segunda-feira, 13 de outubro de 2014

para o filho



 Poeminha, ontem foi o dia das crianças (você já percebeu que existem estas datas instituídas e já sabe valer-se delas para, entre meus joelhos, apontar o que quer e repetir repetir repetir até a coisa se materializar). eu sou muito vacilona neste sentido. faço o discurso que é caro, mas compro. e foi assim sábado. entrei naquela loja cheia de prazeres e me deu uma dor grande bem no meio da minha garganta. teve uma hora que meus olhos marejaram muito e só não me permiti sentir o sal no canto do lábio porque seria um despropósito, ali, no meio daquela gente toda. é que lembrei daquela criança que talvez eu nunca tenha sido, mas que colei aqui como parte da minha identidade. fiquei meio tonta, acho. mas você não percebeu nada. e saiu de lá com o mundo cor de rosa nas mãos. tenho adorado isto. é marketing puro. mas é uma porquinha (mulher), rosa, que tem destruído anos e anos da distinção azul-menino, rosa-menina. queria que quando você crescesse já estivesse tudo misturado, filho. 


mas está difícil. o mundo está turvo demais, poeminha. bastou uma campanha eleitoral para presidente para disparar ódios que já pareciam soterrados, mas que, na verdade, sempre estiveram na superfície, à beira de. "um horror, um horror". você também logo vai saber que uso esta expressão extraída de um livro maravilhoso a cada vez que me faltam palavras para expressar alguma terrível surpresa que me domina e nos domina. sua mãe, eu, pressentia isso há tempos. acho que por ter sido desde sempre "diferente", filho, logo quis aprender a estar do lado do "diferente".  e comecei a ver como isso chocava até mesmo algumas pessoas que me pareciam tão bacanas. eu não sou fácil não, filho. às vezes, lanço uma mão pesada sobre pessoas bem amadas por mim. mas nunca, nunca por uma razão genérica. tem sempre a ver com o que me parece um "cuidado". tenho medo, e logo você vai saber, de uma desconexão parcial ou total com uma certa disciplinarização. porque eu acho que sou bem assim::: não me desprendo da disciplina, apesar de gostar dos devaneios, das luzes fugazes das longas noites. então, quando sinto que alguém amado afasta-se deste "cuidado de si" (algo bem mais bonito do que "disciplinarização"), eu me enfezo e me dano a querer cuidar, sem saber fazê-lo de jeito nenhum. mas o certo é que você nunca vai ouvir neste mundo que é nosso, na nossa casa, ódios genéricos. preto branco gay pobre nordestino nada disso existe aqui como raça como classe como origem. o que existem são pessoas. pessoas que amamos, pessoas que quero que você aprenda a amar, por mais que não tenham em si esta mania de ordenação que me persegue. é porque bom é isto. o outro que não é igual a nós a ensinar-nos outra via, outro vão. 

mas então.  o que eu estava dizendo era que ontem foi o dia das crianças. e o momento mais bonito foi você quem nos deu. sua tia-avó Juju, que você aprendeu a amar nos dias que esteve com elas - as tias-avós, a avó, o avó, a bisavó, o tio-avô -, está aqui. e adivinhe::: veio para me ajudar a organizar seu aniversário de cinco anos, que já passou, mas que não pode passar em branco como nos outros anos. olha que sorte, filho! tanta gente me aponta o dedo, machuca minha ferida, pela minha tola incapacidade de fazer uma festa de aniversário do jeito que você merece, e de repente aparece esta sua tia-avó, a mesma que fez seu enxoval, e simplesmente diz que vai me ajudar, que está vindo, mais de mil quilômetros, sem que eu peça, para fazer a festa junto comigo. filho, que sorte, que sorte a nossa. 

pois ontem ela fez o almoço do dia das crianças. e ante nossa pressa de almoçar, fez um agradecimento na mesa. e acatamos este agradecimento. e  você acatou. e foi aí que aconteceu o momento mais bonito. você agradeceu e começou a nomear várias pessoas, a bendizer várias pessoas que lhe são amadas: júnior zé consuelo sua avó e outros tantos. fiquei de novo com o olho marejado. mas desta vez foi por pura felicidade. sem se dar conta do que fez, por lhe parecer tão natural, à noite, depois de ficar por aqui, me vendo trabalhar, ainda pegou o violão enferrujado do Tatupai e ficou tocando e cantando. e volta e meia vinha e me perguntava como era tal palavra em francês. e eu não lembro de haver lhe dito que estava, justamente, fazendo uma tradução em francês. que dia, poeminha, que dia você me ofertou. obrigada, filho, obrigada. não estive à altura do que você me deu, mas prometo tentar me redimir no próximo sábado, quando seu aniversário vai acontecer, longe do azul, perto do vermelho. vermelho da Frida, por quem você está mais do que apaixonado. mas isso já é outra história que prometo contar depois. 
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só mais uma coisa. o que eu desejo, sobretudo, é lhe ensinar que existem estas tantas cores. esta cor forte chamada vermelho. que pode se misturar com o verde o azul o amarelo o rosa o azul. e quero ensinar o que, pressinto, você já sabe.
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terça-feira, 7 de outubro de 2014

sobre o sell 2014

hoje colocamos quadros na parede. ou melhor, Tatupai, sob a minha supervisão. também dei uma organizada nos livros (no que ainda é possível, pois a urgência de novas estantes já é visível há tempos). e ontem, depois de almoçarmos com o Yuji (esta belíssima pessoa!) e após votar (em Dilma, diga-se de passagem), avancei na noite lendo O que amar quer dizer, de Mathieu Lindon. tenho uma lista tão grande de "livros para ler sem ter razões para lê-los", isto é, livros que nada têm a ver com a docência e a pesquisa, que aproveito sempre estes momentos de "quietude" e "escape" para ler algum deles. 

"quietude" e "escape" foram palavras que utilizei para explicar a minha amiga Rô a razão por que sempre me retraio depois de um grande "projeto", como o do SELL - Seminário de Estudos Linguísticos e Literários! é por isso que ontem foi quietude e hoje, organização; minhas formas de escape. tenho em mim qualquer coisa que se poderia chamar de "compulsão por eventos". a cada ano, crio e recrio a coordenação de um. em seis anos de UNIR, foram seis eventos acadêmicos::: quatro edições do SILIC, uma edição do FALE e, neste ano, o SELL. a cada ano, dá vontade de parar. e a cada ano, vontade de continuar. posso atribuir o mesmo "mal" a minha amiga Rô. fomos sempre parceiras nesta compulsão. 

neste ano, tenho a impressão de ter sido mais difícil. talvez porque pisasse em território desconhecido. o SILIC é nosso, do Gepec - Grupo de Pesquisa em Poética Brasileira Contemporânea. todo e qualquer problema, toda e qualquer desdita, todo e qualquer contratempo são da ordem do entendimento, da soltura. é uma ação de amigos. já o SELL tinha o peso do cargo. foi como chefe de Departamento que me lancei nesta empreitada. e foi como chefe que respondi a todos os problemas que surgiram. e foram muitos problemas. fiquei com medo de que ele ficasse sem alma. mas só tive este receio por pouco tempo. 

quando estava começando a organizar, veio o luto e, mais a frente, o medo de perder um dos meus grandes amigos. foi assim que, muitas vezes, tive raiva de ter me metido nesta. queria viver meu luto em paz. e queria cuidar do meu amigo. ou seja, toda a minha alma já estava neste evento. o que me sobrava era imprimir a emoção; a mesma que é a marca registrada desses eventos todos. e não foi difícil. no aeroporto de Guarulhos, no meio do caminho para enterrar ser tão amado, escrevi o texto para mediar a ideia desta edição. desencavei o verso "o que quer/ o que pode esta língua?", de Caetano. estava inteira naquelas poucas palavras. quantas histórias minhas coloquei ali? e quantas histórias renderam este verso de Caetano? 

serei sempre grata a Wanderley Geraldi, a Veronica Stigger, a Pedro Serra, ao Alvaro Hatther, ao Yuji Gushiken, a Marcia, às meninas das monografias (foi lindo, lindo!) e mais um tanto de gente por terem desdobrado o verso de Caetano e terem feito um SELL tão cheio de emoção, de alegria. é isto mesmo. as palavras são estas. as emoções são estas. e é dessa rasura que eu gosto. enxertar no meio do academicismo uma onda que faça ressoar toda a entrega que é necessária para que um evento como este aconteça.
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foi bonito como tinha que ser. este trabalho em parceira que eu e Rosana inventamos é sempre da ordem da boniteza. foi diferente não este ano. "há marcas em mim no SELL. e há marcas do SELL em mim", foi o que disse na abertura. e esta é uma das muitas bem-aventuranças.
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sábado, 20 de setembro de 2014

dilma, dilma, dilma, n vezes dilma


vou dizer por que voto na Dilma. e acho que posso, sim, ser acusada de fechar os olhos para tantos problemas. e acho mesmo que eles estão aí aos borbotões. primeiro, se me perguntarem se Lula e Dilma sabiam sobre sobre as porcentagens tipo Petrobás, eu vou dizer que acho que sabiam. mas vou, com a mesma cara-de-pau, dizer que somente um idiota pode achar que já não acontecia isso desde sempre. e se me vierem com essa lenga lenga que o PT tinha a obrigação de ter acabado com isso, vou me sentir no direito de dizer que ou a pessoa é muito burra ou quer pagar demais de ingênua. não não não. o PT e nenhum partido político podem acabar com isso. não existe um poder. existem poderes. e qualquer pessoa minimamente inteligente sabe disso.

pois voto na Dilma, e no PT, porque fui criança e adolescente no Nordeste brasileiro, porque fiz graduação numa universidade do Norte do país e, hoje, trabalhando nesta mesma universidade, sou bem capaz de perceber todas as diferenças. e ninguém, no meu tempo, queria ser criança no Nordeste brasileiro (e lá vou eu fazer 40 anos), em que imperava de maneira afrontosa a indústria da seca. queria que todo mundo como eu tivesse comido meses e meses seguidos feijão preto e arroz escorrido, um tipo de comida que cachorro late ao redor do prato e não tem coragem de comer, doado pelos filhos-da-puta dos governos da época, em caminhões das misérias,e arrastado “roladeiras” imensas de água em areia fofa, por falta de água, com uma anemia do caralho por falta de comida, diagnosticada pelos médicos mais incompetentes que diziam que era morte na certa antes dos treze anos, e tivesse coragem de olhar no meu olho e dizer que não houve grandes mudanças neste cenário. ainda tem muita pobreza e injustiça no Nordeste, sem dúvida, mas a cada vez que vou lá e vejo as transformações, e lembro de como eu vivia e viviam minha família e meus amigos e hoje vivem, com muito mais "folga", como se diz por lá, vejo que o Brasil mudou. e mudou pra melhor.
    
e nas universidades? quero saber qual é o professor universitário que não sente e vive todas as mudanças. tem mesmo toda esta porra da exigência de produtividade que incomoda pra cacete, mas vou dizer que só incomoda a dois grupos: aos que já produziam sem todo este big brother da produção e aos que nunca fizeram nem vão fazer, por inércia e incompetência. os primeiros acham que não é preciso tanta regulamentação porque são incapazes de olhar além de seus umbigos e, por isso, pensam que todos são santos que produzem sem nenhum mecanismo de controle. no fundo, eles devem saber que é uma grande mentira e que estes últimos, na verdade, são boa parte do corpo acadêmico. também acho lindo Marilena Chauí com a sua coragem de bradar na USP contra o Lattes. mas quero que antes de assinarem embaixo ao que ela diz que deem uma olhada ao que lhe deu autoridade para poder dizer/ fazer isso. quem tiver olhos pra ver, verá só uma coisa: muito trabalho; isto é,  muita produção. vá ver se Marilena Chauí está do lado desta gente toda inerte e burra que tem por aí aos montes "mamando" nas tetas das Universidades!   

o que era a universidade antes do governo petista, neste momento de histeria, ninguém quer lembrar. é mais cômodo meter o dedo nas feridas que sei são muitas. mas querem mudar para onde? depois não me venham reclamar, pois não vou querer nem saber. ando tão desiludida que estou doida para me refestelar na minha biblioteca de três mil livros que consegui comprar no governo Lula-Dilma. e quando não tiver mais nenhum projeto pra “concorrer”, nenhuma greve para aumento de salário, nenhum edital para organizar evento, nenhum programa para participar, não me venham lembrar como era boa a dinheirama toda que o governo Dilma esparramava pelas universidades e que, na maioria das vezes, era tão mal aproveitada.

quero que alguém me aponte quando foi que se viveu melhor no Brasil, da classe mais baixa à classe mais alta. se tiver alguém, sem o cinismo rede global, que me prove isso, posso até mudar de ideia. e não. não serão os manifestantes classe-média-boba dos arredores da avenida paulista que me convencerão, porque eu já vivi por ali e amo de paixão, e por isso sei como é bem melhor e sei como é fácil achar que a partir dali dá pra mudar o Brasil todo (dá não, seus bobinhos). vem viver aqui na mata pra ver o que é comprar pelo triplo do preço qualquer merdinha que se compra na 25 de março pra ver o que é bom pra tosse, como diria o lindo Itamar Assumpção. 

é por essas e outras que vou continuar fazendo vistas grossas aos 3% de qualquer falcatrua. Antes 3% do que 100%. e podem dizer o que for. que sou alienada. que sou cega ao que está aí. que que que. quem passou fome fui eu. o corpo é meu. e quem sentiu a dor que é fui eu. que me deem então o direito de olhar de revés para esta classe média metidinha a besta que acha que tem consciência na hora de votar. que acha que Lula-Dilma só distribuíram vale-pobreza. pois digo que não. Lula-Dilma distribuíram oportunidades. e eu sou uma das muitas provas vivas. e se a classe baixa anda esquecendo isto é porque é de nós querermos sempre mais - este logro mumificado. e falo mal desta classezinha média mequetrefe porque, amém, estou meio inserida nela. e por conta do milagre dos milagres chamado Lula-Dilma, junto comigo, parte de minha família - aquela mesma que comia meses e meses feijão preto aguado e arroz escorrido sem tempero algum algum -. hoje, meu filho, com quatro anos, diz pra mim que só quer dormir no ar-condicionado,  crescendo na bonança desta classe infame.  e também meu afilhado lindo, calouro em mecatrônica (!) da Unicamp, em plena avenida paulista, tem coragem de dizer na minha cara que a educação no Brasil é uma das piores do mundo e que nada tem sido feito para mudar; ele, logo ele, que tem a mãe que como eu arrastou muita roladeira de água e passou muita humilhação para só raspar perto do seu sonho de ser médica, enfermeira que é.  cabe a nós, então, que carregamos as tais roladeiras, e que vamos continuar votando em Lula-Dilma-PT, ouvir tanta merda.  
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então, digo e repito: Dilma Dilma Dilma. e se ela perder, vou ler meus três mil livros, olhando só de rabo de olho a desgraça que será - esperem. 
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quinta-feira, 11 de setembro de 2014

começos



poderia começar de modo tão seco quanto Silverstein: os dias não têm sido felizes, e por isso escrevo. 
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posso também começar de outro jeito. apesar de os dias estarem muito quentes, continuo a andar de bicicleta. e andando de bicicleta, lembro continuamente de Marie, minha amiga ruiva. ainda mais do que antes e, volta e meia, um sorriso largo se expande em meu rosto. em Paris, andando para lá e para cá com ela, cada uma numa bicicleta (sim, ela não me deixou andar sozinha nenhuma vez!), descobri um tanto de coisa: não sabia andar de bicicleta apenas com uma das mãos, tinha medo de olhar para trás, não sabia sinalizar com as mãos e tenho muito receio do trânsito. excetuando o último, tenho aprendido os três outros movimentos ao relembrar de Paris e de minha amiga Marie, que é senhora das ruas em Paris. esse atrito com o outro, e um outro que se ama, é tão cheio de aprendizados. é como uma música que ressoa no nosso ouvido e não quer despregar. Marie é esta música em mim. e a bicicleta virou o lugar onde me encontro com ela em pensamento. e procuro aprender a me equilibrar. 
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e ainda de outro. gastei uma enormidade de dinheiro com livros na Gibert Joseph em Paris. Marie olhava admirada aquela pilha. como eu olhei, admirando, aquela bolsa Diesel tão a minha cara e constatei que jamais poderia comprá-la para logo em seguida gastar o mesmo valor em livros. acho que Marie olhava tentando entender minha relação com Derrida. porque os livros eram quase todos de Derrida. eu tinha muitos planos com estes livros - ainda tenho. e há um mês, talvez em busca de dias felizes, pus um deles em prática. e me danei a ler estes volumes de livros. e de novo relembrei o choque feliz que é o encontro com o não-saber. me veio uma espécie de pavor terno. o que pode ser um pavor terno. pode ser essa admiração contemplativa com a própria ignorância. e com os limites do tempo. não sei se o terei. o tempo. mas no meio deste pavor terno me veio a certeza de que preciso tentar. o tempo. para mim. para o outro. para este encontro carnal com o outro. para este encontro à flor da pele que pode ser a leitura, pode ser a escrita, pode ser uma noite de amor, pode ser um aprender a pintar junto com o filho. e pode ser também para a infinidade de tarefas do cotidiano. pode. 
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e outro modo. escrever sobre o que não se sabe exige muita sinceridade. sinceridade com o não-saber. mas também com o saber a vir. exige uma comunhão que raramente é fácil. mas que pode ser bem bonita. eu acho bonita. assim como acho bonito aprender a sinalizar com as mãos nas ruas desta cidade em que não se necessita disso. se o aceno é um sinal de querer aprender o que antes não se sabia é bem bonito. tive que por ora abandonar este texto de quinze páginas que escrevi nas noites insones enquanto meu braço ficava pendurado de dor, porque o não-saber me consumiu demais. fiquei tão pequena que foi preciso parar. mas apenas por enquanto. mais livros chegaram pelo correio. tenho muitos planos com eles. e com o tempo. e com os sinais. estão todos aí - e é só preciso aprender a mover o corpo, precipitar-me um pouco para trás e confiar que não olhar para a frente por um instante não tem nada demais.  
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e ainda, talvez por fim. a iminência da perda é sempre um transtorno infinito. não existe nenhuma dor que possa transplantar esta dor. a perda dói mais que a iminência, é certo. porém depois da perda é sempre a chance do recomeço. e talvez seja por isso que a iminência seja tão mais transtornadora. mas de novo, ou quando escrevo ou quando ando de bicicleta, penso em oração. nenhuma oração reconhecível; apenas a doce música do atrito com o outro. então eu lembro daqueles dias tão antigos. das risadas. do único ser com enorme prazer de passear de carro sem destino algum - e apenas a música, sempre a música. e me vem a certeza de que ele vai lutar com toda sua alma de gigante para continuar aqui na terra. e a perda, que poderia ser dupla, abre um clarão. e se retrai. 
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porque tudo são inscrições corporais. deixar-me envolver pelo que sei e ainda não sei e talvez nunca vá saber é o modo mais honesto que encontrei. porque a clausura do que não se tentou é sempre a pior demência. a que me recuso a ter.
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 poderia, ainda, terminar assim: os dias têm sido felizes, e por isso escrevo. 
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domingo, 7 de setembro de 2014

a parte que falta


Poeminha já nasceu com sua minibiblioteca. este sentimento de "posse" já produziu muitos gestos bonitos. um dia, quando era ainda bem pequeno, num gesto espontâneo de mostrar o quarto dele ao nosso amigo Iremar, disparou: "aqui é meu quarto; e estes são meus brinquedos,  e aqui são meus livros. olhe: meus livros". em outro momento, já soltou, com ar de reprovação: "mamãe, por que o meu livro está aqui na sua biblioteca? tem que ficar no meu quarto!". e saiu batendo o pé com o livro embaixo do braço.  e volta e meia diz: "mamãe, meu sono precisa de uma história". já é um leitor, sem ainda saber ler. 

e ontem à noite, como sua leitora, tive mais uma vez o intenso prazer de poder observá-lo enquanto se apaixonava por um livro. trata-se de A parte que falta, de Shel Silverstein. no curso de formação que ministro para orientadores de professores da alfabetização, sempre insisto no fato de que nunca, de fato, sabemos o que vai disparar na criança o amor por um livro. porém, a busca por livros de qualidade deve ser do adulto. vejo muitas mães comprando livros de péssima qualidade somente porque são de capas duras e coloridos. e seria uma conversa muito longa se fosse falar aqui de parte dos livros de ficção distribuídos nas escolas. por isso, insisto que a pesquisa - de uma mãe, de um professor - deve ser também movida pela curiosidade e pelo amor aos livros. o que não impedem os equívocos, claro. já errei bastante. houve livros que eu achei que iriam "abafar" e o interesse não passou da primeira leitura.

e quando sei que acertei em cheio na escolha? primeiro, o olho brilha. não há imagem mais chavão, eu sei. mas quem já não viu um brilho no olho? que se segue a um movimento de corpo, a uma atenção redobrada, a um sorriso de espanto? e no nosso caso, a um aconchego ainda maior - pois quando Poeminha quer chegar mais perto ainda do livro, chega mais perto de mim. ontem, foi um pouco diferente. ele agarrou o livro. folheou antes mesmo que eu terminasse de ler. olhou olhou. e me mandou continuar a ler. e enquanto eu lia, disparava uma porção de perguntas. uma mais difícil que a outra.

"Por que ele está procurando?
"Por que ele deixou a parte sozinha?
"Por que ele segurou tão forte?
"Porque continuou procurando se já tinha achado? 
"Por que não deu certo?"
"Por que? Por que?"

foi preciso ouvir o Poeminha disparar estas perguntas uma atrás da outra para entender o "indireto" barthesiano. e toda aquela conversa de que a grande literatura é a que suscita mais perguntas do que respostas. 
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A parte que falta é mesmo um livro espantoso. com seu traçado simples, suas frases curtas, num domínio absoluto da folha em branco, Silverstein trata de questões tão complexas quanto a solidão, a busca por um outro, o abandono, as escolhas e suas consequências. o início é já uma bordoada: "Faltava-lhe uma parte. E ele não era feliz". esse modo seco de dizer, sem nenhuma modulação para o "faz-de-conta", não diminui em nada a delicadeza e a força do que é dito e mostrado. também fiquei maravilhada. assim, grávida de perguntas também. soube não o que dizer ao Poeminha. lembro que disse que a vida às vezes é assim. e que mesmo assim é bem bonita. ou por isso, é bem bonita. e agarrei-o bem forte para que ele se convencesse.  E, por fim, ele disse: "mamãe, gostei demais"". 

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da próxima vez que algum adulto me disser que não lê certos livros para uma criança, ou não diz certas coisas espinhosas, ou eu vou xingar, como algumas vezes dá vontade, ou vou mandá-lo ler este livro para uma criança.   

       

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

mar mar azul azul (paloma vidal)

quanto tempo dura um luto?


o domingo cinza no mar azul de Paloma Vidal (resisti não à facilidade das cores!)... Mar azul é um livro bem bonito. é triste de doer lá no osso. e bem escrito. é intimista na sua narração em primeira pessoa. e tem aquelas parecenças com a literatura contemporânea que eu, leitora "por obrigação" desta literatura, por vezes reclama. e ainda assim, termino pensando que é um daqueles livros que alimenta o oco da existência. todo a serviço da sutileza. 

a epígrafe de Agnés Varda - je me souviens pendant que je vis - é como um corpo que envolve toda a narrativa. lado a lado entre o esquecimento (do pai) e a própria incapacidade de esquecer, a protagonista deste romance escreve. escreve, nas costas dos cadernos deixados pelo pai, o romance que leio no domingo cinza. o "agora" ganha diversas camadas, mesmo que não seja nenhuma novidade tal procedimento. é bonito porque é nesse enfrentamento do presente que a protagonista - septuagenária - transita entre o corpo físico e este impalpável que denominamos passado. 

um passado que está materializado, para o leitor, apenas nas primeiras páginas do romance (e na última) por meio das cenas de duas amigas; a que agora escreve e a que desaparece. todo o resto é memória e tentativa de esquecimento, trespassado pela presença física. é o que há de melhor no livro::: uma circularidade que retoma a cada final dos curtíssimos capítulos o incômodo de um corpo que se deteriora pela velhice. é como se fosse este corpo que, por mais que seja cuidado com esmero por idas detalhadamente descritas a médicos especialistas, se recusa também a ser esquecido. é ele, pois, o que salva. a memória é a doença. e o ter que cuidar do corpo é aquele pouquinho de "descanso" necessário para a sanidade mental. não à toa, numa narrativa toda marcada pelo signo da água, seja na natação que a protagonista sem nome consegue estabelecer algum vínculo com o presente. 

é porque ser o avesso não é mesmo fácil. e o que vemos/ lemos é a mesma história do pai que se foi. é a circularidade terrível da vida. como o pai que a abandonou, e que morreu desmemoriado longe de todos, longe de sua terra, despatriado, esta narradora também caminha para a morte, também escreve em velhos cadernos de outro lugar, num outro lugar. o deslocamento, aqui, a viagem, não gera nenhuma mudança. pelo contrário. longe do seu lugar, longe dos "seus" - que não existem mais -, a luta diária tende a se resumir ao esforço de manter uma certa rotina, por mais que ela também seja repudiada. 

a viagem, assim (a bela viagem onde se encontrou o amor), não leva a lugar algum, não produz nenhuma mudança. é a imobilidade, o estar-só, o que resta de toda uma vida. tem não como não me entristecer com este belo romance. 
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Merci, jesuscristinho, por ter me dado insônia, bom gosto, bom humor, as lágrimas e Nina Simone para embalar tudo isto.       

Para Mariana, que sabe de silêncios.



segunda-feira, 11 de agosto de 2014

"estou tentando me colocar no lugar certo"

roubei esta frase do Daniel Galera, na explicação sem explicação ao se despedir da sua coluna semanal no jornal O globo, que era meu café da manhã toda segunda-feira (a coluna saía aos domingos, mas eu lia na segunda). vou sentir saudade. mas penso que entendi o que ele quis dizer com "estou tentando me colocar no lugar certo". o recolhimento, o afastamento dos barulhos do mundo (imagino como estava grande o barulho por lá, depois de Barba ensopada de sangue!) é um gesto essencial quando se tem algo que parece mais importante em mira.

no entanto, o "lugar certo" é uma miragem. alguns fazem esta busca de modo mais consciente; outros patinam e ainda outros desistem muito rápido. não sei em que categoria estou. mas sei que nunca me desgarro da autorreflexão. às vezes me canso. queria pensar menos. ou ter disposição para fazer ioga. e quem sabe assim colocar os pensamentos nas caixas certas etc. etc.. mas as caixas são sempre outras. como num poema de Marcos Siscar: "penso em organizar as caixas do meu passado. ordenar seus episódios aquilo que havia. o que no passado se preparava e o que nele se perdia. abro uma caixa com malícias cartesianas pronto para dar ordem aos caos. subpastas etiquetas. distinguir natureza e qualidade história e mistificação. mas a mesma caixa é sempre outra surpresa. ...". 

e é assim.

primeiro, desastradamente, organizo, seleciono. e vejo que pode dar certo. o que antes em tanto atraso se acomoda, afasta-se do atraso. seleciono. e perco algo no meio do caminho. e ganho outro algo. e junto, abro os hiatos. antes cada vez mais raros. o que há lá. o que procuro ainda não sei. sei que é bom. é bonito voltar a ser leitora "por nada". a ter uma rede no quarto pra deitar. a dormir no meio da manhã. e no meio da tarde. e conseguir uma relação menos paranoica com a casa. e ver um filme no final da noite. ou no início da manhã. e brincar com Poeminha. cortar bolinhas para o trabalho e para o filho. e se empolgar naquele trabalho que deveria ser só para ganhar uma grana a mais. e ficar feliz com isso. e desejar. porque o que eu quero mesmo é tão simples. eu só quero saber algumas coisas. e estar próxima de outras. e de algumas pessoas. isto é, eu só quero não perder o desejo de desejar. a mesma caixa sempre outra surpresa
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* imagem: sempre apaixonada por essas esculturas da louise bourgeois. a foto foi do celular, mas gostei tanto deste ângulo! (de novo, a  cada dia ansiando pelo dia em que poderei comprar outra máquina para continuar minhas fotografias! porvir: fotografia). 

quinta-feira, 31 de julho de 2014

o chão da literatura

quando estava voltando de Paris, cansada dos dias intensos [e do peso da mala, que eu e Marie havíamos arrastado penosamente nos longos corredores e escadas do metrô], não consegui dormir. ainda assim, não consegui dormir. algo em mim estava muito alerta. e num avião sem grandes confortos, num espaço exíguo entre cadeiras, tirei as botas, acomodei o travesseiro e me pus a ler o livro de Benoît Peeters, Trois ans avec Derrida

o livro é um diário dos três anos em que o autor escreveu a biografia de Derrida. é, pois, um livro muito simples. mas o fato é que me emocionou profundamente. talvez tenha sido a alegria dos dias que haviam terminado, talvez tenha sido a entrega radical que o autor imprimiu na sua pesquisa e está registrada no livro, talvez tenha sido a memória da minha "relação" com Derrida, afinal eu havia escrito uma tese sobre ele... talvez! certas frases não têm como serem organizadas. resta um talvez. uma restância, diria Derrida. o certo é que em vários trechos chorei e só parei quando terminei. não lembro mais se dormi. mas desci do avião como se tivesse atravessado algo dentro de mim. 

sei que pensei também sobre a minha vida, fazendo aqueles paralelos toscos que a leitura permite. e agora, só agora, vejo que havia alguns enganos de base. e agora esses enganos bagunçam minha vida com uma virulência inimaginável. não sei o que mais dói. se ter sido pega de surpresa, diante de todas as evidências. ou se as evidências. mas não é sobre isso que quero falar. não aqui nesta grande angular para o mundo. 

quero falar deste lugar instável da literatura na minha vida. instável, porque, como eu disse hoje a minha amiga Rosana, já fui uma grande leitora, e hoje só consigo manter um ritmo de leitura a duras penas, lutando quase sempre contra o sono, o enfado, o turbilhão de tarefas. pois, agora, desgarrada de um bocado de ilusões e certezas, não tenho dúvida de que a literatura é, para mim, um porto. e será para sempre. esse hiato que abro a duras penas nesta vidazinha medíocre de administrar afazeres quase sempre desagradáveis não é exatamente o que me salva, porque penso que a literatura não salva ninguém. mas se tem algo que me disciplina diante dos alaridos do mundo e dos meus próprios alaridos é a literatura. e mais especificamente, o romance.    

se começo a odiar as pessoas, se começo a odiar a mim mesma, se uma dor intensa se entranha e não quer sair de jeito nenhum, tirando meu chão, e com isso entro numa verborragia sem fim, é na literatura que encontro, por fim, o chão. um chão movediço, solitário, quase desesperado, mas um chão. que estanca a verborragia e me dá condições de continuar. e continuar com a mesma inquietação. com a mesma vontade de seguir estancando os ódios, as dores, os temores, as mágoas, dispondo-os de tal modo que não impeçam os meus passos - que são os passos de alguém que consegue ter uma estranha sensação de alegria e paz nesta "vidazinha medíocre de administrar afazeres quase sempre desagradáveis". e que talvez por causa disso, consegue vez ou outra rasurar essa vidazinha e ir ali, bem ali, ou acolá, ou aqui mesmo, para viver algo bem bonito, como esta viagem a Paris, esta leitura do livro de Peeters, ou a leitura do livro de Laura Erber, Esquilos de Pavlov, que agora leio nos intervalos.    
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sexta-feira, 25 de julho de 2014

"Papai, agora eu já estou muito grande"

quando na vida os dias acumulam perdemos bastante das inúmeras possibilidades que teimamos em construir em nós. às vezes, ficam apenas os escapes, quase fugas próximas à loucura domada do dia-a-dia. na idade de quatro-cinco anos, que Poeminha agora atravessa, tudo é possível, tudo já existe::: "papai, agora eu já estou muito grande e eu sou um nadador, um pianista, um baterista, um estudante, um pulador". e penso que esse mundo largo existe não apenas porque essas atividades-seres fazem parte do dia-a-dia de Poeminha. quando tudo nos falta na infância, o pensamento é também largo e solto e os mundos imaginários são tantos que não cabem apenas no dia e, à noite, teimamos com o sono para nos imaginar numa vida outra, num lugar outro, num tempo outro. 

descubro muito sobre a minha própria infância observando a infância do Poeminha. e descubro ainda mais sobre a minha mãe tentando ser uma outra mãe. pressinto agora que talvez não pudesse ter sido de outro jeito, embora o que agora se repete - ou que eu tente repetir - seja o avesso. mas o avesso tem muitos matizes. e por um milionésimo de segundo, fico quase igual. e o desamparo só não é maior porque Poeminha, sim, é totalmente outro e tem mais amparo emocional para reivindicar o que lhe parece justo::: "se você continuar dizendo isso, eu vou querer outra mãe". acho muito justo querer outra mãe diante de uma mãe numa derrapada bem idiota. então, na dose diária de perdão que aplicamos a nós mesmos para podermos prosseguir, senti uma certa tranquilidade que adveio da coragem de Poeminha. a mesma coragem que fez ele, logo nos primeiros dias de aula, dizer: "Professora, se você gritar comigo, eu nunca mais volto nessa escola".    

e não. Poeminha não é um menino fichado por estas marcas tão facilmente impressas pelos adultos. não é "mimado", nem "mal educado", nem "birrento". a cada vez que ele mesmo grita, ou bate, ou esperneia (sim, crianças fazem isso!), é sempre chamado à "razão". e os interditos são claros e, às vezes, irrevogáveis. e ele tem que conviver com isso. tem sempre um: "filho, respire, respire" que, antes, funcionava bem. agora, ele afasta de si sua personalidade tranquila e rebate: "não, eu não quero respirar". e de novo e de novo é preciso recomeçar o longo caminho das condutas sociais. facilita, com certeza, seu jeito calmo e carinhoso. Poeminha abre o sorriso tão fácil que desarma qualquer um em segundos. e sabe beijar, abraçar e dizer que ama. e no entanto, está mais para a timidez do pai do que para a extroversão da mãe. a diferença, e é desse avesso que me orgulho - é que ele é um menino que sabe argumentar e que pode dizer "não", pode se contrapor, pode dizer que não quer gritos nem reprimendas violentas simplesmente porque isso não faz parte do seu dia-a-dia. 

facilmente, como mãe, eu poderia me "aproveitar' da personalidade do Poeminha e impor mais ordem, mais modos de conduta condizentes com o que as pessoas chamam de boa educação, mas eu simplesmente acho tudo isso muito chato. crianças bem educadas me parecem sempre crianças infelizes. não quero exibir a boa educação do Poeminha como um troféu. e com isso correr o risco de flagrá-lo com vontade de dizer ou fazer algo e, antes, ter que olhar para mim com temor e só aí decidir se pode dizer ou fazer algo. prefiro que seja como é agora - quando todos dizem que ele é ainda mais "comportado" longe de mim do que quando está perto.   
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quinta-feira, 17 de julho de 2014

quando o tempo


eu não duvido nada que, de repente, o que era certo não seja, de fato, tão certo assim. é quando a possibilidade da morte, ou da dor, ou da separação, aparece nítida. nessas horas, a certeza da dúvida. nada está realmente programado. como querer muito voltar a Paris - e ser assaltada mal se coloca os pés lá. ou querer muito fazer algo - e adiar indefinidamente (como meu pós-doutorado). ou achar que está tudo bem e, de repente, não haver mais palavras. não existe mesmo um script. os dias são vorazes. lançar mão de uma série de cascas. e tudo parece mais simples quando o que resta é nos proteger. 
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não. não quero.  
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comecei a ler Longe da árvore já não lembro exatamente por que. sei que é arrebatador. é um livro tão lindo que me dá náuseas só de pensar nas suas mil e poucas páginas.  mas leio obstinadamente, nem que seja algumas páginas por dia. e tudo parece fluir ainda mais com o serzinho que cresce ao meu lado, o Poeminha. dia desses disse na sala de aula que comprar um livro de R$200,00 é uma insensatez para uma pessoa que não tem tempo nem de cagar. não sei o que espantou mais. se os R$200,00 em um livro ou o "cagar". não falava de Longe da árvore, mas de um outro, que folheei rapidamente, e que me pegou, de surpresa, com uma lágrima escorrendo. é que lembrei que o passado existe. 
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e esta moça chamada Ana Cañas? como ela sai de uns cds engraçadinhos para uma "Volta" que faz tudo doer? a tarde quente me pegou outra vez. e com os mosquitos incomodando minhas pernas mais do que de costume, fiquei imaginando que tem este processo de maturação, de esperar ter o que dizer no momento exato. só não rolou outra lágrima porque, dessa vez, estava prevenida. 
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eu sinto falta de um tanto de coisas. e de um tanto de pessoas. dois mil e catorze estende seus enormes tentáculos sobre mim, como se eu fosse, de fato, a soma de todos os anos passados. como se eu me visse com meus grandes desvãos. algum pensamento lateja::: não tenho problema algum de esmurrar as paredes. só as paredes – que não sentem. sou quase sempre. e só fiz isso nas dores extremas. mas o que me faz falta - de verdade -  não posso dizer aqui. como vislumbre. lembrei de tudo isso naquele princípio de noite – quando tive que deixar ali aquele ser que cuidou de mim. e quando tive que ver aquela que deveria ter cuidado de mim virar as costas mais uma vez para aquele que só queria uma palavra de amor.  é assim. tudo verdade e tudo invenção, como já foi dito tantas vezes. e ainda assim tudo é bonito. mesmo quando a garganta insiste em ter um osso atravessado nela.
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terça-feira, 17 de junho de 2014

"incorporar essa saudade num projeto de futuro"


nestes dias, tudo a flor da pele. tanta coisa parece sem sentido quando aqueles que amamos partem. a vida perde. e isso não me sai da cabeça. e quando os que estão vivos cortam nossa carne ao meio é ainda mais difícil. eu voltei do Ceará com a alma curvada. tudo doía. o que ouvi e vi e vivi. não posso dizer aqui. mas tudo tem um grande sentido. por que as pessoas não sabem? não saberei eu? as pessoas não sabem quando nos cortam ao meio? talvez tudo tenha início no não-saber. 

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meu filho me salva neste grande deserto. sinto uma solidão tão grande que sei vir de mim. estão todos aqui, mas não os sinto. queria o quê? não sei. sempre estive só. é o que me vem nestas horas. não por não ter pessoas que me amam. penso que tenho muitos. mas por saber que que o próprio amor às vezes fica árido. e o que eu quero é cuidado. cuidem de mim. que não me deixem só, desprotegida nesta hora tão cheia de dor. mas não é exatamente por aí que me professo. a carapaça serve basicamente para afrontar o outro, ouvi ontem. e para lembrar que não posso me curvar. que vou fazer quarenta anos e que até mesmo escrever aqui, à mercê do olhar de outros que nunca poderão me alcançar, é uma tolice. é o voltar a ser criança. é voltar à desproteção da criança. aquele que cuidava de mim se foi. e é tão esquisito que tão poucos se disponham a cuidar. e que justo um deles tenha partido agora. e que eu não saiba o que fazer com ela que ficou. uma vez, há muito tempo, falei para uma pessoa que ela não poderia ficar comigo, pois eu era um ser egoísta, que amava viver sozinha no meu espaço. e esse ser era tão bonito que não se importou com o que eu disse. eu também era bonita nesta época. sentia que o mundo todo estava ali, para que eu fizesse dele o que bem quisesse. mas hoje sinto que talvez a partilha não tivesse sido tão improvável como imaginei na época. meu filho sentirá esta falta de mim?

ele me abraça forte e diz frases improváveis. falou assim: "mamãe, foi um dia inteiro de amor e de beijinhos". quase desmaiei. sei que vêm dos meus gestos e mesmo assim tenho um medo terrível. me amará no porvir? ou se sentirá obrigado a me amar para proteger o mínimo de equilíbrio possível? isso que sou o distanciará um dia de mim? não posso fazer essas perguntas. sei que não devo. seria tão mais fácil se... então, eu me agarro a única coisa que não posso confiar. confiar em si mesma é sempre outra grande tolice. numa noite, dançamos horas sem parar. inventei de ouvir e dançar uma música de cada cd que mais gostava. e ele, inteiro, ali comigo, agarrou na minha loucura e dançou. dois dias depois, foi ele que repetiu o mesmo gesto. pegou uma grande pilha de cds, espalhou no sofá, tirou todos os encartes e foi colocando um a um para ouvirmos. eu fui escolhendo as músicas. quando viu o cd do Binho, seus olhos brilharam tanto, como se dissessem:  "este eu conheço". e ouvimos. e dançamos. e eu disse o quanto amava o Binho. e sei que ele entendeu. entendeu tudo. e fomos dormir, irmanados por um sentimento que somente a música pode dar. e eu, não importa o porvir, senti-me inteira feliz por poder vivenciar um momento assim com meu filho de quatro anos.

há alguma proteção no grande deserto da dor. 
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todo dia acordar e pensar, em alguma hora do dia, que um ser amado não será nunca mais visto. não estará lá, quando, esporadicamente, eu lá estiver. vou fazer quarenta anos. e não sei como sentir tudo isso. está tudo aqui. os dias seguem uma normalidade, até que me vem algum pensamento. 

"O pesar como uma pedra...
(no meu pescoço
no fundo de mim)" 
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domingo, 8 de junho de 2014

o padrinho



a idade adulta me deu serenidade para olhar de modo complacente o que, para mim, foi uma muito longa e dolorida infância. de todo aquele deserto retiro poucas pessoas. e duas delas, são meus padrinhos. no difícil gesto de distribuir afeto, alegria, cuidado, respeito, atenção, meu padrinho, que carregava o mesmo nome de meu pai, era um mestre. tudo o que sei da possibilidade de imaginar outros mundos, outras vidas, aprendi nas noites lá no Lobo, uma espécie de oásis do deserto, para onde eu ia constantemente, enquanto lá moraram, ou na sala da casa deles, tão próxima a minha, onde ele terminou sua jornada aqui, cercado de cuidados do seu filho, da minha madrinha e de um anjo chamado Toni. por ele e por ela, pela primeira vez, depois de mais de vinte anos, empreendi a longa viagem de rondônia ao ceará para enterrar alguém. para viver esse momento terrível que, bem sei, se a minha morte não chegar primeiro, terei que empreender outras vezes. aqui, vivem tantos dos que amo. meu padrinho era um grande contador de histórias. sua imagem é indissociável das suas histórias. da sua risada. da sua generosidade. era um grande narrador, apaixonado pela narração da própria vida, no que ele viveu e no que ele imaginou, e todos nós, que choramos sua partida, éramos cativos das belezas que ele nos mostrava. éramos cativos da sua voz. e da sua risada, com a qual sempre encerrava suas histórias, e de seu canto, pois ele também cantava. nesses momentos, tudo era beleza. quantas vezes eu mesma balançava a rede, onde ele geralmente contava suas histórias, ouvindo-a encantada, construindo ali meu amor pelas histórias que depois fariam de mim uma leitora.  padrinho tinha o que deveria ser a busca diária de todos nós: paixão pela vida. um arrebatamento e uma entrega raras. nem sempre foi fácil para minha madrinha ter que conviver com tanto transbordamento. mas para todos nós outros, nunca houve o que dizer de senão. nunca houve um só momento de desdita. sempre, sempre, só gentileza. como é que ele conseguia aquele brilho no olho, aquela serenidade, aquela alegria? e sabia compartilhar. quando amava, e amou muitos, sabia como amar. e como disse, sabia cuidar. e cuidou de mim um pouco como um pai cuida de uma filha. quantas vezes eu não devo ter me perguntado naquela época por que não ficava de vez? é que o amor é o impensado. mas, no fundo, eu sabia que meu verdadeiro lar era ali, no coração deles dois, pois por uma sorte grande pude desde sempre saber que o que eles sentiam por aquela menina doente, raquítica e solitária que eu fui era amor. e a isso serei eternamente agradecida. nunca poderei expressar com justeza o significado da lembrança que guardo em mim dele me levando altas horas da noite a cada vez que eu precisava ir ao hospital. nunca poderei dizer o quanto lhe sou grata por esse gesto. pois não tenho dúvida de que foi ali que apreendi um tanto dos sentidos do amor, ainda que muitas vezes me falhe o mesmo gesto. não tenho dúvida de que, apesar desta tristeza, há paz e alegria neste momento, pois elas nunca faltaram em sua presença. acho que meu padrinho, até hoje, foi a única pessoa inteiramente feliz que eu conheci. e ter a sorte de conhecer uma pessoa assim, e fazer parte da vida dela, não é pouca coisa.

* esta foi a última foto que tirei dele, em 2013, quando ele me disse da promessa que havia feito e que deveríamos cumprir juntos. agora, ele me deixou com a missão de cumpri-la sozinha. tem nada não. é quase nada, perto de tudo. sem conseguir ler a versão deste texto, que eu havia imaginado ler em seu velório, por diversas vezes eu disse baixinho: "obrigada, obrigada". e ainda agora, é o que continuo dizendo. 
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sábado, 31 de maio de 2014

clichê - ou amor.





em paris, o risco do clichê escorre, pois todos querem uma pose no local exato, um momento único. mas qual será a pose exata diante da torre eiffel. qual a cara que convence diante de uma escultura de giacometti ou, melhor, diante da monalisa? pensava nessas coisas enquanto andava sobre a ponte em que milhares de casais deixaram ali - e continuam deixando - seus cadeados. fiquei observando um casal prender um cadeado num outro cadeado - já que impossível alcançar as grades da ponte, tamanho o acúmulo. em seguida, eles se benzeram, encerrando tudo com um longo beijo. depois, vi um casal discutindo, e a mulher chorava muito, enquanto o homem dizia: "você me culpa sempre, é sempre minha culpa. e não é. não é". acúmulo de clichês, pensei com um sorriso sarcástico, e depois um sorriso triste, no canto da boca. mas o certo é que fiquei por ali observando aqueles cadeados, tentando entender o que significavam - e me vi perguntando se não faria o mesmo. não tenho grandes medos dos clichês. daí me questionar o que esse diz sobre nosso desejo de amor - um amor grande o suficiente que faça cessar o medo dos clichês para poder repeti-los livremente - e à exaustão. 

tenho não um ponto de vista. mas sei que algo em mim não deseja mais viajar sozinha, embora a sensação de alegria continue intacta - e o pensamento de que estar sozinha numa viagem é o estado perfeito. junto com isso, o tempo todo sou atravessada pela lembrança de meus dois "homens", como se meus olhos que veem desejassem estar acompanhados. um clichê. mas um clichê que lateja. sei que atrapalhariam este estado de alegria que somente a contemplação pode nos dar, mas me dariam tantos outros momentos. poderia mesmo ser um deste - um cadeado na mão, com nossos nomes e a busca por um lugar. um lugar qualquer para fazer com que nossa história permaneça em algum lugar - por mais besta que seja. 
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quinta-feira, 22 de maio de 2014

Bill Viola e Karim Aïnouz

se eu tivesse que escolher entre as experiências culturais mais marcantes dos últimos vinte e cinco dias - e foram muitas -, eu destacaria três. sobre uma, pretendo falar depois, quando "resgatar" minhas fotos que, após o assalto, estão a quilômetros daqui, mais exatamente com Mariamada, que, peloscéus, as havia transferido um dia antes para seu computador.

desde que eu vi o filme "Praia do futuro", do Karim Aïnouz, sábado passado, constantemente, algumas das cenas retornam na minha parca memória. digo o mesmo sobre algumas das imagens da exposição do videoartista Bill Viola, no Grand Palais, em Paris. Ao contrário de Karim, eu não conhecia nada de Bill Viola. fui levada pelas mãos da minha ruiva Marie. ficamos umas seis horas nos espaços monumentais do Grand Palais, sem sentirmos o tempo passar. na penumbra que os vídeos exigem. as sensações foram tantas, que - mais uma vez - me será impossível dizê-las corretamente.

porém, após ver o filme de Karim, compreendi melhor o que tanto me impressionou no trabalho desse artista até então desconhecido para mim (mundialmente famoso, explico para minha pobre ignorância). e é simples [e Marie já havia me falado]::: de algum modo, o que vemos tem que nos dizer algo. não falo de beleza propriamente dita, embora eu possa dizer que são belas as imagens dos dois trabalhos. nunca estou falando apenas de beleza. nem apenas de emoção. ou de alguma associação com o que penso ou vivo ou desejo. é um pouco disso tudo, mas é primordialmente outra coisa que tem a ver com o arrancar-me da indiferença e instalar a fórceps uma espécie de incômodo que me obriga a pensar a partir do que vi.

foi assim nessas experiências. Bill Viola, primeiro, exige de nós outra relação com o tempo e aceitamos essa exigência quase sem nenhuma resistência. em boa parte dos vídeos quase nada acontece, mas é por este quase nada que permanecemos à espera. em estado de espera. dez, quinze ou trinta e cinco minutos para cada vídeo de cenas aparentemente imóveis. uma conversa entre mãe e filho de uns quatro anos, diante de quatro tvs que reproduziam lentamente o cotidiano de uma mulher, explica bem esse movimento. a criança pergunta por que nada acontece e a mãe responde: “acontece, sim, preste atenção. veja como as imagens mudam lentamente”. essa atenção demanda um outro tempo. e é nesse outro tempo que a vida requer um pensamento sobre a vida e a morte, sobre a passagem do tempo [e as perdas que vêm com ela]. num mundo quase sempre aquático ou subaquático, vemos e intuímos a morte, o além da morte, os encontros quase sempre fugazes; como no vídeo em que dois homens andam paralelamente numa mesma direção e se encontram por meros instantes para logo em seguida se separarem. ou nos véus de imagens, em que de um lado vemos um homem perdido numa floresta e, de outro, uma mulher, até que as imagens se fundem para vermos os dois juntos por poucos instantes, até a separação. ou no resgate de um afogado que dá errado, em que vemos uma mulher em pé, inconsolável, os gestos lentos dos bombeiros, até que a chuva vem e todos se vão. o afogado, então, ascende em direção ao infinito. é também sobre o mistério do além-vida um dos vídeos mais bonitos, o Ascensão de Tristão. nesse mundo, é quase tudo frágil e violento, diante da iminência do que acontece e está para acontecer.

O que Praia do futuro faz  não é diferente. o mundo também é aquático ou quase. e também é sobre o tempo e o que acontece no seu decorrer. é sobre afeto e perda - o que se explica e o que não tem explicação. é sobre a fragilidade diante do que ocorre e a violência das nossas decisões. e é sobre o amor. até karim diz que o filme não explica muito. e eu concordo. mas para mim Donato se torna um estrangeiro, tendo em seu país uma família para sustentar e um emprego, por amor a Konrad. e é por amor que seu irmão Airton vai atrás dele muitos anos depois. E é também por amor que Konrad age muito antes de Donato saber fazê-lo.

 jesuscristinho, é bonito demais. dá um nó nas tripas. uma vontade de chorar, embora nada tenha de melodramático. e a música vem no momento exato, mesmo quando parece clichê. e o final ainda nos dá outra imagem sobre o mar. é o mar a névoa da Alemanha, é o que vemos. e como em Bill Viola, fiquei imersa num tanto de emoções, de dizeres, de não dizeres. fiquei pensando que nada precisa ser pela violência. contra os discursos da intransigência, do preconceito, cada vez mais desavergonhados, que a outra via seja a poesia, a imagem. as imagens belas do encontro entre Konrad e Donato - Wagner Moura mais uma vez soberbo -, as cenas de sexo e de nudez infinitamente fortes entre os dois. são imagens não apenas magnificamente fotografadas, mas exigentes, como disse Didi-Huberman na conversa que assisti dele. exigem de nós outra forma de contemplação, outra forma de pensamento. e de maneira simples. muito simples.
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como tudo que é indizível.