quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

nos dias de São Paulo

Não, não
São Paulo é outra coisa
Não é exatamente amor
É identificação absoluta
Sou eu 
(Itamar Assumpção)













preciso dizer, antes de mais nada, que em um dos dias que perambulei por São Paulo, com uma heinekken na mão na avenida Paulista, sozinha, mas inteira feliz, como naqueles cartões-postais que imprimimos para fantasiar nossa história, eu pensei que estava toda linda. e linda porque estava ali como eu havia imaginado, mas que havia dúvida de não conseguir. e imaginei como era bonito ter coragem de me olhar e ver que havia um tanto bem errado, que ou mudava ou seria um sem-fim de erros. agora que se avizinham meus 42 anos, penso estar mais próxima da velhice do que da juventude. no entanto, quanto mais envelheço, mais quero me rebelar contra a cristalização. quero estar pronta, ainda, para mudar. e eu pensava em Mariamada, Inildo, Manamácia, Maneca; essas pessoas todas tão distintas de mim, mas que aprendi a admirar justamente pelo que não sou. e que só poderei ser cortando uns pedaços da minha carne.

eu sou uma pessoa muito impertinente. as pessoas me amam ou me odeiam. e algumas me amam e me odeiam. sou difícil. mas quero crer, no que vejo de mim, e não posso alcançar no que os outros veem em mim, que sou fácil de lidar. quando gosto, gosto muito. quando não gosto, sei ignorar, embora saiba travar grandes lutas. e apesar disso, de ter uma boa imagem de mim, como parte dessa cegueira que nos constitui, eu quero ser outra o tempo todo. eu quero ser a que muda, a que se rebela diante de qualquer conselho, mas que, com a cabeça longe da predição, no silêncio, ouve, não uma voz interior, mas essas outras tantas vozes - nesse caso, mariamada, inildo, manamácia, maneca. eu quero ser como elas e ele. mas quero ser, sem que minhas vísceras sejam destripadas.

dá para ser assim aos 42 anos? acho que dá. eu quero marretar mil vezes minha cabeça antes de cristalizar meus defeitos. e antes de esquecer minhas alegrias. eu fui uma mãe velha. quando meu filho tiver 15 anos, eu terei 50. é muito tempo. preciso envelhecer até lá com a alegria que ainda me habita agora (e sei que há uma questão de língua portuguesa nesta frase).

e foi assim que fui para São Paulo. fui porque é uma das minhas cidades. como disse Itamar, vai que nem é amor. é identificação. São Paulo::: aquela que cabe na palma da minha pica, se eu tivesse uma. é pequena a minha São Paulo, mas é medonha. fui como um dia fui para Bruxelas ver o show de Bob Dylan --- só porque dava um belo conto que nunca escrevi --- sem tostão algum. fui porque queria ver a Bienal de Artes. apenas isso. não programei mais nada. sabia apenas que queria ver a Bienal e assistir a quantos filmes fossem possíveis. porque um ano inteiro sem ir lá me deu uma baita saudade das salas escuras de cinema. sim, elas são caras. eu driblo essa carestia com meu contracheque de professora --- meia é o que salva.

e foi assim. calhou que pedi abrigo no apê de Talita e Michele. calhou que me apaixonei pelas duas --- tão bonitas na construção de suas vidas a duas. fiquei com inveja danada dos seus cafés da manhã e dos seus banhos a duas. dormitava enquanto elas construíam suas vidas inteiras. não sei se disse a elas, mas o certo é que saí de lá com muita fé na vida a dois. vida a duas. dividi com elas meu amor pelas cervejas. e tentei cuidar de seus amores pelo vinho. fiz um pouco do que minha amiga Lili me ensinou. e acho que diminuí o estorvo de ser hóspede. só elas podem dizer.

e andei e andei. e vi muitos filmes nas salas escuras. e errei direções. e andei em alamedas inteiras entre transitam somente carros. e não fui a nenhum shopping, afinal sempre tive a firme certeza que, quando ia, era somente por obrigação de estar em grupo. também não fui a nenhuma das lojas que costumo ir por amor quando vou a São Paulo. gastei apenas naquilo que valia a pena. naquele restaurante incrível. naqueles catálogos das exposições que eu não queria esquecer que havia ido. e mesmo assim, senti-me como Inildo e Mariamada --- sem miséria alguma. um sentimento intenso de que poderia fazer o que havia feito, por obrigação, há uma década, quando eu e Mari perambulamos pela Europa quase sem nenhum tostão --- por um ano inteiro.

e vi Liniker, por acaso, na Livraria Cultura, quando fui comprar os únicos três livros da viagem (que agora, depois de lidos, caso pudesse, pediria reembolso). e ali achei-o mais bonito do que quando vi o seu show junto com Elza Soares, uma noite depois. Porque Elza é soberana. Elza arrepia, mesmo quando ela não se mexe, na sua cadeira que deve ser uma prisão, mas que é, para nós que a vemos e a ouvimos, um altar::: um lugar para querer estar sempre. vi também Anelis Assumpção. até a última hora, fiquei na dúvida. porque em São Paulo, há sempre tanto a escolher. por fim, Anelis. e que bonita esta moça, filha de Itamar. com voz dela. sua. talvez eu tenha sido a única pessoa na plateia a chorar (respeitem meus cabelos brancos que começam a surgir na minha fronte), porque um arrastão de memórias me dominava vendo Anelis ali --- eu naquela tarde fria, longe longe longe, ouvindo Itamar, e achando que se não houvesse nenhum sentido para a vida, é certo que havia algum sentido em Itamar existir e ser o que ele foi. e vi também Céu --- a mesma moça que vi há mais de uma década. e ainda agora, acho-a inteira linda no palco. tentei entender o que era aquilo que havia sentido há tanto tempo. histórias do pop:: o poder de um corpo e de uma voz. viva Céu. Viva viva. foi uma noite incrível. achei que havia perdido a câmera. imaginem! choro, agonia e cuidado. depois, não era nada. a câmera havia ficado em casa. na casa de Talita e Michele. atrapalhei a noite delas, mas senti que Michele me entendeu. será? ---- eh, alma barroca.

e a bienal de artes deve ser uma história à parte.  no primeiro dia, senti uma dor intensa que vinha das vísceras. é verdade. faz parte do ser exagerado que sou. fiquei inteiramente perdida. e detestei. vi apenas o primeiro pavilhão. e saí de lá como o diabo foge da cruz. perdi a direção. foi aí que andei no meio dos canteiros com uma chuva fina a me molhar. achei que ali era o presente. esse fardo que ninguém sabe o que seja. que horror que horror. depois, com mais calma, voltei mais duas vezes. e encontrei beleza mesmo no primeiro pavilhão. encontrei jonathas andrade e seu peixe. e fiquei ali, apaziguada, por uma hora. ou mais. mas achei que o horror continuava por toda parte; uma visão desvirtuada do que seja arte. ou a arte destituída do que ela seja, tentando ser outra coisa. ou os artistas tentando encontrar o Outro sem saber como. tudo mentira. o contrário da arte. por fim, caminhei mais tranquila. e encontrei muita beleza. dei tempo ao tempo que uma bienal exige. quantas horas foram? muitas. e o tempo me deu outro olhar. não digo que o pensamento mudou. digo que se deslocou. --- pensei na Adri. e no que ela me ensinou naquele museu muito distante.

por fim, agora que escrevo, penso nas estações de metrô. eu sou uma senhora que foi assaltada oito vezes. oito vezes. inclusive, em São Paulo. na Augusta. porém, não tenho medo algum. com muito custo, tento ser cuidadosa. ando sempre com uma grande mochila. câmera sempre mais cara do que posso pagar. todos os documentos na carteira. todos os cartões. e ainda assim, quase nunca tenho medo. andei por essas estações de metrô onde mataram um ambulante bem agora. eu me pergunto se teria reagido. ou se o medo teria me deixado sem ação. a crer em mim, o que teria feito? teria exposto minha cara à loucura dos desgraçados? quero crer que sim. mas tenho medo. quero crer, por meu filho, que teria exposto minha cara a esses ensandecidos. teria gritado. teria reagido. porque, muitas vezes, não tenho medo. talvez sentisse medo apenas quando eu também fosse uma vítima. mas quem pode saber? é o horror de estar no mundo (há muitos anos, assaltada pela terceira vez na rua de casa, eu tive sangue frio para negociar com o ladrão que estava com uma arma na minha cabeça. lembro ainda da frase que hoje me parece inconsequente::: "ah, não, cara, você não vai levar minha carteira de novo. eu não vou tirar meus documentos outra vez de jeito nenhum".

fui ver Laura Erber no CCBB, na Sé. e andei por ali com minha grande mochila. para além do início da noite. assim como andei na Paulista para além da meia-noite. cogitei ir a pé para o apartamento das meninas. mas senti preguiça e peguei o metrô. talvez pensei que estivesse mais segura./// ver Laura foi bem bonito. não vou esquecer seus 'hum. hum. hum. hum". como quem concorda. e como quem não quer acrescentar. é bom admirar alguém que você sabe que pensa. e abrir o tempo para entender parte de seu pensamento. e ver Manuel da Costa Pinto, o entrevistador de Laura, levou-me a outro tempo. a um seminário sobre Barthes na Maria Antônia. eu, Marcia, Fabíola --- naquele tempo era tudo muito bonito --- como é o passado. elas lembram? eu, com minha parca memória, lembro das duas ---- lindas. e de Fabíola dizendo o que nunca mais dirá::: "quando entreguei o livro, não quis dizer que era do meu marido, para que ele não interpretasse de outro modo". há certas frases que só o passado explica, porque o presente decupa tudo. e já é outra coisa.

seria preciso dizer tudo dos dias. mas é impossível. ainda queria falar do "Útero do mundo". e do "Portugal, portugueses". estavam ali ao redor da Bienal, no Ibirapuera. podem até passar despercebidas, mas são exposições que dizem muito sobre o presente. e onde foi muito prazeroso me demorar.  

e o que dizer da minha noite com meu amigo Celso, onde a minha única preocupação era me manter sóbria suficiente para chegar em casa em segurança? bebi umas dez garrafinhas d'água para cumprir meu intento. e dancei. e dancei. e dancei. e misturei as águas, evidentemente. 6h30 da manhã, aguardava um Uber, de cara para o edifício Copan, com o sol nascendo, tonta e grata pela grande noite. ==

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ainda não conheço outra forma mais bonita de trapacear os dias cotidianos, a não ser desta maneira::: nos hiatos. (((prazeres dos gostos))).

sábado, 31 de dezembro de 2016

retrospectiva [quase] sem querer



eu sempre levo a câmera para os dias de sossego [estou mais a fim de sossego nos últimos tempos do que propriamente de férias]. alguns hiatos porque ninguém é de ferro e eu tenho estado muito cansada de tudo. quer dizer, não de tudo. e  mais do que me faz falta. eu sinto saudades::: saudades de mim, da leveza que me guiava. sempre levo a câmera, mas sempre tiro menos fotos do que penso que vou tirar.agora, não foi diferente. agora que cheguei de nove dias de sossego.

o ano foi difícil e isso todos sabemos. quer dizer, eu quero crer que quem eu conheço e passa por aqui vez ou outra são daquelas pessoas que sofreram com tudo que se passou no Brasil. para mim, foi devastador. e continua sendo. por vários meses, fui mais espectadora dos acontecimentos do que propriamente autora de minha vida. tive que me conectar outra vez para acompanhar a política brasileira. preferi sempre os "ao vivo". mas fiz questão de me manter bem longe da rede Globo, como faço há mais tempo do que consigo me lembrar. e as poucas vezes que topou de bater meu olho, foi aquele assombro. um enojamento sem tamanho.

mentira. ou quase. eu assisti a Velho Chico. quase toda. minha amiga Lilian me levou a essa novela. e ela tem tanto fascínio por novelas que eu, por fim, me rendi. e achei toda bonita. toda toda. não acreditava que a novela não tivesse a audiência esperada. como pode? tanta belezura! mas, claro, faltavam as gritarias, os nus, as longas sequências nas camas; tudo que hoje é a tônica das novelas, pelo pouco que consigo ver aqui e acolá.

daí que chorei quando Montagner morreu. chorei demais neste ano. chorei por Dilma. chorei em todas as etapas do golpe. e muito. e sempre. choro de revolta e de ódio. desacreditei de vez das instituições. cartas de baralho desmonumentalizadas. e desacreditei de muita gente. infelizmente. e senti que era hora de desacelerar. de parar com a obsessão do trabalho. e consegui muito.  

daí, uma retrospectiva é impossível, mas é sempre tentador puxar os fios.

Poeminha continua crescendo. e continua lindo. agora, grita bem mais. e nos últimos dois meses, tenho descuidado das nossas leituras. ele descobriu outras belezas, à minha revelia. mas de certa forma, com minha anuência. continua apaixonado por bonecas e bonecos. e é um grande inventor de histórias e de cenários. perdeu parte da delicadeza para agregar teimosia e impaciência. eu também fiz algumas bobagens, porque perdi parte da minha paz. como já disse, espectadora. mas nunca perdemos a delicadeza dos muitos gestos ao longo das horas dos dias. o que meu filho mais ouve de mim ainda é "que sorte, que sorte, você existir". ou a minha pergunta mais que retórica: "quem você é?", cuja resposta vem fácil: "seu amor e seu filho". sim, meu amor e meu filho. a maternidade me é leve. e é ainda o que de mais bonito tenho.  o que eu e Tatupai temos.

neste ano que Tatupai voltou, foram tantos os momentos bonitos. ainda há muitos silêncios. e muitos ditos. e a ser dito. mas eu me peguei muitas vezes com o mesmo pensamento de quando tudo era bonito::: eu gosto de estar casada. de ter uma casa. de ter uma família. de estar com ele. de estar-em-dois.

de novo, foi um ano de poucas leituras. e isso definitivamente, é o que eu tentarei mudar neste ano que já vem aí. e de pouca escrita. tanto aqui quanto em outros lugares. e no entanto, lembro dos dias bonitos em que estive próxima da escrita Laura Erber::: Esquilos. e de tudo que ela me indicou. são sempre bonitos os dias de escrita. e das leituras que a escrita exige. houve também outros escritos. os projetos "vagalumes". e os inícios. e os desejos. e as aulas. se eu tivesse que falar de um livro apenas, eu escreveria o título: De A a X, de John Berger, porque dentre tantas, encontro esta frase:


Não pode haver erro maior do que acreditar que uma ausência é uma inexistência. A diferença entre as duas  é uma questão de cronometragem. (Sobre a qual eles não podem fazer nada.) A inexistência vem antes, e a ausência, depois. às vezes, é fácil confundir as duas; por isso, algumas de nossas dores.

e neste ano, teimei muito comigo mesma de uma teima bonita. foram muitas as tentativas de destituir-me do descuido comigo mesma::: entregar-me às massagens e descobrir que isso realmente é bom. ter alguém com nome para cuidar de mim; foi isso que encontrei no ano passado e que cultivei ao longo de todo esse ano, mesmo quando tive que deixar as massagens por falta de grana. e houve outras tantas tentativas: pilates, caminhadas, corridas, bicicleta.descobri uma doença no meio disso tudo. encontrei o nome da doença. e guardei apenas uma frase do médico: "no dia que você caminhar, você não sentirá dor; no dia que você não caminhar, sentirá dor". heranças. uma família quase toda com essas doenças de ossos. mas resolvi tomar emprestada uma frase do meu tio Tontonho para ver se emprenho em mim a frase do médico e me reinvento de vez ::: "eu morrerei com esta doença, e não desta doença". pois. quanto ainda há a ser feito, quando tem que ser feito. 

e houve a viagem. e houve o encontro ainda a se concretizar com o MST. e houve a outra viagem. e houve o projeto "Respeite minha história"; quase no fim do ano. por isso, puxar os fios é tão tentador.
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imagem: nas ruas de Sampa, eu fotógrafa.


terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Respeite minha história - o projeto

O projeto "Respeite minha história" surgiu após um momento de muita decepção institucional. mas eu não deveria começar assim. --- de novo::: o projeto "Respeite minha história" surgiu a partir das tantas conversas de todos os dias que eu e Lilian travamos. costumo dizer que Lílian tem dez ideias a cada segundo. e assim como vêm, vão. mas algumas viram corpo, gestos, formas e alegrias. tem sido assim o "Respeite".

o "Respeite" é sobre gente. não as gentes que utilizam uma frase como esta de maneira soberba, como forma de espetacularização e para silenciar qualquer contestação ao presente da própria história. é sobre gente que, apesar de uma suposta evidência, ainda é pouco percebida como sujeito que é um - único em suas vivências.

a nossa ideia partiu desta inquietação --- aproximar-se das pessoas. ouvi-las. criar uma ponte mínima para saber quem são elas, o que pensam, o que desejam. não queríamos pensar nelas como um coletivo que decide vivenciar uma ideia que, como vimos no desenrolar dos dias, expunha-os de uma maneira violenta e complexa. por isso, não é uma narrativa, dentre tantas possíveis, sobre os dias da ocupação dos estudantes na UFSB. é sobre as pessoas que estão na ocupação.

e quantos afetos já nos deslocaram desde então --- chegar perto do outro é perigoso. muito. sentir o outro, a dor do outro, a alegria do outro, a vida do outro, é um revirar. choramos, rimos, ficamos nervosas, ansiosas. e desorganizamos nossos dias, nossas concepções, nossas certezas. e por outro lado, não queríamos "fichar" nada, marcar identidades, afirmar o "isto" de cada pessoa. é por isso que os textos que os apresentam têm um quê  maneirista. são uma interpretação, uma leitura sobre a escuta que não quer, de fato, demarcar uma leitura, pois afirmar o "é isto" nos parece uma dessingularização, uma forma de percorrer um ideal, no caso, de jovens que têm coragem, determinação, força, para estarem ali na ocupação. sim, eles são tudo isso. mas são muitos outros. e o são agora. podem não ser amanhã. ou nem mesmo serem hoje o que pensam e dizem que são. e esta aí a beleza.
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há muitas formas de nos salvarmos. Poeminha me salva todos os dias de mim mesma.  também me salvam os gostos, o amor, os afetos. "Respeite" me salvou muitas vezes no último mês. no espaço mais árido, de maior tristeza e desgosto que é hoje o meu trabalho, encontrei nestas histórias momentos lindos de respiro. estas pessoas têm me feito, por horas a fios, me ouvir. não o que sou hoje. mas o que, hoje, penso ter sido na época da minha graduação. não é identificação propriamente dita. mais de vinte anos me separam da maioria das pessoas que deram o depoimento. então, estou diante do "outro". não sou eu. não são o que eu fui. são outros. são a diferença. e para encontrar essa diferença, naquilo que me deixa mais próxima deles, é que lembro de mim. eram tempos outros também. 
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se eu fosse contar minha história, talvez eu começasse deste jeito:


comecei a graduação oprimida pela minha própria história. era casada. e era infeliz. muito infeliz. tive a sorte de encontrar Marinalva, que me salvou deste lugar. havia em mim uma insegurança visceral. eu não acreditava em nada. em nenhuma das minhas potências. só me sabia leitora. e depois, eu já me fiz solteira. e muito feliz. escondi parte da insegurança numa arrogância, às vezes burra, outras, muito certeira. aprendi a brigar pelas minhas crenças - e nunca mais deixei de brigar. encontrei um novo amor. que depois deixou de ser amor, mas durou o tempo suficiente para me curar de um tanto de feridas. foi ali na graduação que projetei minha profissão, da qual não desisti nem quando já havia adquirido uma outra profissão estável. foi tudo ali, parece-me agora. o porvir começou ali. 

foi também ali que comecei a discursivizar minha história. foi ali que comecei a me dizer nordestina, cearense, filha de pai carroceiro, mãe professora brava e difícil, mas inteira em mim. foi ali. penso que foi. mas raramente, penso, minha história serve para enaltecer o que hoje sou. doutora - que não pode aplicar injeção, como disse meu padrinho, uma das minhas tantas histórias que me constituem. doutora em uma inutilidade chamada literatura. 

eu saco da cartola minha história, na maioria das vezes, para uma espécie de justificativa do injustificável. justifico meus piores defeitos ou, pelo menos, os que me dão mais trabalho. justifico meu "olho maior do que a barriga" sacando um "eu já passei fome". justifico minhas gastanças com um "eu já fui seis meses para a escola com um sapato furado no dedão do pé". nem eu mesma levo totalmente a sério essas associações que, no entanto, me constituem através dos meus dizeres. só quando digo que meu pai foi a vida inteiro carroceiro é que imponho uma certa gravidade. quando comecei a dizer, eu queria expor, de forma premeditada, o que, na época, eu pensava que, de maneira hipócrita, muitos queriam esconder, que era uma vida de pobreza. isso rolava muito em Porto Velho, uma cidade constituída por pessoas que vinham de fora. em sua maioria, fugindo da pobreza do Nordeste. Em Porto Velho, todos viravam filho de fazendeiros --- eu mesma, filha de herdeiro de grandes partes de terras que, no entanto, não valiam nada e de lá nada brotava. foi nesse contexto que eu virei filha de carroceiro. agradava-me chocar as pessoas quando eu dizia em tom quase natural. os engravatados todos do Tribunal de Justiça, onde eu trabalhava, já com um salário mais alto do que boa parte de minha família até então, não sabiam nem como agir de tão nervosos que ficavam. até hoje, percebo constrangimento. um não saber como olhar no olho. e eu gargalho, mistifico, relativizo. mas reafirmo. sim, nordestina. sim, cangaceira, boa de briga. sim, terna às vezes, como meu pai um dia foi. sim, sinceridade à prova de qualquer amizade. sim, teimosa. sim, egoísta. sim, terra seca e árida. e úmida, como nos dias raros de inverno. eu, letra minúscula.

estou assim -- grávida de histórias. todas elas batendo em mim, ora como chicote, ora como vento. 

Merci, merci, a todos!   

domingo, 13 de novembro de 2016

11 de novembro --- nas ruas contra a PEC (e as dores de todos os dias)


 










(têm sido dias intensos. este abrir para o mundo. e o tempo todo confrontar-me com as injustiças. como é que se aguenta? qual o suporte? como suportar?. fico grávida de perguntas em um mundo oco de concepções).

--- tanta coisa aconteceu desde que Dilma sofreu o impeachment. Temer assumiu. e desde então, o golpe ganha a feição de ditadura. um novo tipo, é verdade. dessa vez, não foram necessários os militares, embora a polícia esteja nas ruas com todo tipo de repressão. bastaram o judiciário, o legislativo e a mídia a escamotear todo tipo de notícia ---.

o que mais me choca é a inércia da população. ou melhor, o que mais me chocava no início de tudo.  agora, eu credito tudo à educação. ou à falta de politização que não ocorre na educação. e ainda falam de uma "escola sem partido", como se a escola estivesse cumprindo o papel de criar corpos históricos que saibam ler o que agora acontece. 

---- não digo que eu saiba ler. e a minha leitura seja a única possível. mas certamente, sinto-me capaz de perceber as manipulações midiáticas, os conchavos políticos (Temer faz uma festa de gala antes de ser aprovada a PEC que estabelece um teto de gastos por 20 anos!), a inaptidão das pessoas para a política.
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escrevi sobre o movimento #ocupatudo versus o que chamei de "nada de greve" da categoria docente. têm sido dias tristes. e eu tenho estado furiosa. porque nós não podíamos, de forma alguma, condescender um minuto sequer. um sindicato nacional natimorto. uma categoria omissa. e estamos entregues às feras. todos parecem saber que o servidor público federal será um dos mais prejudicados com a aprovação da PEC, menos nós mesmos. e daqui a uns três anos ou menos, é que entenderão sobre o que nos calamos.

Para quem quiser, bem aqui. 

http://desacato.info/entre-o-ocupatudo-e-o-nada-de-greve-o-esvaziamento-dos-sentidos-politicos-das-palavras/

por isso, tem sido um alívio estar próxima dos movimentos sociais, ainda que sinta que é preciso sempre saber mais e estar mais junta. comecei este texto com a intenção de dizer isto::: vou para os movimentos sociais e não paro de me emocionar. porque sinto que ali há alguma verdade. porque vejo pessoas que parecem as pessoas que sempre amei e admirei. gente que sabe o que é luta. o que é pobreza. o que é batalhar o de-todo-dia. não me é um espelho, hoje. mas é minha história. vejo ali meu pai, meu avô, minhas tias, meus lugares. Tabuleiro e Iracema. e fico sangrando. lembro e lembro e lembro. 
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por isso, catei rostos mais do que multidões. 

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e que a luta nunca acabe. 

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

das viagens





tenho escrito pouco, porque por hábito, antes de escrever, leio as notícias. e como diz a música de zeca baleiro, "o mundo tá muito doente".  e eu mesma vou adoecendo um pouco por toda parte quando leio essas notícias. a pá de cal foram as eleições municipais, que demonstraram largamente o quanto o exercício da cidadania ainda é um nebulosa. os retrocessos foram gigantescos, e as milhões de pessoas que deixaram de votar nas grandes cidades brasileiras foram apenas um dos tantos sinais de alarme de desistência pelos plenos direitos do cidadão, uma palavra tão usada, mas tão rarefeita nos dias sombrios de hoje. os ratos se elegeram por toda parte. o prefeito eleito de São Paulo é a síntese, de tão evidente, dos terríveis enganos dos brasileiros, que se repetem a cada quatro anos: pobres que elegem milionários que jamais foram e/ ou serão capazes de compreender e tratar a questão da pobreza no Brasil. é um fascínio perverso que parecia ter sido superado quando fomos capazes de eleger Lula --- que agora sofre o sério risco de ser preso, por meio de denúncias vazias, expostas em power point por um representante do Ministério Público representando uma cena muito ruim, como se fosse uma sessão da tarde, nas quais passam aqueles filmes tão antigos quanto toscos.

por isso, a mudez. onde encontrar a alegria quando não há esperanças coletivas? o jeito é construi-la nos espaços que nos circundam. abraçar projetos e parcerias. e olhar lá para longe. para o porvir, mas escavando a terra com os próprios pés do presente. por isso, agora, é preciso lutar com essa arma que nos cabe: as palavras. embora tantas vezes eu tenha me calado, diante do enorme cansaço. 

passei doze dias viajando em busca dessas palavras. de planos e parcerias. eu gosto de me recompor nas viagens. de estar em outros lugares para pensar o meu próprio lugar. quando volto, metade das decisões não se realizam pelo próprio caminhar dos dias que limitam os tantos anseios, mas a outra metade permanece em mim até muito depois das viagens. --- eu dei muita risada e abracei muita gente. gente que eu já conhecia desde há muito e gente que acabei de conhecer. gente que logo vou esquecer e outras que vou fazer questão de lembrar. conversei muito e bebi muito. e falei sobre literatura, sobre ensino e sobre cidadania. revisitei meu passado, tanto em texto como em lugares. e tudo isso me fez bem. e ouvi muito também. o trabalho da fala e da escuta como metodologia. será possível? é a aposta.

fui para Pontes e Lacerda e Vilhena --- para o Brasil profundo, como ouvi tantas vezes de Vanessa Faria, uma amiga que redescobri nesses dias. redescobri um outro tanto revisitando esse Brasil que é meu, que é minha história. porque me parece ser preciso manter o sentimento de redescoberta, esse querer, esse anseio. e essa vontade de abraçar --- pessoas, planos, gargalhadas, lágrimas, miudezas.

estou aqui num não-lugar em Hortolândia, no segundo hotel que a companhia aérea Azul me faz conhecer involuntariamente em menos de quinze dias. amanhã vou para casa. e levo comigo todos esses dias intensos. depois, eles vão se confundir com outros. e eu vou esquecer que caminhei com Madalena, Silvia e Rosana na beira das serras de Pontes e Lacerda e que ali me senti irmanada com elas; que reencontrei Hélvio - que lê este blog e diz gostar desde há muito - e conheci sua esposa Késia e terminei a noite apaixonada por ela, suas gargalhadas e suas longas histórias. lembrarei, provavelmente, porque de festa não se esquece, que ela nos ofereceu uma festa que durou até alta madrugada. e também que conheci Matheus, que me perguntou sobre Ricardo Lísias e eu tive que dizer a verdade, para além do texto que eu já havia escrito sobre ele. e vou esquecer, provavelmente, as noites, iguais a outras, em que tentei dizer que não quero ser idealizada, nem obsedada, nem sufocada, nem amada demais. que bonito mesmo é o equilíbrio e o que se engendra a partir daí.

talvez eu esqueça que a oficina de literatura que passei tempo demais gestando foi uma alegria e havia meninas e meninos lindos e que me apaixonei por todos naqueles dois dias. talvez não lembre dos detalhes da defesa de monografia de Anderson e do quanto estar ali era viver com ele mais um dos nossos tantos momentos bonitos. e que reencontrei Inildo, Dudu, Binho, Carlinha, Wany, Araci, Marisa, Malu e que foram todos muitos gentis comigo --- que foi delicado nosso reencontro e, por isso, os dias o foram também. talvez eu esqueça e misture os dias. e ainda assim, eles terão existido: Anderson, Gabriel, Mislene, Carlinha, Andrielly, Aline, Lilian, Sidney, Nilza, Sandra, Ana Carolina, Amanda, Walmira, Thomas. todos eles e mais os amigos de Tatupai que gostaria que fossem igualmente meus e, por isso, é bom estar com eles: Ana, Felipe, Dariano, Glauber. e ainda Sabrina e Andressa.  e outros que vi e conheci nesses dias e gostaria de não esquecer, mas que talvez esqueça, porque não tenho boa memória; Manuel, sem dúvida.  mas gostaria de ter. nessas horas, gostaria. não seria de todo mal lembrar daqui a uns dez anos que estive no XXI SELL e lá disse "Primeiramente, Fora Temer, porque nunca sai de moda o que se deve dizer sempre e para sempre". e falei de resistência e de coragem. vestida com um vestido preto que mais parecia uma saia verde::: a que causou espanto porque parecia mais curta  do que todas as saias que já havia usado. e deve ser verdade. porque agora dá para dar gargalhada e dizer que deve ser a crise dos 40, que é maravilhosa a liberdade de admitir alguma futilidade, se assim for nomeada. talvez eu não esqueça, ou esqueça, da "festa dos seis doutores" e que os fotografei na madrugada, quando o sono já vinha e eu já estava meio alcoolizada. 

sim, sim. crer nunca deveria sair de moda. 
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sexta-feira, 26 de agosto de 2016

A responsabilidade da forma - ainda a abertura das olimpíadas


 Agora que a pira olímpica já apagou, sob chuva e música de Marisa Monte, me dá vontade de tratar, de forma extemporânea, um pouco sobre a abertura das olimpíadas em contraponto com o seu encerramento. --- nada demais. duas ou três palavras para guardar. 

Assisti com prazer à abertura e emocionei-me em vários momentos, como teria me emocionado diante de qualquer espetáculo bem realizado, e também tive fastio em outros momentos, como em qualquer espetáculo muito longo, sempre mais propenso a altos e baixos. E poderia acabar aí o que eu tinha a dizer, uma vez que não pensei na abertura como uma prova de capacidade, de transfiguração, de heroicidade, de representação do Brasil e do povo brasileiro. 

Aliás, tive ímpeto de assistir porque sabia previamente que havia ali uma assinatura, ou melhor, assinaturas de artistas que admiro desde muito. Poderia mesmo dizer que foi por conta de Deborah Colker, que coordenou a coreografia, assim como já me dispus a fazer um trajeto de mais de duas horas, com direito a pegar metrô, ônibus e táxi, para assistir ao seu espetáculo , no Teatro Alfa, em São Paulo.  

Talvez por conta desse "ímpeto das assinaturas", não tive muita paciência diante das inúmeras críticas negativas que surgiram em nome do que chamaram de "estetização", "espetacularização", "apoliticismo", advindas de diversos setores e, sobretudo, do artístico. Como acontece muitas vezes, quando vejo críticas desse tipo, que exigem uma posição do artista que responda a anseios de palavras tão gastas como "conscientização", "responsabilidade política", lembrei-me de uma ideia também muito gasta, mas cada vez mais em desuso na nossa crítica tupiniquim, a qual propaga hoje por uma responsabilidade do artista geralmente ligada à concepção de que este deve se manifestar sobre as mazelas do mundo de modo direto e cru, como se estivesse dado o que seja "direto" e "cru". 

Lembrei-me, pois, de Roland Barthes e do tipo de responsabilidade que ele propunha, quando escreveu que "a escritura é ... essencialmente a moral da forma". Ao apontarem que o espetáculo comandado por Andrucha Waddington, Daniela Thomas, Abel Gomes, Fernando Meirelles e Deborah Colker foi revestido de contradições que o levavam, de imediato, à impostura artística, não pude deixar de pensar que a exigência hoje não é pela responsabilidade da forma, pela depuração da linguagem própria do artista, mas, sim, pela anulação dessa linguagem em prol do grande alarido do mundo, que exige cada vez mais uma "correção" das linguagens. 

O que me parece mais perverso nesse tipo de exigência é que ela aparece apenas quando se aponta o que o outro faz, não se sabendo distinguir o que seja da ordem da posição do artista e do que seja da ordem da linguagem de sua obra. Qualquer um que conheça os trabalhos de Andrucha, Daniela, Abel e Fernando, facilmente reconhece ali a "Natureza" de suas linguagens; há mesmo releituras explícitas do que já fizeram em outros trabalhos. As exigências, portanto, situaram-se para além dessa "natureza", apesar de ser contra esta que as vozes se elevaram. Então, é uma crítica que não analisa a obra em si, mas "como" ela deveria ser segundo os ditames do "tempo". O que não se percebe é o quanto isso constitui um fechamento nas possibilidades artísticas que, em última análise, afetam a todos os artistas. Uma foto que circulou muito no Facebook, na qual se tinha a visão de um grupo de pessoas em um barraco vendo ao longe o espocar dos fogos no estádio olímpico, virou o signo do que parecia ser a "irresponsabilidade" de tal festividade diante da precariedade do real.  Fico imaginando escritores, músicos e tais que, no dia a dia, exercem um trabalho de crítica sobre o que acontece no meio político e artístico, mas que em suas obras resvalam para outras discussões em que não expressam claramente esse vínculo crítico-criador e muito menos essa "precariedade do real". Queimaremos todos esses artistas ou consideraremos apenas o seu trabalho crítico? É esse tipo de escolhas que se coloca sub-repticiamente no tipo de crítica que exige uma abertura das olimpíadas mais política, menos festiva, que dessacralizasse a idealização da formação do Brasil. 

As contradições foram muitas: o tom ecológico (uma desfaçatez diante do fato de que não se foi capaz nem de despoluir a baía de Guanabara); os negros em cima dos navios negreiros estilizados, acompanhado da troca de "escravidão" por "força de trabalho" (o que me fez perceber com estupor que a "narrativa" eleita sobre a abertura era a das narrações da Globo, que deveriam ser vistas apenas como uma dentre as tantas narrativas possíveis e, provavelmente, a mais irrelevante); as passadas largas e estilizadas de Gisele Bündchen sob o som de Tom Jobim (mas quando, no ensaio, ela era interpelada por um menino de rua, levantaram-se de imediato a denunciarem preconceito, impondo assim apenas as suas passadas); Anitta no meio de Caetano e Gil (e me vieram pelo menos meia dúzia de cantoras "duvidosas" que já estiveram ao lado dos dois).
 
Todas essas críticas podem ser justas e não descarto a sua necessidade. O que me impede de ver nelas uma via possível de crítica para pensar a cena cultural brasileira é o fato de que não me parece dizer respeito à proposta da abertura. É certo que a estereotipia é como uma espécie de recalcado, mas me parece inegável que havia ali o desejo de fuga da estereotipia tão marcada na festa de encerramento da carnavalesca Rosa Magalhães - do qual a crítica feroz aparentemente silenciou. E viva Carmem Miranda e suas bananas! Viva a força do direto, sobre o qual não é preciso nem mesmo falar.

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De Barthes: "Colocada no cerne da problemática literária, que não começa sem ela, a escritura é [...] essencialmente a moral da forma, é a escolha do domínio [em francês: l'aire] social no seio do qual o escritor decide situar-se na Natureza de sua linguagem."




 

quarta-feira, 20 de julho de 2016

domingo



domingo me deu uma vontade grande de chorar. e eu chorei bem alto. mentira. deu vontade de quebrar a televisão. e como não tive coragem de quebrá-la, chorei feito menina. queria apenas ver a final da liga mundial. e a televisão não funcionava. não era exatamente eu. era a pessoa que eu havia sido --- aquela. aquela que acompanhava toda a liga mundial. aquela que vibrava, que roía as unhas, que xingava, que se exasperava a cada jogo de vôlei. pois então. quantos anos!

às vezes, sentimos saudade imensa do que fomos um dia. quem não? e não faz mal. acho que isso que nos faz mais humanos. depois, eu ria solto verbalizando para o Tatupai o que eu estava sentindo naquele momento da vontade de quebrar a televisão. e não sabendo como, chorava feito menina. era impotência diante do não saber fazer. era nada. e era tudo. tanta gente havia ido. kiarostami babenco esterharzi. e um desgraçado que não aprendeu como é soberano amar o outro passou por cima de mais de 80 pessoas com um caminhão. e foi capaz de morrer por isso. como pode como pode? aí, a dor foi ficando grande. e era domingo. e eu aqui, sem meus homens. tenho certeza de que se tivesse quebrado a televisão não teria me arrependido. e depois, entre risos, meio envergonhada, falava para o tatupai que eu podia dar chilique. porque eu quase nunca. e eu acho bem importante não perder esta humanidade. está aqui na vida e nem sempre ela ser fácil. e se permitir chorar. permitir-me. pensar baixinho. ou chorar bem alto até não ouvir. e nisso ver onde mais dói. tocar o próprio corpo. apertá-lo para poder sentir. e ir até às entranhas. enfiar os dedos quentes bem onde eles alcançam. quem não? lembro sempre daquelas manhãs de sábado. parecia que ali eu sabia de tudo, entorpecida pelo sono das longas noites.
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talvez seja isso que ninguém saiba de mim. ou saibam e não consigam alcançar. tenho tão poucas pessoas que me interessam. tenho medo de algumas. tenho amor profundo por outras. tenho respeito imenso por todas. e este é o segredo::: só me importa quem eu amo. manamácia me liga. e eu finjo que posso falar com ela como a pessoa de 40 anos que sou. dou uns conselhos. mas é mentira. porque com ela sou sempre a mesma menina. e há dias que quero ligar para mariamada e contar o que há por aqui. mas tenho por ela tanta admiração que não  teria como dizer dos meus fracassos, embora eu creia que ela saiba --- como o milagre que tem sido nossa amizade desde sempre. tudo. porque nos amamos e nosso amor paira sobre tudo.

acho que as pessoas têm muito medo. eu tenho muitos medos. tenho medo de não ser uma boa mãe. embora todas as manhãs meu filho abra um imenso sorriso quando me vê ao acordar. mas não tenho medo de ter medo. não conheço ninguém que tenha tanta confiança na pessoa que é do que eu. e não conheço ninguém que tenha tanta vontade de mudar certos gestos em si do que eu. confiança e contradição. quem não?

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como nesta foto. chove nas praias de floripa. faz frio. e eu. e eu fotografo meu filho com um guarda-chuva. molhando a roupa que não o protege. e vai protegê-lo menos ainda depois de molhada. mas a foto parece tão bonita. é quase branca. o dia era branco. e hoje me aquece. não precisava mesmo ter medo. a proteção branca estava toda ali.
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terça-feira, 12 de julho de 2016

68ª reunião da SBPC - um outro registro





nos tantos anos que escrevo neste blog, algumas postagens causaram polêmica. e geraram tantos outros discursos. e sempre optei por não responder. um texto que gera outros textos a ponto de se perder é o que deseja todos que escrevem. mas quebrarei um pouco essa “regra” em razão do cuidado com algumas pessoas a quem respeito e que me interpelaram de modo igualmente cuidadoso, mostrando-me outros pontos de vista que me escaparam. e não pretendo que esse texto se configure como resposta aos que me detrataram em suas páginas pessoais ou mesmo na página coletiva da UFSB em rede social. ainda que me cheguem as notícias, não me interesso por esse tipo de contenda. meu esforço, desde sempre, tem sido pela construção do pensamento. por isso, tal texto é sobre o mesmo assunto  em outro registro de linguagem. 


minha crítica dirige-se à concepção que norteia a organização das reuniões anuais da SBPC, e não apenas a esta; reuniões que, dada a sua importância, recebem um alto valor do governo federal, devidamente registrado no Diário Oficial da União. não são recursos escusos nem indevidos, assim como seus usos também estão à mostra, seguindo a publicidade obrigatória referente a esses tipos de recursos. tanto o repasse como o seu uso são de conhecimento público. é só buscar no Diário oficial, no portal da transparência, que está tudo lá. fica a dica. 


antes de tecer a minha crítica, analisei a programação científica da SBPC, comparando-a com outros eventos de grande porte da grande área de Letras/ Linguística; eventos com mais de uma dezena de conferências simultâneas, mais de uma dezena de mesas-redondas simultâneas, com programação cultural, sessões de comunicação e de pôsteres etc.. e concluí que, embora a programação científica da SBPC pareça gigantesca e diversificada e sua composição advenha de diversas associações, não é maior do que a desses outros eventos, que são igualmente problemáticos no tocante à espetacularização e à monumentalização, mas que, nem de longe, recebem o mesmo apoio financeiro da SBPC. e além disso, fiz uma conta simples: quantos eventos poderiam ser realizados, em diversas universidades brasileiras, inclusive aqui, se pensarmos que a média de apoio de um órgão como o CNPq no custeio de eventos de pequeno/médio porte é de 20.000,00 e de grande porte, 100.000,00. é só fazer as contas. 


o que denominei de espanto não se refere, portanto, ao valor em si, como uma espécie de defesa do não uso do dinheiro público, mas trata-se de repensar as suas formas de uso. refiro-me, portanto, ao que chamei de “indefinição” do que seja, de fato, a questão primordial da reunião da SBPC, se crermos no que está dito na página do evento: “a Reunião Anual da SBPC é um importante fórum para a difusão dos avanços da ciência nas diversas áreas do conhecimento e um fórum de debates de políticas públicas para a ciência e tecnologia”. a meu ver, essa falta de indefinição notória entre o que se propõe a ser e o que, de fato, é gera um descompasso visível entre o que se gasta para erguer a sua estrutura de megaevento (grandes tendas, praças de alimentação, construções etc..) e o que se gasta com a programação científica (hospedagem, alimentação, diárias para conferencistas etc..). 


em outras palavras, minha reflexão parte de um posicionamento político de quem acredita que é preciso questionar essas estruturas de megaevento acadêmico, científico e mesmo artístico-cultural, não apenas pelo fato de ser dispendiosa, mas porque não atinge seus propósitos no alcance devido. a comparação com a Bienal de Artes e com a Flip não foi por acaso. são também megaeventos, ainda que cada um tenha propósitos distintos, imprescindíveis para suas áreas; importância que não oblitera – pelo contrário, deveria enfatizar – os questionamentos feitos, muitas vezes, por aqueles envolvidos em sua concepção e construção, em busca do redimensionamento de seus traços composicionais. 


não se trata de requerer as suas extinções, e sim de reformular suas políticas. minha crítica não coteja o fim de nenhum desses eventos, embora partilhe pontos em comum com quem defende tal posicionamento. o que está na base de minha crítica é o desejo de reconfiguração do que está posto como modelo de megaevento acadêmico-científico e, se esmiuçada, chegaria, sim, aos modos de recepção dos estudantes da educação básica. o que se apresenta como inclusão – ainda que absolutamente necessária e proveitosa – é, a meu ver, apenas um “roçar” de corpos que não se juntam de fato. explico para não enveredar pela linguagem metafórica: diálogo, discursividades em trânsito, trocas aconteceriam se professores e estudantes da educação básica estivessem, por exemplo, inseridos nas discussões da programação científica, e não apenas como ouvintes, mas, sim, com cadeira garantida nas grandes mesas de discussão. ou se estivessem ali para serem ouvidos, ou para escutarem, a respeito das políticas públicas destinadas às ciências e tecnologias. enquanto forem apenas visitantes a interagirem com o que parecem ser “brinquedos tecnológicos”, quando são, muitas vezes, objetos manipuláveis resultado de pesquisas sérias e substanciais, aparentemente será apenas isto: um parque de diversões onde meu filho de seis anos se divertiria muito. e sim, meu filho tem seis anos e, por inúmeras vezes, pensei no quanto ele se divertiria ali (só não o levei porque coincidiu com a sua viagem de visita à bisavó). 


ao contrário do que normalmente se diz, sessão de pôsteres é uma forma muito questionável de inclusão, pois é óbvio que o modelo de “exposição”, de “apresentação” não funciona no que deveria ser espaço de debate, de diálogo.  há centenas de artigos científicos que questionam esse modelo. fica a dica. é um meio, sempre incompleto e imperfeito, criado, justamente, quando os eventos acadêmicos foram ficando cada vez maiores, para supostamente dar voz àqueles que iniciam pesquisas ou aos pesquisadores a quem nunca darão assento nas conferências e mesas-redondas. ou seja, foram pensados para propiciar um espaço, ainda que exíguo, aos que, de fato, pagam parte da estrutura do evento por meio das inscrições. não deixa de ser, assim, apenas uma das estratégias para garantia de público. e os estudantes, os pesquisadores, devem saber disso não para se sentirem diminuídos pela participação nessa modalidade, mas para batalhar por outros espaços de participação em vez de ficarem apenas agradecidos e acomodados com aquele ter-lugar. o nome disso é consciência política.  


nos campos de força constitutivos de eventos acadêmicos, sessão de pôsteres é menos do que sessões de comunicação e, estas, menos do que conferências e mesas-redondas. e não fui eu que atribuí essa carga valorativa precária e injusta; pelo contrário, desde o primeiro evento que organizei, há mais de vinte anos, como estudante de Letras, rompi com esse modelo. guardo até hoje as fotos que mostram que quem teve assento na mesa de abertura fomos nós, então estudantes, organizadores do evento. não havia uma única “autoridade” acadêmico-administrativa, embora o financiamento tenha vindo da instituição. e também guardo as fotos em que os estudantes falavam sobre suas pesquisas no mesmo auditório, na mesma mesa, em que os professores convidados palestravam. e não foram ações por acaso. eram, então, decisões políticas, que faziam muito sentido naquele momento de reivindicação de direitos. e como organizadora de eventos acadêmicos, avancei sempre mais na ruptura desses modelos preestabelecidos de eventos, misturando, por exemplo, numa mesma mesa-redonda convidado estrangeiro e aluno de graduação, e não apenas como apresentador, mas como debatedor; pondo aluno de graduação como conferencista e tantos outros gestos de tentativa de ruptura da engrenagem maquinal que compõe os eventos acadêmicos-científicos. 


acato as opiniões dos que disseram que fechei o meu texto apenas na crítica, não abrindo espaço para o que foi relevante e, mesmo, distinto. com isso, deixei de proteger as pessoas que trabalharam para erguer a SBPC. e talvez não o fiz, justamente porque eu era uma dessas pessoas e não achei que precisava de defesa, porque minha crítica não se dirigia a elas, que, em última instância, eram também eu. se eu dirigisse uma crítica a mim, só poderia ser uma: o fato de ter participado, se tenho tantas críticas ao modelo do megaevento acadêmico-científico. sei exatamente por que me envolvi na organização: porque, desde o primeiro momento, achei de uma importância fundante e simbólica que a SBPC se realizasse aqui, numa universidade recém-criada devido à política de interiorização do ensino superior. parecia-me então um movimento de resistência muito bonito para que eu abdicasse de fazer parte dele.


porém, creio agora que não aproveitamos tanto quanto poderíamos. a SBPC deveria ter sido pensada, por nós da UFSB, como um grande fórum de resistência ao golpe democrático que sofremos. vem daí também meu espanto com o ar festivo de comemoração. não poderíamos ter feito do nosso solo acadêmico um espaço de comemoração nesse momento histórico que atravessamos: deveria ter sido um solo de resistência, de provocação, de luta, de reivindicação. não tínhamos nada a perder e muita dignidade a ganhar, se assim tivesse sido, pois reforçariam as construções discursivas que sustentam algo como a Formação Geral desta Universidade, como espaçotempo de construção de pensamento crítico em relação ao estado de coisas contemporâneo. essas lutas, reivindicações, resistências, podem, sim, estarem entranhadas numa grande festa. tanto melhor, se estiverem. mas é preciso proferir essa resistência, senão resta apenas a festa. é preciso dizer por que se festeja, como fizeram as mulheres do bate-barriga de Helvécia ou o grupo de boi-bumbá, de Eunápolis, que localizaram politicamente seus festejos como atos políticos de resistência ao apagamento de suas histórias. provavelmente, tantos outros a que não assisti fizeram o mesmo. em gestos assim, estão as grandes lições. e nós, festejamos por qual razão? somente por que a SBPC veio para nossa recém-construída universidade? para mim, é pouco, muito pouco. 


e não. os movimentos de resistência que aconteceram não foram criados por nós, mas por alguns daqueles que vieram de fora. uma professora convidada, espantada, disse: “achei que chegaria aqui e haveria faixas contra o golpe em todo lugar”. e estendeu sua faixa solitária bem à vista dos nossos olhos aparentemente acometidos de cegueira histórica.  e presenciar isso, como professora da UFSB, reforça ainda mais minhas convicções que, tantas vezes, têm entrado em confronto com outras convicções. igualmente válidas, indubitavelmente, mas com as quais não posso compartilhar, senão dialogar, se for possível a criação de um espaço dialógico ético. 


apesar de não me considerar avara em elogios, aclamações, confirmações, não acredito que políticas públicas substanciais advenham daí. por exemplo, toda e qualquer mudança nas políticas públicas de educação é resultado da luta, da vigilância atenta aos mecanismos dos micropoderes que trabalham para a supressão desses direitos. nesse sentido, teríamos muito a aprender com um movimento como o do MST, sempre atento à própria formação política. é o fato de estar na UFSB, e acreditar no seu projeto, que me leva a atentar para os seus pontos críticos. é o fato de ter participado da SBPC que me permite lê-la do modo como eu a li. engana-se quem pensa que o não-questionamento edifica qualquer construção; serve tão somente para a monumentalização. perseguir a diferença entre construção e monumentalização talvez seja o caminho para que as discussões não descambem para os personalismos, o deboche e a desclassificação dos sujeitos que falam.  e acrescento: não tenho nada contra o kitsch na sua potência de subversão, de crítica, mas tudo contra quando perde essa potência e resta apenas o modelo desfigurado.


era a algo assim que me referia quando falei, logo no início do meu texto, sobre o fechamento da UFSB, o qual sua hospitalidade festiva não escondeu. sempre quando me deparo com alguma ação de extrema incoerência, eu sinto falta da presença do conselheiro, no sentido lato da palavra. quem me conhece, já me ouviu com cara de espanto, muitas vezes, a perguntar: “não tinha ninguém do lado destas pessoas para aconselhar a não fazer isto?”. foi exatamente isso que pensei quando vi toda a programação paralela construída pela UFSB para tratar tão somente da sua atual situação política. não sou contrária a esses fóruns de discussão, mas, no meio da SBPC, sendo a anfitriã, pareceu-me  inapropriado e oportunista, uma vez que estávamos ali, ou deveríamos estar, para tratar das questões propostas pela SBPC – propostas nas quais a UFSB teve participação, se acreditarmos no que disseram os organizadores em diversas ocasiões. ao invés disso,  propuseram, intempestivamente, uma programação extensa para tratar de nossas questões internas, a ponto de gerar um documento de conciliação com o governo ilegítimo, ainda que transmudado de reivindicação. é só ler para averiguar.


e para mim, o virar às costas simbólico (porque evidentemente eu sei que muitos professores e estudantes participaram também da programação oficial da SBPC) advém de um discurso que se tem difundido na UFSB e tem causado muitos danos e equívocos; que é o discurso que, ao traçar uma linha histórica da universidade brasileira, coloca a UFSB como um marco divisório, muito à frente de qualquer outra. é um discurso tão sedutor quanto falso. e o seu equívoco advém, sobretudo, desse traçado linear, quando todo o esforço da História, como disciplina, tem sido negar essa ideia de linearidade. somos, sim, uma universidade com um projeto instigante de ruptura a alguns dos paradigmas que construíram não apenas as Universidades brasileiras, mas a ideia de Universidade que as sustenta, porém não estamos à parte dessas Universidades, nem rompemos, ainda, com muitas dessas ideias. E as provas pululam por toda parte ante nossos olhos espantados. e esse lugar distinto da UFSB, ainda que exista como porvir, não deveria nos levar a desprezar todo o saber agregado até aqui por essas outras instituições. reconhecer isso não nos diminuirá em nada como instituição e negar tampouco nos engrandecerá. muitas das ações que buscam construir nosso projeto diferenciado de universidade já foram pensadas e testadas em outros espaços educacionais, resultam de lutas travadas e avanços alcançados em outras arenas. não se originaram de um único ser demiurgo e visionário, mas, sim, são resultado de uma série de outros espaços de luta, de reivindicações que germinaram no interior das universidades públicas brasileiras. 


por isso, eu me pergunto constantemente a quem serve esse discurso de originalidade e vanguardismo. e fazer essas perguntas não deveriam me colocar num lugar caricatural de inimiga. é também um construto discursivo que interessa, ou deveria interessar, tão somente àqueles a quem o questionamento incomoda. a quem interessa a não crítica à SBPC? certamente, a sua presidente, que diante da discordância armou o circo que inevitavelmente só poderia reposicioná-la ainda mais forte no lugar que ela provavelmente nunca pretendeu abandonar. circo noticiado na página da SBPC de uma maneira que deveria nos causar indignação. compreender essas sutilezas talvez nos ajudasse a perceber que a crítica que teci talvez devesse interessar a toda universidade anfitriã da SBPC, que recebe um modelo pronto no qual tem muito pouco espaço de representatividade. 

lembrei-me, agora, da expressão ouvida do conselheiro Joelson, quando ele afirmou que ia  “arrombar as portas”, e não ficar indefinidamente agradecendo porque supostamente a Universidade resolveu abrir as portas para seu povo. e isso advém da sua consciência de que ter-lugar não é algo dado; é construído por meio de gestos de luta. e ainda na sua lógica, sei que isso exige tempo. e é preciso considerar esse tempo. no entanto, é preciso construir esse tempo no agora. resta saber quantos de nós estamos preparados para tamanha responsabilidade e tamanha percepção histórica
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