sexta-feira, 26 de agosto de 2016

A responsabilidade da forma - ainda a abertura das olimpíadas


 Agora que a pira olímpica já apagou, sob chuva e música de Marisa Monte, me dá vontade de tratar, de forma extemporânea, um pouco sobre a abertura das olimpíadas em contraponto com o seu encerramento. --- nada demais. duas ou três palavras para guardar. 

Assisti com prazer à abertura e emocionei-me em vários momentos, como teria me emocionado diante de qualquer espetáculo bem realizado, e também tive fastio em outros momentos, como em qualquer espetáculo muito longo, sempre mais propenso a altos e baixos. E poderia acabar aí o que eu tinha a dizer, uma vez que não pensei na abertura como uma prova de capacidade, de transfiguração, de heroicidade, de representação do Brasil e do povo brasileiro. 

Aliás, tive ímpeto de assistir porque sabia previamente que havia ali uma assinatura, ou melhor, assinaturas de artistas que admiro desde muito. Poderia mesmo dizer que foi por conta de Deborah Colker, que coordenou a coreografia, assim como já me dispus a fazer um trajeto de mais de duas horas, com direito a pegar metrô, ônibus e táxi, para assistir ao seu espetáculo , no Teatro Alfa, em São Paulo.  

Talvez por conta desse "ímpeto das assinaturas", não tive muita paciência diante das inúmeras críticas negativas que surgiram em nome do que chamaram de "estetização", "espetacularização", "apoliticismo", advindas de diversos setores e, sobretudo, do artístico. Como acontece muitas vezes, quando vejo críticas desse tipo, que exigem uma posição do artista que responda a anseios de palavras tão gastas como "conscientização", "responsabilidade política", lembrei-me de uma ideia também muito gasta, mas cada vez mais em desuso na nossa crítica tupiniquim, a qual propaga hoje por uma responsabilidade do artista geralmente ligada à concepção de que este deve se manifestar sobre as mazelas do mundo de modo direto e cru, como se estivesse dado o que seja "direto" e "cru". 

Lembrei-me, pois, de Roland Barthes e do tipo de responsabilidade que ele propunha, quando escreveu que "a escritura é ... essencialmente a moral da forma". Ao apontarem que o espetáculo comandado por Andrucha Waddington, Daniela Thomas, Abel Gomes, Fernando Meirelles e Deborah Colker foi revestido de contradições que o levavam, de imediato, à impostura artística, não pude deixar de pensar que a exigência hoje não é pela responsabilidade da forma, pela depuração da linguagem própria do artista, mas, sim, pela anulação dessa linguagem em prol do grande alarido do mundo, que exige cada vez mais uma "correção" das linguagens. 

O que me parece mais perverso nesse tipo de exigência é que ela aparece apenas quando se aponta o que o outro faz, não se sabendo distinguir o que seja da ordem da posição do artista e do que seja da ordem da linguagem de sua obra. Qualquer um que conheça os trabalhos de Andrucha, Daniela, Abel e Fernando, facilmente reconhece ali a "Natureza" de suas linguagens; há mesmo releituras explícitas do que já fizeram em outros trabalhos. As exigências, portanto, situaram-se para além dessa "natureza", apesar de ser contra esta que as vozes se elevaram. Então, é uma crítica que não analisa a obra em si, mas "como" ela deveria ser segundo os ditames do "tempo". O que não se percebe é o quanto isso constitui um fechamento nas possibilidades artísticas que, em última análise, afetam a todos os artistas. Uma foto que circulou muito no Facebook, na qual se tinha a visão de um grupo de pessoas em um barraco vendo ao longe o espocar dos fogos no estádio olímpico, virou o signo do que parecia ser a "irresponsabilidade" de tal festividade diante da precariedade do real.  Fico imaginando escritores, músicos e tais que, no dia a dia, exercem um trabalho de crítica sobre o que acontece no meio político e artístico, mas que em suas obras resvalam para outras discussões em que não expressam claramente esse vínculo crítico-criador e muito menos essa "precariedade do real". Queimaremos todos esses artistas ou consideraremos apenas o seu trabalho crítico? É esse tipo de escolhas que se coloca sub-repticiamente no tipo de crítica que exige uma abertura das olimpíadas mais política, menos festiva, que dessacralizasse a idealização da formação do Brasil. 

As contradições foram muitas: o tom ecológico (uma desfaçatez diante do fato de que não se foi capaz nem de despoluir a baía de Guanabara); os negros em cima dos navios negreiros estilizados, acompanhado da troca de "escravidão" por "força de trabalho" (o que me fez perceber com estupor que a "narrativa" eleita sobre a abertura era a das narrações da Globo, que deveriam ser vistas apenas como uma dentre as tantas narrativas possíveis e, provavelmente, a mais irrelevante); as passadas largas e estilizadas de Gisele Bündchen sob o som de Tom Jobim (mas quando, no ensaio, ela era interpelada por um menino de rua, levantaram-se de imediato a denunciarem preconceito, impondo assim apenas as suas passadas); Anitta no meio de Caetano e Gil (e me vieram pelo menos meia dúzia de cantoras "duvidosas" que já estiveram ao lado dos dois).
 
Todas essas críticas podem ser justas e não descarto a sua necessidade. O que me impede de ver nelas uma via possível de crítica para pensar a cena cultural brasileira é o fato de que não me parece dizer respeito à proposta da abertura. É certo que a estereotipia é como uma espécie de recalcado, mas me parece inegável que havia ali o desejo de fuga da estereotipia tão marcada na festa de encerramento da carnavalesca Rosa Magalhães - do qual a crítica feroz aparentemente silenciou. E viva Carmem Miranda e suas bananas! Viva a força do direto, sobre o qual não é preciso nem mesmo falar.

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De Barthes: "Colocada no cerne da problemática literária, que não começa sem ela, a escritura é [...] essencialmente a moral da forma, é a escolha do domínio [em francês: l'aire] social no seio do qual o escritor decide situar-se na Natureza de sua linguagem."




 

quarta-feira, 20 de julho de 2016

domingo



domingo me deu uma vontade grande de chorar. e eu chorei bem alto. mentira. deu vontade de quebrar a televisão. e como não tive coragem de quebrá-la, chorei feito menina. queria apenas ver a final da liga mundial. e a televisão não funcionava. não era exatamente eu. era a pessoa que eu havia sido --- aquela. aquela que acompanhava toda a liga mundial. aquela que vibrava, que roía as unhas, que xingava, que se exasperava a cada jogo de vôlei. pois então. quantos anos!

às vezes, sentimos saudade imensa do que fomos um dia. quem não? e não faz mal. acho que isso que nos faz mais humanos. depois, eu ria solto verbalizando para o Tatupai o que eu estava sentindo naquele momento da vontade de quebrar a televisão. e não sabendo como, chorava feito menina. era impotência diante do não saber fazer. era nada. e era tudo. tanta gente havia ido. kiarostami babenco esterharzi. e um desgraçado que não aprendeu como é soberano amar o outro passou por cima de mais de 80 pessoas com um caminhão. e foi capaz de morrer por isso. como pode como pode? aí, a dor foi ficando grande. e era domingo. e eu aqui, sem meus homens. tenho certeza de que se tivesse quebrado a televisão não teria me arrependido. e depois, entre risos, meio envergonhada, falava para o tatupai que eu podia dar chilique. porque eu quase nunca. e eu acho bem importante não perder esta humanidade. está aqui na vida e nem sempre ela ser fácil. e se permitir chorar. permitir-me. pensar baixinho. ou chorar bem alto até não ouvir. e nisso ver onde mais dói. tocar o próprio corpo. apertá-lo para poder sentir. e ir até às entranhas. enfiar os dedos quentes bem onde eles alcançam. quem não? lembro sempre daquelas manhãs de sábado. parecia que ali eu sabia de tudo, entorpecida pelo sono das longas noites.
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talvez seja isso que ninguém saiba de mim. ou saibam e não consigam alcançar. tenho tão poucas pessoas que me interessam. tenho medo de algumas. tenho amor profundo por outras. tenho respeito imenso por todas. e este é o segredo::: só me importa quem eu amo. manamácia me liga. e eu finjo que posso falar com ela como a pessoa de 40 anos que sou. dou uns conselhos. mas é mentira. porque com ela sou sempre a mesma menina. e há dias que quero ligar para mariamada e contar o que há por aqui. mas tenho por ela tanta admiração que não  teria como dizer dos meus fracassos, embora eu creia que ela saiba --- como o milagre que tem sido nossa amizade desde sempre. tudo. porque nos amamos e nosso amor paira sobre tudo.

acho que as pessoas têm muito medo. eu tenho muitos medos. tenho medo de não ser uma boa mãe. embora todas as manhãs meu filho abra um imenso sorriso quando me vê ao acordar. mas não tenho medo de ter medo. não conheço ninguém que tenha tanta confiança na pessoa que é do que eu. e não conheço ninguém que tenha tanta vontade de mudar certos gestos em si do que eu. confiança e contradição. quem não?

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como nesta foto. chove nas praias de floripa. faz frio. e eu. e eu fotografo meu filho com um guarda-chuva. molhando a roupa que não o protege. e vai protegê-lo menos ainda depois de molhada. mas a foto parece tão bonita. é quase branca. o dia era branco. e hoje me aquece. não precisava mesmo ter medo. a proteção branca estava toda ali.
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terça-feira, 12 de julho de 2016

68ª reunião da SBPC - um outro registro





nos tantos anos que escrevo neste blog, algumas postagens causaram polêmica. e geraram tantos outros discursos. e sempre optei por não responder. um texto que gera outros textos a ponto de se perder é o que deseja todos que escrevem. mas quebrarei um pouco essa “regra” em razão do cuidado com algumas pessoas a quem respeito e que me interpelaram de modo igualmente cuidadoso, mostrando-me outros pontos de vista que me escaparam. e não pretendo que esse texto se configure como resposta aos que me detrataram em suas páginas pessoais ou mesmo na página coletiva da UFSB em rede social. ainda que me cheguem as notícias, não me interesso por esse tipo de contenda. meu esforço, desde sempre, tem sido pela construção do pensamento. por isso, tal texto é sobre o mesmo assunto  em outro registro de linguagem. 


minha crítica dirige-se à concepção que norteia a organização das reuniões anuais da SBPC, e não apenas a esta; reuniões que, dada a sua importância, recebem um alto valor do governo federal, devidamente registrado no Diário Oficial da União. não são recursos escusos nem indevidos, assim como seus usos também estão à mostra, seguindo a publicidade obrigatória referente a esses tipos de recursos. tanto o repasse como o seu uso são de conhecimento público. é só buscar no Diário oficial, no portal da transparência, que está tudo lá. fica a dica. 


antes de tecer a minha crítica, analisei a programação científica da SBPC, comparando-a com outros eventos de grande porte da grande área de Letras/ Linguística; eventos com mais de uma dezena de conferências simultâneas, mais de uma dezena de mesas-redondas simultâneas, com programação cultural, sessões de comunicação e de pôsteres etc.. e concluí que, embora a programação científica da SBPC pareça gigantesca e diversificada e sua composição advenha de diversas associações, não é maior do que a desses outros eventos, que são igualmente problemáticos no tocante à espetacularização e à monumentalização, mas que, nem de longe, recebem o mesmo apoio financeiro da SBPC. e além disso, fiz uma conta simples: quantos eventos poderiam ser realizados, em diversas universidades brasileiras, inclusive aqui, se pensarmos que a média de apoio de um órgão como o CNPq no custeio de eventos de pequeno/médio porte é de 20.000,00 e de grande porte, 100.000,00. é só fazer as contas. 


o que denominei de espanto não se refere, portanto, ao valor em si, como uma espécie de defesa do não uso do dinheiro público, mas trata-se de repensar as suas formas de uso. refiro-me, portanto, ao que chamei de “indefinição” do que seja, de fato, a questão primordial da reunião da SBPC, se crermos no que está dito na página do evento: “a Reunião Anual da SBPC é um importante fórum para a difusão dos avanços da ciência nas diversas áreas do conhecimento e um fórum de debates de políticas públicas para a ciência e tecnologia”. a meu ver, essa falta de indefinição notória entre o que se propõe a ser e o que, de fato, é gera um descompasso visível entre o que se gasta para erguer a sua estrutura de megaevento (grandes tendas, praças de alimentação, construções etc..) e o que se gasta com a programação científica (hospedagem, alimentação, diárias para conferencistas etc..). 


em outras palavras, minha reflexão parte de um posicionamento político de quem acredita que é preciso questionar essas estruturas de megaevento acadêmico, científico e mesmo artístico-cultural, não apenas pelo fato de ser dispendiosa, mas porque não atinge seus propósitos no alcance devido. a comparação com a Bienal de Artes e com a Flip não foi por acaso. são também megaeventos, ainda que cada um tenha propósitos distintos, imprescindíveis para suas áreas; importância que não oblitera – pelo contrário, deveria enfatizar – os questionamentos feitos, muitas vezes, por aqueles envolvidos em sua concepção e construção, em busca do redimensionamento de seus traços composicionais. 


não se trata de requerer as suas extinções, e sim de reformular suas políticas. minha crítica não coteja o fim de nenhum desses eventos, embora partilhe pontos em comum com quem defende tal posicionamento. o que está na base de minha crítica é o desejo de reconfiguração do que está posto como modelo de megaevento acadêmico-científico e, se esmiuçada, chegaria, sim, aos modos de recepção dos estudantes da educação básica. o que se apresenta como inclusão – ainda que absolutamente necessária e proveitosa – é, a meu ver, apenas um “roçar” de corpos que não se juntam de fato. explico para não enveredar pela linguagem metafórica: diálogo, discursividades em trânsito, trocas aconteceriam se professores e estudantes da educação básica estivessem, por exemplo, inseridos nas discussões da programação científica, e não apenas como ouvintes, mas, sim, com cadeira garantida nas grandes mesas de discussão. ou se estivessem ali para serem ouvidos, ou para escutarem, a respeito das políticas públicas destinadas às ciências e tecnologias. enquanto forem apenas visitantes a interagirem com o que parecem ser “brinquedos tecnológicos”, quando são, muitas vezes, objetos manipuláveis resultado de pesquisas sérias e substanciais, aparentemente será apenas isto: um parque de diversões onde meu filho de seis anos se divertiria muito. e sim, meu filho tem seis anos e, por inúmeras vezes, pensei no quanto ele se divertiria ali (só não o levei porque coincidiu com a sua viagem de visita à bisavó). 


ao contrário do que normalmente se diz, sessão de pôsteres é uma forma muito questionável de inclusão, pois é óbvio que o modelo de “exposição”, de “apresentação” não funciona no que deveria ser espaço de debate, de diálogo.  há centenas de artigos científicos que questionam esse modelo. fica a dica. é um meio, sempre incompleto e imperfeito, criado, justamente, quando os eventos acadêmicos foram ficando cada vez maiores, para supostamente dar voz àqueles que iniciam pesquisas ou aos pesquisadores a quem nunca darão assento nas conferências e mesas-redondas. ou seja, foram pensados para propiciar um espaço, ainda que exíguo, aos que, de fato, pagam parte da estrutura do evento por meio das inscrições. não deixa de ser, assim, apenas uma das estratégias para garantia de público. e os estudantes, os pesquisadores, devem saber disso não para se sentirem diminuídos pela participação nessa modalidade, mas para batalhar por outros espaços de participação em vez de ficarem apenas agradecidos e acomodados com aquele ter-lugar. o nome disso é consciência política.  


nos campos de força constitutivos de eventos acadêmicos, sessão de pôsteres é menos do que sessões de comunicação e, estas, menos do que conferências e mesas-redondas. e não fui eu que atribuí essa carga valorativa precária e injusta; pelo contrário, desde o primeiro evento que organizei, há mais de vinte anos, como estudante de Letras, rompi com esse modelo. guardo até hoje as fotos que mostram que quem teve assento na mesa de abertura fomos nós, então estudantes, organizadores do evento. não havia uma única “autoridade” acadêmico-administrativa, embora o financiamento tenha vindo da instituição. e também guardo as fotos em que os estudantes falavam sobre suas pesquisas no mesmo auditório, na mesma mesa, em que os professores convidados palestravam. e não foram ações por acaso. eram, então, decisões políticas, que faziam muito sentido naquele momento de reivindicação de direitos. e como organizadora de eventos acadêmicos, avancei sempre mais na ruptura desses modelos preestabelecidos de eventos, misturando, por exemplo, numa mesma mesa-redonda convidado estrangeiro e aluno de graduação, e não apenas como apresentador, mas como debatedor; pondo aluno de graduação como conferencista e tantos outros gestos de tentativa de ruptura da engrenagem maquinal que compõe os eventos acadêmicos-científicos. 


acato as opiniões dos que disseram que fechei o meu texto apenas na crítica, não abrindo espaço para o que foi relevante e, mesmo, distinto. com isso, deixei de proteger as pessoas que trabalharam para erguer a SBPC. e talvez não o fiz, justamente porque eu era uma dessas pessoas e não achei que precisava de defesa, porque minha crítica não se dirigia a elas, que, em última instância, eram também eu. se eu dirigisse uma crítica a mim, só poderia ser uma: o fato de ter participado, se tenho tantas críticas ao modelo do megaevento acadêmico-científico. sei exatamente por que me envolvi na organização: porque, desde o primeiro momento, achei de uma importância fundante e simbólica que a SBPC se realizasse aqui, numa universidade recém-criada devido à política de interiorização do ensino superior. parecia-me então um movimento de resistência muito bonito para que eu abdicasse de fazer parte dele.


porém, creio agora que não aproveitamos tanto quanto poderíamos. a SBPC deveria ter sido pensada, por nós da UFSB, como um grande fórum de resistência ao golpe democrático que sofremos. vem daí também meu espanto com o ar festivo de comemoração. não poderíamos ter feito do nosso solo acadêmico um espaço de comemoração nesse momento histórico que atravessamos: deveria ter sido um solo de resistência, de provocação, de luta, de reivindicação. não tínhamos nada a perder e muita dignidade a ganhar, se assim tivesse sido, pois reforçariam as construções discursivas que sustentam algo como a Formação Geral desta Universidade, como espaçotempo de construção de pensamento crítico em relação ao estado de coisas contemporâneo. essas lutas, reivindicações, resistências, podem, sim, estarem entranhadas numa grande festa. tanto melhor, se estiverem. mas é preciso proferir essa resistência, senão resta apenas a festa. é preciso dizer por que se festeja, como fizeram as mulheres do bate-barriga de Helvécia ou o grupo de boi-bumbá, de Eunápolis, que localizaram politicamente seus festejos como atos políticos de resistência ao apagamento de suas histórias. provavelmente, tantos outros a que não assisti fizeram o mesmo. em gestos assim, estão as grandes lições. e nós, festejamos por qual razão? somente por que a SBPC veio para nossa recém-construída universidade? para mim, é pouco, muito pouco. 


e não. os movimentos de resistência que aconteceram não foram criados por nós, mas por alguns daqueles que vieram de fora. uma professora convidada, espantada, disse: “achei que chegaria aqui e haveria faixas contra o golpe em todo lugar”. e estendeu sua faixa solitária bem à vista dos nossos olhos aparentemente acometidos de cegueira histórica.  e presenciar isso, como professora da UFSB, reforça ainda mais minhas convicções que, tantas vezes, têm entrado em confronto com outras convicções. igualmente válidas, indubitavelmente, mas com as quais não posso compartilhar, senão dialogar, se for possível a criação de um espaço dialógico ético. 


apesar de não me considerar avara em elogios, aclamações, confirmações, não acredito que políticas públicas substanciais advenham daí. por exemplo, toda e qualquer mudança nas políticas públicas de educação é resultado da luta, da vigilância atenta aos mecanismos dos micropoderes que trabalham para a supressão desses direitos. nesse sentido, teríamos muito a aprender com um movimento como o do MST, sempre atento à própria formação política. é o fato de estar na UFSB, e acreditar no seu projeto, que me leva a atentar para os seus pontos críticos. é o fato de ter participado da SBPC que me permite lê-la do modo como eu a li. engana-se quem pensa que o não-questionamento edifica qualquer construção; serve tão somente para a monumentalização. perseguir a diferença entre construção e monumentalização talvez seja o caminho para que as discussões não descambem para os personalismos, o deboche e a desclassificação dos sujeitos que falam.  e acrescento: não tenho nada contra o kitsch na sua potência de subversão, de crítica, mas tudo contra quando perde essa potência e resta apenas o modelo desfigurado.


era a algo assim que me referia quando falei, logo no início do meu texto, sobre o fechamento da UFSB, o qual sua hospitalidade festiva não escondeu. sempre quando me deparo com alguma ação de extrema incoerência, eu sinto falta da presença do conselheiro, no sentido lato da palavra. quem me conhece, já me ouviu com cara de espanto, muitas vezes, a perguntar: “não tinha ninguém do lado destas pessoas para aconselhar a não fazer isto?”. foi exatamente isso que pensei quando vi toda a programação paralela construída pela UFSB para tratar tão somente da sua atual situação política. não sou contrária a esses fóruns de discussão, mas, no meio da SBPC, sendo a anfitriã, pareceu-me  inapropriado e oportunista, uma vez que estávamos ali, ou deveríamos estar, para tratar das questões propostas pela SBPC – propostas nas quais a UFSB teve participação, se acreditarmos no que disseram os organizadores em diversas ocasiões. ao invés disso,  propuseram, intempestivamente, uma programação extensa para tratar de nossas questões internas, a ponto de gerar um documento de conciliação com o governo ilegítimo, ainda que transmudado de reivindicação. é só ler para averiguar.


e para mim, o virar às costas simbólico (porque evidentemente eu sei que muitos professores e estudantes participaram também da programação oficial da SBPC) advém de um discurso que se tem difundido na UFSB e tem causado muitos danos e equívocos; que é o discurso que, ao traçar uma linha histórica da universidade brasileira, coloca a UFSB como um marco divisório, muito à frente de qualquer outra. é um discurso tão sedutor quanto falso. e o seu equívoco advém, sobretudo, desse traçado linear, quando todo o esforço da História, como disciplina, tem sido negar essa ideia de linearidade. somos, sim, uma universidade com um projeto instigante de ruptura a alguns dos paradigmas que construíram não apenas as Universidades brasileiras, mas a ideia de Universidade que as sustenta, porém não estamos à parte dessas Universidades, nem rompemos, ainda, com muitas dessas ideias. E as provas pululam por toda parte ante nossos olhos espantados. e esse lugar distinto da UFSB, ainda que exista como porvir, não deveria nos levar a desprezar todo o saber agregado até aqui por essas outras instituições. reconhecer isso não nos diminuirá em nada como instituição e negar tampouco nos engrandecerá. muitas das ações que buscam construir nosso projeto diferenciado de universidade já foram pensadas e testadas em outros espaços educacionais, resultam de lutas travadas e avanços alcançados em outras arenas. não se originaram de um único ser demiurgo e visionário, mas, sim, são resultado de uma série de outros espaços de luta, de reivindicações que germinaram no interior das universidades públicas brasileiras. 


por isso, eu me pergunto constantemente a quem serve esse discurso de originalidade e vanguardismo. e fazer essas perguntas não deveriam me colocar num lugar caricatural de inimiga. é também um construto discursivo que interessa, ou deveria interessar, tão somente àqueles a quem o questionamento incomoda. a quem interessa a não crítica à SBPC? certamente, a sua presidente, que diante da discordância armou o circo que inevitavelmente só poderia reposicioná-la ainda mais forte no lugar que ela provavelmente nunca pretendeu abandonar. circo noticiado na página da SBPC de uma maneira que deveria nos causar indignação. compreender essas sutilezas talvez nos ajudasse a perceber que a crítica que teci talvez devesse interessar a toda universidade anfitriã da SBPC, que recebe um modelo pronto no qual tem muito pouco espaço de representatividade. 

lembrei-me, agora, da expressão ouvida do conselheiro Joelson, quando ele afirmou que ia  “arrombar as portas”, e não ficar indefinidamente agradecendo porque supostamente a Universidade resolveu abrir as portas para seu povo. e isso advém da sua consciência de que ter-lugar não é algo dado; é construído por meio de gestos de luta. e ainda na sua lógica, sei que isso exige tempo. e é preciso considerar esse tempo. no entanto, é preciso construir esse tempo no agora. resta saber quantos de nós estamos preparados para tamanha responsabilidade e tamanha percepção histórica
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segunda-feira, 11 de julho de 2016

68ª Reunião da SBPC



foi perturbador acompanhar a 68ª Reunião da SBPC durante cinco dias - um dia na SBPC Educação, em Teixeira de Freitas; e quatro, na SBPC, em Porto Seguro. se eu fosse jornalista, ou fotojornalista, precisaria de um sem-fim de leituras para especificar o grau do meu espanto, nesta reunião que se coloca como o encontro científico mais importante do país. 

senti uma espécie de constrangimento -- e isso para além do que ocorre e diz respeito apenas à UFSB, anfitriã deste ano. porque neste ponto, nada de novo. a hospitalidade festiva não escondia o mesmo de sempre: um corpo incapaz de estar aberto a outros corpos - um corpo incapaz do exercício da escuta; de querer-aprender com o outro, de querer-saber da pesquisa dos corpos científicos das outras universidades e associações que ali estavam; para quê movimentar estudantes e professores a ouvirem um grande pesquisador, a participarem dos resultados de uma pesquisa por demais importante, se o que importa mesmo é criar o discurso da excelência e do único? a UFSB criou, assim, uma programação paralela intensa, para além da oficial constante no catálogo, ausentando-se, portanto, daquilo que ajudou a planejar. o corpo docente e discente da UFSB transitou quase que exclusivamente pelas reuniões e mais reuniões de portas abertas ou fechadas nas quais se discutiam apenas o seu "grande projeto" de universidade que acredita pairar sobre todas as outras. assim, em vez de, como anfitriã, ter recebido seus convidados, discutido com eles, retirou-se para espaços outros, para partilhar com seu corpo fechado o grande delírio de estar na vanguarda, ainda que seus estandes fossem, de longe, os mais esvaziados de sentidos - um nada ainda a mostrar. no fundo, movimentos agônicos de sustentação de um poder que rui ante sua própria incapacidade de enfrentamento dos impasses. patético, risível e previsível.

como disse, não foi somente isso. mas a própria concepção da Reunião da SBPC é por demais perturbadora. difícil acreditar que, apenas neste ano, foram despendidos R$8.000,000,00 dos cofres públicos para sua realização; e não exatamente porque a estrutura não seja, de fato, dispendiosa, mas porque é óbvio que essa estrutura absurdamente cara tem menos a ver com os debates sérios, científicos e imprescindíveis que ocorrem durante o evento, e mais com o que acontece em seu entorno, que a faz parecer uma grande feira barulhenta e festiva. o catálogo da programação expunha o caráter minguado das discussões, mas ninguém parecia se importar: fininho, com grandes espaços e letras garrafais, denuncia largamente a falência do modelo "seminário". na SBPC da sustentabilidade, não vi um único invento que se relacionasse com o tema. as mesmas lixeiras coloridas, os mesmos banheiros "sustentáveis" e a aclimatação dos pavilhões feita por potentes ares-condicionados, como gigantes brancos no fundo a denunciar a inércia dos homens a quem servia. pensando que minha memória podia estar me traindo, ao chegar em casa hoje, procurei os catálogos de grandes eventos da minha área, também de associações: Abralin, Abralic, Anpoll, buscando ali pistas para a gravidade e densidade que lembrava ter sentido em alguns deles, com uma pontada de desconfiança de que talvez tivesse me enganado quando presente em tais eventos. e senti uma espécie de alívio. os catálogos estão aqui: densos, graves e grossos, o que me faz concluir que não apenas eu mudei nos últimos anos, mas, sem dúvida, a concepção de eventos desse porte.
 
tudo beirava ao kitsch. kitsch eram a Expotec e a SBPC jovem com suas feições de feiras de ciências de colégios de ensino médio, as quais pareciam dizer respeito apenas às muitas levas de estudantes que entravam nos estandes como ovelhas livres de seus cercados. logo na entrada da SBPC Jovem, uma "invenção" demonstrava que corpos de mãos dadas, quando um leva um choque, todos também levam. apontei a câmera para fotografar, mas uma espécie de pudor me deteve. não tirei uma única foto em nenhum desses pavilhões, embora tenha perambulado demoradamente por eles. achei melhor deixar que a minha parca memória se encarregasse de ruir - como certamente se encarregará - o que vi e o que me espantou.

na melhor das hipóteses, pode-se pensar o quanto inesquecível é para um jovem acadêmico participar de evento tão aparentemente grandioso.  e se é para almejar que alguns estereótipos nos redimam, em vez de cientistas engravatados, com ares carrancudos, uma horda jovem e alegre vez ou outra tomava conta dos corredores largos do centro de convenções transformado em universidade.  espiando uma sala e outra, nos debates simultâneos, raramente vi mais do que trinta pessoas reunidas, mas lá fora as pessoas iam e vinham sem saberem exatamente para onde, sem a paciência devida para pararem, mas, em um desses momentos fugidios, vi-me também como parte dessa horda alegre e festiva. senti-me liberta com esse músculo que pulsa tão pleno. e se soubesse rezar uma outra oração além das tradicionais, teria deixado a reza tomar conta de mim, agradecendo sentimentos que dizem respeito apenas a mim.     

e para voltar ao cerne da questão, eu diria, parafraseando de memória Laura Erber, que acreditar que uma reunião desse tipo contribui para o avanço científico do país é o mesmo que acreditar que a Bienal de Artes de São Paulo forma uma leva grande de novos apreciadores de artes. Ou a Flip, essa festa literária tão colocada à baila nas duas últimas semanas,  muda os rumos da produção literária contemporânea. tudo carece, de fato, de um propósito. e perguntas urgentes deveriam ser feitas: para quê mesmo uma reunião como esta? e para quem? mas como ter a grandeza de enfrentar os impasses? A diretora da SBPC, em uma das reuniões de última hora, renunciou diante de uma onda de vaias e gritos de "Fora, Temer", pois em nome da defesa da ciência, defendeu imparcialidade e necessidade de negociar com o governo golpista. E na assembleia seguinte foi "reconduzida" ao cargo que, de fato, nunca abandonou. pão e circo na grande tragédia farsesca do tempo presente brasileiro.

talvez a imagem emblemática da Reunião SBPC seja esta aí de cima. de longe, parecem ocas indígenas, tanto quanto podem ser confundidas com quiosques mais sofisticados de beira de praia. e talvez não sejam nem uma coisa nem outra: meio ocas, meio quiosques, custaram de todo modo o olho da cara. e essa indecidibilidade é o preço que temos que pagar por vivermos neste país tropical em que tudo acaba em samba. literalmente.

quinta-feira, 30 de junho de 2016

sobre ser doutora. ou sobre a campanha de "ser mais"



doutor que não pode dar receita nem aplicar injeção, para mim, não é doutor. essa é uma das falas que guardo do meu padrinho, que esteve na minha vida para me salvar algumas vezes da morte e da inanição. como de costume, depois de me dizer isso, soltou a sua gargalhada que lhe era própria. e eu ri junto. solta, livre, feliz. doutora sem poder dar receita nem aplicar injeção, quando fui trabalhar em um departamento universitário onde havia apenas dois doutores, transvestidos de deuses, adotei a gargalhada do meu padrinho como procedimento para rasurar o mito do doutor. falava do doutorado como um hiato em que assisti a mais de mil filmes, perambulei por parte da Europa e assisti a todos os shows que desejava na vida --- interiorana deslumbrada com cidade grande que nunca deixei de ser. somente em situações muito específicas, eu dizia, ainda em tom jocoso, que havia lido os mais de 60 livros do autor que eu pesquisava e que havia conseguido porque sofria de insônia crônica desde sempre. custo a acreditar nisso, embora seja verdade, desmemoriada que sou. e não dizia 'autor". dizia::: “o cabra que inventei de pesquisar sem saber nada dele até decidir estudá-lo”. fazia parte da desconstrução do mito.  apenas uma vez, bêbada, provavelmente encurralada na situação em que havia me metido, me ouviram dizer algo como “eu sou doutora”. tenho muita vergonha e agradeço aos deuses a amnésia alcoólica que não me deixa lembrar o momento em que proferi tal asneira como sinônimo de arrogância de um saber que provavelmente não tenho. 


por essas e outras me causa espanto que alguns gestos que, na sua constituição, nada têm a ver com o fato de se ter um título de doutorado sejam interpretados como parte do "ser doutor" encarnado em arrogância e desrespeito. e quero crer que isso faz parte do ódio generalizado que se tenta implantar em parte da população por meio da construção de discursos como os que afirmam e reafirmam que professores universitários, por terem uma carga horária de aula que não equivale aos professores de outras categorias, devem ser fichados como vagabundos, elitistas, uma vez que num país onde o salário mínimo não dá conta dos bens necessários para uma vida digna ganhar 10.000,00 seja uma ofensa. um crime. que deveria ser pago com a pena de trabalhos escravos. pensar desse modo é um equívoco porque desfoca o problema para outro lugar. em vez de se lutar por salários justos para todos, condena-se uma categoria que aparentemente conseguiu esse lugar, sem sequer investigar o que se trabalha para além dos tempos-aulas. 


e é ainda mais perverso quando se é condenado, fichado, justamente pelo gesto do fazer – a partir disso que aparentemente é uma zona de conforto. que vontade move um doutor, hoje, numa universidade periférica, sem nenhum recurso auxiliar, a propor e executar um curso de extensão, um evento, um projeto ou mesmo a inscrever esse projeto em programas de bolsas estudantis, senão a vontade de fazer, uma vez que seu salário, em vez de aumentar, é subtraído por essas ações? o que faz um professor, hoje, retirar parte desse salário, que lhe é garantido por lei, para viabilizar essas ações? foi o que fez uma amiga linda nestes dias e agora está sendo enxovalhada nesta rede social que dá a qualquer um o seu minuto de fama. e não apenas o salário, mas o seu tempo que poderia estar sendo ocupado por uma infinidade de outras tarefas igualmente ou mais interessantes, como estar atenta ao crescimento do seu menino, ler aqueles livros encalhados na estante, ver o filme que parece que todos viram, menos você?  eu não posso dar uma resposta generalizada, mas posso dizer por mim e por alguns desses doutores que hoje me cercam que o que nos move é um desejo de comunidade, de partilha. 


e para que não se pense que quero com isso angariar simpatias, é preciso que se esclareça mais uma peculiaridade do mundo tipicamente acadêmico. essas ações comuns, que remetem ao coletivo, à partilha, são o que menos vale no tal lattes --- essa plataforma a partir da qual nos acusam de que a única motivação do nosso fazer diz respeito ao intuito de preenchê-lo. se eu ou qualquer um desses doutores acusados de querermos “ser mais” como sinônimo de subtrair os direitos das minorias nos debruçarmos sobre a escrita de artigos acadêmicos – um gesto necessariamente solitário, longe da partilha -, angariamos mais pontos do que qualquer ação em comunidade. é preciso realizar uns dez ou mais cursos de extensão para que valham a metade de pontuação (no tal lattes) desse gesto solitário de escrita – que eu, aliás, adoro fazer, mas que o faço, por costume e por deleite, apenas nas longas noites frias ou quentes, enquanto meus dois homens dormem e a música toca quase silenciosa lá na sala.


na efervescência dos dias, faço o oposto dessas noites --- eu me encontro com gentes.  e com elas sorrio, gargalho, faço planos, teço vontades. e por conta disso, são também assim meus amigos. jesuscristinho me afaste de qualquer um que não faça do título de doutor apenas um dentre os tantos sentidos da vida. doutora? sim e não. tão doutora como sou mãe, sou esposa, sou dona de casa. e principalmente sou gente --- que está mais a fim de delicadezas, de embates honestos, de lutas precárias do que pôr na frente um título que, na verdade, só tenho a agradecer porque fiz do tempo da sua construção os anos mais felizes e inteiros de minha vida. e isso porque entreguei a esses anos meus últimos desejos de juventude, que eram grandes, intensos, meio malucos. e tive a sorte de estar ao lado da minha melhor amiga da vida inteira e de um orientador que não canso de aprender com ele -- desde o dia que o vi pela segunda vez e ele me olhou grave, quase terno, e perguntou: “por que você estava tão nervosa?”. nunca perdi  parte daquele nervosismo inicial, mas agreguei outros sentimentos e destituí tantos outros. muito tempo depois, ele me disse algo como: “você escreve bem, mas não é tanto assim. ou se responsabiliza por sua escrita ou vai continuar escrevendo obviedades que você acha que os outros não percebem. eu percebo tudo. os sensos comuns, as frases feitas, as lacunas de saber”. uma frase dessa não tem o mesmo teor da frase do meu padrinho. e eu não gargalhei. pelo contrário, chorei muito. mas não o acusei de estar usando o seu título de doutor, que eu ainda não tinha, para me humilhar. nem deixei de amá-lo como o amei desde que o senti como alguém que poderia me ensinar um tanto. não sei se algumas vezes depois disso, cometi o mesmo pecado da soberba, mas se há moral da história, posso dizer tranquilamente que reconheci desde ali que ele estava certo. e que ele podia e devia me dizer o que disse. pois humildade não é prerrogativa de estudante nem arrogância é predicativo de doutor. e o que ele me disse ali nada tinha a ver nem com uma nem com outra. e saber reconhecer isso, na hora devida, não deixa de ser um dos saberes que se deve cultivar dia a dia. 

e ainda. tenho profundo amor pela minha tese. e ela foi lida, apenas, por umas cinco pessoas. e ainda assim, com esse amor, sei e reconheço que ela poderia ter sido uma tese muito mais "profunda" e que foram as minhas escolhas - dos mil filmes, das viagens mais fodas pelos países que ainda quero levar o Poeminha e o Tatupai, dos tantos shows - que a fez ser do jeito que ela é. honesta, bonita, inteira, mas dessa inteireza do humano. não culpo ninguém, nem a mim mesma, por essas linhas que, de todo modo, foram as que eu consegui traçar. 
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e claro, eu poderia falar da graduação, para me aproximar dessa zona de (des)confronto que gerou este texto. falar que trabalhava três turnos, que já tinha insônia que me fazia atravessar as noites sem dormir um segundo e me fazia dormir em plena sala de aula às 15h da tarde, que eu não tinha tempo algum, mas que era uma das poucas a ter projeto de iniciação científica em toda a universidade, que era mais brava do que sou hoje e que sustentava essa braveza - apesar de dormir diante de um tanto de professores - com o que eu conseguia fazer. e o que eu conseguia fazer era muito --- algo como """um professor pode me odiar, mas jamais me dar uma nota ruim, porque o que eu consigo fazer nos intervalos não abre brecha para a nota ruim"""". --- é claro:::: ainda não conhecia meu orientador de mestrado e doutorado e sua inteligência suprema e generosa. mas já sabia me curvar, inclusive, àqueles que estavam à cata do meu menor deslize, além do sono.

e entenda quem quiser. mas não me venham com discursos pseudopolicitamente corretos. não sou dessa época. e eu sou nordestina-cearense, cabeça chata, filha de mãe brava e pai carroceiro, passei fome de comida boa. sou das cotas em uma época em que não existiam cotas nem auxílio algum. meu discurso é da guerra. mas jamais da vitimização. e só entendo essa língua. que é a minha língua desde menina. não é minha língua de doutora. não assino "doutora" em lugar algum. meu nome é milena. e é com ele que me sustento onde vou. nem meus amigos mais amados assinam "doutor". nunca me dirigi a nenhum aluno apontando esse título. e até chegar aqui, nesta universidade em que se fala muito de direitos, mas quase ninguém aparenta entender de deveres, jamais havia reprovado um aluno, seja por falta, seja por nota. e apesar disso, sempre havia sido tratada com cuidado. um cuidado que me dispensavam, embora soubessem que estavam, de antemão, aprovados em qualquer disciplina que eu ministrasse. aqui, tive que mudar isso. um aluno aparece em um dia de aula e doze aulas depois tem coragem de me perguntar quando ele pode apresentar os trabalhos do componente. como se essa mudança - de disciplina a componente - pudesse dar a ele o poder da passagem. não pode. e pode --- se me provar que sabe o que ali ocorreu com os corpos que estavam em doze aulas que ele não esteve presente. então, não me peçam concessões. porque eu nunca as pedi. a vida toda, eu só exigi. e o que era do meu direito. o que não era, o que era e ainda é forjado pelas facilidades do discurso não me enternece. nem me convence. quem quiser estar comigo, e com meus amigos, nesta aventura do saber que é também sabor, seja super bem vindo. tenho na minha conta alunos que viraram amigos dos mais bonitos. amigos que amo mais do que eles me amam. e é por causa deles que posso dizer tudo isso --- porque são eles, que me reconhecem, que sabem quem eu sou. que eu não faço pose de doutora. nem meu amigos fazem. que eu sou doutora e sou gente que quer saber cuidar a cada dia. e sei com quem ando. e quem anda comigo.
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