domingo, 17 de abril de 2016

Somos nós que escreveremos esta história





somos nós que escreveremos esta história. e no momento, talvez seja este o único consolo possível. o discurso dominante que se legitima, no aqui agora, transformando de forma escandalosa nossa relação com o presente, está sendo construído virtualmente. os discursos outros que perfuram esse discurso dominante já demonstram que esses fatos – como artefatos – sofrerão uma violenta revisão da história,  no que ela se compõe das micro-histórias.

em um Brasil partido ao meio, há hoje os vitoriosos e os derrotados – mas essas figuras passarão muito rapidamente pelo processo de carnavalização. as roupagens que hoje cada um veste se esgarçarão. para muitos, é carnaval; e para muitos outros, quarta-feira de cinzas. e a lógica do tempo se encarregará de trocar esses papéis. e isso porque a história, tal como se configura na contemporaneidade, é feita por essas figuras que hoje são menosprezadas pelo que denominamos, em larga escala, de grande mídia::: ainda são os pensadores, os intelectuais, os filósofos, que nos dão a pensar sobre o tempo - o nosso tempo e o tempo passado. 

para o bem e para o mal, os jornalistas são figuras desacreditadas. seres agônicos que vendem suas almas para qualquer um que lhes ofereça um emprego. dispostos a máscaras, abdicam do pensamento. por isso, quando falam, quando escrevem, abdicam da noção de autoria. falam por outros, papagaios inflados que são. basta observar como os âncoras do Jornal Nacional se despedem a cada noite com seus sorrisos de plásticos. felizmente, o tempo será implacável com eles. e não há quem duvide. não há pessoa bem informada, intérprete de seu tempo, que duvide disso.  


quem pensa que o golpe de Dilma terá o mesmo tratamento discursivo, na história, do impeachment do Fernando Collor não entende nada de história. é só observar. Collor não foi perdoado pela história. temos orgulho do movimento que o levou à derrocada, ainda que ele tenha voltado à cena política. é um pária. é apenas uma imagem triste do quanto ainda temos que avançar para termos votos livres do cabresto do poderio econômico. 

esse desprezo nunca será ofertado a Dilma. se daqui a algumas horas for confirmado o golpe que lhe tirará da presidência desta republiqueta de bananas, Dilma entrará para a história. a figura de Dilma ficará cada vez maior. ela será a primeira presidenta mulher que foi destituída pelo parlamento mais corrupto da História do Brasil. Logo mais, não se lembrarão dos seus fracassos, de suas escolhas equivocadas, da sua incapacidade de articulação política. Dilma será, logo mais, a grande figura desta história triste de um país que ainda não sabe lidar com este conceito tão forte e ao mesmo tempo tão frágil que é a democracia. Dilma será a vítima. lembraremos para sempre de seus, talvez, últimos dias no poder, em que ela encarnou a imagem de uma mulher com a arrogância necessária, com a coragem necessária. para sempre lembraremos de Dilma no seu ocaso. da sua voz firme a afirmar que sofre um golpe. que pela segunda vez na sua história individual, que se confunde com a história política deste país, ela é uma injustiçada::: ela é a torturada; e os outros serão os torturadores. na história, Dilma será esta figura da honestidade --- aquela sobre a qual não pesa um só indício de enriquecimento ilícito pessoal. e nos restará a imagem de Dilma, jovem, sentada diante de um tribunal --- altiva. sobrevivente. 

Temer pode governar, o mercado pode reagir, as alianças políticas que garantem a governabilidade podem se concretizar, nesse linguajar economês para pobre entender, e mesmo assim, ele será para sempre, na história, um governo ilegítimo, que alçou ao poder a partir de artimanhas rasteiras.sua figura é desde agora de um homem fraco, que chegou ao poder não pela sua força e coragem, mas pela desfaçatez, pelo conluio de forças daqueles que aprendemos dia a dia a menosprezar, a detestar, a sentir vergonha.

logo mais – e isso já começa a ser feito -  os veículos de comunicação, eles mesmos, tentarão convencer a todos da sua imparcialidade, e demandarão de nós a crença de que os acontecimentos narrados foram os acontecimentos acontecidos; mas  não haverá retorno. eles pagarão o pato. o pato que cobriu a esplanada e os principais jornais impressos e virtuais do país que, falidos, são capazes de fazer qualquer coisa para esconderem seus dias de agonia. porque o pato, como tudo, era uma cópia. era um simulacro. e como tal, transformar-se-á no símbolo do desrespeito e da falta de criatividade. o pato é um roubo. e o autor estava vivo para denunciar esse roubo. 


ainda que a Rede Globo, Folha de São Paulo, Estadão e seus reprodutores jamais nos peçam desculpas, não tenham dúvida de que não haverá redenção para eles. são a partir de agora, e cada vez mais, uma mídia golpista, mesmo que esse discurso abrande, mesmo que a palavra golpe seja esquecida; na história, quando a reflexão ocupar o lugar desses discursos agônicos, oportunistas, o veredicto estará dado, a acusação estará feita e referendada. e isso porque o discurso reflexivo tem um poder imenso.  não há a menor chance da cara de rato do presidente da câmara Eduardo Cunha ser absolvido pela história. ainda que os cidadãos que hoje bradam por um justiça inalcançável continuem a pensar que estavam do lado certo, cada vez mais terão que se recolher ante a sua própria vergonha. tem sido assim desde sempre. basta conhecer um mínimo de história para saber que assim será. ainda que agora nos pareça muito tempo, a geração seguinte, a geração de meu filho, os amigos dos amigos de meu filho sentirão vergonha de seus avós, de seus pais que saíram às ruas para defenderem o indefensável. 

agora, ninguém parece ver que o partido que poderá governar o país a partir de segunda-feira tem em seu quadro um membro com comprovadas acusações de roubos milionários (o que é um duplex de setecentos mil reais quando se tem a comprovação de mais de cinquenta milhões de reais?). e esse partido sequer fala num processo de expulsão, ou até mesmo de suspensão desta banda podre, equiparando-se, assim, a esta banda podre. agora, não se fala sobre nada disso. porém logo mais não se falará de outra coisa. ainda que esse logo mais demore décadas. do que lembramos da desastrosa gestão de Zélia Cardoso de Mello como ministra da economia do governo Collor? lembramos apenas de quando ela, já não mais ministra, nos disse: o povo está só

agora os discursos são agônicos, imediatos, mediados por uma torrente de informações que, na verdade, é apenas uma.  são discursos feitos para não serem pensados. o que se espera é a ação, é a revolta. é a lógica do escândalo, o gesto automático, o grito. quando essa febre repousar, nada disso restará. porque, repito, quem faz a história é aqueles que refletem sobre ela. os discursos de agora são discursos vazios. um congresso que ignora o que considera os discursos dos derrotados não terá voz nem lugar.  

e tudo isso porque Dilma logo mais deixará de ser Dilma. ela se transformará no que, desde sempre, constrói nossos discursos sobre nós: como sujeitos, como pessoas, o que almejamos é um lugar/tempo democrático para existir, ainda que não saibamos bem o que seria isso que defendemos com tanta força:::: a democracia. a liberdade. o direito de voto. o poder anônimo do voto comum. 
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e não sou analista política. nem futuróloga. mas tenho me dedicado nos últimos anos - desde que comecei a me incomodar com a ignorância generalizada das redes sociais e tive medo de, por falta de leitura no campo da política ficar igual - a este exercício da compreensão. tenho visto. tenho lido. tenho avaliado. o tatupai tem visto, ininterruptamente, a Tv câmara. e por vezes, eu lhe imploro: "desligue, não aguento tanto horror". sim, horror. estes homens terríveis, ignorantes, analfabetos políticos, reacionários, a nos representar. não sabem falar, não sabem concatenar um pensamento. são como porcos. porcos! grunhem altos, mas dali nada sai. é por isso que hoje tenho a convicção de que não serão esses discursos que permanecerão. 

pode parecer pouco. mas garanto:::: é muito. vejam a Alemanha::: por que hoje ela nos parece - ainda que não seja - este oásis de liberdade, oportunidade, unidade?::: porque ali há um povo envergonhado com seu passado, que tenta a todo custo reescrever sua história. logo mais, seremos nós a desejar reescrever esse passado podre.

seremos nós, logo mais, a sentir esse gosto amargo da vergonha. e eu, ainda mais velha do que agora, poderei olhar pra meu filho, olho no olho, e lhe dizer::: não tenho nada do que me envergonhar. e por isso, poderei legar ao meu filho esse despudor. este ser pensante que agora me obrigo a ser. 
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se acreditasse nos deuses, se a crença me fosse suficiente, eu diria: oxalá. mas não acredito. estamos irremediavelmente sós. se daqui a pouco, o horror se concretizar, chorarei cântaros. chorarei alto. serei a imagem do desespero. mas quando a dor passar, restará em mim a convicção de estar do lado que vale a pena estar. a serenidade virá. e estarei pronta para as novas batalhas. 

por mim. pelo Poeminha que agora dorme do meu lado. quando ele acordar, ainda estarei aqui, a professar meu orgulho. se a história é repetição, poderei dizer a meu filho, logo mais, se tivesse estado lá, quando se encheram comboios de trens levados para a câmaras de gás, eu seria uma dessas dizimadas; se tivesse estado lá, nos anos 1960, no Brasil, eu teria sido, como Dilma, uma das torturadas. eu teria estado no pau de arara. eu seria uma daquelas que teriam enfiado um ferro na minha vagina, teriam queimado os bicos de meus seios, teriam me aleijado. e eu teria resistido. orgulhosa que sou, teria resistido. e teria deixado como herança a minha coragem. 

esta mesma coragem, que é também entendimento sobre o que agora acontece, que me impele agora a estar do lado da democracia e pensar que sobreviveremos. somos sobreviventes. e carregaremos conosco esta certeza. e a espalharemos. como vagalumes. sim, vagalumes, nesta grande escuridão de desesperança que agora nos recobre.
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terça-feira, 22 de março de 2016

sim, gotas de alegria




Carlito Azevedo publicou em sua linha do tempo a seguinte história:::

Uma bailarina do Bolshói, já pelos 90 anos, numa entrevista, ouve a pergunta: “Quais foram os melhores anos de sua vida?” e responde “Entre 1936 e 1942”. O entrevistador se espanta: “Mas minha senhora, entre os expurgos de Stálin e a Segunda Guerra?”, e ela diz: "Sim, mas eu era jovem e bela.” Agora estamos no outono, a mais mágica das estações, e meu desejo para os amigos é que encontrem nos próximos dias uma felicidade pessoal (a felicidade coletiva foi mais uma vez adiada, como disse Drummond, para o outro século) que permita pensar que 2016 foi seu melhor ano. "Mas foi um ano terrível na política!", dirá seu entrevistador imaginário ou real. "Sim, mas sob aqueles céus de outono, quanta paixão!", dirá você, o nonagenário dos olhos marejados.

talvez tenha sido por isso que, ontem, em vez de ficar - ainda por muito tempo - olhando ansiosa as notícias aterrorizantes do Brasil, eu resolvi assistir a Não é um filme caseiro, de Chantal Akerman, que, embora seja um filme triste, é um filme com um olhar amoroso, sobretudo daquela que é filmada. os longos planos das paisagens desérticas nos ensinam qualquer coisa sobre o transcorrer do tempo.

e hoje, quando achei que ainda era cedo, já fazia três horas que lia as derradeiras páginas de Lolita. um livro que nos diz muito sobre este incrível poder da literatura de tudo poder dizer. e que de uma maneira totalmente indireta ajuda-me a compreender o tempo de agora --- um tempo obscuro. e que por isso mesmo exige de nós um maior cuidado com nossas vidas.

e depois das três curtas horas de leitura,  o dia todo foi tomado por afazeres. mas afazeres quase delicados, como escolher uma blusa vermelha para a festa de páscoa do Poeminha. e tentar explicar ao Tatupai que, apesar dos tempos de crise, a beleza ainda é fundamental. ou ainda mais fundamental. e antes de endurecer de vez pelos afazeres ininterruptos da casa, vi com muitas lágrimas nos olhos O sal da terra, documentário sobre Sebastião Salgado. e lembrei e lembrei de como é bonito ser fiel às paixões. retirei de mim uma memória intensa, grande, bonita. e pensei também em Ida que há poucos dias me lembrou que ainda somos as mesmas, no que toca os sonhos. 

e sábado, convidamos pela primeira vez pessoas para virem aqui no apê. aqui ou em Laura, a moça bonita que me cativou desde o primeiro instante e que mora um andar acima do nosso. acabou que foi aqui o nosso almoço comunitário. falamos, sim, de política; vez ou outra de trabalho. mas terminamos o dia, que adentrou longas horas da noite, na varanda --- cantando todos. doces, lindos, irmanados.
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sim, na minha entrevista imaginária, direi::: quanta paixão, quanta alegria. --- ainda que tudo esteja turvo.  

    

domingo, 6 de março de 2016

sobre os dias


(aviso::: a postagem é longa e confusa. estava meio bêbada. misturei histórias privadas com os fatos políticos que agora acontecem. pensei em modificar, agora sóbria, mas fiquei com preguiça. então, deixei assim). 

poeminha, eu só posso lhe dizer isto::: o mundo está estranho. o Brasil está estranho. mas estava antes de sua mãe nascer. e muito antes. e continua agora que você também já nasceu. e ainda assim, algo ainda mais diferente e alarmante parece estar em jogo. não sei lhe dizer exatamente. mas posso arriscar, como sempre. 

(((mas antes quero lhe dizer algo::: sou uma pessoa raivosa, filho --- algumas vezes e em algumas situações. muito raivosa. e brava. sua tia Maneca não acredita. nunca me viu brigar. nunca brigamos. e de fato, jamais briguei com minhas irmãs, a quem amo de uma paixão imensa. mas sinto, às vezes, que a distância contribuiu para que eu não destilasse minhas sinceridades nelas, que muitas vezes são presunçosas e burras; não elas, mas minha sinceridades. porque, na verdade, destilo bobagens para os meus amigos mais amados ---- como fazia quando era adolescente. desde lá. desde lá, sinto um impulso raivoso que me diz para não ir junto com a boiada. isso me deixa, muitas vezes, na valeta triste da solidão. mas uma solidão poderosa, é o que também imagino. convivo bem com a solidão. então, mesmo sem querer, guardo tanto em mim. eu misturo esta raiva com muita coragem de dizer. eu me divirto, filho, muitas vezes, com minha coragem. sabe, aquilo::: todos prostrados, de joelhos, diante de seus medos? aí, eu meio que finjo toda a coragem do mundo. é assim que eu sobrevivo. faço questão de que nada que eu diga entre poucos não possa dizer no meio de todos. filho, isso é de uma liberdade imensa, apesar de ser uma grande imprudência. é preciso não querer ser amada por todos. mas, no fundo, só precisa ter coragem de dizer. assim, o dizer tem um cadinho de boniteza)))

então, agora --- é um momento de coragem. eu não acredito nas inocências. mas desacredito muito mais nas imparcialidades. porque, filho, isso não existe. querem me fazer acreditar que levar Lula - logo ele - coercitivamente para depor é uma forma de mostrar que ninguém está imune às leis. mas isso é mentira. porque na verdade é a mesma lógica que faz com que a maioria dos presidiários seja pobre e negra. armaram o circo contra Lula porque era de interesse que assim o fizessem. por que não fizeram com Cunha? por que não fizeram com Alckmin? com Fernando Henrique? com  Aécio e seu heliporto? ok, filho, são todos personagens vazios para você. mas eu quero lhe garantir que Lula foi um divisor de águas neste país tão desigual. foi ele. foi ele e mais ninguém que nos deu um porvir. e é por isso que, hoje, ainda o defendo.

praticamente, não existe um só político brasileiro que não esteja podre de rico pela única razão de ser político. uma pessoa que admiro intelectualmente escreveu nesta grande vitrine inconsequente (que é o facebook) que desacreditou do discurso de Lula quando ele começou a dizer sobre suas pobrezas passadas e que agora é preciso uma nova via. mas eu sinto que não existe uma nova via; não enquanto ela passar por essa total parcialidade -- com investigações que transformam tudo em um grande jogo midiático. tenho vergonha. não fiz jornalismo, que era meu sonho de juventude, e hoje agradeço aos deuses. teria ainda mais vergonha. e para mim a questão é esta::: não vou admitir que me digam que um apartamento e um sítio invalidam toda uma história, toda uma política que levou milhares de pessoas a ter outra visibilidade. não digo que isso seja certo, mas a lógica política brasileira é tão canhestra que, se fôssemos para agir certos, quase todo político perderia seus mandados. e claro que não perderão --- só a banda podre ligada ao PT vai para a cadeia, foi para a cadeia. isso é justiça? não creio. 

pedem o impeachment da presidenta como quem pedem pão. pedem por quê? pedem em nome da ignorância da qual todos fazemos parte? o que diabos fez a presidenta? por que esta relação direta? 
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filho, não acredite em nada disto. por ora, não tenho otimismos em mim. talvez perdemos. os próximos anos, a próxima década, serão entregues a um partido que odeia a educação (o que faz o PSDB para as universidades brasileiras, para a educação brasileira? sabemos a resposta, filho ---- e esta é NADA). mas ninguém quer saber. só querem saber de derrubar Lula, derrubar Dilma. e vamos pagar por tudo isso. fiquemos assim, filho:::: serenos. 

nem vou lhe pedir para nos regozijarmos quando tudo o que agora existe desaparecer::: vamos manter a mente tranquila, os pés fincados. somos de outro lugar. mas agora o lugar que agora lhe oferto é outro::: é um lugar de quem tem a face toda inteira::: a universidade que agora me planto tem se mostrado tão canhestra. mas acredite::: sou uma boa profissional. sou uma pesquisadora. sou uma leitora. escrevo como quem ama. e escrevo bem. e penso bem. modéstia às favas, filho. porque muitas vezes é preciso esquecer a modéstia. e é assim que iremos sobreviver serenos. sempre haverá um livro para ser lido, um disco para ser escutado e, agora, um mar para nos rodear.

é por saber dos jogos da posição que agora me ponho ao lado de Lula:::  porque sei que se Lula, se o PT cair de vez, não será a corrupção a cair --- de vez. é o contrário. e escute bem isto:::: todos TODOS aqueles que sempre se beneficiaram dos favores, das desonras, da política se beneficiarão ainda mais. porque saberão que jamais serão investigados, jamais serão expostos à vergonha pública. 

o Brasil, filho, infelizmente, é um país de não leitores. mesmo, nós, os supostos intelectuais, lemos pouco. e lemos mal. gastamos muito tempo entre mil afazeres. se não fosse assim, por exemplo, os Diários da presidência, de Fernando Henrique Cardoso, publicados pela Companhia das Letras, isentariam todas as supostas culpas de Lula. acredita nisto, filho? mas ninguém parece ter lido. somos todos apenas espectadores destas notícias fragmentadas do facebook, da internet, da rede Globo [eu, não, da Globo me salvei há mais de duas décadas e há cerca de duas semanas disse, na sua escola, que revistas como a Veja, Isto é e Caras - indicadas pela escola para "recorte" - não serviam nem para recortar]. é triste, filho. e temos que viver indefinidamente com essas tristezas.

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e o que nos restam? restam-nos não sermos parte desta massa amorfa. porque ela é mais triste do que qualquer tristeza que porventura carregarmos. não sejamos ingênuos. não vamos crer nas inocências. mas saibamos escolher de que lado estamos. porque, culpados, são todos.
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que nos sobre alguma fibra. para que aqui possamos estar. e termos em nós o desejo da diferença. 
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não há uma bandeira nesta foto de nenhum movimento social. mas ela só foi tirada porque um projeto deste governo nos permitiu ir até lá. lá onde o massacre das pessoas é indizível. que outro governo daria financiamento para dar visibilidade a um lugar de desonra brasileira:::: onde a polícia foi lá e humilhou e matou gentes. gentes do trabalho. do dia-a-dia? ... então é isto. não saia do caminho. para que você continue sendo o menino lindo que é. e possa um dia estar lá - nas lutas pelos movimentos sociais. mais até do que eu, a sua mãe.
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sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

a escola e a (ausência de) diversidade


ultimamente, procuro ter bastante cuidado nos discursos de engajamento. me enjoam tamanhas intolerâncias que por vezes vejo nos discursos que deveriam ser contra a intolerância (ouvi com horror, nestes dias, um relato que dizia que uma negra não poderia se autodenominar negra porque tinha o cabelo liso! hã?). mas não posso deixar de sentir como ainda estamos longe de relações justas que ressignifiquem as diferenças. 

Poeminha está, aqui, em uma escola que é considerada uma das melhores. e sim. há nela boas intenções, mas falta-lhe o essencial: a pesquisa para acolher e incorporar as diferenças.  tenho levado pequenos choques de realidade. e pago pela minha incompetência de batalhar por estar num lugar com mais possibilidades de formas alternativas de educação. 

hoje foi a primeira reunião de pais da qual participei como mãe de Poeminha. e tudo me pareceu de um terror inominável. na apresentação geral do corpo técnico e pedagógico não havia um único negro. não vi um único biotipo entre os funcionários da escola que poderíamos chamar de "feio". não havia nenhum obeso. nenhum parecia ser homossexual. tampouco os pais eram negros; dois ou três. e eu estou na Bahia, gente! onde estão os negros desta terra? as bichas? os gordos? certamente, não na escola de meu filho, pela qual pago uma mensalidade que não poderia pagar - ao menos neste momento.

para piorar, visitei a sala onde Poeminha passa quatro horas e vinte minutos todos os dias. havia um grande painel da "família", recortado de revistas. todos os pais eram heteros, brancos; alguns famosos com seus sorrisos de plástico. não havia nenhuma família negra, homo, obesa. quase vomitei. na lista de materiais, havia a indicação de levar revistas ("Veja, Isto é, Quem"). e eu me recusei, claro. pedi ao revisteiro boa praça a "Carta capital, porque a Veja não serve nem para recortar".

depois de ter comprado o material do Poeminha, no qual gastei uma pequena "fortuna", fui falar com a professora e explicar-lhe por que havia pastas e estojos cor de rosa e lápis da Frozen. expliquei que o mundo de Poeminha era cor-de-rosa e que eu e Tatupai havíamos decidido que isso não seria um problema. suas frases nervosas demonstraram um enorme despreparo para ouvir e compreender o que ali eu dizia. por fim, disse-me: "não se preocupe. falarei de um modo que não constranja os coleguinhas".  "Como assim, cara pálida?". Quem é "constrangido", todos os dias, é o meu filho. e isso quando nem podemos ainda saber qual de fato será sua escolha de gênero. "E não, você não está entendendo. meu filho não gosta somente da Frozen. meu filho gosta do universo feminino". na maioria das vezes, ele acha os meninos uns chatos; ele já percebeu que eles não estão nem aí para as meninas, que as tratam mal; ele já percebeu que eles só querem saber de futebol e de brincadeiras idiotas; ele já percebeu que, na maioria das vezes, são os meninos que o constrange com apelidos como Bernarda e mulherzinha, e isso só porque ele leva brinquedos que, na teoria, seriam para meninas e porque adora as meninas e seus universos de fantasia. e adora dançar. e isso por que ele nem levou, ainda, sua capa lilás para a escola! 

é porque aqui em casa houve um pequeno susto. de repente, veio o medo::: ele suportará os olhos enviesados? que escola é esta que agora meu filho está, apenas para que eu aplaque a consciência de que ele não pode estar numa escola pública, uma vez que eu sou uma servidora pública que ganha uma média salarial muito acima da média salarial do país? o que essa escola pode dizer para meu filho? ou melhor, o que, nele, ela vai silenciar, omitir, retardar?
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não é facil não. duas negativas somente para reforçar que este é mesmo um mundo cão. e eu não sei ainda como me colocar nele como mãe. quarenta e um anos de idade. uma vida toda de busca de entendimento. uma vida toda de preparo. de revolta. de pancadaria. eu que já soube confrontar toda minha família em busca de entendimento para as relações de gênero, tenho que continuar e continuar, para abrir os olhos cegos destes lugares - como a escola - que deveriam estar com os olhos mais abertos. 

é como diz minha amiga Lili: "desgraça, viu?!". depois não entendem porque alguns retardados sociais jogam creolina no corpo de calouros, tiram fotos com um golfinho para ele morrer logo em seguida. ou matam travestis, indígenas, negros. depois não sabem por que uma grande empresa não está nem aí quando destrói toda uma cidade e um rio. ... esses lugares são o lugar do fomento de práticas como essas, é tudo que eu sei.

como salvarei meu filho desta barbárie tendo que expô-lo a essa barbárie diária que é a escola - despreparada, prepotente, omissa, analfabeta, alienada? 
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dai-me coragem, jesuscristinho. não quero nem devo retroceder o mínimo que seja.
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sábado, 30 de janeiro de 2016

a festa da d. Ana














as festas de família sempre podem acabar mal. vide tantos filmes sobre o tema. mas duvido que D. Ana, a mãe da Ro, pensou sobre essa possibilidade em algum instante. a mãe da Ro é daquelas que não titubeia. a impressão que eu tive, desde a primeira vez que a vi, é que ela não duvida. não é daquelas que sofre. e se já sofreu algum dia, foi com elegância e com discernimento. há nela uma alegria extraordinária. uma força que vem da intensidade com que vive seus dias. daí que, quando fui convidada para a festa que ela preparava há um ano, também não tive dúvida: como não ir? e fomos. eu e Poeminha. e ainda Maneca, porque os lastros se espraiam. 

foi com tal espírito, tal determinação que D. Ana preparou a festa para a família que a festa teve início dois dias antes do dia oficial. seria impossível algo dar errado --- foi a certeza que, sem dúvida, ela teve desde o início. a família veio de várias partes do Brasil, para vivenciar, como eu, dias de farra gastronômica como eu nunca havia visto. um "padrão Ana" dificilmente superável. e delicioso, delicioso --- na acepção máxima da palavra. uma festa cheia de risadas, de encontros, de histórias, de emoções, como se nunca fosse ter fim.  

as fotos que tirei não ficaram à altura, pois eu me embebedei em todos os dias da grande festa como quem sabe que estava sob a proteção da dona da casa. uma dona que não hesitou em exclamar, quando me viu ainda deitada, no quarto que herdei do moço Maicon, que se desaloja quando lá vou: "o que você está fazendo aí, preguiçosa, que ainda não está tirando as fotos?". e depois, ao ver as fotos, abrir o sorriso e dizer: "esta sem-vergonha só tirou fotos minhas fazendo caretas". e eu, também sorrindo solto, sem cerimônia, respondo: "e eu tenho lá culpa se você só faz caretas quando estou tirando fotos!". e ela: "é mesmo, né, coitadinha, que culpa pode ter?". esse diálogo é só uma amostra do que está claro para mim desde a primeira vez que nos vimos: nós nos reconhecemos, como se nos conhecêssemos desde sempre. como se eu devesse ser sua filha. e ela, a minha mãe. mas é mentira. somos ambas mulheres fortes --- nos mataríamos dia a dia. conheço esta história. mas sem a alegria da d. Ana. e nos dias que estive lá, não houve nada mais poderoso do que a sua alegria. por isso, a verdade é esta linda festa que ela nos ofertou. foi uma lindeza iniciar as férias desse modo. merci, merci, Ana, por nos ofertar o melhor de nós!
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mais fotos::::










 

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

narração sobre o porvir das férias



[antes de viajar, fiz a postagem abaixo. e acabei não publicando. publico agora, quando tudo já está no passado. foi tudo como está dito. a mesa farta, as cataratas, os fogos na ponte, as praias geladas. e ainda mais]

hora de arrumar as malas. vou bem ali de férias. volto daqui a um mês. férias são um hiato. é o momento mais desafinado que existe, no que tem de necessária a desafinação. o fazer nada é o impróprio. a vida toda nos ensina a fazer e fazer e fazer. somente às crianças é dado o direito do não fazer nada. às vezes, nem a elas. todas as noites, eu tento com que Poeminha junte os seus brinquedos espalhados pela casa. e este é o momento de maior fratura da nossa história. é quando estou irritada, quando estou esgotada e quando digo frases insensatas. férias são quando o impróprio vira a propriedade mais cobiçada.

então, a partir de amanhã, por um mês, vou fazer apenas o que ele mesmo faz. só brincar. só bancar o "fazer nada". vou escutar histórias. e vou tentar me controlar para não comer toda a comida do mundo, porque vou para um lugar onde a mesa é farta, onde o exagero é a marca. vou para casa sem ser, de fato, minha casa.  porque eu sou exagerada. carrego muitas fomes em mim. vai ser bonito, mesmo quando eu tentar virar as costas para a mesa farta. embora agora eu pense que deveria ter ido para casa. para agarrar minhas três irmãs, minha mãe e meu pai. e os sobrinhos. ficar com eles nas praias quentes do Ceará. mas acabei aceitando o convite para a festa. porque tem isso. tem isso, não é? 
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tem isso de às vezes o melhor modo de salvar a própria vida seja afastar-se dela. é quando a sua vida é uma instituição.  foi o que tentei ao longo deste ano. e não fiz perguntas. não quis fazê-las. resolvi cuidar da vida de outro jeito. e estou feliz com o que consegui. fiz muita bobagem. mas já me perdoei, comme toujours. só não fui para a África. e ganhei a grana para ir. queria muito ter ido. para viver as entranhas da educação na África. sonhei que diria o oposto do que foi dito antes ----. e não deu certo. não por mim. mas lá não deu certo. pena. 

e fui clarividente. infelizmente, fui. desejei por inúmeras vezes estar errada. teria rezado se fosse religiosa. "jesuscristinho, faça com que eu esteja errada". mas eu não estava. desde que cheguei aqui, não faço mais do que interpretar. fiz prognósticos que colocaram à prova minha decisão de vir. e dia após dia, eu tenho que me movimentar para aceitar, para cuidar de mim, para estar inteira. e para manter-me aqui. para fazer, independentemente de tudo. estou aqui. e vou fazer. e vou não fazer quando não acreditar. 

que ano! 

guardarei a beleza dos dias infindos. e farei o possível para crer que qualquer que seja minha interpretação sobre as coisas do mundo, ela pode ser falível. por ora, eu apenas repito: Derrida é deus. no que tem de "deus" aquele que foi determinante para o apuro do meu olhar. e Barthes. Barthes é deus. naquilo que ele me ensinou sobre a doçura (ele e meu pai). a doçura que aplaca meu olhar sobre as coisas do mundo. 
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Poeminha, vamos sair de férias. vamos. você vai encontrar sua grande musa. e vai ser paparicado. e eu vou deixar. depois, a gente vê o que faz com isso. vamos ali, filho. ver mesa farta, as cataratas, os fogos na ponte, as praias geladas. vamos, Poeminha. depois, a gente guarda. depois, a gente volta cheios de histórias para todo o sempre.  
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vou levar meus tênis de caminhada. e vou levar três livros. espero cavar dias brancos de leitura. vou levar Guerra e paz, de Tolstói, edição Cosac Naify. vou levar porque Aline me disse que Tolstói sobreviveu melhor do que Dostoiévski. e eu discordo dela. tudo que li dele foi soberbo:::: Anna Karienina, A morte de Ivan Ilitch, Padre Sérgio... mas nada, nada se equivale ao desespero de Dostoiévski; o desespero que eu penso dever existir em toda literatura. quero estar enganada, por isso levarei Guerra e Paz.

os dias. o ano. o fim do ano.e daqui a pouco, um novo ano.
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sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

do ano



sinto sono há alguns meses. cedo, quase meia-noite. ou um pouco mais cedo::: vinte e duas horas. para mim, é muito cedo. tenho dormido. hoje é uma exceção. senti insônia e ainda estou por aqui. e acordo cedo. muito cedo. seis e meia da manhã. para mim, é ainda madrugada, salvo que o sol já está bem alto. ouço o barulho dos pássaros. e inventei que é uma bela vista. então, eu me espreguiço e deito na rede para ler. leio até a hora que Poeminha acorda. já calhou de ler três horas seguidas.

este foi um ano estranho. acabei de escrever um email dizendo isso. continuei igualzinha em um monte de coisas. e mudei bastante em outras. tem dias que ando como se carregasse uma solidão muito grande. e tem dias que carrego toda a alegria que o corpo pode suportar. 

tem dias que sou uma mãe nota mil. tem dias que falo um monte de merda para o Poeminha, como se ele fosse capaz de suportar essas pressões de mãe cansada de ser mãe por instantes. ontem foi um dia assim. depois, peço desculpas. mas fico com a impressão de que o estrago já está feito. por que repetimos os mesmos absurdos? por que não deixamos os pássaros livres? étãodifícilexplicarousaber. imagino que eu tenha sido condicionada ao fazer durante toda minha vida. fazer me acalma. e criança espalha seus sonhos pela casa toda. às vezes, a conta não bate. na maioria das vezes, eu me submeto a sua bagunça. mas algumas vezes, basta um estopim. dói. dói em mim. e com certeza, dói nele. 

será a hora do balanço de fim de ano? fiquemos assim: eu queria que o ano passado não tivesse existido. chorei tantas vezes como menina de quem roubaram a inocência ainda uma vez. fiquemos assim::: neste ano, eu reaprendi um tanto e parei de chorar --- ao menos pelas razões que chorei antes. lancei o olhar sobre mim e tirei de mim uma beleza insuspeitada. algumas vezes, pus essa beleza na escrita. e aprendi a me olhar no espelho todos os dias.

foi - está sendo - um ano estranho. mas achei um absurdo quando qualificaram nosso deslocamento - de sair de uma universidade para outra - de uma espécie de luto. sempre achei o deslocamento uma celebração. se houve luto, foi o das repetições institucionais naquela que se julga distinta. mas isso é outra conversa. meses depois, minha indignação é apenas performática. é meu lugar institucional::: não fazer parte da boiada. e não ter medo. 

lembrei agora de Maneca. sim, da delicadeza. ainda estou em busca. mas quase a alcanço. quase. está bem aqui. Poeminha vem e pergunta se pode cortar o encarte do seu DVD da Frozen. e, primeiro, digo que não. mas lembro de ontem. e olho quase terna e pondero que ele quem deve decidir. e ele decide. agora, temos um encarte sem capa, colada que está num papelão cujo destino, certamente, será o relento.  ainda há chance. é uma sorte que haja.
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sim. dia após dia, foi - está sendo - um ano que deveria ter existido - existir. a que será que se destina?
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terça-feira, 8 de dezembro de 2015

O "aqui" de Marcelo Rubens Paiva



nunca li muitos livros sobre a segunda guerra mundial. ou sobre as ditaduras latino-americanas. então, no imaginário da comparação, posso quase nada. por isso, só quero dizer que sofri aos borbotões lendo Ainda estou aqui, de Marcelo Rubens Paiva. e como penso que todo livro deve sempre envergar um pouco mais nossa coluna, dando-nos um sentido de real que nada tem a ver com uma relação direta (como quando lemos Kafka e o seu mundo de irrealidades é mais palpável do que qualquer outro imediato), celebro aqui a alegria de tê-lo lido no que agora já é fim de ano e nos vem esse sentimento de fim de festa. e de recomeço de uma outra. 

Marcelo Rubens Paiva, sem nenhuma autocomiseração, nos faz vivenciar dois lutos: aquele que teve início com a tortura e morte de seu pai, o deputado Rubens Paiva, e o que vivencia no momento em que escreve, quando acompanha o desenvolvimento do Alzheimer em sua mãe, Eunice Paiva. são dois lutos distintos, mas que nos dão a medida da dor das infinitas perdas. ele traça um perfil comovente daquela responsável pelo título do livro, que, nos lampejos de lucidez, repete: "Ainda estou aqui". Estar presente e ausente, estar ausente e presente são dois modos de convivência com o luto a ser sempre rechaçado para que a vida possa existir. é o que nos sugere o livro. o luto sem fim do pai e o luto por etapas da mãe reforçam o caráter de testemunho de Marcelo Paiva, que narra em primeira pessoa a história de dois outros; não quaisquer dois, mas os seus progenitores. um que "desaparece" repentinamente e uma que "desaparece" aos poucos.  essas desaparições são formas de presença. nesse sentido, ser um sobrevivente é uma forma de aprender a conjugar diversas maneiras de se relacionar com as tantas mortes.

sua mãe ainda está viva. mas o "aqui" de agora não tem mais a força de sua presença antes soberana. por isso, o presente e o passado coabitam no livro, num tempo subjetivo e histórico, que reorganiza as percepções, reforça as perguntas, realça o absurdo de uma ditadura militar nos confins do mundo que desorganiza mundos inteiros. daí por que dentre todos os trechos de documentos inseridos no livro seja o depoimento de um dos acusados de tortura (Riscala Corbage) o mais terrível, o mais insólito, o mais canhestro. é nesse momento que o documento mais parece com uma farsa, no sentido da potência de registrar o horror e suas causas. pois não há causa. o torturador não tem a mínima ideia dos sentidos da tortura. é preciso que seja o outro que o diga. no caso, é Marcelo quem nos diz ---.   

Eunice, como tantas vezes disse Marcelo, é a heroína do livro. uma mulher que sai da condição de dona de casa classe média dos anos 1960 para uma profissional respeitada e admirada. uma mulher que nunca chorou em público, que manteve sempre a envergadura certa para as exigências. mas é uma heroína do nosso tempo. uma heroína sem ilusões que sucumbe quando era a hora de descansar de seu próprio luto de viúva. uma heroína sem memórias, que perde a sua memória para uma doença que mal se sabe as causas,  quando a sua história é toda entrançada na memória viva de um passado recente. e o autor é aquele que vive reiteradas vezes a morte viva da mãe. e dá a ela a voz da literatura, assina por ela a língua da literatura. dilacerante demais.
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quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

cosacnaify, merci por tanta beleza














talvez seja difícil explicar o que senti hoje ao saber que a Cosacnaify vai fechar. difícil porque talvez sejam poucos os que podem entender que se sente amor por uma editora --- por uma editora! mas vou começar assim::: este é o tom. quem achar abestalhado pode parar de ler por aqui. esta postagem é para os que amam livros como eu::: anderson aline poeminha rosana lilian gabriel (que não está nestas fotos, mas que compartilha do mesmo amor, testemunha que sou das tantas vezes que ele comprou livros no meu cartão).

não chorei na hora que li a notícia, porque estava em uma sala cheia de gente. mas foi difícil barrar o nó que se formou de imediato. porém, quando pisei os pés dentro de casa, e olhei ao redor e vi os sinais da Cosac por todo canto, as lágrimas vieram como deveriam vir.

sim. tenho amor profundo amor pela Cosacnaify --- compro com uma constância grande e sempre muito. Poeminha tem praticamente todo o catálogo infantil. e eu tenho uma infinidade - de todas as seções::: literatura, arte, cinema e teatro, fotografia, lançamentos sempre tão esperados. quantos livros devo ter, quantos li desses que tenho? quanto tempo gastei fuçando o site? como a partir de agora irei a São Paulo sem ir à loja e sair de lá com sacolas e mais sacolas, tendo que arrastar os livros em malas, em mochilas que curvam as costas para não ter que pagar excesso de peso na viagem de volta?

sim. amor pela Cosac. que começou com uma história que não me canso de contar. todos que me conhecem já a ouviu. todos os meus alunos já esbarraram com ela em algum momento. eu, doutoranda sobrevivente de bolsa, morando no centro de Campinas e indo todo fim de semana para São Paulo sem saber se ia para namorar ou se para ver espetáculos shows filmes exposições. e num desses fins de semana, vou à exposição de Farnese de Andrade, no Centro Cultural do Banco do Brasil. e sinto vertigens. e me extasio. e choro. e xingo todo professor que passou pela minha vida sem nunca ter me falado que Farnese existia.

e continuo falando de Farnese pelos dias seguintes, pelos meses seguintes, pelos anos. e comento com meu orientador que queria ter comprado o livro do catálogo, mas que não havia comprado porque era bastante caro para minha vida de sobrevivente-capes. e ele me diz então que a editora é bacana, que se talvez eu escrevesse para eles... e eu, que nunca faço este tipo de coisa, escrevo, digo que sou uma sobrevivente, que não posso comprar o livro, se não seria possível um desconto... e a Cosac me responde no mesmo dia com uma pergunta que nunca vou esquecer e que foi a seguinte: "Quanto você pode pagar pelo livro?". e eu fiquei toda atrapalhada, toda cheia de emoção, toda sabedora que ali havia um inusitado que merecia ser celebrado para todo o sempre --- e aí surgiu esse amor.

na entrevista em que Charles Cosac anuncia o fim da editora, ele fala várias vezes do estilo "caseiro" do início. e parece lamentar o fim desse sistema caseiro mais que tudo. e eu sou uma das testemunhas desse "estar em casa". lembro de fins de ano em que a Cosac dava férias coletivas para os funcionários. lembro das feiras que ia e de como os vendedores eram solícitos e sabidos, demonstrando paixão pela Cosac tanto quanto eu demonstrava. lembro de uma vez que meu amigo, morador de Rondônia, reclamou do valor do frete e a editora abonou o frete para ele. lembro da vez em que a editora não mais fez isso, mas orientou como fazer para que a compra ficasse mais barata. lembro de mim mesma, em uma dessas feiras da USP, dizendo orgulhosa para uma das vendedoras que eu conhecia todo o catálogo e que tinha boa parte dele.

por essas e outras histórias, desceu hoje em mim, cristalizado, solidificado, o sentimento de luto que me tem vindo muitas vezes nos últimos meses em relação à literatura, aos rumos da literatura, a essa pausterização do politicamente correto que tem tomado conta de todo discurso acerca do literário neste país tupiniquim de não-leitores, que agora arrota arrogantemente que já era o objeto livro, já era o estético, já eram os clássicos, só interessando a literatura adjetivada com algum apêndice da boa consciência. foda-se a boa consciência. Beckett é deus. o cu no livro de Bataille deveria emoldurar muitas capas. quero saber é se existe gente ainda no mundo que tem vísceras para sentar o rabo e ler Guerra e paz, David Copperfield, Anna Karienina, Os miseráveis, sem a merda do discurso de que - subentende-se, só pode - somos todos retardados que não conseguimos ficar mais do que dez minutos fazendo a mesma atividade. mesmo que seja nada. ou sobretudo, nada. livro na rede. livro na cama. livro em qualquer lugar.   

e eu me pergunto quem mais poderá nos dar um exemplar tão lindo da Odisseia, das Novelas exemplares, de Cervantes. para onde irá Tolstói e toda a prosa do mundo. e William Faulkner, como alimentarei meu amor por ele, condenado a partir de agora aos papéis simples e às capas de mau gosto das outras editoras? quem trará de volta em capa-tecido a marginália poética? como vou alimentar esse amor que é tátil, que é pele.

e sem educação formal, como vou saber de arte, de fotografia, de cinema a partir de agora? para onde irão as conversas com os cineastas? quem dará capas duras de plástico colorido a Octavio Paz? embrulhará em papel jornal uma narrativa de Gógol? enfiará em saco plástico o Mario Bellatin? quem confiará no esteticismo de Enrique Vila-Matas, para que eu possa xingá-lo e mesmo assim voltar nele insistentemente? e Zambra, para onde? e Tabucchi? e valter hugo mãe, que declara seu amor pela Cosac aonde vai? e Louise Bourgeois? Tunga? Duchamp? Cildo Meirelles? Bresson? Capa? Korda? Wolfenson? Arthur Omar? onde onde onde? todos órfãos da beleza.

qual editora me dirá o quanto é belo esse objeto retangular? que editora trará  Mary Popppins numa bolsinha a tiracolo? qual delas meterá um buraco bem no meio do retângulo-livro? e pintará de preto e roxo o branco das páginas? e as capas de tecido, para onde?

para onde levarei meus companheiros de viagem em Sampa numa manhã para nos enchermos de ternura durante todo o resto do dia? onde meu filho se sentará no chão e dirá a um coleguinha de seu tamanho que tem este e este e mais este livro?

qual editora me perguntará quanto posso pagar por um livro?
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tenho a impressão de que nenhuma. porque a Cosac sempre me pareceu ser da ordem da paixão. do sonho --- da irresponsabilidade que está em toda paixão. em todo sonho. sim. que dor perder tanta beleza.
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