
Minha amiga Mari, que me indicou Valsa com Bashir, fez uma bela leitura sobre o filme nos comentários, preenchendo os vazios que eu fui deixando. Resolvi colocar aqui. Não resisti e escrevi um pouco mais depois do texto dela:
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"Milena, sim, concordo que cada memória apresenta buracos! Não é possível reconstruir o vivido, ele busca respostas nos outros, mas estes também apresentam lembranças incompletas. Mas a impossibilidade da reconstrução, a meu ver, se configura pelo que parece ser o grande tormento: o silenciamento diante do massacre. No final do filme, eles assistem às execuções, aos bombardeios do topo de um prédio! Nós assistimos aos bombardeios pela televisão!! É como se o diretor perguntasse o tempo todo: 'como, por que ficamos em silêncio?' Então, se nada ele fez em termos de ação, houve a inação. Lembra da cena em que aparece a família sendo excutada? Houve um silêncio enquanto um grupo agia na calada da noite! O esquecimento fica inaceitável! Lembra do Fernando Bársena que, apoiado na Hannah Arendt, fala do horror dos campos de concentração? No final do texto, Bársena diz que temos que pensar, discutir aquele horror para que não deixamos que ele volte a acontecer. Rememorar, construir uma memória, mesmo que esfarrapada, do que aconteceu talvez seja a forma que o diretor de Valsa com Bashir encontrou de lutar contra o silenciamento da memória (que esquece), contra o normalização do massacre (a autoridade é avisada do que estava acontecendo, mas volta a dormir). Nesse sentido, as imagens finais, naquele tom azul, funcionam numa fronteira de contradição. A cor remete ao que é irreal, mas o mostrado não permite que se fique nesse lugar do sonho, de um possível acontecido! Os corpos retorcidos, empilhados, aquele choro das mulheres (sempre elas, o que lembra as mães argentinas gritando pelos filhos que desapareceram nos porões da ditadura) nos arrancam desse lugar. Funciona como uma sopapo bem forte!!! É como se dissesse: é proibido esquecer!"
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Sem dúvida, é uma luta contra o silenciamento, contra a normalização da barbárie. É um gesto político. Os artistas têm feito o papel que a História sempre fez de maneira incompleta, uma vez que se baseava em um tipo de "leitura por cima", que se desejava imparcial, mas que resultava em um trabalho conivente com a barbárie. Quando destaquei a mistura do real e do sonho, não era no sentido de diminuir a força dos acontecimentos, mas de enfatizar este olhar de dentro, o olhar da testemunha, em que o horror é sempre muito maior e, por isso, resulta em uma memória esburacada. O fato de existir o filme não diminui a culpa, apenas ajuda a conviver com ela; é o legado da nossa geração e das futuras. O que o filme faz é nos dizer que não podemos esquecer tal legado. A força de um filme como este, ou de um livro que testemunha os horrores da Shoah, ou de um quadro como Guernica, está justamente no fato de não ser um discurso da História. O que eles relatam não é um possível acontecimento (e eu não tive a intenção de afirmar isto); o que relatam é um ponto de vista subjetivo de um acontecimento, mas não menos significativo. Há algo mais forte do que um "estive lá", um "eu vi", um "eu vivi"? Não à toa as testemunhas são a principal arma que o Tribunal Penal Internacionacional dispõe para colocar na cadeia aqueles que cometeram crimes contra a humanidade. Daí vem a beleza trágica de um filme como Valsa com Bashir - no meio de uma guerra, às vezes a única saída é dançar. Dançar conforme a música das metralhadoras. Sobreviver a isto é que é o verdadeiro horror. Touché para Folman.
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"Milena, sim, concordo que cada memória apresenta buracos! Não é possível reconstruir o vivido, ele busca respostas nos outros, mas estes também apresentam lembranças incompletas. Mas a impossibilidade da reconstrução, a meu ver, se configura pelo que parece ser o grande tormento: o silenciamento diante do massacre. No final do filme, eles assistem às execuções, aos bombardeios do topo de um prédio! Nós assistimos aos bombardeios pela televisão!! É como se o diretor perguntasse o tempo todo: 'como, por que ficamos em silêncio?' Então, se nada ele fez em termos de ação, houve a inação. Lembra da cena em que aparece a família sendo excutada? Houve um silêncio enquanto um grupo agia na calada da noite! O esquecimento fica inaceitável! Lembra do Fernando Bársena que, apoiado na Hannah Arendt, fala do horror dos campos de concentração? No final do texto, Bársena diz que temos que pensar, discutir aquele horror para que não deixamos que ele volte a acontecer. Rememorar, construir uma memória, mesmo que esfarrapada, do que aconteceu talvez seja a forma que o diretor de Valsa com Bashir encontrou de lutar contra o silenciamento da memória (que esquece), contra o normalização do massacre (a autoridade é avisada do que estava acontecendo, mas volta a dormir). Nesse sentido, as imagens finais, naquele tom azul, funcionam numa fronteira de contradição. A cor remete ao que é irreal, mas o mostrado não permite que se fique nesse lugar do sonho, de um possível acontecido! Os corpos retorcidos, empilhados, aquele choro das mulheres (sempre elas, o que lembra as mães argentinas gritando pelos filhos que desapareceram nos porões da ditadura) nos arrancam desse lugar. Funciona como uma sopapo bem forte!!! É como se dissesse: é proibido esquecer!"
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Sem dúvida, é uma luta contra o silenciamento, contra a normalização da barbárie. É um gesto político. Os artistas têm feito o papel que a História sempre fez de maneira incompleta, uma vez que se baseava em um tipo de "leitura por cima", que se desejava imparcial, mas que resultava em um trabalho conivente com a barbárie. Quando destaquei a mistura do real e do sonho, não era no sentido de diminuir a força dos acontecimentos, mas de enfatizar este olhar de dentro, o olhar da testemunha, em que o horror é sempre muito maior e, por isso, resulta em uma memória esburacada. O fato de existir o filme não diminui a culpa, apenas ajuda a conviver com ela; é o legado da nossa geração e das futuras. O que o filme faz é nos dizer que não podemos esquecer tal legado. A força de um filme como este, ou de um livro que testemunha os horrores da Shoah, ou de um quadro como Guernica, está justamente no fato de não ser um discurso da História. O que eles relatam não é um possível acontecimento (e eu não tive a intenção de afirmar isto); o que relatam é um ponto de vista subjetivo de um acontecimento, mas não menos significativo. Há algo mais forte do que um "estive lá", um "eu vi", um "eu vivi"? Não à toa as testemunhas são a principal arma que o Tribunal Penal Internacionacional dispõe para colocar na cadeia aqueles que cometeram crimes contra a humanidade. Daí vem a beleza trágica de um filme como Valsa com Bashir - no meio de uma guerra, às vezes a única saída é dançar. Dançar conforme a música das metralhadoras. Sobreviver a isto é que é o verdadeiro horror. Touché para Folman.
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Imagem: http://blog.uncovering.org/archives/2009/01/valsa_com_bashir.html


















Estas frases abaixo são do voltume 1 de A volta ao dia em 80 mundos, dois livrinhos geniais de Julio Cortazar, indicação que eu fisguei nos dias maravilhosos que passei na casa da Dêamada, em São José do Rio Preto - aquele tipo de cidade que amo porque amo algumas pessoas que lá habitam. Devido à fisgada, eu li também os dois volumes de Último round, que têm a mesma estrutura. Se estes livros não tivessem sido publicados há mais de 40 anos, com certeza teriam sido, antes, blogs. Suas estruturas anti-estruturas, que aceitam como oferendas todas a sorte de colagens, são pequenas máquinas de invenção, criatividade, humor, ironia, ternura, etc. etc. etc. Cabe muito nestes etc.: poemas, ensaios, contos, notícias, desnotícias, fotografias do Cortazar e de outros, desenhos ... A ideia parece ter sido registrar tudo que lhe interessava, como um grande caldeirão onde se faz uma sopa com todos os restos da geladeira. E quem já leu qualquer outro livro deste escritor deve saber o quanto ele é genial (de fato, este é um adjetivo que se pode abusar ao nos referirmos a ele). Para mim, Todos os fogos, o fogo é um dos melhores livros de conto de toda a literatura. E O jogo da amarelinha é daqueles livros que esticam ao máximo qualquer conceito de literatura. Porém, deixemos de conversa, e vamos às frases, não sem antes confessar de que eu adoraria tê-las inventado e que elas pudessem representar o que, para mim, é este "Nenhum lugar":