domingo, 31 de agosto de 2008

eu no painel da cy


eu tenho que colocar isto aqui. estou super ocupada. tenho mil coisas para terminar... até amanhã! mas este mimo que minha amiga cyane deixou para mim no orkut deixou-me numa alegria tamanha e me deu vontade de compartilhar. nas palavras dela, um painel para alegrar meu domingo.

mais do que alegrar, cy me emocionou. sua sensibilidade, sua hospitalidade, seu ser artista que se espalha por quadros, por vídeos, por fotos e pelas palavras sempre me emocionam. aprendi a gostar dela muito antes de nos vermos – o milagre das palavras - e quando a vi em fevereiro deste ano tive a certeza de ter tido a sorte de conhecer uma das mulheres mais lindas. tudo nela transpira força coragem confiança sensibilidade beleza... e ela gentilmente nos doa um pouco disso tudo.

é aquilo que sempre digo. não sei se mereço as pessoas maravilhosas que tenho encontrado pela vida afora, mas sei que o fato de elas existirem é o que me faz realmente ter certeza de que a vida vale. e vale tudo. porque quando temos amigos toda dor carrega delicadeza.

sábado, 30 de agosto de 2008

Deus existe!

E ponto final. Esqueci meu ateísmo e soltei balões.

Será que contei aqui que uma caixa havia sumido na mudança? E dentro dela, no mínimo, uns 30 livros em francês, a maioria de Derrida, que custam em média cada um 50 euros, além das Galáxias, das Teresas, da única cópia de minha dissertação, da minha caixa amarela com minhas lembranças de Sampa, ainda mais meus marca-textos exclusivíssimos comprados nas minhas viagens? Os dois últimos itens eram o pior, porque os livros eu podia comprar outra vez, nem que fosse aos poucos, mas não poderia sair juntando pelo mundo todas as minhas desimportâncias guardadas naquela caixa... Contei não?

Não contei que eu chorei feito um bezerro quando percebi tudo que havia desaparecido, apesar de sempre dizer que quando algo se perde, ou se quebra, é porque já tinha cumprido seu tempo e não devemos nos abalar?

Pois bem.

Se não contei, conto agora que a caixa apareceu.

A-P-A-R-E-C-E-U!

E agora tem balões no céu, minha caixa bem guardada e uma fé inabalável.

...

o sol e o céu sobre mim são estranhos e violentos. traço mapas amassados na certeza de que daqui a pouco um outro sol e um outro céu.

:(

;)

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

A saga dos dentes

Há duas semanas: Acho que não vai ser desta vez que tenho uma doença incurável ou qualquer coisa que eu imaginava já corroendo meu pescoço e indo até a minha pobre cabeça desmiolada. Talvez tudo não passe de um dente de siso que só pôde ser visto em um raio-X; é o que me disse compenetradamente um dentista muito simpático que já nasceu dentista, creio eu. Toda a família na placa de entrada do consultório c-h-i-q-u-é-r-r-i-m-o, onde tenho que fazer um esforço enorme para não rir diante de tanta chiqueza e formalidade. Como quem não quer nada, pergunto-lhe se é normal um transplante (é o que tenho que fazer em outro dente) junto com a extração do siso; ele me responde que é muito normal e quando lhe digo que minha pergunta é idiota porque, se não fosse normal, ele não me diria, ele se compenetra todo e me conta do seu mestrado em transplante. Fiquei mais tranqüila. Não pelo mestrado, porque eu costumo pensar enquanto falam comigo e pensava coisas deste tipo: eu também tenho mestrado, além de doutorado, nem por isso sei muito da minha área, aliás acho que sei bem pouco e também me perguntava se porventura ele não seria disperso como eu e quantas aulas ele havia deixado de assistir; e se tivesse sido justo aquela de arrancar um siso que nem está a olho nu? Enfim, ele falou uma boa meia hora e eu fiquei mais tranqüila apenas porque ele apertou bem forte minha mão e deu um sorriso dizendo que não doía nadinha! Como as mulheres são suscetíveis aos sorrisos... De todo modo, deixei lá seis folhas de cheque, tamanha a exorbitância, e agora só me resta torcer para não pensar nestas coisas enquanto ele estiver transplantando meu dente e jogando fora meu único juízo. E torcer para que depois esta dor no pescoço me abandone.

Há 9 dias: meu pescoço dói, minha cabeça mais ainda e ainda passei a noite insone. Mesmo assim, vou ao dentista começar o tratamento. Sei lá o que falei ao telefone, mas sei que entenderam que eu queria fazer o transplante naquele dia. Nem tive tempo de dizer que não, que estava doendo a minha cabeça, que eu não estava agüentando nem que me sorrissem quanto mais me arrancassem dois dentes. Não tive tempo. E quando dei por mim já estava debaixo de um lençol com a boca arreganhada ouvindo os barulhos mais terríveis que uma pobre alma pode ouvir e suportar. Uma tortura. Uma tortura sem dor, mas ainda tortura. Vez em quando eu mexia os pés e gemia. Puro medo, porque doer não doeu nada. Experimentava meus gemidos, talvez; porque um dos absurdos que descobri nestes dias de ida ao inferno é que gemidos que variam podem incomodar mais do que um elefante. Vejam se tem fundamento uma neurose desta envergadura? Sem gemidos, a frigidez; com gemidos, bah!, jesuscristinho me proteja de mim mesma, já que não me protegeu de uma neurose desta. Enfim, saí mais frágil ainda do consultório, anestesiada, boca rasgada, dentes a menos, e só me restou passar dias à base de sopinha e sorvete e muito analgésico e antiinflamatório que me deixaram grogue, grogue até não agüentar mais olhar nem para a rede nem para a cama e experimentar dormir em pé encostada na parede.

Há cinco dias: meu rosto ainda estava um pouco inchado, o que não me impediu de ir assistir a Kung Fu panda e me matar de rir, assim como não me impediu de berrar na derrota do vôlei masculino e dizer todos os palavrões possíveis e impossíveis na frente dos donos da casa onde fui pela primeira vez. Kotz, kotz!

Hoje: meu pescoço continua doendo. Hipocondríaca, penso que talvez vá morrer jovem. Amanhã irei a outro médico. Aquele dentista, apesar de levar TODAS as minhas economias inexistentes, não me tirou esta dor no pescoço. Também o que eu queria? Sua especialidade não é pescoço. Só uma coisa é certa: os dentes agora jazem e tenho uma janela entre os outros que me deixa com vergonha de sorrir. Fudeu! Vou bem ali me jogar da varanda. Pensando bem, vou continuar lendo os Sermões, senão, além de não sorrir, não vou saber o que falar amanhã na aula às 7h30. Mas quem sabe falar seja o que for às 7h30 da manhã? Fudeu duplamente! Ou triplamente ou de quatro ou um grande bacanal. Qualquer coisa, mas nunca às 7h30 da manhã, por favor.

...

Uma dezena de livros chegou pelo correio.
Pós-doc no forno.

E também In/Rainbows, do Radioread.
Thom Yorke é nada menos do que gênio.

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terça-feira, 26 de agosto de 2008

Noite de popstar

Na semana passada, acho que dei uma palestra do caralho (continuo influenciada pelos roqueiros!). A primeira como professora na universidade. E eu juro: não sabia qual seria a reação de quem a ouvisse. Havia dias que eu precisava preparar o que dizer no seminário de integração na abertura do semestre. E eu estava na merda, como meus três raros leitores devem ter sacado. Tão na merda que não conseguia ler nem uma linha. Então fui escrever que é coisa que qualquer alfabetizado consegue fazer mesmo quando está na merda. E escrevi em uma única noite 19 páginas, que tive de reduzir para 13 para ficar dentro do meu tempo. Sem crise. Havia muita bobagem para ser jogada fora, além das que eu deixei. Então lá fui eu com meu texto, com minha blusa nova, achando que, se fosse cantora, assim que eu começasse a falar, começariam a voar tomates na minha direção. Qual o quê! Se minhas ouças não me enganaram, fui aplaudida como uma popstar (roqueira, evidentemente!) Li meu texto sem nenhum tremor, apesar do temor, levantando os zóinhos vez ou outra para poder desviar dos tomates antes de eles estourarem na minha blusa nova.

E os tomates não vieram. Era para eu ter falado sobre pesquisa. Importância da pesquisa. Mas eu não sabia falar direito sobre isto. Então falei torto. Tintim por tintim porque eu me considerava uma pesquisadora; desde lá do início quando eu era aluna no curso de Letras. E como tia disfarcei conselhos no meio da confissão. Falei de Sampa. De Paris – e de como eu me relacionava com estas cidades. Falei de minha compulsão por coisas novas. Das minhas lágrimas. Da minha paixão por Barthes. Da traição que fiz a ele quando preferi escrever a tese sobre Derrida. E das angústias dos impasses. E chamei tudo isso de pesquisa, de pesquisa para a vida, e disse-lhes que esta era a que realmente importava, que era realmente a que fazia sentido se não quiséssemos ser amebas pela vida afora. Disse-lhes também que a maior parte das pessoas prefere ser ameba, porque não sê-lo dá muito trabalho, mas que eles acreditassem: podia ser tudo muito divertido se eles realmente sentissem desejo, porque sem desejo nada valia muito a pena. Disse-lhes tudo com minha voz de pato e mesmo assim deu tudo certo.

E escrevi tudo que escrevi, disse tudo que disse, porque precisava me lembrar de quem eu era e por que estava aqui. E acho que os alunos se identificaram porque, embora o que eu disse em tese deveria interessar apenas a mim, todo mundo acaba se identificando com quem tem alguma noção do que quer fazer para preencher os dias neste mundo besta. Depois dessa façanha acho que mereço férias. De preferência, em Paris, por favor! Mas antes darei três disciplinas no semestre, preparando tudo bem direitinho para honrar com minha nova posição de popstar. Sim, sim, porque como uma popstar ganhei muitos abraços e muitas pegadas depois da palestra, com direito a me dizerem que foram entrando, entrando na minha conversa até se sentirem totalmente lá dentro do que eu dizia. Oh yeah! Estou me achando, mas, convenhamos, não é todo dia que isso acontece. Não comigo.

sábado, 23 de agosto de 2008

Manhã

Sem TV perco a vitória das meninas do vôlei. Vou bater em qualquer porta hoje à noite para ver o masculino dizendo alguma frase do tipo: “Olá, eu sou professora na universidade, mas não tenho uma antena de TV. Será que eu poderia ver o jogo por aqui? Mas aviso antes que não consigo evitar alguns gritos histéricos quando vejo vôlei!”. Juro que vou. Já disse aqui muitas vezes como sou aficcionada pelo vôlei, então fui às lágrimas só de ler as notícias. Valeu, meninas!

E acabei de ler os poemas do Juba. Finalmente, cheguei ao apelido definitivo do meu ex-marido. Juba não é nem Júnior, nem Jujuba, nem todos aqueles apelidos bobos que criamos na cumplicidade. Juba ficou bom! Quem lê entrelinhas deve saber como pago o maior pau para ele, como confio e acredito nas suas escolhas, por mais que elas pareçam estaparfúdias para alguns. Daí que foi uma emoção ler seus poemas; leio-os e vejo-o inteiro. Rápidos como ele, tão cortantes como ele; viscerais, expondo dores, espantos e muita vida – de hippie. “Oh, Juba, nem preciso dizer que sempre soube que você era poeta. Mande quantos quiser que eu passo a minha lâmina de revisora. E adivinhe? Não prometi a você e a Ri que ia para a academia ganhar resistência para subir Macchu Picchu? Pois matricula feita!”.

Ontem também li os poemas de Rinaldo. E escrevi sobre eles. Rinaldo é o vocalista do Soda Acústica, um grupo muito maneiro de Porto Velho que vi na sala do Itaú Cultural, em Sampa. E gostei demais dos seus poemas e, por isso, inventei monte de palavrinhas na tarde vazia. Talvez depois eu coloque aqui.

E ganhei um poema de outro escritor, o Alberto Lins Caldas [seus livros são bons demais!]. Ganhei também uma carta dele – que eu já li, reli e treli um milhão de vezes. Daquelas cartas que só recebemos uma vez na vida de tanto que tudo parece estar contido ali – como um abraço. Só precisa que eu saiba.

O poema é este. A carta é só minha:


eu q sou ninguém
devoro ruínas
depois desse deserto
y esses mortos
porq sou polifemo também
y como nada é certo
além desses portos
agarro as crinas
de tudo q temo


E é por estas e outras que desde que acordei escuto os CDs de Itamar Assumpção no volume mais alto. E tenho vontade de dançar e mandar embora esta tristeza amarga. E tenho vontade de saber cantar. E tenho vontade. Porque este nêgo dito, vulgo beleléu me deixa sempre por inteira cheia de vontade. A cada vez que eu sentia que a melancolia branca de Paris ia me atingir, eu colocava alguma música do Itamar no ipod e era engraçado ver todos aqueles rostos sérios, aqueles dias frios, aquelas árvores secas ouvindo Itamar berrando algo estaparfúdio, engraçado, irônico, seco e certeiro. Eu acho que o mundo todo devia ouvir Itamar só para sentir como a vida pode ser divertida mesmo quando levamos a pior topada da vida... A unha arrancada, o dedo sangrando, e se é capaz de cair na gargalhada!

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Como um cão



À noite, Nina Simone atravessa as paredes incomodando os vizinhos. Não sei por que a ouço. Não a ouvia com quem me causou esta dor. Talvez seja porque a dor de Nina tenha mais espanto do que a minha; ela era uma mulher com uma dor insondável; olhos arregalados diante do horror do mundo dizendo frases desconexas, não pedindo nada; nada mais do que exigindo. Eu também não tenho pedido nada – a não ser ao meu amigo que sabe exatamente onde estancar a dor. Ouço Nina Simone e escrevo apenas porque devo vivenciar esta dor para descobrir logo adiante que ela vai se esvair. Talvez Sinnerman seria a música da minha vida, se Mr. Bojangles não me trouxesse toda aquela chuva. Estou atrás daquela que é diferente de Nina. Daquela que gosta de sorrir dias a fio. Estou assim porque tudo veio em um único golpe, como em Kafka que agora releio. Neste deserto, esperei que enterrassem a faca no meu coração e a virassem duas vezes. E vi de olhos arregalados o sangue respingando por todo o tapete que ainda não tenho na minha nova casa. Como um cão. Olho detidamente nos olhos do cão parado diante de mim sem que eu saiba o que fazer com ele. Deixo-o aqui olhando-o para mim com a mesma intensidade? Ou decido que ele não pode comigo? Ou simplesmente deixo-o morder meu calcanhar até os pedaços criarem pus e apodrecerem? Eu não sei. Não tenho frases. Deixei-as todas em algum lugar e agora não encontro a chave. E ainda assim. Vivo a minha sexta-feira da paixão que veio de repente. Mas foi assim mesmo? Ou eu escondi a agonia entre os dentes até que o outro viesse e cravasse uma faca entre eles bem ali onde meu sorriso teve que parar suspenso no ar; como uma promessa que nunca chegaria ao seu fim? Ainda assim procuro caminhar com um discernimento tranqüilo ao encalço de mim mesma. Como Kafka e Nina Simone, não me importo com o horror que encontro pelo caminho. E talvez seja por isso que ela incomoda os vizinhos. Os leques que me abanavam ainda ontem se recusam a abrir. Apodreceram também e eu me sinto debastando todas as fantasias; pierrot em lágrimas. No último carnaval, bêbada sem minhas amigas perceberem, danço ao som de Elba Ramalho e de repente cai sobre mim aquela lembrança de um carnaval muito distante, com Elba também à beira da praia. As lágrimas saltam à minha revelia e eu me agarro nos braços da ruiva e choro todos os carnavais sofridos, embora aquele esteja tão bonito e sem nenhuma dor. É como agora. Sinto a beleza do momento nas frestras da dor. Sinto a beleza e quase a alcanço. Nina diz oh yeah. Meu corpo sente uma falta intemporal, imemorial, que nada tem a ver com a falta de outro corpo. Tem a ver com este horror que Nina Simone infringe aos meus olhos; um horror cheio de delicadeza.

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Este Bernardo Carvalho...


Desde que comecei a escrever em blog – bah, já vai fazer cinco anos – eu optei por não escrever sobre os “livros teóricos” que eu lia. Era o início do doutorado e eu sabia que teria de ler muitos livros desse tipo. Eles não entram nem na minha lista: ponho ali apenas o que leio para-além da obrigação. Porém terminei de ler um livro de crítica do escritor Bernardo Carvalho [que é romancista e escreveu, entre outros, Nove Noites, Mongólia, As inicias etc.] e senti vontade de comentar sobre esta leitura. O livro chama-se O mundo fora dos eixos [crônicas, resenhas e ficções] e é uma reunião de seus textos publicados na Folha de São Paulo desde 1995.

Bernardo não é daqueles ensaístas brilhantes que ficamos embasbacados devido à linguagem, mas tem muita sacada bacana; sabido, sabido...! Senti um incômodo e um prazer intenso ao lê-lo. O incômodo e o prazer vieram da enorme variedade de seus interesses. Ele não se restringe aos livros, mas discorre também sobre cinema, artes plásticas, viagens. Sua maior preocupação – ou pode ter sido a seleção feita por Arthur Netrovski que faz pensar assim – é localizar o estatuto da arte na contemporaneidade. E neste sentido é muito interessante, porque ele nem é daqueles integrados, que acreditam que tudo está nos eixos, mas também não é um apocalíptico, que acha que o “fora dos eixos” é uma desordem absoluta. Ele se interessa enormemente pela arte de seu tempo. Dá para sentir que escrevia os textos “pegando” o que lhe estava à mão naquele momento; e este estar à mão mostra uma pessoa irrequieta, atenta para o que acontece não apenas no Brasil, mas também no mundo. E como viaja este Bernardo: Japão, Nova Iorque, Paris, Acre... e por aí vai! Mordi-me de inveja.

Longe de ter o seu conhecimento e a sua sensibilidade, eu tenho que confessar que me identifiquei com ele, e por isso me incomodei – e ao mesmo tempo me redimi. Eu sempre penso que deveria ser mais focada; que deveria como professora de literatura brasileira me focar mais na história e na própria literatura brasileira. Por que diabos eu me interesso tanto por saber o que ainda não sei e quero assistir a tantos filmes, a tantas peças de teatro, ouvir tanta música? Tudo MUITO. Por que, neste momento, estou lendo Artaud e Bernardo, quando deveria ler mais Machado de Assis e Padre Antonio Vieira, ja que é sobre eles que tenho de dar aula? Por que, jesuscristinho, eu não me contento com um cadinho de cada coisa? Por que eu varo as madrugadas assistindo a Filme de amor, do Bressane e 10 on ten, de Kiarostami, enquanto bebo uma cerveja depois da outra até me sentir tonta e começar a escrever palavras carregadas das minhas dores, juntando-as com as dores do que acabei de ver e ler?

Eu não sei por que sou assim, mas confesso que me senti aliviada ao ler alguém que se parece comigo (repito: não estou me comparando, estou me identificando, porque ele é zilhões de vezes mais sabido do que eu). Não sei se Bernardo bebe cerveja (se um dia vê-lo em alguma palestra, hei de perguntar), mas agora sei que ele perde muito tempo com todas estas inutilidades: cinema, literatura, artes plásticas. Assim como eu também perco. Então, se ele é assim e ainda escreve aqueles romances fodidos de bons (eu reclamei de Nove Noites, mas é porque sou enjoada), acho que vou continuar sendo como eu sou. Afinal, embora me dê chicotadas de vez em quando rogando por mais foco e concentração, eu gosto muito de meus variados interesses :)

Bem, mas agora que terminei o livro deste fofo e escrevi aqui no blog, vou ali ler uns sermões do Padre, porque é sobre ele que amanhã tenho que falar para 30 alunos!

Sessão cinema em casa

E assisti a Filme de amor, de Júlio Bressane.

E a O pântano, de Lucrécia Martel.


Minha gente, que filmes são estes?
estou até agora perturbada.
mais do que já sou.
como é que ele consegue aquilo? palavra.
como é que ela consegue? imagem.

Cinema de mais alta voltagem.
cinema para pensar.
nem adianta ter preguiça de tentar compreender.
é preciso pensar. é preciso tentar.
é preciso ver sem reserva.
deixar-se levar como um condenado à morte.
e sentir e sentir e sentir e sentir...
amém.

Noite de domingo

Domingo, teve um coral italiano na praça. Grupo coral insieme. Estão aqui em Rondônia fazendo um trabalho voluntário de ajuda à construção de um hospital do câncer em Cacoal. Emoção por inteiro. Lindo, lindo, lindo!

Lembrei de Roma e de Veneza. Lembrei de mim naquelas cidades. Das muitas passadas, dos muitos becos, das muitas pontes... Lembrei, lembrei e lembrei. E achei que a vida era boa. Que eu já tinha feito tanta coisa, visto tanta beleza, sentido tanta emoção. Sim, sim, beleza e emoção me levando para bem longe de minha dor. Por um momento eu senti apenas beleza e emoção ao ouvir o coral; como aquelas que sinto quando viajo, quando leio um livro que me arrebata, quando escuto uma música que me atravessa. Sim, a vida é bonita, foi o que pensei.



sábado, 16 de agosto de 2008

Aquela moça

É aqui
por enquanto
ainda não tem
cortina
tapete
luz indireta
amenizando a noite
quadro nas paredes


Ana Cristina César

O moço pinta as paredes. Sorri quando passo. Gostas de azul? Não, mas estou começando. Se na vida fosse fácil, deixaria tudo azul com uma pincelada. Passaria a tinta em toda a sujeirada e retiraria esta dor que tem me feito andar elegante pelas ruas – à moda de Leminski. Eu havia mudado, mas agora percebo que o mais interessado não soube. Apenas meu amigo do MSN sabia. Eu quase escutava sua respiração de contrariedade quando eu lhe contava que aquela moça antiga não existia mais. Ele se ferrou com aquela moça, chorou suas noites vazias, mas me prefere daquele jeito. Então eu vou cair na noite com alguma paixão de uma nota só, bebendo longos goles de cerveja enquanto escuto concentrada algo que no dia seguinte será minha prioridade. Eu não sirvo quando fico boazinha. Eu não sirvo quando quero aprender a cozinhar. Eu não sirvo quando digo sinceramente que amo. Ontem comi miojo. E antes de ontem chupei uma manga bem madura e passei a noite toda lendo Nietzsche. Exatamente como aquela moça fazia. Talvez deva começar a gostar de azul. Talvez na penumbra da noite insone, eu me reencontre naquela casa com cortina de tecido cru. Ali eu gostava de mim; toda entregue à sutileza. Ali eu era aquela moça que meu amigo gosta. Agora, sem cortina, ando a achar que vou ler todos os livros que ainda não tive tempo de ler. Sem cortina, repasso as mentiras, os enganos e entendo finalmente a impaciência, o descaso, a ironia; estas espécies filiadas da loucura. O entendimento devassa com dor profunda, perfurando todas as minhas fragilidades. Respiraria aliviada se ao mesmo tempo a gengiva não sangrasse. Eu compreendo bem a loucura, meu amigo também; já fiquei louca e sempre foi muito melhor do que qualquer sanidade. Sei do que estou falando. O que não entendo é a brutalidade, a hipocrisia, as dores e as devassidões da minha loucura repetindo-se. Um pouco pior. Um pouco melhor. Sinto o gosto das maçãs podres corroídas por vermes que sobem nos meus calcanhares. Perguntas difíceis demais. E sem resposta, as loucura me ferra de tal modo que eu demoro a encontrar o prumo. Talvez por isso eu tenha querido mudar. Mas agora vai ser diferente. Eu vou pôr cortinas de tecido cru e desenhar um telhado na varanda. E voltarei a habitar aquela antiga casa até ser atingida por algum raio que me tire de lá e me convença de que talvez até valha a pena aprender a fazer ratatouille para os dias de ternura e de silêncio e de calma. Vai ser melhor do jeito que já está sendo.

Ainda calango



Anéis e coruja na caldeirada



Porcas Borboletas


Cabruêra


Do amor


Vanguart

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Festival Calango


Três dias de rock in roll na cidade de 40 graus. Cuiabá mais parece uma grande caldeira. As noites, uma grande caldeirada. Calangos por toda parte. 44 bandas. Chegamos sábado, no segundo dia; eu e minha melhor amiga; ela, depois de 24 horas de ônibus. E eu, 12. Encontros no meio do caminho. Eu gosto da imagem do meio do caminho. E gostei de muitos outros momentos: picolé no fim da tarde, asfalto queimando embaixo dos nossos pés, cineminha, um não ter o que fazer calmo e prazeroso; óculos novos para a ceguinha, DVDs para as noites longas, CDs para os ouvidos moucos, blusinha cheia de flores, decisões para o porvir; algum assobio, muitos assombros. Foi bom demais.

Calma que eu não virei roqueira aos 33 anos. O que me levou a ir é esta minha velha vontade de conhecer o que ainda não conheço. As páginas da net haviam me levado ao myspace. Porque sim. E por que não? Por isso, queria ver o Cérebro eletrônico. E Porcas Borboletas. E Vanguart. E vi. O Cérebro, com seu pop sensível, bebe na fonte doida e delirante do tropicalismo, mastigando muitas referências. Adorei desde que ouvi. Porcas é irreverência, poesia, performance, inteligência e sarcasmo. Os poemas de Danislau Também vieram na minha mochila. Reconheci de imediato um texto da Clarah Averbuck (preciso contar meu encontro com esta moça nas madrugadas insones!); é assombroso como eles fazem a prosa virar música. Vanguart, ah Vanguart, virei fã. Uma molecada sabida demais tocando folk. O guitarrista e vocalista, que também toca flauta, fazia lembrar não apenas Bob Dylan, mas também John Lennon, Mick Jagger, Kurt Cobain... todos estes deuses meninos que brincam de pecar. Eu fiquei realmente impressionada com a sua força e segurança no palco. E comentei com a Mari que não há nenhuma categoria de músico mais sexy do que a de roqueiro. E não apenas eles me pareciam comprovar que isso deve ser verdade. Tem uma energia em todo grupo de rock que vem junto com as performances ao vivo que é dificil se repetir no CD.

Aqueles que me pareceram fazer som sem nenhuma pulsão criativa, apenas seguindo o trilho que já está lá atrás, não mexeram muito com meu ouvido pouco habituado com a barulheira. Mas as bandas que, a meu ver, carregavam uma pulsão criativa, fazendo uma sonzeira do caralho (esta é a expressão mais repetida pelos roqueiros), me deixaram entusiasmada com o que descobri. A banda Do amor é uma delas. O título me pareceu meio adolescente, mas as letras têm um quê de nonsense delicioso, além do balanço. Eles são do Rio de Janeiro, mas têm tantas influências nordestinas que me deixaram zonza de alegria. Caldeirada. Entre um show e outro, uma cerveja e outra, levantei os dois polegares num sinal de positivo para o guitarrista. Em um instante, ele já estava por ali chamando para ver o outro show de perto. “Oh Gustavo, valeu pelo papo no pé de ouvido. Você tem razão: Filomedusa e Cérebro eletrônico são do caralho!”

No domingo, ficamos meio desanimadas com as bandas do início, mas o que veio depois foi uma loucura. Uma me parecia melhor que a outra. Cabruêra, que veio lá de Várzea Grande, na Paraíba, foi para mim o ponto alto, se não fosse a garotada do Vanguart, que encerrou a festança. Cabruêra é um caldeirão de invenção: toda a cultura nordestina está ali deglutida, devassada, numa performance enlouquecedora do seu vocalista, que dançou no meio do público, que gritou na lata dos meus ouvidos a tão conhecida Carcará totalmente renovada num frenesi musical incrível: “Carcará pega, mata e come”, foi o que ele berrou. E eu achei que é isto mesmo: estes grupos que eu citei, e outros que meus ouvidos não souberam alcançar, estão por aí, na cena independente, pegando, matando e comendo toda uma diversidade para fazerem música de alta voltagem e qualidade.

Ah, e esqueci a Curumim, a Macaco Bong... é; gostei mesmo.

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

...

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Tradução



Chove muito lá fora. A moça na varanda vê os tetos de zinco. Acaba de ouvir uma voz em outra língua. Meio dia e meia. 16h30pm. Como não soube responder a nenhuma das perguntas feitas a ela, conta uma história: “Lembra do dia em que lhe disse? Hoje eu fui Roland Barthes, contrariado, despelado, acanhado, sentado em um banco gelado, segurando seu engano sem saber o que fazer com ele, até se levantar e o caminhão passar por cima da contrariedade, do despelo e do acanhamento. E o banco gelado perder imediatamente a importância. Pois estou outra vez diante da varanda segurando meu engano sem saber o que fazer com ele à espera do caminhão”. Contada a história, a moça volta a não compreender a outra língua. Entende duas palavras. E nem chega a chorar. Na varanda, vê os tetos de zinco na chuva. Meio dia e meia. 16h30pm.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Merci, jesuscristinho


Já estou me acostumando com as manhãs felizes. Um dia, é o interfone com meus CDs. Em outro, é descobrir que minha conta corrente amanheceu azul depois de meses. Todo mundo sabe que é roubada conta vermelha; é uma sangria sem fim. Mas esta mudança, estes desejos todos... Agora tudo certo; tudo azul. Vou fazer cofrinho para ir bem ali. Esta é a outra manhã feliz. Descubro que vou bem ali. Cúmplice. Tendo lado a lado pessoas que acreditam. Que desejam. Que me dizem que minhas asas devem ficar bem aqui onde sempre estiveram. Obrigada, meus amigos. Tendo vocês a me ouvirem, eu posso até sofrer. Não sei bem como lidar com esta dor, porque não sou de sofrer, mas vocês me ensinam. E me dão manhãs felizes. Logo a mim que não via manhãs. Vozes de longe cuidam de mim, pondo no colo, alisando meu cabelo. Eu posso até com esta dor no pescoço indo para o braço e me deixando mole; e posso com este remédio me deixando sonolenta. Eu posso. Não é por nada, mas meus amigos são fodas. Merci!

E tem tanta doçura. Machado e seu alienista. É bom demais. Me reencontrei com Machado no seu centenário. Ele está espalhado pela casa toda. Ontem me deu boa noite com aquele olhar de ressaca; atrás dos óculos sérios. E as Chicas; o balanço de Ludov e Cidadão instigado fazem um barulho danado. E este fofo do Rômulo Fróes canta e minha alma toda se esgarça enquanto pensa: “canta assim não moço, minha alma em pedaços vai se jogar desta varanda e lá embaixo tem apenas tetos de zinco me esperando”. E eu gosto. E tem Nina Simone às alturas às três da manhã só porque eu tive a idéia de escrever um conto com pitadas eróticas. E a pus lá dentro com sua voz cheia de melodia torturada. Tudo isso até o vizinho bater a minha porta. Do vizinho conto depois. É que meu chão estremecia sobre a cabeça dele.

Som baixinho, Nina Simone sussurrou até que eu, exausta, dor no pescoço, também caísse nos braços de Morpheu. Merci, jesuscristinho, por ter me dado insônia, bom gosto, bom humor, as lágrimas e Nina Simone para embalar tudo isto. Porque, depois das primeiras 48 horas, eu acordei com vontade de fazer TUDO. E como estou aqui, trancafiada, eu vou fazer TUDO do único jeito que sei: indo para o abismo. Que é uma miragem. Que é uma imagem. E é um jeito bom de viver inteira. De viver o porvir, esta palavra que aprendi naquele lugar frio.

Bilhete deixado na janela

Ainda a noite é muito longa, mas vai ser apenas hoje. Eu sempre fui a primeira a dizer que amor tem prazo de validade, salvo para alguns poucos. Difícil é pôr as lembranças a salvo e longe. O tempo, eu sei: senhor. Os cheiros com outros cheiros no mesmo ar, até que se esvaiam. Se eu tivesse sabido, teria guardado você bem aqui junto de mim. Mas eu vou lhe guardar de qualquer jeito. De outro jeito, mas vou guardar. Quando eu vi você naquela última vez, eu já sabia que você já tinha partido. E senti muita serenidade. Vi você correndo na rodoviária e me perguntei quem era aquele que corria. Não me reconhecer já era sua forma de adeus. E procurei deixar você ali no banheiro da rodoviária junto com aquela água misturada com xampu. Mas quando saí você ainda estava ali. Nenhuma emoção no olho de pedra que você aprendeu comigo. Eu gostava de ver você dormindo enquanto a insônia atrapalhava meu sono. E gostava de outras coisas também; sobretudo das suas mãos suadas e dos seus dedos chatos nas minhas entranhas. Eu vou me lembrar de você. Vou me lembrar de você rindo. Aquele riso diferente que era só seu do início, do meio e que aparecia raramente no fim. E do meu riso provocado por você. Já esqueci você outras vezes. Vou lembrar como foi. Guardei tudo que nos pertenceu. E era muito pouco. Ritual. Antes todos os adeuses me pareciam no seu tempo. Agora sinto a extemporaneidade, e por isso tudo guardei. No outro adeus tinha você para me consolar. E Dostoievski me trazia o outro inteiro. Até você roubar todos os Dostoievskis. Não seremos amigos, eu sinto. Já tenho grandes amigos de outras histórias. E nada era em comum em nós a não ser aquela loucura; aquela. Era a doçura que nos sustentava. Você, Eduardo; eu, Mônica. Sem final feliz. Sem filho para atrapalhar as férias. Nestas, eu irei para aquela cidade distante que aprendi a amar. Talvez foi lá. E agora eu estou tão mudada. Agora não estou achando nada. Agora estou irremediavelmente sozinha. Mas apenas com um pouco de medo. Não se preocupe que eu não me preocupo: só queria dizer adeus ainda como um beijo de amor.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

O sem-sentido dos sentidos


(sim, meus poucos leitores, sou uma camaleoa! Perdoe-me se não avisei antes)

Tem dias que a noite é uma merda; passa-se a noite derramando rios, mesmo tomando analgésicos, como, por exemplo, ver Catherine Deneuve levando chicotadas na Bela da tarde às cinco da manhã. E lá se vão 48 horas sem dormir, até que se dorme, pronto, simples, fácil, no meio de uma frase de um conto do Machado, dorme-se, sonha, acorda-se para fazer xixi e descobre-se que sonhou; e o sonho nem era ruim, e dorme-se de novo e acorda-se com o interfone tocando. Dia novinho.

Aí pare o mundo, parem as lágrimas que já secaram ontem, que o carteiro está dizendo que meus cds chegaram; agora eu vou ouvir músicas novas, de músicos que eu nunca ouvi, e escolhi quando já estava sozinha – quando ela via um filme porcaria, quando ele jogava xadrez –, e são cds do cacete; um mais bacana que o outro; e deliro imaginando-me com vários ouvidos ao mesmo tempo. Por que tenho apenas dois ouvidos e eles funcionam tão mal? Tem nada não, prego o ouvido na vitrola, deitada no chão, e ensaio uns passos e danço sozinha. sozinhasozinhasozinha; muito bem acompanhada.

Você lembra, Milena, quando voltou de Paris, aquela sensação de vazio na cidade de São Paulo? Lembra que chorou muito mordendo o seu lençol como você sempre faz quando se deita? Lembra que você dizia a si mesma que não tinha problema chorar nem doer por que você sabia que iria passar? Lembra que você sabia que a cidade te acolheria mais cedo ou mais tarde? – Lembra, lembra, sim. Então agora porque agora está agora com medo agora que agora vai ser agora diferente agora? Que se foda todo o resto. Porque o resto importa muito, mas você vai saber cuidar de tudo, mesmo quando não souber. Quando tudo virar a mesmice de sempre, você vai olhar para o espelho – que ainda não tem na sua nova casa – e te ver cheia de rugas e mesmo assim achar que ainda pode desviar o caminho. Porque você sabe do caminho, sabe que quer um caminho; sabe que são caminhos. E vai andar o mundo todo para não deixar que nada fique vão. E vai saber parar também. Vai saber ficar. Que se foda todo o resto, porque hoje chutei livros tão desesperados quanto eu, e vi Sean Penn; aquele que deu umas porradas na Madonna e ninguém mais lembra, porque ele é um puta de ator fodido, cheio de verdade, cheio de sangue em todas as veias. Porque hoje lembrei de todas as porradas; e achei que tudo tinha que ser assim mesmo.

A Terra vermelha deixa ainda mais visiveis as latas demais espalhadas na nova mesa de vidro.

E por favor, não confundam, tudo isso é uma tentativa de fazer literatura. Porque o que gosto mesmo é de os dias correndo tranqüilo, sob controle, desde que seja ao som de arnaldo antunes, este loucomalucobelezadoséculovinteeum onde-não-se-acredita-em-nada-mais; que deve ah que deve... E é isso que quero: nada certo demais, nada que me exija demais, nada que queira arrancar de mim o que eu não tenho nem estou a fim de ter; carteira assinada; protocolo. Estou casada há quatorze anos com aquele que já me separei há quatorze anos. E sempre achei que ele era muito foda e continua sendo todo puro, todo louco, todo entregue inteiro; e sorrio toda pensando que a sua menina linda é cheia de sorte; que ele vai marcá-la, vai arrancar a paz dela, vai fazê-la sofrer, mas ela vai saber que amor é isto; que amor pode matar e, sim, morrer de amor bem pode ser o ponto alto da vida. E depois da morte vem a vida toda pela frente. E é isto que é a vida; é assim que vale a penar estar na vida: uma grande fantasia de pierrot. E no próximo carnaval eu vou poder beijar todas as bocas; na próxima viagem também vou poder beijar todas as bocas. Desde que eu queira. Não vou querer, mas vou poder. E é assim que é bom. E a vida vai se misturar com a literatura tosca que agora tento escrever com todas as latas espalhadas na minha nova vida de vidro.

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Noite de domingo

Volto para casa sem saber exatamente o que fazer com o que acabei de ver e por isso me sento aqui para escrever. Saio da lan house onde fui enviar aquele texto do dia 27impreterivelmente e vejo centenas de jovens na calçada do posto de gasolina em frente; e carrões que tocam um putzputzputz infernal numa altura abominável. As moças com seus cabelos de escova decerto esperam encontrar ali o seu príncipe, salvo aquelas que já os têm; todos com aqueles sorrisos que me parecem meio abobalhados; até os carros parecem sorrir abobalhadamente. E procuro uma música no meu ipod e escolho rápido the doors na tentativa de passar ao largo; e me vem à cabeça que eles nunca ouviram morrison e que talvez nunca vão saber o quanto de dor pode sair de uma voz e de uma guitarra; e também nunca leram e nunca vão se interessar por artaud, nem sentirão aquela loucura e de como ela pode ser benéfica neste mundo tão absurdamente imbecil; nem nunca viram um filme de herzorg para deixá-los com este gosto amargo na boca que agora sinto – uma sensação de inutilidade: woyzeck enfiando a faca no peito da sua amante quando é ele mesmo que sente toda a dor do mundo no próprio peito. Sobre eles por acaso lerem Büchner nem ouso pensar. Büchner que aos 23 anos já era um revolucionário, já tinha escrito a morte de danton e woyzeck e já tinha morrido devido a um miserável tifo.

A imagem não me sai da cabeça porque sinto esta inutilidade: hoje eu vou passar o resto da noite preparando aula para jovens como estes; já separei todos os livros do Machado que talvez possam interessar, embora eu saiba que não interessam; e vou ficar aqui espremendo o cérebro atrás de idéias mirabolantes que me façam falar menos sozinha... e eu sei que nada disso vai adiantar. Entendam-me: eu até acho que estes jovens devem ser bacanas, devem saber um monte de coisas que eu não sei nem nunca vou saber; o que me incomoda é a facilidade com que eles se entregam ao que existe de mais consumível, de mais idiota, como este putzputzputz infernal que nunca vai chegar a ser música. Com certeza, o abismo é entre mim e eles – e porque o abismo me espanta eu os prejulgo violentamente sem nunca ter falado sequer com um deles.

Eu não sei que porra de mundo é este que se você ouve the doors, lê artaud e assiste herzorg acaba inevitavelmente se sentindo como eu me sinto agora: distante e diferente, embora eu queira ver batman e goste de tudo quanto é filme inspirado em HQ e goste de umas cafonices e de ver bobagens na internet.

Talvez a imagem não me saia da cabeça porque eu tenha mandado aquele email e eu esteja falando sozinha não apenas para estes jovens, mas para a pessoa que eu já pensei um dia que poderia até ler meus pensamentos. E de repente eu sinta que não me reste nada mais a fazer a não ser dizer que o outro decida a minha vida quando eu já decidi. No entanto, eu sei que teria voltado para casa tranqüila, mesmo depois de ter enviado aquele email, se não fosse a imagem daqueles jovens no posto de gasolina, cujos rostos eu sou incapaz de olhar com imparcialidade. Tudo que sei por agora é que vou tomar a sopa que fiz ontem e lê mais algumas páginas do livro de artaud até que fique bem tarde e eu me dê conta de que preciso voltar a preparar aulas. Realmente, acho que é a porra do meu mundo que é mesmo antigo; embora eu ache que tudo está no lugar, mesmo que eu sinta esta inutilidade e mais alguma coisa do porvir.

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Porque os dias

Continuo sem fone em casa. Preguiça terrível de procurar uma tal de net sem fio, que dizem que existe. Dor de cabeça também a mil. Ou estou ficando hipocondríaca ou estou doente mesmo. Passo a mão no pescoço, que não pára de doer, e sinto uns caroços. Sinto mesmo? e ainda sem convênio. Não consigo falar com o sindicato da universidade que cuida disso. E eu não sei viver sem convênio médico. Fico doente só de pensar.
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O anjo ruivo partiu. Veio e ficou uns dias comigo antes de ir de vez para Paris. Quatro meses sob o sol de Porto Velho deixaram-na com vontade de fincar pé por aqui. Foi uma emoção. Até aprendi uns pratos franceses. Agora é arrumar cobaias. Choramos e rimos bem alto, como manda o figurino do amor. E vimos filmes e ouvimos muita música. Porque música brasileira encanta o mundo. E modéstia às favas, meu acervo não é de brincadeira. Fiz um texto para ela que qualquer dia posto aqui.
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E o amado veio também. 15 dias de beijo na boca. Se bem que às vezes rareou. Eu estou esquisita. Ou deixei de ser esquisita. Comecei a achar - de novo - que bom mesmo é beijar na boca, fechar os zóinhos e ficar vendo o mundo passar. Também fiz texto sobre a vinda do amado. Tudo nos arquivos do computa, trancadinhos, porque acho que perdi meu pen-drive, que chamo até hoje de clé, porque tinha comprado em Paris. Sei que foi bom. Dias divertidos; mas como já faz quatro dias que ele não dá a graça não estou com vontade de dizer dos dias que foram.

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Fomos para o niver da princesa em Porto Velho. A noitada aí embaixo faz parte. E teve muito dengo porque minha princesa já é um mulherão, mas como a carreguei muito no colo, fiz muito mingau e vitamina pra ela, porque a danada demorou a aprender a comer coisa sólida, então olho o mulherão e vejo minha bichinha de pernas tortas e respiro saudosa do tempo em que tomávamos banhos juntas horas a fio com ela escanchada na minha cintura; água e riso pra todo lado.
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E como eu sou mulher de cumprir as promessas que me interessam, os últimos três dias com o amado foi na Chapada dos Guimarães. Aquilo é bonito demais. E que companhias::: Júnior e Risele me fazem ter vontade de ser mais jovem ou ter mais perna ou mais coragem para sair pelo mundo como eles: mochilão e arte na bagagem, muita pinga e muita birra, porque birra no namoro é bom, já que depois vem a tal das pazes. Eu é que não gosto. Não sei fazer o jogo, fico irritada de verdade; mas para quem sabe, é bom. E teve tanta história. Até pegada de onça rolou. E aqueles abismos todos; fui me entranhando de perfume de mato, de som de bicho. Vontade de ficar por lá.
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Mas a vida mesmo agora é aqui. E eu, tanta vontade de ser louquinha, gasto horas cuidando da casa. Sistemática, limpinha, chatinha, ai que estes mosquitos entram e espalham suas asas. E dou uns gritos para que entreguem meu tampo de mesa, pelo amor de deus, porque eu preciso mesmo é escrever, estudar, ler; e mesa na cozinha, com fogão por perto, não rola. Aí chega a mesa e eu gasto horrores só para ter uma cadeira que me parece linda, mas evidentemente não vale este preço exorbitante. Então, com o limite no banco mais estourado ainda, ponho-me diante da mesa, sobre a tal cadeira e começo a escrever um texto que tenho que entregar impreterivelmente até dia 27. E começo bem, mas pescoço dói, me empolgo, abro uma cerveja e termino a noite meio bêbada, com dor no estômago, com fome, nada na geladeira. Melhor ir dormir e recomeçar amanhã, mas amanhã é dia de filme barato na locadora, que é horrível, não tem nada, mas, milagrosamente, encontro A eternidade e um dia, lá embaixo, na última prateleira, e vejo, e é lindo demais, e choro, e sinto vontade de beber outra vez, mas não bebo. Leio Baudelaire. Outro modo de embriaguez. E assim durmo outra vez com meu texto já adiantado, mas eu achando-o uma porcaria.
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porque os dias são os dias são os dias são os dias são medonhos.

terça-feira, 15 de julho de 2008

Sobre amigos e música

Neste sábado, no bar do Rui, reduto dos músicos de Porto Velho, ouvi do Guilherme Wisnick, filho do José Miguel Wisnick, que estava surpreso ao constatar que havia nesta cidade pessoas interessadas e interessantes em relação à música. Eu adorei a definição, e acho que é isto mesmo. Eu sempre tive vontade de escrever um post sobre estes músicos, o que ainda não será desta vez (acho que todo blogueiro pensa em vários posts que acaba não escrevendo! mas este farei em breve, prometo!). Porto Velho, a cidade que morei por 14 anos e onde sempre venho por conta de que minha irmã mora aqui, tem músicos maravilhosos. E o que é melhor: conheço alguns deles, sendo que ao menos dois deles são grandes amigos. E há outros queridos, queridíssimos. Cada noite em Porto é uma festa com muita música, seja na casa de meu amigo Binho, seja no bar do Rui, que acolhe todos estes músicos loucos. É uma grande confraria com muita "canja" e direito a bastão passando de pai para filho, como é o caso do Bado e Edgar. Vimos este último, filho do primeiro, virando músico aos poucos. E hoje é com um misto de orgulho e alegria que o vemos tocar seu violão com a alegria e sinceridade que já reconhecíamos no seu pai. E o que é melhor: todos são grandes conhecedores de música. Pesquisadores mesmo. É uma delícia. Enquanto o mundo reclama da vida, a gente se encontra para dar boas risadas, falar de música e, claro, beber muita cerveja até que alguém perceba que já estamos todos meio bêbados e é hora de irmos para casa. Foi em um ambiente assim que Guilherme se deu conta de que na Amazônia não se respira apenas "bumba meu boi". Aliás, aqui em Porto, todo mundo quer ser inclassificável e repudia um pouco esta história de "regionalismo". Canta-se a natureza, os costumes, as pessoas, mas em uma sonoridade que vai muito além dos temas recorrentes. A identidade é o mundo todo. Uma vez perguntei a uma amiga o que ela tinha vindo fazer em Porto Velho, e ela me respondeu: "Encontrar vocês, ora!" Esta também é uma boa resposta. Além de vir para cuidar da Jéssica, minha sobrinha-princesa- d*...-amadaalémdaconta, eu gosto de pensar que vim para conhecer estas pessoas, que são muito, muito interessante, meigas, carinhosas, lindas! Eu que não sei nem cantarolar, mas sou uma curiosa inveterada a tudo que diz respeito à música, fui acolhida por todos eles e a cada vez que aqui volto é como se tivesse sido ontem que nos encontramos. Neste sábado, foi lindo. Todo mundo apareceu no Rui sem que nem mesmo precisássemos combinar.

E por conta de sábado tão intenso, passei estes últimos dois dias em um estado de alegria e solidão. Por mim, teria prolongado esta noite por muitas noites. Por esta razão, uma das primeiras coisas que fiz ontem foi visitar a loja de cds que freqüentava quando morava aqui. Lá tem o "Ceará", vendedor que conhece tudo de música e com quem eu batia longos papos. Saí de lá, como sempre saía, com várias preciosidades. Comprei Maré, da Adriana Calcanhoto (merece um post de tão bom!) e , de Caetano (outro post!), além de uma edição comemorativa do Clube da Esquina. Não satisfeita, passei boa parte do dia navegando no site da Tratore atrás de cds que há tempos estou a fim: Chicas, Amy, Chico César, Barbatuques, Alexandre Grooves, Cidadão instigado... Todos entraram na minha sacola de desejos.
E tudo isso porque noites assim me fazem lembrar que há pessoas no mundo que não mastigam apenas o que é enlatado, de fácil digestão. Eu queria que no mundo existissem mais Binhos, Bados, Elisas, Ceiças... Certamente, seria um mundo muito mais cheio de poesia e de espantos.

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Conto para uma noite

Antes do texto: eu passei vários dias com esta conversa na cabeça; com esta noite. Quando ela chegou, eu estava desprevenida... talvez seja por isso que ela ficou em mim. Eu acrescentei uns pontos e suprimi outros; como tudo que vira escrita.

Sobrevivemos. Você também acha? Podemos ficar aqui sentados a noite toda. Agora que estamos seguros. Agora que nada mais podemos fazer um com o outro. Você pode encher de bituca o cinzeiro que comprei em Veneza e, no fim da noite, quebrar o copo de 50 reais que eu não me importo. Tudo cumpre seu tempo; não importa o que a gente pense. Ou queira. Quando uma coisa deixa de existir é porque já era tempo. Ainda atiro pratos um depois do outro se for torturada. Mesmo os comprados em Paris. É que morei lá. Tudo o que nos aproximamos demais perde o glamour. Até Paris. Mudei, mas não tanto assim. Perguntas? Faça-as. Sempre te disse a verdade mesmo quando menti. Responderei antes que fique bêbada demais. Depois não me responsabilizo. É que às vezes tudo. Nunca quis cortar os pulsos. Sempre achei pouco original. Não; não se preocupe. Já faz tanto tempo. Éramos meninos assustados. Hoje podemos conversar a noite toda. Não; não é para ser um museu. Você não vê? Tudo respira. Tanto os livros que já li quanto aqueles que ainda me esperam pedem para sair do lugar. A ordem é apenas aparente; é para me deixar mais segura. Não. Quando fui embora não senti nenhuma culpa. Nem mesmo raiva. Apenas meus ossos doíam. E nos dois meses seguintes as carnes aumentaram. Era um pesadelo, não era? Naquela loucura, o que havia de menos triste já estava distante de nós. E eu também. Seis meses? Tudo isso? Não me lembrava. É que já são quinze anos. Ou dezesseis? Às vezes, vomito pela manhã. Mais uma? Vamos ficar bêbados. Sua garota linda que está aí ao seu lado e nos olha desconfiada vai ter que agüentar a conversa de dois bêbados ficando velhos e bêbados. Eu não sei por que, mas a cada vez que te vejo me vem aquele mesmo sentimento de ternura. Não acredito em você quando me diz que ainda é daquele jeito. Tudo tem sua história. Até mesmo aquele quadro de madeira talhada estava à sua espera para ser posto na parede. Claro que sei onde está o cd de Pink Floyd. Só não lembro mais qual era sua música preferida. E é mentira quando digo que não ouço mais Janis Joplin. Raramente; mas ouço. Nenhum arrependimento. Eu só queria não ter marcas no corpo. Nem tiros no teto de zinco quente. Ou ter que baixar os olhos quando sorria. Feridas nas mãos cicatrizam melhor. Descobri depois. Não; de jeito nenhum. Não foi você; fui eu. Talvez você se lembrasse se tivesse sido você. Sim; sinto saudade de acordar com Joplin em cima de mim. Tantos pêlos no nariz. Se me vinguei agora que tudo parece estar bem? É que cada história só interessa ao seu protagonista. Adquiri apenas uma certa permissividade com os outros encontros. Que advém da certeza de que posso seguir sozinha. Eu só queria sobreviver; depois é que pensei que podia também viver. Não; não. Ainda tenho insônia, mas nunca mais como aquelas de domingo regadas a Charles Bronson. Onde será que consigo cianureto; talvez eu pensasse. Conversa. Nunca quis te matar. Morrer, sim. Sei lá se tenho mágoas. Com estas perguntas, parece que você as tem. Ainda bem que estou encostada aqui. Protegida pelos deuses da música. Nunca mais senti aquilo. Querer morrer por causa do outro é foda, mas às vezes se confunde com vida. É um baita poder, não é? Se é verdade? Lembra daquela noite? Você não vai lembrar. Quando é a carne do outro que sangra. Mas eu lembro. O mar enquanto eu pensava: “é só mergulhar. E, pronto, acabou!”. Nem para ser original. É que tem outras maneiras mais fáceis. Ir embora é uma delas. Sim. Vamos comemorar. São bodas de alguma coisa. Faremos uma festa. Depois a gente vai ao cartório e acaba com isto. Quero só ver a cara de todo mundo quando a gente convidar. Deixe sua garota linda perguntar também. Eu respondo. Como descobri? Fui experimentando. Pareço estar bêbada? Não; não me sinto fracassada. Não fiz promessas a ninguém. Menos ainda a mim. Se estou aqui, é porque devo estar. Esta é a décima? É verdade; eu não bebia antes. Era uma menina boba que podia ser castigada pela supressão do ingresso de uma banda sertaneja. E você me obrigando dias e noites a ouvir os gritos daquele grupo de rock. Como é mesmo que se chamava? O vocalista era lindo antes de ficar inchado de tanto beber ou se drogar; não sei. Não era? Mas você pôs a bandeira na parede por causa do guitarrista, não foi? Ainda bem que você me obrigou. Seria muito triste se alguém ainda pudesse me castigar com algo tão insipiente. Eu não acredito mais em castigo. Talvez não seja mais cristã. Você não vê? Agora as paredes também estão cheias de loucos. Lynch Almodóvar Fellini Bosch Beckett Giacometti. Todos loucos. O quê? Mais uma pergunta? Eu era louca por você. É por isso que você me afetava tanto. Por isso, eu obedecia. Ah, sim, havia o medo também. Aquele vídeo triste foi o maior soco da minha vida. Meu andar desapartado do corpo. E depois você me arrastando. Guardo tudo. As fotografias estão ali. Quer ver? Não fui verdadeira? Já te disse: sempre falei a verdade. E não importa, não é? Eu não queria mesmo. Espontâneo ou provocado. Não existiu porque não era tempo. Acho que você também não. Melhor assim. Hoje a gente pode conversar a noite toda. Talvez você possa me oferecer um cigarro. Não; eu não fumo. Muito raramente. É que tem dias que a noite é assim mesmo.

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Do outro lado do espelho


Dias de professora. A disciplina que me cabe neste momento é Literatura Portuguesa I. E claro que eu preferia estar lendo outros livros, mas tenho me divertido. Tem os autos de Gil Vicente, tem Camões, e a possibilidade de fazer a ponte com Drummond, com Haroldo de Campos etc, até Dom Quixote já rolou. É uma alegria ler estes livros e imaginar modos de fazer com que os alunos leiam. Meu objetivo é sempre pensar no presente. E os alunos já ouviram desde "cantigas de amigo" interpretadas pelo grupo Quadro Cervantes até Maria Bethânia interpretando Olhos nos olhos, do Chico. Alguém pode dizer que essas associações são meio óbvias, mas, em um país em que as pessoas chegam à Universidade com muito pouco conhecimento da cultura letrada, a obviedade nem sempre é tão óbvia! Até para percebermos a obviedade, é preciso conhecer! Digo que Olhos nos olhos é uma cantiga de amigo “contemporânea”, e que isso faz toda a diferença, porque contém também outras características que a aproximam, por exemplo, das cantigas satíricas. O gênero puro não existe mais. Ou nunca existiu.

Minha única ambição é não mostrar a literatura como uma coisa morta, encalacrada na história. Quero crer que levo o óbvio e tento acrescentar algumas “dificuldades” ou simplesmente novidades. É por isso que tem lugar até para Fernanda Takai, vocalista do Pato Fu, nas minhas aulas. E pergunto: “Conhecem a Fernanda?” E muitos não a conhecem. Ambição na medida.

Parto do princípio de que há muito a aprender. Aprender a pesquisar, a ler, ou simplesmente a escrever. Os alunos estão escrevendo na sala para evitar o “corta-cola” da internet. Isso me dá a oportunidade de conhecer as dificuldades de cada um – e comentá-las. E também de exercitar o que sempre achei que era um problema da Universidade, que acaba sendo um lugar em que se escreve muito pouco durante as aulas. Falei escrever, e não copiar. Como estão no terceiro período, os alunos ainda estão meio atônitos com a obrigatoriedade do comentário. Como fazê-lo? Como ler um conto, um poema, e intermediar com a teoria lida na aula anterior? Eu respondo tudo, e dou exemplos, e repito. Hoje me flagrei dizendo que os termos interessam muito pouco. Personagens planos, redondos, são meros conceitos – e antiquados! - e o que importa é internalizá-los até que se dissolvam, sobrando apenas a idéia que permitirá reconhecer o modo como a personagem é construída. Não sei o que a professora de teoria diria se tivesse me ouvido, mas sei que acredito cada vez menos no ensino de uma teoria calcado no aprendizado de termos, fórmulas, exemplos... Acredito muito mais na junção de sensibilidade com conhecimento, indo ao passado e voltando ao presente de um modo quase brincalhão, teatral. Tomara que seja este o caminho.
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sexta-feira, 13 de junho de 2008

Vita nuova

Eu vim aqui dizer que ainda não sei o que dizer da minha vida nova. Quando escrevi no post anterior, "Agora, vou para a Vida como ela é", falava dos textos de Nelson Rodrigues, mas também da minha própria vida. Explico: eu sempre achei - e disse por aqui - que o doutorado era um hiato. E foi como tal que o vivenciei. Vivi tudo e de forma muito inteira. Para além dele, é a lei do trabalho que sobressai. A lei da sobrevivência. Sem rendas, sem heranças e sem fortunas, todo hiato é apenas isto: hiato. Encontrar de imediato um emprego, ou retornar ao que eu tinha, era a lei imposta desde antes da defesa de doutorado. Era preciso sair do hiato, enfim. Abrir outras janelas. Foi quase por acaso que as abri, em um fim de tarde em que o horizonte era de impotência e espanto. Porque ninguém me diga que dinheiro não faz falta. Precisamos de grana para cuidar do outro, ou para cuidar de nós. E neste fim de tarde, uma voz que vinha de longe me pedia ajuda de forma muito cortante. Abandonei ali os planos de ficar em Sampa, ao menos, por seis meses, lendo, estudando, tentando concursos. E me apeguei à oportunidade mais visível, convicta de que era hora de voltar ao mercado de trabalho.

De certo modo, fiz os preparativos de volta para casa. Fiz então um concurso para professor de literatura para a Universidade onde fiz o curso de Letras. Fiz assustada e cética - eu nunca acredito que posso realmente passar em qualquer que seja a "provação", embora eu sempre passe, e com méritos. Eu, como Nelson Rodrigues, também tenho uma menina com fome dentro de mim sempre pedindo desculpa pelo que consegue. Pois foi bonito. Binho, meu amigo de tantos anos, me deu todo suporte - material e psicológico. Ter o outro acreditando em ti é sempre um acalanto. E eu tive muitos: uma torcida digna de final de campeonato, que me mostrou como tem gente no mundo muito a fim que tudo dê certo para mim. Passei, pois. Do medo nada disse. Nos dias de concurso, escrevi e falei com a firmeza que os deuses nos ofertam em momentos assim. Só me restou agradecer e comemorar. E arrumar as malas.

Mas arrumar as malas é sempre uma dor. Mesmo quando saio de férias, ou vou para uma viagem que quero muito, me vem um nó que se instala não apenas na garganta, mas no corpo todo. O corpo dói; as lágrimas descem, descem. Desta vez, não foi diferente. E foi ainda mais visceral. Despedidas simbólicas e reais marcaram impiedosamente os meus últimos dias em Sampa. E deixar esta cidade, que aprendi a amar e onde eu moraria por toda a minha vida se assim pudesse, impôs a mim uma espécie de luto. Porém, choraminguei pouco, pois sou adepta de que, sobretudo no sofrimento, é preciso manter uma certa elegância. E apenas em alguns momentos, senti-me, de fato, um pouco derrotada.

Ora, mas o que falo? Virar professora universitária - e de uma federal - é uma boa pedida; tem muita gente querendo. Eu, inclusive, estava muito a fim. Há senão, pois? É que eu queria a universidade, a cidade, o amado, os outros sonhos; todos ao mesmo tempo. E me vem outro espanto: tenho muitas outras fomes além daquelas que a menina sente.

Não digo mais nada: aqui estou. A mudança chegou antes de mim. Encontrei de imediato pessoas prestativas que me ajudaram enormemente. Minha tia Fá veio comigo e, juntas, organizamos quase tudo em uma semana: apê alugado, livros organizados nas estantes montadas, quadros nas paredes, objetos de desejo comprados: depois de quatro anos, durmo novamente em uma cama de casal - atravessada, para melhor senti-la como minha. Cuido com carinho do cantinho que será meu "paraíso artificial" pensando em cada detalhe. Eu sou uma tartaruga: parto para o mundo sempre levando nas costas tudo que me pertence. Dá trabalho, mas eu não saberia ser diferente. O filho da minha prima, no meio da arrumação, apaixonou-se por uma pequena pedra rosa e pediu para ele. Eu relutei: pedrinha de nada; mas por trás dela toda uma história. E é por isso que minhas casas viajam comigo: porque tudo tem uma história. Que sobreviveria sem o suporte material, mas que com ele melhor me mostra aquilo que sou. Tenho uma nova casa, pois. E aproveito para furar paredes, colocar ganchos de rede nas paredes, esperando que ela me acolha quando os dias forem cinzas e também quando forem azuis. Quando a saudade apertar demais, do amado, da cidade, eu arrumarei minha bolsa e irei ao encontro deles. Porque do dinheiro nada economizarei. Que ele me sirva apenas para cuidar de mim e para cuidar do outro - daqueles que me são importantes e me pedem ajuda transformando tardes em tardes tristes.

E por quanto tempo? Quando será o próximo deslocamento? Haverá, certamente. Mas quando? Não sei. Aqui estou. E do porvir, sei apenas do mistério.

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Nelson, não o Freire, mas o Rodrigues

Para mim, Nelson Rodrigues é uma daquelas personagens comuns no meu - ainda vasto - buraco literário. Pensava sempre: “Devo ler”. E ia sempre adiando. Sua produção teatral também não me atraía o suficiente. Mas por quê? Simplesmente não sei. Sei que é o mais importante dramaturgo destas paragens, assim como sei da fama das suas crônicas. Eu tinha, e continuo tendo, curiosidade, mas algo sempre me afastava. Porém, colhia informações aqui e ali, atiçando minha curiosidade. E para começar escolhi o livro indicado pelo amigo Binho: O óbvio ululante, reunião da crônicas publicadas no Jornal O Globo durante os anos 1960 e que compõem o início do que ele chamou de Confissões. Acho que é um bom começo; ainda mais agora publicado pela Editora Agir, em uma edição caprichada. Antes de começar a ler, tinha visto “Senhora dos Afogados”, produzido pelo Antunes Filho, e gostado muito.

Ora, são tantas as informações sobre Nelson Rodrigues que me custa ter o que dizer. Todos o conhecem; se não o leram, viram a série “A vida como ela é”, do Fantástico. O que falar de um autor tão conhecido? Sempre páro diante deste espanto, diante do que dizer de escritores já tão ditos, com medo da repetição, do óbvio. Nelson é o “reacionário” mais lido e comentado da literatura brasileira. O que acho, e não constinui nenhuma novidade, é que isto é o que há de mais fascinante no seu texto: seu reacionarismo, pois é o que permite uma escrita dissonante. Como leitor, vamos da risada ao mais terrível ódio por ele. Ora, e eu creio que, ao menos em O óbvio ululante, Nelson nada tem de óbvio. Ele vai contra o “coro dos desafinados” de um modo implacável e terrível, mas com uma lucidez que quase nos arrasta com ele. Ele é, de fato, o menino com fome a quem sempre retorna: fome de polêmica, de modo desabusado e perigoso. Ousar pensar diferente não deixa de ser fascinante, embora seja fácil reconhecer seus enganos e suas ausências (nenhum comentario ao AI 5 em todo o ano de 1968)!

É isto: Nelson quase nos convence; e em tempos magros como os de agora fica fácil imaginar uma “esquerda de botequim”, e um ou outro que se promove à custa da fome. Lembrei agora de uma daquelas capas apelativas da Revista Bravo, que dizia o seguinte: “Por que não temos mais um cronista como ele?”. Eu não poderia assinar embaixo do que esta pergunta retórica sugere, até porque leio muito poucos cronistas – vez ou outra leio a do Cony, na Folha de São Paulo, e acho de uma sem-gracice sem tamanho. Se existisse apenas Cony cronista eu concordaria de imediato com a Bravo. Pois, sem dúvida alguma, Nelson era um cronista completo, que sabia lapidar cada palavra atrás da frase perfeita – e são tantas!

Enquanto eu lia, porque tinha lido A descoberta do mundo, da Clarice, a pouco tempo, pensava em como os dois são diferentes:: Clarice sentia culpa de escrever para o jornal, e seu fascínio pelo real era acompanhado de um medo terrível; já Nelson estava totalmente à vontade na sua função de cronista: o real lhe fascinava na crueza mais perversa e não parecia se sentir menos escritor por assim escrever.

Agora, vou para “A vida como ela é”.

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Dias de família

Comecei várias vezes um texto sobre os dias em que minha família esteve aqui. E eram tantos os assuntos que não encontrei o formato ideal. Mas quero deixar registrado que foram muitos dias de pura beleza. A família Magalhães se juntou várias vezes ao redor da mesa farta. Meu pai foi o último a ir embora. Maneca foi a primeira a chegar. Jéssica foi a que ficou menos tempo. A “princesa”, trabalhando, acabou vindo apenas por um fim de semana. Há aí três gerações::: meu pai, minha irmã mais velha e minha sobrinha. E ainda vieram mana Mácia, meu irmão Ferdinando e Marie, meu anjo ruivo, que já faz parte da família. O Norte e o Nordeste pousaram no Sudeste. Eles foram acolhidos não apenas por mim, mas também pela família do amado, que também é minha, já que somos primos. Nestes dias, foi um tal de comparar rostos, olhos, gestos! Emocionante saber que vieram para a “selva de pedra” por minha causa. Foi por amor, posso dizer. Houve muita festa. E as compras não podiam faltar. Nem a programação cultural: um entra e sai de museus, parques, shows. Foi bonito ver os dias se fazendo, adequando-me a uma e outra vontade, seguindo e/ou propondo um e outro passo. E, agora, escrevendo pela enésima vez, é que entendo por que não dá para sistematizar em escrita, afora minha incapacidade de descrever. Como descrever o que é da ordem apenas do vivido? Vivemos e foi maravilhoso; eis tudo.
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* Coloquei esta foto porque sua imagem meio borrada me fez pensar que agora tudo já é memória.

terça-feira, 13 de maio de 2008

Nelson Freire

Nelson Freire é um duende. Eu que nada entendo de música clássica passo horas ouvindo-o tocar Chopin. Com o coração aos saltos, fui ouvi-lo de perto no Cultura Artística, na terça-feira, dia 6. Vinha de longe o meu desejo. A série era azul: o último programa foi 23 minutos de Chopin: Sonata para piano n. 3, em Si menor, opus 58. Tantos números compõem a minha emoção. Penso que não desgrudei meu olhar um minuto do seu rosto (impossibilitada que estava de ver as suas mãos) – e senti tanta emoção ao ver expressa no rosto de Nelson Freire sua emoção ao tocar. Foi difícil segurar os soluços. As lágrimas nem tentei. Meu coração estava sobressaltado e continuou assim por muito tempo depois. Na noite fria, eu sentia em mim tanta doçura, daquelas que apenas um verdadeiro artista pode nos fazer sentir. Não era felicidade o que me acompanhava. Era espanto.

terça-feira, 6 de maio de 2008

Operação Defesa

Este foi o título do email que Marcos, meu orientador, mandou para mim três dias depois da defesa. Foi exatamente assim: uma verdadeira operação, mas não de guerra. Havia tanto amor vibrando no ar que acho difícil resumir o que foram estes dias. E o que foi este dia. Já disse mais de uma vez que preferia que ele não existisse. A espécie de confissão-inquisição que é a defesa de uma tese de doutorado sempre me causou um terror inominável. Então, não falarei da minha performance. As fotos que mostram meu corpo curvado dizem mais do que eu poderia dizer. Falo então daquilo que recebi, de toda generosidade que permeou meu terror. Muitos vieram. Minha família foi chegando aos poucos: Maneca, minha amada irmã de Porto Velho, foi a primeira a chegar. Passeamos pela cidade como quem ama. Fizemos comprinhas. Visitamos museus. Assistimos à peça de teatro. Minha amiga francesa Marie, que está morando em Porto Velho, chegou dias depois com a Jéssica, minha sobrinha. E pai e minha irmã Mácia chegaram de Fortaleza, depois de perderem o avião, no dia de viajarmos para São José do Rio Preto, onde foi a defesa. Não deu nem para sentir ansiedade pré-defesa, tamanho era o clima de festa que reinava. A viagem até lá, na companhia de todos eles e mais das pessoas daqui (éramos 14 ao todo), foi uma festa. Parecia que estávamos indo para um fim de semana no campo.

Foi assim, rodeada de gente que amo, que suportei o dia. A banca também foi generosa. Eu inventei uma imagem para o que aconteceu: eu fui barata e borboleta no mesmo dia. O que digo? Penso que foi muito bonito. Havia muita emoção, como se fosse uma conversa em que cada um queria acrescentar àquilo que eu tinha escrito. Custo a acreditar que aquilo que escrevi de maneira incerta provocou tantas palavras generosas, tantos elogios. Acho que meu trabalho sustentou todas as questões; mesmo aquelas do super especialista de Derrida, Evando, que produziu o momento “barata”. Explico: ele não me pisou. Acho que ele me degustou com a mesma ânsia da personagem de Clarice ao comer a massa da barata: com espanto; atrás do “acréscimo” impossível. Eu tive medo, claro. Só o meu trabalho continuou tão impassível e seguro como parece que é. O fato de ser ele a estar ali já me dizia da confiança que o Marcos tinha no trabalho. Esta confiança esteve em todos os discursos. Inclusive no meu. Eu afirmei que estava muito feliz com o que tinha feito. Que não tinha feito como tinha imaginado, porque talvez não tenha imaginado. Eu me lancei no desconhecido em um gesto quase suicida: eu nada sabia de Derrida, e, por não saber, queria saber. Quem sabe o quanto este filósofo é difícil, chegando a ser incopreensível, pode deduzir que falar em gesto suicida não é mera imagem. E eu quis saber do único modo que sei fazer: de modo apaixonado. Ter borboleteado com os “moços” da banca foi uma alegria: Arnaldo, Orlando, Alcides, Evando e também o Marcos: foi tanta palavra bonita que nem sei. A voz ficou embargada várias vezes: ora de emoção, ora de nervosismo.

Sendo assim, trago comigo apenas uma certeza: a de que minha tese, no que ela tem de promessa e no que tem de concreto, expressa minha paixão. Eu nada fiz apenas como demanda institucional. Não foi para isso que fiz doutorado. Foi para experimentar. E experienciei muito. Vivi tudo e tão intensamente. Evidentemente, se assim foi, precisava ter festa. E foi com a mesma alegria que depois nos esbaldamos até às 5 da manhã na chácara da sogra do Marcos: muita cerveja, muita carne assada (obrigada, Mabel, churrasqueiro-mor!) e ainda com música ao vivo. Uma bela cantou a noite toda como um rouxinol, além dos “meninos” que deram canjas. Foi uma grande noite.

Assim foi. Ao menos, será assim que vou guardar este dia na minha memória. Obrigada a todos! Não saberei dizer o quanto VOCÊS me fizeram feliz! E o quanto sou grata a todos que fizeram da inquisição uma festa até de manhã.

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Meu pai vem

Meu pai vem para minha defesa de doutorado. Meu pai não entende de defesa nem de doutorado. Ele sabe que estudo, mas talvez nunca tenha parado para pensar porque estudo há tanto tempo. Sabe que vou ser “doutora”, mas não entende para que serve ser doutora em Letras. Nunca falamos sobre isto. Sei que ele sabe que serei doutora porque da última vez que estive com ele, na pequena cidade onde mora, que é a mesma onde cresci, me deixei levar mansamente pelo seu braço enquanto ele ia me mostrando às pessoas e dizendo que eu ia ser doutora e que estava indo para a França. Repetia isso a um e a outro: para o dono do boteco onde bebe suas biritas quando pode, para a mulher cheia de anéis do supermercado onde pendura a conta todo mês, para seu compadre que estava na calçada, para seu amigo mouco e para tantos outros que agora já não lembro. E o fez com um misto de orgulho, humildade e alegria. Eu me deixei levar em estado de mansidão tendo em mim o mesmo sentimento indefinível, não por mim, mas por aquele homem que me ensinou desde cedo o que é ternura. O que nos levava àquele dia nada mais era do que o estado de confiança e amor que sempre tivemos um pelo outro. Ele não acha que precise saber o que é doutorado em Letras, basta-lhe saber que é importante para mim; e isto é uma grande forma de confiança; basta que eu lhe diga que é importante para que ele me leve pelo braço, como a dizer: “Eis a minha pequena, ela faz o que não sei o que é e vai para onde não sei onde, e me diz que é bom, e nela acredito e por isso vos digo”. Quando lhe telefonei de Paris, em uma daquelas noites frias de delicadeza, ele me perguntou se lá votavam em Lula. E eu lhe expliquei que não – que lá o presidente seria um homem que não era bom como Lula. Meu pai nunca votou na direita e me disse uma vez que Lula era um homem bom. Por isso, perdoei a mim mesma de tal excesso de maniqueísmo. Ele é um homem que sonha e tem muitos mundos dentro de si. Cresci vendo-o falar sozinho. Quando criança não entendia por que muitas vezes ouvia minha mãe ou minhas irmãs mandando-o parar. Mas é certo que em algum momento desconfiei que não era todo pai que falava sozinho, mas aí já tinha aprendido sua lição: também passei a falar sozinha. Entretanto, sem a sua mesma coragem, aprendi a não mexer os lábios quando inventava histórias dentro de mim. A sua linguagem, até hoje invejada por mim, embora eu saiba que não serve para as demandas práticas da vida, nunca o abandonou e e é com ela que ele se diz aos bichos, às plantas e também aos homens. Suas frases esparsas pedem ouvidos meigos. Noite destas sonhei que ele era uma borboleta. O sonho me pareceu bem apropriado. Meu pai sempre cheirou suas flores, ninou-as, abraçou-as, dançou com elas e, quando uma única vez bateu em uma delas, pediu perdão com choro sentido. Desde agora faço planos de levá-lo ao cinema, ao Masp, andar com ele pela Sé, pelo parque. E mesmo se nada disso for feito, sei desde agora o que ele vai contar aos seus amigos quando voltar para casa: “Vi tanta coisa bonita...”. Pois os olhos do meu pai, embora turvados às vezes pela dor da vida, vêem tudo bonito.
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Foto: minha sobrinha, meu pai e Lelê, minha irmãzinha.

sexta-feira, 18 de abril de 2008

O canto que vem do frio

No fim de semana que passou, eu, o amado e AnaFlor fomos ao show de Vitor Ramil e Marcos Suzano, lançamento do cd dos dois, Satolep Sambatow. Suzano dispensa apresentações. Sua percussão, que ficou conhecida pelo pandeiro, e hoje flerta com o eletrônico, é famosa. Suas parcerias dão sempre o que falar. Eu adoro o Olho de peixe, com Lenine. Já Vitor Ramil é menos conhecido, mas não menos talentoso. Ele é um compositor de primeira. E vem do frio, de Pelotas, no Rio Grande do sul. Desenvolve a estética do frio, como ele denominou o título de seu livro. Sua música, então, nada tem a ver com a “festividade” do verão: é intimista, cheia de imagens surreais. Desde que o ouvi, lembra-me qualquer coisa de cancioneiro. Um homem contando e cantando a nostalgia com uma força poética incrível: as letras são muito poderosas e trazem mesmo esta estética da solidão, um certo modo nostálgico envolvido em mistério; a semântica nunca é exata, transfigurando-se sempre em alguma imagem indefinida, como se a cada objeto, seja pessoa, seja sentimento, seja lugar, fosse dado um outro sentido, um outro lugar. Ainda não posso falar muito. Tenho apenas um dos seus cds: o Tambong. E ouvi há muito tempo Longes e Ramilonga. Foram estes que me fizeram ir ao show. Minha parca memória guardou-os como um momento de pura beleza. O amado depois me disse que a voz dele parece com a de Caetano. Parece mesmo, o que não é demérito, nem mérito. Ramil tem um estilo que é dele, que vem das suas belas letras acompanhadas pela busca da melodia perfeita ou da palavra exata. Vi que ele tem uma paixão por Bob Dylan. E pelos poetas, colocando-os lado a lado da sua poesia. Em Tambong, tem uma versão de Gotta serve somebody e, no show, ele cantou Joquim, que está em outro cd e é uma versão de Joey. Musicou também o belo poema de Paulo Leminski que me me arrepia cada vez que a ouço:
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Desta vez não vai ter neve
como em Petrogrado aquele
dia. O céu vai estar limpo e o
sol brilhando. Você dormindo
e eu sonhando.
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Nem casacos nem cossacos como
em Petrogrado aquele dia.
Apenas você nua e eu como nasci.
Eu dormindo e você sonhando.
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Não vai mais ter multidões gritando
como em Petrogrado aquele dia.
Silêncio nos dois murmúrios azuis.
Eu e você dormindo e sonhando.
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Nunca mais vai ter um dia como em
Petrogrado aquele dia. Nada como um
dia indo atras de outro vindo. Você e eu
sonhando e dormindo.

Ramil está bem acompanhado. Seja pelo parceiro de agora, Suzano; seja por Katia B, que participa do novo disco e cantou no show; seja pelos poetas que lhe acompanham; e pelos músicos também, ele é mais um tesouro da música brasileira. Pena que tão pouco conhecido por estas bandas! Alguns momentos com letras de Tambong:
















Vou andei. E me chegando assim te cercarei.
Digo, aqui tô eu. Que te amo e às tuas pernas quero bem.
...
E tudo isso foi no mês que vem.
Foi quando eu chegar. Foi na hora em que eu te vi. (Foi no mês que vem)
















Pintei de verde a grama em dia claro.
De verde forte e falso e vivo e raro.
Que seja a grama brutal. Se eu quero a cena ideal (Grama verde)



As imagens descem como folhas. No chão da sala. Folhas que o luar acende. Folhas que o vento espalha. Eu plantado no alto em mim. (A ilusão da casa)

















Quarto de não dormir
Sala de não estar
Porta de não abrir
Pátio de sufocar (Espaço)



Dia de sair. Ir naquela idéia radical. Tudo o mesmo, nada sendo igual. Tudo pra valer.

















Estrela, estrela. Como ser assim.
Tão só. Tão só. E nunca sofrer.