sábado, 31 de maio de 2014

clichê - ou amor.





em paris, o risco do clichê escorre, pois todos querem uma pose no local exato, um momento único. mas qual será a pose exata diante da torre eiffel. qual a cara que convence diante de uma escultura de giacometti ou, melhor, diante da monalisa? pensava nessas coisas enquanto andava sobre a ponte em que milhares de casais deixaram ali - e continuam deixando - seus cadeados. fiquei observando um casal prender um cadeado num outro cadeado - já que impossível alcançar as grades da ponte, tamanho o acúmulo. em seguida, eles se benzeram, encerrando tudo com um longo beijo. depois, vi um casal discutindo, e a mulher chorava muito, enquanto o homem dizia: "você me culpa sempre, é sempre minha culpa. e não é. não é". acúmulo de clichês, pensei com um sorriso sarcástico, e depois um sorriso triste, no canto da boca. mas o certo é que fiquei por ali observando aqueles cadeados, tentando entender o que significavam - e me vi perguntando se não faria o mesmo. não tenho grandes medos dos clichês. daí me questionar o que esse diz sobre nosso desejo de amor - um amor grande o suficiente que faça cessar o medo dos clichês para poder repeti-los livremente - e à exaustão. 

tenho não um ponto de vista. mas sei que algo em mim não deseja mais viajar sozinha, embora a sensação de alegria continue intacta - e o pensamento de que estar sozinha numa viagem é o estado perfeito. junto com isso, o tempo todo sou atravessada pela lembrança de meus dois "homens", como se meus olhos que veem desejassem estar acompanhados. um clichê. mas um clichê que lateja. sei que atrapalhariam este estado de alegria que somente a contemplação pode nos dar, mas me dariam tantos outros momentos. poderia mesmo ser um deste - um cadeado na mão, com nossos nomes e a busca por um lugar. um lugar qualquer para fazer com que nossa história permaneça em algum lugar - por mais besta que seja. 
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quinta-feira, 22 de maio de 2014

Bill Viola e Karim Aïnouz

se eu tivesse que escolher entre as experiências culturais mais marcantes dos últimos vinte e cinco dias - e foram muitas -, eu destacaria três. sobre uma, pretendo falar depois, quando "resgatar" minhas fotos que, após o assalto, estão a quilômetros daqui, mais exatamente com Mariamada, que, peloscéus, as havia transferido um dia antes para seu computador.

desde que eu vi o filme "Praia do futuro", do Karim Aïnouz, sábado passado, constantemente, algumas das cenas retornam na minha parca memória. digo o mesmo sobre algumas das imagens da exposição do videoartista Bill Viola, no Grand Palais, em Paris. Ao contrário de Karim, eu não conhecia nada de Bill Viola. fui levada pelas mãos da minha ruiva Marie. ficamos umas seis horas nos espaços monumentais do Grand Palais, sem sentirmos o tempo passar. na penumbra que os vídeos exigem. as sensações foram tantas, que - mais uma vez - me será impossível dizê-las corretamente.

porém, após ver o filme de Karim, compreendi melhor o que tanto me impressionou no trabalho desse artista até então desconhecido para mim (mundialmente famoso, explico para minha pobre ignorância). e é simples [e Marie já havia me falado]::: de algum modo, o que vemos tem que nos dizer algo. não falo de beleza propriamente dita, embora eu possa dizer que são belas as imagens dos dois trabalhos. nunca estou falando apenas de beleza. nem apenas de emoção. ou de alguma associação com o que penso ou vivo ou desejo. é um pouco disso tudo, mas é primordialmente outra coisa que tem a ver com o arrancar-me da indiferença e instalar a fórceps uma espécie de incômodo que me obriga a pensar a partir do que vi.

foi assim nessas experiências. Bill Viola, primeiro, exige de nós outra relação com o tempo e aceitamos essa exigência quase sem nenhuma resistência. em boa parte dos vídeos quase nada acontece, mas é por este quase nada que permanecemos à espera. em estado de espera. dez, quinze ou trinta e cinco minutos para cada vídeo de cenas aparentemente imóveis. uma conversa entre mãe e filho de uns quatro anos, diante de quatro tvs que reproduziam lentamente o cotidiano de uma mulher, explica bem esse movimento. a criança pergunta por que nada acontece e a mãe responde: “acontece, sim, preste atenção. veja como as imagens mudam lentamente”. essa atenção demanda um outro tempo. e é nesse outro tempo que a vida requer um pensamento sobre a vida e a morte, sobre a passagem do tempo [e as perdas que vêm com ela]. num mundo quase sempre aquático ou subaquático, vemos e intuímos a morte, o além da morte, os encontros quase sempre fugazes; como no vídeo em que dois homens andam paralelamente numa mesma direção e se encontram por meros instantes para logo em seguida se separarem. ou nos véus de imagens, em que de um lado vemos um homem perdido numa floresta e, de outro, uma mulher, até que as imagens se fundem para vermos os dois juntos por poucos instantes, até a separação. ou no resgate de um afogado que dá errado, em que vemos uma mulher em pé, inconsolável, os gestos lentos dos bombeiros, até que a chuva vem e todos se vão. o afogado, então, ascende em direção ao infinito. é também sobre o mistério do além-vida um dos vídeos mais bonitos, o Ascensão de Tristão. nesse mundo, é quase tudo frágil e violento, diante da iminência do que acontece e está para acontecer.

O que Praia do futuro faz  não é diferente. o mundo também é aquático ou quase. e também é sobre o tempo e o que acontece no seu decorrer. é sobre afeto e perda - o que se explica e o que não tem explicação. é sobre a fragilidade diante do que ocorre e a violência das nossas decisões. e é sobre o amor. até karim diz que o filme não explica muito. e eu concordo. mas para mim Donato se torna um estrangeiro, tendo em seu país uma família para sustentar e um emprego, por amor a Konrad. e é por amor que seu irmão Airton vai atrás dele muitos anos depois. E é também por amor que Konrad age muito antes de Donato saber fazê-lo.

 jesuscristinho, é bonito demais. dá um nó nas tripas. uma vontade de chorar, embora nada tenha de melodramático. e a música vem no momento exato, mesmo quando parece clichê. e o final ainda nos dá outra imagem sobre o mar. é o mar a névoa da Alemanha, é o que vemos. e como em Bill Viola, fiquei imersa num tanto de emoções, de dizeres, de não dizeres. fiquei pensando que nada precisa ser pela violência. contra os discursos da intransigência, do preconceito, cada vez mais desavergonhados, que a outra via seja a poesia, a imagem. as imagens belas do encontro entre Konrad e Donato - Wagner Moura mais uma vez soberbo -, as cenas de sexo e de nudez infinitamente fortes entre os dois. são imagens não apenas magnificamente fotografadas, mas exigentes, como disse Didi-Huberman na conversa que assisti dele. exigem de nós outra forma de contemplação, outra forma de pensamento. e de maneira simples. muito simples.
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como tudo que é indizível.



domingo, 11 de maio de 2014

Paris, para dizer

(fotos após o texto).
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vou ter que dispersar ainda mais o tempo. tenho vontade de escrever sobre a Croácia, onde estive por uma semana. lá, sem nenhum tempo para a internet. os dias foram cheios, intensos e bonitos. a hospitalidade foi absoluta, generosa e rara. contarei depois, promessa.

dispersar o tempo porque agora estou em Paris, na casa de minha amiga Marie, e tenho muita vontade de escrever. desde o início, esta viagem foi construída sob o signo da amizade, do encontro. fui a Croácia por causa de convite feito pelo Valdir, que há muito tempo espalha sua generosidade sobre nós, fazendo com que sejamos convidados onde jamais nos chamariam sem a confianca que têm nele. e fui a Croácia com Mariamada, minha amiga e companheira de viagem de toda uma vida. E depois, ia encontrar meu irmão, que mora na Itália, em Paris, a cidade que tanto amo e onde mora Marie. tudo tão bonito, que custei a acreditar. mas tudo foi se fazendo aos poucos. e agora, eis-me aqui.

não deu certo mano vir. finalmente, seu caminho caminha, por mais que ele demore a ver. e eu fui assaltada assim que pus os pés em Paris, na volta da Croácia. levaram minha máquina fotográfica, a lente 50mm (e meu fetiche de aprender finalmente um pouco da técnica da fotografia), o tablet do Tatupai, e as tres formigas que lá habitavam, minha lapiseira de cinco anos... e sim! as coisas são coisas, mas são também nossa história, e por isso dói um pouco. ainda mais com meu histórico. não é fácil ter sido assaltada já nove vezes. não conheco ninguém que tenha ao menos se aproximado deste número!! mariamada teve que ser o suporte do meu desespero nas horas iniciais. o ladrão, assim, levou também nosso tempo e nossa alegria.

mas o que há de intrigante e belo no tempo é que ele passa. e traz a paz para continuar. o sorriso outra vez. os encontros se sobressaem. o meu encontro com Marie. meu encontro com Paris. na tarde que nos sobrou, eu e Mariamada saímos caminhando sem rumo, mas em volta dos lugares que mais amo por aqui. As seis da tarde, éramos mais umas sentadas no calcadão do Beaubourg, admirando esta estranha construcão de ferros e canos onde passei longas tardes, ora estudando, ora fugindo do estudo, mas aprendendo uma porção de coisas sobre a vida e meus gostos. foi bonito. daquela beleza que só a amizade pode explicar.

e foi assim que, na segunda, Mariamada tendo partido, como uma figura de novo triste, saí novamente caminhando rumo ao Beaubourg. saí de lá apenas as 23h, cansada, mas feliz. caminhei longas horas pelas salas de arte moderna, agora completamente reorganizadas, com uma nova maneira que me pareceu querer ser mais justa com a arte de todo o mundo. uma tentativa de fuga do que facilmente passamos a chamar - como que em forma de denúncia - de eurocentrismo. os especialistas devem dizer que ainda é insuficiente. eu, fragilizada, amadora, emocionei-me diversas vezes. ora por reencontrar um quadro, ora por encontrar algum que me parecia inimaginável antes estar lá - como eu na Croácia há apenas alguns dias.

na outra sala, uma belíssima exposicão de Cartier-Bresson. uma exposição que segue a linha do tempo e, por isso mesmo, explicita os diversos momentos deste grande fotógrafo. amadora, pensei que a forma, nele, teve muito mais longevidade do que seus interesses, que mudaram no decorrer do tempo.

desde terça, estou aqui na Marie. espero dizer tudo com tempo. os dias têm sido bonitos, embora chova vez ou outra lá fora. sempre soube que seria bom voltar em Paris. E que, de algum modo, eu me sentiria em casa. sim, em casa. não exatamente porque morei aqui, mas porque aqui reconheço tudo que gosto. quanto mais ando e vejo, mais tenho a certeza de que este é o caminho para que a vida tenha realmente sentido, para que não sejamos devorados pelos dias, pelas coisas vãs que mancham os dias.
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quinta-feira, 3 de abril de 2014

conversinha espaçada antes do sono






Viver perto das pessoas é sempre dificultoso, na face dos olhos.

Tudo que é bonito é absurdo. 

Riobaldo, como em todo o resto de Grande sertão: veredas.

nestes dias, experimento muitos sentimentos. resolvi largar a coca-cola, porque me veio a consciência - tardia, diga-se de passagem - de que era um vício. ---  e essa constatação vinha cada vez mais com a sensação de idiotia. passei incólume por todas as drogas, e com certo ar de presunção, não por alguma espécie de moralismo; unicamente por um vago receio de não dar conta de me manter atenta para o que gosto de fazer: cuidar do que me faz bem, que é, de mais a mais, uma profusão de coisas difíceis de enumerar. então, como me viciar em algo que, em tese, não traz "barato" algum? resolvi largar. mas largar a coca-cola é como largar o que lhe acompanhava: uma produção intensa de trabalho no computador. agora, derivo em volta dos meus três mil livros sem saber exatamente o que fazer com esta nova Milena que dá seus primeiros passos::: uma Milena que largou a coca-cola há 40 dias e está na segunda semana de caminhada às 7h --- da manhã.

penso penso penso. e mergulhada na vida, no cotidiano, extraio dela algumas certezas já mil vezes ditas::: quero muito que o percurso do Poeminha seja bonito. desta boniteza absurda de Guimarães Rosa. e como, neste mundo tão bizarro? penso. e começo a lhe explicar. falei para ele::: e tenho a sorte de ter um filho que ouve. e questiona. e rumina. e depois tira as dúvidas. concentrado e atento. então, eu lhe disse que poderia existir no mundo pessoas que não iam gostar dele. e que era preciso saber conviver com isso. e, ainda assim, não experimentar sentimentos extremos: manter um certo alheamento ao não-gostar (bem mais importante manter a atenção no "gostar"). ele me disse: "como não gostar?" e eu expliquei. disse que não era preciso que todos gostassem, que todos concordassem com o que ele dizia.

falei de afeto, de amor. e disse que tudo era construção. disse que o fato de dizer que ele era a pessoa mais linda, mais importante, tinha a ver com isto::: com afeto, com amor. outros não achariam o mesmo. e que era assim na vida. e, por isso, seria preciso construir um estofo. "estofo?". sim. saber suportar o não gostar do outro. e o jeito era construir relações de afeto. e cuidar dessas relações::: "sim, como eu cuido de você".

depois de ruminar, ele me pergunta: "até Bibi pode não gostar de mim?". Bibi é a bisavó, que tem verdadeiro amor por ele. um amor irremovível. expliquei:::: "não. não". Bibi gostaria sempre dele. então, falei, sobretudo, que era preciso, por princípio, gostar de gente, acreditar nas gentes. nos momentos de impasse, aqueles nos quais não se sabe exatamente o que fazer, isso lhe ajudaria a suportar. "suportar?". sim. falei, então, do exercício longo e demorado de suportar.

disse, ainda, com as mesmas palavras - ou outras: "filho, imagina que eu, que não hesitaria um minuto em dar a vida por você, tem horas que fico irritada, imagine outras pessoas que não te amam do mesmo modo?" falei, então, das qualidades que podem ser grandes defeitos. nunca sabemos o que temos de mais bonito. e expliquei::: por muito tempo achei que minha maior qualidade era não ter alteração de humor. acordar já sorrindo. como agora, que, quando acordamos e nossos olhares se encontram, o sorriso largo vem de imediato. uma qualidade - é o que eu achava, até um antigo namorado dizer - com imensa raiva - que não havia nada mais insuportável em mim do que esse acordar saltitante. e quer qualidade maior do que ser organizada? e por outro lado, nada causa mais transtorno ao Poeminha e ao Tatupai do que isto::: a mania de organização e limpeza. e o que dizer dos pensamentos fortes, da coragem de tudo dizer face a face, de obstinadamente não compactuar do falatório geral, elegendo sempre muito poucas pessoas para quem falar? muitas vezes, pode ser visto como falta de educação, pode ser falta de educação, incapacidade de ponderar, de saber usar o tom certo. é tudo assim, não? e quem pode nos perdoar pelas qualidades-defeitos senão aqueles que nos amam? que são sempre poucos. aqueles poucos que valem muito - e tudo.
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creio que sempre trouxe tudo isso em mim. intensifiquei algumas certezas, juntei com outras dúvidas, e, agora, talvez por isso, tenha urgência de que meu filho entenda, embora saiba que é uma bobagem essa urgência.

e por que tentar traduzir tudo isso para um filho de quatro anos? porque não quero que Poeminha cresça pensando que é o "centro do universo", que não pode ser contrariado, que os outros estão à sua disposição. quero que ele acredite no diálogo, mas que saiba que tudo pode ser impasse. impasse que não comunga com nenhum consenso. e que as diferenças são, na maior parte das vezes, intransponíveis. e que conviver com o outro é isto: não é moldar a diferença; é amar o outro, apesar da diferença. e quando não amar, saber simplesmente virar as costas e prosseguir - sem dor alguma, sem mágoa alguma. só com a mais leve das certezas. nada a ver, portanto, com tolerância, que traz sempre o ranço religioso de "sou tolerante porque sou melhor". não. falo de desprendimento. de descobrir e concentrar-se no que o outro tem de mais bonito. é só isso - diria Caetano. 

dia desses, assustada com o que eu pressenti ser uma incapacidade medonha de se fazer amar, e de saber conviver com esse fato, e, por causa disso, tudo fazer para prejudicar o outro, tive que refletir refletir refletir para saber como agir depois de ter "trombado" com uma pessoa assim. em algum momento, pensei: "como Mariamada gostaria que eu reagisse diante desta situação?" pois há diversos momentos em que a voz do outro é determinante. e muito antes de saber o que o outro lhe diria, saber intuir. por isso, essa vontade de, enquanto ele me ouvir, ser a outra voz do Poeminha.

e foi ali, no contato indireto com esta outra que mesmo distante sempre sabe me dizer, que eu compreendi um tanto de coisa, cujos sentidos, depois, tentei, com outras palavras, explicar ao Poeminha, esse ser que amo de amor desmedido.
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sábado, 22 de março de 2014

Nos bares e restaurantes de Buenos Aires











já viajei sozinha algumas vezes. e todas foram viagens inesquecíveis. Madri Roma Natal Bruxelas Toledo Bruges. em Madri, passei dias e noites insones, perambulando pela cidade e me perguntando porque estava ali, em vez de estar em Marselha, essa cidade solar da França, acompanhada, em vez daquela solidão toda. ali já sabia por quê e me embebedava no porão do hostel como só se pode fazer uma vez na vida. só havia uma razão para estar ali. e ela se chamava Jardim das delícias, de Bosch. em Natal, foi a mesma solidão. tudo doía. e eu vi a cidade por um filtro que misturava passado e presente. em Bruxelas, não. estava ali para ver Bob Dylan. e o coração, inteiro, só pensava em como era bonita a aventura da vida. estar ali, realizando o conto previsto pelo meu amigo Macário, era a prova exata de que eu tudo fazia para que a vida fosse memorável. 

e viajei acompanhada muitas vezes. abro a boca para falar em viagem e tanta gente já me diz do desejo de ir comigo. não entendo. ou entendo. de todo modo, sempre fui a que conduziu. em Buenos Aires, não. já expliquei::: cansada, só queria ir. foi assim que descobri a noite nas viagens, que só havia conhecido em Madri, sozinha, na enorme solidão do coração quando sabe que tudo é finito. agora, com o coração inteiro, achei tudo bonito, eu e Tatupai de mãos dadas, mesmo quando o cansaço dominava, e eu, simplesmente, fechava os olhos em algum sofá abandonado. 

eu e Tatupai devemos isso ao Dariano, que selecionou os bares de Buenos Aires. entramos em bar em bar, como em alguma música antiga. às vezes, nem tínhamos o que falar, mas o bar, inteiro, falava por nós. senti, como em outras viagens, que tudo havia me levado a estar ali, naqueles bares e restaurantes. e glutona, devorei tudo com fome. os olhos dos dois, Dariano e Tatupai, brilhavam. e a desatenção atenta de Andressa também estava ali, conosco. assim posso dizer::: vi brilho nos olhos.  e eu? eu falava. não digo mais nada que possa ser lido em público. guardo comigo - e com eles - as conversas loucas. 
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sem a conversa, o que seriam das viagens? ainda seriam viagens, mas só existiriam pela enorme solidão que delas emanam. então, reverências e muitas gracias aos meus companheiros desta viagem.
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quinta-feira, 20 de março de 2014

Liliana Porter - El hombre com el hacha y otras situaciones breves











Aqui tudo parece
que era ainda construção 
e já é ruína
(Caetano Veloso)

o que mais impressiona no trabalho de Liliana Porter, artista plástica argentina, que está com a exposição "El hombre com el hacha y otras situaciones breves", no Malba, não é exatamente a dimensão diminuta de suas personagens, mas o que elas, na sua pequenez, provocam. o sujeito é o que desencadeia as ações. e embora exista um ou outro gesto de construção, na maior parte das vezes, o que se produz são destroços. os rastros do homem, assim, de modo geral, são relacionados ao seu enorme poder de destruição. é lúdico apenas para o olhar desatento. o caminho que o humano percorre, e o que ele provoca, é quase sempre devastador. o tamanho e a quantidade das ruínas parecem estar sempre em desalinho com a dimensão do homem. seria fácil criar uma visão redentora do ser humano, como a que às vezes criamos do homem perante a natureza, mas o enorme lastro vermelho que a mulher espalha, numa das cenas mais significativas da exposição, deixa claro que não se trata de redenção, embora a simbologia da mulher e o vermelho permaneça intacta. são cenas de trabalho. e isso é impressionante (desculpem-me usar a palavra mais uma vez, mas foi exatamente assim que eu e Tatupai ficamos: impressionados. vagamente, eu lembrava do nome dessa artista, mas nunca tinha visto uma exposição. daí termos ficado encantados de verdade). não é, portanto, apenas a metonímia das mãos. todo o corpo trabalha nas cenas de Liliana Porter. obras deveriam, portanto, ser construídas. mas a construção são ruínas. cacos de objetos, fios pretos e marrons desalinhados, objetos tombados, a  foice e o martelo, os soldados em sentinela; tudo contribui para a sensação de que o trabalho do homem, mais do que deixar obras inacabadas, produz, de fato, o aniquilamento. a demolição, a ruína, não é posterior; está já na origem do gesto. desalinha-se, assim, um dos maiores mitos modernos: a força de trabalho que constitui a dignidade do homem. que dignidade? que homem?... para as perguntas essenciais, é um pulo: quem somos? o que fazemos? o que queremos?  
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(para as fotos terem ficado boas, precisaríamos de um tripé, para dizer o mínimo. mas eu e Tatupai fizemos várias tentativas. e resigno-me em dizer que as deles ficaram sempre melhores que as minhas)

 

quarta-feira, 12 de março de 2014

abaporu




tenho um sentimento muito indefinível de pertencimento::: não sou daquelas que apregoa que o brasileiro é o melhor povo do mundo, porque quando ouço isso tenho sempre a impressão de que esse pensamento expressa uma mal disfarçada intolerância com a diferença. mas sou daquelas que o coração dispara quando vejo um "pedaço" do Brasil em algum lugar. 

daí que o coração deu um salto quando vi Abaporu no MALBA - Museu de Arte Latinoamericana de Buenos Aires. sim, existe uma emoção ao ver pela primeira vez o que já foi mil vezes visto. o outro nome da aura. ver ali, no museu, em seu tamanho real, o que tantas vezes vi nos livros. toda uma história da arte brasileira, mas também da literatura, percorre esse quadro. e é por isso que parece que sabemos tanto sobre o quadro de Tarsila. do mesmo modo que achamos que sabemos muito de Mário de Andrade e de Oswald de Andrade. quanto a mim, aprecio, desde muito, o ar de rebeldia que parece ter havido ali, naquele exato momento em que o "grupo modernista" reconheceu nosso provincianismo e tentou estancá-lo. deve ter muito de romantismo nesta ideia, mas é talvez devido a esse romantismo que deslumbra apreciar Abaporu.

fiquei, então, com este saber esparso que é uma parte da minha história de leitora, de professora de literatura. a lágrima no olho veio fácil. e é isso que a "primeira vez" das "tantas vezes" deve significar. ela dá sentido a um pertencimento feliz. uma pertença que sabe que o que nos pertence é, de fato, do outro. deve ser o mesmo que sente os mexicanos ao ver um autorretrato de Frida Kahlo, que está logo ali, perto de Abaporu.
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os dias na cidade




dessa vez, me deu preguiça de pesquisar sobre a cidade. achei que o olhar do outro era suficiente. eu vinha de uma rotina de tanto trabalho e tanto enfrentamento. não quis saber de nada a não ser estar em outro lugar. e que lugar, não? é imaginário, como tudo. para mim, Borges está em cada esquina. foi aqui que ele viveu, que um dia enxergou e que depois se descobriu cego. é tudo tão gigantesco que tenho medo de pensar. então, caminho sobre os passos dos outros. fico bêbada da cidade. e depois, sóbria. o que nos faz estar viva? a literatura tem alguma importância? faz importância eu pensar em Borges, Cortázar e Casares enquanto caminho pela cidade? é o que pensei em algum momento, enquanto passávamos de um restaurante a outro, de um bar a outro. a segurança, ou ingênua ou real, é palpável em Buenos Aires. nada nos faz ter medo. os noticiários nos falam da crise, mas, para nosso olho do viajante, a crise só existe nas formas escritas dos protestos que tomam conta das ruas. Buenos Aires, assim, parece uma cidade inofensiva. os táxis são baratos, os restaurantes servem porções generosas de comidas deliciosas, o vinho é bom e barato, a cerveja é de um litro, as ruas são largas e antigas. dá vontade de caminhar com passo lento. mas o turista é ansioso por excelência. vamos de um lugar a outro, ávidos por mais um lugar. e assim passam os dias.


sábado, 8 de março de 2014

bom dia, argentina



não apenas a paisagem muda. ou melhor, a paisagem humana é a primeira a ficar diferente. são homens e mulheres e crianças que têm uma memória do corpo, que não é a nossa. eu gosto de ver, porque se percebo o outro diferente de mim, percebo também a minha diferença. tenho outra memória de corpo, tenho outro corpo. sinto, então, o deslocamento deste modo::: é a língua, é o corpo, é a história. nada me pertence a não ser o que está em mim. e é por esse filtro que vejo. sim, vejo. como é bonito ver outro lugar. e ver desse modo. de mãos dadas. é incrível como depois de tantos anos é a primeira vez que eu e Tatupai conseguimos sair apenas nós dois. ou quase. viemos com Dariano e Andressa, que são namorados. ser namorado é ainda saber beijar na boca, pegar na mão, fazer carinho no cabelo, encostar no ombro. e neste momento é o que eu quero. beijar na boca, pegar na mão, fazer carinho nos cabelos do Tatupai, encostar no ombro. e claro, dar risada, enquanto vivo outra cidade.
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