quinta-feira, 3 de abril de 2014

conversinha espaçada antes do sono






Viver perto das pessoas é sempre dificultoso, na face dos olhos.

Tudo que é bonito é absurdo. 

Riobaldo, como em todo o resto de Grande sertão: veredas.

nestes dias, experimento muitos sentimentos. resolvi largar a coca-cola, porque me veio a consciência - tardia, diga-se de passagem - de que era um vício. ---  e essa constatação vinha cada vez mais com a sensação de idiotia. passei incólume por todas as drogas, e com certo ar de presunção, não por alguma espécie de moralismo; unicamente por um vago receio de não dar conta de me manter atenta para o que gosto de fazer: cuidar do que me faz bem, que é, de mais a mais, uma profusão de coisas difíceis de enumerar. então, como me viciar em algo que, em tese, não traz "barato" algum? resolvi largar. mas largar a coca-cola é como largar o que lhe acompanhava: uma produção intensa de trabalho no computador. agora, derivo em volta dos meus três mil livros sem saber exatamente o que fazer com esta nova Milena que dá seus primeiros passos::: uma Milena que largou a coca-cola há 40 dias e está na segunda semana de caminhada às 7h --- da manhã.

penso penso penso. e mergulhada na vida, no cotidiano, extraio dela algumas certezas já mil vezes ditas::: quero muito que o percurso do Poeminha seja bonito. desta boniteza absurda de Guimarães Rosa. e como, neste mundo tão bizarro? penso. e começo a lhe explicar. falei para ele::: e tenho a sorte de ter um filho que ouve. e questiona. e rumina. e depois tira as dúvidas. concentrado e atento. então, eu lhe disse que poderia existir no mundo pessoas que não iam gostar dele. e que era preciso saber conviver com isso. e, ainda assim, não experimentar sentimentos extremos: manter um certo alheamento ao não-gostar (bem mais importante manter a atenção no "gostar"). ele me disse: "como não gostar?" e eu expliquei. disse que não era preciso que todos gostassem, que todos concordassem com o que ele dizia.

falei de afeto, de amor. e disse que tudo era construção. disse que o fato de dizer que ele era a pessoa mais linda, mais importante, tinha a ver com isto::: com afeto, com amor. outros não achariam o mesmo. e que era assim na vida. e, por isso, seria preciso construir um estofo. "estofo?". sim. saber suportar o não gostar do outro. e o jeito era construir relações de afeto. e cuidar dessas relações::: "sim, como eu cuido de você".

depois de ruminar, ele me pergunta: "até Bibi pode não gostar de mim?". Bibi é a bisavó, que tem verdadeiro amor por ele. um amor irremovível. expliquei:::: "não. não". Bibi gostaria sempre dele. então, falei, sobretudo, que era preciso, por princípio, gostar de gente, acreditar nas gentes. nos momentos de impasse, aqueles nos quais não se sabe exatamente o que fazer, isso lhe ajudaria a suportar. "suportar?". sim. falei, então, do exercício longo e demorado de suportar.

disse, ainda, com as mesmas palavras - ou outras: "filho, imagina que eu, que não hesitaria um minuto em dar a vida por você, tem horas que fico irritada, imagine outras pessoas que não te amam do mesmo modo?" falei, então, das qualidades que podem ser grandes defeitos. nunca sabemos o que temos de mais bonito. e expliquei::: por muito tempo achei que minha maior qualidade era não ter alteração de humor. acordar já sorrindo. como agora, que, quando acordamos e nossos olhares se encontram, o sorriso largo vem de imediato. uma qualidade - é o que eu achava, até um antigo namorado dizer - com imensa raiva - que não havia nada mais insuportável em mim do que esse acordar saltitante. e quer qualidade maior do que ser organizada? e por outro lado, nada causa mais transtorno ao Poeminha e ao Tatupai do que isto::: a mania de organização e limpeza. e o que dizer dos pensamentos fortes, da coragem de tudo dizer face a face, de obstinadamente não compactuar do falatório geral, elegendo sempre muito poucas pessoas para quem falar? muitas vezes, pode ser visto como falta de educação, pode ser falta de educação, incapacidade de ponderar, de saber usar o tom certo. é tudo assim, não? e quem pode nos perdoar pelas qualidades-defeitos senão aqueles que nos amam? que são sempre poucos. aqueles poucos que valem muito - e tudo.
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creio que sempre trouxe tudo isso em mim. intensifiquei algumas certezas, juntei com outras dúvidas, e, agora, talvez por isso, tenha urgência de que meu filho entenda, embora saiba que é uma bobagem essa urgência.

e por que tentar traduzir tudo isso para um filho de quatro anos? porque não quero que Poeminha cresça pensando que é o "centro do universo", que não pode ser contrariado, que os outros estão à sua disposição. quero que ele acredite no diálogo, mas que saiba que tudo pode ser impasse. impasse que não comunga com nenhum consenso. e que as diferenças são, na maior parte das vezes, intransponíveis. e que conviver com o outro é isto: não é moldar a diferença; é amar o outro, apesar da diferença. e quando não amar, saber simplesmente virar as costas e prosseguir - sem dor alguma, sem mágoa alguma. só com a mais leve das certezas. nada a ver, portanto, com tolerância, que traz sempre o ranço religioso de "sou tolerante porque sou melhor". não. falo de desprendimento. de descobrir e concentrar-se no que o outro tem de mais bonito. é só isso - diria Caetano. 

dia desses, assustada com o que eu pressenti ser uma incapacidade medonha de se fazer amar, e de saber conviver com esse fato, e, por causa disso, tudo fazer para prejudicar o outro, tive que refletir refletir refletir para saber como agir depois de ter "trombado" com uma pessoa assim. em algum momento, pensei: "como Mariamada gostaria que eu reagisse diante desta situação?" pois há diversos momentos em que a voz do outro é determinante. e muito antes de saber o que o outro lhe diria, saber intuir. por isso, essa vontade de, enquanto ele me ouvir, ser a outra voz do Poeminha.

e foi ali, no contato indireto com esta outra que mesmo distante sempre sabe me dizer, que eu compreendi um tanto de coisa, cujos sentidos, depois, tentei, com outras palavras, explicar ao Poeminha, esse ser que amo de amor desmedido.
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sábado, 22 de março de 2014

Nos bares e restaurantes de Buenos Aires











já viajei sozinha algumas vezes. e todas foram viagens inesquecíveis. Madri Roma Natal Bruxelas Toledo Bruges. em Madri, passei dias e noites insones, perambulando pela cidade e me perguntando porque estava ali, em vez de estar em Marselha, essa cidade solar da França, acompanhada, em vez daquela solidão toda. ali já sabia por quê e me embebedava no porão do hostel como só se pode fazer uma vez na vida. só havia uma razão para estar ali. e ela se chamava Jardim das delícias, de Bosch. em Natal, foi a mesma solidão. tudo doía. e eu vi a cidade por um filtro que misturava passado e presente. em Bruxelas, não. estava ali para ver Bob Dylan. e o coração, inteiro, só pensava em como era bonita a aventura da vida. estar ali, realizando o conto previsto pelo meu amigo Macário, era a prova exata de que eu tudo fazia para que a vida fosse memorável. 

e viajei acompanhada muitas vezes. abro a boca para falar em viagem e tanta gente já me diz do desejo de ir comigo. não entendo. ou entendo. de todo modo, sempre fui a que conduziu. em Buenos Aires, não. já expliquei::: cansada, só queria ir. foi assim que descobri a noite nas viagens, que só havia conhecido em Madri, sozinha, na enorme solidão do coração quando sabe que tudo é finito. agora, com o coração inteiro, achei tudo bonito, eu e Tatupai de mãos dadas, mesmo quando o cansaço dominava, e eu, simplesmente, fechava os olhos em algum sofá abandonado. 

eu e Tatupai devemos isso ao Dariano, que selecionou os bares de Buenos Aires. entramos em bar em bar, como em alguma música antiga. às vezes, nem tínhamos o que falar, mas o bar, inteiro, falava por nós. senti, como em outras viagens, que tudo havia me levado a estar ali, naqueles bares e restaurantes. e glutona, devorei tudo com fome. os olhos dos dois, Dariano e Tatupai, brilhavam. e a desatenção atenta de Andressa também estava ali, conosco. assim posso dizer::: vi brilho nos olhos.  e eu? eu falava. não digo mais nada que possa ser lido em público. guardo comigo - e com eles - as conversas loucas. 
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sem a conversa, o que seriam das viagens? ainda seriam viagens, mas só existiriam pela enorme solidão que delas emanam. então, reverências e muitas gracias aos meus companheiros desta viagem.
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quinta-feira, 20 de março de 2014

Liliana Porter - El hombre com el hacha y otras situaciones breves











Aqui tudo parece
que era ainda construção 
e já é ruína
(Caetano Veloso)

o que mais impressiona no trabalho de Liliana Porter, artista plástica argentina, que está com a exposição "El hombre com el hacha y otras situaciones breves", no Malba, não é exatamente a dimensão diminuta de suas personagens, mas o que elas, na sua pequenez, provocam. o sujeito é o que desencadeia as ações. e embora exista um ou outro gesto de construção, na maior parte das vezes, o que se produz são destroços. os rastros do homem, assim, de modo geral, são relacionados ao seu enorme poder de destruição. é lúdico apenas para o olhar desatento. o caminho que o humano percorre, e o que ele provoca, é quase sempre devastador. o tamanho e a quantidade das ruínas parecem estar sempre em desalinho com a dimensão do homem. seria fácil criar uma visão redentora do ser humano, como a que às vezes criamos do homem perante a natureza, mas o enorme lastro vermelho que a mulher espalha, numa das cenas mais significativas da exposição, deixa claro que não se trata de redenção, embora a simbologia da mulher e o vermelho permaneça intacta. são cenas de trabalho. e isso é impressionante (desculpem-me usar a palavra mais uma vez, mas foi exatamente assim que eu e Tatupai ficamos: impressionados. vagamente, eu lembrava do nome dessa artista, mas nunca tinha visto uma exposição. daí termos ficado encantados de verdade). não é, portanto, apenas a metonímia das mãos. todo o corpo trabalha nas cenas de Liliana Porter. obras deveriam, portanto, ser construídas. mas a construção são ruínas. cacos de objetos, fios pretos e marrons desalinhados, objetos tombados, a  foice e o martelo, os soldados em sentinela; tudo contribui para a sensação de que o trabalho do homem, mais do que deixar obras inacabadas, produz, de fato, o aniquilamento. a demolição, a ruína, não é posterior; está já na origem do gesto. desalinha-se, assim, um dos maiores mitos modernos: a força de trabalho que constitui a dignidade do homem. que dignidade? que homem?... para as perguntas essenciais, é um pulo: quem somos? o que fazemos? o que queremos?  
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(para as fotos terem ficado boas, precisaríamos de um tripé, para dizer o mínimo. mas eu e Tatupai fizemos várias tentativas. e resigno-me em dizer que as deles ficaram sempre melhores que as minhas)

 

quarta-feira, 12 de março de 2014

abaporu




tenho um sentimento muito indefinível de pertencimento::: não sou daquelas que apregoa que o brasileiro é o melhor povo do mundo, porque quando ouço isso tenho sempre a impressão de que esse pensamento expressa uma mal disfarçada intolerância com a diferença. mas sou daquelas que o coração dispara quando vejo um "pedaço" do Brasil em algum lugar. 

daí que o coração deu um salto quando vi Abaporu no MALBA - Museu de Arte Latinoamericana de Buenos Aires. sim, existe uma emoção ao ver pela primeira vez o que já foi mil vezes visto. o outro nome da aura. ver ali, no museu, em seu tamanho real, o que tantas vezes vi nos livros. toda uma história da arte brasileira, mas também da literatura, percorre esse quadro. e é por isso que parece que sabemos tanto sobre o quadro de Tarsila. do mesmo modo que achamos que sabemos muito de Mário de Andrade e de Oswald de Andrade. quanto a mim, aprecio, desde muito, o ar de rebeldia que parece ter havido ali, naquele exato momento em que o "grupo modernista" reconheceu nosso provincianismo e tentou estancá-lo. deve ter muito de romantismo nesta ideia, mas é talvez devido a esse romantismo que deslumbra apreciar Abaporu.

fiquei, então, com este saber esparso que é uma parte da minha história de leitora, de professora de literatura. a lágrima no olho veio fácil. e é isso que a "primeira vez" das "tantas vezes" deve significar. ela dá sentido a um pertencimento feliz. uma pertença que sabe que o que nos pertence é, de fato, do outro. deve ser o mesmo que sente os mexicanos ao ver um autorretrato de Frida Kahlo, que está logo ali, perto de Abaporu.
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os dias na cidade




dessa vez, me deu preguiça de pesquisar sobre a cidade. achei que o olhar do outro era suficiente. eu vinha de uma rotina de tanto trabalho e tanto enfrentamento. não quis saber de nada a não ser estar em outro lugar. e que lugar, não? é imaginário, como tudo. para mim, Borges está em cada esquina. foi aqui que ele viveu, que um dia enxergou e que depois se descobriu cego. é tudo tão gigantesco que tenho medo de pensar. então, caminho sobre os passos dos outros. fico bêbada da cidade. e depois, sóbria. o que nos faz estar viva? a literatura tem alguma importância? faz importância eu pensar em Borges, Cortázar e Casares enquanto caminho pela cidade? é o que pensei em algum momento, enquanto passávamos de um restaurante a outro, de um bar a outro. a segurança, ou ingênua ou real, é palpável em Buenos Aires. nada nos faz ter medo. os noticiários nos falam da crise, mas, para nosso olho do viajante, a crise só existe nas formas escritas dos protestos que tomam conta das ruas. Buenos Aires, assim, parece uma cidade inofensiva. os táxis são baratos, os restaurantes servem porções generosas de comidas deliciosas, o vinho é bom e barato, a cerveja é de um litro, as ruas são largas e antigas. dá vontade de caminhar com passo lento. mas o turista é ansioso por excelência. vamos de um lugar a outro, ávidos por mais um lugar. e assim passam os dias.


sábado, 8 de março de 2014

bom dia, argentina



não apenas a paisagem muda. ou melhor, a paisagem humana é a primeira a ficar diferente. são homens e mulheres e crianças que têm uma memória do corpo, que não é a nossa. eu gosto de ver, porque se percebo o outro diferente de mim, percebo também a minha diferença. tenho outra memória de corpo, tenho outro corpo. sinto, então, o deslocamento deste modo::: é a língua, é o corpo, é a história. nada me pertence a não ser o que está em mim. e é por esse filtro que vejo. sim, vejo. como é bonito ver outro lugar. e ver desse modo. de mãos dadas. é incrível como depois de tantos anos é a primeira vez que eu e Tatupai conseguimos sair apenas nós dois. ou quase. viemos com Dariano e Andressa, que são namorados. ser namorado é ainda saber beijar na boca, pegar na mão, fazer carinho no cabelo, encostar no ombro. e neste momento é o que eu quero. beijar na boca, pegar na mão, fazer carinho nos cabelos do Tatupai, encostar no ombro. e claro, dar risada, enquanto vivo outra cidade.
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terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Livros, livros, livros - e algumas saudades


"mi, só existem os seres de papel: nessa noite escura só resta literatura. vc ser arrastada pros lugares de barthes não surpreende nada. todos nós q temos um pouco de vida somos e seremos sempre arrastados pela literatura. aproveite ... veja a literatura nas paisagens, nos panoramas, nas transversais. proust vivo em cada memória; dumas e hugo estão colados em cada esquina; céline vive plenamente em todos os bairros pobres; camus está em todos os bares com sartre e, ao longe, baudelaire dança uma valsa negra com rimbauld e lautréamont, tudo isso assistido ao longe por malraux, ionesco, artaud (q está nu e planta bananeiras), duras e yourcenar (escondidos dentro das casas estão, rousseau, voltaire, diderot, sade [comendo literalmente alguém], balzac, nerval, stendhal, flaubert); e em todos os lugares sente-se a inveja mortal de heidegger. beijos felizes com sua felicidade". (Caldas, no meu orkut)


Quando eu estava em Paris, meu amigo Alberto me enviou a mensagem acima. Ainda hoje, é, para mim, uma das mais bonitas que já recebi. Conhecendo-o, sei que todos os autores citados foram lidos por ele. E sempre penso que esta é a relação próxima que devemos ter com os livros. Nós, que amamos os livros. Eu queria ter esta relação com a literatura produzida no Brasil e, nos últimos anos, tenho privilegiado este querer-conhecer. Porém, às vezes me angustia. E eu escapo. Kafka, Dostoiévski, Beckett, ainda são meus escritores essenciais (e Graciliano, claro). Daí que eu misturei os escapes e as vontades durante os "festejos" e as "folgas" de fim de ano e consegui ler alguns livros. Desde antes da ilha, na ilha e depois da ilha. A pilha que eu havia separado era bem maior, mas como o tempo é sempre mais avaro do que eu desejo, fiquei toda contente. A biografia de Derrida é fascinante e me encheu de saudades da época da tese. Me dei conta de que Derrida estará para sempre ligado à minha estadia em Paris. E haja rememorar e também ter vontade de voltar às leituras. E que figura inominável é composta na biografia! Passei a amá-lo ainda mais, certa de que quem estuda um filósofo como ele aprende muito mais do que algumas teorias (difíceis, voilà!), pois o que aprendi com Derrida foi um certo modo de se movimentar no mundo, que me permite tanto amar incondicionalmente quanto não me render facilmente ao ensejo de uma vida tola, embora a tolice, às vezes, cole como grude. Ou ainda: acho que Derrida completou meus ensinamentos de querer-prosseguir, mesmo quando tudo em volta é desesperança. Foi esse sentimento que guardei enquanto lia os outros livros. Adorei tanto o livro de Verônica Stigger quanto o de Carol Bensimon por razões totalmente distintas. E depois de acompanhar o blog do Michel Laub durante todo o ano, finalmente li alguns dos seus romances.  Espero consegui escrever depois sobre esta experiência. E Antonio Tabucchi, com Noturno indiano, me manteve suspensa por vários dias. Como é bonito o que escreve! Como é capaz de engendrar cada palavra e fazer com que o leitor perceba que tudo foi minuciosamente pensado. Daí, não ter sido difícil emendar O tempo envelhece depressa. E o que me emocionou, dessa vez, em valter hugo mãe foi a sua coragem de escrever uma história feliz, embora ache que nem todos veem O filho de mil homens como um história feliz. A única releitura que fiz foi Serafim Ponte Grande, pois me senti incomodada quando percebi que lembrava muito pouco do livro. Eu teria muito o que dizer sobre a diferença que esse livro tem em relação aos outros que li, mas aí teria que explicar muito. Arrisco, então, a dizer que boa parte desses livros serve mais à reflexão do que ao riso, conta mais histórias do que experimenta formas (com exceção, talvez, de Opisanie Swiata). E me parece que seja bom assim. Por ora. Uma nova pilha me aguarda. Aliás, uma biblioteca já suficientemente grande a ponto de incomodar. Maneca, quando veio, contou novamente os livros e chegou a uma soma inesperada de 2000 livros. Achei muito para quem mantém uma luta permanente com o tempo - sempre escasso.
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E a saudade é do Alberto, o melhor leitor que já tive o prazer de conhecer. E também de Paris, a cidade mais linda que já tive o prazer de morar (mas isso todo mundo que morou lá sabe).
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quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

"tranquilidade na clareira do caos"

tranquilidade na clareira do caos
otto




eu preciso desta tranquilidade terra-a-terra. desta tranquilidade que por vezes me vem nos momentos de mais ventania. e o que me dá isto é um olhar amoroso sobre o que acontece. sobre o que eu faço acontecer. e sobre o que circula independente de minha vontade, por mais ruim que às vezes seja. preciso desta segurança que me vem no meio da ventania, resultado de uma vontade de manter a vida com uma sentinela. estou atenta, e isto me alivia, por mais desatenta que esteja. deixo não. deixo não tirarem meu lugar no mundo. se me fizerem mal, se me disserem não, ainda terei meu lugar no mundo. é o que penso. só tenho que convencer ao Tatupai que pode ser assim. como ele mesmo diz, tudo conspira para o que seja melhor. tempo tempo tempo.

não sei por quê, hoje lembrei da escultura de louise bourgeois. uma figura entregue. totalmente exposta. e ao mesmo tempo alheia. fechada na sua própria entrega. preservar isso. é o que penso. preservar. reunir forças. forjar a alegria no que ela tem de mais irredutível, deixando para os outros o esforço do sofrimento, da incapacidade, da falta de generosidade. apegar-se ao que é bom. cortar com uma navalha muito afiada a flor cascuda do jardim. e admirar. convencer ao outro que é possível. o movimento é possível. sair da clausura do que nos foi imposto. ou do que nós mesmos impusemos, como consequência da desmedida.

sim, sim. nada de desespero. se o amigo nos deixa só, se o inimigo nos deixa só, se tudo em volta é deserto frio, lembrar. lembrar do que podemos. concentrar-se. retrair a mundaneidade e buscar o escape possível.  que está bem aqui, em nós.

(as fotos nada têm a ver com os sentidos da postagem, a não ser sobre o escape. enquanto a ventania corre lá fora, eu me decido - f-i-n-a-l-m-e-n-t-e - a aprender a técnica da fotografia. vídeos e mais vídeos. esta é a "lição" de desfocar o fundo e do foco).
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segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Arquivo::: Por que gosto de Jogo de cena, de Eduardo Coutinho


Penso que um modo bonito de se reportar à morte de alguém é poder dizer que ele já existia, em (na) vida,  para você. No meio da tristeza funda, fico feliz de pode dizer que foi com Eduardo Coutinho e o João Moreira Salles que aprendi a gostar de documentário. Deixo, então, aí embaixo, texto que escrevi no meu antigo blog, em dezembro de 2007, quando assisti a Jogo de cena. Desde lá, vi seus outros filmes, como Cabra marcado para morrer, O princípio e o fim, com o mesmo espanto, com a mesma certeza de que era sobre o humano e suas profundezas de que se falava. 

 Por que gosto de Jogo de cena, de Eduardo Coutinho

 
Eduardo Coutinho dispensa apresentações. É o mestre dos documentários. Eu vi poucos. Vi apenas Edifício master e Peões. E vi o Coutinho em um debate, na Unicamp.  Jogo de cena. Que título para o documentarista Coutinho. A partir de um anúncio colocado em um jornal, Coutinho escolhe mulheres para falar de suas vidas ao mesmo tempo em que convida atrizes famosas e não tão famosas para interpretar estas mesmas histórias. O cenário é nu, mas cheio de significados: o palco de um teatro vazio com a câmera praticamente fechada no rosto das depoentes. Parênteses: (sempre certo enfado ao fazer o resumo. Penso que ninguém lê isto aqui e que, por isso, não precisaria fazer o resumo. Por outro lado, sempre uma certa injunção de contextualização me faz pensar no resumo).
As histórias contadas por estas mulheres (não há homens e isso evoca muitos sentidos!) são de cortar o coração de qualquer vivente. Saí com a impressão de que ia morrer. E este transtorno é belamente interpretado e denunciado pelas atrizes. Marilia Pêra, Andréa Beltrão, Fernanda Torres e outra ou outras não reconhecidas por mim estão ali para nos dizer o quanto o real é não interpretável por ser dolorosamente intransponível. Aquelas que contam suas histórias parecem não ter noção da brutalidade do que contam, uma vez que sentiram a brutalidade no corpo. A narração é, talvez para elas, uma dor menor. É a naturalidade que nos desarma. E por outro lado, o jogo de cena (impossível resistir à facilidade de evocar o título) nos faz pensar o que ali é montado, é verdadeiro, é falso; quem conta, quem interpreta?. Daí o efeito de mal-estar vir acompanhado de muita emoção, muita ternura: ora sorrimos, ora choramos, ora gargalhamos.
 
Coutinho realiza um acontecimento a cada vez que deixa o outro falar. E aí reside toda a diferença: ele parece deixar que cada um fale, que cada um mostre o quinhão que lhe pertence. E, dessa vez, o fato de a câmera focalizar o tempo inteiro o rosto das mulheres, abrindo-se apenas quando elas sobem as escadas do teatro, deixa ainda mais forte a sensação de que se trata de fazer um filme sobre o outro, em que o diretor, quando interfere, é para melhor deixar falar.  Embora esteja claro desde o princípio que ele tem controle sobre o dito (até certo ponto), Coutinho parece agarrar como ninguém o dizer do humano; parece acreditar no ser humano; no fato besta de que quem quer que seja tem uma história a ser contada; e uma história que pode fazer torcer as tripas.
 
Não se trata de transparência, nem de verdade, nem de real (está tudo desde o início marcado pela encenação, afinal é no teatro, no próprio templo da representação, que tudo se passa); mas trata-se de algo muito mais forte que transcende a ideia de depoimentos. São confissões. As mulheres parecem esquecer que estão sendo filmadas, que aquilo é um filme, e se confessam para Coutinho, despem suas dores mais comezinhas, mais terrificantes. Para comprovar isto, basta ver como algumas põem em xeque a existência de Deus. Dizem mesmo não acreditar em Deus. Não é todo dia que se têm tantas ateias sob o mesmo foco.
 
Talvez o façam porque Coutinho escolhe mulheres que não têm certezas (não se esconde que houve uma seleção). Todas elas deixam mover os sentidos da  perplexidade ocasionada por algum acontecimento, seja a morte ou o nascimento de um filho; seja o tapa na cara dado em uma filha sem que a mãe tenha noção das consequências; seja o marido que transava com outro homem; seja a jovem que fica grávida depois de uma trepadinha na Sé; seja a mãe do filho morto que o trata como se estivesse vivo. Trata-se de um melodrama? Para mim, mais do que isto, trata-se, sobretudo, do drama da existência. 
 
O documentário é tão rico que me vem a vontade de falar muitas coisas, de revê-lo, certa de que vou encontrar outros sentidos ainda mais fortes. Incrível esta relação humana com Deus... Incrível a jovem que confessa a burrice de ter engravidado jovem... Inominável a mulher que passa anos sem poder sair de casa depois da morte do filho. Tudo tão cru e ao mesmo tempo tão interpretado, interpretável. 
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domingo, 2 de fevereiro de 2014

"Me poupem!". Ou ainda: "Meu cu!"

Aconteceu de assistir ao capítulo final da novela de uma forma tão irreal que merece, sem dúvida, um registro. Nada mais nada menos do que com uma das mais importantes estudiosas de poesia brasileira, aquelas pessoas que a gente só se convence que é gente como a gente depois que ela demonstra de variadas formas que é mesmo. Quando ela for embora, começaremos a duvidar de novo, tamanha a sua autoridade intelectual sobre nós, mas por ora ela está por aqui, e juntos procuramos o que fazer, que se restringe a procurar um lugar para comer, comer, tagarelar e tal. E ontem, vimos a novela "Amor à vida".

O fim da novela e o tão falado beijo. Beijo exatamente não foi. Foi uma bitoquinha mais demorada, daquelas que tasco no Poeminha a toda hora. Até Poeminha saberia, pois já expliquei a ele a diferença entre os beijos que dou nele e os que dou no Tatupai. Poeminha sabe, a vizinha sabe, meus alunos sabem, os que assistem à novela também sabem, mas insistem em dizer que foi beijo mesmo.

Primeiro, quem viu, e mesmo eu que vi um e outro capítulo, sabe o quanto Nico era uma das únicas personagens que reunia características tais como lindo, íntegro, doce, sensível, trabalhador. Uma miragem, enfim. E sobre Félix, a queda por cafajestes que se regeneram vem de longa data na tradição folhetinesca. Em resumo, o que foi mesmo aquele beijo? Para que ele serviu? Quem mesmo se beijava no quintal daquela casa de praia lindíssima, carésima, paradisíaca, vindos da mais doméstica das partes de uma casa (a cozinha, para quem não lembra ou não sabe), depois da mais comum das cenas familiares (a ida das crianças à escola)? Será que faltou o guardanapo na mão ou fui eu que não prestei atenção? Como diz meu amigoirmão Celso: "Me poupem!". Ou ainda: "Meu cu". Agora, é esperar a nova campanha para que o "primeiro beijo de língua gay" aconteça nas novelas da rede Globo. E ver quanto merchandising, quanta audiência, quanto produto, isso vai gerar. Enquanto isso, gays se beijam de verdade, como devem ser todos os beijos, beijam muito, e travam as suas verdadeiras batalhas, num país grotesco que espera com ardor um beijo insosso, enquanto repele com o mesmo ardor não apenas os gays, mas a diferença, esta palavra tão batida, mas tão pouco compreendida. Em suma, a ideia parece ser apenas esta: quem não se enquadra nesta união familiar cristã, materna e fraterna, ou ainda nas palavras militantes de meu amigo Emerson, quem não pertence a esta classe média branca, à toda força, deve tentar furar o bloqueio, nem que seja à custa de pó de arroz. Pois os guetos, ao que tudo indica, continuarão aí, erigidos pela nossa ignorância e cegueira habituais. E viva a homogeneização. A unanimidade, para sempre burra. Parece-me tudo tão brega quanto a abertura desta novela. Ainda bem que o mundo é mais colorido e diversificado do que esta cor sépia e chapada.
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sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

infância


tive não infância. a infância no Nordeste, na minha época, era um longo processo de privações, de falta. tudo era escasso. até as brincadeiras eram escassas. não havia brinquedos. e não havia liberdade de fazer de brinquedo o que estava a mão. lembro até hoje das resmas de papéis que, num dia já tão distante, quis usar como divisórias de uma casa imaginária de brinquedo e fui violentamente impedida. era preciso que tudo estivesse em ordem. 

tenho medo não de dizer. foi quase tudo muito sofrido. naquela época, não havia infância. os adultos, muito preocupados em sobreviver, em garantir o mínimo de dignidade. minha mãe era assim. penso que imaginava como apagar, como dissolver, o que era quase tudo uma falta inominável. e minhas irmãs, igual. as roupas de festas eram suas únicas preocupações, porque eram tudo que tinham para esconder um pouco o deserto frio. como fazer de conta que a vida não era miserável? havia não espaço para ser criança. para se lambuzar. para rolar na areia. a higienização implicava em ter que comprovar que a vida era limpinha, apesar da enorme falta.

precisa não ser assim com Poeminha. suas roupas bonitas podem e devem ser arrastadas pela alegria de ser criança. e ainda que eu faça a divisão (como não carregar o peso do que já passou?) do que pode ser ou não brinquedo, ele sabe ignorar. tem a gentileza de nada quebrar. e de contar as "babunças". há espaço para o pé no chão. para a calça suja de areia. roubarei não isso do meu filho. pé no chão. areia. sorriso franco e largo.
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quando ele se afasta muito, eu digo:::: "filho, você me ama?". sei  que, ainda, a resposta será sempre a mesma, o gesto será sempre generoso. e enquanto for assim, eu desejarei que seja sempre assim. ele precisa, é certo. mas eu preciso muito mais. sei da necessidade e não exijo nada. 
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é bonito, é bonito.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Assim tão inteiro

A familinha ficou maior por três dias. Maneca veio. E veio com a PrincesaJéssica, o Ediseupríncipe e meu cunhado Josimar. Família tem nomes e apelidos. Antes, eu era pródiga em apelidar as pessoas. Depois, contentei-me em cortar os nomes. Ou deixar como está. Carregamos nossos nomes como sinas, é assim que imagino. Rebatizar talvez seja marcar nossa história na história do outro. Foi assim que Maneca, há mais de 20 anos, deixou de ser Marta para mim e para uma porção de pessoas que a conhece a partir de mim. E minha irmã é tão bonita! Tem um sorriso inteiro. Daí, a alegria de eles terem vindo. E hoje que foram embora, fiquei com a impressão de que eu queria mais festa do que eles. Queria festa para mostrar como estava feliz de eles virem até minha casa. Princesa disse que, apesar de eu ser acumuladora, a casa é bem bonita. Acumuladora, eu? Devo ser. Foi assim então. Um acúmulo de sentimentos bons. Muita comida, muito barulho, tudo meio rápido. Maneca me ajudou um monte. Princesa ajuda não, mas sua presença me dá uma paz. Tenho a impressão de não ser preciso dizer como ela me é importante, mas por vezes queria dizer - e conversar um tanto. As amigas ajudaram na festa. Rô fez comidas e mais comidas. E um dia inteiro no meio da natureza, no pesqueiro da Ana Paula. E vaidosas à nossa maneira, fomos às compras. E todas as minhas promessas foram abaixo no meio de roupas e sapatos. Variações de um mesmo gosto. Aqui e ali, a quebra de gosto por algum desejo difuso. Nem conto porque é proibido. Mas digo que foi bonito. Nem a crise alérgica que tem me atacado, deixando-me meio grogue, atrapalhou. Amor nunca atrapalha. Não quando é assim. Assim tão inteiro. 
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