumbindo enquanto uma proteção grotesca impede que corpos se molhem. era tudo tão quente... os pássaros voavam na chuva. nenhuma chuva foi tão linda como esta em que os pássaros corriam e eu corria tentando alcançar seus vôos. pessoas também correm da chuva na praça da Comédie Française enquanto mastigo despreocupadamente um sanduíche. depois as fotografo e guardo a moça levantando a saia. lembro da lágrima no metrô que protege da chuva, mas não do frio. penso também em mim subindo o elevador transparente do Rainha Sofia enquanto vejo o moço parado sem medo da chuva. tantas lágrimas me molharam naquelas noites. vejo as ruas todas molhadas e meu guarda-chuva voando em direção a um carro. um homem sorri sem graça enquanto eu caio na gargalhada e deixo meus poucos cabelos se molharem. protagonizaria ali uma dança na chuva se o guarda-chuva não tivesse voado para longe. prego meu nariz na vidraça e deixo-o por lá. quero guardar também esta lembrança. do meu nariz pregado na vidraça e da lágrima de alguma saudade já passada. é tudo tão morno nas minhas lembranças de chuva. tantos pingos na vidraça. lembro do poema de um amigo. assim como lembrarei desta chuva que agora vejo.

terça-feira, 4 de março de 2008

Mari dôtora e Ana fêssora


Dias de alegria vinda dos outros. Alegria tamanha.

Mari defendeu o doutorado. Agora é doutora em Lingüística. Lagrimazinhas de emoção vieram fácil. Mari protagoniza sonhos como uma formiguinha; escava aqui e ali sempre com presteza, sempre com certeza que o caminho é este. Deve ter sido um dos momentos mais felizes da vida dela, senão o mais feliz. Eu e ela somos amigas há mais de 14 anos. Fizemos o curso de Letras juntas – e depois seguimos trilhando sonhos mundo afora. Viemos parar aqui em Sampa. Mestrado; doutorado, Paris, Sampa; cada uma na sua área. Somos a prova viva que a Lingüística e a Literatura podem se dar bem! E que as diferenças podem se amar (e brigarem muito tamém!).

E minha flor Ana agora é professora da USP. A danada chegou lá, de onde nunca saiu, porque já estudava lá. Eu fiquei numa alegria daquelas. Eu e Ana nos conhecemos em Paris. Morávamos no mesmo andar da Casa do Brasil – e ela foi a primeira a me dar dicas (valiosíssimas) de sobrevivência. Ela tem um astral incrível, sorriso largo e o “mili” mais gostoso que já ouvi. E tem algo nela muito parecido comigo: ela é dengosa. Tenho sempre a impressão que gostamos de nos ver porque fazemos muito dengo uma na outra como duas crianças felizes de terem se encontrado.

Parabéns para as duas (que não lêem este blog porque acham que é coisa de gente desocupada - e narcisista!!)

Fotinha: eu e as meninas by amado.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

O que farei na vida depois da tese...

Todos os dias imagino o que farei depois da tese. Porque vivo intensamente o momento de agora, não quero cair naquele palavreado de “vazio depois da tese”. Tenho mil planos (que se parecem com aquelas promessas de início de ano). Quando entreguei a dissertação, eu fui para o Ceará atrás de meu passado. Queria expurgar alguns gritos insanos. Consegui em partes e vivi dias felizes. A defesa de dissertação era o que menos pensava naquela época. O que ansiava era um acerto de contas com o futuro. Talvez agora vá ser um pouco diferente, mas se me conheço bem vou curtir os dias que antecedem vendo bons filmes, lendo bons livros, inventando uma nova vida.

Planos insano-intelectualóides::::

** Assistir aos mais de 60 filmes que comprei em Paris. Estão todos esperando a Milena pós-tese, como se fosse uma entidade sobrenatural...

*** Ler nesta ordem ou na que mandar o desejo:
* Ulisses, de Joyce;
** Em busca do tempo perdido, de Proust (terminar, pq estou no terceiro volume);
*** Obras escolhidas, de Artaud (tb terminar, porque já li alguns);
**** ... ai ai! Tenho tantos livros para ler! Quero ler uns dez romances antes de qualquer outra coisa. Dos mais fininhos aos mais grossos! Fazer um passeio pelos meus desejos de leitura.

E ler bastante literatura brasileira. Misturar com alguns livros de crítica também brasileira. Outra lista enorme. Os livros que fui colhendo lá no blog do Halem ajudaram a compor esta lista esdrúxula que irei revelando na medida em que for lendo, assim espero! E ainda tem os livros das conversas com a Denise, com o Marcio... Lerei Nelson Rodrigues que o menino sabido de teatro de indicou. E lerei cinco livros da Clarice para me apaixonar outra vez por ela. E aqueles antigos, bem antigos!

E ainda tem a música::: quero pôr os pés para cima e ouvir, ouvir e ouvir.

Vazio de tese? Imagina: a vida está preenchida com novos sempre antigos desejos. Abarrotada.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Casa em preto em branco

Gosto da casa tanto quanto gosto das viagens. E, na verdade, este amor nasceu com as viagens. Jamais gostei de comprar “utilidades domésticas”; foi viajando que me deu vontade de trazer partes das viagens e colocá-las perto de mim. E depois me apeguei também às utilidades. Gosto dos armários com jeito de casa antiga. Da louça branca e da garrafa amarela. Das estantes rústicas e da cadeira rosa entre as pretas. Também os livros e os cds me ajudaram a amar a casa; a fazê-la uma guardiã dos meus afetos, dos meus gostos, das minhas obsessões. Amo a solidão da casa. Um dia morarei em uma sem telefone. E terei tamboretes como os da minha infância. Gosto das coisas simples e também das mais modernosas. Totalmente démodé. E totalmente à vontade. Gosto da casa mesmo sem ter uma casa. E gosto também da idéia de abandoná-la.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Bobices sobre exposições

Vik Muniz no Paço das Artes

A idéia de restos me fascina. Esta aposta de Muniz no insignificante é o que me levou a sua exposição no Paço das Artes (no ano passado). Não há nenhuma singeleza na brincadeira maldosa de usar entulhos, restos de objetos industrializados, para refazer obras de arte. Assim como não havia singeleza nas suas celebridades de chocolate e açúcar. O Narciso de Caravaggio me chama a atenção mais do que todos. Talvez porque eu tenha visto o “próprio” em Roma e vejo-o ali destronado de sua “propriedade”, refeito de parafusos e latarias, mas mantendo intacta a sua beleza. As intervenções em grandes descampados de minas de ferro parecem reter um sentido mais político, mas talvez a decisão de não perder a ironia faça com que os objetos escavados e depois retratados à longa distância, do alto, sejam também insignificantes, desprovidos de simbologia (a chave, o dado, a colher...). Vik Muniz brinca com nossa obssessão pela imagem. Ou com a sua? E gosto muito disso.

Yoko Ono no CCBB

Sem ter visto as performances ao vivo de Yoko, perambulo pelas salas do CCBB para ver a exposição. Embora adore o espaço, sempre certa estranheza de obras expostas em corredores, como se não estivessem no local apropriado. Xícaras quebradas em uma enorme mesa; pregos em pequenos quadros, quadros borrados de tinta, objetos pintados de sangue, objetos para conter água::: esse sentido de coletividade parece muito bonito na arte de Yoko Ono, me comove, mas não me convence. Comove porque me faz pensar em um tempo que não vivi: a geração paz e amor. Apenas uma sala realmente me faz pensar em arte. Aquela em que os objetos estão partidos ao meio. Gosto também das perfomances que vejo em vídeos, sobretudo a que ela, quase impassível, expõe seu corpo à tesoura.

Tatsumi Orimoto no Masp

Difícil não se encantar com este fotógrafo. As perfomances fotografadas – ou as fotografias-performances – têm sempre um objeto que faz o olho parar exatamente ali: nos pneus, nos pães, nos enormes sapatos etc. O fotógrafo parece querer direcionar nosso olhar através do grotesco das situações. No entanto, algo escapa do sentido o tempo inteiro, embora eu não saiba exatamente o quê. Serão os rostos infindamente tristes, de uma beleza melancólica? Sei que não é a relação com a sua mãe nem a repetição das pessoas nas fotografias. Há uma textura íntima nas muitas fotos espalhados no primeiro subsolo do Masp, mas essa intimidade é suavizada pelas cores berrantes; me leva novamente à imagem, ao exagero. Talvez seja isso que escapa. Na relação gosto/não gosto; gostei muito.


Beatriz Milhazes na Galeria Villaça

Nada a dizer diante dos quadros coloridos de Beatriz. Fácil fazer referências e apontar filiações ao tropicalismo, a uma arte genuinamente brasileira e, no entanto, nada que me comova realmente. A parafernália de cores vivas me parece muito bem colocada, como num encaixe que nada está fora do lugar. Serve para papel de parede de algum louco psicodélico (e talvez eu assim pense porque vi sua enorme colagem mal colada na Tate Gallery de Londres). Serve também para cd – aliás um dos últimos da Marisa Monte traz um dos seus trabalhos. Nada contra isso. Ernesto Netto fez a cenografia de um show da Marisa e eu acho-o simplesmente soberbo. Talvez seja resquício de uma visão romântica de arte: sinto um certo incômodo diante de obra tão “alegre”, como se nenhuma dor a trespassasse. Tudo muito pop, como a ignorância descolada de quem observa. Qualquer um reconhece um quadro de Beatriz. Isto também não deveria ser problema. Qualquer um reconhece Van Gogh. E mesmo assim, é o que talvez me incomoda. Este reconhecimento sem conhecimento.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Porto de galinhas “sérpia”*

Uma das minhas paixões é a fotografia. Muito antes da câmera digital, eu já tirava fotos às toneladas. Agora ficou mais fácil. Espero que em breve eu possa comprar uma máquina super poderosa. Enquanto não posso, busco instantâneos com a minha “pé-duro”.

Porto de Galinhas, perto de Recife, é uma das praias mais bonitas que já fui. Embora tivesse muita gente por conta do feriado, o impacto da beleza tira o fôlego. O azul e o verde do mar entre as ondas calmas arrombam um pouco a retina, como diz o Chico Buarque do Rio de Janeiro. Experimentei olhá-la através de outra cor, como a monocromia de uma saudade que adivinhamos sentir antes mesmo de partirmos.

* v. postagem anterior com fotos do carnaval do Recife e Olinda



















sábado, 9 de fevereiro de 2008

Carnaval em Recife e Olinda

Fui bem ali realizar um sonho. Mais um. Fiquei de 28 de janeiro a 06 de fevereiro em Recife, com rápida passagem por João Pessoa. Sempre imaginei ir ao carnaval do Recife mais do que ao de Salvador ou do Rio de Janeiro. O slogan de Recife é algo como “Aqui o carnaval é para todos”. Mesmo que os analistas chatos de plantão possam provar o contrário, o certo é que o carnaval de lá é muito, muito poderoso. Pensava nisso o tempo todo: de como a simbologia reina entre a alegria. Fui com Marie, meu anjo ruivo, e a Nath, que agora estão no Brasil. Fui porque tinha prometido a Marie. Queria fazer parte da viagem delas nem que fosse por pouco tempo. Alberto e Cyane, que nos hospedaram na “ilha das cobras”, mereciam toda uma conversa ao pé do ouvido. É certo que eles vão aparecer por aqui ainda. Ele, porque é um escritor incrível. E ela porque é uma artista plástica de arregalar os olhos. Ambos, porque gosto demais. Ficar na casa deles entre livros, obras de arte e muita gentileza me fez sentir a alegria imensa das redes de carinho que vamos construindo ao redor e pouco a pouco de uma maneira misteriosa e bela.

E por mais que desde ontem pense sobre o que contar, o que priorizar, não encontro palavras. A alegria também é indizível. Contar um sonho é sempre sem graça. A simbologia pertence apenas a quem a vivencia, a quem sonha. Deixo então algumas fotos para suprir a falta de jeito com as palavras, mesmo que agora até as fotos me pareçam pálidas diante do que vivenciei.



As meninas!

As serpentinas em Recife

Os bonecos de Olinda
















O frevo de Silvério Pessoa e as ladeiras de Olinda


A moça no frevo


O velho no maracatu















A beleza de Fernando Anitelli e as ruas de Olinda














As gentes nas ruas e as meninas também!

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Título: Os logros da autobiografia


Minha tese, ao invés de introdução, tem um preâmbulo. O que dá no mesmo. é apenas uma questão de nomenclatura e também de filiação. Também não tem conclusão. Tem um etc.. Aqui, além de filiação, é para ser coerente. Muito ainda a dizer no que disse ou consegui dizer. É com ela que passo as noites, ora com espanto, ora com assombro, ora com fadiga. O primeiro parágrafo é este:

“Gostaria de começar com uma vírgula, se fosse possível. Ou com algumas expressões entre aspas, em itálico. Ou com travessões, reticências. E não seria por uma questão de estilo, na tentativa de marcar o pertencimento da minha escrita já em contato com a escrita do outro, mas para marcar a hesitação própria da escrita; que deveria ser a de toda escrita. Se não fosse difícil fazer um estilo, dizer o que é um estilo, começaria com uma vírgula. Assim como, a exemplo de Antonin Artaud, terminarei com um etc.. Seja o etc. de Artaud, seja o de Derrida, ou mesmo o «viver é etc.», de Guimarães Rosa. Se assim começasse, se assim seguisse a trilha, diriam que evidencio um estilo”.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Exposição A toalha de mesa, de Adriane Hernandez

Adriane Hernandez está expondo em Porto Alegre. Adri é minha amiga desde que me apaixonei por ela assim que a vi. Tirei-a do meu baú de memória. Quando preciso pensar em delicadeza, sentir a delicadeza, imagino o azul da Adriane. Imagino Adri nuazinha em pêlo envolta em um papel quase transparente de tão azul. Será que havia uma instalação com ela assim na abertura da exposição? Adri tem um sorriso tão tímido que fica difícil imaginá-la com seus pêlos apenas sugeridos no meio de uma galeria. Talvez ela tenha se entregue apenas ao olhar amoroso do fotógrafo. O que vejo mesmo é um guarda-chuva sendo banhado por migalhas de chuvas azuis. E me vem de imeditato a chuva torrencial que nos pegou num fim de tarde já distante. A arte da Adri é assim: arte da memória do azul. É o inabitado que nos persegue nos momentos de delicadeza e também nos momentos de fúria; mas uma fúria que imediatamente se arrebenta diante de uma memória ainda mais forte, ainda mais aguda; aquela que esquecemos de trazer até nós quando perdemos o prumo. Adri me emociona em tudo. As migalhas que ela insiste em espalhar pelos lugares mais inesperados são como o prolongamento da sua voz, do seu corpo, do seu cheiro. Adri cheira. Adri sente. Adri é. Sua arte diz tudo isso. E sempre algo mais, tamanha a força de sugerir, de tocar no lugar mais bem escondido como se as coisas ganhassem um corpo. Ainda coisas, mas já outra coisa.



Exposição A toalha de mesa
Onde: Galeria Iberê Camargo do Centro Cultural Usina do Gasômetro, em Porto Alegre, de
11 de janeiro a 03 de fevereiro, de terça a domingo, das 15 às 19 horas.

* Já tinha escrito outro texto sobre a Adriane quando ela me deixou órfã em Paris. Este daí debaixo.

** As fotos são da divulgação.

Álbum de memória - Adriane Hernandez

Segunda-feira, 2 de outubro de 2006

Adriane foi embora num fim de dia chuvoso e triste = azul quase cinza. Eu triste pra cacete. As coisas acontecendo e eu já sentindo a sua falta. A chuva é fria em Paris. Eu, ela e Mari correndo na chuva sentimos isso. Sem abrigo por perto. Subimos na torre Eiffel horas antes de ela partir. Dri tem medo de altura. Suas pinturas são azuis. Seus objetos também. O pão é "amarelo queimado" como todo pão. E branco por dentro. Por duas vezes, vi-os pela tela: ela a me dizer. Prateleiras com mãos humanas entre pães = as mãos da sua mãe. Massa de pão parecendo nuvem carregada de água "mas tem peso". Telas (gigantes, ela me diz) de banheiros meio disformes = o azul se apossando dela como imperativo. E não deve ser difícil uma arte do azul? Picasso, na sua fase azul, é de uma tristeza de escorrer lágrima. O quadro do Soutine que mais me abisma é azul e "amarelo queimado" no centro. Le poulet plumé. O azul da Dri é delicado. Não me parece de dor, a não ser aqui e ali. É uma memória do azul = associações que nos leva a outros objetos, outros tempos. A toalha da mesa que não pode ser separada do pão = a vida nos pequenos gestos [comer pão na mesa preparada para o café da manhã]. Quando vivi isso mesmo? É aí que habita a dor da obra da Dri. Em quem olha. Vestígios do que não se tem ou se viveu ou se perdeu ou se guardou. Indícios, ela me diz. E tem o corpo, isto que sente. Dri embrulhada em papel de pão. O corpo amarelo, como todo corpo, dentro do papel de pão. A sensualidade do pão, o horizonte no pão, o pão onde não se imagina. Este inesperado da delicadeza das pequenas coisas é o que mais me encanta na Dri artista, amiga, pessoa, gente, mulher. Azul e branco sobre azul e branco nas mãos de luva. A mão amarela escondida pela luva azul e branco em cima da toalha de mesa azul e branco. Quadrados. Migalhas. Momentos tomando conta. Me vêm agora estes lampejos, estas frases sem sentido. Sou um azul de saudade num dia branco nesta cidade cinza.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Historinha de água


Peixe ainda na água. Antes de pular do aquário e morrer no ladrilho amarelo. Acoplei-me como há tempos. À falta de cerveja hermeticamente gelada, iogurte desnatado. Consola a voz de samba e também o velho retrato acima da minha cabeça. Sorrio para mim mesma. Uma mão sorridente agarra meu peito e sussurra loucuras doces. O quadro da loucura seria o da boneca queimada de Farnese ou o rosto disforme de Bacon? Questões sempre amargas. De todo modo, não é qualquer samba. É a voz de Teresa Cristina cantando outro velho sambista tranvestido de galã. Sempre achei que Chico com seu sorriso tímido cabia perfeitamente como herói das noites insones. Pelo menos vivi um dia de vício para agüentar a lentidão dos outros. Nunca a vida passou tão rápida. Sinto pontadas da velhice precoce por toda parte. Bloco de gelo não derrete nunca a não ser quando colocado em ambiente estranho. No café da manhã, nada além de bolinhas marrons sobre o branco gelado como se fosse possível agüentar a própria imagem durante toda uma vida. As toalhas e os lençóis brancos esperam pendurados no varal. Nenhum vento para enxugá-los a tempo. Se ficarem mais um dia é capaz da fuligem os deixarem cinza. O cheiro de flores me faz espirrar. Mesmo assim lamento vê-las partir. Os corpos sentem frio porque os lençóis estão pendurados. As roupas no guarda-roupa estão perfeitamente equilibradas, separadas cor a cor. Quando abandonarei as velhas obrigações, senão quando o abandono não for mais importante? O peixe ainda se debate no ladrilho amarelo.

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Goya e Sombras de Goya

Nestes dias, vi dois filmes sobre Goya. Os dois, belíssimos. Impressionante como dois filmes tão diferentes conseguem dizer tanto de um homem – ou do imaginário que cerca este homem. O primeiro dispensa apresentação: Goya, de Carlos Saura, saído em 2001. Um Goya velho, de 82 anos, confessa para a filha os acontecimentos da sua vida. Conta as perdas e os erros da juventude sem, no entanto, se lamentar de fato. Para mostrar o homem dividido, Saura escolhe uma luz muito próxima da dos quadros de Goya, sobretudo as da sua fase negra. As primeiras cenas são de tirar o fôlego; e o que se segue é uma belíssima mostra de como Saura entremeia imagens e sons para fazer o espectador se sentir na própria obra de Goya. Por vezes o cenário é quase um teatro com sua luz vermelha; um ambiente onírico que nos leva à angustia da rememoração com delicadeza no que ela tem de brutalidade.

O outro, Sombras de Goya (2006), é de outro mestre: Milos Forman. Totalmente diferente do Goya de Saura! Mais focado na história de determinado período da vida de Goya do que na sua vida propriamente dita, o filme mostra os impasses de um homem diante da crueza da história. Parece que se pergunta o tempo todo qual a responsabilidade do homem diante das atrocidades da história. E não há uma resposta certa. Forman entende da ambigüidade e aqui entende ainda mais daquela que parece ter constituído o pintor. É verdade que, se comparado com o Goya de Saura, Sombras perde um pouco do seu brilho, e mesmo assim é um belo filme!

Vi os dois filmes com muita emoção. Vieram-me ainda uma vez todas as sensações de quando percorri as salas dedicadas a Goya no Museu do Prado. Lembro que saí tão mortificada que foi difícil reconhecer outro Goya senão aquele encoberto de negro. Eu conhecia apenas o Goya “oficial”: As duas majas, o 3 de maio em Madri... Foi no Prado que vi o avesso do artista: as suas pinturas negras. De onde veio este avesso? Que homem era este que pintava tanto as brincadeiras dos príncipes como os espasmos da morte, do fantasma, do gigante? É como se ele tivesse sido dois homens; um aberto às benesses da corte e outro atormentado pelos fantasmas da história. Reencontrei este Goya nos dois filmes, apesar das diferenças, e veio daí a emoção.

sábado, 12 de janeiro de 2008

Imagem da Dê e poema do Marcos

Hoje resolvi juntar duas pessoas que adoro. A primeira é a Dê, que é uma das minhas pautas preferidas. Desde que a conheci, ela só me ensina. Ela registrou este pôr-do-sol nas suas férias de fim de ano e enviou para mim. A outra é Marcos Siscar. A meu ver, ele é um dos leitores mais impressionantes que conheço, com um olho capaz de perceber o imperceptível (e sei disso porque sou sua orientanda desde o mestrado). Ele foi o maior presente que o acaso já me deu; aprendo bastante com sua voz pausada e com seus emails capazes de me fazerem ver num piscar de olho as besteiras que por vezes coloco desleixadamente no papel. Só não aprendo mais porque sou péssima aluna. Coloco aqui um dos seus poemas. Sim! Ele é também poeta, e dos bons!

MODO DE USAR


Sinceridade não vai bem na prosa. Só o verso lhe dá abrigo. Do verso se espera o teatro da sinceridade, mostrar-se nu como quem mostra a nudez de um outro. É o véu e o fetiche da sinceridade. A prosa sincera é imediatamente indecente, como o tímido que é pego nu. Não se escreve prosa com o coração, a menos que a inteligência o cubra de protocolos. A prosa quer ser moeda de troca. O verso se torna a prosa da poesia quando se nutre da fidelidade à experiência ou da impessoalidade programada; do salvo conduto da isenção. (Vou lhe contar um segredo. Hoje em dia, é preciso coragem para escrever um verso sincero.) Já a simplicidade vai bem em prosa. Cabe no canal da prosa o fluxo raso da prosa do mundo. A prosa aceita conduzir ao coração solar da realidade, constatar, relacionar, afirmar sentenciosamente. Apenas para o verso a inteligência é indecente. Há prosas frias, ponderadas, alusivas, irônicas, embriagadas. Mas a prosa não aceita engodo ou gramática alternativa. Na prosa, assim como no câmbio, não se mexe. Só o verso consegue às vezes dar um nó na gramática da prosa. Moral da história: não há verso simples, apenas prosa subvertida. (In O roubo do silêncio. Rio de Janeiro: 7letras, 2006).

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

O último metrô

Saí com meu irmão dia destes. Um dia antes de ele ir morar em Campo Grande. Fomos flanar por Sampa. No início da noite, ele foi embora e me vi sozinha na Paulista. Sozinha. Fui-me invadida por uma pequena alegria. Se não fossem tantos arranha-céus, poderia imaginar que estava em Paris como em uma daqueles tantas noites em que vagava sozinha. O que era bom nas minhas longas horas sozinha em Paris é que a alegria que eu sentia não foi percebida depois, como uma espécie de nostalgia. Eu a sentia no momento mesmo em que a vivia. Amava sair da BNF já noite, ver aqueles 4 livros abertos, sentir uma rajada fria de vento no rosto; e daí decidir se ia para o cinema ou para casa. Lá me perdi um pouco. Literalmente, muitas vezes. Descobri o prazer de vagar sem rumo pela ville sem nenhuma obrigação, sem ter para quem voltar. Muitas vezes pegava o último metrô e ficava a imaginar se alguns daqueles rostos iam para casa como eu: sem ninguém para dizer boa noite. Os rostos do último metrô são sempre indescritíveis. Cansaço, fadiga e certo brilho no olhar. Uma morosidade que não chega a ser impaciência. Ninguém parece ter pressa de chegar, como se o descanso começasse ali, no assento dos vagões semi-desertos. Era o atrás do brilho do olho que me fascinava. Silenciosos. Raro ter um barulhinho bom. Aqui sinto falta enormemente disso. Aprendi a alegria da solidão. Depois que voltei já andei algumas vezes por Sampa sozinha. Porém Sampa é barulhenta. O salvo-conduto termina sempre nas salas de cinema; na nostalgia da observação de outros rostos, de outras memórias.

Foi assim neste dia que me vi sozinha na Paulista. Acabei em frente ao Espaço Unibanco. Assisti A culpa é de Fidel, de Julie Gavras; e adorei o filme. Inteligente e engraçado. Eu implico sempre com filme de crianças (exceção para os iranianos); acho que apelam para uma identificação imediata com o espectador. A culpa é de Fidel tem a criança, mas não é gratuito: o filme só funcionaria com uma personagem criança; a história depende totalmente dela. E é muito, muito bom. Depois vi Conversas com meu jardineiro. Talvez porque ainda estava imersa no outro filme, não achei tão bom. Porém o final é terno, emocionante, embora seja possível prevê-lo. Derramei algumas lágrimas. Talvez tenha sido apenas saudade de Paris. Do último metrô. Os dois filmes se passam na França.

Primeiro filme do ano

Pensei em escrever ontem. Ou antes de ontem. Por momentos, vi-me impregnada de poesia, de tanto a dizer. Em outros, achei que não poderia dizer nada além do que já disse de maneira mais inteira. Tateio meio vacilante os primeiros dias do ano. Estive por aqui entre livros. Bêbada, às 5 da manhã, comprei Henry e June, de Anaïs Nin, na banca de revista do Lanche Estadão. Comecei a lê-lo ali mesmo, no balcão do bar, até cochilar. Estava adorando o livro, mas talvez ele tenha descido a cachoeira para onde fomos (eu, amado, Mari, Ana) nos três ultimos dias do ano. Não sei. Perdi. Agora vou ter que comprar outro. Lia Anaïs e me lembrava da Lu o tempo todo. Lu, a da foto aí embaixo. Como já disse em outro lugar, Lu é ao mesmo tempo Ana Cristina César, Silvia Plath, Anaïs Nin... E agora vejo que ela é June também. Uma flor de delicadeza. A viagem foi muito desejada. E vivida com muita alegria. Depois conto mais. Também tiveram muitos filmes nestes dias. Vi vários que mereciam umas boas palavras. Deixo para depois. Ou para as palavras que nunca abandonam o estado de gestação. No tédio do primeiro dia, assisti Amarcord, de Fellini. Achei que merecia ver um grande filme no primeiro dia. Amacord, para quem não sabe, significa eu me lembro. Fellini põe em imagens inesquecíveis o tecido das suas memórias. São como as nossas imagens: esgarçadas, engraçadas, tristes, delirantes. Sem o mesmo talento, pus-me a pensar em cenas equivalentes da minha vida. Fiquei, então, por aqui, grávida de delírios e emoções.

Ano novo: refil?

Comprei agenda nova. Ou melhor; o refil. A capa de couro já me acompanha há 4 anos. Me danei a pensar que ano novo é também assim::: traz a capa do ano anterior. Os sonhos, as promessas, os medos, os desejos vêm todos juntos na virada. Por mim, eu quero fazer mil promessas e desfazer uma a uma em seguida para refazê-las logo depois. De tudo que sei é que 2008 será ano de ganhar maioridade outra vez. Vou sair à revelia do hiato de 4 anos que tem sido o doutorado (fiz questão de ser por inteira aluna, completamente alheia ao tempo do trabalho. Em nenhum momento fui operário-padrão; tão-somente estudante nos meus horários noturnos; como este que agora escrevo). Daí que nesta mudança de agenda tem friozinho na barriga, mas tem uma crença infinda no porvir (não no futuro, que é certo; mas no porvir que é incerto e se faz na tessidura dos dias). Talvez dê certo como tem dado até agora; talvez haja curvas mesmo dando certo. Talvez eu faça uma viagem. Talvez eu fique por aqui mesmo. Talvez eu cresça. Talvez quem sabe seja esta a palavra::: talvez. (Olho minha capa mais uma vez e folheio os dias em branco do refil. Escrevo uma frase que pertence apenas a mim no dia 2 de janeiro, antes mesmo que ele exista. Escrevo com uma confiança duvidosa no porvir. Chegarei até ele?).