quinta-feira, 30 de junho de 2016

sobre ser doutora. ou sobre a campanha de "ser mais"



doutor que não pode dar receita nem aplicar injeção, para mim, não é doutor. essa é uma das falas que guardo do meu padrinho, que esteve na minha vida para me salvar algumas vezes da morte e da inanição. como de costume, depois de me dizer isso, soltou a sua gargalhada que lhe era própria. e eu ri junto. solta, livre, feliz. doutora sem poder dar receita nem aplicar injeção, quando fui trabalhar em um departamento universitário onde havia apenas dois doutores, transvestidos de deuses, adotei a gargalhada do meu padrinho como procedimento para rasurar o mito do doutor. falava do doutorado como um hiato em que assisti a mais de mil filmes, perambulei por parte da Europa e assisti a todos os shows que desejava na vida --- interiorana deslumbrada com cidade grande que nunca deixei de ser. somente em situações muito específicas, eu dizia, ainda em tom jocoso, que havia lido os mais de 60 livros do autor que eu pesquisava e que havia conseguido porque sofria de insônia crônica desde sempre. custo a acreditar nisso, embora seja verdade, desmemoriada que sou. e não dizia 'autor". dizia::: “o cabra que inventei de pesquisar sem saber nada dele até decidir estudá-lo”. fazia parte da desconstrução do mito.  apenas uma vez, bêbada, provavelmente encurralada na situação em que havia me metido, me ouviram dizer algo como “eu sou doutora”. tenho muita vergonha e agradeço aos deuses a amnésia alcoólica que não me deixa lembrar o momento em que proferi tal asneira como sinônimo de arrogância de um saber que provavelmente não tenho. 


por essas e outras me causa espanto que alguns gestos que, na sua constituição, nada têm a ver com o fato de se ter um título de doutorado sejam interpretados como parte do "ser doutor" encarnado em arrogância e desrespeito. e quero crer que isso faz parte do ódio generalizado que se tenta implantar em parte da população por meio da construção de discursos como os que afirmam e reafirmam que professores universitários, por terem uma carga horária que não equivale aos professores de outras categorias, devem ser fichados como vagabundos, elitistas, uma vez que num país onde o salário mínimo não dá conta dos bens necessários para uma vida digna ganhar 10.000,00 é uma ofensa. um crime. que deveria ser pago com a pena de trabalhos escravos. pensar desse modo é um equívoco porque desfoca o problema para outro lugar. em vez de se lutar por salários justos para todos, condena-se uma categoria que aparentemente conseguiu esse lugar, sem sequer investigar o que se trabalha para além dos tempos-aulas. 


e é ainda mais aterrorizante quando se é condenado, fichado, justamente pelo gesto do fazer – a partir disso que aparentemente é uma zona de conforto. que vontade move um doutor, hoje, numa universidade periférica, sem nenhum recurso auxiliar, a propor e executar um curso de extensão, um evento, um projeto ou mesmo a inscrever um projeto em programas de bolsas estudantes, senão a vontade de fazer, uma vez que seu salário, em vez de aumentar, é subtraído por essas ações? o que faz um professor, hoje, retirar parte desse salário, que lhe é garantido por lei, para viabilizar essas ações? foi o que fez uma amiga linda nestes dias e agora está sendo enxovalhada nesta plataforma que dá a qualquer um o seu minuto de fama. e não apenas o salário, mas o seu tempo que poderia estar sendo ocupado por uma infinidade de outras tarefas igualmente ou mais interessantes, como estar atenta ao crescimento do seu menino, ler aqueles livros encalhados na estante, ver o filme que parece que todos viram, menos você?  eu não posso dar uma resposta generalizada, mas posso dizer por mim e por alguns desses doutores que hoje me cercam que o que nos move é um desejo de comunidade, de partilha. 


e para que não se pense que quero com isso angariar simpatias, é preciso que se esclareça mais uma peculiaridade do mundo tipicamente acadêmico. essas ações comuns, que remetem ao coletivo, à partilha, é o que menos vale no tal lattes --- essa plataforma a partir da qual nos acusam de que a única motivação do nosso fazer diz respeito ao intuito de preenchê-lo. se eu ou qualquer um desses doutores acusados de querermos “ser mais” como sinônimo de subtrair os direitos das minorias nos debruçarmos sobre a escrita de artigos acadêmicos – um gesto necessariamente solitário, longe da partilha -, angariamos mais pontos do que qualquer ação em comunidade. é preciso realizar uns dez ou mais cursos de extensão para que valha a metade de pontuação (nesse tal lattes) desse gesto solitário de escrita – que eu, aliás, adoro fazer, mas que o faço, por costume e por deleite, apenas nas longas noites frias ou quentes, enquanto meus dois homens dormem e a música toca quase silenciosa lá na sala.


na efervescência dos dias, faço o oposto dessas noites --- eu me encontro com gentes.  e com elas sorrio, gargalho, faço planos, teço vontades. e por conta disso, são também assim meus amigos. jesuscristinho me afaste de qualquer um que não faça do título de doutor apenas um dentre os tantos sentidos da vida. doutora? sim e não. tão doutora como sou mãe, sou esposa, sou dona de casa. e principalmente sou gente --- que está mais a fim de delicadezas, de embates honestos, de lutas precárias do que pôr na frente um título que, na verdade, só tenho a agradecer porque fiz do tempo da sua construção os anos mais felizes e inteiros de minha vida. e isso porque entreguei a esses anos meus últimos desejos de juventude, que eram grandes, intensos, meio malucos. e tive a sorte de estar ao lado da minha melhor amiga da vida inteira e de um orientador que não canso de aprender com ele -- desde o dia que o vi pela segunda vez e ele me olhou grave, quase terno, e perguntou: “por que você estava tão nervosa?”. nunca perdi  parte daquele nervosismo inicial, mas agreguei outros sentimentos e destituí tantos outros. muito tempo depois, ele me disse algo como: “você escreve bem, mas não é tanto assim. ou se responsabiliza por sua escrita ou vai continuar escrevendo obviedades que você acha que os outros não percebem. eu percebo tudo. os sensos comuns, as frases feitas, as lacunas de saber”. uma frase dessa não tem o mesmo teor da frase do meu padrinho. e eu não gargalhei. pelo contrário, chorei muito. mas não o acusei de estar usando o seu título de doutor, que eu ainda não tinha, para me humilhar. nem deixei de amá-lo como o amei desde que o senti como alguém que poderia me ensinar um tanto. não sei se algumas vezes depois disso, cometi o mesmo pecado da soberba, mas se há moral da história, posso dizer tranquilamente que reconheci desde ali que ele estava certo. e que ele podia e devia me dizer o que disse. pois humildade não é prerrogativa de estudante nem arrogância é predicativo de doutor. e o que ele me disse ali nada tinha a ver nem com uma nem com outra. e saber reconhecer isso, na hora devida, não deixa de ser um dos saberes que se deve cultivar dia a dia. 

e ainda. tenho profundo amor pela minha tese. e ela foi lida, apenas, por umas cinco pessoas. e ainda assim, com esse amor, sei e reconheço que ela poderia ter sido uma tese muito mais "profunda" e que foram as minhas escolhas - dos mil filmes, das viagens mais fodas pelos países que ainda quero levar o Poeminha e o Tatupai, dos tantos shows - que a fez ser do jeito que ela é. honesta, bonita, inteira, mas dessa inteireza do humano. não culpo ninguém, nem a mim mesma, por essas linhas que, de todo modo, foram as que eu consegui traçar. 
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e claro, eu poderia falar da graduação, para me aproximar dessa zona de (des)confronto que gerou este texto. falar que trabalhava três turnos, que já tinha insônia que me fazia atravessar as noites sem dormir um segundo e me fazia dormir em plena sala de aula às 15h da tarde, que eu não tinha tempo algum, mas que era uma das poucas a ter projeto de iniciação científica em toda a universidade, que era mais brava do que sou hoje e que sustentava essa braveza - apesar de dormir diante de um tanto de professores - com o que eu conseguia fazer. e o que eu conseguia fazer era muito --- algo como """um professor pode me odiar, mas jamais me dar uma nota ruim, porque o que eu consigo fazer nos intervalos não abre brecha para a nota ruim"""". --- é claro:::: ainda não conhecia meu orientador de mestrado e doutorado e sua inteligência suprema e generosa. mas já sabia me curvar, inclusive, àqueles que estavam à cata do meu menor deslize, além do sono.

e entenda quem quiser. mas não me venham com discursos pseudopolicitamente corretos. não sou dessa época. e eu sou nordestina-cearense, cabeça chata, filha de mãe brava e pai carroceiro, passei fome de comida boa. sou das cotas em uma época em que não existiam cotas nem auxílio algum. meu discurso é da guerra. mas jamais da vitimização. e só entendo essa língua. que é a minha língua desde menina. não é minha língua de doutora. não assino "doutora" em lugar algum. meu nome é milena. e é com ele que me sustento onde vou. nem meus amigos mais amados assinam "doutor". nunca me dirigi a nenhum aluno apontando esse título. e até chegar aqui, nesta universidade em que se fala muito de direitos, mas quase ninguém aparenta entender de deveres, jamais havia reprovado um aluno, seja por falta, seja por nota. e apesar disso, sempre havia sido tratada com cuidado. um cuidado que me dispensavam, embora soubessem que estavam, de antemão, aprovados em qualquer disciplina que eu ministrasse. aqui, tive que mudar isso. um aluno aparece em um dia de aula e doze aulas depois tem coragem de me perguntar quando ele pode apresentar os trabalhos do componente. como se essa mudança - de disciplina a componente - pudesse dar a ele o poder da passagem. não pode. e pode --- se me provar que sabe o que ali ocorreu com os corpos que estavam em doze aulas que ele não esteve presente. então, não me peçam concessões. porque eu nunca as pedi. a vida toda, eu só exigi. e o que era do meu direito. o que não era, o que era e ainda é forjado pelas facilidades do discurso não me enternece. nem me convence. quem quiser estar comigo, e com meus amigos, nesta aventura do saber que é também sabor, seja super bem vindo. tenho na minha conta alunos que viraram amigos dos mais bonitos. amigos que amo mais do que eles me amam. e é por causa deles que posso dizer tudo isso --- porque são eles, que me reconhecem, que sabem quem eu sou. e quem anda comigo.
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domingo, 12 de junho de 2016

uma vida meio monalísica - notas de minha vida (a que tenho e a que desejo)













porque tenho trabalhado muito, porque tenho travado lutas bestas, ainda e apesar de tudo, tenho tentado encontrar bons amigos nesta terra estéril. e tenho tentado seguir meu curso. seguir o curso significa tentar respiros.

em algumas manhãs, enquanto meus homens dormem, eu vejo filmes. ou leio livros. ou esqueço a alergia do Poeminha e passo dois dias sem tirar o pó da casa. esse hiato me permite ler várias páginas e me demorar naquilo que seria meu centro se eu pudesse me demorar mais nele.

o silêncio da televisão me faz bem. é estranho, muito estranho. enorme alívio do barulho que vem do mundo. porque o que acalma é a música. ou o silêncio.

tenho ouvido Bjork. muito. comprei o seu penúltimo cd por um preço exorbitante. depois saiu a versão nacional e eu me senti meio estúpida. mas na última vez que fui a Sampa, com o cd nacional em mãos, comparei mentalmente os dois objetos e agradeci a minha insanidade. é tão bonito e tão complexo o objeto-cd da Bjork na sua versão primeira! reconheço Björk desde sempre --- como uma voz que me toca, que me diz um tanto.

nesta semana, Tunga morreu. minha amiga Rosana me perguntou quem era Tunga. e eu chorei de novo. como um dia pensei sobre Farnese de Andrade, penso que todos deveriam conhecer a obra de Tunga. e que eu deveria conhecer mais profundamente. o que é o mesmo que dizer/ desejar que a arte ocupasse um lugar mais constante em minha vida. e na de todos. e isso poderia ser o modo de escaparmos das misérias do mundo.

dia desses, num momento de ira interna, eu disse que minha vida era uma piada. ou eu fazia isso. ou aquilo. e nenhuma das duas opções me eram satisfatórias. se eu tivesse tido a sorte de essa frase estúpida ter sido flagrada por quem estivesse disposto a ouvi-la, eu teria sentado e chorado. como nem sempre a chance vem, eu continuei furiosamente estendendo roupas no varal. estender roupas no varal como quem estoca todas as frustrações.

mas eu tenho a sorte de ser meu próprio exército. e ter uma liberdade interna rara; talvez muito rara. li Matteo perdeu o emprego de um fôlego só. quando terminei, eram 10h da manhã. e Poeminha ainda dormia ao meu lado. e queria registrar isto::: olhei para ele, agarrei bem forte e disse: "filho, você não tem ideia de como meu amor por você é grande". e adormeci às 10h da manhã, pensando em Aline, a moça linda que amo desde antes, que havia me indicado o livro, naquele momento em que ela me disse que fotografar era tão estranho. e eu lhe disse que, sim, sabia de tudo isso, mas que amava fotografar desde antes que fotografar fosse estranho.

perdi-me durante uma manhã inteira depois de receber umas mensagens de Laura Erber. imersa em suas indicações. à noite, encontrei outra Laura e disse: "endoideci um pouco hoje. e foi bom". e bebemos umas para comemorar as loucuras maravilhas diárias. Laura Erber é a escritora sobre a qual estou escrevendo um texto. --- o texto até agora tem dez páginas. e gosto do texto que ora escrevo. mas ele nada diz do que há de essencial na sua obra. são texturas. e me veio uma ideia absurda::: eu não quero surpreender a escritora; talvez, aqueles que a leem. pois nossos mundos de leitura não se encontram. e como posso conhecer uma obra sem conhecer o que a sustenta? é o que ainda não respondi nas dez páginas que por ora escrevi.

o carteiro me acorda logo cedo. desço meio grogue. e ele já está com a desculpa pronta::: "desculpe, milena, não é para você. é porque sempre que é livro, penso que é para você". tenho vontade de abraçá-lo.

convocam para que eu fale na semana de acolhimento na universidade. e eu, exército sozinha no campo minado, digo: digo que estou de luto. e na luta. contra o golpe. e que agora temos a prova de que não há grandeza em nós quando a história nos convoca. sinto uma solidão terrível, embora esteja com uma blusa que me faz parecer meio riponga. 

talvez por isso lembrei dia desses dos meus tempos de quase hippie --- quando era acolhida pelas praias de Natal, naquele tempo tão distante. por incrível que pareça, eu era mais presa do que hoje. era mais severa. é de Natal a única lembrança vívida de um grande desejo de morrer. depois daquilo, sofri vez ou outra por causa de outro - aquele outro que escolhemos para viver a dois -, mas nunca mais me deixei sucumbir. 

há menos de dois anos, sofri outra dor intensa. perdi não apenas algumas ilusões. e parte do amor que havia em mim. mas também crenças. e isso foi o pior. sofri sozinha e chorei muitas e muitas vezes. com um ódio gigante por estar chorando. criei uma casca de arrogância e proteção que somente as noites embriagadas, à vista dos outros, deixavam entrever o meu grande desespero. mas a lembrança de promessas arrancou de mim um tanto de coisas ruins que poderiam ter ficado estocadas - o que eu não queria de modo algum. e encontrei um cuidado de si em mim que cheira a vaidade. mas é puro amor. um gastar de tempo que me dá amor-próprio. e a certeza de que tudo está em nós. ninguém pode fazer por nós o que podemos fazer mais e melhor.

passei a amar Hirokazu Koreeda quase por acaso. ele e suas crianças. acho que fui uma de suas crianças, sobreviventes dos adultos. sei que é bonito. porque esta é minha luta diária::: "lembre, lembre, lembre de como era quando era preciso levantar a cabeça para olhar para os adultos". //// e eu lembro. e dói muito.  e ao mesmo tempo dá uma alegria imensa esse poder de lembrar. talvez seja por isso que, ainda que eu não lhe dê tempo suficiente, seja tão fácil enlaçar o Poeminha e falar de amor.

a estética de Koreeda obriga-nos a baixar os olhos, agora que tudo é adulteza.

já tive alguns gatos em minha vida. mas foi com Nina que passei a entender o verdadeiro sentido de ter um animal de estimação. o cuidado que isso exige. e o bem que faz ter um bicho sempre do seu lado. é um não estar sozinha de uma potência incrível e inesperada para mim. 

dia desses, minha irmã Morg me disse que causa a ela muito espanto a minha pouca fé. porque, para ela, minha vida é um milagre. ser uma sobrevivente, tão à beira da morte durante toda a infância e na vida adulta com o guillain-barré. e eu lhe disse o que penso desde sempre:::: acredito numa força. tenho fé. o que não acredito são nas religiões. se eu tivesse a certeza de que os que estão lá são bons, eu acolheria uma religião. já me senti acolhida em duas religiões, mas não o suficiente para suspender todas as suas enormes contradições, e é essa descrença que é confundida com não fé. Poeminha me perguntou dia desses porque não rezo. e antes de responder, eu amaldiçoei mil vez a sua escola. e menti para ele::: "não rezo porque não me é necessário". porque eu rezo. mas as razões por que rezo nada dizem respeito a qualquer religião.

Tatupai e eu temos diferenças irreconciliáveis. às vezes, pergunto-me porque nos amamos. e essa pergunta por si só já dá um alívio grande. saber do amor é sempre uma claridão no meio do escuro. eu gosto da integridade. e queria tirar com um sopro todo aprisionamento que há. porque amo bastante.

acho que é muito fácil plantar o ódio. --- escorpiana que sou, tenho ódios. mas são ódios fugazes. tão ligeiros que quando dou por mim já nem tenho notícias deles em mim. a ruminação dura o tempo de uma faxina. 

eu tenho muito orgulho de cuidar da minha casa. de ser eu a cuidar de tudo. mas me causa muita exasperação. demanda tempo, muito tempo. e há dias que eu mesma me espanto::: "qual será a mão silenciosa e imperativa que me impõe tanta disciplina na arrumação da casa?". eu passo roupas sete horas seguidas. ninguém entende um gesto deste. às vezes, quando estou muito irritada com as pessoas que me criticam por fazer isso, vejo aí um enorme preconceito de classe. como se eu, professora universitária, não pudesse assim fazer --- um trabalho relegado para a ralé do salário mínimo ou nem isso. por outro lado, eu mesma acho absurda essa disciplina. talvez por isso, criei a técnica de passar roupa assistindo a filmes. sim, isso exige técnica. 

e adoro o frio. e não tem nada a ver com a experiência de Paris. e a experiência de Sampa. tem a ver com o ser ruminante que sou --- acabei de dizer isso a minha amiga Ro.  o frio é um útero para quem pensa o tempo todo. e sim, eu penso o tempo todo. eu me analiso, analiso minha vida, a dos outros ao meu redor, repasso as cenas cotidianas, meus gestos, os meus não-gestos, o que eu queria fazer, o que eu não consigo fazer de jeito nenhum, o que eu juro que conseguirei e que não passo nem raspando; toda essa ebulição causa também muita exasperação, mas uma grande intensidade. é por esse pensar contínuo que faço mil tentativas - o tempo todo. até há dois anos, achava que nada me passava despercebido. foi uma das crenças que perdi. mas esta perda - apenas esta - foi muito boa. 

ser a mãe de Poeminha não é nada fácil. e é de longe a experiência mais poderosa de minha vida. é um teste. como pode? como se alguma força para além do explicável o tivesse colocado na minha vida. para testar minhas teorias. e eu ganho várias, modéstia às favas. mas por vezes perco no essencial. ele e seu universo feminino. agora, ele quer se apoderar do meu guarda-roupa, à mostra de seus olhos, aberto que é. e me pede o que - para meu espanto - me pareceu até agora ser o mais difícil. e joga na minha cara a frase que eu lhe ajudei a construir: "eu não me importo". e numa noite linda, rodeado de confiança, surgiu diante de nós, com uma linda fantasia de princesa, tiara na cabeça. e estava tão tão tão lindo e tão inteiro. com a frase que é minha e que eu lhe doei. 

porque não se importar com a tirania dos outros é a maior libertação que se pode aprender.
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(o título vem do documentário Tarja branca, a que assisti - do início ao fim - com o coração na mão. e as fotos foram tiradas em tantos momentos. em alguns, eu estava irremediavelmente bêbada --- o olhar torto, mas cheio de poesia. e são sem filtro algum. pq o único programa que eu sabia unicamente intensificar as cores sumiu do notebook). 




 



  


  

segunda-feira, 30 de maio de 2016

luz no breu



o mais difícil, sem dúvida, na vida é permanecer num espaço de clareza sobre as razões por que se pode estar vivo. algo que se traduz naquela pergunta boba, mas que nem sempre temos coragem de ir a fundo em suas possíveis respostas: "estamos aqui para quê?". e este "aqui" não apenas no sentido espacial, mas sobretudo temporal. eu, por exemplo, nunca vi sentido em pensar no porvir, a não ser que ele seja algo que esteja fincado no momento em que estou vivendo. 

tenho pensado muito sobre tudo isso há muitos meses. mas nas últimas semanas, tornou-se um imperativo. estou com muita ressaca de tudo que tem acontecido no Brasil. e por tempo demais, perdi a fé na possibilidade de uma vida íntegra. por muitos anos, estive muito alheia a tudo que me era "exterior". já disse aqui que voltei a me interessar por política, na forma mínima que os dias corridos permitem, porque fiquei com medo das imbecilidades que lia no facebook. eu tinha vontade de rebater, mas pensava com toda honestidade que nada sabia da "realidade". e acho que esse mergulho foi fundamental para uma abertura que eu julgava antes não ser necessária. o problema é que tem me trazido muito sofrimento. muita dor. porque um olhar "político" nos dá algo muito mais forte do que, muitas vezes, estamos preparados::: é como um rastro de pólvora que toma conta de toda a vida. e nada mais fica como antes. 

eu sempre tive embates públicos. no meu trabalho, no meu estar-casada, no modo de lidar com meu papel de mãe, com meus amigos, mas nada sistemático. preguiça. sempre tive preguiça do engajamento. e confesso::: a preguiça não foi embora. cansam-me os jogos, os conchavos, as águas-furtadas. por outro lado, gestos de indignação me parecem cada vez mais necessários. de algum modo, ser um ponto de incômodo para não deixar que abusos de toda ordem aconteçam sem que nada se faça, se diga. fazer, assim, um esforço de pensamento que vá além do comezinho. tudo isso cansa, porém. 

e por isso, é mais importante ainda cavar esse espaço íntegro --- estou convencida de que isso faz parte de outro tipo de responsabilidade que nos pertence::: estar bem a ponto de não me atrapalhar, de não atrapalhar a vida dos que convivem comigo. estou nesse momento agora. em um momento que eu pareço nunca ter saído desde aquela cena de libertação que forjei numa noite de festa já muito, muito, muito distante. porque identifico em mim dois traços que, assim mesmo, contraditórios, acabam por me constituir. tenho muito orgulho do que me tornei, uma certa arrogância mesmo, e, ao mesmo tempo, não me canso nunca de querer outras coisas, de duvidar das minhas tantas certezas, de querer forjar aquilo que em mim vejo apenas como promessa. como ânsia. 

e eu me debato nessas contradições, tentando forjar no presente isso que é ainda o porvir. há em mim reservas de alegria. e a cada vez que tudo parece ficar escuro, eu uso um bocado dessas reservas. dias desses, falei longamente para minha amiga rosana como é necessário perdoar a própria vida quando se já tem mais de quarenta anos. porque obviamente o que conseguimos aos quarenta estar longe de ser o que pensávamos que conseguiríamos quando tínhamos vinte anos. para mim, tem sido com esse perdão que tenho conseguido salvar os dias. e forjá-los, de certo modo, da melhor maneira possível --- nesse momento. 
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e escrevi assim, de um jeito explicativo, para que eu mesma me mire. e entenda, talvez, os passos errantes que tenho tentado. em larga medida, passos que carregam muita esperança.  
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sábado, 21 de maio de 2016

nos dias do golpe ---



(afásica desde a iminência do golpe, escrevi em momentos diversos neste "nenhum-lugar", onde escrevo porque gosto das palavras escritas. deixo registrad0s, aqui, quase sem filtro, estes dias de afasia, na tentativa de encontrar novamente minhas palavras).
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que longa noite, esta. o dia foi igualmente terrível. porque na minha vida comum institucional, vivencio as mesmas desfaçatezes --- e me distancio para não ficar tão feia quanto as pessoas que ora me miram. nunca mais, seremos os mesmos. deixamos para trás toda a esperança da felicidade comum --- como li em alguma lugar. sinto uma dor terrível. uma dor tão grande na qual realmente não há palavras. me arrastei pela casa durante todo o dia, pensando em como isso foi possível. e como não seria.

tenho que confessar que o que mais sinto nos últimos dias é uma revolta surda.  e não é apenas pela "elite", esta palavra tão démodé. nem pela classe média, esta que deveria ser onde me situo. pelos milionários, menos ainda. nem pela fiesp. nem pelos políticos desgraçados; porque de todos estes eu já sabia o que esperar. junto com essa revolta, tenho em mim uma outra---- dos que são iguais a mim. dos que, tendo se beneficiado de todas as políticas do governo, fazem de conta,  ainda agora, que não sabem que somente com este governo foram possíveis essas políticas. não penso que todos estas pessoas devam ter gratidão por este governo. não sou daquelas que usa a hashtag "gratidão". li por demais os textos iniciais de Derrida para saber o que há de comprometimento na palavra "gratidão". sei muito bem, portanto, o quanto há de encenação na ideia de gratidão. não é isto.  o que penso é na historicidade das ações. penso no que deveria nos obrigar à militância em um momento como este, mesmo com todos os reveses. penso no MST. sofrido, massacrado, muito longe de ter alcançado o que deveria ter alcançado --- e mesmo assim está aí queimando pneus pelo Brasil afora. e por que, e por quem, queimam pneus o MST?

dizer das razões parece o mais fácil. talvez não exista nenhum movimento reivindicador e político que investiu tanto na politização de seus membros do que o MST, o que explica os seus posicionamentos severos ao governo do PT nos últimos anos e a sua defesa nos últimos meses. é o espaço que todxs nós deveríamos ter ocupado::: protestar contra cada regressão do governo federal - e os governos estaduais e municipais que se revestem de partidos de "esquerda" --- e batalhar a cada vez que eles estão sob o risco das forças policialescas e regressivas dos conservadores. dos golpistas. sim, porque é um golpe

minha revolta é contra e os professores, e os milhares de estudantes, que são professores, que são estudantes, única e exclusivamente devido à expansão da educação superior realizada pelo governo federal, que instantes antes se arrogavam - arrogantes, idiotas, ignorantes, sem nenhum sentido histórico - contra Dilma, contra o PT, como se o que viesse depois seria muito mais vantajoso para as suas "classes", como se o sentido de "classe" fizesse sentido fora das lutas políticas que bem ou mal  foi o PT que realizou nos últimos treze anos. e o porvir?
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não terei complacência. verei  os direitos escorrerem, as conquistas jogadas ao longe, mas a cada direito perdido, a cada regressão, a cada miséria, a cada descida à pobreza, estarei qui a avisar que já sabia de tudo. não darei trégua.
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.passei minha vida sem ser militante. achei que poderia passar pela vida lutando pela literatura. que poderia passar pela vida ao lado de poucas pessoas. foi por isso que sempre tive poucos estudantes ao meu redor. e nunca quis lhes impor nada --- apenas meu amor meio esparso pela literatura. nas aulas, sempre fui pela via da ironia e da provocação --- (espantar todos os religiosos da minha terra proclamando a minha não-religião), mas agora já não sinto nada disso. só acredito hoje na militância. não o discurso indireto da literatura, mas o discurso direto --- com  a literatura. mas com este horror do direto. ir de estudante em estudante mostrar como se lê, como se interpreta, como se deseja. e como se revolta. para que possam entender as diferenças e as injustiças  do mundo.
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difícil escrever nestes dias turvos. dias alegres são soterrados por estas notícias imensas de tristes. parece até que nos tem sido permitido apenas clandestinas alegrias, como se não devêssemos ser felizes em dias de tamanhas tristezas coletivas.

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a presidenta foi afastada por até 180 dias. acompanhei tudo de muito perto. li li li. aprendi uma enormidade. e sofri outra enormidade. mantive firmes minhas convicções. e não tenho dúvida de que estamos diante de um golpe --- essa palavra que voltou à tona por causa de nosso passado recente. Dilma falou em "veio golpista". e é uma certeira interpretação sobre os acontecimentos de agora. e sobre a violência da política brasileira.

mas agora não tenho palavras. não vejo sentido em falar das lindezas dos dias e, mesmo, das lutas diárias institucionais -- -que são tantas e que, por vezes, tomam minhas parcas horas. nem tenho forças para fazer uma interpretação sobre o agora, embora pudesse fazê-lo. tenho sido uma militante de facebook, mas desejei muitas vezes ter saído às ruas para queimar pneu. então, hoje, dia 10, dia de paralisação nacional, tentamos mobilizar o nosso entorno::: eu e alguns professores. foi fiasquento. e me entristeci ainda mais. por outro lado, senti-me forte.


porque não tenho dúvidas de que este é um momento de que os brasileiros se envergonharão muito em breve. pois não há álibis. há apenas uma histórica divisão de classes e um ódio mastigado dia a dia pelas diferenças. uma classe média analfabeta historicamente e um classe baixa analfabeta politicamente. e os grandes interesses a rodar o moinho da história. que dor, que dor. que horror, que horror! e que alívio me sentir como uma intérprete deste tempo. uma intérprete que ocupa o lugar exato que deveria ocupar: o de uma professora do ensino superior em uma universidade periférica, cearense, petista "desde que nasci", classe média baixa que nunca aceitou as benesses idiotizantes desta classe apodrecida, cervejeira por convicção, mãe do Poeminha -- que agora me segreda o mais difícil. 
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por isso, e por tudo que estamos vendo aí, todo o retrocesso, todos os estrangulamentos::: por saber que Dilma foi afastada não pelos seus erros (que não foram poucos), mas pelos seus acertos. por isso. e sem trégua.    

(e amei esta foto: porque abraço bem abraço quase não existe no mundo). 







domingo, 17 de abril de 2016

Somos nós que escreveremos esta história





somos nós que escreveremos esta história. e no momento, talvez seja este o único consolo possível. o discurso dominante que se legitima, no aqui agora, transformando de forma escandalosa nossa relação com o presente, está sendo construído virtualmente. os discursos outros que perfuram esse discurso dominante já demonstram que esses fatos – como artefatos – sofrerão uma violenta revisão da história,  no que ela se compõe das micro-histórias.

em um Brasil partido ao meio, há hoje os vitoriosos e os derrotados – mas essas figuras passarão muito rapidamente pelo processo de carnavalização. as roupagens que hoje cada um veste se esgarçarão. para muitos, é carnaval; e para muitos outros, quarta-feira de cinzas. e a lógica do tempo se encarregará de trocar esses papéis. e isso porque a história, tal como se configura na contemporaneidade, é feita por essas figuras que hoje são menosprezadas pelo que denominamos, em larga escala, de grande mídia::: ainda são os pensadores, os intelectuais, os filósofos, que nos dão a pensar sobre o tempo - o nosso tempo e o tempo passado. 

para o bem e para o mal, os jornalistas são figuras desacreditadas. seres agônicos que vendem suas almas para qualquer um que lhes ofereça um emprego. dispostos a máscaras, abdicam do pensamento. por isso, quando falam, quando escrevem, abdicam da noção de autoria. falam por outros, papagaios inflados que são. basta observar como os âncoras do Jornal Nacional se despedem a cada noite com seus sorrisos de plásticos. felizmente, o tempo será implacável com eles. e não há quem duvide. não há pessoa bem informada, intérprete de seu tempo, que duvide disso.  


quem pensa que o golpe de Dilma terá o mesmo tratamento discursivo, na história, do impeachment do Fernando Collor não entende nada de história. é só observar. Collor não foi perdoado pela história. temos orgulho do movimento que o levou à derrocada, ainda que ele tenha voltado à cena política. é um pária. é apenas uma imagem triste do quanto ainda temos que avançar para termos votos livres do cabresto do poderio econômico. 

esse desprezo nunca será ofertado a Dilma. se daqui a algumas horas for confirmado o golpe que lhe tirará da presidência desta republiqueta de bananas, Dilma entrará para a história. a figura de Dilma ficará cada vez maior. ela será a primeira presidenta mulher que foi destituída pelo parlamento mais corrupto da História do Brasil. Logo mais, não se lembrarão dos seus fracassos, de suas escolhas equivocadas, da sua incapacidade de articulação política. Dilma será, logo mais, a grande figura desta história triste de um país que ainda não sabe lidar com este conceito tão forte e ao mesmo tempo tão frágil que é a democracia. Dilma será a vítima. lembraremos para sempre de seus, talvez, últimos dias no poder, em que ela encarnou a imagem de uma mulher com a arrogância necessária, com a coragem necessária. para sempre lembraremos de Dilma no seu ocaso. da sua voz firme a afirmar que sofre um golpe. que pela segunda vez na sua história individual, que se confunde com a história política deste país, ela é uma injustiçada::: ela é a torturada; e os outros serão os torturadores. na história, Dilma será esta figura da honestidade --- aquela sobre a qual não pesa um só indício de enriquecimento ilícito pessoal. e nos restará a imagem de Dilma, jovem, sentada diante de um tribunal --- altiva. sobrevivente. 

Temer pode governar, o mercado pode reagir, as alianças políticas que garantem a governabilidade podem se concretizar, nesse linguajar economês para pobre entender, e mesmo assim, ele será para sempre, na história, um governo ilegítimo, que alçou ao poder a partir de artimanhas rasteiras.sua figura é desde agora de um homem fraco, que chegou ao poder não pela sua força e coragem, mas pela desfaçatez, pelo conluio de forças daqueles que aprendemos dia a dia a menosprezar, a detestar, a sentir vergonha.

logo mais – e isso já começa a ser feito -  os veículos de comunicação, eles mesmos, tentarão convencer a todos da sua imparcialidade, e demandarão de nós a crença de que os acontecimentos narrados foram os acontecimentos acontecidos; mas  não haverá retorno. eles pagarão o pato. o pato que cobriu a esplanada e os principais jornais impressos e virtuais do país que, falidos, são capazes de fazer qualquer coisa para esconderem seus dias de agonia. porque o pato, como tudo, era uma cópia. era um simulacro. e como tal, transformar-se-á no símbolo do desrespeito e da falta de criatividade. o pato é um roubo. e o autor estava vivo para denunciar esse roubo. 


ainda que a Rede Globo, Folha de São Paulo, Estadão e seus reprodutores jamais nos peçam desculpas, não tenham dúvida de que não haverá redenção para eles. são a partir de agora, e cada vez mais, uma mídia golpista, mesmo que esse discurso abrande, mesmo que a palavra golpe seja esquecida; na história, quando a reflexão ocupar o lugar desses discursos agônicos, oportunistas, o veredicto estará dado, a acusação estará feita e referendada. e isso porque o discurso reflexivo tem um poder imenso.  não há a menor chance da cara de rato do presidente da câmara Eduardo Cunha ser absolvido pela história. ainda que os cidadãos que hoje bradam por um justiça inalcançável continuem a pensar que estavam do lado certo, cada vez mais terão que se recolher ante a sua própria vergonha. tem sido assim desde sempre. basta conhecer um mínimo de história para saber que assim será. ainda que agora nos pareça muito tempo, a geração seguinte, a geração de meu filho, os amigos dos amigos de meu filho sentirão vergonha de seus avós, de seus pais que saíram às ruas para defenderem o indefensável. 

agora, ninguém parece ver que o partido que poderá governar o país a partir de segunda-feira tem em seu quadro um membro com comprovadas acusações de roubos milionários (o que é um duplex de setecentos mil reais quando se tem a comprovação de mais de cinquenta milhões de reais?). e esse partido sequer fala num processo de expulsão, ou até mesmo de suspensão desta banda podre, equiparando-se, assim, a esta banda podre. agora, não se fala sobre nada disso. porém logo mais não se falará de outra coisa. ainda que esse logo mais demore décadas. do que lembramos da desastrosa gestão de Zélia Cardoso de Mello como ministra da economia do governo Collor? lembramos apenas de quando ela, já não mais ministra, nos disse: o povo está só

agora os discursos são agônicos, imediatos, mediados por uma torrente de informações que, na verdade, é apenas uma.  são discursos feitos para não serem pensados. o que se espera é a ação, é a revolta. é a lógica do escândalo, o gesto automático, o grito. quando essa febre repousar, nada disso restará. porque, repito, quem faz a história é aqueles que refletem sobre ela. os discursos de agora são discursos vazios. um congresso que ignora o que considera os discursos dos derrotados não terá voz nem lugar.  

e tudo isso porque Dilma logo mais deixará de ser Dilma. ela se transformará no que, desde sempre, constrói nossos discursos sobre nós: como sujeitos, como pessoas, o que almejamos é um lugar/tempo democrático para existir, ainda que não saibamos bem o que seria isso que defendemos com tanta força:::: a democracia. a liberdade. o direito de voto. o poder anônimo do voto comum. 
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e não sou analista política. nem futuróloga. mas tenho me dedicado nos últimos anos - desde que comecei a me incomodar com a ignorância generalizada das redes sociais e tive medo de, por falta de leitura no campo da política ficar igual - a este exercício da compreensão. tenho visto. tenho lido. tenho avaliado. o tatupai tem visto, ininterruptamente, a Tv câmara. e por vezes, eu lhe imploro: "desligue, não aguento tanto horror". sim, horror. estes homens terríveis, ignorantes, analfabetos políticos, reacionários, a nos representar. não sabem falar, não sabem concatenar um pensamento. são como porcos. porcos! grunhem altos, mas dali nada sai. é por isso que hoje tenho a convicção de que não serão esses discursos que permanecerão. 

pode parecer pouco. mas garanto:::: é muito. vejam a Alemanha::: por que hoje ela nos parece - ainda que não seja - este oásis de liberdade, oportunidade, unidade?::: porque ali há um povo envergonhado com seu passado, que tenta a todo custo reescrever sua história. logo mais, seremos nós a desejar reescrever esse passado podre.

seremos nós, logo mais, a sentir esse gosto amargo da vergonha. e eu, ainda mais velha do que agora, poderei olhar pra meu filho, olho no olho, e lhe dizer::: não tenho nada do que me envergonhar. e por isso, poderei legar ao meu filho esse despudor. este ser pensante que agora me obrigo a ser. 
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se acreditasse nos deuses, se a crença me fosse suficiente, eu diria: oxalá. mas não acredito. estamos irremediavelmente sós. se daqui a pouco, o horror se concretizar, chorarei cântaros. chorarei alto. serei a imagem do desespero. mas quando a dor passar, restará em mim a convicção de estar do lado que vale a pena estar. a serenidade virá. e estarei pronta para as novas batalhas. 

por mim. pelo Poeminha que agora dorme do meu lado. quando ele acordar, ainda estarei aqui, a professar meu orgulho. se a história é repetição, poderei dizer a meu filho, logo mais, se tivesse estado lá, quando se encheram comboios de trens levados para a câmaras de gás, eu seria uma dessas dizimadas; se tivesse estado lá, nos anos 1960, no Brasil, eu teria sido, como Dilma, uma das torturadas. eu teria estado no pau de arara. eu seria uma daquelas que teriam enfiado um ferro na minha vagina, teriam queimado os bicos de meus seios, teriam me aleijado. e eu teria resistido. orgulhosa que sou, teria resistido. e teria deixado como herança a minha coragem. 

esta mesma coragem, que é também entendimento sobre o que agora acontece, que me impele agora a estar do lado da democracia e pensar que sobreviveremos. somos sobreviventes. e carregaremos conosco esta certeza. e a espalharemos. como vagalumes. sim, vagalumes, nesta grande escuridão de desesperança que agora nos recobre.
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