sexta-feira, 31 de agosto de 2018

Jardins da memória















ontem, procurando uma foto para colocar no facebook, encontrei as que tirei no jardim Botânico do Rio de Janeiro. e achei-as bonitas. foto de flor é também como paisagem de mar::: não tem erro. mas é difícil. e é uma beleza que saiu de moda. de todo modo, estão aí em cima. e lembram uma tarde feliz.

lembrei que as primeiras tentativas de tirar fotos de flores, com a câmera bem próxima, foi na casa de d. Marlene, a mãe da Kotz. em algum lugar há fotos de flores da casa de d. Marlene nos meus arquivos sempre bagunçados. me veio o desejo de procurá-las. e há bem aqui. me veio o desejo daquela casa. não sei se a casa ainda existe. mas sei que d. Marlene não está mais aqui --- não há mais como voltar naquelas tardes preguiçosas, naqueles almoços pantagruélicos, nem para aquela rede de frente para as orquídeas e o jardim selvagem que rodeava a casa. e por isso me atravessa o pensamento de que as casas para as quais queremos voltar se desfazem mais cedo do que deveriam.   

se eu tenho saudade de d. Marlene, imagine Kotz, suas irmãs, as netas --- toda aquela família que gravitava em volta de d. Marlene --- que nos alimentava com tão poucas palavras, com sorriso tão terno. quase sinto o cheiro da comida. e vejo o fogão a lenha, a grande mesa de madeira sempre farta; e nós ali em volta. Kotz, com suas mil palavras; Lobão com a sua beleza compenetrada, seu Emílio, um gigante menino. pato, porco, galinha. gato. haveria cachorro? e ainda nós, mesmo depois de Kotz ter partido.

ali era um fazer-nada. ficar parada no refazer dos dias. ali, mesmo se eu e o Tatupai estivéssemos muito distantes, se suspendia essa distância. não era nada. e era a delicadeza por inteiro. Poeminha, por ali, tão pequeno. um braço era sempre um abraço. 
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agora que moro nesta casa com o rio e o mato em volta, que não é minha, compreendo bem mais a casa de d. Marlene. e se nunca desejei de fato ter uma casa assinada em cartório, agora me vem esta vontade quando passo distraída diante de uma destas janelas e vejo o rio lá fora. vejo as árvores. e ouço os passarinhos. se me for dado o tempo de envelhecer, bem que o tempo poderia me trazer a delicadeza de seu Emílio e d. Marlene. eu compraria, enfim, uma casa. e ela teria um jardim selvagem com muitas flores. para descansar meus pés inchados de espondiloartrose, eu os levantaria para cima enquanto tentaria ler um livro com os olhos também cansados. eu sei que cena bucólica é brega. e sempre há de se colocar os mosquitos. e a alergia aos mosquitos. mas que se dane::: rememorar o porvir com uma casa no meio de um jardim selvagem é bonito. é de fechar os olhos com a paz bem dentro deles. 
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domingo, 15 de julho de 2018

Sumbe, Angola - parte 1











eu queria ter feito como Danilo, que escreveu um diário. havia decidido fazer, mas os dias se foram sem que o diário existisse. de todo modo, os dias existiram. e são passado e o porvir. volto logo mais. dos dias ficaram um tanto de surpresas, constatações, encantamentos, tantos e tantos pensamentos. alegrias e alegrias.

eu lembrei de uma música que agora não quero nomear, porque me parece um chavão sobre o qual é preciso sempre trapacear. é porque sou cearense. e cearense insiste que já viu de tudo, mesmo quando não viu. esse "ver de tudo" deixa o olho calejado e menos afeito ao espanto, o que não deixa de ser uma maneira de não se deixar afetar. deveríamos fugir da aridez do olho como o diabo talvez fuja da cruz. é o que tento, pois. a cada vez que meu olho arrisca secar eu me arrisco nas alegrias grandes.

espanto de verdade, que mais pareceu tristeza, foi apenas um dia. uma manhã. andar na praia ao lado de Mari é quase como estar de mãos dadas de tão bonito que é. é uma espécie de oração ao tempo que nem tudo pode levar. mas a praia pode ser moradia. extensas áreas de construções cobertas de lonas, como que em cima umas das outras, me deixaram com um oco de tristeza que demorou a passar. foi o sol. ou calha de ter sido mesmo o nunca-visto. dali vem o peixe que depois nos é servido. teimei que devia voltar e olhar com menos espanto === buscar ali o normal de todo dia: gente das mais variadas. e me misturar com aquele alarido todo::: os peixes grandes na bacia, as mulheres de cócoras, os homens a beberem, conversarem e repararem em nós também com espanto. as mulheres, não. as mulheres não têm tempo para olhar forasteiras que chegam. estão ocupadas demais com os afazeres que compõem suas vidas.

as mulheres carregam seus filhos nas costas e as vendas na cabeça. parece ser um equilíbrio precário, é o que pensam meus olhos desacostumados. até que um dia Mari cai no mesmo lugar em que uma dessas mulheres havia descido com um enorme tambor na cabeça: altiva, uma timidez sorridente quando nos viu, braços soltos a seguir viagem. quis de todo jeito registrar uma mulher tal como ela me parece ser: com aquele olhar fixo em quem a observa. será que doem as costas das mulheres que colocam seus filhos nas costas? dói a cabeça com aquele peso todo? será que doem as costas das mulheres que varrem as ruas com as vassouras sem cabo? a mesma vassoura que trouxe para casa com a vontade de transformá-la em objeto de memória? e onde vivem as mulheres que passam o dia a vender com seus filhos nas costas? quem cuida da casa quando elas estão nas ruas? não sei por que fazemos tantas perguntas. não basta apenas ver. a cabeça não para de fazer perguntas.

parece que os angolanos não param nunca de caminhar. percorrem longas distâncias dia e noite, dia e noite. sobe uma poeira fina que deixa tudo avermelhado; e eu teimo em caminhar na beirada da noite, como faço aqui, agora, em Ihéus. tenho medo das mãos dormentes. as ruas ficam vazias - como aqui - apenas aos domingos. nesse dia, as crianças estão na praia. nessa época, somente elas estão na praia. quando eu pergunto a razão, me dizem que ainda está frio. nessa época a água está sempre fria, mas as crianças não se importam. estão na praia, estão na cachoeira, estão no rio, estão nas ruas e querem porque querem que eu as fotografe. não adianta dizer que não quero "pose" ===  e que gosto de imagens que surgem por acaso, que pegam a pessoa distraída. as crianças do Sumbe não escutam. querem fotos e querem ver as fotos. eu tanto me espanto como obedeço quase sem perceber. e fotografo aqueles olhos fixos em mim --- um mais lindo que o outro - abertos abertos abertos, até que de repente um está fechado. e outro está ainda mais aberto a me inquirir. como poderia velar por estas crianças que carregam suas cadeiras da escola na cabeça? por que pensamentos assim enraízam e me deixam no deserto?

uma escola sem merenda me parece tão fora de propósito. como eu teria sobrevivido em uma escola sem merenda, lá pelos seis, sete anos de idade? eu sentiria ainda mais fome do que sinto hoje? a natureza não existe. e a cultura é uma velha senhora. ouço com firmeza que a merenda talvez até atrapalhe a concentração, a disciplina --- essas palavras tão ligadas ao ensino. e antes que eu proteste, a merenda está sendo posta em outra escola. as crianças estão em volta das mesas e eu quase peço para me sentar ali no meio delas para matar a minha fome de criança. mas quando saio dali o protesto cresce dentro de mim, se avoluma, e para que eu possa suportá-lo, leio ou durmo === dormito muito, naquele hotel em que um ou outro rato vem nos visitar enquanto eu, Mari e Danilo comungamos nossas vidas que - insisto - devem ser povoadas de nódoas, senão o que seriam? eles protestam e são felizes. eu também. mas tenho um oco e não sei como mandá-lo embora. nem posso. acabo por me render e admitir que encrenco porque tenho uma alma do avesso. e me apaixono novamente pela Mari. ou lembro e lembro dessa paixão por ela que nunca passa. e Danilo, tão bonito. fico perscrutando suas inteirezas, enquanto ele diz para mim e para Mari que tem um bocado de receio delas. um trio tão bonito surgiu naquelas conversas todas === parece que a vida toda é isto mesmo::: é este pensamento sobre o mundo, a universidade, as pessoas, o casamento, o estar com os outros, o estar aberta aos outros. como é bom sentir que não há nenhuma rivalidade, nenhum temor:: há dúvidas e alegrias permeadas por uma confiança grande no que agora é feito. 

e há um olhar pousado sobre a cidade de poeira fina. um olhar amoroso, sobretudo. e com o por do sol mais lindo que já vi na  vida. por isso, carrego Mari para ver o por do sol, como fazia antes em nossas tantas viagens. ela insiste que não dá para fazer as duas coisas. e eu ignoro; não por displicência, mas porque quero crer que dá. e ali, naquele por do sol, está o menino. faz o quê, o menino? o menino estuda. a onda bate. o casal de namorados se molha. e se beija. o amor é quase palpável naquele fim de tarde. por que ninguém nos diz para arregalar os olhos? para não deixar nada escapar? e pegar tudo que importa e fazer durar. como aquela missa. na última vez que havia estado em uma missa havia sido para rememorar a vida e a morte de meu irmão. naquele dia, meu pai, eu e minhas irmãs sofríamos como o diabo. uma solidão tão sem medida que não passa nunca. na missa de Angola, havia também solidão, mas, sim, alegria, uma espécie de contentamento, por estar ali e reconhecer aqueles passos nos corpos que celebravam.  
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escrevo este texto por conta de e para Aline --- que me diz ser uma pena que eu tenha perdido a alegria de escrever aqui.
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e escrevo por conta daqueles dias === os mais amorosos de muito tempo.

quinta-feira, 17 de maio de 2018

Para poeminha




ei, menino, você está crescendo. já são oito anos e tudo é diferente de antes. o que resta de nós? daquela mãe e daquele filho de anos que se foram? eu tenho um medo danado de me perder de você. de perder nossa proximidade e nosso afeto --- eu que durmo pegando no seu cabelo; você que dorme procurando com a mão e com a perna alguma parte de mim para tocar.

o que nesse tempo me trouxe até você? e trouxe você até mim? da minha parte, Poeminha, parece que nada que você faz me distancia. você está aqui --- colado em mim como aquela dor nas costelas que eu sentia quando você estava dentro de mim. presente. e com uma ternura sem fim. já não tenho certeza se ocorre o mesmo com você ::: você me diz seguro e certeiro que algo falta::: "mamãe, você não me escuta". a escuta. 

passo o dia todo agora longe de você. e tenho que conviver com isto::: que você vive sem mim. sem mim seus dias passam. e a casa lhe parece mais acolhedora. eu chego à noite, cansada e infeliz muitas vezes, e seu mundo todo está ali espalhado::: papéis picotados, lols espalhadas, restos e rastros de um dia intenso e provavelmente feliz::: mas você diz 'mamãe' e, para mim, é como se eu estivesse ali o tempo tempo. você que é parte de mim.

Poeminha, digo algo como segredo::: perdi a alegria da escrita. perdi a alegria deste blog. não é por nada. e é por tudo. desde que perdi meu irmão, seu tio que você não lembra de ter conhecido, perdi o amor por esta escrita --- esta escrita descompromissada::: que pode ser uma carta para você, que pode ser uma resenha, uma opinião, um desabafo, uma beleza a não ser esquecida.

você não sabe o que me aconteceu ontem. nosso amigo Marcinho me ofereceu uma cerveja - meio ruim, mas suficientemente boa para que eu não lembrasse de imediato que era ruim - e eu pensei algo como::: "Mano vai gostar de experimentar esta cerveja". não sei porque pensei isso, Poeminha. meu irmão não bebia cervejas artesanais. mas por causa dessa cerveja esqueci por um instante que meu irmão estava morto --- esta cerveja.

eu não sei, Poeminha, o quanto podemos chorar pela morte de um irmão. o quanto podemos chorar sem que isso seja um nódulo que corrompe todo o resto. às vezes, eu penso que vou morrer antes de parar de chorar. ou que alguém mais vai morrer sem que eu possa sequer imaginar se poderei estar viva para viver uma nova morte.

---- eu sei apenas, filho, que nunca, jamais, em nenhuma hipótese, eu quero estar nesse mundo sem que você esteja. eu posso suportar qualquer vida ou qualquer morte --- desde que eu saiba que sua vida continua. e que seja bonita. exatamente como você é.
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não me pergunte nada agora, Poeminha. estou numa fase de teste. não sei exatamente o que sou agora. ou quem >>sei que em vários instantes penso e sei que sou sua mãe. e todo o resto resta.
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domingo, 24 de dezembro de 2017

minha biblioteca












penso que jamais terei uma biblioteca de encher os olhos. isso ---- no que diz respeito aos móveis. estou condenada a estas estantes feitas quando eu não tinha um tostão no bolso e precisava de todo modo de prateleiras para abrigar os livros que se avolumavam. sempre que imagino estantes até o teto, feitas sob medida, eu lembro em seguida que não sou uma pessoa de posses. nem suficientemente madura para fazer planos a longo prazo --- economizar, pagar a vista depois de meses de organização financeira, me é algo tão estranho que sequer cogito. sim, estantes de quinze anos atrás que abrigam os livros de antes e os de agora, como que por milagre. sempre há um jeito de caber um pouco mais. inclusive, há o jeito de aceitar como abrigo caixotes coloridos de supermercado, acompanhando a tendência do decor-faça-você-mesmo, que é só uma forma de glamourizar a pobreza.

nesse pouco mais, está a minha história. uma vida inteira. como toda pessoa que compra livros --- e já disse isto outras vezes aqui ---, compro mais livros do que dou conta de lê-los. é tanto um espanto como um acalanto a cada vez que mudo de casa e tenho que fazer com que eles caibam nesses espaços. os livros são a materialidade, a prova, dos meus excessos. não há nenhuma época da minha vida que não esteja contaminada pelos livros --- pelo que li e deixei de ler. assim como as razões pelas quais li e as por que não li.

e mesmo sem memória, consigo identificar a história de cada livro. e o que havia ali de promessa. não a história do livro, mas a que está por trás de sua compra. e do seu desejo - realizado ou não - de leitura. continuo agrupando-os por gêneros e nacionalidades, começando pela prosa brasileira e finalizando com a poesia. a razão por que não estão juntas prosa e poesia brasileiras diz muito sobre a leitora que sou::: antes de tudo, uma leitora de romances.  eu sei que há toda esta bobagem de antagonizar a prosa e a poesia, mas não é por essa razão que sou uma leitora de romances::: meu amor pelos romances vem da infância; é aquela menina que tomava emprestado livros de capa grossa da biblioteca da escola que aprendeu a amar histórias grandes. aquela menina ainda existe nessa resistência do amor aos romances, é o que gosto de pensar. não há memória da infância que não seja também contaminada pela leitura. tanto as boas, poucas, como as ruins, muitas, falam do meu amor precoce pelas palavras escritas. o saber ler aos cinco anos. as palavras escritas nas paredes de tijolo. a mãe professora. a ida à escola. a primeira professora. a minha alegria e o sofrimento do meu irmão na mesma escola por anos seguidos. a descoberta da biblioteca. a surra por causa da leitura, ainda criança, de romances de amor  --- tudo é ferro marcado no corpo.

a poesia é, talvez para sempre, um desejo continuamente adiado, embora nunca me falte um estar-junto de alguns poucos poetas.

nesta última mudança, limpei os livros um por um. foram dias e dias de uma conversa imaginária com tudo aquilo que me rodeia. todos os dias sou rodeada pelos livros::: porque eu gosto de trabalhar no meu escritório. é aqui que suporto bem o preenchimento dos formulários. é também aqui que planejo as aulas. e aqui tenho as melhores ideias no enfrentamento da escrita. não existem dias mais felizes do que aqueles em que resolvo escrever algum texto. por conta dessa felicidade, sei que deveria enfrentar, mais uma vez, uma escrita mais longa. já faz dez anos que escrevi o meu mais longo texto, que foi a minha tese. como eu já disse tantas vezes, percebo nesta um sem-fim de buracos, mas lembro, sobretudo, do amor que havia na ponta dos meus dedos enquanto a escrevia. há muito amor e muito adeus em minha tese. sem dúvida, eu deveria experimentar novamente tamanha entrega.

neste ano, enfrentei a leitura porque não havia muito o que fazer. atravessei o luto com a leitura de livros nas longas noites insones. e por isso, nesse ano, aprendi a amar, sobretudo, Javier Marías, José Luis Peixoto e John Berger. nunca se sabe ao certo se é assim mesmo. o que poderia ser feito e o que não se pode fazer porque é além da capacidade. decidir nada dizer sobre a prostração o medo a dor a tristeza a letargia a não ser também pela escrita --- para que não sejam lamúrias, para que sejam o que apenas são. se poderia ser de outro jeito, não sei, porque foi o modo que encontrei. de alguma maneira, poder conversar com o meu irmão - e com a morte do meu irmão - através dessas longas noites.

os livros nos impõem o enfrentamento do sofrimento e também da própria vida. não me surpreende que, por estes dias, eu esteja às voltas com Thomas Bernhard, um autor que meu amigo Alberto me ensinou a amar há muito tempo, mas que eu havia esquecido até que minha amiga Aline me lembrou que esse amor é uma das minhas estranhezas. ainda hoje penso no Alberto quando leio Bernhard. aquela elegância trágica está também nele. é difícil ler Bernhard e depois me religar com o entorno. há muita dor e muita mágoa espraiadas em cada linha. como levantar a cabeça e enfrentar o mundo? é difícil. nas páginas finais de Origem, Bernhard relata como a leitura de Os demônios, de Dostoiévski, deixou-o incapacitado por muito tempo para outras leituras, tamanho o impacto. é também assim que me sinto::: há escritores que estragaram para sempre meus gostos literários, porque me fazem buscar em cada um aquela mesma sensação em uma meia dúzia de escritores que me atormentam.

talvez seja por isso que eu compro livros de escritores que nunca li ---

--- mas eu li a quadrilogia de Elena Ferrante e digo, sem temor, que ela é uma grande narradora. foi por conta do meu desgosto com os brasileiros contemporâneos que desandei a ler, novamente, os estrangeiros. dessa vez, não mais os russos ou os franceses. sim, foi neste ano que perdi o pudor de dizer  o quanto o romance brasileiro contemporâneo que eu leio está tão pouco impregnado de invenção. ainda encontro algo de distinto em alguns escritores, mas não naqueles que havia aprendido a amar. Joca Reiners Terron ainda e continuamente me surpreende. e nenhum outro nome me vem à mente. parece-me que os outros estão sentados acomodados em suas vitrines mercadológicas --- e são os que ganham os prêmios. para meu espanto e meu desgosto.

porque há isso em toda biblioteca. os grandes amores. as paixões passageiras. os planos de estudo. as decepções. os livros que serão relidos mais de uma vez. os que jamais serão lidos. os que não deveriam ter sido comprados. os que deveriam mesmo que não sejam lidos. os que serão lidos ainda este ano. os que estão numa lista extensa de leitura. os que foram lidos há muito tempo e é como se tivessem sido ontem. os que foram lidos e não resta uma linha, mas que ficaram para sempre cravados em mim. os livros que aterrorizam porque foram lidos. os que atormentam porque não foram. 

e o inclassificável. o imponderável. o que não tem fim. o que é uma herança.
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existem os livros. 


** para Aline, que me pediu. com amor. para que eu não esqueça. e ela saiba.


sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Adriane Hernandez - o reencontro


Adriane foi embora num fim de dia chuvoso e triste = azul quase cinza. Eu triste pra cacete. As coisas acontecendo e eu já sentindo a sua falta. A chuva é fria em Paris. Eu, ela e Mari correndo na chuva sentimos isso. Sem abrigo por perto. Subimos na torre Eiffel horas antes de ela partir. Dri tem medo de altura. Suas pinturas são azuis. Seus objetos também. O pão é "amarelo queimado" como todo pão. E branco por dentro. Por duas vezes, vi-os pela tela: ela a me dizer. Prateleiras com mãos humanas entre pães = as mãos da sua mãe. Massa de pão parecendo nuvem carregada de água "mas tem peso". Telas (gigantes, ela me diz) de banheiros meio disformes = o azul se apossando dela como imperativo. E não deve ser difícil uma arte do azul? Picasso, na sua fase azul, é de uma tristeza de escorrer lágrima. O quadro do Soutine que mais me abisma é azul e "amarelo queimado" no centro. Le poulet plumé. O azul da Dri é delicado. Não me parece de dor, a não ser aqui e ali. É uma memória do azul = associações que nos leva a outros objetos, outros tempos. A toalha da mesa que não pode ser separada do pão = a vida nos pequenos gestos [comer pão na mesa preparada para o café da manhã]. Quando vivi isso mesmo? É aí que habita a dor da obra da Dri. Em quem olha. Vestígios do que não se tem ou se viveu ou se perdeu ou se guardou. Indícios, ela me diz. E tem o corpo, isto que sente. Dri embrulhada em papel de pão. O corpo amarelo, como todo corpo, dentro do papel de pão. A sensualidade do pão, o horizonte no pão, o pão onde não se imagina. Este inesperado da delicadeza das pequenas coisas é o que mais me encanta na Dri artista, amiga, pessoa, gente, mulher. Azul e branco sobre azul e branco nas mãos de luva. A mão amarela escondida pela luva azul e branco em cima da toalha de mesa azul e branco. Quadrados. Migalhas. Momentos tomando conta. Me vêm agora estes lampejos, estas frases sem sentido. Sou um azul de saudade num dia branco nesta cidade cinza.



eu não encontrava Adriane desde esse dia triste e chuvoso em Paris. nestes anos todos, guardei-a em mim --- uma Dri que eu amei em Paris. reencontrei-a no fim de semana passado em sua Porto Alegre. e constatei com alegria e emoção que havia guardado muito dela dentro de mim. eu, desmemoriada, guardei em mim suas frases inclassificáveis. seriam agridoces, se não fosse sua voz delicada a proferi-las. uma mistura de zombaria e cuidado que imprime um saber que gruda. foi assim que Dri me levou pela mão em muitos lugares de Paris. como artista, como estudiosa das Artes, como ser que sabe o valor do silêncio, Dri sempre me emocionou.

Dri é lenta. não é a minha lentidão, que, de fato, é uma incapacidade de ser prática. Sua lentidão é um modo de estar no mundo. e cuidar de seu tempo com o peso e a beleza que a vida pede. Dri gargalhou quando me viu. gargalhava e me olhava com seu olhar inteiro. gargalhamos juntas. nunca havia acontecido algo assim comigo::: gargalhar pelo encontro - abraçar abraçar e gargalhar gargalhar. nunca vou esquecer. mais um gesto que ela me imprime.

conversamos tanto tanto tanto. e agora, ainda acho que foi pouco. dormimos sempre depois das 3h da manhã. mesmo quando falamos de nossas dores, de nossos tantos impasses institucionais, me senti na presença da delicadeza. já no avião, de volta para casa, me deu vontade grande de chorar. e chorei --- me veio o pensamento de não ter me enganado durante todos esses anos. A Dri que eu havia conhecido não era apenas uma figura de meu imaginário. ela é o que eu havia imaginado todos esses anos. ir nos seus lugares em Porto Alegre, conhecer alguns de seus alunos bonitos, estar no ateliê que ela dá aula, ver a exposição da qual ela é a curadora, assistir ao espetáculo de Chico, seu namorado, e ter a certeza de que me apaixonaria também por ele, tal como sou apaixonada por ela; bebermos muitas cervejas artesanais juntas, irmos ao MARGS e ela soltar meia dúzia daquelas frases inclassificáveis; provocá-la para me mostrar seus livros favoritos na sua biblioteca (e ela aceitar o desafio e me dizer por muito tempo o que faz com cada texto que apresenta aos estudantes) --- tudo isso me deixou viva e feliz. 
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também vi a nova fase de seu trabalho --- isso de ver e ouvir::: Dri ali, me explicando cada traço. a ideia de camadas, do aleatório, da construção de uma linguagem - o azul o azul o azul. passarinhos. verde. uma cor de assalto. visão e invenção. --- todas as noites deviam ser tão belas como esta.

hoje, reli parte de Palomar, de Italo Calvino, um dos livros sobre o qual ela me falou apaixonadamente. e me senti de novo em sua presença. e de novo, fiquei feliz --- prometo que não passarão mais dez anos para nos reencontrarmos. qualquer dia volto com Poeminha pela mão. para que ele conheça a sua delicadeza. e seu olhar que pergunta. e responde.          

sábado, 14 de outubro de 2017

mano --- tão bonito



Mano está à direita, blusa preta, de boné. com o prato na mão, comilão, que nem eu.

nesta semana, tia Fá postou uma lembrança de um daqueles almoços na casa dela, sempre festivos, sempre felizes. eu sinto falta. eu sempre fui uma pessoa nem sempre presente. ou quase nunca presente. mas sempre muito acolhida. eu chego nestes almoços e é como se estivesse ali todos os dias. eu sinto assim e sinto que as pessoas me sentem assim também. meu irmão era de outra ordem. meu irmão se fazia presente. aparecia pela necessidade de aparecer. ele devia sentir saudade --- o que eu sinto apenas agora. 

pois foi isso que senti de forma ainda mais tangível ao ver as fotos que tia Fá postou. meu irmão estava lá em um daqueles almoços. era 2015 e meu irmão ainda estava lá. meu irmão e seu sorriso banguela porque ele não estava muito disposto a cuidar do seu sorriso banguela, embora Maneca sempre dissesse que pagaria para que ele --- meu irmão era miolo mole. e nisso, somos muito parecidos. 

eu me espanto e me enterneço ao ver - e pressentir e relembrar - o jeito terno do meu irmão. ele era terno. um terno envergonhado, como se a vida toda devesse ter feito dele o contrário da ternura e não tivesse conseguido. meu irmão era do sertão. meu irmão era pobre de marré. meu irmão ia pra mata porque sabia que não era bicho da cidade. e meu irmão tinha amores grandes dentro de seu peito. 

não sei se é por isso, mas todos os dias eu penso que a vida ficou mais feia, mais triste, porque meu irmão não vive mais. já experimentei de tudo::: xinguei-o por dias seguidos porque ele entrou naquele poço; rememorei tudo que vivemos juntos e amaldiçoei o que esqueci; filosofei sobre a finitude da vida, sobre o luto, sobre a perda, sobre o que fica depois da morte. mas tem dias, como este em que vi as fotos das lembranças de tia Fá, que nada adianta. 

eu quero meu irmão vivo --- é fato. um fato nunca mais possível. quero meu irmão vivo para poder não sentir saudade. #agorapronto, diria ele. e se levantaria dando por fim a conversa. agora pronto --- me vem o medo de morrer. uma certeza de que nós, da geração 70, estamos destinados a. meu irmão não levaria a sério esse meu medo. meu irmão gostava de mim e adorava nossas parecenças. 

 é difícil viver sem meu irmão. me dá ânsias de novas vidas --- fico querendo novas vidas. já não quero mais os velhos problemas. nem os sentimentos viciados e acomodados. por ora, domestico essas ânsias. e fico nessa labuta. mas aqui dentro tudo me contorce. sigo os dias. e acho que porque estou inteira dentro. em outubro do ano passado, eu havia decidido tanto. aí, janeiro chegou e o ano todo se vestiu de luto. estou assim. ainda. e não estou com pressa. mas outubro chegou novamente. não me veio nenhuma nova alegria. apenas a lembrança do outubro passado.  em outubro e novembro, parece que todos nós renascemos: minha mãe, Ferdin, eu, ManaMácia, Maneca. agora, tem sido difícil o renascimento. o Mano parou de renascer. mas eu sinto --- como hoje ao falar mais de hora com manaMácia --- que estamos no caminho de reaprender. e vamos nos encontrar e chorar e sorrir e falar e amar. em breve. e Mano não estará. mas estará. porque eu descobri agora o que é isto de alguém estar para sempre em mim --- é um músculo. mano está em mim, no meu coração --- é um músculo que pulsa, inseparável de meu corpo, de meu pensamento, de minha vida. 

e não é só ele. meu pai. minha mãe. manaMácia, Maneca, Morg, Ferdin. estão em mim. meu filho está em mim --- mais e mais. e tantas outras gentes - não tantas, mas minhas - estão em mim. meu irmão não precisava ter morrido para eu descobrir isso. eu já sabia. latente, sabia. mas o fato de ele ter morrido torna essa constatação tão mais dolorida, tão mais grande, tão mais triste, tão mais difícil de ser vivida. 
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terça-feira, 3 de outubro de 2017

A renúncia e o porvir




Na última sexta-feira, o reitor da UFSB renunciou ao cargo. Aproveitando o último ponto de pauta do Conselho Universitário, anunciou seu pedido de exoneração, enviado ao MEC nove dias antes do anúncio à UFSB. Finalizou dizendo que o pedido de renúncia era uma decisão unilateral, sobre o qual não cabia discussão, não sendo, portanto, ponto de pauta. A reunião foi assim encerrada. Esse é o fato.


Entretanto, para tentarmos entender o gesto do reitor, é preciso não nos afastarmos do momento vital da UFSB, que diz respeito a todos/as nós, docentes, técnicos/as e estudantes. É o término do 1º ciclo e ingresso no 2º ciclo, em que estudantes deverão escolher em qual curso continuarão a sua formação. É também o início do calendário do processo de consulta acadêmica para reitoria aprovado há poucos dias pelo Consuni.


Relembrar é sempre bom::: processo iniciado há mais de ano, nos moldes sugeridos pela gestão, com eleição, primeiro, para IHACs e Centros de formação. Em síntese, nenhuma anormalidade no processo que pudesse indicar o gesto do reitor. Entretanto, tanto na sua renúncia feita no Consuni quanto na carta disponível em sua página no Facebook, ele acusa grupos de articularem um golpe e de promoverem um processo ilegítimo. A partir daí, só nos resta perguntar: como pode haver golpe, se não houve um só movimento de pedido de renúncia do reitor feito por quaisquer categorias da UFSB? Nenhuma pressão para ele colocar seu cargo à disposição? Não houve paralisações, não houve petições públicas, não houve publicação de vídeos, não houve textos; nada, absolutamente nada que sequer insinuasse um movimento coletivo de destituição do reitor. Assim, tal afirmação de golpe ofende a nossa inteligência e, sobretudo, nossa autonomia de comunidade acadêmica. Aceitar tal discurso é aceitar sermos submetidos a violências discursivas de todo tipo. Por isso, devemos resistir.


Na primeira vez que ouvi o agora ex-reitor da UFSB, ele já proferia um discurso de intimidação e de acusação, no qual tentava silenciar as primeiras vozes discordantes de suas práticas. Uma de suas falas emblemáticas foi: “Não cabe a ideia de autonomia docente no modelo da UFSB”. E aí está toda a questão: a crença de que o projeto da UFSB é seu e a ele cabem todas as diretrizes. Já faz quase três anos desde esse primeiro discurso, ocorrido no campus Jorge Amado, e nada mudou. O personalismo sempre se configurou como a sua marca, tendo o reitor tomado para si todas as benesses de implantação de um modelo distinto de outras Universidades, a ponto de apresentá-lo como o mais revolucionário modelo que o Brasil jamais conheceu. 


Não deixa de ser uma bela história, em um país tão desprovido de utopias. Quem não quer acreditar em uma universidade revolucionária nos rincões do Brasil? Uma universidade popular cujo objetivo seja oferecer cursos de qualidade para a população mais à margem das grandes oportunidades? Quem não quer acreditar em uma universidade em que não seria preciso escolher de pronto o curso a definir a sua futura profissão? Porém, o que sonham a maioria dos/as jovens do interior do país? O que deseja a comunidade acadêmica, que somos nós, e não apenas uma única pessoa? Não nos foi perguntado. E aí está o grande impasse do projeto personalista.


Foi esta a resposta que nunca foi dada: como lidar com os sonhos dos que querem, prioritariamente, cursar Medicina ou Direito. Ao contrário, para incentivar o maior número possível de entradas na Universidade, disseminou-se a crença de que haveria vagas para todos/as. Estávamos, portanto, diante de um problema administrativo que foi transformado em um problema político unicamente pelo gesto do reitor.  


Pois o que faz o reitor ao se ver diante da obrigação de prestar contas acerca de seu maior “cabo eleitoral”; o que lhe rendeu popularidade entre estudantes, políticos e pesquisadores locais e nacionais, que lhe permitiu dar inúmeras palestras propagando mundo afora que estava criando uma universidade inovadora? Simplesmente, pediu exoneração, sabendo que deixava um problema insolúvel para a atual vice-reitora. Pois se há solução para as vagas de medicinas existentes versus a quantidade de estudantes que cursaram o 1º ciclo com o intuito de cursar medicina, a gestão do reitor Naomar foi incapaz de apresentá-la. Em vez disso, preferiu criar, como em outros momentos de crise, um discurso no qual culpa outros agentes pelo seu retumbante fracasso. 

Devido ao que me ficou claro desde aquele primeiro discurso de intimidação, jamais pensei que diria isso, mas agora digo: era obrigação moral do reitor ter ficado neste momento de crise; ter ficado e resolvido os inúmeros problemas criados pela sua má gestão. Se não teve grandeza para tal, deveria furtar-se de criar um “circo” de factoides, que certamente não está à altura do projeto que ajudou a idealizar. Apontei em tantos lugares, sobretudo diante do reitor, inúmeras práticas que não condiziam com a sua retórica de renovação e desburocratização, sendo próprias de gestões públicas corrompidas: concentração de poder, distribuição indiscriminada de cargos a pessoas sem competência, centralização de recursos, falta de planejamento etc.. Não era a única. O que presenciamos, nos últimos três anos, foi paralisia, inércia e descaso com nossas reivindicações acerca de questões cruciais da Universidade. Apesar de sermos submetidos a um modelo arcaico e perverso de inúmeras reuniões semanais, não se desenvolveu na UFSB nenhum modelo de escuta. Menos ainda de deliberações a partir dessas escutas. 


Basta ver o organograma institucional da UFSB. Na suposta universidade democrática, em que tudo deveria ser discutido coletivamente, há um único órgão deliberativo, que é o Conselho Universitário, até há poucos meses constituído unicamente por membros indicados.  Ao contrário de outras universidades, sob a desculpa de desburocratização, aqui há um esvaziamento de todas as instâncias, numa concentração de poderes espantosa e desonrosa para uma Universidade pública. Nos três campi, congregações e colegiados de cursos não são deliberativos. Todas as decisões precisam ser referendadas pelo Conselho Universitário, cujo poder é ilimitado, uma vez que não existe nenhum outro Conselho intermediário. Tirem daí suas conclusões. 


Também nessa concentração de poderes, a pró-reitoria de gestão acadêmica acumula inúmeras competências funcionais a ponto de se tornar inoperante. É ali que melhor se observa o quanto uma gestão controlada por uma única pessoa pode ser nefasta. A cada mínima discordância, pró-reitores foram sendo afastados no decorrer destes três anos até ser nomeado um sem experiência alguma em gestão pública, mais propício, portanto, a submeter-se a todas as vontades da reitoria. Desse modo, dali não pôde sair nenhuma decisão que resolvesse os inúmeros problemas administrativos da UFSB. Agora, o ex-reitor tenta pôr a culpa na vice-reitoria e na pró-reitoria de administração pelos problemas, quando todos/as que aqui estamos sabemos o quanto as suas formas de controle restringiam as ações. 


Deveria ter um reitor a magnitude exigida pelo seu cargo. Deveria resolver os problemas administrativos da universidade, e não se eximir de tal trabalho, afirmando ser responsável apenas pela concepção das ideias. Nenhuma concepção de educação se constitui sem ser posta à prova nas práticas educacionais. Perguntem a qualquer professor sobre tal relação e será fácil perceber que o contrário não passa de falácias. Ainda e sempre vale o que disse o velho Marx: “De resto, ideias nada podem realizar. Para a realização das ideias são necessários homens que ponham em jogo uma força prática”.  

Não há, portanto, o que temer quanto ao porvir da Universidade. O que há de qualidade na UFSB advém das práticas dos professores/as, técnicos/as e estudantes que trabalham à revelia dos inúmeros desmandos da administração. Nas avaliações do MEC já ocorridas para reconhecimento dos cursos, está dito textualmente: é admirável o intenso trabalho de professores diante da precariedade da universidade: não há bibliotecas, não há laboratórios, não há salas de aula suficientes, porém funcionam Complexos integrados, Colégios Universitários, cursos de pós-graduação e um número elevado de projetos de pesquisa e extensão em parcerias com as comunidades. 


Então, é possível que a renúncia do ex-reitor inaugure o tempo em que o projeto desta Universidade não corre perigo. Não me parecia haver porvir até sexta-feira, pois nenhuma universidade deveria estar à mercê de uma vontade soberana.  É agora que tudo deve começar. Recomeçar. Aqui ninguém quer retirar o que de direito e de distinto já conseguimos fazer existir. O projeto da UFSB é de todos/as nós. Não pertence a uma única pessoa. Um rosto que se diz único, origem e fim de todas as coisas, não pode ser mais do que uma desfiguração da própria ideia de sujeito. 


O momento atual exige de nós um pensamento forte. É a hora e a vez – para pensar em Guimarães Rosa – de pôr à prova as instâncias críticas de pensamento que foram fomentadas desde a Formação geral.  Não é preciso muito. Basta não nos deixarmos ser levados por discursos que não resistem a uma leitura atenta. Basta buscar as incoerências, as fissuras, as brechas, pois está tudo lá a demonstrar a sua fraqueza. É puxar o fio e veremos que não sobra nada. Onde não há o Outro, onde não se aceita o contraditório, a diferença, não cabem sujeitos. Então, sejamos sujeitos! A UFSB é nossa --- com todas as suas contradições e suas lutas por vir. 
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* Painel no campus Sosígenes Costa.