sexta-feira, 21 de agosto de 2015

um pouquinho antes, e tudo estaria igual



em algum momento dos últimos dois meses, tentei assistir a um filme por dia. quase deu certo. uma viagem e a preparação de outra atrapalharam a ideia. ou a realização da ideia. mas por ora prefiro ficar com a alegria dos primeiros dias, quando realmente consegui assistir a um filme por dia. a decisão por si só já mudou meu ritmo. e foram os dias em que me senti pela primeira vez nos últimos meses realmente feliz. vi filmes pela manhã, sem nem sair da cama, à noite, de madrugada, no meio da tarde. no notebook, na tv, no chão, no sofá. chorei baixinho, bem alto, ri, dei gargalhadas, dormi no início, no meio e nunca no final de algum filme. e enterrei a ideia numa sequência de quatro filmes.

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perdi algo nos últimos anos que não consigo mais reaver --- parece que meu tom alegre misturou-se com outro menos admirável. sempre me espanto quando alguém me diz que sou reclamona. ontem márcio me disse isso. doeu bem aqui na minha alma, se ela. passei o resto do dia pensando no meu amigo Binho que durante um tempo me ensinou a alegria da impossibilidade de reclamar. sempre penso nos meus amigos antigos quando percebo minhas perdas. o tempo. 

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fiquei tão doida em Brasília. uma doida bonita. no último dia, fui ao cinema sozinha. uma sequência de quatro filmes. no último, a atendente me perguntou. "é porque moro longe". e depois me enchi de questões. nunca quis tanto abandonar o que sei fazer como agora. mas talvez imitando a personagem de algum filme perdido na memória parca, recostei-me no táxi que me trazia de volta e sorri levemente: logo eu, que sente tanto espanto com aqueles que querem abandonar aquilo que sabem fazer de melhor. a vida é mesmo este imprevisível agridoce. 

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recebi um email que me deu uma alegria tão grande que deixo anotado aqui para não esquecer. no que sei fazer. 

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parece que foi ontem, mas já faz mais de quatro meses que mudei de cidade. e hoje, num aeroporto quase vazio, estou fazendo a viagem de volta para pegar o Poeminha. um tempo sem ele pareceu uma vida muito longa. a frase do título me veio pensando nisso. não. nada pode ser igual depois de quatro meses da vida de um menino-poeminha. perdi um tanto de coisas. fiquei apenas com o que chegava pelas próteses. tio Inildo e tia Rô enviaram centenas de fotos. e Tatupai ligava a câmera para que eu o visse à noite ou dormindo ou não dando muita bola para mim. mas nunca me senti desamada. e penso que ele também não. terá herdado de mim essa confiança no amor?

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eu já me enganei uma e outra vez por causa dessa confiança. um pouco depois e nada mais é igual. um dia desses, dizendo em voz alta os meus pecados, sem confessar os dos outros, pensei nisso também. de como basta um instante para nada mais ser igual.  e como fazer para que o amor do outro permaneça? e o seu próprio amor permaneça? eu nunca soube essa resposta. só sei do seu contrário. quando amei sem poder amar, de volta das cidades frias, espantei-me com minha própria frieza. nos dias mais tristes, eu apenas olhava o porvir. e tinha certeza de que aquele frio passaria. a soberba da sobrevida.

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uma moça linda chamada Aline sempre quando escreve me faz chorar bem alto. ela parece saber tanto de mim que eu mesma me espanto. conto coisas que nem eu sabia que podia contar. A vida é mesmo feita a golpes de pequenas solidões. foi o que ela me disse. e me pareceu tão certeiro. ontem passei o dia assim. e parte do dia de hoje. vindo para casa, de bicicleta, espantei-me com esse golpe de pequenas solidões como se o sol quente fosse a materialização desse golpe. Nina Simone, coincidentemente, estava na vitrola. foi só apertar o play. e de repente, eu não estava mais só. vou bem ali ---- encontrar Tatupai e o menino Poeminha. 

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perguntei ao Tatupai para onde eu deveria ir. ele parece ter se espantado.  como se nunca houvéssemos deixado de estar lado a lado. falei para minha manaMácia para não me pressionar:::: perguntas exatas não devem ser feitas para quem não tem respostas exatas. eu não sei quanto de mim deixei de ser para ocupar agora esta posição de não insistir em respostas exatas. mas sei que, por ora, isso me dá alguma tranquilidade. embora nenhum risco tenha sido abortado. 
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sim. de vez em quando sinto falta dos diários da infância. estarão todos eles queimados?
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e juro. se eu tivesse a técnica, largava tudo. na croácia, esta menina que sobe a árvore nunca vai saber que eu a fotografei, roubando-lhe o seu instante.

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Para o filho, na Marcha das Margaridas.












"Brasília está florida. estão chegando as decididas".

Poeminha, os últimos três dias têm sido de muita emoção. sinto-me fazendo parte da História - da história em tempos sombrios, como me disseram dois amigos dos mais amados. são tempos sombrios, filho, mas tenho convicção de estar no lado certo. vão dizer muita coisa sobre o que vim ver e viver aqui em Brasília, a capital do país. mas não acredite, filho, se um dia você topar com a miséria da nossa mídia nacional. 

dirão que as quase cem mil mulheres que vieram do Brasil inteiro para a 5ª Marcha das Margaridas só vieram porque foram financiadas pelos sindicatos (que por sua vez foram financiados pelo poder público). e vão fazer esta afirmação para denegrir a imagem da longa viagem destas mulheres em direção à Marcha. mas não acredite, filho. estas margaridas (mulheres e homens trabalhadorxs do campo, da floresta e das águas, mais mulheres do que homens), de fato, não pagaram suas passagens para virem até aqui. e boa parte delas nunca havia viajado. e isso porque vivemos num país absurdamente desigual --- e elas por mais que quisessem não teriam dinheiro para vir até aqui. mas não há nada de errado nisto::: é função dos sindicatos organizar e garantir condições para a  realização de manifestações como essas -- e de captar recursos para isso.

as mulheres trabalhadoras vieram porque acreditam nas causas que defendem. porque há um movimento (invisível para boa parte da população) que transformou a vida dessas mulheres trabalhadoras nos últimos anos. isso se chama políticas públicas voltadas para as populações necessitadas, filho. e políticas públicas que não existiam antes do governo popular do PT ter chegado ao poder. e você corre o risco de nunca saber que elas existem porque essas políticas - mesmo agora, no momento mesmo em que acontecem - não aparecem na mídia, sempre interessada em mostrar mais os escândalos do que as realizações. 

nos últimos três dias, estive muito próxima dessas mulheres que acamparam desde segunda no estádio Mané Garrincha e hoje atravessaram as grandes avenidas de Brasília para dar um "acocho" no congresso nacional::: e eu te garanto, Poeminha::: a imprensa mente e age de má-fé quando trata a marcha por meio dessa visão estreita e deturpadora: essas mulheres sabem que antes não tinham visibilidade alguma. e visibilidade onde é importante que tenham: no lugar onde vivem. e agora têm. elas têm brilho no olho. elas sabem dizer o que de bom acontece e o que esperam que ainda aconteça. e estou falando de um aprendizado bonito e persistente de empoderamento (uma palavrinha que eu encrenco, mas que agora existe no nosso vocabulário para sinalizar mudanças nas relações de poder daqueles que batalham por reversão nos lugares de poder).      

hoje há um ódio generalizado, Poeminha. e eu fico feliz de não fazer parte dele. o sistema político do Brasil sempre foi corrupto; algo como "todo político é milionário", mesmo que tenha nascido pobre de marré-marré. e nunca  se questionou de onde se anoitecia pobre e se acordava milionário. pelo contrário: nossos "grandes políticos" nunca esconderam a sua face abastada. o ícone da nossa democracia desapareceu no mar em um helicóptero - e nunca questionaram como era pago um helicóptero para sobrevoar os mares. mas agora, todos viraram justiceiros. todos querem acabar com a farra instituída há centenas de anos. 

e sim, Poeminha. eu também fico indignada porque essa patifaria continua aí como sempre esteve. mas eu já era indignada antes. e daí eu posso começar a te responder por que continuo apoiando um partido como o PT no poder, apesar de ele ter compactuado com esse sistema político corrupto. e por que aprendi a amar a Dilma mais do que ao Lula -- embora ontem eu tenha chorado do início ao fim de seu discurso::: o discurso de alguém que sabe mexer com nossas emoções mais primitivas -- e hoje tenha reconhecido em Dilma uma limitação na sua capacidade de emocionar pela palavra. mas acredito quando ela diz que enverga, mas não quebra. acredito muito mais nela do que naqueles que a rodeiam. e mil vezes mais do que naqueles que bradam a sua ingerência. e se acredito é porque minha indignação com as injustiças, com as patifarias, vem de muito antes. desde sempre reconheci os abismos e sempre me levantei contra eles. e como você já tantas vezes comprovou, Poeminha, eu sou uma leitora --- não apenas dos livros, mas também do mundo. 

nunca fui uma militante, filho. hoje foi a primeira grande passeata da minha vida (e tenho que agradecer sobretudo a nossa amada Lili por estar aqui), mas sempre estive próxima da militância. sempre soube ler o mundo e por isso estar próxima dos grupos que defendem micropolíticas de empoderamento - muito antes dessa tal palavrinha existir. e quem fez isso no Brasil, filho, foram os sindicatos, os movimentos estudantis (no meu tempo de juventude, antes de ser corrompido por uma ideia de Deus do merecimento, até o movimento católico, onde conheci uma das pessoas mais lindas que já passou pela minha vida) e  os partidos políticos como  o PT, que se constituíram pela defesa de um estado utópico de participação popular.

é por isso, Poeminha, que não farei "panelaço" nem sairei às ruas no dia 16 -- o dia que se planeja mais uma vez pedir o impeachment da presidenta. tenho vergonha alheia dessas pessoas --- que vivem num país que conheceu a ditadura e agora querem aplicar um golpe na democracia. por ódio. por puro ódio. por que não elevaram suas vozes contra a corrupção antes, filho? eu arrisco uma resposta: porque não estão levantando suas vozes, de fato, contra a corrupção, mas pelo incômodo do aparecimento dessas micropolíticas que começam a afetar suas parcas vidas, suas alienantes vidas.
 
este não pode ser o nosso lado, Poeminha. nunca foi. e nunca será. podemos viajar de avião como eles, podemos comer filé e picanha como eles, podemos morar numa casa boa como a deles. você pode e vai estudar nas escolas de seus filhos, mas não será um deles. não queira ser, Poeminha. faça como sua mãe. adentre os seus covis e mantenha a sua diferença. a sua soberba. saiba ser de outra linhagem. porque minha herança é esta::: eu vim dessas mulheres e homens que estão nas imagens que flagrei hoje --- desses rostos marcados, desses pés rotos, desses sorrisos soltos e soberanos.    

e não se preocupe, Poeminha. eu vou te mostrar nas formas mais bonitas esta nossa herança. como agora --- agora que eu escrevo estas linhas como uma promessa para o seu porvir. você confia em mim? pois confie. eu confio bastante. em mim. em você. nas pessoas todas que vi nesses últimos três dias.
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# O nome da Marcha é uma homenagem:: Margarida Alves, sindicalista no Sindicato dos trabalhadores rurais de Alagoa Grande, na Paraíba, dizia que "É melhor morrer na luta do que morrer de fome". E foi morta pelos latifundiários por causa da força de suas ideias e suas lutas. mas virou semente. hoje são muitas margaridas. e se elas escolhem de que lado estão, não é à toa. a primeira vez que estiveram em Brasília foi em 2000. não foram recebidas pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso. não teve ninguém para ouvir suas pautas de reivindicação. nos anos seguintes, quem as atendeu foi Lula. e foi Dilma. de que lado poderiam estar elas, senão dele e dela? e como poderiam estar ao lado dos que estarão nas ruas domingo, se nenhum deles sabe de suas existências? veja. são respostas fáceis. 

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

fico cansada, juro



Neguinho não lê, neguinho não vê, não crê, pra quê?
Neguinho nem quer saber
O que afinal define a vida de neguinho

Neguinho compra o jornal, neguinho fura o sinal
Nem bem nem mal, prazer
Votou, chorou, gozou: o que importa, neguinho?

Rei, rei, neguinho rei
Sim, sei, neguinho
Rei, rei, neguinho é rei
Sei não, neguinho

Se nego pensa que é difícil, fácil, tocar bem esse país
Só pensa em se dar bem - neguinho também se acha
Neguinho compra 3 TVs de plasma, um carro, um GPS
E acha que é feliz
Neguinho também só quer saber de filme em shopping

Rei, rei, neguinho rei
Sim, sei, neguinho
Rei, rei, neguinho é rei
Sei não, neguinho

Se o mar do Rio tá gelado
Só se vê neguinho entrar e sair correndo azul
Já na Bahia nego fica den'dum útero
Neguinho vai pra Europa, States, Disney
E volta cheio de si
Neguinho cata lixo no Jardim Gramacho

Neguinho quer justiça e harmonia
Para se possível todo mundo
Mas a neurose de neguinho vem e estraga tudo
Nego abre banco, igreja, sauna, escola
Nego abre os braços e a voz
Talvez seja sua vez:
Neguinho que eu falo é nós

Rei, rei, neguinho rei
Sim, sei, neguinho
Rei, rei, neguinho é rei
Sei não, neguinho
(Caetano/ Gal Costa)

nesta semana, um médico me perguntou: "você acha que bebe demais?". e eu respondi: "uma pessoa que bebe nunca acha que bebe demais". o médico, silenciado, olhou para mim. parecia surpreso. acho que não esperava por minha resposta. não espera uma mulher dizer que suas dores no estômago podem estar relacionadas aos seus maus hábitos que se traduzem em cerveja e coca-cola.

o mundo está muito chato. 

eu defendo muitas bandeiras. eu não aceito que dividam o mundo em azul e cor de rosa. eu protesto contra o preconceito aos gays aos negros aos pobres aos nordestinos. isso, das minorias. e desde sempre. muito antes de ser moda. assombrei minha família amada quando disse em alto e bom som que não via problema algum em ser gay. e quando me disseram que, além de gay, havia a desconfiança da promiscuidade, eu disse apenas que estava no script. e quem pode negar que é maravilhoso? muito antes de ser politicamente correto. porque não gosto de nada do "politicamente correto" e suas demandas. nunca fumei --- mas me assombra o mundo que varreu os fumantes para as ruas --- entregues à própria sorte da discriminação. Tatupai é fumante. e vez ou outra me preocupo. não quero que ele morra de câncer. mas não querer que seu amor morra é do humano. penso.

o "meu problema" é que penso que passamos por uma higienização do presente que por vezes me dá engulhos. estamos vivendo um revival mal feito dos movimentos sociais dos estados unidos. agora, tudo precisa ter uma ordem bem demarcada. como se, nordestina, precisasse proferir meu ódio aos que odeiam os nordestinos, mas proferir de tal modo que pareça que apenas reivindico o lugar que nunca tive. mas que lugar de reivindicação é este? não é o meu.

odeio a palavra bullying. a porra da palavra já prova nossa submissão às ideias vindas não apenas de fora, mas em forma de onda. quando poeminha foi ignorado por seus coleguinhas por gostar de pôneis, não pensei em bullying. pensei que é do viver em grupo. e vi nisso a oportunidade de explicar a ele que o mundo, às vezes, é bem feio. e que está ao nosso alcance não sucumbirmos. ser feios como os que julgamos ser feios é a pior das posições. acredito nisso. hoje nos impelem a nos afastar de tudo que não tenha uma bandeira efetiva e visível. estou fora. falei para o Poeminha: -------

não quero o mundo no seu contrário. quero o suplemento. quero amar os indígenas e os não indígenas. o branquinho e o negão. ou o neguinho. quero amar as bichas. mas não como categoria.  não quero nada em categorias. e quero poder dizer que, se defendo bandeiras, me cansam os olhares todos voltados para as bandeiras. tenho visto muitos enganos --- e todos passam por este olhar "preservacionista" - amam os indígenas e os negros paramentados de indígenas e negros. quero ver amar o neguinho e o índio com seus cordões de ouro e prata e seus carrões f1000qualquercoisa. pensam num mundo estático, como se todos não estivéssemos neste movimento errante de esquecermos as próprias tradições.

como ser nordestina. ser nordestina é uma desgraça. cearense, então. o cearense não tem o orgulho do pernambucano, do baiano, do paraibano. o orgulho do cearense é ter sobrevivido a grande fome. somos um povo acanhado. não temos o frevo nem o axé. vivemos do forró - que só teve seu período áureo com luiz gonzaga e com o tal forró universitário. mas temos tanto! e foi este tanto que esteve sempre comigo --- o que me permitiu estar aquém ou além da estereotipia, a depender do momento.

em paris fui arrastada pelo meu supervisor de doutorado que ao descobrir aparentemente surpreso que eu havia lido a trilogia de beckett saiu me apresentando como a brasileira que leu... e não esbocei nenhuma reação, a não ser um sorriso amarelo de quem mal sabia falar a língua daqueles que me passaram a ver como exceção. mas me vingo até hoje ao transformar meu supervisor na mesma estereotipia::: um francês idiota que não sabe que no Brasil se lê Beckett. o que quero dizer com isso é que todas essas classificações tornaram o mundo muito chato. entendo a história. indigno-me com a história. mas não. não estou a fim de fazer uma revisão da história a partir de uma higienização do presente. 

porque batalhar pelas diferenças não é o mesmo que querer transpor tudo ao seu contrário. não me alinharei nunca àqueles que nas passeatas defendem a volta à ditadura. essa gente classe média que não me representa. e defenderei até sempre um partido como o PT no poder --- falei ontem mesmo:::: "se vocês pensam que esta universidade existiria se um partido como o PT não estivesse no poder, é porque vocês não entendem nada de política". e vou na marcha das vadias, nas paradas gays. sou a favor das cotas. e meu filho não vai se beneficiar delas, porque ele não é neguinho para os padrões brasileiros e eu não vou ter coragem de mantê-lo na escola pública. mas não me peçam para fazer o jogo da substituição. não me peçam para cooperar na instituição de uma nova cultura --- que tenha como premissa o esquecimento das tantas culturas.

um exemplo::: acho mais importante que o neguinho brasileiro leia o branquinho guimarães rosa e o sarará graciliano ramos do que leia os branquinhos agualusa e mia couto. e acharia diferente se o povo soubesse fazer de outro jeito::: colocar tudo junto e misturado. mas só vejo o contrário. uma parte de professores totalmente envergonhada, e outra indignada, quando se fala em ensino da literatura brasileira, da arte brasileira. agora, só pode ser literatura das minorias, arte das minorias. como se nós mesmos não fôssemos uma porra de país que mal sabe o que seja literatura, o que seja arte. que mal sabe quem foi graciliano ramos e guimarães rosa, quem foi hélio oiticica. mas não::: preferem que agora se saiba quem é mia couto e agualusa (incríveis, sem dúvida, mas quem conseguir me provar que a prosa de agualusa vale um dedo da de rosa, juro, como eu digo::: não corto o dedo do meu filho, mas corto o meu). porque estou falando de deslumbre: do momento ímpar de ler grande sertão: veredas e ficar chapada a vida toda a cada vez que lembra. e eu li barroco tropical, do branquinho agualusa, e vi muito mais pretensão do que qualquer outra coisa. fico cansada, juro. e não é nacionalismo. é política de leitura. defendo que se estude literatura brasileira porque somos brasileiros. e também norte-americana, francesa, italiana, africana, japonesa, porque somos brasileiros e precisamos abrir o olho para o resto do mundo. não para um certo mundo. mas para o mundo todo. me ajoelho diante de mia couto como me ajoelho diante de beckett. é mentira ---- me ajoelho mais diante de beckett de dostoiévski de kafka. e que se dane o fato de eles terem nascido na europa branquinha. são neguinhos como eu. 

quero estar no entremeio. por que diabos não posso? por que diabos não posso ser uma mulher que desconfia que sua dor no estômago é do excesso de cerveja e coca-cola que ingere? ou não. e não sou feminista nem defendo uma masculinização, uma europeização do mundo. sou mulher. tenho uma independência emocional que cultivo com orgulho e dedicação. e conheço poucas pessoas que a tem. preciso ser amada por poucas pessoas. e mal me mexo quando me descubro não amada. mas sou mulherzinha também. cuido da casa. lavo a roupa da casa. passo a roupa da casa --- isso significa que quando o tatupai está aqui eu cuido dele. eu dobro as suas camisas e coloco-as na posição de usar no guarda-roupa. mas Poeminha, quando tinha quatro anos, disse espantado: "Papai, mulher cozinha!", porque nunca tinha me visto cozinhar. porque é isso, né? a porra da diferença é isto. é branquinho e neguinho tudo junto e misturado. é tudo cor. é tudo gente. é tudo sentir na pele. e para mim, esta deve ser a política.

(hoje recebi um abraço muito apertado. da moça que fez uns vinte tipos de raios-x do meu corpo. junto com o abraço, ela me disse que desejava que eu ficasse boa. disse que acreditava em Deus, que Deus era a cura. falou abraçada a mim. e eu a abracei fortemente. agradeci com uma grande alegria no coração. não era ali que teria medo do abraço de uma desconhecida. mas não menti::: disse que não era religiosa. mas que agradecia enormemente aquele abraço e aquele desejo que eu melhorasse. e por fim, fiz a reverência de agradecimento: curvei os meus joelhos e disse: "obrigada!". curvei-me àquele desejo diante da diferença. ela tampouco titubeou. abraçou-me mais uma vez).
 

sábado, 18 de julho de 2015

tia Elita - e o mundo que se extinguiu.




ontem, tia elita se foi - na difícil travessia da qual é possível falar apenas por eufemismos. esta maldita palavra impronunciável. foi assim um dia triste, muito triste. grande de memórias. tia elita era a última sobrevivente dos meus velhos. daqueles que, mais de uma vez, falei aqui. daqueles que moldaram meu jeito de ser. tia Elita. minha tia-avó. que sem ter tido filhos foi a mãe de um tanto de nós. não. não era maternal. era companheira. era uma de nós. tinha humor, muito humor, mesmo sendo rabugenta; tinha umas tiradas incríveis, uma ironia inteligente que era um verdadeiro aprendizado. ouvia, sabia ouvir. era tão inteligente, tão única, tão maravilhosa. tudo advinha da sua maneira ímpar de ver o mundo sem nunca se afastar de uma ética para a vida. mesmo quando pôde, mesmo quando foi tentada a ser a senhora da casa, preferiu abandoná-la, cuidando da memória de sua irmã, de quem era o seu oposto:::: vó. vó e sua delicadeza adquirida na meninice da velhice.  preferiu abandonar a sua vida inteira a ocupar o lugar da outra --- sabem o que é ter sido testemunha - ainda que já distante - deste gesto? é ter para sempre impresso na pele esse gesto raro.   

tia Elita era uma mulher altiva. é assim que lembro dela. magra, com seus cabelos sempre curtos. elegante com suas saias e blusas para fora das saias. não se via ela desarrumada no dia a dia. herança do seu ser-costureira. a vida toda na máquina de costura. a vida toda que se extinguiu há um par de anos. anos em que ela viu todos se irem. os seus que nasceram junto com ela. e nós, que nascemos depois, mas também a deixamos. 

tia Elita foi a primeira hipocondríaca que eu conheci - e por muitos anos e por tantas razões, herdei essa hipocondria. e agora, que ela foi a última a ir, me vem um choro triste, mas quase um sorriso por saber que a hipocondríaca foi a última a sucumbir. e a única fumante. manaMácia, ontem, para contar uma cena ainda sua, me contou que ela havia perguntado há poucas horas antes de ir quando poderia fumar novamente. e quando lhe responderam que Liduína se encarregaria de perguntar ao médico, ela vaticinou: "então, não vou fumar mais, porque Liduína não vai deixar". era assim. ela nos conhecia. sabia de nós. sempre soube. queria muito ter tirado uma foto dela com seu inseparável cigarro. aquela baforada na calçada. antes, em pé, com a mão na cintura a contar ou a escutar alguma história. e depois, na cadeira de balanço, no limiar da calçada.

tia Elita tinha 91 anos. achei que, por isso, não seria preciso fazer seu luto. há poucos dias havia sido condenada a ficar na cama. e ninguém queria imaginá-la nessa condição. chorei e me sentei de novo nesta cadeira que agora escrevo. mas logo tive que abandoná-la. não. para mim, não era natural. não era uma morte qualquer. todo um mundo que eu tanto prezo havia acabado de se consumir. a tarde foi um longo hiato.  e hoje pela manhã amaldiçoei a minha vida. presa numa reunião, vi que construí minha vida a tal modo que não posso enterrar meus mortos. e para quê? 

tia Elita me diria, como disse tantas vezes: "eh, Cláudia, é você que tem que saber". o que eu tenho que saber é ainda a minha nebulosa, décadas depois. mas o que sei mesmo, nunca duvidei, é que minha vida teria sido terrível se eles não tivessem existido. pois nunca na vida precisamos tanto de pessoas como a idade em que tudo é um grande dilaceramento. e ter pessoas que nos estendem a mão e que chegam até nós como pessoas íntegras, boas, é só o que pode nos salvar.é só um gesto - e é tanto. 

eles se foram não porque foram cedo demais. mas porque eu os conheci quando já estavam aqui há muito tempo. e com isso puderam espalhar em mim a sabedoria de uma vida toda. pensar neles - minha vó Adauta, meu avô Tavarim, minha tia Mariah, meu tio Delbrandro, minha tia Expedita, meu tio Sebastião, meu tio Manuel, minha tia Elita (todos meus tios-avós) - me dá uma sensação maravilhosa de pertença a uma linhagem que soube viver com dignidade, que soube ter dignidade e que sem alarde soube amar - no que o amor tem de mais inteiro::::: saber estar na diferença. não denegrir. não acusar. não jogar uns contra os outros. 

(lembrei agora de uma história. uma história triste. menina sem nada na vida cometi um erro. e não ouvi deles mais do que sussurros. dela, sobretudo. apaziguou tudo. deve ter posto na conta das doidices de menina. depois, meu pai, desgostoso, contou para minha mãe. e aí o alarde foi extemporâneo. apanhei na cozinha entre alaridos e soberbas, enquanto pensava na dignidade daquela de quem eu havia, de fato, usurpado o que era dela. saberia ela a razão? não tenho dúvida. sempre pressentiu o abandono a que eu era submetida).  

(e de uma história alegre. dormíamos no mesmo quarto por vários meses. anos, talvez. e eu via o seu ritual de dormir. vestir a camisola, amarrar lenço na cabeça, colocar o penico embaixo da cama, fechar as portas que ligavam ao outro quarto e a sala de jantar. e me ouvir a perguntar no escuro - da rede: "tia Elita, já dormiu?". E ela responder: "ainda não, porque você não me deixa dormir com suas perguntas". então, o silêncio. até que ela dizia: "dorme, bode velho, que amanhã você tem que acordar cedo senão sua mãe te pega". eu dormia, então, apaziguada em sua companhia.)

nunca. nunca esquecer essas lições. e se não posso ser mais do que uma pálida figura de tamanhas sabedorias, que eu as carregue comigo, que estejam comigo, nos momentos em que não souber nada fazer - para ali encontrar o caminho. 
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ela me chamava de "bode velho" por causa dos fungados e espirros - eu, toda alergia. 
 
a qualidade das fotos é péssima. mas me faz lembrar::: ela tocou o Poeminha. pôs sua mão grande sobre ele. como pôs sobre mim tantas vezes e de tantas formas. 

segunda-feira, 15 de junho de 2015

a pata do elefante. ou por que escrevo



a escrita tem me dado muitas alegrias. a escrita me deu alegrias a vida toda. dentre outras razões, é por isso que eu abrigo um blog --- exercitando esse fazer por nada, sob o risco muitas vezes de me sentir meio ridícula de ser uma quarentona que escreve nesta terra-de-ninguém o que se assemelha a um diário --- me deixem acreditar, please, que ao menos tento algo como uma pegada escritural.

mas falo de outra alegria hoje. como esta - de receber na manhã de sábado a revista que tem um artigo meu e uma tradução. o fetiche da publicação. mas o certo é que eu não escrevo apenas em nome da produtividade acadêmica. e demorei muito a fazê-lo. precisei levar seguidas broncas da Mariamada até ter coragem de pôr o meu bloco na rua. escrevo como resultado de ter algo a dizer. de querer ter algo a dizer. e algo que vem das leituras que tento fazer a duras penas. sim, porque somente a duras penas um professor universitário hoje se dedica ao ofício da leitura, tamanha a histeria da "produtividade" em todas as áreas::: pesquisa, extensão, social, aulas, orientação, reuniões para tudo e para nada - e o professor emparedado na própria ignorância que vai se formando como uma crosta. é contra essa ignorância que luto bravamente quando resolvo passar uma manhã toda relendo Ulisses só para encontrar uma passagem que, depois, descubro se resumir a duas linhas!  ou quando passo noites inteiras acordadas à base de coca-cola e cerveja [nesta ordem, geralmente...] escrevendo, como fiz ontem::: agora que me cerco outra vez da vontade de escrever sobre alguém.

Tatupai sempre diz que quando estou escrevendo um texto é quando fico mais feliz --- a alegria da ruminação. é mesmo como me sinto. pois escrever para mim é um modo de pensar sobre o que eu ainda não havia pensado. a expressão "penso com os dedos" tem muito de verdade quando se refere a mim. escrever sobre um autor ou uma questão é também uma forma de garimpo. e gosto muito da fase do garimpo. acercar-me da questão ou do autor por diversas maneiras - muitas vezes de modo aleatório, deixando-me pronta para o acaso, a surpresa. pois vejam como pode ser bonito::: ter um corpo de escrita é buscar, essencialmente, um corpo de leitora.

e tem também a alegria da surpresa (um autógrafo de laura erber na manhã de sexta).  não conto. mas digo da emoção --- que foi tamanha. esquilos de pavlov, que foi o livro de 2014 que mais achei "pancada" na literatura brasileira contemporânea. às vezes, a vida tem coincidências tão bonitas!
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deve ser lindo ser escritor ---- de verdade.  ser um criador. sempre penso em Roland Barthes querendo escrever um romance, acercando-se dele, e o seu romance que não existiu ser a história desse cerco. eu não quero escrever um romance. mas é um não-querer que vem da certeza da incapacidade, da impossibilidade. mas eu quero ser uma pessoa que escreve crítica de um modo honesto, íntegro. e mesmo assim, eu me arrisco o tempo inteiro, porque sou uma pessoa de mil vontades que sempre quer escrever sobre o que gosto, mesmo quando mal sei nada sobre aquilo que gosto - como uma "fisgada" que mal conseguimos localizar. estou nesta agora. e estava quando quis porque quis escrever um texto sobre o marcos siscar. me dava uma emoção me imaginar sendo uma leitora que escreve sobre sua poesia --- o problema é que não sou uma leitora assídua de poesia. o problema é que amo marcos pra caralho e não queria escrever algo escroto ou idiota ou desonesto. daí, o risco. mas um risco que foi bonito correr. dias e dias debruçada sobre o que eu não sabia... e bem ----não sei da qualidade do texto [publicado - agora ele viaja para chegar até a mim], não cabe a mim dizer sobre ela, a qualidade. isso de ser apenas uma das leitoras de sua escrita. como em tudo, há aquele intervalo entre o querer e o poder. a ambição e o saber. mas arrisco a  dizer que o texto tem uma busca de integridade. que todo texto que escrevo tem essa busca. e pode parecer bobagem, mas penso que essa busca existe porque, reitero, escrevo porque gosto de escrever.
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este texto da Alea - gosto bastante, a quem interessar possa. escrevi toda séria. queria falar mal de modo elegante ---- como Derrida fazia. e em uma edição para Derrida. muita emoção. mas elegância é um dos meus impossíveis. quem me conhece, sabe::: eu sou a pata do elefante. mas que graça seria se a pata do elefante não quisesse ser o pouso do passarinho?


sexta-feira, 12 de junho de 2015

nós






somos bem bonitos quando estamos juntos.

com amor.

terça-feira, 9 de junho de 2015

dos tempos




temporariamente, moro sozinha outra vez. sozinha, vírgula. tem a Nina, como antes havia Lady e Janis. aquele tempo foi tão bonito que não é possível fazer comparação. não era apenas a juventude. era uma crença muito grande nas pessoas --- em mim e na longueza da vida. mesmo nas pessoas mais egocêntricas que gravitavam ao meu redor, eu sentia a lindeza. e me alimentava dela. havia muita confiança em mim. no que eu podia fazer com meu tempo. e no que eu fazia com esse tempo. meus amigos eram os amigos mais bonitos do mundo. e cuidavam da minha insônia como quem cuida de quem precisa de pão. meu pão parecia ser aquilo que eu sorvia daquelas pessoas todas, ficando eu mesma bonita.


depois, foi o depois. há alguns anos, eu disse aqui que estava irremediavelmente sozinha. mas aí encontrei o Tatupai. e fizemos juntos o Poeminha. e aí eu virei esposa outra vez e virei mãe. achei tudo tão poderoso. só não foi comercial de margarina, porque não dá para acreditar em sabor da margarina. mas era tão bonito que me deixou em paz por um par de anos. agora que o par de anos passou, tentamos eu e Tatupai saber onde estamos. o que é bonito são as tentativas. aquele apego ao que em nós precisa um do outro. -------------------

--------------- quase não sinto dor. mas há dias que alguma esperança lateja. e sinto uma certa dor. porque não sei sentir esperanças.

meu alimento preferido nunca foi a esperança. sempre foi a beleza dos dias. tantos anos depois da doença que quase me matou, vejo bem que não senti medo ---- não senti medo pela razão errada, mas não senti. e isso importa muito. hoje tenho mais medo do que antes. porque não soube fazer o que deveria ter feito como uma sobrevivente. naquele tempo, eu tinha a certeza de tudo ter feito para viver bem. sem ainda conhecer a palavra, havia muito empoderamento naquilo que eu era. eu sentia que podia morrer --- e estaria em paz. eu ainda era a pessoa de dez anos antes que havia cumprido a promessa de tudo fazer para ser feliz -- dali em diante. dez anos haviam passado rápidos. e haviam sido muito poderosos. Tatupai, numa das longas noites, me disse que se ressentia do modo como eu havia dito na época que poderia morrer - e não seria nada ---- o que para mim era uma paz enorme comigo mesma e com o mundo, ele sentiu como um certo alheamento à nossa história. quando para mim era o exato oposto. era justamente porque estava tudo no lugar::: era tudo muito bonito e muito intenso. não era nada disso de "estar no auge" ou coisa parecida, mas era um estar inteira. achava que era assim que se deveria morrer, sem ter muito sobre o que se lamentar. ser uma morte qualquer entre tantas mortes. como chicoanysio, eu não sentia medo de morrer. sentia pena::: Poeminha estaria em boas mãos por mais que me doesse deixá-lo. e para Tatupai, eu deixaria tudo que havia em mim e de mim até aquele instante, que não era muito, mas era tudo que eu tinha::::: meus livros, meus cds e minha grande ânsia de vida. achava na época que essa era uma grande herança --- que ele poderia estendê-la até muito longe e ser feliz e fazer feliz nosso filho. e que eu seria uma memória muito bonita. 

deixar para o outro a intensidade das minhas alegrias era o meu maior legado--- não poderia haver herança mais significativa.  e esse empoderamento vinha do meu "miolo mole". eu era um "miolo mole" ----. agora,  já não sei. a herança é quase a mesma. mas o quase lateja.  agora eu sofro de excesso de realidade. dá para acreditar nisto? pois acreditem.
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e antecipando as perguntas, digo que houve muita lindeza neste depois. mas foram muitos os baques. perdi um pouco do amor pelas pessoas. e isso me feriu de morte muitas vezes. tem dias, eu mesma passo a mão na minha cabeça, no gesto que faço com Poeminha quando ele se machuca: "foi falta de sorte, filho, já vai passar". mas é que às vezes não passa. às vezes, tudo é acúmulo. e eu fico sem saber se as pessoas já eram assim ou se eu que não o era. talvez seja isto: eu tinha o olho mais bonito --- mas este olho quem havia me dado eram os amigos. e agora, eu me perdi deles. muita boniteza que eu pensava existir, não existe. e aí sinto espantos. e me pergunto por que perdi a mão. por que deixei de ver vaga-lumes no escuro.  

a conclusão que eu posso tirar deste marasmo de texto - e que pode consolar - é só uma::: morrer agora seria uma bobagem --- porque eu iria me lamentar de uma porção de coisas. e ia ter medo. e caralho, pois o que me fez não ter medo de morrer foi justamente não ter do que se lamentar. preciso de um tempo a mais para acertar o olho. porque morrer com medo deve ser muito triste.

[este texto é para meu amigoamado marcio. e que não reste dúvida::: ele é um daqueles amigos que por ter um olho todo bonito enche meu olho de bonitezas infindas vezes].

domingo, 17 de maio de 2015

dos dias.

destes dias.







vim bem aqui em Itabuna. para um seminário. não não. não o seminário destas fotos. a cada vez que viajo para um novo lugar, levo comigo a esperança de que vou fotografar as miudezas, os instantes. imagino que vou encontrar o tempo a ocasião a imagem que me darão vontade de vencer a dificuldade da técnica. 

mas as ocasiões têm sido escassas. porque fotografar, para mim, tem a ver com aquilo que me toca. com aquilo que quero guardar. carreguei a câmara por três longos dias --- e apenas neste seminário, no qual fui no fim do primeiro dia do seminário de que participava, senti vontade de fotografar. senti ali uma força viva e poderosa. e o contraste entre um e outro seminário me deu um vazio incomensurável. passei da mais profunda indignação para uma letargia triste.

em outros tempos, com menos cuidado de si, eu teria pedido a voz e testemunhado meus assombros. teria demonstrado talvez indignação, talvez desespero. o mesmo desespero que vi em muitos rostos e muitos discursos. talvez ainda o faça --- em qualquer dia que essa letargia resolver dar uma trégua. mas o certo é que a chance do humano no interior da universidade é cada vez mais rara. quando ela parece apontar para isso é quando o humano mais é rechaçado. 

a universidade está corrompida pelos jogos de poderes, pela mesquinhez dos campos de disputas, pela alienação dos que ocupam o lugar das ordens e daqueles que batalham como vespas por estes lugares ou por, no mínimo, estarem próximos deles. 

a arrogância é a marca mais visível. mas não a arrogância alegre e criadora das vanguardas, embora essa palavra tenha sido ouvida a todo instante. talvez no mesmo gesto, por diversas vezes, lembrei que nenhuma ideia, nas artes, envelheceu tão rápido como a ideia de vanguarda. e justamente porque logo perdeu o viço, a alegria, a juventude. e hoje só sobreviva como tradição - vide octavio paz. 

ninguém lembrou de pensar que talvez o gesto pudesse ser o gesto da diferença. não o da inovação, da vanguarda, mas o da diferença. e não exatamente isto: apenas o desejo da diferença, o que permitiria a todo instante contrastar essa vontade com as limitações do real. talvez essa palavra não tenha sido sequer mencionada porque -- se bem pensada -- pudesse abrir o fosso, mostrando, assim, o abismo em que todos estamos metidos. escolher palavras mais ruidosas talvez ajude a esconder as ruínas da nossa própria miséria. 
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talvez, por isso, o fascínio por esta diferença das fotos --- 
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agora, aqui, no fim do terceiro dia, olhando esta dezena de fotos que tirei no hiato, pergunto-me qual a via possível. e daí me lembro de três nomes. três nomes que pincelei no decorrer do longo e triste seminário de três dias. os nomes-esperanças. resolvo, então, por ora, ficar com eles em busca de alguma filiação possível --- para que valha a pena o desgarramento do que já me era conhecido.


As fotos foram tiradas na abertura do 10º Seminário Nacional Religiões Afro-Brasileiras e Saúde: Cultura, Práticas de Cuidado e Políticas Públicas, que aconteceu na cidade de Ilhéus nestes dias. linda a abertura. as fotos mostram meu olhar de espectadora. tirei-as sentadas, enquanto via e ouvia.


quinta-feira, 30 de abril de 2015

Dos gostos - e do lugar certo (Para poeminha)



hoje, com muita saudade do Poeminha, que já está há quase um mês longe de mim::: que vim arrumar tudo por aqui, na nova morada, ouvi Marisa Monte e Barbatuques. e ouvindo, todo ele me veio --- inteiro. Poeminha aprendeu a amar Marisa Monte sem que eu soubesse exatamente como. de ouvido. sabe de cor todas as músicas do seu último DVD --- um dia, levou-o para a escola e - conta a professora - perguntou aos coleguinhas se a conheciam deste modo::: "vocês conhecem Marisa Monte? Ela é muito linda".

o primeiro disco que comprei na vida foi de Marisa Monte. e ela ficou para sempre, mesmo nos cds que gosto menos. quando fui ver o show dela em Paris errei o caminho que já havia percorrido várias vezes --- de tão nervosa. chorei durante todo o show. tão parca de memória - lembro de cada segundo. depois, saí na noite branca e percorri diversas ruas de bicicleta, entrei e saí de museus, galerias, pontes, ruas, levando-a em mim. quando vi seu show novamente, já era o frio de São Paulo. o coração doía, mas sabia fingir que ali podia estar o amor. não estava. mas foi tão bonito que é como se estivesse.

e mesmo assim, não sei exatamente onde começou o amor do Poeminha por Marisa Monte. ele ama um tanto de coisas --- cuido das referências na medida das minhas próprias referências e também das minhas concepções::: tudo junto e misturado: Poeminha é um pouco do que ele recolhe de mim, com seu grau de "sofisticação", e do que recolhe dos meios que estão a mão quando estamos ocupados demais para lhe dar a atenção devida: é assim que ele já amou a Galinha pintadinha e a Peppa. e também os Barbatuques e a Adriana Calcanhoto. 

vez ou outra, bate o receio de meu filho se sentir um estranho na escola. agora, ainda mais. algum colega pode decidir que você não é do "grupo" e aí o seu recreio pode ser um inferno. E Poeminha viveu recentemente o seu inferno --- e se saiu muito bem::: ao que parece. tudo porque sua mais nova paixão são as "my little ponys". e as ponys são cor de rosa. são de meninas. são. em suma, o universo do meu filho é feminino - o que a convenção diz ser o feminino. sua concentração e sua capacidade de invenção são de causar inveja a qualquer adulto. no tablet do Tatupai, ele assiste aos vídeos das ponys, baixa os tutoriais e realiza-os em seguida. customizar é sua palavra de ordem. com massinhas, com os cabelos cortados das ponys, com os retalhos que angariou na casa da tia Rô. e na próxima semana vai a um show de umas moças aí que se denominam ponys e me garantiu, com a voz firme e alegre, que não se sentirá mal se só tiver meninas. acreditei.

pois é assim que eu quero que ele seja::: destemido. deixei que Poeminha amasse as ponys e me esqueci da escola, das outras crianças --- esqueci do mundo cão. e meu filho pagou o preço. um certo coleguinha convenceu a todos os outros que os seus gostos eram "gostos de menina"; para ser um pária, bastou um monstro-mirim. porque os monstros-adultos educam muito bem para que seus filhos sejam também monstros-mirins, reproduzindo a mesma enxurrada de preconceitos que devem ouvir em casa. e aí, claro, meu filho sofreu. mas logo compreendeu com nossa ajuda que fazer escolhas, que ter gostos fora do rebanho, implica em ter que construir uma casca de proteção para si mesmo.

como mãe perdi pela primeira vez meus superpoderes. porque era um superpoder deixar que meu filho tivesse ponys cor de rosa e equestrias de longos cabelos ruivos. não estou a fim de levantar bandeiras. não tenho a mínima ideia se será isso que ele vai querer. mas gosto muito de virar as costas para todos esses lugares preestabelecidos. quero estar fora de todos eles. minha luta branda sempre adveio do desejo de não pertencer a esses grupos que classificam de forma impiedosa. só quero dizer uma coisa::: não vou rotular meu filho. o que digo agora é que suas referências demandam uma sensibilidade que não é do mundo-homem: seu maior abismo agora é entender por que todos os seus colegas gostam de futebol. e de tudo que tenho visto e sentido, todas as crianças reproduzindo os preconceitos dos adultos, eu só posso dizer uma coisa::: Poeminha nasceu na mãe certa. na família certa. porque, aqui, na nossa casa, no nosso amor, meu filho pode ser o que quiser, pode querer quantas bonecas seu olho brilhar.

talvez nada disso tenha a ver com orientação sexual --- mas se tiver, ele tem desde já seu paraíso particular. é aqui, junto de mim. se alguém vier com alguma gracinha eu vou dizer em alto e bom som que meu filho é um filho da mãe. não vou poder protegê-lo da lógica perversa do mundo, mas no meio da desproteção, ele saberá que estou aqui --- e que abomino com todas as minhas forças todo ódio às diferenças.

é o que tenho dito à família do Poeminha::: materna e paterna::: não me venha pedir para que eu não compre Peppas e Ponys. compro, sim. compro como compraria um carrinho, se assim ele desejasse. compro o que ele tiver vontade e não o que eu ou outro tiver vontade! gasto muito tempo na tentativa de equilíbrio entre proporcionar o que ele deseja e o que é excesso. e neste tempo, só estou convicta de uma coisa: só algo horrendo pode abalar o que hoje sinto pelo Poeminha. se ele desandar - e tornar-se ladrão, traficante, mau caráter, perverso, sei que o ser mãe vai me pesar. em suma, se ele virar gente que não respeita o outro. todo o resto ele poderá ser. se ele mantiver a sensibilidade, o cuidado com o outro, o respeito, a bondade, eu serei uma mãe por inteira feliz, como sou agora com a sua existência. quando Poeminha veio, eu já era uma senhora. eu estava pronta, se é que isso existe. mantive meus desejos e realizo-os na medida do possível. mas abandonei todo o supérfluo. abandonei as noitadas e virei uma mulher que via todos saírem - inclusive o companheiro - e me aninhava ao lado do Poemina, achando muito natural a não vontade. e consegui deixar sua bagunça espalhar-se pelos cômodos da casa --- logo eu, que só tenho paz se está tudo em ordem.  
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por que não é isso que importa???? importa é esta abertura para o ser mãe. para que o filho tenha a chance de ser uma gente feliz. faço todas as apostas nisso. neste "euteamo" contínuo e incondicional.

[[[e Poeminha, não vou mentir, se você virar um desumano, eu serei a primeira a meter o dedo na sua cara. suporto não. suporto não esta gente perversa, preconceituosa e infeliz que quer comandar o corpo do outro, o desejo do outro, a religião ou a sem-religião do outro. não me venha trazer para dentro da nossa casa esta lógica desumana. e filho, é melhor sofrer o deslocamento do que compactuar com esta gente que acha natural espancar, torturar, matar toda gente com as quais eles não querer parecer.

E não parecem mesmo, filho. Porque a cara do preconceito é horrenda, é terrível. e é a ela que devemos virar a cara. para que nossa face possa ser mais visível, mais humana, no sentido de um desejo de transformar o humano numa face mais visível de beleza.

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Vita nuova II







 
 




Mas arrumar as malas é sempre uma dor. Mesmo quando saio de férias, ou vou para uma viagem que quero muito, me vem um nó que se instala não apenas na garganta, mas no corpo todo. O corpo dói; as lágrimas descem, descem. Desta vez, não foi diferente. (Vita nuova) 

eu achei que não ia chorar. eu estava doida para ir embora. em 2015, tem me vindo tanta ânsia e me importa muito vivenciar tudo isso. mas o fato é que eu chorei. comecei a me despedir da turma que eu estava dando aula e desandei a chorar. depois, respirei e expliquei a razão do choro. não lembro de tudo que disse, mas disse algo que nunca vou esquecer, porque foi bem assim:::: "eu vim porque quis. e vou embora porque quero". achei poderoso. não não. não fiz nenhuma revolução. a mudança foi acanhada em vários sentidos. foi quase por acaso, na verdade. mas ainda assim, acho poderoso. não é todo dia.

colocar as malas nas costas - e que malas para tão poucas costas - não se faz todo dia. nunca escondi que vivia em Vilhena como se a cidade não existisse. acho que às vezes parecia ofensivo para as pessoas que adoram Vilhena, mas não era a minha intenção. quem prestou atenção, percebia que eu também dizia que vivia bem. em todo lugar, ou se aciona o paraíso particular ou a cidade importa muito pouco. sempre penso nas milhares de pessoas que vivem em São Paulo como se a cidade não existisse - tanta maravilha - espetáculos, shows, filmes, livrarias, restaurantes - e tantos no seu quadrado. mas às vezes é assim:::: e não há o que fazer.

Vilhena é uma cidade bonita, com ruas largas, para quem tem condições de morar no seu "miolo", como eu dizia. eu morava no miolo numa casa amarela que depois foi virando amarela-desbotada. as fachadas das casas são de encher os olhos. e meu amarelo ofuscava, mas eu bem que gostava. e as ruas são bem largas. eu estava quase familiarizada com elas --- com minha bike para lá e para cá. mas era só isso - para mim.

a linda da Aline me disse que em Vilhena só sente saudade de banca de jornais e revistas. para quem morou em lugares maravilhosos como ela, a afirmação me assombrou um bocado. fiquei envergonhada do meu pouco amor à cidade. mas compreendi. e achei que minha falta também era desta ordem, mas ainda mais larga. e pensando friamente, vou continuar sentindo falta nesta nova cidade que agora habito. pois acho que a minha falta tem a ver com algo ainda mais longínquo e imprevisível que eu não sei exatamente nominar.

eu fui para Vilhena com um tanto de desejos. logo de cara, perdi algumas partes de mim. e reencontrei-as muito rapidamente. uma amiga sabe contar esta história melhor do que eu - com muito humor. eu fico envergonhada quando ouço, mas  o tanto de verdade que há nela carrega o seu charme. eu também costumo dizer que eu tinha que ir para Vilhena para lá encontrar o Tatupai e fazer viver o Poeminha --- e isso já diz tudo::: já diz que Vilhena me deu tudo.

me deu um amor --- que anda com as entranhas estranhas, é verdade. porque o amor às vezes pesa. este ciclo interminável de muitas horas de riso e de lágrima. eu não sei para onde os Tatupais vão com este amor e também não me interessa dizer apenas das flores. tantas palavras inomináveis nos sobram. tem muitas saídas, creio eu. mas como sofro de dicotomia, me vem uma vontade de pensar que só há duas:::: se for de riso, haverá chance. se for de dor, melhor que não. e penso assim porque insisto em sustentar que quase não tenho medo. só tenho medo dos maus tratos do dia-a-dia. sabe::: isso que espezinha. estas palavras espraiadas que ferem como espinho no pé. não consigo pensar no porvir com espinho no pé. quero meus pés bem plantados --- para poderem planar.

e esse amor me deu um filho --- que saiu das minhas entranhas e que me encanta a cada dia, a cada hora, a cada minuto, a cada segundo. e ele nasceu em Vilhena. e não me causou nenhuma dor. e tem sido assim há cinco anos. só isso já faz de Vilhena uma cidade-maná. uma cidade para nunca esquecer. de lá, um filho. de lá, um Poeminha. meu meu meu. tem noites, quando estamos naquela de ler e de "beijar beijar beijar", me vem este dizer de posse e eu repito e repito::: "você é meu meu meu". é mentira, mas por ora é verdade e todo riso que vem daí e os beijos nas barrigas já valem uma vida (dia desses, o Poeminha disse: "se você ler duas histórias, eu dou dez beijos na sua barricotinha". e quem souber, que diga quantas história eu li.

quando Amanda me imitou na festa de despedida organizada pela Rô, ela repetiu uma frase que eu disse --- e o tom era de ironia e de graça::: algo como::: "desejar é perigoso. mas é tudo. tem sonhos que nos levam a Paris; outros nos levam a Vilhena". era o fim da história que eu sempre conto::: que desejei ir a Paris para andar nos corredores do Collège de France, onde Barthes deu aula. A história inconclusa era que eu fui para Vilhena porque eu queria ser professora universitária. Tudo, então, é desejo. são vontades inconclusas. são histórias.

não guardo nenhuma mágoa. vim embora com o peito aberto. sofri um bocado. e me diverti um bocado. e fiz um outro bocado. foram anos intensos. e é disso que me lembrarei. não falarei mal nem de Vilhena nem das pessoas de lá nem de mim mesma quando lá estive. já disse: encontrei um amor, tive um filho, quase morri de doença, encontrei uma grande amiga, fiz coisas maravilhosas na universidade. trabalhei trabalhei trabalhei. e deste trabalho, tão difícil na lida do dia-a-dia, extraí do pior o melhor de mim. lutei bravamente contra a corrupção dos dias, contra a mesquinhez das relações e com isso aprendi um bocado sobre mim e sobre os outros. não desejei mal a quase ninguém e sei que não fiz mal a ninguém. jamais, nenhum gesto que pudesse soar como vingança, mesquinharia, estupidez. uma nordestina "cangaceira", mas que não puxou o tapete de ninguém --- nem no posto de chefe - que ocupei por dois anos::: neste posto, aprendi a alegria do acolhimento e da indiferença. acolhi os que achei que valiam a pena e fui indiferente a todas as estocadas --- e este foi apenas o veneno que espalhei. uma serenidade no meio de tanta palavra maldita. - "as roupas e as armas de Jorge". e acho que consegui porque me impus uma certa disciplina. a disciplina de saber que nem toda gente está de acordo comigo. há o desacordo, a diferença, o estranhamento. e há de se levar em conta isso.  tem pessoas que se orgulham das trapaças que conseguem realizar --- e eu me orgulho de manter o rosto sempre limpo, de dizer as piores coisas olho no olho, sem simulação, sem disse-me-disse. é ridículo, eu sei, no mundo de hoje. mas me dá uma felicidade perversa ter coragem de dizer num mundo em que tão poucos têm coragem do dizer. dizer o dito. e não realizar nada que possa me envergonhar - ou envergonhar meu filho, se um dia ele souber. e é tudo. e assim encontrei a paz antes de partir. e a paz, quando estava lá. e a lição de todos os tempos que carrego sempre comigo:::: o tempo o tempo o tempo. agora, repito: me livrei de tudo - do bom e do ruim - por decreto. uma portaria::: e já mais nada era meu. despossuída, desapropriada, livre. que bonito que bonito é o tempo. e a desimportância dos postos, das coisas, dos dias, enfim. e agora, de novo, a chance de guardar em mim apenas o bonito que foi: a amiga, os amigos, o silic, o gepec, as segundas-feiras do gepec, o filho, as ruas retas na bicicletas, as longas noites de festas na varanda de casa, os lindos lindos (Anderson, Gabriel, Dinalva, Dariete, Carlinha, Mislene, Andrielly) e ainda outros lindos lindos ---- todos aqui, no meu coração, que me disseram de algum modo (prof.ª Araci, como esquecer sua sabedoria? Marisa, sua reviravolta?, Dariano, seu olhar direto e franco? Emerson, sua entrega? Bibi, seu imenso amor pelo Poeminha? Inildo, seu abraço cheiroso e sua sabedoria? Sandra e sua tranquilidade discreta? Aline, sua delicadeza e inteligência assombrosas? Lilianaluna, sua vontade ferrenha? Paula, e seu lindo desejo de viver na alegria? Nilza, sua empolgação? Kotz, por que partiu? Lobão, sempre sua lindeza? E seu pai, como esquecer? E sua mãe, naquela manhã desprevenida em que soubemos toda a dor uma da outra sem nada dizer?  foram poucos. mas foram tantos. e mais, ainda mais, ainda todos que tocaram meu coração de algum modo).

talvez daí o choro. quase sete anos não é pouca coisa. então, ficamos assim. fui. e de lá, tanta coisa bonita. não posso nomear. ontem mesmo tive um sonho --- passei o dia com este sonho, como um acalanto a abrandar a aspereza dos primeiros dias em terra dos outros. e foi de lá. se a vida não fosse do jeito que é, talvez eu pudesse ter feito com que o sonho fosse real. e como teria sido corajoso, imprudente, desafiador. mas ele fica bonito como sonho. e já basta.

e agora, neste entremeio, dentre tantas das minhas frases feitas, dia desses tasquei mais uma: "todo mundo leva seus dentes para onde vai". então, eu vim. e trouxe apenas algumas esperanças. os dentes estão aqui comigo. e se eu quiser que seja diferente, terei que arrancar alguns deles.
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(Vanessa, desculpe. os dias estão tão cheios que não consegui fazer uma postagem bonita sobre a despedida de Vilhena. Mas saiba que dentre as tantas gentes bonitas você foi uma delas. Tão linda! Jovem-casada-religiosa. Uma junção de uma série de predicativos que considero temerosos, mas quanta dignidade há nestes predicativos em você. Um dia flagrei um sorriso cúmplice entre você e Fábio -- e segui com esse sorriso o dia todo como um presente, uma dádiva.  Porque vi tanta beleza! Como não admirar? Obrigada pela presença sempre tão luminosa!)

(Fotos: na cidade que não existia, o paraíso particular::: fotografei a casa várias vezes - para testar a luz na câmera nova, para guardar, mas sobretudo porque eu queria um dia ter fotos com qualidade suficiente para enviar a Mariflor, que tem um blog super lindo sobre casas. Como não consegui fotos com qualidade, protelo indefinidamente este desejo, mas deixo aqui o registro desta casa que construí em Vilhena e que agora está toda encaixotada neste apartamento no Sul da Bahia).
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domingo, 15 de março de 2015

Para o Poeminha - sobre o perdão.


 

 
Poeminha, eu achava que sabia muito do perdão. Pensava que já havia me confrontado com situações, uma e outra e outra vez, em que havia sido preciso perdoar o imperdoável. Mas a cada dia que convivo com você percebo que isto, de retirar com a mão cerrada para depois abri-la o que tantas vezes nos aniquila, é um exercício de todo dia. E tantas vezes é você que me ensina isso.  Pois o que se espera de uma mãe é de uma enormidade sem tamanho. E a equação não bate, filho, porque essa espera vem do seu merecimento. Você merece a melhor mãe do mundo. Mas acho que a melhor mãe do mundo não existe, filho. Porque não somos apenas mães.

Quantas vezes fico pensando que você merece mais do meu tempo e que nem todo abraço dado agora será  suficiente:::: dizem que uma hora você não vai querer mais o meu abraço, que vai ficar avaro com a explicitação do amor – e fico me antevendo órfã e desamparada, pensando no quanto deveria ter dado mais e mais e mais abraços, ter ficado mais e mais tempo com você:::: --- na semana passada, fiquei com aquela nave espacial na mão e todas as lágrimas prestes a rolar e você percebeu e ficou nervoso e preocupado e foi logo dizendo que depois papai montaria ---. eu deveria era aprender a desenhar e a montar esses cubos que vêm na sua revista. Coitada da sua mãe que não sabe manusear as mãos, e tirar delas cubos, bonecos, bichos, sonhos. e sem saber moldar a massa, vivo à turras com essas massinhas coloridas que são o meu terror e a sua alegria. Deve ser por isto, por esta sensação de falta, que sempre as compro, e logo depois juro de pé junto que nunca mais vou comprá-las, para depois esquecer os pés-juntos e comprar novamente, mesmo sabendo que vou ficar toda atrapalhada com elas grudando em tudo que é canto. ----- e se eu fosse tio Vandes, heim, filho? Que sorte, que sorte seria a sua...

E hoje deu vontade de sentar aqui, filho, enquanto você está na sala com suas massinhas, porque me deu uma ternura imensa o tempinho que fiquei ali com você, limpando o terreno para que você possa espalhar seus sonhos. E será, filho, que esse aprendizado do perdão que vem de você vai perdurar? porque, talvez, estar sempre em falta seja o prato de cada dia de todas as mães. E que isso é tão próprio do humano, filho. Porque não somos apenas mães, repito. Quanta dor eu teria poupado do meu pobre músculo atrofiado se eu tivesse descoberto isso antes, filho, se você tivesse vindo antes para me ensinar que nesta relação de mãe e filho é esse abismo incomensurável. E se, de algum modo, em algum momento, eu e minha mãe, comigo ainda menina, tivéssemos tido a chance, a sorte, a ocasião, o tempo, o momento. Acho que é o que eu procuro cavar quando lhe peço desculpas. A ocasião. Não deixar passar o não-dito. Ou o dito que fere quando sai intempestivamente. Me vem, logo a seguir, o desejo de ferir de morte esse mesmo dito, de apagar o grito, o gesto de impaciência, de cansaço. Quando eu digo que, "sim, mamãe, às vezes, é bem idiota" é que quero passar a borracha. Para aprender um pouco mais sobre o perdão, naquele exato instante em que você abre o sorrisão e pergunta o que é ser idiota. E eu tendo dizer, de forma capenga, sobre esse mundo das alturas que uma hora você vai alcançar. tento lhe dizer como é difícil ser gente grande, como é difícil isso da responsabilidade, dos afazeres de todos os dias, das mil tarefas que comem nossos dias – e do quanto é uma batalha não deixar que eles comam também nossos sentimentos, nossa delicadeza, nossa pele exposta às intempéries.

E só mais isso, Poeminha.

Esqueça não esse seu gesto de estirar a mão,  esse mesmo gesto que você fez ontem quando eu lhe pedi desculpas por ter gritado e você disse logo depois com um sorriso largo: “então, agora venha aqui para eu dar um beijo nesta barricotinha”, esta barricotinha que é minha barriga que você beija tantas vezes. Quando acontecer o inominável e de algum modo você for invadido no seu templo, lembre que é libertador, revolucionário, acolher o outro na sua indefesa do pedido de desculpa. A primeira vez, filho, que - de uma forma séria, grave, sem retorno - eu senti que realmente precisava decidir qual gesto seria o meu eu o fiz não pela pessoa a quem, por fim, eu decidi estirar a mão. Não o fiz por essa pessoa, filho. Fiz porque eram dele duas pessoas muito amadas. E eu perderia essas duas pessoas, se assim eu virasse as costas. E o que aprendi é que esse gesto originário traz muitos outros, porque é a chance de trazer de novo o outro para junto de si. E é bonito demais apreender o que vem depois quando não sucumbimos à mágoa ou, melhor, quando a solapamos de tal forma que é ela a ficar indefesa, estrebuchando diante das edificações que se levantam como que por milagre só porque a decisão foi levantar paredes depois da invasão:::: e levantar para colocar todos ali dentro. Eu mesma, o invasor, os outros, o que já não se é mais quando se descobre que é de todo dia essa aventura de estar no mundo e não estar só; de estar no mundo e viver essa difícil e extraordinária aventura de viver junto. De estar-com. E não apenas estar.  Estar-com.
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