sexta-feira, 25 de julho de 2014

"Papai, agora eu já estou muito grande"

quando na vida os dias acumulam perdemos bastante das inúmeras possibilidades que teimamos em construir em nós. às vezes, ficam apenas os escapes, quase fugas próximas à loucura domada do dia-a-dia. na idade de quatro-cinco anos, que Poeminha agora atravessa, tudo é possível, tudo já existe::: "papai, agora eu já estou muito grande e eu sou um nadador, um pianista, um baterista, um estudante, um pulador". e penso que esse mundo largo existe não apenas porque essas atividades-seres fazem parte do dia-a-dia de Poeminha. quando tudo nos falta na infância, o pensamento é também largo e solto e os mundos imaginários são tantos que não cabem apenas no dia e, à noite, teimamos com o sono para nos imaginar numa vida outra, num lugar outro, num tempo outro. 

descubro muito sobre a minha própria infância observando a infância do Poeminha. e descubro ainda mais sobre a minha mãe tentando ser uma outra mãe. pressinto agora que talvez não pudesse ter sido de outro jeito, embora o que agora se repete - ou que eu tente repetir - seja o avesso. mas o avesso tem muitos matizes. e por um milionésimo de segundo, fico quase igual. e o desamparo só não é maior porque Poeminha, sim, é totalmente outro e tem mais amparo emocional para reivindicar o que lhe parece justo::: "se você continuar dizendo isso, eu vou querer outra mãe". acho muito justo querer outra mãe diante de uma mãe numa derrapada bem idiota. então, na dose diária de perdão que aplicamos a nós mesmos para podermos prosseguir, senti uma certa tranquilidade que adveio da coragem de Poeminha. a mesma coragem que fez ele, logo nos primeiros dias de aula, dizer: "Professora, se você gritar comigo, eu nunca mais volto nessa escola".    

e não. Poeminha não é um menino fichado por estas marcas tão facilmente impressas pelos adultos. não é "mimado", nem "mal educado", nem "birrento". a cada vez que ele mesmo grita, ou bate, ou esperneia (sim, crianças fazem isso!), é sempre chamado à "razão". e os interditos são claros e, às vezes, irrevogáveis. e ele tem que conviver com isso. tem sempre um: "filho, respire, respire" que, antes, funcionava bem. agora, ele afasta de si sua personalidade tranquila e rebate: "não, eu não quero respirar". e de novo e de novo é preciso recomeçar o longo caminho das condutas sociais. facilita, com certeza, seu jeito calmo e carinhoso. Poeminha abre o sorriso tão fácil que desarma qualquer um em segundos. e sabe beijar, abraçar e dizer que ama. e no entanto, está mais para a timidez do pai do que para a extroversão da mãe. a diferença, e é desse avesso que me orgulho - é que ele é um menino que sabe argumentar e que pode dizer "não", pode se contrapor, pode dizer que não quer gritos nem reprimendas violentas simplesmente porque isso não faz parte do seu dia-a-dia. 

facilmente, como mãe, eu poderia me "aproveitar' da personalidade do Poeminha e impor mais ordem, mais modos de conduta condizentes com o que as pessoas chamam de boa educação, mas eu simplesmente acho tudo isso muito chato. crianças bem educadas me parecem sempre crianças infelizes. não quero exibir a boa educação do Poeminha como um troféu. e com isso correr o risco de flagrá-lo com vontade de dizer ou fazer algo e, antes, ter que olhar para mim com temor e só aí decidir se pode dizer ou fazer algo. prefiro que seja como é agora - quando todos dizem que ele é ainda mais "comportado" longe de mim do que quando está perto.   
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quinta-feira, 17 de julho de 2014

quando o tempo


eu não duvido nada que, de repente, o que era certo não seja, de fato, tão certo assim. é quando a possibilidade da morte, ou da dor, ou da separação, aparece nítida. nessas horas, a certeza da dúvida. nada está realmente programado. como querer muito voltar a Paris - e ser assaltada mal se coloca os pés lá. ou querer muito fazer algo - e adiar indefinidamente (como meu pós-doutorado). ou achar que está tudo bem e, de repente, não haver mais palavras. não existe mesmo um script. os dias são vorazes. lançar mão de uma série de cascas. e tudo parece mais simples quando o que resta é nos proteger. 
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não. não quero.  
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comecei a ler Longe da árvore já não lembro exatamente por que. sei que é arrebatador. é um livro tão lindo que me dá náuseas só de pensar nas suas mil e poucas páginas.  mas leio obstinadamente, nem que seja algumas páginas por dia. e tudo parece fluir ainda mais com o serzinho que cresce ao meu lado, o Poeminha. dia desses disse na sala de aula que comprar um livro de R$200,00 é uma insensatez para uma pessoa que não tem tempo nem de cagar. não sei o que espantou mais. se os R$200,00 em um livro ou o "cagar". não falava de Longe da árvore, mas de um outro, que folheei rapidamente, e que me pegou, de surpresa, com uma lágrima escorrendo. é que lembrei que o passado existe. 
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e esta moça chamada Ana Cañas? como ela sai de uns cds engraçadinhos para uma "Volta" que faz tudo doer? a tarde quente me pegou outra vez. e com os mosquitos incomodando minhas pernas mais do que de costume, fiquei imaginando que tem este processo de maturação, de esperar ter o que dizer no momento exato. só não rolou outra lágrima porque, dessa vez, estava prevenida. 
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eu sinto falta de um tanto de coisas. e de um tanto de pessoas. dois mil e catorze estende seus enormes tentáculos sobre mim, como se eu fosse, de fato, a soma de todos os anos passados. como se eu me visse com meus grandes desvãos. algum pensamento lateja::: não tenho problema algum de esmurrar as paredes. só as paredes – que não sentem. sou quase sempre. e só fiz isso nas dores extremas. mas o que me faz falta - de verdade -  não posso dizer aqui. como vislumbre. lembrei de tudo isso naquele princípio de noite – quando tive que deixar ali aquele ser que cuidou de mim. e quando tive que ver aquela que deveria ter cuidado de mim virar as costas mais uma vez para aquele que só queria uma palavra de amor.  é assim. tudo verdade e tudo invenção, como já foi dito tantas vezes. e ainda assim tudo é bonito. mesmo quando a garganta insiste em ter um osso atravessado nela.
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terça-feira, 17 de junho de 2014

"incorporar essa saudade num projeto de futuro"


nestes dias, tudo a flor da pele. tanta coisa parece sem sentido quando aqueles que amamos partem. a vida perde. e isso não me sai da cabeça. e quando os que estão vivos cortam nossa carne ao meio é ainda mais difícil. eu voltei do Ceará com a alma curvada. tudo doía. o que ouvi e vi e vivi. não posso dizer aqui. mas tudo tem um grande sentido. por que as pessoas não sabem? não saberei eu? as pessoas não sabem quando nos cortam ao meio? talvez tudo tenha início no não-saber. 

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meu filho me salva neste grande deserto. sinto uma solidão tão grande que sei vir de mim. estão todos aqui, mas não os sinto. queria o quê? não sei. sempre estive só. é o que me vem nestas horas. não por não ter pessoas que me amam. penso que tenho muitos. mas por saber que que o próprio amor às vezes fica árido. e o que eu quero é cuidado. cuidem de mim. que não me deixem só, desprotegida nesta hora tão cheia de dor. mas não é exatamente por aí que me professo. a carapaça serve basicamente para afrontar o outro, ouvi ontem. e para lembrar que não posso me curvar. que vou fazer quarenta anos e que até mesmo escrever aqui, à mercê do olhar de outros que nunca poderão me alcançar, é uma tolice. é o voltar a ser criança. é voltar à desproteção da criança. aquele que cuidava de mim se foi. e é tão esquisito que tão poucos se disponham a cuidar. e que justo um deles tenha partido agora. e que eu não saiba o que fazer com ela que ficou. uma vez, há muito tempo, falei para uma pessoa que ela não poderia ficar comigo, pois eu era um ser egoísta, que amava viver sozinha no meu espaço. e esse ser era tão bonito que não se importou com o que eu disse. eu também era bonita nesta época. sentia que o mundo todo estava ali, para que eu fizesse dele o que bem quisesse. mas hoje sinto que talvez a partilha não tivesse sido tão improvável como imaginei na época. meu filho sentirá esta falta de mim?

ele me abraça forte e diz frases improváveis. falou assim: "mamãe, foi um dia inteiro de amor e de beijinhos". quase desmaiei. sei que vêm dos meus gestos e mesmo assim tenho um medo terrível. me amará no porvir? ou se sentirá obrigado a me amar para proteger o mínimo de equilíbrio possível? isso que sou o distanciará um dia de mim? não posso fazer essas perguntas. sei que não devo. seria tão mais fácil se... então, eu me agarro a única coisa que não posso confiar. confiar em si mesma é sempre outra grande tolice. numa noite, dançamos horas sem parar. inventei de ouvir e dançar uma música de cada cd que mais gostava. e ele, inteiro, ali comigo, agarrou na minha loucura e dançou. dois dias depois, foi ele que repetiu o mesmo gesto. pegou uma grande pilha de cds, espalhou no sofá, tirou todos os encartes e foi colocando um a um para ouvirmos. eu fui escolhendo as músicas. quando viu o cd do Binho, seus olhos brilharam tanto, como se dissessem:  "este eu conheço". e ouvimos. e dançamos. e eu disse o quanto amava o Binho. e sei que ele entendeu. entendeu tudo. e fomos dormir, irmanados por um sentimento que somente a música pode dar. e eu, não importa o porvir, senti-me inteira feliz por poder vivenciar um momento assim com meu filho de quatro anos.

há alguma proteção no grande deserto da dor. 
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todo dia acordar e pensar, em alguma hora do dia, que um ser amado não será nunca mais visto. não estará lá, quando, esporadicamente, eu lá estiver. vou fazer quarenta anos. e não sei como sentir tudo isso. está tudo aqui. os dias seguem uma normalidade, até que me vem algum pensamento. 

"O pesar como uma pedra...
(no meu pescoço
no fundo de mim)" 
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domingo, 8 de junho de 2014

o padrinho



a idade adulta me deu serenidade para olhar de modo complacente o que, para mim, foi uma muito longa e dolorida infância. de todo aquele deserto retiro poucas pessoas. e duas delas, são meus padrinhos. no difícil gesto de distribuir afeto, alegria, cuidado, respeito, atenção, meu padrinho, que carregava o mesmo nome de meu pai, era um mestre. tudo o que sei da possibilidade de imaginar outros mundos, outras vidas, aprendi nas noites lá no Lobo, uma espécie de oásis do deserto, para onde eu ia constantemente, enquanto lá moraram, ou na sala da casa deles, tão próxima a minha, onde ele terminou sua jornada aqui, cercado de cuidados do seu filho, da minha madrinha e de um anjo chamado Toni. por ele e por ela, pela primeira vez, depois de mais de vinte anos, empreendi a longa viagem de rondônia ao ceará para enterrar alguém. para viver esse momento terrível que, bem sei, se a minha morte não chegar primeiro, terei que empreender outras vezes. aqui, vivem tantos dos que amo. meu padrinho era um grande contador de histórias. sua imagem é indissociável das suas histórias. da sua risada. da sua generosidade. era um grande narrador, apaixonado pela narração da própria vida, no que ele viveu e no que ele imaginou, e todos nós, que choramos sua partida, éramos cativos das belezas que ele nos mostrava. éramos cativos da sua voz. e da sua risada, com a qual sempre encerrava suas histórias, e de seu canto, pois ele também cantava. nesses momentos, tudo era beleza. quantas vezes eu mesma balançava a rede, onde ele geralmente contava suas histórias, ouvindo-a encantada, construindo ali meu amor pelas histórias que depois fariam de mim uma leitora.  padrinho tinha o que deveria ser a busca diária de todos nós: paixão pela vida. um arrebatamento e uma entrega raras. nem sempre foi fácil para minha madrinha ter que conviver com tanto transbordamento. mas para todos nós outros, nunca houve o que dizer de senão. nunca houve um só momento de desdita. sempre, sempre, só gentileza. como é que ele conseguia aquele brilho no olho, aquela serenidade, aquela alegria? e sabia compartilhar. quando amava, e amou muitos, sabia como amar. e como disse, sabia cuidar. e cuidou de mim um pouco como um pai cuida de uma filha. quantas vezes eu não devo ter me perguntado naquela época por que não ficava de vez? é que o amor é o impensado. mas, no fundo, eu sabia que meu verdadeiro lar era ali, no coração deles dois, pois por uma sorte grande pude desde sempre saber que o que eles sentiam por aquela menina doente, raquítica e solitária que eu fui era amor. e a isso serei eternamente agradecida. nunca poderei expressar com justeza o significado da lembrança que guardo em mim dele me levando altas horas da noite a cada vez que eu precisava ir ao hospital. nunca poderei dizer o quanto lhe sou grata por esse gesto. pois não tenho dúvida de que foi ali que apreendi um tanto dos sentidos do amor, ainda que muitas vezes me falhe o mesmo gesto. não tenho dúvida de que, apesar desta tristeza, há paz e alegria neste momento, pois elas nunca faltaram em sua presença. acho que meu padrinho, até hoje, foi a única pessoa inteiramente feliz que eu conheci. e ter a sorte de conhecer uma pessoa assim, e fazer parte da vida dela, não é pouca coisa.

* esta foi a última foto que tirei dele, em 2013, quando ele me disse da promessa que havia feito e que deveríamos cumprir juntos. agora, ele me deixou com a missão de cumpri-la sozinha. tem nada não. é quase nada, perto de tudo. sem conseguir ler a versão deste texto, que eu havia imaginado ler em seu velório, por diversas vezes eu disse baixinho: "obrigada, obrigada". e ainda agora, é o que continuo dizendo. 
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sábado, 31 de maio de 2014

clichê - ou amor.





em paris, o risco do clichê escorre, pois todos querem uma pose no local exato, um momento único. mas qual será a pose exata diante da torre eiffel. qual a cara que convence diante de uma escultura de giacometti ou, melhor, diante da monalisa? pensava nessas coisas enquanto andava sobre a ponte em que milhares de casais deixaram ali - e continuam deixando - seus cadeados. fiquei observando um casal prender um cadeado num outro cadeado - já que impossível alcançar as grades da ponte, tamanho o acúmulo. em seguida, eles se benzeram, encerrando tudo com um longo beijo. depois, vi um casal discutindo, e a mulher chorava muito, enquanto o homem dizia: "você me culpa sempre, é sempre minha culpa. e não é. não é". acúmulo de clichês, pensei com um sorriso sarcástico, e depois um sorriso triste, no canto da boca. mas o certo é que fiquei por ali observando aqueles cadeados, tentando entender o que significavam - e me vi perguntando se não faria o mesmo. não tenho grandes medos dos clichês. daí me questionar o que esse diz sobre nosso desejo de amor - um amor grande o suficiente que faça cessar o medo dos clichês para poder repeti-los livremente - e à exaustão. 

tenho não um ponto de vista. mas sei que algo em mim não deseja mais viajar sozinha, embora a sensação de alegria continue intacta - e o pensamento de que estar sozinha numa viagem é o estado perfeito. junto com isso, o tempo todo sou atravessada pela lembrança de meus dois "homens", como se meus olhos que veem desejassem estar acompanhados. um clichê. mas um clichê que lateja. sei que atrapalhariam este estado de alegria que somente a contemplação pode nos dar, mas me dariam tantos outros momentos. poderia mesmo ser um deste - um cadeado na mão, com nossos nomes e a busca por um lugar. um lugar qualquer para fazer com que nossa história permaneça em algum lugar - por mais besta que seja. 
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quinta-feira, 22 de maio de 2014

Bill Viola e Karim Aïnouz

se eu tivesse que escolher entre as experiências culturais mais marcantes dos últimos vinte e cinco dias - e foram muitas -, eu destacaria três. sobre uma, pretendo falar depois, quando "resgatar" minhas fotos que, após o assalto, estão a quilômetros daqui, mais exatamente com Mariamada, que, peloscéus, as havia transferido um dia antes para seu computador.

desde que eu vi o filme "Praia do futuro", do Karim Aïnouz, sábado passado, constantemente, algumas das cenas retornam na minha parca memória. digo o mesmo sobre algumas das imagens da exposição do videoartista Bill Viola, no Grand Palais, em Paris. Ao contrário de Karim, eu não conhecia nada de Bill Viola. fui levada pelas mãos da minha ruiva Marie. ficamos umas seis horas nos espaços monumentais do Grand Palais, sem sentirmos o tempo passar. na penumbra que os vídeos exigem. as sensações foram tantas, que - mais uma vez - me será impossível dizê-las corretamente.

porém, após ver o filme de Karim, compreendi melhor o que tanto me impressionou no trabalho desse artista até então desconhecido para mim (mundialmente famoso, explico para minha pobre ignorância). e é simples [e Marie já havia me falado]::: de algum modo, o que vemos tem que nos dizer algo. não falo de beleza propriamente dita, embora eu possa dizer que são belas as imagens dos dois trabalhos. nunca estou falando apenas de beleza. nem apenas de emoção. ou de alguma associação com o que penso ou vivo ou desejo. é um pouco disso tudo, mas é primordialmente outra coisa que tem a ver com o arrancar-me da indiferença e instalar a fórceps uma espécie de incômodo que me obriga a pensar a partir do que vi.

foi assim nessas experiências. Bill Viola, primeiro, exige de nós outra relação com o tempo e aceitamos essa exigência quase sem nenhuma resistência. em boa parte dos vídeos quase nada acontece, mas é por este quase nada que permanecemos à espera. em estado de espera. dez, quinze ou trinta e cinco minutos para cada vídeo de cenas aparentemente imóveis. uma conversa entre mãe e filho de uns quatro anos, diante de quatro tvs que reproduziam lentamente o cotidiano de uma mulher, explica bem esse movimento. a criança pergunta por que nada acontece e a mãe responde: “acontece, sim, preste atenção. veja como as imagens mudam lentamente”. essa atenção demanda um outro tempo. e é nesse outro tempo que a vida requer um pensamento sobre a vida e a morte, sobre a passagem do tempo [e as perdas que vêm com ela]. num mundo quase sempre aquático ou subaquático, vemos e intuímos a morte, o além da morte, os encontros quase sempre fugazes; como no vídeo em que dois homens andam paralelamente numa mesma direção e se encontram por meros instantes para logo em seguida se separarem. ou nos véus de imagens, em que de um lado vemos um homem perdido numa floresta e, de outro, uma mulher, até que as imagens se fundem para vermos os dois juntos por poucos instantes, até a separação. ou no resgate de um afogado que dá errado, em que vemos uma mulher em pé, inconsolável, os gestos lentos dos bombeiros, até que a chuva vem e todos se vão. o afogado, então, ascende em direção ao infinito. é também sobre o mistério do além-vida um dos vídeos mais bonitos, o Ascensão de Tristão. nesse mundo, é quase tudo frágil e violento, diante da iminência do que acontece e está para acontecer.

O que Praia do futuro faz  não é diferente. o mundo também é aquático ou quase. e também é sobre o tempo e o que acontece no seu decorrer. é sobre afeto e perda - o que se explica e o que não tem explicação. é sobre a fragilidade diante do que ocorre e a violência das nossas decisões. e é sobre o amor. até karim diz que o filme não explica muito. e eu concordo. mas para mim Donato se torna um estrangeiro, tendo em seu país uma família para sustentar e um emprego, por amor a Konrad. e é por amor que seu irmão Airton vai atrás dele muitos anos depois. E é também por amor que Konrad age muito antes de Donato saber fazê-lo.

 jesuscristinho, é bonito demais. dá um nó nas tripas. uma vontade de chorar, embora nada tenha de melodramático. e a música vem no momento exato, mesmo quando parece clichê. e o final ainda nos dá outra imagem sobre o mar. é o mar a névoa da Alemanha, é o que vemos. e como em Bill Viola, fiquei imersa num tanto de emoções, de dizeres, de não dizeres. fiquei pensando que nada precisa ser pela violência. contra os discursos da intransigência, do preconceito, cada vez mais desavergonhados, que a outra via seja a poesia, a imagem. as imagens belas do encontro entre Konrad e Donato - Wagner Moura mais uma vez soberbo -, as cenas de sexo e de nudez infinitamente fortes entre os dois. são imagens não apenas magnificamente fotografadas, mas exigentes, como disse Didi-Huberman na conversa que assisti dele. exigem de nós outra forma de contemplação, outra forma de pensamento. e de maneira simples. muito simples.
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como tudo que é indizível.



domingo, 11 de maio de 2014

Paris, para dizer

(fotos após o texto).
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vou ter que dispersar ainda mais o tempo. tenho vontade de escrever sobre a Croácia, onde estive por uma semana. lá, sem nenhum tempo para a internet. os dias foram cheios, intensos e bonitos. a hospitalidade foi absoluta, generosa e rara. contarei depois, promessa.

dispersar o tempo porque agora estou em Paris, na casa de minha amiga Marie, e tenho muita vontade de escrever. desde o início, esta viagem foi construída sob o signo da amizade, do encontro. fui a Croácia por causa de convite feito pelo Valdir, que há muito tempo espalha sua generosidade sobre nós, fazendo com que sejamos convidados onde jamais nos chamariam sem a confianca que têm nele. e fui a Croácia com Mariamada, minha amiga e companheira de viagem de toda uma vida. E depois, ia encontrar meu irmão, que mora na Itália, em Paris, a cidade que tanto amo e onde mora Marie. tudo tão bonito, que custei a acreditar. mas tudo foi se fazendo aos poucos. e agora, eis-me aqui.

não deu certo mano vir. finalmente, seu caminho caminha, por mais que ele demore a ver. e eu fui assaltada assim que pus os pés em Paris, na volta da Croácia. levaram minha máquina fotográfica, a lente 50mm (e meu fetiche de aprender finalmente um pouco da técnica da fotografia), o tablet do Tatupai, e as tres formigas que lá habitavam, minha lapiseira de cinco anos... e sim! as coisas são coisas, mas são também nossa história, e por isso dói um pouco. ainda mais com meu histórico. não é fácil ter sido assaltada já nove vezes. não conheco ninguém que tenha ao menos se aproximado deste número!! mariamada teve que ser o suporte do meu desespero nas horas iniciais. o ladrão, assim, levou também nosso tempo e nossa alegria.

mas o que há de intrigante e belo no tempo é que ele passa. e traz a paz para continuar. o sorriso outra vez. os encontros se sobressaem. o meu encontro com Marie. meu encontro com Paris. na tarde que nos sobrou, eu e Mariamada saímos caminhando sem rumo, mas em volta dos lugares que mais amo por aqui. As seis da tarde, éramos mais umas sentadas no calcadão do Beaubourg, admirando esta estranha construcão de ferros e canos onde passei longas tardes, ora estudando, ora fugindo do estudo, mas aprendendo uma porção de coisas sobre a vida e meus gostos. foi bonito. daquela beleza que só a amizade pode explicar.

e foi assim que, na segunda, Mariamada tendo partido, como uma figura de novo triste, saí novamente caminhando rumo ao Beaubourg. saí de lá apenas as 23h, cansada, mas feliz. caminhei longas horas pelas salas de arte moderna, agora completamente reorganizadas, com uma nova maneira que me pareceu querer ser mais justa com a arte de todo o mundo. uma tentativa de fuga do que facilmente passamos a chamar - como que em forma de denúncia - de eurocentrismo. os especialistas devem dizer que ainda é insuficiente. eu, fragilizada, amadora, emocionei-me diversas vezes. ora por reencontrar um quadro, ora por encontrar algum que me parecia inimaginável antes estar lá - como eu na Croácia há apenas alguns dias.

na outra sala, uma belíssima exposicão de Cartier-Bresson. uma exposição que segue a linha do tempo e, por isso mesmo, explicita os diversos momentos deste grande fotógrafo. amadora, pensei que a forma, nele, teve muito mais longevidade do que seus interesses, que mudaram no decorrer do tempo.

desde terça, estou aqui na Marie. espero dizer tudo com tempo. os dias têm sido bonitos, embora chova vez ou outra lá fora. sempre soube que seria bom voltar em Paris. E que, de algum modo, eu me sentiria em casa. sim, em casa. não exatamente porque morei aqui, mas porque aqui reconheço tudo que gosto. quanto mais ando e vejo, mais tenho a certeza de que este é o caminho para que a vida tenha realmente sentido, para que não sejamos devorados pelos dias, pelas coisas vãs que mancham os dias.
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quinta-feira, 3 de abril de 2014

conversinha espaçada antes do sono






Viver perto das pessoas é sempre dificultoso, na face dos olhos.

Tudo que é bonito é absurdo. 

Riobaldo, como em todo o resto de Grande sertão: veredas.

nestes dias, experimento muitos sentimentos. resolvi largar a coca-cola, porque me veio a consciência - tardia, diga-se de passagem - de que era um vício. ---  e essa constatação vinha cada vez mais com a sensação de idiotia. passei incólume por todas as drogas, e com certo ar de presunção, não por alguma espécie de moralismo; unicamente por um vago receio de não dar conta de me manter atenta para o que gosto de fazer: cuidar do que me faz bem, que é, de mais a mais, uma profusão de coisas difíceis de enumerar. então, como me viciar em algo que, em tese, não traz "barato" algum? resolvi largar. mas largar a coca-cola é como largar o que lhe acompanhava: uma produção intensa de trabalho no computador. agora, derivo em volta dos meus três mil livros sem saber exatamente o que fazer com esta nova Milena que dá seus primeiros passos::: uma Milena que largou a coca-cola há 40 dias e está na segunda semana de caminhada às 7h --- da manhã.

penso penso penso. e mergulhada na vida, no cotidiano, extraio dela algumas certezas já mil vezes ditas::: quero muito que o percurso do Poeminha seja bonito. desta boniteza absurda de Guimarães Rosa. e como, neste mundo tão bizarro? penso. e começo a lhe explicar. falei para ele::: e tenho a sorte de ter um filho que ouve. e questiona. e rumina. e depois tira as dúvidas. concentrado e atento. então, eu lhe disse que poderia existir no mundo pessoas que não iam gostar dele. e que era preciso saber conviver com isso. e, ainda assim, não experimentar sentimentos extremos: manter um certo alheamento ao não-gostar (bem mais importante manter a atenção no "gostar"). ele me disse: "como não gostar?" e eu expliquei. disse que não era preciso que todos gostassem, que todos concordassem com o que ele dizia.

falei de afeto, de amor. e disse que tudo era construção. disse que o fato de dizer que ele era a pessoa mais linda, mais importante, tinha a ver com isto::: com afeto, com amor. outros não achariam o mesmo. e que era assim na vida. e, por isso, seria preciso construir um estofo. "estofo?". sim. saber suportar o não gostar do outro. e o jeito era construir relações de afeto. e cuidar dessas relações::: "sim, como eu cuido de você".

depois de ruminar, ele me pergunta: "até Bibi pode não gostar de mim?". Bibi é a bisavó, que tem verdadeiro amor por ele. um amor irremovível. expliquei:::: "não. não". Bibi gostaria sempre dele. então, falei, sobretudo, que era preciso, por princípio, gostar de gente, acreditar nas gentes. nos momentos de impasse, aqueles nos quais não se sabe exatamente o que fazer, isso lhe ajudaria a suportar. "suportar?". sim. falei, então, do exercício longo e demorado de suportar.

disse, ainda, com as mesmas palavras - ou outras: "filho, imagina que eu, que não hesitaria um minuto em dar a vida por você, tem horas que fico irritada, imagine outras pessoas que não te amam do mesmo modo?" falei, então, das qualidades que podem ser grandes defeitos. nunca sabemos o que temos de mais bonito. e expliquei::: por muito tempo achei que minha maior qualidade era não ter alteração de humor. acordar já sorrindo. como agora, que, quando acordamos e nossos olhares se encontram, o sorriso largo vem de imediato. uma qualidade - é o que eu achava, até um antigo namorado dizer - com imensa raiva - que não havia nada mais insuportável em mim do que esse acordar saltitante. e quer qualidade maior do que ser organizada? e por outro lado, nada causa mais transtorno ao Poeminha e ao Tatupai do que isto::: a mania de organização e limpeza. e o que dizer dos pensamentos fortes, da coragem de tudo dizer face a face, de obstinadamente não compactuar do falatório geral, elegendo sempre muito poucas pessoas para quem falar? muitas vezes, pode ser visto como falta de educação, pode ser falta de educação, incapacidade de ponderar, de saber usar o tom certo. é tudo assim, não? e quem pode nos perdoar pelas qualidades-defeitos senão aqueles que nos amam? que são sempre poucos. aqueles poucos que valem muito - e tudo.
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creio que sempre trouxe tudo isso em mim. intensifiquei algumas certezas, juntei com outras dúvidas, e, agora, talvez por isso, tenha urgência de que meu filho entenda, embora saiba que é uma bobagem essa urgência.

e por que tentar traduzir tudo isso para um filho de quatro anos? porque não quero que Poeminha cresça pensando que é o "centro do universo", que não pode ser contrariado, que os outros estão à sua disposição. quero que ele acredite no diálogo, mas que saiba que tudo pode ser impasse. impasse que não comunga com nenhum consenso. e que as diferenças são, na maior parte das vezes, intransponíveis. e que conviver com o outro é isto: não é moldar a diferença; é amar o outro, apesar da diferença. e quando não amar, saber simplesmente virar as costas e prosseguir - sem dor alguma, sem mágoa alguma. só com a mais leve das certezas. nada a ver, portanto, com tolerância, que traz sempre o ranço religioso de "sou tolerante porque sou melhor". não. falo de desprendimento. de descobrir e concentrar-se no que o outro tem de mais bonito. é só isso - diria Caetano. 

dia desses, assustada com o que eu pressenti ser uma incapacidade medonha de se fazer amar, e de saber conviver com esse fato, e, por causa disso, tudo fazer para prejudicar o outro, tive que refletir refletir refletir para saber como agir depois de ter "trombado" com uma pessoa assim. em algum momento, pensei: "como Mariamada gostaria que eu reagisse diante desta situação?" pois há diversos momentos em que a voz do outro é determinante. e muito antes de saber o que o outro lhe diria, saber intuir. por isso, essa vontade de, enquanto ele me ouvir, ser a outra voz do Poeminha.

e foi ali, no contato indireto com esta outra que mesmo distante sempre sabe me dizer, que eu compreendi um tanto de coisa, cujos sentidos, depois, tentei, com outras palavras, explicar ao Poeminha, esse ser que amo de amor desmedido.
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sábado, 22 de março de 2014

Nos bares e restaurantes de Buenos Aires











já viajei sozinha algumas vezes. e todas foram viagens inesquecíveis. Madri Roma Natal Bruxelas Toledo Bruges. em Madri, passei dias e noites insones, perambulando pela cidade e me perguntando porque estava ali, em vez de estar em Marselha, essa cidade solar da França, acompanhada, em vez daquela solidão toda. ali já sabia por quê e me embebedava no porão do hostel como só se pode fazer uma vez na vida. só havia uma razão para estar ali. e ela se chamava Jardim das delícias, de Bosch. em Natal, foi a mesma solidão. tudo doía. e eu vi a cidade por um filtro que misturava passado e presente. em Bruxelas, não. estava ali para ver Bob Dylan. e o coração, inteiro, só pensava em como era bonita a aventura da vida. estar ali, realizando o conto previsto pelo meu amigo Macário, era a prova exata de que eu tudo fazia para que a vida fosse memorável. 

e viajei acompanhada muitas vezes. abro a boca para falar em viagem e tanta gente já me diz do desejo de ir comigo. não entendo. ou entendo. de todo modo, sempre fui a que conduziu. em Buenos Aires, não. já expliquei::: cansada, só queria ir. foi assim que descobri a noite nas viagens, que só havia conhecido em Madri, sozinha, na enorme solidão do coração quando sabe que tudo é finito. agora, com o coração inteiro, achei tudo bonito, eu e Tatupai de mãos dadas, mesmo quando o cansaço dominava, e eu, simplesmente, fechava os olhos em algum sofá abandonado. 

eu e Tatupai devemos isso ao Dariano, que selecionou os bares de Buenos Aires. entramos em bar em bar, como em alguma música antiga. às vezes, nem tínhamos o que falar, mas o bar, inteiro, falava por nós. senti, como em outras viagens, que tudo havia me levado a estar ali, naqueles bares e restaurantes. e glutona, devorei tudo com fome. os olhos dos dois, Dariano e Tatupai, brilhavam. e a desatenção atenta de Andressa também estava ali, conosco. assim posso dizer::: vi brilho nos olhos.  e eu? eu falava. não digo mais nada que possa ser lido em público. guardo comigo - e com eles - as conversas loucas. 
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sem a conversa, o que seriam das viagens? ainda seriam viagens, mas só existiriam pela enorme solidão que delas emanam. então, reverências e muitas gracias aos meus companheiros desta viagem.
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quinta-feira, 20 de março de 2014

Liliana Porter - El hombre com el hacha y otras situaciones breves











Aqui tudo parece
que era ainda construção 
e já é ruína
(Caetano Veloso)

o que mais impressiona no trabalho de Liliana Porter, artista plástica argentina, que está com a exposição "El hombre com el hacha y otras situaciones breves", no Malba, não é exatamente a dimensão diminuta de suas personagens, mas o que elas, na sua pequenez, provocam. o sujeito é o que desencadeia as ações. e embora exista um ou outro gesto de construção, na maior parte das vezes, o que se produz são destroços. os rastros do homem, assim, de modo geral, são relacionados ao seu enorme poder de destruição. é lúdico apenas para o olhar desatento. o caminho que o humano percorre, e o que ele provoca, é quase sempre devastador. o tamanho e a quantidade das ruínas parecem estar sempre em desalinho com a dimensão do homem. seria fácil criar uma visão redentora do ser humano, como a que às vezes criamos do homem perante a natureza, mas o enorme lastro vermelho que a mulher espalha, numa das cenas mais significativas da exposição, deixa claro que não se trata de redenção, embora a simbologia da mulher e o vermelho permaneça intacta. são cenas de trabalho. e isso é impressionante (desculpem-me usar a palavra mais uma vez, mas foi exatamente assim que eu e Tatupai ficamos: impressionados. vagamente, eu lembrava do nome dessa artista, mas nunca tinha visto uma exposição. daí termos ficado encantados de verdade). não é, portanto, apenas a metonímia das mãos. todo o corpo trabalha nas cenas de Liliana Porter. obras deveriam, portanto, ser construídas. mas a construção são ruínas. cacos de objetos, fios pretos e marrons desalinhados, objetos tombados, a  foice e o martelo, os soldados em sentinela; tudo contribui para a sensação de que o trabalho do homem, mais do que deixar obras inacabadas, produz, de fato, o aniquilamento. a demolição, a ruína, não é posterior; está já na origem do gesto. desalinha-se, assim, um dos maiores mitos modernos: a força de trabalho que constitui a dignidade do homem. que dignidade? que homem?... para as perguntas essenciais, é um pulo: quem somos? o que fazemos? o que queremos?  
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(para as fotos terem ficado boas, precisaríamos de um tripé, para dizer o mínimo. mas eu e Tatupai fizemos várias tentativas. e resigno-me em dizer que as deles ficaram sempre melhores que as minhas)