quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

carta na janela à turma MEL 2014.2



fiquei pensando, enquanto voltava para casa, depois desta semana intensa, que havia muito ainda a dizer. o que eu não disse. o que vocês não disseram. isto do tempo. e da insuficiência das palavras. relembrei o que pensei como figura da disciplina::::  “A linguagem é uma pele: fricciono minha linguagem contra o outro. Como se eu tivesse palavras à guisa de dedos, ou dedos na ponta de minhas palavras. Minha linguagem treme de desejo ... Falar amorosamente é gastar infinitamente, sem crise; é praticar uma relação sem orgasmo” (Barthes). e quase todo tempo foi isso para mim, acreditam? 

eu dou pouca importância para muita coisa na universidade. o famoso "cago e ando". e estou convicta de que a vida pede isto::::: um certo alheamento para o mundo-cão. viver de tal modo que apenas o que me interessa tenha importância. e a docência me interessa. tem muita importância, portanto. professora, eu penso na minha linguagem como uma forma de tocar o outro. porque sou professora de literatura. e literatura tem muita importância. literatura é onde se podem desfiar as linhas mais torpes e mais doces. é onde se pode falar amorosamente do outro, sobre o outro e onde também se pode morrer, matar, matar o outro. literatura é a linguagem do impossível. 

não sei se deu tempo de dizer a vocês que antes de ler literatura brasileira contemporânea, eu só lia italo calvino, graciliano, thomas bernhard, antonin artaud, kafka, dostoiévski e...  beckett, que descobri no meu penúltimo ano de doutorado. descobri muita coisa no doutorado, acreditem. descobri e/ou alicercei estas experiências-limites de ser leitora desses autores que nunca escreveram para nos dar paz. e vi certamente mais de quinhentos filmes nos quatro anos e não sei quantos livros li porque ainda não tinha a mania de listá-los. mas a lista, se existisse, seria enorme igualmente. listei também as peças de teatro, os shows... e não foram poucos. e os países não cabem nas minhas duas mãos. 

não digo isso para lhes dizer que este é o caminho. talvez diga para constituir uma imagem que eu acho bonita. que é a imagem do desejo. o desejo é o oposto da burocracia, do conveniente. então penso que tudo que fiz no tempo do doutorado é dessa ordem incerta do desejo. a tese é bonita, acreditem. sem que eu diga uma linha, diz muito de todas estas experiências. desta minha experiência de estar inteira para o mundo. não tenho dúvida de que em cada linha está dito::: é por amor que escrevo. e escrevi muito. trocava dias pelas noites. fechava janelas e acendia luzes nas tardes e assim, como um deus brincalhão, fazia com que as noites surgissem antes das noites. e me apaixonei loucamente pelo(s) sujeito(s) sobre o qual(is) escrevi. ainda hoje, quando me vejo num impasse, quando penso que talvez seja preciso estar mais atenta, menos alheia, é nele(s) que me guio. e daí não tenho medo algum. daí estou entregue às experiências de dizer. e dizer como quem acredita. como quem ama. uma amadora (é linda esta imagem do Barthes, já leram?). pois é preciso ler. e ler como nordestino/a. na calada da rede. não nesta rede midiática, mas nesta que range, que é preciso distorcer os punhos antes de nela deitar.
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e quando ensino, e estou no meio de uma turma como a de vocês, que vai passar pela experiência da escrita, da leitura, fico com vontade de espalhar estas incertitudes. de reafirmar toda a potência da experiência da pesquisa. da leitura. do pensar. do vivenciar. tenho vontade de sepultar a burocracia, o conveniente. tenho vontade de dizer: apenas amem. e cuidem de tudo que vier deste amor. se isso lhes trará sucesso, dinheiro, sossego, não vale a pena pensar agora. quanto a mim, posso dizer que trouxe o que eu já tinha em mim:::: desassossego e alegria [é também bonita a alegria barthesiana], vontades e um certo tédio, emoção e uma certa poção de descrença.

para esquecer - ou para intensificar - a experiência das nossas duas semanas, agora vou reler Em busca do tempo perdido - estes temidos sete volumes. Ou serão oito? na minha edição resumem-se a três. enormes catataus de três. e por que escolhi este catatau? porque fiz recentemente quarenta anos, porque a vida é uma narrativa escrita por nós mesmas.  e achei que seria bonito, quando ficasse velhinha, se eu ficar, dizer que reli Em busca do tempo perdido quando fiz quarenta anos. agora, tenho mais certeza de que foi a escolha certa. Proust será, nas próximas semanas, minhas armas. minhas armas de Jorge. conhecem? 

bem aqui, ó! >>>>>. assim mesmo, no improviso. caetaneamente. como tudo. feliz tudo pra vocês nos dias que virão.
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as imagens foram tiradas por mim, enquanto as crias de Nina, nossa "gata peluda", faziam de minha biblioteca um enorme parque de diversão. achei que tinha tudo a ver com o que eu queria dizer a vocês::: pesquisar, escrever, ler, quando passa pelo desejo, é como um parque de diversão. é só se deixar levar pelo ritmo desconcertante de algum brinquedo que gira, gira gira gir gi
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quinta-feira, 20 de novembro de 2014

à toa



(segunda feira retrasada, como se diz)

passei o fim de semana vendo filme::: tempo sem fazer isto. deste jeito::: sem mais nada a não ser escolhas aleatórias. pensar nos filmes, fazer as relações, escolher entre muitos. a lista está aí do lado. Comecei com Palo alto e terminei com Terça-feira, depois do Natal. Ou melhor, finalizei com a metade de Tatuagem. O computador desligou repentinamente e fiquei com preguiça de baixar novamente. hoje, na segunda, havia ao menos uns três emails "de urgência". não sei onde nos perdemos. sei que agora tudo parece para ontem. ninguém dá mais prazo de uma semana. ninguém pede pra gente pensar e depois dá a resposta. é para agora como se "agora ou nunca" estivesse se tornado um eterno "agora ou agora". é muita solicitação - aquela palavra estranha e ao mesmo tempo simples da postagem passada. 

mas tem hora que empaco. tem hora que enjoo de tudo isto. enjoo das tarefas das obrigações das pessoas. fico com vontade de silêncio. fico com vontade de adentrar em mim. ir bem fundo - como a personagem de um conto de Veronica Stigger que adentra umbigo adentro. pois fico com esta vontade. adentrar e ir até às vísceras. sentir as minhas vísceras. e suas viscosidades. mas um adentrar que não seja mero "umbiguismo". seja um adentrar em mim pelo outro. 

e para mim, ver filmes, ou ler livros, tem muito disto. um estar em mim que não é um "morar na minha própria cabeça", nem um mero rodear na possível pequenez de minha existência - não me deixo enrolar por nenhum sentimento de pena. pensar o meu estar no mundo como "vítima" é algo que está fora de cogitação. prefiro a soberba de achar que sempre vou saber me virar. sempre vou achar uma saída, por mais que, às vezes, tudo fique turvo. e é um filme como Seguindo em frente/ Andando, de Hirokazu Koreeda, e todos os outros que eu vi dele neste ano - que me diz para ser assim. um "dizer" sempre pelo indireto, um aprendizado pelo baque e pela delicadeza. ou um filme como Duas, de Werner Schroeter, que me surpreende a cada cena, que não se parece com nada que eu já tenha visto. por duas horas, é em Isabelle Huppert que penso, é a força que sai dela que me prende e me espanta. 
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no filme Terça-feira, depois do Natal, de Radu Muntean, o último a que assisti, numa das cenas mais tristes de separação que já vi no cinema, num certo momento, o homem diz que sabe o que está perdendo. mesmo assim, ele escolhe "perder" para ganhar uma outra coisa ainda incerta, mas absolutamente poderosa. também é a mesma questão, porém mais indireta, mais indefinida, de Aos nossos amores, de Maurice Pialat.  A cena final, em que Suzanne fixa o olhar para o vazio, denunciando todo seu vazio interior, é de uma violência tamanha. deixar que essas imagens adentrem em mim é uma forma de acatar não exatamente este vazio, mas de acatar o exterior - que, de algum modo, diz sobre o meu interior.  
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cinema, arte, literatura, é pra isto, né? ou deveria ser. 

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

para vocês, sempre, meu amor mais imenso

nestes dias, penso muito em amizade. em amor. talvez porque estes dois meses sejam pródigos de aniversários, justamente, de pessoas que eu amo. e amo bastante. e eu que não sou boa de aniversários, fico sempre meio aflita. a cada ano, imagino me redimir:::: chegar de surpresa. enviar o presente mais a cara da pessoa. escrever a carta mais bonita - para que elas lembrem que ainda existem cartas. e de fato, fico sempre na mesma - com a pessoa no meu pensamento. no coração. 

já disse, aqui mesmo, no nenhum-lugar, que me parece meio mágico que quatro das mulheres que mais amo tenham seus nomes iniciados com a letra "M", como eu. está certo que dois destes nomes se explicam pela mania da minha mãe por esta letra, ela mesma com a inicial "M", ela mesma um amor imenso. mas o que dizer das outras? dizer nada. mas gosto::: gosto de ter uma Mácia, uma Marta-Maneca, uma Marinalva, uma Marie em minha vida. soa bem. é sonoro. mas fico aflita todo mês de novembro. porque todo mês de novembro eu queria ser outra. e assim, surpreendê-las. somente Marie não faz aniversário neste mês. 

não vale, eu sei, dizer-lhes como as amo. como elas me são. porque isso, ainda bem, parece que digo sempre. de um modo ou de outro, de uma forma também mágica, a cada uma delas devo a minha vida. em cada momento, uma delas me salvou, levantando o alicerce do que hoje, para mim, significa estar aqui. não há muito o que dizer quando há uma dívida deste tamanho. uma dívida que não custa. uma dívida que, para mim, é toda gratidão.

Maneca me deu uma outra vida, quando eu ainda não sabia que queria esta nova vida. e nunca, em nenhum momento, permitimos que houvesse entre nós a menor desdita - mesmo quando a possibilidade era grande, soubemos manter isso que simplesmente é amor. Mari pegou minha vida pela mão e disse:::: "é assim". não sem espernear, eu acatei. devo a ela as duas maiores "guinadas" de minha vida e, ainda, uma profissão, amor-próprio, coragem. pouco não. quase tudo. poderia dizer que ManaMácia me deu a vida. é quase certo que, não sendo ela enfermeira, eu tivesse morrido de guilain-barré. foi ela que teve a percepção, a intuição ou a certeza da gravidade, quando todos ao meu redor me diagnosticavam com uma doença que até agora nunca tive. mas ela me deu bem mais que isso. antes que eu lesse Derrida, ou lesse Barthes, foi ela que me apontou o que é ética, cuidado de si, cuidado com o outro. eu tinha quinze anos e desde lá suas palavras me soam como fundantes, originárias, decisivas. e meu anjo ruivo Marie me deu a palavra. e a delicadeza. um ser-outro que me fascina, uma calma que me acalma e, ao mesmo tempo, um turbilhão, ali, nos seus belos cabelos ruivos. pude sentir isto, de novo, quando a reencontrei este ano. quando a vi, bem ali, senti um amor tão intenso, tão generoso, como se todos os dias fossem dias de nos vermos. e é assim com cada uma delas. 

e é também assim que a cada novembro elas preenchem minha vida. todo dia 8, dia 15, dia 25, cada uma delas me preenche. me toca. não tem distância que tire isto. não tem silêncio que me faça esquecer. e na verdade, não tem dia que eu não agradeça por elas existirem - e por existirem em minha vida. 

"feliz aniversário, meninas! para vocês, sempre, meu amor mais imenso". 
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e se fosse a hora de alongar esta conversa, também poderia falar dos homens importantes em minha vida que começam com "M", e mais, com "Ma", como elas::: Marcos, Marcio... Melhor deixar esta prosa para depois. com eles tenho vergonha de me "derramar" deste jeito. mas eles sabem. sabem também de meu amor. porque dizer do amor não custa. custa não. 
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** e sim, eu sei que flores são sempre meio bregas. mas estas flores são especiais. são do jardim da Bisa. são de um momento bonito. Poeminha estava lá, como sempre está. lá é o seu jardim. lugar de pisar nas pedras, de sentir o cheiro do verde, sentir o amor da Bisa. são flores especiais, acreditem. vejam::: ele estava lá. e isso faz toda a diferença. faz a diferença existir no mundo pessoas como a Bisa, que cultivam um jardim. e cultivam um amor, assim, imenso, por um menino Poeminha. 
     

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

só isto mesmo

a Odisseia de Homero, edição especial publicada agora pela Cosac Naify, é uma obra de arte. enviaram enrolado em plástico bolha, como a dizer que sabem que produziram um livro-arte. fiquei assim::: com o livro nas mãos, folheando, imaginando um tanto de coisas. imaginando este fazer das belezas do mundo. e eu nem ia comprar. foi o Anderson que me incitou. e eu só preciso de um empurrãozinho para aumentar estas longas fileiras de livros que me oprimem, tamanha a responsabilidade que me solicitam. 

solicitar - é uma palavra tão estranha. e ao mesmo tempo, muito simples. domingo, estas meninas bonitas que eu tenho vontade de ser amiga, apesar dos seus vinte e poucos anos, e dos meus quarenta, vieram aqui em casa. e ficaram um tempão olhando os livros. e eu me dei conta que já são mais de vinte anos como consumidora de livros. nos dois sentidos. mas infelizmente, às vezes, mais consumidora do que leitora. o que me dá medo é empobrecer a minha experiência neste mundo. não é a pobreza do mundo que me apavora. é o risco que corro de que a pobreza do mundo adentre no meu vasto mundo. não pensei nestas coisas quando as meninas bonitas estavam aqui. mas tenho pensado constantemente.
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E o início de David Coperfield, de Charles Dickens, é tão poderoso (Poeminha lerá este livro ainda na adolescência? não ter certeza me faz ser hoje seus olhos de ler): "Nasço. /   Se serei o herói de minha própria vida, ou se essa posição será ocupada por alguma outra pessoa, é o que estas páginas devem mostrar. Para começar minha vida com o começo de minha vida, registro que nasci (conforme me informaram e acreditei) numa sexta-feira, à meia-noite. Notaram que o relógio começou a bater as horas e comecei a chorar simultaneamente".  
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por hoje, é só. eu queria dizer só isto mesmo. só dizer que me enchi de paz - se não bem isto - neste fim de noite em que o dia foi todo dedicado às atividades demenciais de escrita por contrato. para quem? e para quê? vou me perguntar não. vou me contentar de pensar que foi por querer. ninguém me obrigou, a não ser, talvez, a imagem que colei em mim. Poeminha fez trilhas de brinquedos pela casa. difícil até mesmo de andar. seria bom saber levitar. 


segunda-feira, 3 de novembro de 2014

4.0


é fácil não fazer 40 anos. e ao mesmo tempo é de uma inteireza. perdi aos 40 muito de tudo que eu tinha. perdi mesmo a petulância. é tudo que eu tinha aos 20 anos. e que eu tinha aos 30 no mais completo esplendor. agora, talvez me reste apenas o sorriso farto, a gargalhada no segundo inexato que aprendi com meu amigo Rivero. cheguei aos 40 anos com quase todas as marcas e - talvez - justo no momento em que achei que elas tinham desaparecido. quer saber o horror que é uma pessoa, pergunte se ela quase morreu.

o horror de ser uma sobrevivente que escreve bobagens nas longas noites é que isto - esta sobrevivência - acaba virando história. e se a pessoa escreve nas longas noites, mas não é escritora, nem mesmo de mentirinha, a história é quase sempre piegas. como a minha. cada vez que lembro da minha doença - como Barthes devia lembrar de sua tuberculose extemporânea - me vem esta frase cafona::: "eu vi a cara da morte. e ela estava viva". que nada tem de cafona em sua origem, mas que de tanta repetição só pode mesmo hoje ser cafona. mas se a repito, é porque viva é a cara da morte quando ela está muito perto. ou seja, cafona. e agora, esta morte-viva não me deixar sentir a dor que talvez eu devesse sentir. porque agora viva-viva eu não quero sentir dor alguma. porque a dor física, do que me lembro, é tão mais soberana. não é a memória do medo da morte que dói. é a dor do corpo que me fez perder o medo da morte. esta dor é tão mais violenta do que a morte deve ser. porque aí a morte se mostra como finitude daquela dor. "morro, logo deixo de sentir esta dor". é assim que é o guilain-barré::: "morro, deixo de sentir. está de bom tamanho. vivi bem. já li ulisses já li em busca do tempo perdido já morei em paris vou morrer segurando a mão de um amor". "quase posso morrer, se não fosse meu filho". até que, numa manhã, essa dor para de existir. e de novo dá vontade de viver.

e de novo. então, de novo, estou quase sem medo. e quem tiver memória, que lembre.
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e o que me faz  feliz, aos 40 anos? um tanto um tanto. mas digo duas, esta e uma outra - óbvia::: me faz feliz ter um blog. e poder escrever nele um pronome pessoal oblíquo no início da frase. e pode escrever só em minúscula, excetuando o nome de pessoas. e ignorar as vírgulas quando bem entender. me faz feliz, o oblíquo e também as minúsculas e ignorar as vírgulas porque é um exercício de liberdade este escrever para nada, este escrever narcísico que não é exercício algum. é só um escrever.

a óbvia. e me faz feliz Poeminha, que é minha obra. e uma obra inacabada. quase nada sei dele. e quase nada preciso antever, que é também um exercício de aprendizagem. um cuidar do outro que é, primordialmente, um cuidar de si. ontem, eu tive que dizer a ele que estava irritada porque era uma idiota que fazia trabalhos físicos por 10 horas seguidas::: como uma criança triste, dizer: "sabe, filho, quem faz isto com o próprio corpo só pode ser uma idiota". e ouvi-lo responder com um sorriso quase tímido, cabeça do lado:::  "então, mamãe, você deve se deitar aqui juntinho do meu lado que eu vou te cuidar".
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então, me lembrei de outra frase cafona. "eu fui sempre aquela meio poliana, quando não fazia sentido algum ser poliana".
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(o que eu queria dizer naquela noite ao Dariano, e acabei não dizendo, é que esta cidade tirou alguma parte de mim. eu era menos dura com o mundo. e com as pessoas. porque o mundo e as pessoas eram menos duras comigo. antes de vir para cá, eu conhecia muita gente "miolo mole", tão "miolo mole" que dava até susto de ver. e era um miolo mole de alma. eu era a menos miolo mole. só minha melhor amiga não era miolo mole. e a gente brigava feio para não perder a nossa essência. para continuarmos a ser o que éramos:::: o exato oposto. tão oposto que, no meio de tanto miolo mole, ela era a única que me colocava no prumo nas longas manhãs em que acordava enquanto eu dormia das longas noites. eu conhecia gente como o Bado, que inventava uma música em pleno Ibirapuera e não tinha medo de no dia seguinte apresentá-la ao mundo, no mesmo Ibirapuera em que Mano Chao reverenciava esta mesma música que eu havia visto nascer. eu conhecia o frio de Paris e jamais sentia meus olhos gelarem nas manhãs frias. eu acordava as 10h da manhã para as 10h40 ver o sorriso franco do bilheteiro a entregar o único bilhete de cinema daquela manhã. e passava a maior parte do tempo sozinha e quase nunca, quase nunca, a não ser naquele último metrô, eu me sentia sozinha. o que eu queria dizer ao Dariano, e não disse, ou disse, é que eu conhecia pessoas menos endurecidas. mais loucas, mais doces e mais insensatas. mas de um insensato nada perigoso. pessoas que tinham um olhar de viés para o mundo para só olharem as próprias belezas e as belezas do mundo. alguns chamam isso de narcisismo de alienação de alheamento. quanto a mim, chamo de amor. e se há algo que logo sabemos destas pessoas é que nunca temos que pedir perdão. e isto faz toda diferença.
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fazer 40 anos, então, é esta nebulosa (a parte que explicava a nebulosa eu apaguei). das frases mais bestas que disse nestes dias pré-pós-aniversário, nada se equivale a esta. alguém me pergunta se eu estou feliz. e eu digo que sim. a pessoa não acredita muito. e me pergunta por que estou feliz::: e eu digo::: "porque eu não morri, ora". eu poderia acrescentar agora::: "porque estou aqui. e Poeminha dorme tranquilo, enquanto me martirizo com estas dores que não querem me largar".


foto: na feira de San Telmo, em Buenos Aires.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

que povo eu quero ser na face tranquila de meu filho



paulistano não dá carona nem que esteja uma chuva de cair mundo e seja apenas por dois quilômetros e alguma coisa (mesmo que tenha acabado de beber umas cervejas com você). francês beija seu rosto numa distância de passo largo. e se retrai diante de qualquer gesto que esboce alguma intimidade. para nordestino, mocinha de bermuda curta e batom vermelho é puta e negro é preto, e se benze quando vê um logo de manhã. e todo vilhenense é evangélico e homofóbico. 

meu ex-namorado nascido e criado em são paulo desviava mais de duas horas e meia do seu caminho para dar carona a todos os seus amigos num fiatzinho que cabiam até oito pessoas. minha amiga ruiva parisiense com seu namorado dá a cama deles para eu dormir por uma semana, alojando-se, eles, na sua sala minúscula. minha madrinha que se benzia de manhã só guardava um prato de comida para o "nego Dedé" e que ninguém botasse a mão porque era dele.  e, por lá, ai de quem disser que alguém conhecido é puta. e preto. mesmo que sejam preto e puta, como se é e não se é. no bar de maior movimentação em Vilhena, onde vai toda a moçada jovem, hetero, branca e bem nascida, como se poderia dizer, e se diz, os gays se agarram, se beijam, começam e terminam relacionamentos, assim como deve ser. e meu filho é vilhenense e vai sempre ser. e "marca X" de desaprovação pra bisavó que diz que tatuado não vai pro céu. e esta mesma bisa acha tão bonito o moço tatuado. e tão bom.  e este mundo pequeno, que é o de todos nós, desmente qualquer verdade que possa ser verdade nas "grandes linhas" mal escritas acima.

e são paulo é cinza e feia. e tem os espetáculos mais "fodas" que eu já tive o prazer de ver com assombro no olho. porto velho é também suja e feia, se comparada a vilhena e mesmo sem comparação, e foi lá que vivi os anos mais doidos e lindos da minha vida e conheci as pessoas mais fantásticas. campinas já foi a cidade mais perigosa do Brasil. e quando era, eu e minha melhor amiga entrançávamos as pernas alta madrugada bem no seu centro, onde morávamos, e nunca recebemos nem cantada, quanto mais assalto. e paris é uma cidade super segura. e o ladrão levou minha mochila - com todos os meus equipamentos - mal eu pus os pés lá. e é também uma cidade fria e cinza, e lá me sinto em casa, como se minha casa fosse. e vilhena é um grande condomínio de casas luxuosas. e nossa casa é amarelo desbotado, cheia de vida dentro dela, onde um menino Poeminha aprende a crescer. 

que sentidos podem ter os atributos em grande escala, se o que vivenciamos e guardamos em nós é o micro, o pequeno, a miudeza, o gesto mais bonito, mais doce? se, de fato, o que se tem é o que se vive? pra que me interessariam o sujo, o feio, o cinza, se o que guardo em mim é o que vivi e vivo em cada uma dessas cidades, com cada uma destas pessoas?

é por estas e outras que levar a sério os estereótipos, alimentá-los, vociferá-los nas redes sociais, não me faz sentido algum. quem faz sentido é soldado, não é mesmo assim que diz o poeta?. o que interessa, o que deveria interessar, é o mano a mano, o olho no olho. o que estabelecemos de afeto - e de desafeto - com o outro. o outro igual. e o outro diferente de nós.  nestas eleições, é verdade, a prova foi dura. chegamos nela como o país cordial que fez da copa do mundo, contra todos os diagnósticos, um sucesso de gente alegre, sorridente e hospitaleira e saímos dela como um país dividido e retumbantemente preconceituoso. mas será mesmo?  que povo somos::: o da copa do mundo ou o das eleições presidenciais 2014? e se formos os dois? e se não formos nenhum? e se formos esta contradição? nem anjos nem demônios? este gesto impróprio e tão próprio de se benzer de manhã e guardar o prato de comida à tarde? será que já fomos um país de povo cordial? ou deixamos mesmo de sê-lo? inventamos o ódio e o desamor em pouco mais de três meses? ou misturamos o amor, o ódio, o desamor, em pouco mais de três meses? eu não tenho resposta alguma. eu estou meio assustada, meio como todo mundo. ainda mais porque acabei de fazer quarenta anos. e fazer quarenta anos é quando é preciso admitir que a juventude ficou definitivamente pra trás há muito tempo. 

mas sei que a vida não cansa de me dizer que é o um, é o sujeito, com suas contradições, que deveria nos apetecer. que povo eu vou querer ser, é a grande questão; com que povo eu vou querer me acompanhar. e é com este mesmo. este nem anjo nem demônio, porque o céu e o inferno são o solo que pisamos todos os dias. é só o que sei. o brasil que sou, e que quero comigo, é esta face tranquila do meu filho. é a parte que me cabe. e agora, que a juventude já passou há muito tempo, só me resta cuidar desta parte antes que a morte venha e me leve tudo. 
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dedico esta postagem as minhas amigas Lili e Rô, que me deram uma bonita festa de 40 anos, de onde, mais uma vez, eu não queria sair, embora já passasse, há muito, da hora.   



segunda-feira, 20 de outubro de 2014

feliz aniversário, Poeminha


Poeminha, teria sido "revolucionário". e teria sido igualmente lindo se o "motivo" de sua festa tivesse sido a Peppa, a porquinha rosa. considerei seriamente o seu primeiro desejo. mas no esforço de pensar no tanto que teríamos que pedir perdão por ofender o imaginário de algumas pessoas tão amadas, como, por exemplo, sua Bibi, apresentei-lhe outras opções. e você se apaixonou de imediato pela ideia de ser Frida, a do livro, a pintora que tem uma amiga imaginária chamada Frida e que vence as dores sendo artista, como o Barbouille, que nosso amigo Juliano lhe deu. você explicou que queria a Frida... e os carros, e a pintura, e a Peppa - tudo colorido. Inclusive rosa? perguntou a moça linda que compôs o colorido da sua festa. e sem titubear, respondemos que sim::: até o rosa. e o azul o vermelho o verde. as cores de Frida. e na manhã da festa, você carregou para a casa da tia Rô como que com mil mãos todos os seus bonecos - o macaco da Croácia, o Wood, o ursinho branco dado pelo tio Celso, o elefante azul, o homem aranha. disse-me que eles não podiam perder a sua festa. e enquanto conversava, buscava lugar para seus bonecos. perdi o momento em que você percebeu que eles não eram bem vindos. que o banco onde eles foram acomodados por você deveria ficar vazio. queria não ter perdido esse momento, filho. eu teria dito que eles eram bem vindos. 

deu um sono danado em você minutos antes da festa, como que desencantado com a ideia de apenas Frida ter lugar. me explicou a razão. você queria todos. havia convidado a todos. porque só os bonecos da Frida estão lá? eles vão se sentir sozinhos". e vestiu enfezado a roupa. e depois recusou-se a vestir a roupa que realmente seria a da festa. e tirou os sapatos assim que se reconciliou com o pula-pula. e ficou suado demais. e recusou-se a tirar fotos (só a sua avó Dila, com algum pó de pirlimpimpim conseguiu algumas poses). mas ficou inteiramente feliz quando viu que estavam, de algum modo, todos por ali, todo o seu imaginário, todas as pessoas que você mais ama e mais algumas outras que vieram simplesmente brincar com você e distribuir um tanto de presentes, como se Natal fosse! Perguntado pela tia Lili se estava gostando da sua festa, você soltou uma das suas lindezas::: "sim. a minha festa está cheia de vida". 

não fui eu que inventei o seu amor pela Frida, filho. faz mais de um mês que você me pede todas as noites para ler a história de Frida. eu apenas fui a ponte. é este lugar que quero ocupar na sua vida. só este, talvez. sinto que repito o gesto que um dia já fiz com minha princesaamada Jéssica, quando lhe dava as coleções de Harry Porter e, junto, um livro de Kafka e Dostoievski. não quero lhe negar nada. nem a Peppa nem o sabor do açúcar. mas tenho pressa em lhe mostrar o que demorei demais a saber que existia. e que soube também por meio de pessoas. nada saberia de música se não fosse o meu amigo Binho, nada saberia que existem diferenças entre livros se não fosse Marisa Khalil. e não fiz a festa por vaidade. se fosse, teria feito a de um, dois, três anos, quando você nem entendia o que exatamente era uma festa de aniversário. fiz porque você me pediu diversas vezes e porque sua tia-avó Juju veio me ajudar. se saiu bonita, e se foi excessiva, como alguém que nos diz respeito me disse, é porque há excesso em sua mãe. e excesso na tia Juju. gostamos da beleza. e não sei contar centavos. nem reais. quando me dedico a algo, fico querendo que seja tudo do bom e do melhor, como se diz por lá, de onde vim. 

Poeminha, quero crer que nada em mim é da ordem do parecer-querer-ser. sempre fui a ovelha negra da família, como naquela música que você já ouviu por aqui. sempre fui a mais "doidinha" a mais desorganizada financeiramente a mais parecida com o meu pai a que mais bebe a que dá risadas nas horas mais impróprias a que chora com todo o corpo a que defende suas posições de forma extremada a que mais teve namorados "esquisitos" etc. etc. etc.. vou contar dois fatos, Poeminha, que aconteceram comigo antes do seu pai e de você existirem::: quando acharam que finalmente eu ia casar com um bom-moço intelectual e sensível, eu o troquei por um "mauricinho branquelo paulistano nada intelectual" (um dia você vai saber o que são todos estes estereótipos juntos) que depois me trocou por outra e esqueceu de me avisar por um bom tempo (provavelmente, você também vai saber o que é isto, filho!); e quando acharam que eu ficaria naquele emprego de tão bom salário, eu o larguei para ser estudante bolsista da Capes. e se o fiz, filho, é porque me dói viver pela metade, querer pela metade. tenho medo de ficar para sempre num mesmo lugar, com a boca cheia de dentes, sorrindo amarelo. prefiro quebrar todos os dentes.

e apesar de tudo, ou por causa disso tudo, acho que sou bem amada, filho, por aqueles que aprenderam a lidar com este meu jeito. pergunte as minhas irmãs. elas entendem um bocado de amor, porque amam o seu avesso, que sou eu. e, sabe, não deveria lhe dizer nada disso quando deveria estar falando da lindeza que foi sua festa de cinco anos. quando você crescer, vai entender o que é um contra-discurso. é o que faço agora. não rebato o seu discurso, porque o seu, nos mínimos gestos, é de mais puro amor. é que me doeu o que já ouvi. é porque não quis com sua festa mostrar a ninguém que estava feliz. nossos amigos mais queridos, e mesmo as pessoas que visitam minhas palavras neste nenhum-lugar,  sabem que sua mãe não anda muito feliz. mas se houve a sua festa tão linda, é porque penso que é preciso caçoar um pouco da dor, é preciso aplicar doses grandes de felicidade no meio da tristeza mais profunda. é preciso dar risada para não esquecer do seu som quando ela vier realmente em toda sua inteireza. 

(acho lindo o que um dia ouvi de uma amiga, caçoando dos que ficavam tristes em Paris: "tá tristinha, minha filha? vai ali dar uma voltinha no Louvre". isto de oferecer algo maior à grandeza de uma dor. Pois eu sou esta pessoa, filho, que vai ao Louvre; que tristinha enche uma festa de cores. para fazer recuar o preto e branco da existência. e chegar perto da cor do ser vivo.

e como foi lindo seu aniversário de cinco anos! lindo mesmo. faltaram garçons, filho! e faltou um fotógrafo. e na loucura dos preparativos, esqueci de convidar algumas pessoas bem bacanas. sou uma amadora, filho. sempre serei. e uma amadora, mesmo com mania de perfeição, sempre esgarça algum fio da seda mais brilhante. então, não faltou nada. eu e seu pai estávamos lá. estavam lá sua avó e seu avô, pais do Tatupai. minha tia Fá e sua tia Maneca (que é "mole" pra sair de casa, como eu disse e você me dedurou!), sua Bibi e um tanto de primos que você nem imaginava ter. e nossos amigos. e não tão amigos, mas tudo gente boa com crianças como você em casa e ainda outras que eram só gente boa. e a festa foi na casa da tia Rô, que antes de nos conhecer não participava de festa alguma. olha que bonito, filho! não havia espaço na nossa casa para as pessoas todas que queríamos convidar. e Tatupai teve a ideia de ser na casa da sua tia Rô, que nem é sua tia, mas que você ama como se assim fosse. e ela aceitou e o tio Inildo aceitou. e só depois lembraram/ lembramos que tia Rô não gosta de festa de aniversário. esta é uma boa tradução de amor, não esqueça::: fazer um movimento que não lhe é próprio e que se transforma em "próprio" por causa de um outro: a vinda dos seus avós de Maringá, tia Juju ser a "maestra" de tudo, tia Maneca pôr a sua "moleza" de lado e pegar o ônibus e vir até aqui, a tia Rô esquecer que não gosta de festa, toda as gentes que suspenderam suas vidas por algumas horas para estar ali, na sua festa. tudo isso é amor. 

*** preciso ainda lhe contar a última história desta noite tão linda::: no finzinho da tarde, quando ainda nem havia festa, surgiram dois meninos no portão, perguntando se podiam ir no pula-pula que havíamos montado para sua festa. dissemos que sim. entraram sem-cerimônia e foi grande a alegria. um deles, o menorzinho, o mais descolado, perguntou depois se podia participar da festa. dissemos novamente que sim. ele foi em casa e voltou "banho tomado, roupa trocada".  e ficou durante toda a festa. seu nome é Gustavo. ele dá cambalhotas sensacionais e perigosas no pula-pula, vez em quando xinga e dá sopapos. ele quis todas as "sacolinhas" e docinhos só para ele. ele abre um sorriso lindo e desconfiado quando os adultos tentam ordenar as suas ações. ele foi nosso convidado penetra, Poeminha. foi nossa Peppa. guarde isto. guarde apenas isto:: o não medo de se convidar. de pedir o que deseja. o menino Gustavo apareceu para isto, Poeminha: para nos doar cambalhotas espetaculares. para nos doar seu sonho de participar de uma festa toda cor. vamos esquecer não o que ele nos deu, mesmo  que nunca mais o vejamos. nem disto nem do gesto da tia Juju. nem do esforço do Tatupai de estar a postos para tudo fazer. sem esses gestos, não haveria festa. nem cor. nem gargalhada. porque tem muitas coisas que eu só sei fazer com a ajuda de outros. 

eu te amo. amo amo amo. isto eu sei por inteira. feliz aniversário, Poeminha. atrasado. do dia 24 de setembro até o dia 18 de outubro, foi um bocado de dias. sim, eu me atraso, vez sim, vez não. vez.
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segunda-feira, 13 de outubro de 2014

para o filho



 Poeminha, ontem foi o dia das crianças (você já percebeu que existem estas datas instituídas e já sabe valer-se delas para, entre meus joelhos, apontar o que quer e repetir repetir repetir até a coisa se materializar). eu sou muito vacilona neste sentido. faço o discurso que é caro, mas compro. e foi assim sábado. entrei naquela loja cheia de prazeres e me deu uma dor grande bem no meio da minha garganta. teve uma hora que meus olhos marejaram muito e só não me permiti sentir o sal no canto do lábio porque seria um despropósito, ali, no meio daquela gente toda. é que lembrei daquela criança que talvez eu nunca tenha sido, mas que colei aqui como parte da minha identidade. fiquei meio tonta, acho. mas você não percebeu nada. e saiu de lá com o mundo cor de rosa nas mãos. tenho adorado isto. é marketing puro. mas é uma porquinha (mulher), rosa, que tem destruído anos e anos da distinção azul-menino, rosa-menina. queria que quando você crescesse já estivesse tudo misturado, filho. 


mas está difícil. o mundo está turvo demais, poeminha. bastou uma campanha eleitoral para presidente para disparar ódios que já pareciam soterrados, mas que, na verdade, sempre estiveram na superfície, à beira de. "um horror, um horror". você também logo vai saber que uso esta expressão extraída de um livro maravilhoso a cada vez que me faltam palavras para expressar alguma terrível surpresa que me domina e nos domina. sua mãe, eu, pressentia isso há tempos. acho que por ter sido desde sempre "diferente", filho, logo quis aprender a estar do lado do "diferente".  e comecei a ver como isso chocava até mesmo algumas pessoas que me pareciam tão bacanas. eu não sou fácil não, filho. às vezes, lanço uma mão pesada sobre pessoas bem amadas por mim. mas nunca, nunca por uma razão genérica. tem sempre a ver com o que me parece um "cuidado". tenho medo, e logo você vai saber, de uma desconexão parcial ou total com uma certa disciplinarização. porque eu acho que sou bem assim::: não me desprendo da disciplina, apesar de gostar dos devaneios, das luzes fugazes das longas noites. então, quando sinto que alguém amado afasta-se deste "cuidado de si" (algo bem mais bonito do que "disciplinarização"), eu me enfezo e me dano a querer cuidar, sem saber fazê-lo de jeito nenhum. mas o certo é que você nunca vai ouvir neste mundo que é nosso, na nossa casa, ódios genéricos. preto branco gay pobre nordestino nada disso existe aqui como raça como classe como origem. o que existem são pessoas. pessoas que amamos, pessoas que quero que você aprenda a amar, por mais que não tenham em si esta mania de ordenação que me persegue. é porque bom é isto. o outro que não é igual a nós a ensinar-nos outra via, outro vão. 

mas então.  o que eu estava dizendo era que ontem foi o dia das crianças. e o momento mais bonito foi você quem nos deu. sua tia-avó Juju, que você aprendeu a amar nos dias que esteve com elas - as tias-avós, a avó, o avó, a bisavó, o tio-avô -, está aqui. e adivinhe::: veio para me ajudar a organizar seu aniversário de cinco anos, que já passou, mas que não pode passar em branco como nos outros anos. olha que sorte, filho! tanta gente me aponta o dedo, machuca minha ferida, pela minha tola incapacidade de fazer uma festa de aniversário do jeito que você merece, e de repente aparece esta sua tia-avó, a mesma que fez seu enxoval, e simplesmente diz que vai me ajudar, que está vindo, mais de mil quilômetros, sem que eu peça, para fazer a festa junto comigo. filho, que sorte, que sorte a nossa. 

pois ontem ela fez o almoço do dia das crianças. e ante nossa pressa de almoçar, fez um agradecimento na mesa. e acatamos este agradecimento. e  você acatou. e foi aí que aconteceu o momento mais bonito. você agradeceu e começou a nomear várias pessoas, a bendizer várias pessoas que lhe são amadas: júnior zé consuelo sua avó e outros tantos. fiquei de novo com o olho marejado. mas desta vez foi por pura felicidade. sem se dar conta do que fez, por lhe parecer tão natural, à noite, depois de ficar por aqui, me vendo trabalhar, ainda pegou o violão enferrujado do Tatupai e ficou tocando e cantando. e volta e meia vinha e me perguntava como era tal palavra em francês. e eu não lembro de haver lhe dito que estava, justamente, fazendo uma tradução em francês. que dia, poeminha, que dia você me ofertou. obrigada, filho, obrigada. não estive à altura do que você me deu, mas prometo tentar me redimir no próximo sábado, quando seu aniversário vai acontecer, longe do azul, perto do vermelho. vermelho da Frida, por quem você está mais do que apaixonado. mas isso já é outra história que prometo contar depois. 
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só mais uma coisa. o que eu desejo, sobretudo, é lhe ensinar que existem estas tantas cores. esta cor forte chamada vermelho. que pode se misturar com o verde o azul o amarelo o rosa o azul. e quero ensinar o que, pressinto, você já sabe.
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terça-feira, 7 de outubro de 2014

sobre o sell 2014

hoje colocamos quadros na parede. ou melhor, Tatupai, sob a minha supervisão. também dei uma organizada nos livros (no que ainda é possível, pois a urgência de novas estantes já é visível há tempos). e ontem, depois de almoçarmos com o Yuji (esta belíssima pessoa!) e após votar (em Dilma, diga-se de passagem), avancei na noite lendo O que amar quer dizer, de Mathieu Lindon. tenho uma lista tão grande de "livros para ler sem ter razões para lê-los", isto é, livros que nada têm a ver com a docência e a pesquisa, que aproveito sempre estes momentos de "quietude" e "escape" para ler algum deles. 

"quietude" e "escape" foram palavras que utilizei para explicar a minha amiga Rô a razão por que sempre me retraio depois de um grande "projeto", como o do SELL - Seminário de Estudos Linguísticos e Literários! é por isso que ontem foi quietude e hoje, organização; minhas formas de escape. tenho em mim qualquer coisa que se poderia chamar de "compulsão por eventos". a cada ano, crio e recrio a coordenação de um. em seis anos de UNIR, foram seis eventos acadêmicos::: quatro edições do SILIC, uma edição do FALE e, neste ano, o SELL. a cada ano, dá vontade de parar. e a cada ano, vontade de continuar. posso atribuir o mesmo "mal" a minha amiga Rô. fomos sempre parceiras nesta compulsão. 

neste ano, tenho a impressão de ter sido mais difícil. talvez porque pisasse em território desconhecido. o SILIC é nosso, do Gepec - Grupo de Pesquisa em Poética Brasileira Contemporânea. todo e qualquer problema, toda e qualquer desdita, todo e qualquer contratempo são da ordem do entendimento, da soltura. é uma ação de amigos. já o SELL tinha o peso do cargo. foi como chefe de Departamento que me lancei nesta empreitada. e foi como chefe que respondi a todos os problemas que surgiram. e foram muitos problemas. fiquei com medo de que ele ficasse sem alma. mas só tive este receio por pouco tempo. 

quando estava começando a organizar, veio o luto e, mais a frente, o medo de perder um dos meus grandes amigos. foi assim que, muitas vezes, tive raiva de ter me metido nesta. queria viver meu luto em paz. e queria cuidar do meu amigo. ou seja, toda a minha alma já estava neste evento. o que me sobrava era imprimir a emoção; a mesma que é a marca registrada desses eventos todos. e não foi difícil. no aeroporto de Guarulhos, no meio do caminho para enterrar ser tão amado, escrevi o texto para mediar a ideia desta edição. desencavei o verso "o que quer/ o que pode esta língua?", de Caetano. estava inteira naquelas poucas palavras. quantas histórias minhas coloquei ali? e quantas histórias renderam este verso de Caetano? 

serei sempre grata a Wanderley Geraldi, a Veronica Stigger, a Pedro Serra, ao Alvaro Hatther, ao Yuji Gushiken, a Marcia, às meninas das monografias (foi lindo, lindo!) e mais um tanto de gente por terem desdobrado o verso de Caetano e terem feito um SELL tão cheio de emoção, de alegria. é isto mesmo. as palavras são estas. as emoções são estas. e é dessa rasura que eu gosto. enxertar no meio do academicismo uma onda que faça ressoar toda a entrega que é necessária para que um evento como este aconteça.
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foi bonito como tinha que ser. este trabalho em parceira que eu e Rosana inventamos é sempre da ordem da boniteza. foi diferente não este ano. "há marcas em mim no SELL. e há marcas do SELL em mim", foi o que disse na abertura. e esta é uma das muitas bem-aventuranças.
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sábado, 20 de setembro de 2014

dilma, dilma, dilma, n vezes dilma


vou dizer por que voto na Dilma. e acho que posso, sim, ser acusada de fechar os olhos para tantos problemas. e acho mesmo que eles estão aí aos borbotões. primeiro, se me perguntarem se Lula e Dilma sabiam sobre sobre as porcentagens tipo Petrobás, eu vou dizer que acho que sabiam. mas vou, com a mesma cara-de-pau, dizer que somente um idiota pode achar que já não acontecia isso desde sempre. e se me vierem com essa lenga lenga que o PT tinha a obrigação de ter acabado com isso, vou me sentir no direito de dizer que ou a pessoa é muito burra ou quer pagar demais de ingênua. não não não. o PT e nenhum partido político podem acabar com isso. não existe um poder. existem poderes. e qualquer pessoa minimamente inteligente sabe disso.

pois voto na Dilma, e no PT, porque fui criança e adolescente no Nordeste brasileiro, porque fiz graduação numa universidade do Norte do país e, hoje, trabalhando nesta mesma universidade, sou bem capaz de perceber todas as diferenças. e ninguém, no meu tempo, queria ser criança no Nordeste brasileiro (e lá vou eu fazer 40 anos), em que imperava de maneira afrontosa a indústria da seca. queria que todo mundo como eu tivesse comido meses e meses seguidos feijão preto e arroz escorrido, um tipo de comida que cachorro late ao redor do prato e não tem coragem de comer, doado pelos filhos-da-puta dos governos da época, em caminhões das misérias,e arrastado “roladeiras” imensas de água em areia fofa, por falta de água, com uma anemia do caralho por falta de comida, diagnosticada pelos médicos mais incompetentes que diziam que era morte na certa antes dos treze anos, e tivesse coragem de olhar no meu olho e dizer que não houve grandes mudanças neste cenário. ainda tem muita pobreza e injustiça no Nordeste, sem dúvida, mas a cada vez que vou lá e vejo as transformações, e lembro de como eu vivia e viviam minha família e meus amigos e hoje vivem, com muito mais "folga", como se diz por lá, vejo que o Brasil mudou. e mudou pra melhor.
    
e nas universidades? quero saber qual é o professor universitário que não sente e vive todas as mudanças. tem mesmo toda esta porra da exigência de produtividade que incomoda pra cacete, mas vou dizer que só incomoda a dois grupos: aos que já produziam sem todo este big brother da produção e aos que nunca fizeram nem vão fazer, por inércia e incompetência. os primeiros acham que não é preciso tanta regulamentação porque são incapazes de olhar além de seus umbigos e, por isso, pensam que todos são santos que produzem sem nenhum mecanismo de controle. no fundo, eles devem saber que é uma grande mentira e que estes últimos, na verdade, são boa parte do corpo acadêmico. também acho lindo Marilena Chauí com a sua coragem de bradar na USP contra o Lattes. mas quero que antes de assinarem embaixo ao que ela diz que deem uma olhada ao que lhe deu autoridade para poder dizer/ fazer isso. quem tiver olhos pra ver, verá só uma coisa: muito trabalho; isto é,  muita produção. vá ver se Marilena Chauí está do lado desta gente toda inerte e burra que tem por aí aos montes "mamando" nas tetas das Universidades!   

o que era a universidade antes do governo petista, neste momento de histeria, ninguém quer lembrar. é mais cômodo meter o dedo nas feridas que sei são muitas. mas querem mudar para onde? depois não me venham reclamar, pois não vou querer nem saber. ando tão desiludida que estou doida para me refestelar na minha biblioteca de três mil livros que consegui comprar no governo Lula-Dilma. e quando não tiver mais nenhum projeto pra “concorrer”, nenhuma greve para aumento de salário, nenhum edital para organizar evento, nenhum programa para participar, não me venham lembrar como era boa a dinheirama toda que o governo Dilma esparramava pelas universidades e que, na maioria das vezes, era tão mal aproveitada.

quero que alguém me aponte quando foi que se viveu melhor no Brasil, da classe mais baixa à classe mais alta. se tiver alguém, sem o cinismo rede global, que me prove isso, posso até mudar de ideia. e não. não serão os manifestantes classe-média-boba dos arredores da avenida paulista que me convencerão, porque eu já vivi por ali e amo de paixão, e por isso sei como é bem melhor e sei como é fácil achar que a partir dali dá pra mudar o Brasil todo (dá não, seus bobinhos). vem viver aqui na mata pra ver o que é comprar pelo triplo do preço qualquer merdinha que se compra na 25 de março pra ver o que é bom pra tosse, como diria o lindo Itamar Assumpção. 

é por essas e outras que vou continuar fazendo vistas grossas aos 3% de qualquer falcatrua. Antes 3% do que 100%. e podem dizer o que for. que sou alienada. que sou cega ao que está aí. que que que. quem passou fome fui eu. o corpo é meu. e quem sentiu a dor que é fui eu. que me deem então o direito de olhar de revés para esta classe média metidinha a besta que acha que tem consciência na hora de votar. que acha que Lula-Dilma só distribuíram vale-pobreza. pois digo que não. Lula-Dilma distribuíram oportunidades. e eu sou uma das muitas provas vivas. e se a classe baixa anda esquecendo isto é porque é de nós querermos sempre mais - este logro mumificado. e falo mal desta classezinha média mequetrefe porque, amém, estou meio inserida nela. e por conta do milagre dos milagres chamado Lula-Dilma, junto comigo, parte de minha família - aquela mesma que comia meses e meses feijão preto aguado e arroz escorrido sem tempero algum algum -. hoje, meu filho, com quatro anos, diz pra mim que só quer dormir no ar-condicionado,  crescendo na bonança desta classe infame.  e também meu afilhado lindo, calouro em mecatrônica (!) da Unicamp, em plena avenida paulista, tem coragem de dizer na minha cara que a educação no Brasil é uma das piores do mundo e que nada tem sido feito para mudar; ele, logo ele, que tem a mãe que como eu arrastou muita roladeira de água e passou muita humilhação para só raspar perto do seu sonho de ser médica, enfermeira que é.  cabe a nós, então, que carregamos as tais roladeiras, e que vamos continuar votando em Lula-Dilma-PT, ouvir tanta merda.  
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então, digo e repito: Dilma Dilma Dilma. e se ela perder, vou ler meus três mil livros, olhando só de rabo de olho a desgraça que será - esperem. 
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quinta-feira, 11 de setembro de 2014

começos



poderia começar de modo tão seco quanto Silverstein: os dias não têm sido felizes, e por isso escrevo. 
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posso também começar de outro jeito. apesar de os dias estarem muito quentes, continuo a andar de bicicleta. e andando de bicicleta, lembro continuamente de Marie, minha amiga ruiva. ainda mais do que antes e, volta e meia, um sorriso largo se expande em meu rosto. em Paris, andando para lá e para cá com ela, cada uma numa bicicleta (sim, ela não me deixou andar sozinha nenhuma vez!), descobri um tanto de coisa: não sabia andar de bicicleta apenas com uma das mãos, tinha medo de olhar para trás, não sabia sinalizar com as mãos e tenho muito receio do trânsito. excetuando o último, tenho aprendido os três outros movimentos ao relembrar de Paris e de minha amiga Marie, que é senhora das ruas em Paris. esse atrito com o outro, e um outro que se ama, é tão cheio de aprendizados. é como uma música que ressoa no nosso ouvido e não quer despregar. Marie é esta música em mim. e a bicicleta virou o lugar onde me encontro com ela em pensamento. e procuro aprender a me equilibrar. 
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e ainda de outro. gastei uma enormidade de dinheiro com livros na Gibert Joseph em Paris. Marie olhava admirada aquela pilha. como eu olhei, admirando, aquela bolsa Diesel tão a minha cara e constatei que jamais poderia comprá-la para logo em seguida gastar o mesmo valor em livros. acho que Marie olhava tentando entender minha relação com Derrida. porque os livros eram quase todos de Derrida. eu tinha muitos planos com estes livros - ainda tenho. e há um mês, talvez em busca de dias felizes, pus um deles em prática. e me danei a ler estes volumes de livros. e de novo relembrei o choque feliz que é o encontro com o não-saber. me veio uma espécie de pavor terno. o que pode ser um pavor terno. pode ser essa admiração contemplativa com a própria ignorância. e com os limites do tempo. não sei se o terei. o tempo. mas no meio deste pavor terno me veio a certeza de que preciso tentar. o tempo. para mim. para o outro. para este encontro carnal com o outro. para este encontro à flor da pele que pode ser a leitura, pode ser a escrita, pode ser uma noite de amor, pode ser um aprender a pintar junto com o filho. e pode ser também para a infinidade de tarefas do cotidiano. pode. 
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e outro modo. escrever sobre o que não se sabe exige muita sinceridade. sinceridade com o não-saber. mas também com o saber a vir. exige uma comunhão que raramente é fácil. mas que pode ser bem bonita. eu acho bonita. assim como acho bonito aprender a sinalizar com as mãos nas ruas desta cidade em que não se necessita disso. se o aceno é um sinal de querer aprender o que antes não se sabia é bem bonito. tive que por ora abandonar este texto de quinze páginas que escrevi nas noites insones enquanto meu braço ficava pendurado de dor, porque o não-saber me consumiu demais. fiquei tão pequena que foi preciso parar. mas apenas por enquanto. mais livros chegaram pelo correio. tenho muitos planos com eles. e com o tempo. e com os sinais. estão todos aí - e é só preciso aprender a mover o corpo, precipitar-me um pouco para trás e confiar que não olhar para a frente por um instante não tem nada demais.  
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e ainda, talvez por fim. a iminência da perda é sempre um transtorno infinito. não existe nenhuma dor que possa transplantar esta dor. a perda dói mais que a iminência, é certo. porém depois da perda é sempre a chance do recomeço. e talvez seja por isso que a iminência seja tão mais transtornadora. mas de novo, ou quando escrevo ou quando ando de bicicleta, penso em oração. nenhuma oração reconhecível; apenas a doce música do atrito com o outro. então eu lembro daqueles dias tão antigos. das risadas. do único ser com enorme prazer de passear de carro sem destino algum - e apenas a música, sempre a música. e me vem a certeza de que ele vai lutar com toda sua alma de gigante para continuar aqui na terra. e a perda, que poderia ser dupla, abre um clarão. e se retrai. 
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porque tudo são inscrições corporais. deixar-me envolver pelo que sei e ainda não sei e talvez nunca vá saber é o modo mais honesto que encontrei. porque a clausura do que não se tentou é sempre a pior demência. a que me recuso a ter.
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 poderia, ainda, terminar assim: os dias têm sido felizes, e por isso escrevo. 
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domingo, 7 de setembro de 2014

a parte que falta


Poeminha já nasceu com sua minibiblioteca. este sentimento de "posse" já produziu muitos gestos bonitos. um dia, quando era ainda bem pequeno, num gesto espontâneo de mostrar o quarto dele ao nosso amigo Iremar, disparou: "aqui é meu quarto; e estes são meus brinquedos,  e aqui são meus livros. olhe: meus livros". em outro momento, já soltou, com ar de reprovação: "mamãe, por que o meu livro está aqui na sua biblioteca? tem que ficar no meu quarto!". e saiu batendo o pé com o livro embaixo do braço.  e volta e meia diz: "mamãe, meu sono precisa de uma história". já é um leitor, sem ainda saber ler. 

e ontem à noite, como sua leitora, tive mais uma vez o intenso prazer de poder observá-lo enquanto se apaixonava por um livro. trata-se de A parte que falta, de Shel Silverstein. no curso de formação que ministro para orientadores de professores da alfabetização, sempre insisto no fato de que nunca, de fato, sabemos o que vai disparar na criança o amor por um livro. porém, a busca por livros de qualidade deve ser do adulto. vejo muitas mães comprando livros de péssima qualidade somente porque são de capas duras e coloridos. e seria uma conversa muito longa se fosse falar aqui de parte dos livros de ficção distribuídos nas escolas. por isso, insisto que a pesquisa - de uma mãe, de um professor - deve ser também movida pela curiosidade e pelo amor aos livros. o que não impedem os equívocos, claro. já errei bastante. houve livros que eu achei que iriam "abafar" e o interesse não passou da primeira leitura.

e quando sei que acertei em cheio na escolha? primeiro, o olho brilha. não há imagem mais chavão, eu sei. mas quem já não viu um brilho no olho? que se segue a um movimento de corpo, a uma atenção redobrada, a um sorriso de espanto? e no nosso caso, a um aconchego ainda maior - pois quando Poeminha quer chegar mais perto ainda do livro, chega mais perto de mim. ontem, foi um pouco diferente. ele agarrou o livro. folheou antes mesmo que eu terminasse de ler. olhou olhou. e me mandou continuar a ler. e enquanto eu lia, disparava uma porção de perguntas. uma mais difícil que a outra.

"Por que ele está procurando?
"Por que ele deixou a parte sozinha?
"Por que ele segurou tão forte?
"Porque continuou procurando se já tinha achado? 
"Por que não deu certo?"
"Por que? Por que?"

foi preciso ouvir o Poeminha disparar estas perguntas uma atrás da outra para entender o "indireto" barthesiano. e toda aquela conversa de que a grande literatura é a que suscita mais perguntas do que respostas. 
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A parte que falta é mesmo um livro espantoso. com seu traçado simples, suas frases curtas, num domínio absoluto da folha em branco, Silverstein trata de questões tão complexas quanto a solidão, a busca por um outro, o abandono, as escolhas e suas consequências. o início é já uma bordoada: "Faltava-lhe uma parte. E ele não era feliz". esse modo seco de dizer, sem nenhuma modulação para o "faz-de-conta", não diminui em nada a delicadeza e a força do que é dito e mostrado. também fiquei maravilhada. assim, grávida de perguntas também. soube não o que dizer ao Poeminha. lembro que disse que a vida às vezes é assim. e que mesmo assim é bem bonita. ou por isso, é bem bonita. e agarrei-o bem forte para que ele se convencesse.  E, por fim, ele disse: "mamãe, gostei demais"". 

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da próxima vez que algum adulto me disser que não lê certos livros para uma criança, ou não diz certas coisas espinhosas, ou eu vou xingar, como algumas vezes dá vontade, ou vou mandá-lo ler este livro para uma criança.   

       

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

mar mar azul azul (paloma vidal)

quanto tempo dura um luto?


o domingo cinza no mar azul de Paloma Vidal (resisti não à facilidade das cores!)... Mar azul é um livro bem bonito. é triste de doer lá no osso. e bem escrito. é intimista na sua narração em primeira pessoa. e tem aquelas parecenças com a literatura contemporânea que eu, leitora "por obrigação" desta literatura, por vezes reclama. e ainda assim, termino pensando que é um daqueles livros que alimenta o oco da existência. todo a serviço da sutileza. 

a epígrafe de Agnés Varda - je me souviens pendant que je vis - é como um corpo que envolve toda a narrativa. lado a lado entre o esquecimento (do pai) e a própria incapacidade de esquecer, a protagonista deste romance escreve. escreve, nas costas dos cadernos deixados pelo pai, o romance que leio no domingo cinza. o "agora" ganha diversas camadas, mesmo que não seja nenhuma novidade tal procedimento. é bonito porque é nesse enfrentamento do presente que a protagonista - septuagenária - transita entre o corpo físico e este impalpável que denominamos passado. 

um passado que está materializado, para o leitor, apenas nas primeiras páginas do romance (e na última) por meio das cenas de duas amigas; a que agora escreve e a que desaparece. todo o resto é memória e tentativa de esquecimento, trespassado pela presença física. é o que há de melhor no livro::: uma circularidade que retoma a cada final dos curtíssimos capítulos o incômodo de um corpo que se deteriora pela velhice. é como se fosse este corpo que, por mais que seja cuidado com esmero por idas detalhadamente descritas a médicos especialistas, se recusa também a ser esquecido. é ele, pois, o que salva. a memória é a doença. e o ter que cuidar do corpo é aquele pouquinho de "descanso" necessário para a sanidade mental. não à toa, numa narrativa toda marcada pelo signo da água, seja na natação que a protagonista sem nome consegue estabelecer algum vínculo com o presente. 

é porque ser o avesso não é mesmo fácil. e o que vemos/ lemos é a mesma história do pai que se foi. é a circularidade terrível da vida. como o pai que a abandonou, e que morreu desmemoriado longe de todos, longe de sua terra, despatriado, esta narradora também caminha para a morte, também escreve em velhos cadernos de outro lugar, num outro lugar. o deslocamento, aqui, a viagem, não gera nenhuma mudança. pelo contrário. longe do seu lugar, longe dos "seus" - que não existem mais -, a luta diária tende a se resumir ao esforço de manter uma certa rotina, por mais que ela também seja repudiada. 

a viagem, assim (a bela viagem onde se encontrou o amor), não leva a lugar algum, não produz nenhuma mudança. é a imobilidade, o estar-só, o que resta de toda uma vida. tem não como não me entristecer com este belo romance. 
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Merci, jesuscristinho, por ter me dado insônia, bom gosto, bom humor, as lágrimas e Nina Simone para embalar tudo isto.       

Para Mariana, que sabe de silêncios.



segunda-feira, 11 de agosto de 2014

"estou tentando me colocar no lugar certo"

roubei esta frase do Daniel Galera, na explicação sem explicação ao se despedir da sua coluna semanal no jornal O globo, que era meu café da manhã toda segunda-feira (a coluna saía aos domingos, mas eu lia na segunda). vou sentir saudade. mas penso que entendi o que ele quis dizer com "estou tentando me colocar no lugar certo". o recolhimento, o afastamento dos barulhos do mundo (imagino como estava grande o barulho por lá, depois de Barba ensopada de sangue!) é um gesto essencial quando se tem algo que parece mais importante em mira.

no entanto, o "lugar certo" é uma miragem. alguns fazem esta busca de modo mais consciente; outros patinam e ainda outros desistem muito rápido. não sei em que categoria estou. mas sei que nunca me desgarro da autorreflexão. às vezes me canso. queria pensar menos. ou ter disposição para fazer ioga. e quem sabe assim colocar os pensamentos nas caixas certas etc. etc.. mas as caixas são sempre outras. como num poema de Marcos Siscar: "penso em organizar as caixas do meu passado. ordenar seus episódios aquilo que havia. o que no passado se preparava e o que nele se perdia. abro uma caixa com malícias cartesianas pronto para dar ordem aos caos. subpastas etiquetas. distinguir natureza e qualidade história e mistificação. mas a mesma caixa é sempre outra surpresa. ...". 

e é assim.

primeiro, desastradamente, organizo, seleciono. e vejo que pode dar certo. o que antes em tanto atraso se acomoda, afasta-se do atraso. seleciono. e perco algo no meio do caminho. e ganho outro algo. e junto, abro os hiatos. antes cada vez mais raros. o que há lá. o que procuro ainda não sei. sei que é bom. é bonito voltar a ser leitora "por nada". a ter uma rede no quarto pra deitar. a dormir no meio da manhã. e no meio da tarde. e conseguir uma relação menos paranoica com a casa. e ver um filme no final da noite. ou no início da manhã. e brincar com Poeminha. cortar bolinhas para o trabalho e para o filho. e se empolgar naquele trabalho que deveria ser só para ganhar uma grana a mais. e ficar feliz com isso. e desejar. porque o que eu quero mesmo é tão simples. eu só quero saber algumas coisas. e estar próxima de outras. e de algumas pessoas. isto é, eu só quero não perder o desejo de desejar. a mesma caixa sempre outra surpresa
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* imagem: sempre apaixonada por essas esculturas da louise bourgeois. a foto foi do celular, mas gostei tanto deste ângulo! (de novo, a  cada dia ansiando pelo dia em que poderei comprar outra máquina para continuar minhas fotografias! porvir: fotografia). 

quinta-feira, 31 de julho de 2014

o chão da literatura

quando estava voltando de Paris, cansada dos dias intensos [e do peso da mala, que eu e Marie havíamos arrastado penosamente nos longos corredores e escadas do metrô], não consegui dormir. ainda assim, não consegui dormir. algo em mim estava muito alerta. e num avião sem grandes confortos, num espaço exíguo entre cadeiras, tirei as botas, acomodei o travesseiro e me pus a ler o livro de Benoît Peeters, Trois ans avec Derrida

o livro é um diário dos três anos em que o autor escreveu a biografia de Derrida. é, pois, um livro muito simples. mas o fato é que me emocionou profundamente. talvez tenha sido a alegria dos dias que haviam terminado, talvez tenha sido a entrega radical que o autor imprimiu na sua pesquisa e está registrada no livro, talvez tenha sido a memória da minha "relação" com Derrida, afinal eu havia escrito uma tese sobre ele... talvez! certas frases não têm como serem organizadas. resta um talvez. uma restância, diria Derrida. o certo é que em vários trechos chorei e só parei quando terminei. não lembro mais se dormi. mas desci do avião como se tivesse atravessado algo dentro de mim. 

sei que pensei também sobre a minha vida, fazendo aqueles paralelos toscos que a leitura permite. e agora, só agora, vejo que havia alguns enganos de base. e agora esses enganos bagunçam minha vida com uma virulência inimaginável. não sei o que mais dói. se ter sido pega de surpresa, diante de todas as evidências. ou se as evidências. mas não é sobre isso que quero falar. não aqui nesta grande angular para o mundo. 

quero falar deste lugar instável da literatura na minha vida. instável, porque, como eu disse hoje a minha amiga Rosana, já fui uma grande leitora, e hoje só consigo manter um ritmo de leitura a duras penas, lutando quase sempre contra o sono, o enfado, o turbilhão de tarefas. pois, agora, desgarrada de um bocado de ilusões e certezas, não tenho dúvida de que a literatura é, para mim, um porto. e será para sempre. esse hiato que abro a duras penas nesta vidazinha medíocre de administrar afazeres quase sempre desagradáveis não é exatamente o que me salva, porque penso que a literatura não salva ninguém. mas se tem algo que me disciplina diante dos alaridos do mundo e dos meus próprios alaridos é a literatura. e mais especificamente, o romance.    

se começo a odiar as pessoas, se começo a odiar a mim mesma, se uma dor intensa se entranha e não quer sair de jeito nenhum, tirando meu chão, e com isso entro numa verborragia sem fim, é na literatura que encontro, por fim, o chão. um chão movediço, solitário, quase desesperado, mas um chão. que estanca a verborragia e me dá condições de continuar. e continuar com a mesma inquietação. com a mesma vontade de seguir estancando os ódios, as dores, os temores, as mágoas, dispondo-os de tal modo que não impeçam os meus passos - que são os passos de alguém que consegue ter uma estranha sensação de alegria e paz nesta "vidazinha medíocre de administrar afazeres quase sempre desagradáveis". e que talvez por causa disso, consegue vez ou outra rasurar essa vidazinha e ir ali, bem ali, ou acolá, ou aqui mesmo, para viver algo bem bonito, como esta viagem a Paris, esta leitura do livro de Peeters, ou a leitura do livro de Laura Erber, Esquilos de Pavlov, que agora leio nos intervalos.    
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