terça-feira, 27 de outubro de 2009

mutum


Mutum no dia do aniversário, depois que os amigos se foram, entre uma mamada e outra. e no silêncio, lágrima rolou. mutum dentro de mim. um sertão. ali, a infância perdida. aquela tristeza. aquele mundo adulto aniquilando o mundo criança. aquele choro sentido, muitas vezes. tantas vezes que foi preciso esquecer toda a infância. se houve felicidade, algum dia, não há como saber. as memórias são todas memórias tristes. como quase todas as memórias. o sertão. a paisagem, de cócoras no parapeito da cozinha. as roupas voando no varal. a louça suja nas tábuas velhas servindo de pia. a água caía no chão e respingava nos pés cheios de frieira. as paredes de tijolos descobertos. e muita, muita areia. por toda parte. sapos na boca da noite. pular entre um e outro. brincar escondida, que ninguém soubesse. os olhos arregalados. os olhos bem apertados fingindo dormir enquanto ouvia a mãe bem tarde da noite. só bem tarde da noite. areia quente meio dia e meia na hora de voltar da escola. estômago que nunca parava de roncar. o desejo de que sobrasse um ovo ao menos uma vez. uma única vez e já teria sido o bastante. cadê a vida, ela existe, deus? deus era um ser cruel que matava os cachorros aos poucos sem que nada pudesse ser feito. deus abandonava a menina magrela e amarela fraca das pernas. deus na terra do sol só existia por teimosia. mutum era um mundo e também um estado.



o certo é que nunca se parte de vez de mutum. embora a única chance de se salvar seja ir embora. seja emudecer. até que ele volta sem avisar.

mutum é o filme de sandra kogut. aqui, são minhas memórias. as fotos são da minha última viagem à cidade da infância.

Decoração e outros afins

Minha irmã Maneca, após um comentário meu sobre decoração, solta esta: "Mana, para falar a verdade, se eu disser a algumas pessoas que você agora liga para estas coisas, elas não acreditariam". Será mesmo?, é o que eu me pergunto agora. Na verdade, sempre tive uma preocupação com a casa, mas entendo o que Maneca quis dizer. "Ligar para essas coisas" relacionava-se a objetos de decoração relativamente caros. Para mim, tem a ver com aprendizado. Uma vez meu amigo Binho me disse que eu não tinha nada a agradecer a quem me ensinava algo, pois o aprendizado deriva da vontade. É algo que vem de nós quando pensamos que vem do outro. Então posso dizer que sempre tive uma "queda" por uma série de coisas e depois fui aprimorando meu gosto. É a este tipo de aprendizado que me refiro. Podemos gostar de música, de livros, de filmes e mesmo assim passarmos a vida inteira consumindo com um "gosto médio", sem se preocupar de fato em aprimorar a tal "queda". Eu vou no sentido contrário. Gostando de música, de livros, de filmes, cada vez mais nos últimos anos tenho me pautado pela pesquisa. Embora lenta, seletiva, displicente, o que busco mesmo é me rodear "do bom e do melhor". Podem me dizer que isso é coisa de gente metida à besta (de fato, era o que minha irmã me dizia). Eu prefiro pensar que é uma atitude inteligente de não querer me pautar pelo gosto médio, que em alguns casos é pior do que não ter gosto algum. Se eu vou dispender meu tempo lendo um livro, por que deveria ler o último best seller indicado pelas revistas quando posso ler um clássico que indubitavelmente é bem melhor do que aquele (ok, seria preciso discutir a questão do que significa este "melhor")?.

Voltemos à decoração. Pois bem. Quando desisti de morar de "modo provisório", resolvi arrumar a casa, mesmo sem ter casa. Comecei em Sampa. Nosso apê (meu e da Mari) era muito charmoso. Aqui em Vilhena, resolvi que começaria a comprar meus móveis "definitivos". Estou há mais de ano nesta história. Natural que me interessasse por decoração (a pesquisa, a pesquisa...). Eu já estava com boa parte do apê arrumado quando conheci um blog interessantíssimo chamado Decoeração. De lá para outros, foi um pulo. Assim, eu cheguei na minha cadeira de amamentação (que derivou o comentário da Maneca). É uma cadeira de balanço Eames e tenho minhas dúvidas se é boa para amamentar, mas é com certeza boa para ler historinhas... e é linda! Encomendei-a em Sampa e, é verdade, vou pagar os tubos pelo frete. Não é a primeira vez que faço isto. A transportadora que trouxe minhas coisas para cá é "estilo caseira". Vez ou outra eles "quebram o galho" das minhas maluquices (e cobram mais barato do que outras).

Por que seria estranho eu gostar de decoração? É a questão da imagem. Deveria uma pessoa que passa a maior parte do seu tempo ocupada com atividades consideradas nobres, como ler, escrever e tal, preocupar-se com estas coisas mundanas? Não seria mais apropriado morar em um galpão? O que as pessoas que pensam assim não percebem é que, mesmo se morasse em um galpão, ele acabaria tendo a "minha cara", ele se impregnaria do meu estilo. Não há nada de incoerente na minha atitude. A beleza está em tudo. E eu quero viver rodeada de beleza. Uma beleza que tenha a ver comigo, com minha história. E agora com a história de Tatu.

Foto: o desenho da estante, como já disse aqui, fomos eu e Tatu que criamos, assim como criamos o quarto do Poeminha. Decidimos juntos tudo que vamos comprar. Esta é a boa notícia. Tatu aprova e me ajuda na decoração do apê.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

3.5


estou aqui. estar aqui é muito. reinventei a vida. ou ela se reinventou e eu, sortuda, me vi inteira. reinventar a vida é como uma fruta madura retirada do pé e comida na hora, sem se preocupar em lavar. uma fruta que se come sentindo-a escorrer pelos cantos da boca.
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feliz. nem precisava dizer, né?
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quinta-feira, 22 de outubro de 2009

O perfume, de Patrick Süskind


Mas o ódio que sentia pelas pessoas permaneceu sem eco. Quanto mais ele as odiava nesse momento, tanto mais elas o adoravam, pois nada percebiam dele senão a sua aura, a sua máscara odorífera, o seu perfume roubado, e este era, de fato, divinamente bom.

Terminei a leitura de O perfume, de Patrick Süskind. Estava lendo-o quando Poeminha resolveu vir ao mundo. Depois, ele ficou um tempinho na cabeceira. Aliás, é uma releitura. Havia assistido ao filme em Paris em um dos cinemas mais bonitos de lá. E não gostei muito. Porém, não lembrava muito do livro. Só minhas marcações revelavam que eu já o havia lido. Esta memória tirana. O livro é formidável - infinitamente melhor do que o filme, constato agora, embora não goste muito desta comparação, em que o livro, para os aficcionados, sempre acaba por ganhar. Esta é uma daquelas comparações que não dá em nada, além de ser previsível. Como eu gosto de cinema tanto quanto gosto dos livros... Mesmo assim, arrisco um palpite de o porque de o filme ser tão distante da excelência do livro: a culpa é do protagonista que, no filme, parece um abobalhado, enquanto que, no livro, ele se parece premeditadamente abobalhado. Eis toda a diferença. O verme Jean-Baptiste Grenouille, de fato, é um homem mau. E a narrativa da sua vida, desde a hora do nascimento até ao momento em que decide extingui-la, é para reiterar esta maldade, que acaba por destacar a de todo ser humano com o qual ele convive. Neste sentido, as forças antagônicas estão irremediavelmente ligadas: a vida e a morte, o odor bom e o odor fétido, a explosão de cheiros (sentida por Grenoille) e a ausência de cheiros (inexistente em seu corpo). Daí vem a inexistência de sentimentos ligados ao corpo. A matéria seria desnecessária, se não fosse ela que carregasse os odores.

Como trazer para a linguagem o olfato? O ar fétido da Paris do séc. XVIII, a podridão das ruas, o corpo nojento das pessoas, a putrefação das comidas, o fedor dos cadáveres, o horror, o horror... embora a linguagem seja clássica, está tudo aqui. O escritor alemão nos conduz por uma viagem inebriante pelos infinitos odores do mundo. Aproximamo-nos tanto do abjeto quanto do sublime e nos damos conta de que eles estão sempre próximos. E espantados, concluímos que é para esconder o abjeto que buscamos o sublime. As garras daquele são as asas deste.

É, portanto, a história da incompletude de um eu que, sabendo-se deus, reconhece como ninguém a solidão. E a solidão leva ao mais primitivo dos sentimentos: o ódio - que bem pode ser amor.

Soberbo!



segunda-feira, 19 de outubro de 2009

O fetiche dos livros

Fazia tempo que não lia páginas tão primorosas sobre o fetiche produzido pelos livros, como li agora em Bibliomania, de Flaubert, um pequeno grande conto inspirado em uma suposta notícia judicial. Sempre digo que possuir livros, constituir uma biblioteca, tem muito a ver com aquilo que Caetano Veloso chama de "amor tátil". É também um fetiche, uma assombração, uma obsessão, escravidão até.

E que conto! Flaubert faz uma pequena obra-prima aos 15 anos de idade. A história de Giácomo, o livreiro:

"Tinha trinta anos e já passava por velho e acabado; possuía alta estatura, mas curvado como a de um ancião; ... Raramente era visto nas ruas, a não ser nos dias em que eram vendidos em leilão lotes de livros raros e curiosos. Então, não era mais o mesmo homem indolente e ridículo, seus olhos se animavam, corria, caminhava, saltitava, mal podia moderar sua alegria...

À noite, os vizinhos podiam ver, através das vidraças do livreiro, uma luz que vacilava, depois progredia, afastava-se, crescia, e a seguir, uma vez ou outra, se apagava... Tais noites ardentes e febris, ele as passava com seus livros. Circulava entre suas estantes, percorria as galerias de sua biblioteca com êxtase e encantamento; depois detinha-se, com os cabelos em desordem, os olhos fixos e faiscantes, as mãos trêmulas ao tocar a madeira das prateleiras; que eram quentes e úmida.
Apanhava um livro, folheava suas páginas, manuseava seu papel, examinava suas douraduras, a capa, os tipos, a tinta, as dobras, e o arranjo dos desenhos para a palavra finis; depois, trocava-o de lugar, colocava-o numa prateleira mais alta, e permanecia horas inteiras a observar-lhe o título e a forma. ...

Oh! ele era feliz, esse homem, feliz em meio a toda essa ciência cujo alcance moral e valor literário mal penetrava; era feliz, sentado entre todos esses livros, passeando os olhos sobre as letras douradas, sobre as páginas gastas, sobre o pergaminho desbotado; amava a ciência como um cego ama o dia. Não! não era de modo algum a ciência o que ele amava, mas sua forma e expressão; amava um livro porque era um livro; amava seu cheiro, sua forma, seu título".

Algum leitor pode negar que seja assim? pode negar que não se viu, ao menos uma vez, no lugar deste livreiro?


confissão incômoda

Depois da leitura de Bibliomania, de Flaubert, sinto-me mais normal. Pensando bem, sinto-me mais cômoda com minha anormalidade. Há tantos zunidos no mundo - e eu me pergunto por que estou com esta vontade medonha. Deve ter sido excesso de gente. Amo, mas enjoo. E este negócio de ser mãe tem um lado complicado. Deus e o diabo querem dizer o que devo fazer. E tudo gira em torno do fato de ser mãe. Falta-me humildade para viver isso com tranquilidade. A relação com o Poeminha, linda. Quando ele chora, dá vontade de colocá-lo de volta no útero, mas não me desespero. Criança chora porque não sabe falar. Dá vontade de dizer isso a todos. Ou dá vontade de não dizer nada. Tatupai está vivenciando isto de outra maneira. Está tão feliz que quer o mundo todo perto dele. E eu, uma ostra, menos para eles dois.
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terça-feira, 13 de outubro de 2009

a isso dou o nome de amor


Elas foram embora ontem. Minhas duas irmãs e minha sobrinha. Mana Mácia veio de Fortaleza. Maneca veio de Porto Velho. Distâncias enormes deste Brasil tão grande. Tia Fá também veio. Princesa ficou apenas três dias. Mana, doze. Ela queria ter acompanhado o parto do Poeminha, mas ele estava ansioso para ver o mundo, viver a vida fora da sua "zona de conforto", como disse a Cy. Foram dias bonitos. É bonito como me relaciono com minhas irmãs. Aprendemos a nos amar. Sim, porque amar é um aprendizado, não é uma imposição marcada por laços de sangue. Amar bem. Amor tem a ver com admiração, cuidade, entrega, cumplicidade, emoção. Há muito disso tudo em nós. E cada vez mais. A ausência mais sentida foi a da minha mãe. De tanto perguntarem por ela, comecei a sentir a sua falta. Este ainda é um amor de longe. Ainda bem que é amor.

Minhas irmãs e minha sobrinha têm vindo até a mim. Me comovo quando penso. Foi assim na minha defesa de doutorado. Elas foram. E também foram dias belos. Mas como eu só senti de fato que era um momento marcante na minha vida quando vi os dias acontecendo, a emoção demorou a bater. E na defesa tinha Sampa para mostrar. Era um aperitivo e tanto, o que justificava a ida delas. Aqui em Vilhena não há aperitivo algum. Vivemos à margem da cidade, construindo espaços de delicadeza longe das suas ruas. Então, o que elas viriam fazer aqui? agora, sei a resposta. Vieram por mim e pelo Poeminha, vieram sentir os primeiros dias da sua vida. Como já disse: dou a isso o nome de amor.
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post-scriptum: a Mana bem lembrou que, de fato, além de cuidar do Poeminha, o que fizemos o tempo todo foi assistir a filmes, comer e conversar sem parar - esparramadas no nosso sofá tamanho família! Eh vidão!

sábado, 10 de outubro de 2009

Imagens, de Bergman

Há uma cena terrível em Fanny e Alexander, de Ingmar Bergman. Uma cena de castigo físico. O padrasto pune com uma vara o pequeno Alexander, que tenta manter a dignidade. Este filme, aliás, é terrível, embora o final seja redentor. Bergman é medonho em todos os seus filmes. Não dá para sair ileso de nenhum deles - as dores das almas dão fisgadas constantes. Nossas culpas, até as que julgamos inexistentes, dão o bote na calada da noite.

No entanto, medonho mesmo é constatar no livro Imagens, uma espécie de memórias cinematográficas deste cineasta sueco, que esta cena fazia parte do seu banquete familiar. Bergman é daqueles artistas que não deixa a menor dúvida de que seus filmes saem das suas entranhas, que os fantasmas que aparecem neles, por mais pavorosos que sejam, são seus próprios fantasmas. Daí ser tão difícil ler este livro, embora eu o leia agora com imenso prazer, nos espaços de sono do Poeminha, enquanto observo a movimentação das minhas irmãs que vieram ficar comigo nestes primeiros dias de nascimento.

Tem algo de terrível neste homem que impingia a si - e também aos que conviviam com ele - tanta dor ao mesmo tempo que transfigurava tudo na arte. Não vejo nele separação entre dor física e psicológica, tamanha a naturalidade com que convive com as duas. É mais do que naturalidade. É uma forma de fúria - a mesma que fez dele um dos maiores cineastas de todos os tempos.

O que mais me comove é a impressão de que, por mais terrível que seja uma cena de Bergman, ela é mais terrível para ele do que para seu espectador. É o caso da cena da vara. No filme, é o padrastro que a aplica, então podemos transferir toda nossa raiva para esta figura, imaginar que ele é capaz de imprimir castigo tão cruel porque é um padrasto. Mas para Bergman não havia essa mediação, que ele oferece ao espectador como se dissesse que sabe que sem ela a dor seria muito maior.

sábado, 3 de outubro de 2009

poeminha


poeminha Bernardo nasceu. o que acontece todos os dias com tantas mulheres, quando acontece conosco, ganha a forma de um milagre. veio assim, alguns dias antes do esperado, porque já veio sábio, adivinhou que não devia ficar mais tempo na barriga, pois corria o risco de não ver o sol, a lua e as pessoas e ele queria ver o sol e ver a lua e ver as pessoas. chorou como todos os bebês, e eu como todas as mães. não me deixou sentir dor, embora eu, tão pouco afeita à dores, estivesse disposta a senti-las, mas não me frustrei. é bom ser contrariada e depois sentir apenas a beleza do momento. dizem que ser mãe tem um pouco disso. agora estamos aqui envoltos em ternura. cada dia uma descoberta, um susto, uma surpresa. ser mãe é tudo e é tanto. em uma das noites, enquanto ele dormia, eu não preguei o olho - chorei e sorri transbordando a emoção que eu não sabia existir. o que é a plenitude, senão o inalcançável?, é o que sempre pensei. mas ali, no meio da noite, senti a plenitude. e continuo sentindo-a. ele tem um jeito tranquilo mas já com os olhos arregalados para o mundo. atento aos barulhos, aos gestos, aos seus e aos nossos.

eu e o tatupai estamos inundados de amor e de felicidade. ontem, fez um ano que estamos juntos. não deu para comemorar como dita a cartilha dos namorados, mas nos sentimos inteiros confiando na nossa história, nos nossos caminhos. inteiros pai e mãe. inteiros amantes. por inteiro amados e amando.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

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Imersa.
Inteiramente à espera.
Inteira.

Imensos dias.
Tudo.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Os titãs e os berros

Com tantos cds é natural que muitos deixem de ser ouvidos. Quem consome bens culturais, não deixa de ter a voracidade de outros tipos de consumidores. Às vezes, a avidez pela novidade é apenas isto: avidez, enquanto aquele velho cd, ou livro, ou filme, estão ali esperando para serem de novo "contemplados". Nestes dias, eu tenho me dado ao luxo da revisitação, ouvindo cds antigos, assistindo a filmes que havia comprado e ainda não havia assistido e lendo alguns livros. Enfim, tornando viva matéria morta. E hoje, por conta da visita do Bozoca (preciso escrever sobre esta figura!) que apareceu sábado no exato instante em que eu resolvia ver um filme que o deixou estarrecido, melancólico e ainda mais cáustico do que já é, amanheci ouvindo Titãs - fase Arnaldo Antunes. E como eram bons os Titãs! Nada a ver com a cópia em que se transformaram. Os cds ouvidos foram Jesus não tem dentes no país dos banguelas e Õ blesq blom, que dispensam apresentações para quem era fã da banda. Embora eu tenha grande admiração pela trajetória do Arnaldo Antunes - fã de babar mesmo, de comprar tudo, desde os livros até os cds -, ouvindo estes cds eu fico com saudade do Arnaldo que não existe mais. Sinto saudade do berro, do ruído, da boca suja (ok, boca suja ele ainda tem, mas o tom visceral, próximo do grito, faz falta), como quando Os Titãs berram, bem próximo da oralidade: Todo mundo quer amor/ Todo mundo quer amor de verdade/ ... Quem tem pinto saco boca cu buceta quer amor/ Ele quer/ Ela quer.

Sim, sim, o mundo precisa deste tipo de berro vindo da arte, deste choque, desta estocada nos bons costumes, nas palavras comedidas. É preciso sentir o pulso pulsar bem forte, deixar-se contaminar pelo nosso lado mais cão, porque ele existe. E isto não significa deixar de ser gentil, de ter cuidado conosco e com o outro, significa ser menos ascéptico, saber gritar quando o outro grita, saber se lambuzar de doce ou de porra ou de porre e nem por isso duvidar que se é cumpridor do seu cartão de crédito a vencer. Isto me faz lembrar de outra música que diz: "Não preciso ser alguém,/ eu consigo viver sem/ armas pra lutar." E enquanto ouço, penso que meu intento sempre foi este: desarmar-se. Viver armado é a maior merda que se pode fazer com a própria vida - como são tristes pessoas que não param nunca de pensar que existe um batalhão pronto para devorar seus rabos. Deveriam ouvir mais música, ler mais livros, ver mais filmes, deveriam querer "inteiro e não pela metade" , deveriam vez ou outra experimentarem a delicadeza de um instante porrada ao som dos Titãs.
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Talvez seja Bozoca que esteja me fazendo lembrar, talvez sejam os Titãs, ou talvez eu seja assim mesmo, sempre tenha sido, embora ponha reparo para não dar muito na vista.

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sexta-feira, 11 de setembro de 2009

O correr dos dias

Durante o SILIC, meus pés incharam muito. E tendo irmã enfermeira, sem contar todos os conhecidos que viram médicos, benzedeiras, curandeiras, passamos a fazer a maioria das refeições em casa para diminuir o sal, o que, dizem, é essencial para diminuir o inchaço e para que a pressão não suba (esta, sim, o verdadeiro vilão da história). Tatupai não é chegado a sal mesmo, então tem feito uns pratos que não têm sal algum, mas muito saborosos. Minha única contribuição continua sendo as saladas e vez ou outra um arroz. Além de toda trupe de "médicos", ainda topamos com uma daquelas senhoras de posto de saúde que nos disse que uma pressão 12 por 8 em uma grávida já era um perigo iminente. Tatupai não titubeou: comprou um aparelho de medir pressão. E eis que todos os dias averiguamos a pressão, mesmo depois que o médico disse que a tal senhora falou uma grande bobagem. A pressão vai bem, obrigada. E os pés desinchados.

Eis que descanso então! Esta é a outra mudança. Trabalhei incessantemente, e em ritmo acelerado, durante toda a gravidez a ponto de ter a sensação de não ter visto este tempo passar. Começando a carreira acadêmica, a universidade virou prioridade. Mas agora, no último mês de gravidez, barriga pesada, com o fim do SILIC, resolvi desacelerar, embora ainda tenha mil coisinhas pendentes. Estou resolvendo essas pendências a conta-gotas. E ao contrário da maioria das grávidas, embora à noite tenha que negociar horas de sono com o Poeminha, não sinto muito sono de dia. Então estou fazendo aquilo de que mais gosto: vendo filmes, lendo bastante e ouvindo muita música. A barriga incomoda, sim, mas me encho de almofadas ao redor de mim e abro minhas janelas. Não tenho palavras para explicar como isto me faz bem. Difícil compreender as pessoas que se sentem ou solitárias ou entediadas em casa. Eu me sinto viva, totalmente entregue a estes momentos.

Colocamos uma rede ao lado dos cds, no meio da casa, como um convite para os momentos de entrega à música, à leitura, à preguiça. E finalmente temos um sofá exatamente como imaginamos. Eu brinco que tem cara de sofá de "novo-rico" (entendam a ironia: é aquela coisa exagerada, quando o tamanho da sala pediria algo menor), mas como é confortável! À noite, reencontramos o prazer de ficarmos deitados assistindo a filmes, conversando, traçando vidas. E à espera. Ficamos com a sensação de que as noites são nossas.

Enfim, o mundo todo bem aqui conosco à espera.

Nós

Eu fico olhando para o mundo daqui da minha janela imaginária. E entretanto tenho curtido muito viver do lado de dentro da janela. Existem "vidas" que só sabemos que queremos vivê-las quando de fato a vivenciamos. Tem sido assim com minha vida de "casada" e mãe (embora Poeminha ainda não tenha visto o mundo, já me sinto toda mãe). Se me perguntassem há um ano se eu queria isto, a resposta teria levado este momento para um futuro longíquo, como uma pedra que jogamos no mar esperando que ela se perca no horizonte. Como tudo aconteceu, não tenho resposta. Lampejos de carinho. Cumplicidade. Leveza. Tesão. E aí estava o momento certo surgindo... Tudo sem planejamento e sem stress, sem pressão, como se seguíssemos uma cartilha interior que estivesse nos ensinando a chegar até aqui. E já vai fazer um ano! Rimos da nossa pressa, da nossa falta de jeito, do nosso jeito. E é isto. Rimos. Somos dois Tatus. E já nos acostumamos tanto a sê-los que quando proferimos nossos nomes nos espantamos, como se aqui, do lado de dentro da janela, tivéssemos aprendido a nos reinventar. Se seremos daqui a um tempo um casal cansado como muitos que conhecemos? Não sabemos a resposta, mas também não fazemos esta pergunta. Traçamos planos o tempo todo, como se nosso amor nunca fosse envelhecer. E vivemos o "a cada dia" sempre cheio de delícias, de pequenos cuidados, de esperas, de chegadas, "enosmesmados".


imagem: Majeak Ann

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

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Um reality show de palavras?
Para mim, o twitter é uma bobagem!

Primeiro a frase antipática para depois modalizar o discurso: ali nada me parece interessante. Mas eu acho ruim ser tão do contra, afinal tanta gente que parece legal acaba "twittando"! Aí, eu fico matutando: "por que acho tão besta?" E me vem uma resposta que, lógico, é muito pessoal, diz respeito ao modo como me relaciono com os tais "sites de relacionamento": eu não quero saber o que as pessoas fazem; quero saber o que elas pensam a partir do que fazem.

Os melhores diários, assim como os melhores blogs, são aqueles que transcendem a lógica do dia a dia, afinal até mesmo o cotidiano das pessoas mais interessantes é um sem fim de pequenos afazeres desimportantes. E os momentos desimportantes cheios de ternura só fazem sentido para quem os vive. E no twitter, lêem-se coisas do tipo: "indo para a academia", "assistindo ao jogo do Flamengo", "vou dormir, boa noite"... Pra quê dizer ou saber desse tipo de coisa? Eu sempre achei exagerado o discurso apocalíptico sobre a relação das pessoas com a internet, como se isso significasse um empobrecimento das experiências humanas, mas confesso que diante de um twitter eu não consigo encontrar um só razão inteligente para sua existência.

Deixemos então.

O silic e o gepec




... O SILIC aconteceu. E foi um sucesso. Sucesso é palavra besta. Foi um tanto de coisa então. Emoção. Chorei desde a abertura. Acho que não expliquei. Participo de um grupo de pesquisa na Universidade. Chama-se GEPEC - Grupo de Pesquisa em Poética Brasileira Contemporânea. Todas as segundas nos reunimos por uma hora e meia. E o SILIC foi o simpósio que inventamos. Invenção de várias cabeças. Um blog deveria servir para contar estas coisas. Mas eu fervilho. E talvez o essencial não vire palavras. Só digo que teve de tudo. Organização para ninguém botar defeito. Se brincar, passaremos a vender consultoria de como organizar eventos com pouco dinheiro e muita criatividade. Sabe quando um grupo está por inteiro entregue a um projeto? Foi assim. Nenhuma ordem precisou ser dada, nenhuma pressão, nenhum stress. Três dias felizes... e os extras aqui em casa. Quem pode falar assim hoje de um trabalho acadêmico? Sim, muita sorte eu tenho. Sempre gente boa aparece ao meu lado fazendo com que minha vida seja uma constante surpresa.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Barriga

Recebi hoje do meu tio amado:

"Estou meio perdido, sem tempo...fechei os olhos e vi vocês...um homem, uma mulher e uma barriga....".
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Sim, também estou sem tempo. E, sim, é o que também vejo. Ver um homem, uma mulher e uma barriga é, de longe, a mais bela visão da minha vida.
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segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Convite


Todos estão convidados. Está sendo feito com muito amor. E também com muito suor. Envolve muita gente do bem, disposta a trabalhar de graça para que a universidade seja o lugar das discussões, dos sonhos e das amizades.


terça-feira, 11 de agosto de 2009

Arquivo




Em Salvador, todo mundo quer ser Pierre Verger.
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quinta-feira, 6 de agosto de 2009

ansiedade mundana

Calma, calma. como toda grávida, eu estou ansiosa. Mas a ansiedade do título deve-se a algo mais, digamos, mundano. Junto com o quarto do Poeminha, eu e Tatu cometemos a loucura de mandar fazer um móvel para os CDs. Criamos o modelo a partir de um que vimos em uma revista. Pronto, virou desejo de última hora, embora o bom senso soltasse alerta vermelho a cada segundo. Como boa teimosa, ignorei todos os piscaspiscas, rebatendo-os com frases como: "Quando Poeminha nascer, ele vai puxar as caixas de cds que vão cair na cabeça dele". A avó dele, como já anunciei aqui, concordou comigo. O certo é que agora o móvel, depois de remodelado, acrescido, deve chegar a qualquer momento e vai ocupar uma parede inteira. Um móvel para 1000 cds. Inicialmente, o projeto era para 600 cds. Eu chutei este número por alto. mas quando tivemos que fechar o projeto, o jeito foi contar um por um e, para minha surpresa, chegamos nesta conta medonha. E esse número continua aumentando, porque eu sou das "antigas", gosto mesmo é de ter o cd, e não apenas baixar músicas na internet.

Porém, se móvel planejado é bom, porque sai do modelo que queremos, é também um saco, porque tem prazo longo de entrega. E eu que até gostava de como os cds estavam, agora, a cada vez que passo por eles, suspiro, imaginando que muito em breve eles terão um lugar à altura. Este lugar à altura foi a frase mais dita pelo vendedor para nos convencer ante a exorbitância que nos cobrou. Mal sabia ele que eu já estava convencida. Para afagar ainda mais meu ego, ele chegou a perguntar se alguém tinha decorado o apartamento, acrescentando que era muito original, muito bonito. Toda prosa, embora ciente da estratégia ali embutida, agradeci com aquele ar de humilde que fazemos quando, no fundo, estamos envaidecidas até o último fio do cabelo.

Definitivamente, eu sou um ser anfíbio, imersa em desejos. Já desisti de fazer ar blasé de quem não está nem aí para o supérfluo. Construo uma casa com afeto, embora ainda não tenha uma. Tenho o que dentro coloquei. Se minha casa é original, como disse o vendedor, é porque ela está carregada de história. Tem objetos caros, mas muito mais de valor emocional. Por toda parte, há minha autobiografia espalhada. Há mesmo uma certa poluição visual - casa à la almodovar: cores, livros, cds, malas espalhados, objetos que me fascinaram por uma ou outra razão. Vendo por este lado, sou muito mais cronópio do que esperança no que se refere à casa: uma esperança compraria, primeiro, um fogão ou um sofá, mas como boa cronopiana, prefiro antes um objeto com a função primeva de deleitar meus olhos, como esta estante que agora espero.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Os relâmpagos de Gullar


Ferreira Gullar me causa estranheza. Gosto muito da sua poesia, mas não gosto das suas entrevistas e de vários de seus textos. Sua luta em defesa da pureza da arte é quase vã. Uma vida toda de mea culpa por ter caído momentaneamente de amores pela poesia concreta. Aí veio o neoconcretismo, a volta à poesia discursiva... Mas nada disso tem importância quando leio seu livro Relâmpagos. A paixão pela tradição aqui tem outro matiz. E o que é imagem viram palavras carregadas de emoção e sensibilidade. Relâmpagos são pequenos instantes de delicadezas, como se Gullar, desnudo, tivesse contemplado por muito tempo cada pintura, cada escultura, e tirado dessa contemplação nem análise nem crítica, mas palavras de quem ama intensamente - palavras de amador, palavras amorosas. Não pode haver melhor transporte, melhor tradução para a arte, do que palavras assim - em carne viva.

ps. para minha surpresa, quando estava à cata de uma imagem, descubro que o livro está digitalizado. Eu ainda prefiro o folhear, mas para quem não se incomoda, é só clicar aqui.

merci!

tanto carinho aí embaixo nas "palavras". merci à tous! fiquei ainda mais cheia de amor. estar à espera do poeminha Bernardo, já sentindo-o por inteiro aqui comigo, é a mais doida das minhas aventuras até hoje. acordo no meio da noite e fico conversando com meus dois homens enquanto eles dormem. é uma lezeira gostosa, esta de expressar em voz alta todo o amor que há agora em mim. como disse a Rê, tudo transborda.
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tudo delira.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

sobre ser mãe

nunca tive certeza se queria ser mãe. e já tive certeza de que não queria. sempre tive medo das mães. primeiro da minha. medo que se estendeu a muitas outras que conheci. bicho estranho é mãe. ou é boa demais. e assim faz mal aos filhos. ou é ruim demais. e assim faz mal aos filhos. meus olhos secos sempre acham que uma filha está mentindo quando afirma que nunca odiou aquela que lhe pôs no mundo - nem que tenha sido por um instante. porém, o que me impedia o desejo de ser mãe era a vontade de "correr mundo, correr perigo". sempre tive relacionamentos longos e ainda assim cheguei aos 34 anos sem uma prole. não que eu tenha planejado que assim fosse. não deu certo por uma ou outra razão. dolorosas algumas. daí que eu tinha convicção de que se não tivesse filhos não me frustaria. nem mesmo pensava em outras hipóteses como adotar. a imagem mais corriqueira que eu fazia de mim era envelhecendo em uma casa com gatos, livros, cds e alguns poucos amigos que me ligariam e não esperariam por nenhuma ligação minha, sabedores que seriam da minha fobia por telefone. queria envelhecer do modo que eu já vivia e que sempre me pareceu muito bom, muito charmoso, muito poderoso. nunca fui acometida de solidões que me levassem a pensar que eu precisaria de uma família, de um filho.

então Poeminha veio e mudou tudo. assim que eu soube, comecei a chorar. e as primeiras frases que pronunciei foram: "eu não quero ser mãe. eu não quero estar grávida". as do pai foram bonitas e arrebatadas da paixão que agora vivenciamos dia a dia: "não chore, senão ele vai saber que você não quer". eu achei que choraria a manhã inteira, mas para minha surpresa voltei para a cama e adormeci quase de imediato. sono profundo e repousante. e à noite, já sonhava nomes aconchegada nos braços do pai. escrevo sobre estas coisas porque, agora grávida, submeto-me à hidroginástica e a sessões de shiatsu. primeira vez na vida que me entrego aos cuidados de uma técnica oriental. sempre achei admirável. só nunca tive paciência para buscar este tipo de bem-estar que sempre me pareceu artificial. algo do tipo: "se você não é capaz de relaxar sozinha vendo um bom filme, lendo um bom livro, vivendo sua solidão necessária, então pague a um profissional que lhe dê alegria". burrice, claro. porque o corpo precisa de movimento. e é justamente isso que meu corpo mais fala para mim neste momento grávida. poeminha está com os pés "alojados" na minha costela, na posição vertical desde o princípio. dor latente, incômoda, física. e lá me vem a moça do shiatsu com aquelas perguntas de psicólogo de botequim: "você está nervosa? ansiosa? impaciente? você deseja estar grávida?" e eu lá: "não, não, não; sim, muito". e me diz que toda minha energia está represada por alguma contrariedade. e eu me esforço para encontrar a tal contrariedade. e nada. e penso em freud. em lacan. e me pergunto: "será? será que no subconsciente ainda estou com medo de ser mãe?" e penso nestas coisas. na minha mãe. na minha alegria, nos tantos perdões, na tanta leveza que carrego em mim, nos tantos fantasmas. e decido por conta própria que não tenho energia psíquica nenhuma represada. o que tenho é um menino bernardo com os pés nas minhas costelas e uma enorme alegria por ter me enganado. porque estou amando estar grávida, amando a ideia de ser mãe, e cá para nós: como toda mãe, estou convicta de que serei a "melhor do mundo", no que isso tem de bom e tem de medonho.
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sexta-feira, 17 de julho de 2009

auto-biblio-grafia

Eu li em algum lugar que a constituição de uma biblioteca pessoal é uma espécie de autobiografia. Concordo. Na quarta, muitas pessoas, épocas e lugares passearam por mim enquanto eu tentava organizar os livros, já que fim de semestre pede uma boa organização. Deliciosas cinco horas. É como se cada época da minha vida estivesse estampada nas capas, desde as primeiras aquisições. Ao empilhar os de capa dura, lembrei-me do tempo em que só tinha dinheiro para comprar as edições que saíam nas bancas de revistas - Machado quase completo, Mestres da literatura mundial, Mestres da literatura brasileira. Muitos já troquei por edições ou traduções melhores, mas não consigo me desfazer de boa parte deles. Também veio à memória a professora de literatura que deu novo rumo às minhas leituras na época da graduação em Letras. Foi ela quem me apresentou Italo Calvino, Borges, Saramago. E quem me fez querer ler todo Guimarães Rosa e Clarice Lispector. Foi aí que adquiri o hábito de comprar as obras completas de um escritor, se ele me interessasse. Hoje, seleciono mais.

E são inúmeros os livros que adquiri por causa da livreira mais sensacional que tive o prazer de conhecer. Ela tinha uma livraria que levava seu nome - Rose - e também o dom de adivinhar antecipadamente os desejos dos compradores; influenciada por ela comprei quase tudo do Cortazar. E foi ela quem me deu "Cartas a Milena", de Kafka. Foram dias inteiros deitada no chão da livraria bebendo chá, folheando livros, jogando conversa fora, fazendo novos amigos leitores. Nunca mais me senti tão poderosa como naquela época. E não apenas eu. As manhãs de sábado nunca mais foram as mesmas depois que ela fechou as portas e partiu para a cidade maravilhosa deixando mais comuns, sem a aura de confraria, todos os leitores da cidade à beira do rio Madeira.

Sempre fui viciada em me deixar influenciar pela leitura dos meus amigos. Embora, por mais que tente, eu não consiga lembrar de quem me indicou Graciliano Ramos. Talvez ninguém. Gosto de imaginar que já o amava muito antes de amar os livros. Binho, Alberto e Manu estão presentes em muitos livros. Comecei a ler poesia por indicação do Binho, um poeta músico fascinado pelos irmãos Campos e por Arnaldo Antunes. Essa influência arrefeceu um pouco no doutorado, quando me interessei pelo oposto da poesia concreta. A poesia de Cacaso, Ana Cristina César e de Leminski ocupam, assim, também minhas prateleiras. A pouca quantidade de poetas como Pessoa, Drummond, Bandeira mostra meu certo "desgosto" pela poesia discursiva. Dostoiévski e Hilda Hilst me lembram, sobretudo, Manu, um aficcionado por esses dois escritores. E foi numa tarde quente, à beira do rio, que Beto Bertagna me falou pela primeira vez de Samuel Beckett. Depois que li sua trilogia, meu gosto literário nunca mais foi o mesmo. Nas livrarias de Paris, comprei tudo dele que encontrei. Eu passava quase todos os dias na Gibert Joseph para ver se tinha algum livro "d'occasion" de Derrida ou de Barthes. Quando não encontrava deles, comprava algum outro. A etiquetinha amarela significava, muitas vezes, o livro novinho pela metade do preço. Ou menos. Marie, minha ruiva, me disse uma vez que as etiquetas eram feias e eu devia retirá-las, mas deixei-as. Elas fazem lembrar das minhas horas em frente às prateleiras à procura delas.

Em Paris, também comecei a comprar livros de artes. Timidamente, claro, devido à grana escassa. Lembro da Adri me dizendo que as pessoas compram os livros introdutórios da Taschen e já saem arrotando conhecimento. Seu ar irônico de quem entende do babado não me deixou arrotar nada. Daí, sempre os leio com um misto de desconfiança e de deleite. Tão baratos, tão bonitos! E por toda parte das estantes, está expresso meu fascínio pela Cosacnaify - as suas edições primorosas enchem os olhos. E o atendimento personalizado me espanta desde que tentei adquirir o livro do Farnese de Andrade e, aconselhada pelo meu orientador de doutorado, pedi um desconto e recebi como resposta a mais improvável das perguntas que já li em um email: "Quanto a senhora acha que pode pagar pelo livro?" Adquiri-o com 50% de desconto.

Foi nesta época do Farnese que comecei a comprar livros sobre cinema, levada pela urgência de entender um pouco mais desta arte que me arrebatou por completo nos dias frios de Campinas e de Paris. Sinto vontade de rir quando lembro das inúmeras horas roubadas dos estudos. Até mesmo "plano de estudo" de filmes eu cheguei a fazer. Como sou dispersa, sempre me fascinou a ideia de adquirir métodos de disciplina. Desde o mestrado, costumo seguir um plano: ler 30 páginas de um livro de ficção antes de começar a estudar. Eu teria lido bem menos sem este "método". Lembro que quando li A montanha mágica estava em pleno furacão: fazia uma disciplina sobre tradução em Campinas, outra sobre música em São José do Rio Preto, escrevia dois capítulos de um livro, aprendia francês, tentava entender Derrida, seguia meu programa de filmes e viajava quase todos os fins de semana para curtir a vida cultural de Sampa... e, no entanto, seguia diariamente a estadia de Hans Castorp no sanatório onde ele chega saudável e sai morto.

Minha vida acadêmica, aliás, está muito bem representada. A cada disciplina cursada, no mínimo, uma dúzia de livros. Isso desde o mestrado - então tem a fileira estruturalista, da semiótica (todos os livros de Umberto Eco), pós-moderna... toda esta parafernália "teórica". E, claro, tem minha grande paixão: Roland Barthes. Este ocupa um lugar à parte, cercado por uma aura de divinização. Olhar para seus livros às vezes me acalma (quando estou lendo algum); às vezes me deixa nervosa (quando faz tempo que não leio nenhum).

E, por fim, espremendo prateleiras que não cabem mais nada, cheguei à constatação óbvia: só agora adquiro os teóricos nacionais. Li neste semestre boa parte da Formação da Literatura Brasileira, de Antonio Candido, que nunca tinha me interessado. E também li Revisão de Sousândrade, dos irmãos Campos, a resposta sofisticada dos esquecimentos daquele. E nunca comprei tanta ficção brasileira como agora: com o grupo de literatura contemporânea, e com o desejo de fazer pós-doc nesta área, é a vez dos escritores contemporâneos nacionais. Ainda aqui é a imagem de um amigo que aparece: as indicações do meu amigo Márcio têm sido fundamentais.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Universidade

Decepção, sim.
Mas emoção também.
Flores na despedida de turma.
E lágrimas.
Talvez seja este mesmo o caminho, embora às vezes doa.
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Uma aluna disse que não se zanga quando digo que determinado trabalho não está bom, pois meu rosto expressa uma espécie de espanto e impotência. E terminou com um: "Você se importa!".
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quarta-feira, 8 de julho de 2009

Sobre as desfuncionalidades do "lar"

Todas as vezes que a avó do Tatu vem aqui ela "descobre" algo que não combina com a curiosidade dos bebês. Daí, tenho pesadelo só de imaginar Poeminha tropeçando, agarrando, nas coisas. Por enquanto, a decisão é, quando ele começar a engatinhar, retirar apenas o que lhe causar perigo, como a enorme coruja de barro que se equilibra em cima dos livros ou os objetos quebráveis que comprei nas minhas viagens... E colocar cerragem ou algo que o valha dentro dos dois enormes vasos marajoaras. Porém, a minha ingenuidade ou a minha dureza de mãe de primeira viagem está crente de que conseguirá ensinar ao seu rebento que há coisas que ele não pode mexer. Talvez porque eu tenha ouvido a minha mãe contar a vida inteira que filho dela nunca mexeu ou porque eu mesma tenha cuidado de uma criança que nunca sequer mexeu nos gatinhos medonhos de porcelana que a mãe tem até hoje...

Olhando em volta eu busco preparar minha alma para hospedar este novo ser que, assim como se hospeda hoje na minha barriga, vai ocupar meu espaço. E eu sou avara com o espaço! Muito! é verdade que tenho aprendido a dividi-lo. Estou feliz com meu 'novo jeito'. A última vez que dividi o espaço foi traumatizante, justamente porque eu não soube respeitar os modos diferentes com que o tratávamos. Comecei a me sentir responsável por tudo e, pressionada com a escrita da tese, virei uma fiscal da limpeza. Estou disposta a não repetir o mesmo erro. Continuo me sentindo responsável, mas estou muito mais leve em relação à presença do outro. Por enquanto, está tudo na paz. E é assim que eu espero que continue quando Poeminha chegar. Eu mandei fazer prateleiras para o quarto dele, mas também dois baús coloridos para jogar todos os seus trecos. Explicando a minha irmã a função destes baús, eu dizia às gargalhadas: "Têm a função de me acalmar. Ao mesmo tempo que me preparo mentalmente para aceitar uma casa cheia de brinquedos espalhados, eu me preparo para não querer que sejam enfileirados, separados por modelo, na estante. Como sei que não suportaria a visão de caixas de papelão meio rotas e rasgadas, mandei fazer os baús!".

Quem lê, pode pensar que eu estou exagerando - que vou me acostumar naturalmente. Eu prefiro acreditar que estou apenas me prevenindo. Costumo dizer que as pessoas, em geral, têm dificuldade de mudar porque não sabem que precisam fazê-lo. Muitas relações acabam devido às pequenas batalhas diárias. Nestas batalhas, a organização da casa tem peso enorme. Geralmente, a mulher toma conta de tudo, tratando os outros como hóspedes que devem obedecer aos limites impostos por ela. Sempre achei isto um horror. Não é o fato de o homem, em geral, não estar nem aí para a arrumação da casa que ele não deva ter seus espaços, para se sentir de fato em casa. Quer coisa mais louca do que uma frase como esta: "tire o pé do sofá, senão vai sujar"? Pois nós estamos procurando um sofá beeeeeeeem confortável, que aguente nossa maneira de se sentar ou de deitar para assistir a filmes. E quando ele ficar mais ou menos feio e fedido, hora de trocar, que sofá não é feito para durar a vida toda. Tenho feito, assim, o exercício de dividir, de perguntar o que o outro quer. Quer um sofá assim e assado? Quer uma TV maior? Então tá. Eu adoro minha TV, a ponto de achar que não existe nenhum colorido mais bonito, mas se o outro quer, quem sou eu para ignorar?

Enfim, acho que não vou conseguir fugir da demarcação dos limites, mas vou alargá-los ao máximo, para que tanto Tatu quanto Poeminha saibam que o espaço é também deles. E tenho me sentido muito bem desse modo. Evidentemente, tenho inveja de quem assim é sem nenhum esforço, e não está nem aí para as desfuncionalidades do lar, mas já que não sou assim, que ao menos eu dê um jeito de não fazer vítimas.

uma vaca ou uma cabra?



Semana passada, às gargalhadas, eu saí com esta, enquanto o pai do Poeminha dizia que eu estava linda:

- Estou parecendo uma vaca! Ou melhor, estou parecendo a cabra de Picasso. Barriga enorme! Tetas enormes! Feia e sublime!

Porque não perder o humor, quando se perde a silhueta, é fundamental.
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terça-feira, 7 de julho de 2009

ossos ocos do oficio

quatro livros começados. nenhum avançando de fato. final de semestre é um estupro para todo professor que se preze. é. há muitos que não se prezam. estes devem ser mais felizes. uma ideia quase romântica me persegue: a de que posso ainda ser a diferença para quem quiser. algum aluno ou alguma aluna com vontade suficiente para ter brilho nos olhos. quantos? três ou quatro com alguma sorte. dias e dias, horas e horas, lendo textos e sentindo na carne a inutilidade do gesto. como alcançar o outro? às vezes me indigno. às vezes me envergonho com o que leio. e agora, com uma barriga de seis meses, me vem pensamentos tresloucados, do tipo: e se ao invés de entregar meu filho a um professor que não sabe fazer uma frase com sentido eu mesma o ensinasse? haha! quero voltar a quantos séculos? quando estou menos umbigo, imagino um trabalho, uma tutoria, um curso específico de produção de texto, algo como parar de ignorar que a situação não nos atinge frontalmente - 4 anos o aluno no curso de Letras e sai sem saber o que diabo é análise literária ou, pior, o que é uma frase com sujeito, predicado e verbo, e que, sei lá, não repita a mesma palavra dez vezes em cinco linhas. ninguém sai querendo estrangular a gramática, simplesmente porque não sabe o que é estrangulamento, o que é certo ou errado. faltam imaginação, audácia, relação conflituosa e bela com o mundo das letras. uma monografiazinha de final de curso, 30 páginas no máximo, pouco maior que um artigo, e na hora de orientar aquela indignação ou aquele silêncio envergonhado. o que é isto?

sim, vivendo há muito mais de um mês única e exclusivamente para a universidade e para este tipo de trabalho infame, hoje estou cansada demais. descrente demais. quero ler meus livros. beijar muito na boca com este barrigão enorme. ver meus filmes. ou simplesmente dormir até acordar sem sentir sono algum. ao invés disso, eu passo mais uma tarde, mais uma noite, corrigindo textos, escrevendo anotações e lembretes nas bordas. e o pior: no fundo, eu sei, tenho certeza, que a maioria não vai dar atenção alguma ou, na melhor das hipóteses, não vai saber o que fazer.

chega.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

pina bausch partiu

pina bausch está aqui em mim, como tudo que me atravessa de forma perfurante. passo todos os dias diante de sua imagem de braços estirados dançando uma dança que desconhecíamos até que ela nos apresentasse. ela está no meio dos meus cds, entre a música que ela amou por toda a vida, porque não se pode amar a dança sem amar também a música. ela está também no livro que se recusa ir para a estante e permanece deitado na mesinha da sala, sempre pronto para ser folheado. e está, sobretudo, em minha memória.

madruguei duas manhãs na fria paris para comprar o ingresso de bandoneon. raridade. insone, dormia sempre até mais tarde. mas a razão era compensadora. eu queria ver aquela mulher que havia me fascinado na abertura do filme fale com ela, de pedro almodovar. e que, por isso, eu havia assistido aos seus vídeos de dança um depois do outro no Pompidou. quando prorroguei minha partida sobretudo para assistir ao seu espetáculo, sequer pensei que a noite da dança também seria a noite da despedida do ano intenso. foi vendo os dançarinos de pina bausch que senti a dor intensa da saudade do que ainda tinha ali e, no entanto, já havia perdido. no thêatre de la ville, os dançarinos de bausch, indiferentes a minha dor, exasperavam a plateia com a mobilidade, a teatralidade, a visceralidade da sua dança, enquanto eu tentava recompor uma inteireza ora perdida. bandoneon cortou com navalha os meus pulsos. e depois os raios da lua refletidos no Sena queimaram minhas pupilas das muitas lágrimas.

onde estaria pina bausch além de na minha memória? foi o que nunca deixei de me perguntar até então. eu sonhava em ver ao menos mais uma de suas danças, afinal todos os anos ela tinha programação marcada na fria cidade. imaginava uma viagem que coincidisse. mas a morte é esta suspensão. este definitivo adeus.

+ Pina Bausch, uma das maiores coreógrafas de dança contemporânea, partiu aos 68 anos, no dia 30 de junho, depois de ter revolucionado o conceito de dança.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

minhas cidades imaginárias

todos sabem da minha paixão por cidades grandes. sabem também que ao menos duas destas cidades têm lugar cativo em mim: são paulo e paris. calha que quase por coincidência, no meio dos meus tantos afazeres, naquela meia hora insone antes de cair nos braços dos mistérios, estou lendo dois livros que falam destas cidades: paris não tem fim, de Enrique Vila-Matas e o livro amarelo do terminal, de Vanessa Bárbara. deliciosos. dá vontade de mordê-los de tão bons. cada qual na sua. depois, quem sabe, resenho-os por aqui.

e por lê-los, caiu em mim esta pergunta: por que amo tanto estas duas cidades? e penso que a resposta que mais se aproxima é por que elas representam a minha juventude - este lugar que quando começa a se afastar vira cada vez mais imaginário: devaneio de luzes e sombras. não fui levada para estas cidades. eu me levei. e o que fui fazer de sério por lá (um doutorado) desde o início foi um pretexto para vivenciá-las. resultou que tenho em mim uma sampa que é só minha e uma paris que é só minha. imaginário. sou incapaz de reclamar do trânsito ou da poluição de sampa e do frio e da indiferença de paris. simplesmente porque nunca os percebi. nunca entranharam em minha carne.

o que se fincou em mim como ideário desta juventude perdida são cidades imaginárias onde cabiam todos os meus interesses que por falta de outro nome chamo de culturais. sampa e paris são sinônimos de teatro, cinema, música, exposições. e aos borbotões. tudo ao mesmo tempo agora. uma vida toda em 4 anos. uma caipira na cidade grande. uma deslumbrada no estrangeiro. sem nenhum medo dos estereótipos porque com arrogância suficiente para me saber capaz de segui-los ou rompê-los quando bem me conviesse.

se me perguntarem por que, ainda mais que sampa, paris ficou em mim, eu responderia pela tangente, com uma frase ambígua: porque foi lá que eu mais me pareci com a pessoa que sempre quis ser: insone, liberta, meio louca, estudiosa, relapsa na medida certa e nem tão certa. e sem ninguém a quem dizer. para quem voltar. nenhuma explicação nunca. manchando os livros de vinho nas noites insones, correndo para pegar a sessão das 11h da manhã no cinema antigo, fugindo da biblioteca para dar um espiadinha em alguma exposição. juventude tardia, mas juventude inteira.

e em sampa foi lindo. imersa naquele espaço amoroso foi impossível enxergar o que ali perdia devido a esse espaço. mas o certo é que toda cidade grande pede uma solidão essencial. pede o ser liberto disposto a acordar sem ainda ter dormido. pede o vazio da ressaca. pede o perder das horas. entrar no meio da tarde no cinema e à meia noite ainda correr para pegar a sessão da praça roosevelt. fiz isso. mas havia as correntes. no meu último aniversário, em sampa, embriagada o suficiente para sentir a vista doer com as luzes neons do bar abafado, lamentei não ter estado só enquanto lá estava e deixei ali minha juventude imaginária. não pedi mais. tanto que não voltei. e sei que quando voltar já estarei mais velha em todos e prováveis sentidos. já terei outro papel. já será outra cidade. já serão outras cidades.

e penso agora sem saudosismo. nada mais triste do que envelhecer querendo manter o sangrar da pele da juventude. seria escolher a caricatura, a máscara, a fantasia enquanto olharia aterrorizada a pele enrugar. estas cidades estão lá. quem não está mais sou eu. e demorei a perceber que isso não é o fim do mundo nem da minha vida. é só o fim de algo que desde o princípio tinha data marcada. que vou voltar muitas vezes ou em definitivo qualquer horas destas é tão certo quanto o futuro que pode não existir. mas aí já é outro papo. já não é mais sobre juventude. é justo o contrário. são os planos da maturidade.
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- foto: fachada do Sesc Consolação, em São Paulo

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Leite derramado, de Chico Buarque



No novo livro de Chico Buarque, cem anos de "tempos mortos". Li Leite Derramado em dias felizes. E os dias felizes trazem o medo da efemeridade, como se o momento seguinte fosse desmanchar o castelo de areia, derramar o leite. E este não é um " livro feliz", o que me faz pensar ainda mais na transitoriedade das coisas. Como saber que a vida não é uma sucessão de enganos, se a percepção sobre nós é sempre meio embotada? Em um hospital imundo, uma TV nunca é desligada. À beira da morte, deitado em um dos leitos, um homem com mais de cem anos não para nunca de falar, como se estivesse amaldiçoado pelas lembranças que não se fecham em um denominador comum. É a narrativa de um homem que passou a vida em engano, lendo os sinais de forma equivocada. Longe de ser um diálogo, é um monólogo; uma cantilena que seria monótona, se no entremeio não houvesse a acidez. É a história de um sobrevivente. Quando quase todos estão mortos, a voz que fala já é quase uma voz além-túmulo.

Chico Buarque está cada vez melhor como escritor. Não que este livro seja melhor que Budapeste, o anterior. São completamente diferentes. E é isso que o faz grande escritor. Com o lançamento, os críticos brasileiros ainda não se cansaram de fazer a relação com Machado de Assis. Para o bem e para o mal, Chico virou o mais novo adepto da escola machadiana... e depois não querem que eu diga que os críticos são quase sempre meros seguidores dos releases das editoras. As referências poderiam ser inúmeras, mas todos preferem falar da parecença com Machado. Porém, a meu ver, neste livro Chico está muito mais próximo da música do que de qualquer influência literária. Como em uma canção de jazz, poucos acordes dão conta de uma vida inteira: uma mulher que ou enlouqueceu ou fugiu com o amante, uma filha que dilapidou seu patrimônio e lhe deu netos e bisnetos, ora desejados ora indesejados. Esses acordes se repetem, mas com variações que causam um torção no andamento do enredo. A cada variação, um novo elemento cria a tensão que permite o próximo capítulo, que não vai ser mais do que variação do anterior e assim... É bonito esse cuidado com a palavra, como se de fato tivéssemos lendo um enorme poema, ouvindo uma longa canção. Não as canções de Chico Buarque, mas uma canção escrita com o mesmo cuidado com que ele deve fazer as suas.
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terça-feira, 16 de junho de 2009

mundocão

o mundo é um mundocão. não à toa a literatura está sempre certa. os roseirais são podados a cada noite, na surdina, para que o nascer do sol não veja nada de novo, a não ser o sempre já visto. ou os roseirais são implantados ali artificialmente, com cheiro de plástico. eu queria que fosse diferente. se eu sacaneio alguém, é quasesempre de modo involuntário. talvez como todos, eu sacaneie de forma mais impiedosa aqueles que eu amo muito de perto. porque aí o que está envolvido é uma rede fina de sentimentos que pede atenção extremada, cuidado, inteireza para uma total - e impossível - compreensão do outro. mas eu não disputo espaços. nem posições. eu tenho ilimitados interesses que me protegem do desejo da glória. o mundo é um mundocão. mas eu quero mesmo é pé no chão, de preferência na estrada. eu quero mesmo é aprender mais. e tem dias como hoje que sinto muito frontalmente que incomodo só porque penso. e porque penso diferente. e porque estou numa posição de poder dizer. sinto-me agredida. na maior parte das vezes, eu ligo um foda-se automático. mas hoje eu queria dizer foda-se e mais um monte de desaforo. mas não vou dizer. ao contrário, vou ficar aqui bem quieta ouvindo Cat Power nas alturas, deixando que a música e as palavras levem isso que não tem importância alguma. o mundo é um mundocão, mas eu tenho uma roseira na minha varanda. e ela não é podada todas as noites nem plantada artificialmente. ela tem cheiro de mato e de flor. e espalha suas folhas secas.
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sexta-feira, 12 de junho de 2009

para ele

como se não fosse um dia qualquer. tudo a primeira vez. primeira vez de tudo. mesmo que não seja. quando a alma invade assim o tempo o desejo o querer tudo é como se nunca fosse acabar. e assim me encho de ternuras. fico avara para o mundo e quero depositar tudo aqui nesta casa que agora amo com esta pessoa que agora amo. dia e noite espero seus passos no corredor e a chave que gira. um tatu chama outro tatu. não me importo se o futuro me levar esse presente. não me importo se tudo outra vez ficar seco. agora tudo é úmido. misturo meus parcos cabelos com a sua farta cabeleira. um urso bagunçando todas as ordens do dia. minha risada bem mais risada. bem mais constante. de vez em quando algo me assalta. para o amor, nenhuma defesa. só a do tempo talvez. daí esta urgência. este querer bem demasiado. afoito, trêmulo e quase humilde. como naquela música que agora não para de tocar. ser roubada do meu corpo - vem e fica e me faz um filho um bem um poema. sou tatuada para todo o sempre mesmo que o tempo. e lhe digo para ficar. oceano bravio na noite de lua cheia. coração arrancado e entregue.
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terça-feira, 9 de junho de 2009

A cidade ilhada, de Milton Hatoum

Demorei a saber o porquê do desencanto com Milton Hatoum. Um desencanto paulatino, como se o fato de ter "descoberto" esse escritor desde o seu primeiro livro me fizesse protelar o seu enterro simbólico. Simbólico, claro, pois como me lembrou um amigo, há tempos a crítica o elegeu um "grande escritor". E uma vez dado o título, dada a preguiça e o compadrismo da crítica tupiniquim, impossível destronar a majestade.

A cidade ilhada, seu último livro, a meu ver, não chega mesmo a ser mediano. Talvez a publicação seja por razões contratuais, afinal é a reunião de contos escritos em ocasiões diversas, o que me leva a pensar nos malefícios da profissionalização do escritor, mas não é por aí que quero me enveredar. Há livros maravilhosos escritos em situações adversas (lembrar de Dostoiévski é apenas o exemplo mais fácil). Não falta unidade no livro de Hatoum. Talvez o problema seja justamente este. Composto por 14 contos, o que vemos é um painel de personagens que transitam em ambientes bem demarcados; porém, enquanto a ambientação é primorosa, as personagens não têm densidade psicológica, beirando à caricatura: é um velho contador de histórias`competindo com a televisão, um velho japonês que por ter dado um passeio de barco com uma professora quer que ela jogue as suas cinzas no rio Amazonas, é um pesquisador que no estrangeiro descobre uma carta de Euclides da Cunha - os enredos são frágeis, sem uma problematização que justifique as suas existências.

E reside aí a minha decepção: Hatoum escolheu a ambientação em vez da construção das personagens. Sua escolha recai sobre uma Manaus do passado, que, segundo seus enredos óbvios, deve ser historicizada para não cair no esquecimento. É uma nostalgia que tenta retratar uma aura que provavelmente nunca existiu. Quem leu Relato de um certo oriente ou Dois irmãos, seus dois primeiros livros, sente o uso forçado de algumas palavras que servem tão-somente para demarcar o ambiente: palavras do cotidiano deste outro lugar, desta outra gente - região típica à margem. Ou seja: ele trocou a literatura pela ideia de cultura e com isso fez uma péssima escolha. Já não me convence mais.
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terça-feira, 2 de junho de 2009

A delícia dos dias

Dias muito felizes. Descanso total - atrapalhado apenas por comprinhas. Como toda mãe e todo pai de primeira viagem, nos excedemos nas compras das roupinhas do bebê. Liga-se um automático burro que deve dizer exatamente assim: "em caso de dúvida, leve um modelo de cada", embora as variações nem sejam tantas. Enfim, Poeminha agora tem roupa suficiente para pelo menos os seis primeiros meses. Isso se não crescer demais. Porque com a ajuda da avó e da bisavó, comprei tamanhos do pequeno ao grande.

Agora falta escolher o modelo do quarto. Revistas e sites estão me ajudando - eu fico na bobeira, vendo minhas leituras e buscas mudarem pouco a pouco. As mães são tão previsíveis! Eu já me conformei: estou previsível; totalmente mãe: passo a mão na barriga o tempo todo, converso com o Poeminha, falo como se já fosse ele falando... um horror! E uma delícia!

Por outro lado, tenho me cuidado. Não descuidei muito da aparência - tenho mantido meu jeito esculhambado chique (sabe-se lá o que seja isto!). Comprei várias roupas; não foi difícil encontrar calças - calças saruês estão na moda; o que me consola é saber que eu já usava muito antes de todas as "patricinhas" resolverem usar, levadas pela "última tendência". Encontrei até uma calça jeans com elástico, o que permite vestir as batas que eu já tinha. Aliás, muitas das minhas roupas parecem ter sido escolhidas para uma grávida. E admitamos: agora é mais fácil uma grávida não ficar parecendo uma butija de gás coberta com aqueles panos de decoração floridos, embora o rosto de "adormecida" não desapareça de jeito nenhum.

São tantas as expectativas; tantos os desejos. E o que mais me comove é que tudo parece estar recoberto de delicadeza. Parece que tudo é ainda mais intenso: uma música que ouço, um filme que vejo, um livro que leio... sinto cada ação como uma extensão do amor que agora sinto. Enorme, enorme!

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quinta-feira, 21 de maio de 2009

Projetos de pif

Pifei. pif. paf. Mais de mês na vida de formiga sentindo o inverno bater nas canelas deu nisso. Nada grave. Apenas cansaço dos grandes. E dorzinhas aqui e ali. Meu corpo demora a se acostumar que agora habita outro corpo exigente. Que exige repouso, dormir na hora certa, comer feito uma leoa, fazer xixi como não sei o quê. Apenas as últimas duas eu estava fazendo direito. Até tenho trabalhado deitada graças a uma mesinha portátil de computador que ganhei do pai do Poeminha. Mas não foi o bastante. É a mente que cansa. Projetos de pesquisa, apostila de literatura clássica, tradução de texto, mesa-redonda em Cuiabá, orientações trabalhosas de monografias, dia de aula 10 horas longe de casa, acompanhamento de alunos via internet, aulas aulas aulas trovadorismo barroco romantismo e mais monte de pequenas coisas. Eu devia saber que era demais.

Agora vou bem ali descansar na rede. Lista de coisas boas para fazer: ficar muito tempo deitada, beijar muito na boca, comprar roupinhas para o Poeminha, ouvir os cds maravilhosos que andei comprando com meus bônus Fnac (sim, compro tanto na Fnac virtual que acumulo bônus generosos!) e ler livrinhos também comprados, mas sem bônus. A maioria, romances contemporâneos para a próxima empreitada de pedido de bolsas para o grupo de pesquisa - grupo que tem me dado muitas alegrias. Toda segunda-feira uma hora e meia de bate papo gostoso com os alunos sobre literatura contemporânea. Cada ideia tem surgido daí... Vem aí o Silic...

Depois de mais de um mês com meu livro de Matisse sem sair da página 50, comecei outro ontem após a ida ao médico. O último do Milton Hatoum, A ilha sitiada. O primeiro conto não me animou. Mais previsível do que uma pifada de grávida. Mas Hatoum tem crédito comigo; é verdade que cada vez mais graças a apenas seus dois primeiros livros... Eu gostaria de saber onde diabo Hatoum perdeu aquele espaço de memória evocativa e lírica de Relatos de um certo oriente e achou esta linguagem plastificada de colecionador de "causos" de uma Manaus idealizada demais para meu senso crítico, com direito a palavra "acoucho"! O cabra queria ser Proust e Kafka no início da carreira e agora está mais para Thiago de Mello, seu conterrâneo.

O próximo da fila é Leite derramado, do Chico Buarque. Este tem crédito graças a tudo. E ainda na fila, De cócoras, de Silviano Santiago e O falso mentiroso, também dele; uma bolsista do grupo quer investir nele. E pedido de jovem sabida e linda é uma ordem: lerei. Ainda tem Tezza e João Gilberto Noll. Será que vai dar tempo? Melhor sentir o clima do correr dos dias...

Vou deixar que as surpresas venham. Andar de mãos dadas nos planos, como tenho aprendido. E me acostumar de vez que agora sou dois corpos.
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terça-feira, 19 de maio de 2009

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uma mão em outra mão. a outra, fica na barriga. às vezes, duas mãos na mesma barriga. quatro mãos ocupadas. sorriso que não cabe.
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isso parece enredo de folhetim barato. ou aquelas propagandas kitsch de margarina. mas é bom pra danar.

morada do poeminha

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hegaram as primeiras coisas do Poeminha feitas pelas mãos da tia-avó. dizer que são lindas é pouco. dizer o que sentimos ao desdobrá-las uma a uma também é impossível. pois fique assim como eu sempre digo: palavras não servem quando o sentimento vai muito longe.
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os gestos de carinho me atordoam um bocado.
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