sexta-feira, 10 de abril de 2015

Vita nuova II







 
 




Mas arrumar as malas é sempre uma dor. Mesmo quando saio de férias, ou vou para uma viagem que quero muito, me vem um nó que se instala não apenas na garganta, mas no corpo todo. O corpo dói; as lágrimas descem, descem. Desta vez, não foi diferente. (Vita nuova) 

eu achei que não ia chorar. eu estava doida para ir embora. em 2015, tem me vindo tanta ânsia e me importa muito vivenciar tudo isso. mas o fato é que eu chorei. comecei a me despedir da turma que eu estava dando aula e desandei a chorar. depois, respirei e expliquei a razão do choro. não lembro de tudo que disse, mas disse algo que nunca vou esquecer, porque foi bem assim:::: "eu vim porque quis. e vou embora porque quero". achei poderoso. não não. não fiz nenhuma revolução. a mudança foi acanhada em vários sentidos. foi quase por acaso, na verdade. mas ainda assim, acho poderoso. não é todo dia.

colocar as malas nas costas - e que malas para tão poucas costas - não se faz todo dia. nunca escondi que vivia em Vilhena como se a cidade não existisse. acho que às vezes parecia ofensivo para as pessoas que adoram Vilhena, mas não era a minha intenção. quem prestou atenção, percebia que eu também dizia que vivia bem. em todo lugar, ou se aciona o paraíso particular ou a cidade importa muito pouco. sempre penso nas milhares de pessoas que vivem em São Paulo como se a cidade não existisse - tanta maravilha - espetáculos, shows, filmes, livrarias, restaurantes - e tantos no seu quadrado. mas às vezes é assim:::: e não há o que fazer.

Vilhena é uma cidade bonita, com ruas largas, para quem tem condições de morar no seu "miolo", como eu dizia. eu morava no miolo numa casa amarela que depois foi virando amarela-desbotada. as fachadas das casas são de encher os olhos. e meu amarelo ofuscava, mas eu bem que gostava. e as ruas são bem largas. eu estava quase familiarizada com elas --- com minha bike para lá e para cá. mas era só isso - para mim.

a linda da Aline me disse que em Vilhena só sente saudade de banca de jornais e revistas. para quem morou em lugares maravilhosos como ela, a afirmação me assombrou um bocado. fiquei envergonhada do meu pouco amor à cidade. mas compreendi. e achei que minha falta também era desta ordem, mas ainda mais larga. e pensando friamente, vou continuar sentindo falta nesta nova cidade que agora habito. pois acho que a minha falta tem a ver com algo ainda mais longínquo e imprevisível que eu não sei exatamente nominar.

eu fui para Vilhena com um tanto de desejos. logo de cara, perdi algumas partes de mim. e reencontrei-as muito rapidamente. uma amiga sabe contar esta história melhor do que eu - com muito humor. eu fico envergonhada quando ouço, mas  o tanto de verdade que há nela carrega o seu charme. eu também costumo dizer que eu tinha que ir para Vilhena para lá encontrar o Tatupai e fazer viver o Poeminha --- e isso já diz tudo::: já diz que Vilhena me deu tudo.

me deu um amor --- que anda com as entranhas estranhas, é verdade. porque o amor às vezes pesa. este ciclo interminável de muitas horas de riso e de lágrima. eu não sei para onde os Tatupais vão com este amor e também não me interessa dizer apenas das flores. tantas palavras inomináveis nos sobram. tem muitas saídas, creio eu. mas como sofro de dicotomia, me vem uma vontade de pensar que só há duas:::: se for de riso, haverá chance. se for de dor, melhor que não. e penso assim porque insisto em sustentar que quase não tenho medo. só tenho medo dos maus tratos do dia-a-dia. sabe::: isso que espezinha. estas palavras espraiadas que ferem como espinho no pé. não consigo pensar no porvir com espinho no pé. quero meus pés bem plantados --- para poderem planar.

e esse amor me deu um filho --- que saiu das minhas entranhas e que me encanta a cada dia, a cada hora, a cada minuto, a cada segundo. e ele nasceu em Vilhena. e não me causou nenhuma dor. e tem sido assim há cinco anos. só isso já faz de Vilhena uma cidade-maná. uma cidade para nunca esquecer. de lá, um filho. de lá, um Poeminha. meu meu meu. tem noites, quando estamos naquela de ler e de "beijar beijar beijar", me vem este dizer de posse e eu repito e repito::: "você é meu meu meu". é mentira, mas por ora é verdade e todo riso que vem daí e os beijos nas barrigas já valem uma vida (dia desses, o Poeminha disse: "se você ler duas histórias, eu dou dez beijos na sua barricotinha". e quem souber, que diga quantas história eu li.

quando Amanda me imitou na festa de despedida organizada pela Rô, ela repetiu uma frase que eu disse --- e o tom era de ironia e de graça::: algo como::: "desejar é perigoso. mas é tudo. tem sonhos que nos levam a Paris; outros nos levam a Vilhena". era o fim da história que eu sempre conto::: que desejei ir a Paris para andar nos corredores do Collège de France, onde Barthes deu aula. A história inconclusa era que eu fui para Vilhena porque eu queria ser professora universitária. Tudo, então, é desejo. são vontades inconclusas. são histórias.

não guardo nenhuma mágoa. vim embora com o peito aberto. sofri um bocado. e me diverti um bocado. e fiz um outro bocado. foram anos intensos. e é disso que me lembrarei. não falarei mal nem de Vilhena nem das pessoas de lá nem de mim mesma quando lá estive. já disse: encontrei um amor, tive um filho, quase morri de doença, encontrei uma grande amiga, fiz coisas maravilhosas na universidade. trabalhei trabalhei trabalhei. e deste trabalho, tão difícil na lida do dia-a-dia, extraí do pior o melhor de mim. lutei bravamente contra a corrupção dos dias, contra a mesquinhez das relações e com isso aprendi um bocado sobre mim e sobre os outros. não desejei mal a quase ninguém e sei que não fiz mal a ninguém. jamais, nenhum gesto que pudesse soar como vingança, mesquinharia, estupidez. uma nordestina "cangaceira", mas que não puxou o tapete de ninguém --- nem no posto de chefe - que ocupei por dois anos::: neste posto, aprendi a alegria do acolhimento e da indiferença. acolhi os que achei que valiam a pena e fui indiferente a todas as estocadas --- e este foi apenas o veneno que espalhei. uma serenidade no meio de tanta palavra maldita. - "as roupas e as armas de Jorge". e acho que consegui porque me impus uma certa disciplina. a disciplina de saber que nem toda gente está de acordo comigo. há o desacordo, a diferença, o estranhamento. e há de se levar em conta isso.  tem pessoas que se orgulham das trapaças que conseguem realizar --- e eu me orgulho de manter o rosto sempre limpo, de dizer as piores coisas olho no olho, sem simulação, sem disse-me-disse. é ridículo, eu sei, no mundo de hoje. mas me dá uma felicidade perversa ter coragem de dizer num mundo em que tão poucos têm coragem do dizer. dizer o dito. e não realizar nada que possa me envergonhar - ou envergonhar meu filho, se um dia ele souber. e é tudo. e assim encontrei a paz antes de partir. e a paz, quando estava lá. e a lição de todos os tempos que carrego sempre comigo:::: o tempo o tempo o tempo. agora, repito: me livrei de tudo - do bom e do ruim - por decreto. uma portaria::: e já mais nada era meu. despossuída, desapropriada, livre. que bonito que bonito é o tempo. e a desimportância dos postos, das coisas, dos dias, enfim. e agora, de novo, a chance de guardar em mim apenas o bonito que foi: a amiga, os amigos, o silic, o gepec, as segundas-feiras do gepec, o filho, as ruas retas na bicicletas, as longas noites de festas na varanda de casa, os lindos lindos (Anderson, Gabriel, Dinalva, Dariete, Carlinha, Mislene, Andrielly) e ainda outros lindos lindos ---- todos aqui, no meu coração, que me disseram de algum modo (prof.ª Araci, como esquecer sua sabedoria? Marisa, sua reviravolta?, Dariano, seu olhar direto e franco? Emerson, sua entrega? Bibi, seu imenso amor pelo Poeminha? Inildo, seu abraço cheiroso e sua sabedoria? Sandra e sua tranquilidade discreta? Aline, sua delicadeza e inteligência assombrosas? Lilianaluna, sua vontade ferrenha? Paula, e seu lindo desejo de viver na alegria? Nilza, sua empolgação? Kotz, por que partiu? Lobão, sempre sua lindeza? E seu pai, como esquecer? E sua mãe, naquela manhã desprevenida em que soubemos toda a dor uma da outra sem nada dizer?  foram poucos. mas foram tantos. e mais, ainda mais, ainda todos que tocaram meu coração de algum modo).

talvez daí o choro. quase sete anos não é pouca coisa. então, ficamos assim. fui. e de lá, tanta coisa bonita. não posso nomear. ontem mesmo tive um sonho --- passei o dia com este sonho, como um acalanto a abrandar a aspereza dos primeiros dias em terra dos outros. e foi de lá. se a vida não fosse do jeito que é, talvez eu pudesse ter feito com que o sonho fosse real. e como teria sido corajoso, imprudente, desafiador. mas ele fica bonito como sonho. e já basta.

e agora, neste entremeio, dentre tantas das minhas frases feitas, dia desses tasquei mais uma: "todo mundo leva seus dentes para onde vai". então, eu vim. e trouxe apenas algumas esperanças. os dentes estão aqui comigo. e se eu quiser que seja diferente, terei que arrancar alguns deles.
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(Vanessa, desculpe. os dias estão tão cheios que não consegui fazer uma postagem bonita sobre a despedida de Vilhena. Mas saiba que dentre as tantas gentes bonitas você foi uma delas. Tão linda! Jovem-casada-religiosa. Uma junção de uma série de predicativos que considero temerosos, mas quanta dignidade há nestes predicativos em você. Um dia flagrei um sorriso cúmplice entre você e Fábio -- e segui com esse sorriso o dia todo como um presente, uma dádiva.  Porque vi tanta beleza! Como não admirar? Obrigada pela presença sempre tão luminosa!)

(Fotos: na cidade que não existia, o paraíso particular::: fotografei a casa várias vezes - para testar a luz na câmera nova, para guardar, mas sobretudo porque eu queria um dia ter fotos com qualidade suficiente para enviar a Mariflor, que tem um blog super lindo sobre casas. Como não consegui fotos com qualidade, protelo indefinidamente este desejo, mas deixo aqui o registro desta casa que construí em Vilhena e que agora está toda encaixotada neste apartamento no Sul da Bahia).
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domingo, 15 de março de 2015

Para o Poeminha - sobre o perdão.


 

 
Poeminha, eu achava que sabia muito do perdão. Pensava que já havia me confrontado com situações, uma e outra e outra vez, em que havia sido preciso perdoar o imperdoável. Mas a cada dia que convivo com você percebo que isto, de retirar com a mão cerrada para depois abri-la o que tantas vezes nos aniquila, é um exercício de todo dia. E tantas vezes é você que me ensina isso.  Pois o que se espera de uma mãe é de uma enormidade sem tamanho. E a equação não bate, filho, porque essa espera vem do seu merecimento. Você merece a melhor mãe do mundo. Mas acho que a melhor mãe do mundo não existe, filho. Porque não somos apenas mães.

Quantas vezes fico pensando que você merece mais do meu tempo e que nem todo abraço dado agora será  suficiente:::: dizem que uma hora você não vai querer mais o meu abraço, que vai ficar avaro com a explicitação do amor – e fico me antevendo órfã e desamparada, pensando no quanto deveria ter dado mais e mais e mais abraços, ter ficado mais e mais tempo com você:::: --- na semana passada, fiquei com aquela nave espacial na mão e todas as lágrimas prestes a rolar e você percebeu e ficou nervoso e preocupado e foi logo dizendo que depois papai montaria ---. eu deveria era aprender a desenhar e a montar esses cubos que vêm na sua revista. Coitada da sua mãe que não sabe manusear as mãos, e tirar delas cubos, bonecos, bichos, sonhos. e sem saber moldar a massa, vivo à turras com essas massinhas coloridas que são o meu terror e a sua alegria. Deve ser por isto, por esta sensação de falta, que sempre as compro, e logo depois juro de pé junto que nunca mais vou comprá-las, para depois esquecer os pés-juntos e comprar novamente, mesmo sabendo que vou ficar toda atrapalhada com elas grudando em tudo que é canto. ----- e se eu fosse tio Vandes, heim, filho? Que sorte, que sorte seria a sua...

E hoje deu vontade de sentar aqui, filho, enquanto você está na sala com suas massinhas, porque me deu uma ternura imensa o tempinho que fiquei ali com você, limpando o terreno para que você possa espalhar seus sonhos. E será, filho, que esse aprendizado do perdão que vem de você vai perdurar? porque, talvez, estar sempre em falta seja o prato de cada dia de todas as mães. E que isso é tão próprio do humano, filho. Porque não somos apenas mães, repito. Quanta dor eu teria poupado do meu pobre músculo atrofiado se eu tivesse descoberto isso antes, filho, se você tivesse vindo antes para me ensinar que nesta relação de mãe e filho é esse abismo incomensurável. E se, de algum modo, em algum momento, eu e minha mãe, comigo ainda menina, tivéssemos tido a chance, a sorte, a ocasião, o tempo, o momento. Acho que é o que eu procuro cavar quando lhe peço desculpas. A ocasião. Não deixar passar o não-dito. Ou o dito que fere quando sai intempestivamente. Me vem, logo a seguir, o desejo de ferir de morte esse mesmo dito, de apagar o grito, o gesto de impaciência, de cansaço. Quando eu digo que, "sim, mamãe, às vezes, é bem idiota" é que quero passar a borracha. Para aprender um pouco mais sobre o perdão, naquele exato instante em que você abre o sorrisão e pergunta o que é ser idiota. E eu tendo dizer, de forma capenga, sobre esse mundo das alturas que uma hora você vai alcançar. tento lhe dizer como é difícil ser gente grande, como é difícil isso da responsabilidade, dos afazeres de todos os dias, das mil tarefas que comem nossos dias – e do quanto é uma batalha não deixar que eles comam também nossos sentimentos, nossa delicadeza, nossa pele exposta às intempéries.

E só mais isso, Poeminha.

Esqueça não esse seu gesto de estirar a mão,  esse mesmo gesto que você fez ontem quando eu lhe pedi desculpas por ter gritado e você disse logo depois com um sorriso largo: “então, agora venha aqui para eu dar um beijo nesta barricotinha”, esta barricotinha que é minha barriga que você beija tantas vezes. Quando acontecer o inominável e de algum modo você for invadido no seu templo, lembre que é libertador, revolucionário, acolher o outro na sua indefesa do pedido de desculpa. A primeira vez, filho, que - de uma forma séria, grave, sem retorno - eu senti que realmente precisava decidir qual gesto seria o meu eu o fiz não pela pessoa a quem, por fim, eu decidi estirar a mão. Não o fiz por essa pessoa, filho. Fiz porque eram dele duas pessoas muito amadas. E eu perderia essas duas pessoas, se assim eu virasse as costas. E o que aprendi é que esse gesto originário traz muitos outros, porque é a chance de trazer de novo o outro para junto de si. E é bonito demais apreender o que vem depois quando não sucumbimos à mágoa ou, melhor, quando a solapamos de tal forma que é ela a ficar indefesa, estrebuchando diante das edificações que se levantam como que por milagre só porque a decisão foi levantar paredes depois da invasão:::: e levantar para colocar todos ali dentro. Eu mesma, o invasor, os outros, o que já não se é mais quando se descobre que é de todo dia essa aventura de estar no mundo e não estar só; de estar no mundo e viver essa difícil e extraordinária aventura de viver junto. De estar-com. E não apenas estar.  Estar-com.
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terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

para o filho de óculos




O contorno das pessoas e das coisas perdia a nitidez, tudo se tornava desfocado, até os sons pareciam mais abafados. O mundo, quando eu o via sem óculos, perdia a aspereza. Ficava tão suave e macio quanto um travesseiro fofo no qual encostava o rosto e terminava por adormecer.
- Está sonhando com o quê, Filomena? – papai me perguntava. – Você deveria pôr os óculos.
Eu obedecia e tudo retomava a rigidez e a precisão costumeiras. De óculos, eu via o mundo tal como ele era. Não podia mais sonhar.
(MODIANO, Patrick. Filomena Firmeza)



Poeminha, encontramos nos seus livros as palavras que eu não saberia lhe dizer. Pois tenho que confessar:::: doeu bem aqui no ponto mais sensível do coração quando seu pai me telefonou e me anunciou que você precisaria usar óculos. Filho, filho, impossível não ter ido muito, muito longe. Tão longe quanto é aquele lugar onde uma menina de seis anos pôs os óculos pela primeira vez e sentiu realmente que o mundo existia. Ao contrário de Filomena, toda a minha poesia de infância está na descoberta de um mundo nítido. Lembro com muita certeza das nuvens. Saber de sua existência, aos seis anos de idade, ao pôr os óculos, Poeminha, mudou a minha vida. Porque aos seis anos, talvez, eu já fosse uma leitora. E naquela época, me parece hoje, era tudo que eu tinha de meu. 


Faz 34 anos que uso óculos, Poeminha. E você, quatro dias.  Tenho longas histórias tristes, filho. E o medo de vê-las repetidas em você me fez logo pensar numa necessidade que eu não havia pensado para mim: seria comprar dois óculos – e os mais bonitos que achamos. E que plural, filho. Desde o início eu e o Tatupai confiamos a você  a escolha. E você vai lá, filho, e escolhe os óculos mais fodas que eu havia achado.  E sabe, Poeminha, eu escolhi passar a vida atrás dos óculos. Quando pude escolher, já não sabia como fazer. Quase nunca usei as chamadas lentes de contato. Comprei uma atrás da outra, quando pude, e uma atrás da outra, vi-as apodrecerem sem uso. E nunca cogitei fazer nenhuma operação corretiva. e acho, filho, que é por que nunca tive coragem de retirar esta prótese que me mostrou as nuvens. 


Esta sua mãe, que tem uma vaidade toda particular, usa um óculos de cada vez. E até que ele descasque, risque, borre. Tão dada a coleções, jamais colecionei óculos. A cada vez, cada um, trato-o sem cuidado, mas com toda reverência. Uma vez, Poeminha, num tempo muito distante, não sei como, uma das pernas de meus óculos quebrou. E foram vários dias a ver o mundo embaçado. Até que eu tive a ideia de ir lá, no fundo da gaveta, e ficar só um pouco com aqueles óculos de uma perna só. Só um pouco sentir a nitidez do mundo. Não sei qual foi o movimento, mas os óculos caíram na beira da calçada daquela casa cor-de-rosa e uma das lentes quebrou. Como sofri, Poeminha! Como dizer àquelas pessoas que os óculos, agora, sim, eram uma prótese inútil. Tive medo de ser repreendida. Chorei. Senti como um grande castigo – precisar de óculos – e eles terem me traído por duas vezes. E agora? Como iria dizer que eu era a culpada de eles terem quebrado – e por duas vezes?  Não lembro o que aconteceu depois. Ficou apenas este saber de não saber viver sem óculos. 


E lembrando agora, desta história triste, não vou lhe dizer que você pode quebrar quantos óculos quiser. Vou lhe dizer que, sim, é bom que existam óculos. Que como nós eles são tão frágeis. E que, embora não sejam gente, são um pedaço de nós. Mas você pode escolher deixá-los de lado. Fazer outras escolhas que não as minhas. E que, sim, Poeminha, quando um acidente ocorrer, não hesite em me dizer::: eu faço o que for preciso, mas jamais lhe deixarei um dia a mais sem a possibilidade da nitidez. Para que como Filomena você possa escolher ficar sem ela – a nitidez – a hora que quiser.


Posso lhe garantir:::: é bom. Não tiro os óculos para dançar, como Filomena, mas tiro-os em tão poucos momentos::: para dormir, tomar banho e fazer amor. Nos três, quanto mais os olhos se fecham involuntariamente, mais bonito é. Acredite. 

E acredite ainda mais:::: você ficou lindo de óculos.
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domingo, 8 de fevereiro de 2015

Nina



Nina nos escolheu. e isso virou uma grande responsa. e uma alegria. não sou adepta de tratar os animais com mais atenção do que se trata as gentes. sou desatenciosa tanto com um quanto com outro. mas sou louca pela Nina. como já fui louca pelos meus outros gatos, Joplin, Janis e Lady, que viveram comigo há muito tempo, quando eu era outra. Nina veio. não demos a menor atenção. e mesmo assim ela não foi embora. então, demos atenção e nunca mais paramos de dar, a ponto de Poeminha dizer: "nossa família somos eu, mamãe, papai e a Nina". acho justo. acho de bom tamanho, embora nos dias ternos eu fique imaginando que seria bonito outra pessoinha desarrumando a casa junto com Poeminha.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

aqui um pouco mais.


passei o mês de janeiro sem fazer nada - nada da lei da utilidade, da responsabilidade. parte do mês fui visitar meu amigo Binho - e mostrar um pouco da Sampa que eu amo para o Poeminha. foi bonito. bem bonito. passeamos de mãos dadas todo o tempo. ora de metrô, ora de táxi, ora a pé, fui lhe dizendo por que amava Sampa. fomos a um tanto de lugares - eu e ele. zoológico hopi hari exposição do salvador dali do ron mueck castelo rá-tim-bum livraria cultura teatro showzinho comprinhas. às vezes, encontramos alguns amigos (ele e Maria Teresa - tão bonitos, ele apaixonado pela Lu, irmã de Carlinha; e nós, meio-dia em ponto, a conversar com aquela senhora tão maravilhosa naquela longa fila, e naquela outra a esperar o Emerson, nós a visitar a Lan,  e o tio e os primos.....). às vezes, foi tenso. em casa a liberdade é sempre tão maior. é sempre uma tensão o confronto do olhar do outro ante uma criança. é tanta adulteza no mundo que, às vezes, eu emboto todo o meu olhar. mas o bonito que foi não há como retirar. estar ali com Binho e poder conversar com Carla e poder ouvir a Lu e poder sentir os silêncios de Clara, foi bonito.  aprendi um tanto de mim e aprendi um tanto deles - e isso é tudo.

mas quando voltei, ainda estava com o mesmo olho embotado do fim do ano passado. como este rato no jogo de xadrez. precisava parar. precisava de algum hiato que pudesse me salvar de mim mesma. e dos outros. vi que não podia começar a pôr em dia todo o trabalho já acumulado. sempre esta crise. sempre este não saber o que faço com a universidade.  minha amiga Mariamada já me viu tantas vezes neste mesmo lugar - nesta vontade de parar, de saber viver outra vida. e sabe que eu sempre retorno. gosto, faço, me empolgo. mas tem horas que fico "inchada", como uma adulta que não se conforma de ter perdido a criança que nunca foi: evento pra organizar, aulas para ministrar, trabalhos de orientandos para ler, artigos pra escrever e mais uma infinidade de pequenas coisas... tudo isso me parece tão-sem-sentido às vezes. e eu me sinto tão pequena. fico sem saber onde começa minha vida pessoal e termina a profissional. tem horas que vira tudo trabalho - por mais bonito que seja. daí, eu acato estas pequenas crises. e com elas respiro. vou bem ali ------ meus hiatos. acho que morreria se eles não existissem. ou, tirando o excesso do drama, não me acharia mais. nem por excesso, como na mamografia que fiz nestes dias. este apertar os peitos, senti-los contra a laje fria da máquina. e sair de lá, dissecada, radiografada. e ainda sem mim.

em dezembro, eu estava assim, com uma cartela de tarefas. não via como parar. e aí chorei no ônibus vindo de Porto. E aí chorei outro tanto de vezes. e aí comecei a ser dada a solidões. ou passava os dias tentando "colocar em dia" os trabalhos. ou estancava aquelas lágrimas todas ---- que vinham de um tanto de lugares. estancar. cortar a pulso. escolhi a segunda opção. e li dez romances desde então. ora na rede - a que balança, ora recostada na cama - a que tem a melhor luz. e verti lágrimas por outras dores além das minhas. deixei passar por mim histórias outras - tão mais grandiosas, tão mais sublimes que a minha. e me deixei carregar. deixei deixei deixei ---- assim, toda a luz, mesmo que não vissem, que eu não visse, que não dessem importância, que eu mesma não desse importância. deixei deixei e senti um tanto de sentidos.

e agora, espero estar pronta para voltar. voltar com mais solidez. voltar com mais atenção ao que há no resto do tempo que é preciso criar. agora, é a prova dos noves. agora, é um ano que está no início. agora, é uma vontade feita de erros, de desconcertos, de precariedades. 
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e lá, comprei uma nova máquina fotográfica. cumpri a promessa de só comprar outra depois de pagar a que me foi roubada em Paris. e desta vez, investi ainda mais alto ---- como uma senha para investir ainda mais naquilo que me retira de todo este turbilhão da produtividade, embora, às vezes, seja tão bonito. como este momento:::: no meio da tarde, últimas páginas de O manual dos inquisidores, vejo o email e está lá a equipe da revista anunciando que saiu o número da revista com nosso artigo --- e eu lembro de como ele foi escrito, de que forma eu e Lili pensamos sobre literatura brasileira contemporânea, de como vamos construindo este diálogo::: ela, com um forte poder conceitual, com uma memória poderosa; eu, não sei. mas diálogo, sim. e tive que, dessa vez, dormitar um pouco mais. dormitar um pouco mais entre a alegria e a alegria. 
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sábado, 24 de janeiro de 2015

Luz em agosto, luz em janeiro

não deveria nunca existir um livro como Luz em agosto, de Faulkner. somente deveriam existir livros como Luz em agosto, de Faulkner. nos poupariam um bocado de leituras inúteis. leituras sem paixão. leituras protocolares. desmesurada como sou, uma tarde tive que abandonar Luz em agosto. não adiantou chorar bem alto. precisei sentir no corpo aquilo que me vinha como um passado imemorial. e uma vez que a vida é comezinha, fui lavar a área da casa. esfregando ali toda a dor ressurgida por meio daquelas linhas. daquele silêncio ávido de palavras. quando todas estão ali --- dentro da cabeça. em outras tardes, bastou ficar em silêncio sentindo toda a vida passar ali ---- como o que não tem volta. 

desde que li Enquanto agonizo, Faulkner é um dos meus escritores essenciais. foi com ele que aprendi que aquilo que eu penso nunca é o que o outro pensa que eu estou pensando; e o que o outro pensa nunca é o que eu penso que ele está pensando. parece complicado, mas é simples de entender depois de ler Faulkner:::: o fato - ou o acontecimento - está ali. tudo leva a crer que os envolvidos pensarão e agirão de determinado modo diante do fato - ou do acontecimento. e aí Faulkner dá voz as suas personagens::: e nada, nada, nada é como imaginamos. é tudo confusão. é tudo engano. é tudo embaraço. é tudo a partir de um "eu" insensato inseguro impensável. como é difícil. como é difícil. e como é simples se imaginarmos a justa distância de cada um, a diferença fundante. 

não são as diversas histórias que me atordoam. não é o fato de elas "estacionarem" em determinado ponto para retornarem muito tempo depois::: o que me atordoa é a matéria humana de que são feitas. Joe Christmas, a personagem mais impactante do romance, pode até nos ensinar toda a tragicidade do que é estar no mundo numa pele que não é a sua::: um negro na pele de um branco, em Jefferson, no condado de Yokanapatawpha, este lugar fictício criado pelo escritor para expor todas as mazelas dos Estados Unidos. Nesse lugar, Christmas será perseguido, condenado e morto. E não haverá compaixão. Ele também não sabe o que é isso. Carregando a sua história como um fardo, é todo revolta, é todo confusão; nada nele é da ordem da identificação. o bem, o mal e o duvidoso misturam-se de uma maneira terrível e irreversível, em que todos desejam algo que não estão neles. 

Christmas nos ensina, mas tantos outros dobram a nossa coluna::: Byron Bunch, por exemplo::::: que foge do mundo, das quais as tardes de sábado em que continua a trabalhar, enquanto os outros vão embora, são a prova inelutável. até que Lena Grove aparece. logo ela, límpida, tranquila, determinada, na sua longa travessia do Alabama ao Mississipi, à procura de Lucas Burch, de quem carrega um filho. Lena é mais uma das personagens que serve para alicerçar o mundo terrível de Faulkner, no qual todos, sem exceção, sofrem com a impossibilidade do encontro. onde não há paz nem descanso. nesse sentido, a história de Gail Hightower, ex-ministro da igreja, expulso pela igreja, expulso de sua comunidade, mas que se recusou a ir, e passa a vida isolado, sozinho em sua casa, como mais um dos párias desse longo e triste romance, prova o  quanto Faulkner escrevia para pôr em xeque a comunidade. para representá-la como o lócus de todo tipo de segregação - religiosa, racial, de gênero. Christmas, Lena, Byron, Lucas/Joe, Gail, Joanna Burden - e ainda uns tantos outros - estão à mercê de si mesmos. e dos outros. não importa que uma hora ou outra suas histórias se encontrem - e elas se encontram. nenhum pode ajudar um ao outro. nenhum pode ser ajudado. talvez Lena e Byron - mas o "momento final", narrado em off por um homem "de passagem", que lhes dá carona como prova de que a travessia continua, não diz exatamente isso, não abre, de fato, nenhum vão de esperança. e é por isso que são personagens inesquecíveis, que é um romance que só pode trazer um tipo de felicidade: o da leitura. todo o resto é desalento. 

e é por isso que não posso fazer nenhuma crítica. nenhuma análise. só posso agradecer por ter me dado o tempo de ler este livro em janeiro de 2015, depois de ter ido lá, fazer o que achei que deveria fazer, o que eu queria fazer. assim. simples assim. por isso, não é uma resenha de Luz em agosto. deve haver várias nesta rede. este texto é apenas para dizer que morri um pouco ao ler Luz em agosto. e que vivi um pouco mais - como deve ser a vida - ao ler Luz em agosto.  e isso só pode ser o prenúncio de um bom ano que se inicia. assim desejo.
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quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

oui, je suis charlie!



Eu sou Charlie, sim! Entendo em parte a comoção inicial das pessoas e também a desorientação posterior quando tomaram conhecimento do que era o Charlie Hebdo. No Brasil, a surpresa deve ser ainda mais geral, já que se existe um jornal semanal totalmente  dedicado ao humor desconheço completamente. E dá-lhe a turma do politicamente correto querendo se retratar por "ser Charlie". Afinal, Charlie era, em letras garrafais, ou melhor, em charges monumentais, escancaradamente politicamente incorreto. 

Adianto logo que olho para o discurso do humor com grande desconfiança. Nunca tive leveza suficiente para encarar certos discursos de humor. Por um acaso que só as férias podem proporcionar, nestes dias, assisti ao filme "Minha mãe é uma peça", passado na rede Globo. Disseram-me que é um filme de humor de bastante sucesso. E eu achei um horror. Para mim, uma forma caricata, rasa  e agressiva de "ler" as diferenças entre mães e filhos. Não achei nada engraçado, enquanto ouvia risadas ao meu redor. Mesmo o Porta dos fundos, que prometia ser a grande redenção do humor nacional, só me divertiu uma noite. Depois, comecei a achar tudo plastificado demais e abandonei de vez. Eu sou leitora - e assinante por achar que, assim, contribuo para a sua sobrevivência - das revistas Cult e Piauí, que têm tão poucas sessões de humor que é facilmente possível "pular" sem esforço algum e reportagens e dossiês longos e por vezes maçantes que constantemente me vejo perguntando quem como eu ainda os lê. Então, evidentemente, não tenho nenhuma afinidade com o humor do Charlie Hebdo

Entretanto, depois dos dias, tendo lido textos coerentes e emocionados, prós e contras, ao Charlie, continuo convicta de que, para mim, não há outra forma possível a não ser assinar embaixo no "Je suis Charlie". Desde o "11 de setembro" norte-americano, o uso da palavra "terror" serviu para um sem-fim de aberrações. E por conta disso, discordo totalmente do uso ideológico dessa palavra. Então, "ser Charlie", para mim, também não tem nada a ver com compactuar com o uso político indevido do atentado, que incita a "islamofobia". "Ser Charlie" é, para mim, ser contra a um tipo de violência superior a qualquer outra - aquela que tira a vida de sujeitos.

E sim, é ser contra um certo discurso religioso.   

Há cerca de quinze anos, decidi não seguir mais nenhuma religião. Nos anos anteriores a essa decisão, tentei participar ativamente de comunidades religiosas e, na verdade, foi nelas que perdi a crença. Na minha experiência, os líderes dessas comunidades abusavam enormemente de sua posição, tentando insuflar opiniões que, para mim, sempre foram verdadeiras aberrações da cultura do humano. O discurso separatista que eu pressentia ainda na minha adolescência está em todas as religiões e, parece-me, nos últimos anos, apenas se exacerba. E de modo geral, é um discurso que segrega, que confina todos em um mesmo lugar. O velho ditado "Diga-me com quem andas que te direi quem és" é, a meu ver, uma mal disfarçada forma de projeto de convívio tão somente entre os iguais,  abominando toda e qualquer diferença. 

Se a fé não tem absolutamente nada a ver com os atentados que acabaram de ocorrer, e não param de ocorrer todos os dias, em escalas menores, mas não menos virulentas, para mim, é inegável que os discursos religiosos carregados de ódio possuem um cota grande de responsabilidade por esses atentados contra a vida. Não todo discurso religioso, leiam bem. E sim os discursos religiosos carregados de ódio contra as diferenças. Não precisamos pensar no islamismo para aceitarmos como fato a proliferação desses discursos. Somos seres constituídos em sociedade. Parte do que somos é resultado da interação nas comunidades, dentre elas as comunidades religiosas, que têm um papel fundamental no modo como vivenciamos e refletimos sobre as experiências. Em síntese: o sujeito se constitui pelo discurso no interior das comunidades. E o que se ouve, e como se vai elaborar isso, é a diferença entre a fé e o fanatismo, num limite sempre indefinido, perigosamente indefinido, indecidível. E como não ser? Como participar de uma comunidade que tenta a todo custo nos provar que ela é "a comunidade eleita" sem pensar que as outras pessoas devem ser doutrinadas segundo nossos preceitos? Foi por não ter resposta para questões como estas que eu me afastei das comunidades religiosas, mas quero crer que não de um certo pensamento, ou certa reflexão, sobre um ser - para além de nós..

E não foram poucas as vezes que, de diferentes formas, me senti intimidada ao dizer que não tenho religião. Na maioria das vezes, as pessoas me olham como se eu fosse uma degenerada e vivesse em um antro de perdição. Que me atire a primeira pedra quem não me olhou com desconfiança - do amigo mais leal ao mais distante conhecido. Já passei por situações que pressenti que, se pudesse, a pessoa entregaria Poeminha ao conselho tutelar devido ao fato de não oferecermos a ele uma educação relacionada a uma religião específica. E se não oferecemos, é por que estou convicta de que o que ele precisa aprender é uma relação de respeito e cuidado com o outro - o outro como ele, em suas diferenças fundantes. Na escola, a professora, certa vez, disse que ele não podia brigar com os "coleguinhas", porque "papai do céu" iria castigá-lo. Fiquei pasma.  E tudo que pude fazer no papel de mãe, foi tentar desmistificar essa ideia, reafirmando que ele não podia bater, brigar, xingar uma pessoa, um colega, um amigo, por causa daquela pessoa - porque as pessoas merecem respeito e cuidado. Pedi para ele se colocar naquele lugar de quem foi xingado. Sim, sentir a pele do outro a partir da própria pele. Saber que dói, saber que há consequências que dizem respeito ao encontro com o outro, ao convívio com o outro - que é sempre um assombro de diferença. Evidentemente, faltava no discurso do Charlie essa fricção de pele em que se é atingido brutalmente pelo que o outro diz, faz e sente e, ao invés de querer reagir em contrariedade, saber simplesmente deixar esmaecer as diferenças em nome do respeito mútuo que a vivência em sociedade exige ou deveria exigir, mas aí isso ser razão para justificar o ataque, convenhamos, há uma diferença fundante e essencial. Para mim, é como admitir que o estupro existe porque as mulheres provocam. Porque, sim, todos foram mortos devido ao que escreviam e quem os matou deixou bem claro que o conflito era da ordem do pensamento religioso. Aceitar isso não significa admitir que todos os discursos religiosos são geradores de ódio, mas, sim, que alguns, incontestavelmente, o são.   

Nunca é apenas um indivíduo que puxa o gatilho. Somos feitos dos outros. E exércitos inteiros estão sendo formados sem esse mínimo cuidado. E não são apenas nos movimentos "terroristas" organizados, como nos querem fazer crer, que vemos o horror às diferenças Quando se mata alguém, não é a ideia que morre. Sai sangue é do corpo. É uma vida que se tira, se retira. As ideias continuarão todas aí. Três milhões de exemplares do "Charlie Hebdo" circularão hoje. Quem morreu? Gente, porque é gente que morre, é de gente que esguicha sangue. Enquanto as comunidades religiosas não derem conta de propagar uma ideia tão simples de respeito ao corpo do outro, haverá sempre esta falência comunitária. 

Então, se hoje já se levantam tantas vozes contra o discurso do Charlie, que se levante também vozes contra o discurso religioso fundamentalista. Quem vai proteger as mulheres? Quem vai proteger os homossexuais? Quem vai proteger as pessoa dos atos bárbaros que se realizam em nome da religião? Por que toda esta gente que agora exige de um "jornal irresponsável" a responsabilidade por seu discurso não faz o mesmo quando ouvem nas redes televisivas nacionais discursos reacionários contra os direitos das mulheres, contra a simples existência dos homossexuais? Quem sustenta hoje o discurso homofóbico? Quem faz lobby para não haver campanhas contra aids porque seria um atentado à família? Quem coloca a mulher numa posição de subserviência ao homem? Por que o discurso religioso é intocável, em nome da liberdade religiosa e o discurso do humor não poder sê-lo, em nome da liberdade de expressão, uma vez que tanto um quanto o outro são falhos e guardam em si uma enorme carga de incoerência e preconceitos?

Então, que me perdoe Leonardo Boff, a quem tenho verdadeira admiração, e muitos outros, mas eu sou Charlie, sim. Eu acho, sim, que os discursos religiosos fundamentalistas são perigosos e violentos, porque dão vazão e razão a atos violentos. E acho, sim, que eles matam mais gente, que massacram mais gente, que separam mais gente, do que qualquer discurso de humor. E como já disse, tive uma relação muito próxima com religiões. Tentei uma e outra e outra vez. E todas as vezes me espantei enormemente. Tenho um irmão padre. E tenho uma família que antes olhava de revés para esse meu irmão e agora que ele é institucionalmente padre afirma amá-lo desde sempre - e credito isso, sem ironia, à força da ideia de religião. Tenho uma irmã evangélica. Uma irmã linda, de coração maior que o mundo. Então, cada vez que me ponho a pensar sobre essa questão, não mapeio nada pela intolerância. É mesmo desconfiança. Guardo em mim a ideia de que necessitamos de um ser, uma força, uma essência desconhecida para nós corporalmente, mas escolhi não buscar esse ser em nenhum espaço físico, nenhuma comunidade, por temer essa indecidibilidade entre a fé e o fanatismo.

Por convicção intelectual, penso que é possível - e necessário - creditar uma certa irresponsabilidade aos discursos. Que certos discursos podem e devem estar livres das ordens institucionais. Que podem ser virulentos e contraditórios, mas justamente por serem contraditórios que sejam compreendidos em sua contradição. Que se duvide deles. Assim, diante de uma charge de "mau gosto", que se saiba virar as costas. Diante de um discurso religioso extremista, que se saiba perceber o extremismo - e também virar as costas. 

É assim, contra o gesto, contra o sangue que sai dos corpos, que eu sou Charlie. Que eu sou todo e qualquer homossexual morto por intolerância religiosa. Que eu sou toda e qualquer mulher intimidada e subserviente ao homem. Que eu sou todo massacre como o da Nigéria - obscurecido pelo da França e usado como exemplo para não ser Charlie. Que eu sou contra a pena de morte.

E apesar de tudo, penso que é vital perdoar o imperdoável:::: como as charges, como o ataque à redação do Charlie. Perdoar o imperdoável é abrir a via que barra a intolerância, o preconceito, a miséria humana.
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quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

on est tous charlie

pensei em escrever destes dias. mas os dias - para além da minha história - estão tão tristes. esquecer o homem, cada um, em nome de qual fé é difícil de entender. que todos possamos ser contra. que hoje todos sejamos charlie hebdo - para que não seja essa a nossa herança.



::: Jean Jullien
 


::: Martin Vidberg

... Francisco J. Olea



::: Buzzfeed

::: Bernardo Elich


quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

de grande, nada sei.



no facebook todos tiveram um "grande ano". não sei por que lembrei de Fernando Pessoa. mas isso não importa agora. não me interessam os festins. disse algumas vezes - as vezes na lágrima, as vezes no choro que não saiu, as vezes bem alto e outras num silêncio absurdo - que este foi um ano "desgraçado". talvez disse isso mais para lembrar que nunca tive medo de palavras fortes do que propriamente para definir o ano em si. e ainda assim foi um ano bom em muitos sentidos (.....................................................................................................................................................................................................................................................................................................................) houve as decisões -- as teimosias -- a vontade de não me deixar apenas seguir o curso -- os momentos bonitos. houve muito no que me agarrar. e na impossibilidade da ponte, o mergulho naquilo que poderia me salvar foi o mais definidor. pois um peso indefinido alastrou-se por tudo que poderia ter sido bom. e eu me perdi e tive que fazer muito esforço para me encontrar. e foi dolorido como fazia tempo que não era. e foi solitário. tive que me debater com muitas questões e somente agora talvez alguma possibilidade. tive que de novo e de novo pensar nesta falência de projetos comuns. nunca me pareceu tão difícil viver em comunidade.e ao mesmo tempo nunca foi tão esclarecedor sobre mim e sobre os outros  (.........................................................................................................................................................................................................................). achei que o ano em que fiz faz quarenta anos poderia ter sido mais generoso. mas como é mesmo que deve ser um ano ninguém sabe. e me anima pensar que talvez eu fracassei menos do que muitos daqueles que tiveram um "grande ano". pois não me faltou coragem para pensar em tudo que estava acontecendo. e eu só tenho medo de não saber entender. e eu não entendi muitas vezes. mas me esforcei em planos que fracassaram, em interpretações que não vingaram, em ..................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................) e acho que só pode ser assim. este estar no mundo esfarrapado onde a vontade de persistir seja sempre maior do que qualquer outra vontade. (..................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................) esta imagem aí de cima é uma imagem imperfeita. sem técnica. apontei a objetiva e disparei com a ajuda do automático. são os fundos do edifício copan. a parte menos glamourosa. e mesmo assim, as decisões de Niemeyer me impressionam enormemente. é um enorme paredão de vidro com divisórias de ferro. quem mora ali - imagino - pode num dia de dor profunda ou de alegria imensa encostar-se na transparência do vidro e sentir-se quase como que solto no ar. não há varanda. não há rede de proteção alguma. a transparência do fora. é preciso perder um bocado de medo para ter coragem de morar num lugar assim, é o que imagino. pois é como tenho visto o que vejo. tirei esta foto hoje à tarde. amanhã é 31 de dezembro. no próximo ano, a imagem talvez continue imperfeita. mas o que quero - dentre os tantas quereres - é que muito em breve possa existir a técnica. apontar a objetiva e disparar a partir do que eu aprender. é deste aprendizado que é preciso não abrir mão, é o que penso. (...................................................................................................................................................) e por pensar imagino um ano que vem mais alegre. uma alegria do estar atenta. não precisa ser "grande". mas que seja inteiro. e que as pontes sejam possíveis. e que tanto para mim como para o tatupai e para o poeminha seja um tempo bom, é o que desejo. com desejo.
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quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

carta na janela à turma MEL 2014.2



fiquei pensando, enquanto voltava para casa, depois desta semana intensa, que havia muito ainda a dizer. o que eu não disse. o que vocês não disseram. isto do tempo. e da insuficiência das palavras. relembrei o que pensei como figura da disciplina::::  “A linguagem é uma pele: fricciono minha linguagem contra o outro. Como se eu tivesse palavras à guisa de dedos, ou dedos na ponta de minhas palavras. Minha linguagem treme de desejo ... Falar amorosamente é gastar infinitamente, sem crise; é praticar uma relação sem orgasmo” (Barthes). e quase todo tempo foi isso para mim, acreditam? 

eu dou pouca importância para muita coisa na universidade. o famoso "cago e ando". e estou convicta de que a vida pede isto::::: um certo alheamento para o mundo-cão. viver de tal modo que apenas o que me interessa tenha importância. e a docência me interessa. tem muita importância, portanto. professora, eu penso na minha linguagem como uma forma de tocar o outro. porque sou professora de literatura. e literatura tem muita importância. literatura é onde se podem desfiar as linhas mais torpes e mais doces. é onde se pode falar amorosamente do outro, sobre o outro e onde também se pode morrer, matar, matar o outro. literatura é a linguagem do impossível. 

não sei se deu tempo de dizer a vocês que antes de ler literatura brasileira contemporânea, eu só lia italo calvino, graciliano, thomas bernhard, antonin artaud, kafka, dostoiévski e...  beckett, que descobri no meu penúltimo ano de doutorado. descobri muita coisa no doutorado, acreditem. descobri e/ou alicercei estas experiências-limites de ser leitora desses autores que nunca escreveram para nos dar paz. e vi certamente mais de quinhentos filmes nos quatro anos e não sei quantos livros li porque ainda não tinha a mania de listá-los. mas a lista, se existisse, seria enorme igualmente. listei também as peças de teatro, os shows... e não foram poucos. e os países não cabem nas minhas duas mãos. 

não digo isso para lhes dizer que este é o caminho. talvez diga para constituir uma imagem que eu acho bonita. que é a imagem do desejo. o desejo é o oposto da burocracia, do conveniente. então penso que tudo que fiz no tempo do doutorado é dessa ordem incerta do desejo. a tese é bonita, acreditem. sem que eu diga uma linha, diz muito de todas estas experiências. desta minha experiência de estar inteira para o mundo. não tenho dúvida de que em cada linha está dito::: é por amor que escrevo. e escrevi muito. trocava dias pelas noites. fechava janelas e acendia luzes nas tardes e assim, como um deus brincalhão, fazia com que as noites surgissem antes das noites. e me apaixonei loucamente pelo(s) sujeito(s) sobre o qual(is) escrevi. ainda hoje, quando me vejo num impasse, quando penso que talvez seja preciso estar mais atenta, menos alheia, é nele(s) que me guio. e daí não tenho medo algum. daí estou entregue às experiências de dizer. e dizer como quem acredita. como quem ama. uma amadora (é linda esta imagem do Barthes, já leram?). pois é preciso ler. e ler como nordestino/a. na calada da rede. não nesta rede midiática, mas nesta que range, que é preciso distorcer os punhos antes de nela deitar.
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e quando ensino, e estou no meio de uma turma como a de vocês, que vai passar pela experiência da escrita, da leitura, fico com vontade de espalhar estas incertitudes. de reafirmar toda a potência da experiência da pesquisa. da leitura. do pensar. do vivenciar. tenho vontade de sepultar a burocracia, o conveniente. tenho vontade de dizer: apenas amem. e cuidem de tudo que vier deste amor. se isso lhes trará sucesso, dinheiro, sossego, não vale a pena pensar agora. quanto a mim, posso dizer que trouxe o que eu já tinha em mim:::: desassossego e alegria [é também bonita a alegria barthesiana], vontades e um certo tédio, emoção e uma certa poção de descrença.

para esquecer - ou para intensificar - a experiência das nossas duas semanas, agora vou reler Em busca do tempo perdido - estes temidos sete volumes. Ou serão oito? na minha edição resumem-se a três. enormes catataus de três. e por que escolhi este catatau? porque fiz recentemente quarenta anos, porque a vida é uma narrativa escrita por nós mesmas.  e achei que seria bonito, quando ficasse velhinha, se eu ficar, dizer que reli Em busca do tempo perdido quando fiz quarenta anos. agora, tenho mais certeza de que foi a escolha certa. Proust será, nas próximas semanas, minhas armas. minhas armas de Jorge. conhecem? 

bem aqui, ó! >>>>>. assim mesmo, no improviso. caetaneamente. como tudo. feliz tudo pra vocês nos dias que virão.
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as imagens foram tiradas por mim, enquanto as crias de Nina, nossa "gata peluda", faziam de minha biblioteca um enorme parque de diversão. achei que tinha tudo a ver com o que eu queria dizer a vocês::: pesquisar, escrever, ler, quando passa pelo desejo, é como um parque de diversão. é só se deixar levar pelo ritmo desconcertante de algum brinquedo que gira, gira gira gir gi
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quinta-feira, 20 de novembro de 2014

à toa



(segunda feira retrasada, como se diz)

passei o fim de semana vendo filme::: tempo sem fazer isto. deste jeito::: sem mais nada a não ser escolhas aleatórias. pensar nos filmes, fazer as relações, escolher entre muitos. a lista está aí do lado. Comecei com Palo alto e terminei com Terça-feira, depois do Natal. Ou melhor, finalizei com a metade de Tatuagem. O computador desligou repentinamente e fiquei com preguiça de baixar novamente. hoje, na segunda, havia ao menos uns três emails "de urgência". não sei onde nos perdemos. sei que agora tudo parece para ontem. ninguém dá mais prazo de uma semana. ninguém pede pra gente pensar e depois dá a resposta. é para agora como se "agora ou nunca" estivesse se tornado um eterno "agora ou agora". é muita solicitação - aquela palavra estranha e ao mesmo tempo simples da postagem passada. 

mas tem hora que empaco. tem hora que enjoo de tudo isto. enjoo das tarefas das obrigações das pessoas. fico com vontade de silêncio. fico com vontade de adentrar em mim. ir bem fundo - como a personagem de um conto de Veronica Stigger que adentra umbigo adentro. pois fico com esta vontade. adentrar e ir até às vísceras. sentir as minhas vísceras. e suas viscosidades. mas um adentrar que não seja mero "umbiguismo". seja um adentrar em mim pelo outro. 

e para mim, ver filmes, ou ler livros, tem muito disto. um estar em mim que não é um "morar na minha própria cabeça", nem um mero rodear na possível pequenez de minha existência - não me deixo enrolar por nenhum sentimento de pena. pensar o meu estar no mundo como "vítima" é algo que está fora de cogitação. prefiro a soberba de achar que sempre vou saber me virar. sempre vou achar uma saída, por mais que, às vezes, tudo fique turvo. e é um filme como Seguindo em frente/ Andando, de Hirokazu Koreeda, e todos os outros que eu vi dele neste ano - que me diz para ser assim. um "dizer" sempre pelo indireto, um aprendizado pelo baque e pela delicadeza. ou um filme como Duas, de Werner Schroeter, que me surpreende a cada cena, que não se parece com nada que eu já tenha visto. por duas horas, é em Isabelle Huppert que penso, é a força que sai dela que me prende e me espanta. 
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no filme Terça-feira, depois do Natal, de Radu Muntean, o último a que assisti, numa das cenas mais tristes de separação que já vi no cinema, num certo momento, o homem diz que sabe o que está perdendo. mesmo assim, ele escolhe "perder" para ganhar uma outra coisa ainda incerta, mas absolutamente poderosa. também é a mesma questão, porém mais indireta, mais indefinida, de Aos nossos amores, de Maurice Pialat.  A cena final, em que Suzanne fixa o olhar para o vazio, denunciando todo seu vazio interior, é de uma violência tamanha. deixar que essas imagens adentrem em mim é uma forma de acatar não exatamente este vazio, mas de acatar o exterior - que, de algum modo, diz sobre o meu interior.  
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cinema, arte, literatura, é pra isto, né? ou deveria ser. 

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

para vocês, sempre, meu amor mais imenso

nestes dias, penso muito em amizade. em amor. talvez porque estes dois meses sejam pródigos de aniversários, justamente, de pessoas que eu amo. e amo bastante. e eu que não sou boa de aniversários, fico sempre meio aflita. a cada ano, imagino me redimir:::: chegar de surpresa. enviar o presente mais a cara da pessoa. escrever a carta mais bonita - para que elas lembrem que ainda existem cartas. e de fato, fico sempre na mesma - com a pessoa no meu pensamento. no coração. 

já disse, aqui mesmo, no nenhum-lugar, que me parece meio mágico que quatro das mulheres que mais amo tenham seus nomes iniciados com a letra "M", como eu. está certo que dois destes nomes se explicam pela mania da minha mãe por esta letra, ela mesma com a inicial "M", ela mesma um amor imenso. mas o que dizer das outras? dizer nada. mas gosto::: gosto de ter uma Mácia, uma Marta-Maneca, uma Marinalva, uma Marie em minha vida. soa bem. é sonoro. mas fico aflita todo mês de novembro. porque todo mês de novembro eu queria ser outra. e assim, surpreendê-las. somente Marie não faz aniversário neste mês. 

não vale, eu sei, dizer-lhes como as amo. como elas me são. porque isso, ainda bem, parece que digo sempre. de um modo ou de outro, de uma forma também mágica, a cada uma delas devo a minha vida. em cada momento, uma delas me salvou, levantando o alicerce do que hoje, para mim, significa estar aqui. não há muito o que dizer quando há uma dívida deste tamanho. uma dívida que não custa. uma dívida que, para mim, é toda gratidão.

Maneca me deu uma outra vida, quando eu ainda não sabia que queria esta nova vida. e nunca, em nenhum momento, permitimos que houvesse entre nós a menor desdita - mesmo quando a possibilidade era grande, soubemos manter isso que simplesmente é amor. Mari pegou minha vida pela mão e disse:::: "é assim". não sem espernear, eu acatei. devo a ela as duas maiores "guinadas" de minha vida e, ainda, uma profissão, amor-próprio, coragem. pouco não. quase tudo. poderia dizer que ManaMácia me deu a vida. é quase certo que, não sendo ela enfermeira, eu tivesse morrido de guilain-barré. foi ela que teve a percepção, a intuição ou a certeza da gravidade, quando todos ao meu redor me diagnosticavam com uma doença que até agora nunca tive. mas ela me deu bem mais que isso. antes que eu lesse Derrida, ou lesse Barthes, foi ela que me apontou o que é ética, cuidado de si, cuidado com o outro. eu tinha quinze anos e desde lá suas palavras me soam como fundantes, originárias, decisivas. e meu anjo ruivo Marie me deu a palavra. e a delicadeza. um ser-outro que me fascina, uma calma que me acalma e, ao mesmo tempo, um turbilhão, ali, nos seus belos cabelos ruivos. pude sentir isto, de novo, quando a reencontrei este ano. quando a vi, bem ali, senti um amor tão intenso, tão generoso, como se todos os dias fossem dias de nos vermos. e é assim com cada uma delas. 

e é também assim que a cada novembro elas preenchem minha vida. todo dia 8, dia 15, dia 25, cada uma delas me preenche. me toca. não tem distância que tire isto. não tem silêncio que me faça esquecer. e na verdade, não tem dia que eu não agradeça por elas existirem - e por existirem em minha vida. 

"feliz aniversário, meninas! para vocês, sempre, meu amor mais imenso". 
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e se fosse a hora de alongar esta conversa, também poderia falar dos homens importantes em minha vida que começam com "M", e mais, com "Ma", como elas::: Marcos, Marcio... Melhor deixar esta prosa para depois. com eles tenho vergonha de me "derramar" deste jeito. mas eles sabem. sabem também de meu amor. porque dizer do amor não custa. custa não. 
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** e sim, eu sei que flores são sempre meio bregas. mas estas flores são especiais. são do jardim da Bisa. são de um momento bonito. Poeminha estava lá, como sempre está. lá é o seu jardim. lugar de pisar nas pedras, de sentir o cheiro do verde, sentir o amor da Bisa. são flores especiais, acreditem. vejam::: ele estava lá. e isso faz toda a diferença. faz a diferença existir no mundo pessoas como a Bisa, que cultivam um jardim. e cultivam um amor, assim, imenso, por um menino Poeminha.