sábado, 30 de janeiro de 2016

a festa da d. Ana














as festas de família sempre podem acabar mal. vide tantos filmes sobre o tema. mas duvido que D. Ana, a mãe da Ro, pensou sobre essa possibilidade em algum instante. a mãe da Ro é daquelas que não titubeia. a impressão que eu tive, desde a primeira vez que a vi, é que ela não duvida. não é daquelas que sofre. e se já sofreu algum dia, foi com elegância e com discernimento. há nela uma alegria extraordinária. uma força que vem da intensidade com que vive seus dias. daí que, quando fui convidada para a festa que ela preparava há um ano, também não tive dúvida: como não ir? e fomos. eu e Poeminha. e ainda Maneca, porque os lastros se espraiam. 

foi com tal espírito, tal determinação que D. Ana preparou a festa para a família que a festa teve início dois dias antes do dia oficial. seria impossível algo dar errado --- foi a certeza que, sem dúvida, ela teve desde o início. a família veio de várias partes do Brasil, para vivenciar, como eu, dias de farra gastronômica como eu nunca havia visto. um "padrão Ana" dificilmente superável. e delicioso, delicioso --- na acepção máxima da palavra. uma festa cheia de risadas, de encontros, de histórias, de emoções, como se nunca fosse ter fim.  

as fotos que tirei não ficaram à altura, pois eu me embebedei em todos os dias da grande festa como quem sabe que estava sob a proteção da dona da casa. uma dona que não hesitou em exclamar, quando me viu ainda deitada, no quarto que herdei do moço Maicon, que se desaloja quando lá vou: "o que você está fazendo aí, preguiçosa, que ainda não está tirando as fotos?". e depois, ao ver as fotos, abrir o sorriso e dizer: "esta sem-vergonha só tirou fotos minhas fazendo caretas". e eu, também sorrindo solto, sem cerimônia, respondo: "e eu tenho lá culpa se você só faz caretas quando estou tirando fotos!". e ela: "é mesmo, né, coitadinha, que culpa pode ter?". esse diálogo é só uma amostra do que está claro para mim desde a primeira vez que nos vimos: nós nos reconhecemos, como se nos conhecêssemos desde sempre. como se eu devesse ser sua filha. e ela, a minha mãe. mas é mentira. somos ambas mulheres fortes --- nos mataríamos dia a dia. conheço esta história. mas sem a alegria da d. Ana. e nos dias que estive lá, não houve nada mais poderoso do que a sua alegria. por isso, a verdade é esta linda festa que ela nos ofertou. foi uma lindeza iniciar as férias desse modo. merci, merci, Ana, por nos ofertar o melhor de nós!
.
.
.
mais fotos::::










 

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

narração sobre o porvir das férias



[antes de viajar, fiz a postagem abaixo. e acabei não publicando. publico agora, quando tudo já está no passado. foi tudo como está dito. a mesa farta, as cataratas, os fogos na ponte, as praias geladas. e ainda mais]

hora de arrumar as malas. vou bem ali de férias. volto daqui a um mês. férias são um hiato. é o momento mais desafinado que existe, no que tem de necessária a desafinação. o fazer nada é o impróprio. a vida toda nos ensina a fazer e fazer e fazer. somente às crianças é dado o direito do não fazer nada. às vezes, nem a elas. todas as noites, eu tento com que Poeminha junte os seus brinquedos espalhados pela casa. e este é o momento de maior fratura da nossa história. é quando estou irritada, quando estou esgotada e quando digo frases insensatas. férias são quando o impróprio vira a propriedade mais cobiçada.

então, a partir de amanhã, por um mês, vou fazer apenas o que ele mesmo faz. só brincar. só bancar o "fazer nada". vou escutar histórias. e vou tentar me controlar para não comer toda a comida do mundo, porque vou para um lugar onde a mesa é farta, onde o exagero é a marca. vou para casa sem ser, de fato, minha casa.  porque eu sou exagerada. carrego muitas fomes em mim. vai ser bonito, mesmo quando eu tentar virar as costas para a mesa farta. embora agora eu pense que deveria ter ido para casa. para agarrar minhas três irmãs, minha mãe e meu pai. e os sobrinhos. ficar com eles nas praias quentes do Ceará. mas acabei aceitando o convite para a festa. porque tem isso. tem isso, não é? 
.
.
.
tem isso de às vezes o melhor modo de salvar a própria vida seja afastar-se dela. é quando a sua vida é uma instituição.  foi o que tentei ao longo deste ano. e não fiz perguntas. não quis fazê-las. resolvi cuidar da vida de outro jeito. e estou feliz com o que consegui. fiz muita bobagem. mas já me perdoei, comme toujours. só não fui para a África. e ganhei a grana para ir. queria muito ter ido. para viver as entranhas da educação na África. sonhei que diria o oposto do que foi dito antes ----. e não deu certo. não por mim. mas lá não deu certo. pena. 

e fui clarividente. infelizmente, fui. desejei por inúmeras vezes estar errada. teria rezado se fosse religiosa. "jesuscristinho, faça com que eu esteja errada". mas eu não estava. desde que cheguei aqui, não faço mais do que interpretar. fiz prognósticos que colocaram à prova minha decisão de vir. e dia após dia, eu tenho que me movimentar para aceitar, para cuidar de mim, para estar inteira. e para manter-me aqui. para fazer, independentemente de tudo. estou aqui. e vou fazer. e vou não fazer quando não acreditar. 

que ano! 

guardarei a beleza dos dias infindos. e farei o possível para crer que qualquer que seja minha interpretação sobre as coisas do mundo, ela pode ser falível. por ora, eu apenas repito: Derrida é deus. no que tem de "deus" aquele que foi determinante para o apuro do meu olhar. e Barthes. Barthes é deus. naquilo que ele me ensinou sobre a doçura (ele e meu pai). a doçura que aplaca meu olhar sobre as coisas do mundo. 
.
.
.
Poeminha, vamos sair de férias. vamos. você vai encontrar sua grande musa. e vai ser paparicado. e eu vou deixar. depois, a gente vê o que faz com isso. vamos ali, filho. ver mesa farta, as cataratas, os fogos na ponte, as praias geladas. vamos, Poeminha. depois, a gente guarda. depois, a gente volta cheios de histórias para todo o sempre.  
.
.
vou levar meus tênis de caminhada. e vou levar três livros. espero cavar dias brancos de leitura. vou levar Guerra e paz, de Tolstói, edição Cosac Naify. vou levar porque Aline me disse que Tolstói sobreviveu melhor do que Dostoiévski. e eu discordo dela. tudo que li dele foi soberbo:::: Anna Karienina, A morte de Ivan Ilitch, Padre Sérgio... mas nada, nada se equivale ao desespero de Dostoiévski; o desespero que eu penso dever existir em toda literatura. quero estar enganada, por isso levarei Guerra e Paz.

os dias. o ano. o fim do ano.e daqui a pouco, um novo ano.
.
.
.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

do ano



sinto sono há alguns meses. cedo, quase meia-noite. ou um pouco mais cedo::: vinte e duas horas. para mim, é muito cedo. tenho dormido. hoje é uma exceção. senti insônia e ainda estou por aqui. e acordo cedo. muito cedo. seis e meia da manhã. para mim, é ainda madrugada, salvo que o sol já está bem alto. ouço o barulho dos pássaros. e inventei que é uma bela vista. então, eu me espreguiço e deito na rede para ler. leio até a hora que Poeminha acorda. já calhou de ler três horas seguidas.

este foi um ano estranho. acabei de escrever um email dizendo isso. continuei igualzinha em um monte de coisas. e mudei bastante em outras. tem dias que ando como se carregasse uma solidão muito grande. e tem dias que carrego toda a alegria que o corpo pode suportar. 

tem dias que sou uma mãe nota mil. tem dias que falo um monte de merda para o Poeminha, como se ele fosse capaz de suportar essas pressões de mãe cansada de ser mãe por instantes. ontem foi um dia assim. depois, peço desculpas. mas fico com a impressão de que o estrago já está feito. por que repetimos os mesmos absurdos? por que não deixamos os pássaros livres? étãodifícilexplicarousaber. imagino que eu tenha sido condicionada ao fazer durante toda minha vida. fazer me acalma. e criança espalha seus sonhos pela casa toda. às vezes, a conta não bate. na maioria das vezes, eu me submeto a sua bagunça. mas algumas vezes, basta um estopim. dói. dói em mim. e com certeza, dói nele. 

será a hora do balanço de fim de ano? fiquemos assim: eu queria que o ano passado não tivesse existido. chorei tantas vezes como menina de quem roubaram a inocência ainda uma vez. fiquemos assim::: neste ano, eu reaprendi um tanto e parei de chorar --- ao menos pelas razões que chorei antes. lancei o olhar sobre mim e tirei de mim uma beleza insuspeitada. algumas vezes, pus essa beleza na escrita. e aprendi a me olhar no espelho todos os dias.

foi - está sendo - um ano estranho. mas achei um absurdo quando qualificaram nosso deslocamento - de sair de uma universidade para outra - de uma espécie de luto. sempre achei o deslocamento uma celebração. se houve luto, foi o das repetições institucionais naquela que se julga distinta. mas isso é outra conversa. meses depois, minha indignação é apenas performática. é meu lugar institucional::: não fazer parte da boiada. e não ter medo. 

lembrei agora de Maneca. sim, da delicadeza. ainda estou em busca. mas quase a alcanço. quase. está bem aqui. Poeminha vem e pergunta se pode cortar o encarte do seu DVD da Frozen. e, primeiro, digo que não. mas lembro de ontem. e olho quase terna e pondero que ele quem deve decidir. e ele decide. agora, temos um encarte sem capa, colada que está num papelão cujo destino, certamente, será o relento.  ainda há chance. é uma sorte que haja.
.
.
.
sim. dia após dia, foi - está sendo - um ano que deveria ter existido - existir. a que será que se destina?
*
*
*
   

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

O "aqui" de Marcelo Rubens Paiva



nunca li muitos livros sobre a segunda guerra mundial. ou sobre as ditaduras latino-americanas. então, no imaginário da comparação, posso quase nada. por isso, só quero dizer que sofri aos borbotões lendo Ainda estou aqui, de Marcelo Rubens Paiva. e como penso que todo livro deve sempre envergar um pouco mais nossa coluna, dando-nos um sentido de real que nada tem a ver com uma relação direta (como quando lemos Kafka e o seu mundo de irrealidades é mais palpável do que qualquer outro imediato), celebro aqui a alegria de tê-lo lido no que agora já é fim de ano e nos vem esse sentimento de fim de festa. e de recomeço de uma outra. 

Marcelo Rubens Paiva, sem nenhuma autocomiseração, nos faz vivenciar dois lutos: aquele que teve início com a tortura e morte de seu pai, o deputado Rubens Paiva, e o que vivencia no momento em que escreve, quando acompanha o desenvolvimento do Alzheimer em sua mãe, Eunice Paiva. são dois lutos distintos, mas que nos dão a medida da dor das infinitas perdas. ele traça um perfil comovente daquela responsável pelo título do livro, que, nos lampejos de lucidez, repete: "Ainda estou aqui". Estar presente e ausente, estar ausente e presente são dois modos de convivência com o luto a ser sempre rechaçado para que a vida possa existir. é o que nos sugere o livro. o luto sem fim do pai e o luto por etapas da mãe reforçam o caráter de testemunho de Marcelo Paiva, que narra em primeira pessoa a história de dois outros; não quaisquer dois, mas os seus progenitores. um que "desaparece" repentinamente e uma que "desaparece" aos poucos.  essas desaparições são formas de presença. nesse sentido, ser um sobrevivente é uma forma de aprender a conjugar diversas maneiras de se relacionar com as tantas mortes.

sua mãe ainda está viva. mas o "aqui" de agora não tem mais a força de sua presença antes soberana. por isso, o presente e o passado coabitam no livro, num tempo subjetivo e histórico, que reorganiza as percepções, reforça as perguntas, realça o absurdo de uma ditadura militar nos confins do mundo que desorganiza mundos inteiros. daí por que dentre todos os trechos de documentos inseridos no livro seja o depoimento de um dos acusados de tortura (Riscala Corbage) o mais terrível, o mais insólito, o mais canhestro. é nesse momento que o documento mais parece com uma farsa, no sentido da potência de registrar o horror e suas causas. pois não há causa. o torturador não tem a mínima ideia dos sentidos da tortura. é preciso que seja o outro que o diga. no caso, é Marcelo quem nos diz ---.   

Eunice, como tantas vezes disse Marcelo, é a heroína do livro. uma mulher que sai da condição de dona de casa classe média dos anos 1960 para uma profissional respeitada e admirada. uma mulher que nunca chorou em público, que manteve sempre a envergadura certa para as exigências. mas é uma heroína do nosso tempo. uma heroína sem ilusões que sucumbe quando era a hora de descansar de seu próprio luto de viúva. uma heroína sem memórias, que perde a sua memória para uma doença que mal se sabe as causas,  quando a sua história é toda entrançada na memória viva de um passado recente. e o autor é aquele que vive reiteradas vezes a morte viva da mãe. e dá a ela a voz da literatura, assina por ela a língua da literatura. dilacerante demais.
*
*
*            

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

cosacnaify, merci por tanta beleza














talvez seja difícil explicar o que senti hoje ao saber que a Cosacnaify vai fechar. difícil porque talvez sejam poucos os que podem entender que se sente amor por uma editora --- por uma editora! mas vou começar assim::: este é o tom. quem achar abestalhado pode parar de ler por aqui. esta postagem é para os que amam livros como eu::: anderson aline poeminha rosana lilian gabriel (que não está nestas fotos, mas que compartilha do mesmo amor, testemunha que sou das tantas vezes que ele comprou livros no meu cartão).

não chorei na hora que li a notícia, porque estava em uma sala cheia de gente. mas foi difícil barrar o nó que se formou de imediato. porém, quando pisei os pés dentro de casa, e olhei ao redor e vi os sinais da Cosac por todo canto, as lágrimas vieram como deveriam vir.

sim. tenho amor profundo amor pela Cosacnaify --- compro com uma constância grande e sempre muito. Poeminha tem praticamente todo o catálogo infantil. e eu tenho uma infinidade - de todas as seções::: literatura, arte, cinema e teatro, fotografia, lançamentos sempre tão esperados. quantos livros devo ter, quantos li desses que tenho? quanto tempo gastei fuçando o site? como a partir de agora irei a São Paulo sem ir à loja e sair de lá com sacolas e mais sacolas, tendo que arrastar os livros em malas, em mochilas que curvam as costas para não ter que pagar excesso de peso na viagem de volta?

sim. amor pela Cosac. que começou com uma história que não me canso de contar. todos que me conhecem já a ouviu. todos os meus alunos já esbarraram com ela em algum momento. eu, doutoranda sobrevivente de bolsa, morando no centro de Campinas e indo todo fim de semana para São Paulo sem saber se ia para namorar ou se para ver espetáculos shows filmes exposições. e num desses fins de semana, vou à exposição de Farnese de Andrade, no Centro Cultural do Banco do Brasil. e sinto vertigens. e me extasio. e choro. e xingo todo professor que passou pela minha vida sem nunca ter me falado que Farnese existia.

e continuo falando de Farnese pelos dias seguintes, pelos meses seguintes, pelos anos. e comento com meu orientador que queria ter comprado o livro do catálogo, mas que não havia comprado porque era bastante caro para minha vida de sobrevivente-capes. e ele me diz então que a editora é bacana, que se talvez eu escrevesse para eles... e eu, que nunca faço este tipo de coisa, escrevo, digo que sou uma sobrevivente, que não posso comprar o livro, se não seria possível um desconto... e a Cosac me responde no mesmo dia com uma pergunta que nunca vou esquecer e que foi a seguinte: "Quanto você pode pagar pelo livro?". e eu fiquei toda atrapalhada, toda cheia de emoção, toda sabedora que ali havia um inusitado que merecia ser celebrado para todo o sempre --- e aí surgiu esse amor.

na entrevista em que Charles Cosac anuncia o fim da editora, ele fala várias vezes do estilo "caseiro" do início. e parece lamentar o fim desse sistema caseiro mais que tudo. e eu sou uma das testemunhas desse "estar em casa". lembro de fins de ano em que a Cosac dava férias coletivas para os funcionários. lembro das feiras que ia e de como os vendedores eram solícitos e sabidos, demonstrando paixão pela Cosac tanto quanto eu demonstrava. lembro de uma vez que meu amigo, morador de Rondônia, reclamou do valor do frete e a editora abonou o frete para ele. lembro da vez em que a editora não mais fez isso, mas orientou como fazer para que a compra ficasse mais barata. lembro de mim mesma, em uma dessas feiras da USP, dizendo orgulhosa para uma das vendedoras que eu conhecia todo o catálogo e que tinha boa parte dele.

por essas e outras histórias, desceu hoje em mim, cristalizado, solidificado, o sentimento de luto que me tem vindo muitas vezes nos últimos meses em relação à literatura, aos rumos da literatura, a essa pausterização do politicamente correto que tem tomado conta de todo discurso acerca do literário neste país tupiniquim de não-leitores, que agora arrota arrogantemente que já era o objeto livro, já era o estético, já eram os clássicos, só interessando a literatura adjetivada com algum apêndice da boa consciência. foda-se a boa consciência. Beckett é deus. o cu no livro de Bataille deveria emoldurar muitas capas. quero saber é se existe gente ainda no mundo que tem vísceras para sentar o rabo e ler Guerra e paz, David Copperfield, Anna Karienina, Os miseráveis, sem a merda do discurso de que - subentende-se, só pode - somos todos retardados que não conseguimos ficar mais do que dez minutos fazendo a mesma atividade. mesmo que seja nada. ou sobretudo, nada. livro na rede. livro na cama. livro em qualquer lugar.   

e eu me pergunto quem mais poderá nos dar um exemplar tão lindo da Odisseia, das Novelas exemplares, de Cervantes. para onde irá Tolstói e toda a prosa do mundo. e William Faulkner, como alimentarei meu amor por ele, condenado a partir de agora aos papéis simples e às capas de mau gosto das outras editoras? quem trará de volta em capa-tecido a marginália poética? como vou alimentar esse amor que é tátil, que é pele.

e sem educação formal, como vou saber de arte, de fotografia, de cinema a partir de agora? para onde irão as conversas com os cineastas? quem dará capas duras de plástico colorido a Octavio Paz? embrulhará em papel jornal uma narrativa de Gógol? enfiará em saco plástico o Mario Bellatin? quem confiará no esteticismo de Enrique Vila-Matas, para que eu possa xingá-lo e mesmo assim voltar nele insistentemente? e Zambra, para onde? e Tabucchi? e valter hugo mãe, que declara seu amor pela Cosac aonde vai? e Louise Bourgeois? Tunga? Duchamp? Cildo Meirelles? Bresson? Capa? Korda? Wolfenson? Arthur Omar? onde onde onde? todos órfãos da beleza.

qual editora me dirá o quanto é belo esse objeto retangular? que editora trará  Mary Popppins numa bolsinha a tiracolo? qual delas meterá um buraco bem no meio do retângulo-livro? e pintará de preto e roxo o branco das páginas? e as capas de tecido, para onde?

para onde levarei meus companheiros de viagem em Sampa numa manhã para nos enchermos de ternura durante todo o resto do dia? onde meu filho se sentará no chão e dirá a um coleguinha de seu tamanho que tem este e este e mais este livro?

qual editora me perguntará quanto posso pagar por um livro?
.
.
.
tenho a impressão de que nenhuma. porque a Cosac sempre me pareceu ser da ordem da paixão. do sonho --- da irresponsabilidade que está em toda paixão. em todo sonho. sim. que dor perder tanta beleza.
.
.



domingo, 22 de novembro de 2015

já é




hoje senti uma alegria infinda ao ouvir o novo disco do Arnaldo Antunes. passei o dia sentindo o coração leve, como se um tanto das músicas tivessem sido feitas para mim. isto::: é tão bom quando acontece. isto que é mais do que gratidão por algo existir e nos falar e nos fazer calar. 

fiquei pensando no caminho que Arnaldo andou para chegar a um disco como este. um caminho que é visível em vários de seus discos, mas que surpreende pela insistência, como se ele passasse a vida a escavar uma serenidade que a sua veia roqueira escondia no início de sua carreira. pois é um disco de/ e sobre alguém que opta pela alegria, como na segunda música, que me veio tão intensa que logo estava com lágrimas nos olhos::: são versos simples. a simplicidade que agora me faz falta, mas que quase me toca. isto:::: da alegria. logo nesta semana, quando eu me ouvi dizer que estava felizinha --- porque vai que morro. sei por que sempre me apavora a ideia de a morte me surpreender quando eu estiver triste. sei que vou ter medo. porque não tive quando estava tão feliz e tão inteira. 

então, ao ouvir as músicas uma e outra vez me enchi de paz. e tive certeza de que o tempo da tristeza já passou. como no disco de Arnaldo, já é. põe fé que já é. mesmo que as pessoas me faltem ("eu vejo a flor/ o passarinho/ não tô sozinho"). mesmo que não seja como eu gostaria que fosse. e por que deveria ser? por que não posso tentar um olhar amoroso sobre aquilo que me impele ao contrário? pensei nisso tudo. e sorri. e chorei na manhã feliz, enquanto Poeminha pintava seus brinquedos com meus esmaltes esquecidos e agora encontrados por ele.

...

antes a dúvida
do que a desconfiança
antes a dívida
que a mesquinhez
antes a dor
do que a indiferença
antes ignorância
do que estupidez

 
e depois alegria
e depois alegria
e gratidão

 
e depois alegria
alegria alegria
alegria e gratidão


e depois alegria alegria alegria alegria e gratidão. fiquemos assim então. com esta alegria que veio em forma de música. como em "se você nadar", é preciso nadar até a outra margem, a outra beira, o outro lado. é preciso. 

e ainda:::: todas as músicas merecem ser ouvidas. uma e outra vez. (queria ter falado do disco em si. mas não encontrei palavras. porque me enchi de palavras outras). pensei no distante. Arnaldo diz tão bonito o que às vezes me vem a vontade de dizer. mas não digo. digo só às vezes. e sobre o "querer bem". porque a mim não interessa a instituição.  interessa-me o que no outro ainda há algo de mim. e no que em mim, ainda vive o outro ---

se você me quer
se ainda quer me querer bem
tenho que saber se você vem
as estrelas sabem


posso te ligar
quando escurecer?
quando te falar
posso te dizer?


e isso tem sua beleza. é o que penso. mesmo quando quero perguntar. porque o que me enternece é de deixar o outro com o seu tempo. mesmo quando não estou neste tempo. porque vem daí tantas possibilidades, como a de experimentar o próprio tempo à revelia de. ---
*
*
*

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

o que foi feito por niemeyer

nunca consigo. mas sempre tento fotografar a grande marquise e a vida que por ali habita em instantâneos de pura leveza. no Parque Ibirapuera, esta longa passagem que sustenta os voos, os namoros, as conversas, os encontros, daqueles que por ali passam (como eu) e daqueles que por ali ficam é a prova do ócio, do viver-em-comum. em geral, uma multidão de jovens que fazem deslizar seus patins, seus skates ou simplesmente seus pés. é bonito. muito bonito este estar exposto ao fazer nada. isso de ter o tempo. de cavar o tempo. eu lembro que sabia andar de patins. por que esquecemos daquilo que poderia nos fazer mais felizes?  








 

*
*
*

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

vento vento ventania


duas ou três coisas me perturbam hoje. e como toda perturbação, desordenam meus dias. mas em várias partes do dia, eu me pergunto:::: para quê? uma grande placa diz: "escolha ser feliz". e eu tenho muita vontade de ser isto::: esta escolha. gosto mais da minha gargalhada que aprendi com meu amigo Rivero do que das minhas lágrimas. 

gosto das lágrimas também. mas gosto bem pouco das lágrimas que chorei no ano passado. acho que foram as lágrimas mais solitárias de toda minha vida, salvo aquelas que chorei quando tinha vinte e poucos anos. aqui, não são aquelas lágrimas que chorei no ano passado. agora, tudo aquilo está resolvido dentro de mim, embora não seja o mesmo que dizer que esteja resolvido. 

e agora, novos sentires se sobrepõem aos dias confusos. e vejo, finalmente, algo bonito em mim. não sei de onde vem o vento do fim da tarde. mas deixo que ele espalhe poeira pelos móveis da sala. porque com  vento sinto que voltei para casa ---.  vem o vento e eu lembro das casas da adolescência. e entro e saio das casas daqueles que um dia foram meus. que um dia me disseram que há beleza no silêncio. na contemplação. 

há dias que vem um afago no meu coração --- de estar com Poeminha e estar quase em paz. como se eu pudesse, de novo, trazer os dias. lembro de um dia em Paris - um dia muito frio - que fui procurar a casa de Camile Claudel e não encontrei. havia fotografado tantas vezes L'age mur, no Museu D'Orsay, que queria ir ali, naquele ponto turístico que só a Europa faz parecer menos piegas do que de fato é. mas não consegui encontrar. olhava o guia, via que estava próxima, mas não conseguia ver a casa. então, fiquei por ali, fotografando um senhor que pescava. no meio da tarde. no frio. e dormi. dormi ali, num banco, com a mochila do lado, com o ipod nos ouvidos, com a câmera em cima de mim. e quando acordei, fiquei toda contente comigo mesma. lembro que anotei em algum lugar, talvez mesmo no blog, que era tão bacana ser uma pessoa que havia sido assaltada tantas vezes e mesmo assim conseguir dormir num banco de praça, às margens do Sena, com todos os meus documentos na carteira, com o único cartão de banco que eu podia movimentar, com uma câmera, com meu ipod de trezentos euros, tocando alguma música brasileira, certamente, à vista de qualquer passante. eu me orgulhava das minhas leseiras. 

eu tenho muitas histórias das quais me orgulhar. todas histórias de alguma insensatez. e me basta beber um pouco mais, e essas histórias me vêm. e eu conto e rio. e rio e conto.  hoje contei uma delas. e sem beber  --- de como sou avoada. daquelas de brigar com alguém e depois encontrá-la e, esquecendo de que havia brigado, dar muitos beijos. para só depois lembrar.

tenho em mim outras altivezes. foi bonito quando, depois de ter rastejado uns três dias, sem entender que era o fim, no quarto dia ter perguntado: "então é isto, acabou?" e ao ouvir que sim, ter deixado o outro em paz. nunca mais, uma única palavra de dor. saber ter deixado a dor decantar --- e sozinha. e ter chorado todas as lágrimas como um cão e, mesmo assim, ter feito daqueles dias noites tão bonitas. insone, infeliz, lendo Nietzsche e Kafka e ouvindo Nina Simone, na varanda que dava para a estrada. para dali a pouco um novo amor bater à porta. e desse amor, um menino Poeminha.

eu sabia encontrar uma alegria interior na dor mais profunda. eu sabia não ter medo. e tinha uma confiança ilimitada nas pessoas. ainda não entendi o que aconteceu comigo no dia do meu aniversário, neste ano, mas foi resultado da perda de algumas dessas coisas --- é o que sei. ainda neste ano, andando por Brasília em uma das noites em que estive lá, senti medo de ser assaltada. creditei ao valor da câmera que carregava na mochila, mas depois fiquei incomodada. lembrei desta tarde de Paris e achei que era melhor ser como antes. que sentir medo antecipado é a pior bobagem. e mesmo assim, sinto que ainda há tanta coisa bonita a encontrar.

e estou escrevendo estas coisas desencontradas, porque hoje encontrei uma mulher que me fez lembrar de quem eu era --- e talvez ainda seja e esteja apenas decantando.  senti que havia muita paz nela. muita completude. achei-a toda bonita. e me deu uma baita saudade de mim. ----

do vento. de como ali era o revés de tudo. e mesmo assim, terem sido anos felizes. de como eu descia todas as noites para a "rua". para a casa da rua. e encontrava meu amigo Dionácio. Ou minha amiga Verinha. Ou não encontrava ninguém e ficava na calçada com minha tia Elita e meu avô Tavarim vendo as pessoas passarem. e ouvindo o silêncio que se extinguia vez ou outra pelo ser falante que sempre fui. 

há muito amor no vento do fim da tarde que agora adentra nossa casa. Poeminha se encanta também e procura entender o que é este vento que nos visita todos os dias. eu lhe disse que o outro nome do vento, para mim, e apenas para mim, era saudade. e era também alegria. quando disse, pensava em quanto havia ali, muito longe, tanta ternura. tanta paz. havia o turbilhão também. havia as dores. o sapato furado no dedão do pé meses seguidos. mas havia, antes de tudo, a convicção de ser amada --- e fazer por merecer esse amor. e esse cuidado que dedicavam a mim. e que eu também dedicava. 

o vento --- que veio para que eu não esquecesse. para que eu, enfim, lembrasse que não esquecemos nunca que há muitas formas de voltar para casa.
*
*
*

sábado, 31 de outubro de 2015

do que senti - As pequenas virtudes, de Natalia Ginzburg


é tão bonito o livro As pequenas virtudes, de Natalia Ginzburg. quanta firmeza e quanta delicadeza na escrita de uma mulher. a sua sagacidade e sua inteligência recobrem tudo. das questões mais comuns às mais complexas, sentimos que há ali um pensamento único, constituído ao revés de seu tempo e mesmo de sua condição.

é um livro de ensaio na sua acepção máxima. não é o sobre algo que faz a sua potência, mas o fato de nos sentirmos no seu interior, como se  estivéssemos em suas vivências: na guerra, na maternidade, na amizade, no luto. e isso numa linguagem límpida, que não titubeia. é a face da coragem que transparece. fiquei dias irmanada com esse misto de força e delicadeza.  porque há um impacto que apenas inicialmente reconhecemos como alentador, pois o alento é exigente, recorda-nos do imperativo das escolhas a todo momento. e não nos permite a passividade. ou a aceitação da fatalidade. não importa por quanto tempo não tenhamos vontade de tirar os sapatos rotos, mas o que sobra, no fim, é que não podemos ficar com eles para sempre (como se pode extrair de sapatos rotos tamanhos significados?):

Vou olhar o relógio e controlar o tempo, vigilante e atenta a cada coisa, e cuidarei que meus filhos tenha os pés sempre enxutos e aquecidos, porque sei que é assim que deve ser sempre que possível, pelo menos na infância. Aliás, para aprender mais tarde a caminhar com sapatos rotos talvez seja bom ter os pés enxutos e aquecidos quando se é criança. (p. 23) 

e assim, de um tema a outro, as paisagens são humanas. no vilarejo onde fica durante a guerra, em Londres, na cidade em comum com o grande amigo Cesare Pavese não são sobre as cidades que sabemos, mas sobre os rastros que ficaram nela - Natalia - dessas cidades. são paisagens humanas.  por essa humanidade, no que há aí de insondável, seria preciso retomar o hábito das longas citações para demonstrar o quanto solvi de suas palavras:
 
Não nos é dado ser feliz ou infeliz. Mas é preciso escolher não ser diabolicamente infeliz. O silêncio pode atingir uma forma de infelicidade fechada, monstruosa, diabólica. Murchar os dias da juventude, tornar o pão amargo. Pode levar, como já se disse, à morte (p. 96).

mas por ora, quero deixar apenas o registro da beleza que se fez em mim. nos dias ternos e corridos de São Paulo, li em voz alta, entre amigxs, o trecho que segue. como um apelo ao meu próprio desejo, se eu tiver a grandeza do alcance:

No que diz respeito à educação dos filhos, penso que se deva ensinar a eles não as pequenas virtudes, mas as grandes. Não a poupança, mas a generosidade e a indiferença ao dinheiro; não a prudência, mas a coragem e o desdém pelo perigo; não a astúcia, mas a franqueza e o amor à verdade; não a diplomacia, mas o amor ao próximo e a abnegação; não o desejo de sucesso, mas o desejo de ser e de saber. (p. 123)  

porque é preciso não desistir. no deserto de maior escassez, antes de tudo, permitir a ternura, tirar a areia dos olhos, acalmar a própria aridez, refazer percursos, abandonar o que nos obriga aos sapatos rotos. e estancar. para poder respirar.
*
*
*
não é simples. mas é o que deve ser feito. porque há um filho que precisa de "pés enxutos e aquecidos".
¨
¨

GINZBURG, Natalia. As pequenas virtudes. Trad. Maurício Santana Dias. São Paulo: Cosac Naify, 2015.

terça-feira, 27 de outubro de 2015

4.1





rô interrompeu a trivialidade que eu quis imprimir ao dia enviando flores de muito longe. Poeminha  deixa buracos no seu álbum de fotos gigante e faz delas o que quer. metódico, procura lugares que julga ainda melhores. inventa porta-retratos de todo tipo. e novos álbuns de fotos. traz uma folha que pintou em Sampa no dia das crianças e tem uma foto nossa bem no meio. e fico pensando que ele não para de me emocionar. 

nem que seja para contrariar a mim mesma me orgulho ao deixar que ele espalhe seus desejos pela casa. se eu estiver errada, e se tiver mesmo algum problema com excesso de ordem e limpeza, como vez ou outra sempre tem quem diga, posso ficar ainda mais contente comigo mesma::: a bagunça de Poeminha é o excesso que não me perturba quase nunca. não é todo dia nem qualquer uma - quanto mais neste difícil papel de mãe - que consegue que a própria loucura não atinja o filho. 

talvez esteja de bom tamanho para os 41 anos. mas quem pode saber? eu não sei. aos 41, eu devia querer saber dirigir, ter uma casa, um carro acima de 1000, mas o fato é que eu não quero nada disso. vez ou outra digo que quero. mas é mesmo só para afugentar a consciência. ou para acalmar a manaMácia que faz planos para que eu envelheça com alguma dignidade. mas se me perguntarem o que realmente gostaria de fazer nos próximos dez anos, eu diria que quero conhecer dez lugares diferentes::: um por ano. seria bonito. e seria tão mais instigante. porque aos 50 deve ficar mais difícil. então, dos 41 aos 50, eu queria ir a Machu Picchu, a Nova Iorque, aos Lençóis maranhenses,  a Fernando de Noronha, a Berlim, a São Petersburgo e onde mais der na telha.

talvez seja isso que esteja de bom tamanho:::: manter a postos os desejos. não deixar que eles atrofiem. manter o mesmo sorriso de sempre. a mesma loucura. não acreditar nunca na descrença. puxar o olho do tempo em que tudo era bom. querer olhar o porvir. querer que ele exista. não morrer ---- porque quem já quase morreu, sabe da possibilidade. 

(espero não perder o que consegui ao longo desse último ano, que poderia ser dito de muitas formas. mas que talvez deva chamar de cuidado de si (mim). que veio num momento muito difícil, no qual eu precisava acreditar de alguma forma. pode parecer que seja apenas exterior. mas não o é. conquistei muita coisa dentro de mim a partir desse cuidado).

talvez seja isso. ou não. sei que tem dias que o mundo balança. mais que antes. e ainda assim, me sobra tempo para os quereres.e quem não há de dizer que tudo vale a pena, se a alma...
.
.
.