domingo, 17 de fevereiro de 2019

enquanto leio este livro de Mia Couto



enquanto leio este livro de Mia Couto, mais o Brasil deixa de ser o que por um intervalo curto demais imaginamos que ele poderia vir a ser --- ou era. nós, os que acreditamos em presentes. e daí fico sem saber se todas as lágrimas são por conta do livro --- da beleza das palavras, e não propriamente da história --- ou por conta deste aborto chamado Brasil. talvez fosse melhor ser desterrada do que estar ainda mais próxima das entranhas da minha terra, nesta Bahia, embora às vezes esta se sinta mais próxima do Sudeste que lhe renega do que do Nordeste que lhe é. pois estar fincada na própria terra é sentir mais forte quando ela treme debaixo de nossos pés.

sei que nestes dias me sinto mais que nunca cearense. ainda que uma cearense-rondoniense. um travo orgulhoso me percorre. e eu misturo a minha dor salivar do estômago com essa raiva surda por conta de todos estes mortos-matados. o Brasil afunda como a barragem de Brumadinho::: de uma vez só, sem dar tempo de nos colocarmos a salvo, ainda que os avisos tenham passado por muitos ouvidos moucos; ainda que haja sempre um milagre a nos dar um rasteiro alento – como a mulher que dirigia o trator e soube ter a coragem de esperar a hora de sair dali, bem na parte da terra em que a lama deu a curva. a mesma coragem da mulher que arrebentou o vidro do caminhão arrebatado pelo helicóptero que caiu. ouço o relato que Boechat pulou, na tentativa, certamente, de se manter vivo. não tenho forças para conferir. é muita tristeza junta. havia acabado de ver corpos estirados no chão de uma casa comum, no morro do fallet-fogueteiro, mortos em nome da guerra que faz arder o Rio de Janeiro. e também Fortaleza. porque as guerras são todas iguais, é o que sempre nos dizem. e na mesma semana, já havia visto Fernanda chorando por conta dos meninos do Flamengo ---. e agora o segurança mata um jovem já indefeso. MATA UMA PESSOA. e é nítido o prazer de matar. é a vida num estado de terror e revolta 

enquanto leio este livro de Mia Couto, eu tento me acertar; acertar as contas com o que não me serve mais --- lembro da missa a que assisti ainda há pouco do meu irmão padre – tão bonita e tão bonito. não aprenderei a dar glória, nem a usar a hashtag gratidão, mas posso levantar da mesa para fugir das minhas implicâncias; posso subir as escadas, meio trôpega, para não dizer mais nada sobre o que certamente me arrependeria no dia seguinte, quando eu tivesse que me levantar e roubar estes poucos minutos para olhar o que vejo da varanda de nosso quarto. é porque a vida tem esta parte das fugas de si mesmo; do repisar o constante para querer ser outra, ainda que todo tempo seja eu mesma que esteja aqui comigo.

enquanto leio este livro de Mia Couto, lembro que já faz dez dias da última fisioterapia e acordo em desespero para ir. é um rompante para não me afastar das promessas deste ano que mal começou e já poderia ter terminado, porque já parece ter havido tragédias, crimes, mentiras, ignorâncias, burrices em excesso. é muito. e talvez ainda seja pouco. engulo estes comprimidos contra a bactéria do estômago e deixo ausentes a amargura da boca e a sonolência, só porque quero, embora estejam aqui. tenho pressa, mas é porque persigo o vagar. me prometi ler uma centena de livros neste ano, e ver mais de duas centenas de filmes nestas horas em pé, enquanto faço algo muito antigo, que é este passar de roupa e, agora, guardar no método marie kondo. nem que eu precise trapacear e ler alguns muito finos, decidi que vou ler, sob pena de não mais poder dizer que me constituo como leitora. nem que eu tenha que fazer como já faço há tanto tempo: barrar o sono. Vicente e Tatupai riem quando me veem cochilando 1h da manhã, tentando ler ou escrever, já não lembro. eu devolvo o riso, feliz, por estar ali e não ter estado com eles, quando certamente me perderia e deixaria de lado essas promessas tolas.

enquanto leio este livro de Mia Couto, penso que não há razão alguma para temer. para me pôr a salvo, ainda que sob perigo, é só não me afastar dessa grande coragem de me manter leal aos meus princípios --- há quem diga que é arrogância, mas eu prefiro pensar que são as roupas e as armas de Jorge. um querer obstinado pelo trabalho moroso, porém dedicado. tenho horrores também, mas tenho amor, sobretudo. amor, sim, ainda que lesado.   

enquanto leio este livro, eu me lembro que daqui a pouco estarei novamente em Angola. é por Angola que circundo estes livros negros, estes estudos, prenha destas vontades, agora que já não dá mais para estar prenhe de algum irmão-porvir de Poeminha. é da natureza do precoce vir cedo demais; daí ser necessário esse agarrar das vontades outras. é o modo possível para suportar este Brasil que ora nos castiga como o quê. talvez seja como rezar pra dentro, por falta de jeito de rezar pra fora. quando eu esqueço que não sei, eu me ponho em estado de oração, em que penso no meu irmão morto, no meu primo-sorriso, no meu pai e na minha mãe longes, no plural mesmo. nos desejos abortados, nas tristezas fundas que não se curam senão não seriam tristezas fundas, em tantos outros que estão longe, e nestes dois que amo e que estão perto, aqui comigo --- enquanto me deixo arrastar por Rosabela, que late faceira, nesta beira do pontal que aprendi a amar e a chamar de casa.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

o menino-sorriso Luan




mana Mácia, em um de seus momentos de braveza - e com aquela dor do irmão que havia morrido -, me disse que quando morresse não ia querer nada::: nem choro em vão nem texto bonito na internet. há pouco eu havia escrito sobre e para meu irmão morto. o que são as palavras senão monstros para nos apaziguar?  talvez a gente escreva porque a parte escrita seja a parte de uma humanidade perdida --- um jeito de estar com o outro, ainda que a presença, aí, fique rarefeita. é assim que hoje escrevo sobre Luan, o menino bonito de tantos amores que partiu como passarinho --- a atrapalhar as alegrias das festas de fim de ano, meio como naquela música de Chico Buarque.

há tanto a dizer sobre Luan. e não há nada que não tenha sido já dito. eu o vi bebê, menino, adolescente, rapaz e moço inteiro. ou seja, eu deveria ter morrido primeiro para seguir a ordem da natureza. um jovem quando morre - seja de morte matada seja de morte morrida - é um tanto de dor sem fim. já disseram tudo::: morre um passarinho livre. pego de surpresa bem no meio de seu voo.

Luan viveu sua doença de tal modo que nos ensinou a viver como se ele não fosse morrer tão cedo. ainda que sua vida nos últimos anos tenha sido vivida boa parte em hospitais. e agora, quando escrevo, parece estar fora de ordem isso que digo::: suas fotos públicas são todas de um viva ao estar junto, ao sentir e querer estar entre pessoas. com câncer reinventou sua vida um sem fim de vezes. namorou, passeou, foi pai. pai! talvez soubesse que tudo seria breve. ou não::: acho mesmo que acreditava no estar-aqui da eternidade. e com tal sorriso::: não há uma única foto em que ele esteja sério. nem se via ele sério::: é a vida que pulsa. em uma daquelas sortes grandes, faz um mês apenas que pude estar uma hora com ele, apesar de nossos muitos quilômetros de distância::: e não ouvi dele uma única palavra de desalento. era todo fé, era todo alegria. era todo vontade de estar no mundo.

um dia, tentando convencer minha amiga Rosana de que a vida era muito poderosa e não deveria ser vivida senão com alegria, eu lhe disse que a hora é sempre o agora::: ou vivemos ou esperamos o tempo em que viver será ainda mais difícil, pois a morte vem, as dores nos arrastam e já é o fim. 

e agora me parece isto::: tem uma ferradura bem no meio de nós, de mim. a morte de meu irmão é como um antes e um depois --- a tristeza dessa morte lambe meus dias mais felizes, retirando parte das alegrias tantas. ---- ainda que eu persevere na alegria. pois Luan, como meu irmão, também perseverava na alegria. e agora temos mais esta prova para viver os dias. mais um se foi cedo demais. e como sobreviventes temos que viver as provas dos dias. como estar à altura da vida? desnorteada, penso dia e noite nisso. como honrar a chance de estar viva, quando tanta gente bonita morre como se fosse antes da hora?

certamente, Luan sofreu. teve medo, sentiu muita dor, fraquejou no meio das noites, que é quando mais fraquejamos, longe dos olhos. mas nada disso quis compartilhar conosco. o que quis foi espalhar seu sorriso e sua fé. e por isso, apesar desse tempo todo doente, nos parece agora que foi rápido demais. assim:::: num repente --- vestido de branco, vermelho e flor. no meio das festas, da família que ele tanto amava.

penso agora na tia Fá, a mãe de Luan. --- da geração de mães que conheço, ela sempre me pareceu ser das mais ternas, mais entregue a esta aventura de ser mãe. sempre me impressionou a sua falta de sono quando uma de suas crias estava longe de casa --- prova de que ela as queria todas próximas, a salvo sob suas asas. só consigo imaginar a sua dor; jamais senti-la. mas eu sei que ela sabe o que Luan faria e diria::: amor.

então, neste último dia do ano, o que posso desejar a todos que conheço, e ainda mais aos que amo, é que tenham em si a alegria, a coragem e a fé de Luan --- o menino-luz, o menino-flor, o menino-sorriso, o menino-abraço, o menino-gargalhada.

vamos precisar de sua alegria, de sua fé, de sua gargalhada, para enfrentar os dias duros que virão --- e sem perder a ternura, o amor, os desejos --- estes sentimentos moventes::: que eram dele e estavam nele até o fim. que nunca parece ser o fim. porque está aqui -- em nós. 

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sexta-feira, 31 de agosto de 2018

Jardins da memória















ontem, procurando uma foto para colocar no facebook, encontrei as que tirei no jardim Botânico do Rio de Janeiro. e achei-as bonitas. foto de flor é também como paisagem de mar::: não tem erro. mas é difícil. e é uma beleza que saiu de moda. de todo modo, estão aí em cima. e lembram uma tarde feliz.

lembrei que as primeiras tentativas de tirar fotos de flores, com a câmera bem próxima, foi na casa de d. Marlene, a mãe da Kotz. em algum lugar há fotos de flores da casa de d. Marlene nos meus arquivos sempre bagunçados. me veio o desejo de procurá-las. e há bem aqui. me veio o desejo daquela casa. não sei se a casa ainda existe. mas sei que d. Marlene não está mais aqui --- não há mais como voltar naquelas tardes preguiçosas, naqueles almoços pantagruélicos, nem para aquela rede de frente para as orquídeas e o jardim selvagem que rodeava a casa. e por isso me atravessa o pensamento de que as casas para as quais queremos voltar se desfazem mais cedo do que deveriam.   

se eu tenho saudade de d. Marlene, imagine Kotz, suas irmãs, as netas --- toda aquela família que gravitava em volta de d. Marlene --- que nos alimentava com tão poucas palavras, com sorriso tão terno. quase sinto o cheiro da comida. e vejo o fogão a lenha, a grande mesa de madeira sempre farta; e nós ali em volta. Kotz, com suas mil palavras; Lobão com a sua beleza compenetrada, seu Emílio, um gigante menino. pato, porco, galinha. gato. haveria cachorro? e ainda nós, mesmo depois de Kotz ter partido.

ali era um fazer-nada. ficar parada no refazer dos dias. ali, mesmo se eu e o Tatupai estivéssemos muito distantes, se suspendia essa distância. não era nada. e era a delicadeza por inteiro. Poeminha, por ali, tão pequeno. um braço era sempre um abraço. 
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agora que moro nesta casa com o rio e o mato em volta, que não é minha, compreendo bem mais a casa de d. Marlene. e se nunca desejei de fato ter uma casa assinada em cartório, agora me vem esta vontade quando passo distraída diante de uma destas janelas e vejo o rio lá fora. vejo as árvores. e ouço os passarinhos. se me for dado o tempo de envelhecer, bem que o tempo poderia me trazer a delicadeza de seu Emílio e d. Marlene. eu compraria, enfim, uma casa. e ela teria um jardim selvagem com muitas flores. para descansar meus pés inchados de espondiloartrose, eu os levantaria para cima enquanto tentaria ler um livro com os olhos também cansados. eu sei que cena bucólica é brega. e sempre há de se colocar os mosquitos. e a alergia aos mosquitos. mas que se dane::: rememorar o porvir com uma casa no meio de um jardim selvagem é bonito. é de fechar os olhos com a paz bem dentro deles. 
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domingo, 15 de julho de 2018

Sumbe, Angola - parte 1











eu queria ter feito como Danilo, que escreveu um diário. havia decidido fazer, mas os dias se foram sem que o diário existisse. de todo modo, os dias existiram. e são passado e o porvir. volto logo mais. dos dias ficaram um tanto de surpresas, constatações, encantamentos, tantos e tantos pensamentos. alegrias e alegrias.

eu lembrei de uma música que agora não quero nomear, porque me parece um chavão sobre o qual é preciso sempre trapacear. é porque sou cearense. e cearense insiste que já viu de tudo, mesmo quando não viu. esse "ver de tudo" deixa o olho calejado e menos afeito ao espanto, o que não deixa de ser uma maneira de não se deixar afetar. deveríamos fugir da aridez do olho como o diabo talvez fuja da cruz. é o que tento, pois. a cada vez que meu olho arrisca secar eu me arrisco nas alegrias grandes.

espanto de verdade, que mais pareceu tristeza, foi apenas um dia. uma manhã. andar na praia ao lado de Mari é quase como estar de mãos dadas de tão bonito que é. é uma espécie de oração ao tempo que nem tudo pode levar. mas a praia pode ser moradia. extensas áreas de construções cobertas de lonas, como que em cima umas das outras, me deixaram com um oco de tristeza que demorou a passar. foi o sol. ou calha de ter sido mesmo o nunca-visto. dali vem o peixe que depois nos é servido. teimei que devia voltar e olhar com menos espanto === buscar ali o normal de todo dia: gente das mais variadas. e me misturar com aquele alarido todo::: os peixes grandes na bacia, as mulheres de cócoras, os homens a beberem, conversarem e repararem em nós também com espanto. as mulheres, não. as mulheres não têm tempo para olhar forasteiras que chegam. estão ocupadas demais com os afazeres que compõem suas vidas.

as mulheres carregam seus filhos nas costas e as vendas na cabeça. parece ser um equilíbrio precário, é o que pensam meus olhos desacostumados. até que um dia Mari cai no mesmo lugar em que uma dessas mulheres havia descido com um enorme tambor na cabeça: altiva, uma timidez sorridente quando nos viu, braços soltos a seguir viagem. quis de todo jeito registrar uma mulher tal como ela me parece ser: com aquele olhar fixo em quem a observa. será que doem as costas das mulheres que colocam seus filhos nas costas? dói a cabeça com aquele peso todo? será que doem as costas das mulheres que varrem as ruas com as vassouras sem cabo? a mesma vassoura que trouxe para casa com a vontade de transformá-la em objeto de memória? e onde vivem as mulheres que passam o dia a vender com seus filhos nas costas? quem cuida da casa quando elas estão nas ruas? não sei por que fazemos tantas perguntas. não basta apenas ver. a cabeça não para de fazer perguntas.

parece que os angolanos não param nunca de caminhar. percorrem longas distâncias dia e noite, dia e noite. sobe uma poeira fina que deixa tudo avermelhado; e eu teimo em caminhar na beirada da noite, como faço aqui, agora, em Ihéus. tenho medo das mãos dormentes. as ruas ficam vazias - como aqui - apenas aos domingos. nesse dia, as crianças estão na praia. nessa época, somente elas estão na praia. quando eu pergunto a razão, me dizem que ainda está frio. nessa época a água está sempre fria, mas as crianças não se importam. estão na praia, estão na cachoeira, estão no rio, estão nas ruas e querem porque querem que eu as fotografe. não adianta dizer que não quero "pose" ===  e que gosto de imagens que surgem por acaso, que pegam a pessoa distraída. as crianças do Sumbe não escutam. querem fotos e querem ver as fotos. eu tanto me espanto como obedeço quase sem perceber. e fotografo aqueles olhos fixos em mim --- um mais lindo que o outro - abertos abertos abertos, até que de repente um está fechado. e outro está ainda mais aberto a me inquirir. como poderia velar por estas crianças que carregam suas cadeiras da escola na cabeça? por que pensamentos assim enraízam e me deixam no deserto?

uma escola sem merenda me parece tão fora de propósito. como eu teria sobrevivido em uma escola sem merenda, lá pelos seis, sete anos de idade? eu sentiria ainda mais fome do que sinto hoje? a natureza não existe. e a cultura é uma velha senhora. ouço com firmeza que a merenda talvez até atrapalhe a concentração, a disciplina --- essas palavras tão ligadas ao ensino. e antes que eu proteste, a merenda está sendo posta em outra escola. as crianças estão em volta das mesas e eu quase peço para me sentar ali no meio delas para matar a minha fome de criança. mas quando saio dali o protesto cresce dentro de mim, se avoluma, e para que eu possa suportá-lo, leio ou durmo === dormito muito, naquele hotel em que um ou outro rato vem nos visitar enquanto eu, Mari e Danilo comungamos nossas vidas que - insisto - devem ser povoadas de nódoas, senão o que seriam? eles protestam e são felizes. eu também. mas tenho um oco e não sei como mandá-lo embora. nem posso. acabo por me render e admitir que encrenco porque tenho uma alma do avesso. e me apaixono novamente pela Mari. ou lembro e lembro dessa paixão por ela que nunca passa. e Danilo, tão bonito. fico perscrutando suas inteirezas, enquanto ele diz para mim e para Mari que tem um bocado de receio delas. um trio tão bonito surgiu naquelas conversas todas === parece que a vida toda é isto mesmo::: é este pensamento sobre o mundo, a universidade, as pessoas, o casamento, o estar com os outros, o estar aberta aos outros. como é bom sentir que não há nenhuma rivalidade, nenhum temor:: há dúvidas e alegrias permeadas por uma confiança grande no que agora é feito. 

e há um olhar pousado sobre a cidade de poeira fina. um olhar amoroso, sobretudo. e com o por do sol mais lindo que já vi na  vida. por isso, carrego Mari para ver o por do sol, como fazia antes em nossas tantas viagens. ela insiste que não dá para fazer as duas coisas. e eu ignoro; não por displicência, mas porque quero crer que dá. e ali, naquele por do sol, está o menino. faz o quê, o menino? o menino estuda. a onda bate. o casal de namorados se molha. e se beija. o amor é quase palpável naquele fim de tarde. por que ninguém nos diz para arregalar os olhos? para não deixar nada escapar? e pegar tudo que importa e fazer durar. como aquela missa. na última vez que havia estado em uma missa havia sido para rememorar a vida e a morte de meu irmão. naquele dia, meu pai, eu e minhas irmãs sofríamos como o diabo. uma solidão tão sem medida que não passa nunca. na missa de Angola, havia também solidão, mas, sim, alegria, uma espécie de contentamento, por estar ali e reconhecer aqueles passos nos corpos que celebravam.  
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escrevo este texto por conta de e para Aline --- que me diz ser uma pena que eu tenha perdido a alegria de escrever aqui.
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e escrevo por conta daqueles dias === os mais amorosos de muito tempo.

quinta-feira, 17 de maio de 2018

Para poeminha




ei, menino, você está crescendo. já são oito anos e tudo é diferente de antes. o que resta de nós? daquela mãe e daquele filho de anos que se foram? eu tenho um medo danado de me perder de você. de perder nossa proximidade e nosso afeto --- eu que durmo pegando no seu cabelo; você que dorme procurando com a mão e com a perna alguma parte de mim para tocar.

o que nesse tempo me trouxe até você? e trouxe você até mim? da minha parte, Poeminha, parece que nada que você faz me distancia. você está aqui --- colado em mim como aquela dor nas costelas que eu sentia quando você estava dentro de mim. presente. e com uma ternura sem fim. já não tenho certeza se ocorre o mesmo com você ::: você me diz seguro e certeiro que algo falta::: "mamãe, você não me escuta". a escuta. 

passo o dia todo agora longe de você. e tenho que conviver com isto::: que você vive sem mim. sem mim seus dias passam. e a casa lhe parece mais acolhedora. eu chego à noite, cansada e infeliz muitas vezes, e seu mundo todo está ali espalhado::: papéis picotados, lols espalhadas, restos e rastros de um dia intenso e provavelmente feliz::: mas você diz 'mamãe' e, para mim, é como se eu estivesse ali o tempo tempo. você que é parte de mim.

Poeminha, digo algo como segredo::: perdi a alegria da escrita. perdi a alegria deste blog. não é por nada. e é por tudo. desde que perdi meu irmão, seu tio que você não lembra de ter conhecido, perdi o amor por esta escrita --- esta escrita descompromissada::: que pode ser uma carta para você, que pode ser uma resenha, uma opinião, um desabafo, uma beleza a não ser esquecida.

você não sabe o que me aconteceu ontem. nosso amigo Marcinho me ofereceu uma cerveja - meio ruim, mas suficientemente boa para que eu não lembrasse de imediato que era ruim - e eu pensei algo como::: "Mano vai gostar de experimentar esta cerveja". não sei porque pensei isso, Poeminha. meu irmão não bebia cervejas artesanais. mas por causa dessa cerveja esqueci por um instante que meu irmão estava morto --- esta cerveja.

eu não sei, Poeminha, o quanto podemos chorar pela morte de um irmão. o quanto podemos chorar sem que isso seja um nódulo que corrompe todo o resto. às vezes, eu penso que vou morrer antes de parar de chorar. ou que alguém mais vai morrer sem que eu possa sequer imaginar se poderei estar viva para viver uma nova morte.

---- eu sei apenas, filho, que nunca, jamais, em nenhuma hipótese, eu quero estar nesse mundo sem que você esteja. eu posso suportar qualquer vida ou qualquer morte --- desde que eu saiba que sua vida continua. e que seja bonita. exatamente como você é.
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não me pergunte nada agora, Poeminha. estou numa fase de teste. não sei exatamente o que sou agora. ou quem >>sei que em vários instantes penso e sei que sou sua mãe. e todo o resto resta.
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domingo, 24 de dezembro de 2017

minha biblioteca












penso que jamais terei uma biblioteca de encher os olhos. isso ---- no que diz respeito aos móveis. estou condenada a estas estantes feitas quando eu não tinha um tostão no bolso e precisava de todo modo de prateleiras para abrigar os livros que se avolumavam. sempre que imagino estantes até o teto, feitas sob medida, eu lembro em seguida que não sou uma pessoa de posses. nem suficientemente madura para fazer planos a longo prazo --- economizar, pagar a vista depois de meses de organização financeira, me é algo tão estranho que sequer cogito. sim, estantes de quinze anos atrás que abrigam os livros de antes e os de agora, como que por milagre. sempre há um jeito de caber um pouco mais. inclusive, há o jeito de aceitar como abrigo caixotes coloridos de supermercado, acompanhando a tendência do decor-faça-você-mesmo, que é só uma forma de glamourizar a pobreza.

nesse pouco mais, está a minha história. uma vida inteira. como toda pessoa que compra livros --- e já disse isto outras vezes aqui ---, compro mais livros do que dou conta de lê-los. é tanto um espanto como um acalanto a cada vez que mudo de casa e tenho que fazer com que eles caibam nesses espaços. os livros são a materialidade, a prova, dos meus excessos. não há nenhuma época da minha vida que não esteja contaminada pelos livros --- pelo que li e deixei de ler. assim como as razões pelas quais li e as por que não li.

e mesmo sem memória, consigo identificar a história de cada livro. e o que havia ali de promessa. não a história do livro, mas a que está por trás de sua compra. e do seu desejo - realizado ou não - de leitura. continuo agrupando-os por gêneros e nacionalidades, começando pela prosa brasileira e finalizando com a poesia. a razão por que não estão juntas prosa e poesia brasileiras diz muito sobre a leitora que sou::: antes de tudo, uma leitora de romances.  eu sei que há toda esta bobagem de antagonizar a prosa e a poesia, mas não é por essa razão que sou uma leitora de romances::: meu amor pelos romances vem da infância; é aquela menina que tomava emprestado livros de capa grossa da biblioteca da escola que aprendeu a amar histórias grandes. aquela menina ainda existe nessa resistência do amor aos romances, é o que gosto de pensar. não há memória da infância que não seja também contaminada pela leitura. tanto as boas, poucas, como as ruins, muitas, falam do meu amor precoce pelas palavras escritas. o saber ler aos cinco anos. as palavras escritas nas paredes de tijolo. a mãe professora. a ida à escola. a primeira professora. a minha alegria e o sofrimento do meu irmão na mesma escola por anos seguidos. a descoberta da biblioteca. a surra por causa da leitura, ainda criança, de romances de amor  --- tudo é ferro marcado no corpo.

a poesia é, talvez para sempre, um desejo continuamente adiado, embora nunca me falte um estar-junto de alguns poucos poetas.

nesta última mudança, limpei os livros um por um. foram dias e dias de uma conversa imaginária com tudo aquilo que me rodeia. todos os dias sou rodeada pelos livros::: porque eu gosto de trabalhar no meu escritório. é aqui que suporto bem o preenchimento dos formulários. é também aqui que planejo as aulas. e aqui tenho as melhores ideias no enfrentamento da escrita. não existem dias mais felizes do que aqueles em que resolvo escrever algum texto. por conta dessa felicidade, sei que deveria enfrentar, mais uma vez, uma escrita mais longa. já faz dez anos que escrevi o meu mais longo texto, que foi a minha tese. como eu já disse tantas vezes, percebo nesta um sem-fim de buracos, mas lembro, sobretudo, do amor que havia na ponta dos meus dedos enquanto a escrevia. há muito amor e muito adeus em minha tese. sem dúvida, eu deveria experimentar novamente tamanha entrega.

neste ano, enfrentei a leitura porque não havia muito o que fazer. atravessei o luto com a leitura de livros nas longas noites insones. e por isso, nesse ano, aprendi a amar, sobretudo, Javier Marías, José Luis Peixoto e John Berger. nunca se sabe ao certo se é assim mesmo. o que poderia ser feito e o que não se pode fazer porque é além da capacidade. decidir nada dizer sobre a prostração o medo a dor a tristeza a letargia a não ser também pela escrita --- para que não sejam lamúrias, para que sejam o que apenas são. se poderia ser de outro jeito, não sei, porque foi o modo que encontrei. de alguma maneira, poder conversar com o meu irmão - e com a morte do meu irmão - através dessas longas noites.

os livros nos impõem o enfrentamento do sofrimento e também da própria vida. não me surpreende que, por estes dias, eu esteja às voltas com Thomas Bernhard, um autor que meu amigo Alberto me ensinou a amar há muito tempo, mas que eu havia esquecido até que minha amiga Aline me lembrou que esse amor é uma das minhas estranhezas. ainda hoje penso no Alberto quando leio Bernhard. aquela elegância trágica está também nele. é difícil ler Bernhard e depois me religar com o entorno. há muita dor e muita mágoa espraiadas em cada linha. como levantar a cabeça e enfrentar o mundo? é difícil. nas páginas finais de Origem, Bernhard relata como a leitura de Os demônios, de Dostoiévski, deixou-o incapacitado por muito tempo para outras leituras, tamanho o impacto. é também assim que me sinto::: há escritores que estragaram para sempre meus gostos literários, porque me fazem buscar em cada um aquela mesma sensação em uma meia dúzia de escritores que me atormentam.

talvez seja por isso que eu compro livros de escritores que nunca li ---

--- mas eu li a quadrilogia de Elena Ferrante e digo, sem temor, que ela é uma grande narradora. foi por conta do meu desgosto com os brasileiros contemporâneos que desandei a ler, novamente, os estrangeiros. dessa vez, não mais os russos ou os franceses. sim, foi neste ano que perdi o pudor de dizer  o quanto o romance brasileiro contemporâneo que eu leio está tão pouco impregnado de invenção. ainda encontro algo de distinto em alguns escritores, mas não naqueles que havia aprendido a amar. Joca Reiners Terron ainda e continuamente me surpreende. e nenhum outro nome me vem à mente. parece-me que os outros estão sentados acomodados em suas vitrines mercadológicas --- e são os que ganham os prêmios. para meu espanto e meu desgosto.

porque há isso em toda biblioteca. os grandes amores. as paixões passageiras. os planos de estudo. as decepções. os livros que serão relidos mais de uma vez. os que jamais serão lidos. os que não deveriam ter sido comprados. os que deveriam mesmo que não sejam lidos. os que serão lidos ainda este ano. os que estão numa lista extensa de leitura. os que foram lidos há muito tempo e é como se tivessem sido ontem. os que foram lidos e não resta uma linha, mas que ficaram para sempre cravados em mim. os livros que aterrorizam porque foram lidos. os que atormentam porque não foram. 

e o inclassificável. o imponderável. o que não tem fim. o que é uma herança.
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existem os livros. 


** para Aline, que me pediu. com amor. para que eu não esqueça. e ela saiba.


sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Adriane Hernandez - o reencontro


Adriane foi embora num fim de dia chuvoso e triste = azul quase cinza. Eu triste pra cacete. As coisas acontecendo e eu já sentindo a sua falta. A chuva é fria em Paris. Eu, ela e Mari correndo na chuva sentimos isso. Sem abrigo por perto. Subimos na torre Eiffel horas antes de ela partir. Dri tem medo de altura. Suas pinturas são azuis. Seus objetos também. O pão é "amarelo queimado" como todo pão. E branco por dentro. Por duas vezes, vi-os pela tela: ela a me dizer. Prateleiras com mãos humanas entre pães = as mãos da sua mãe. Massa de pão parecendo nuvem carregada de água "mas tem peso". Telas (gigantes, ela me diz) de banheiros meio disformes = o azul se apossando dela como imperativo. E não deve ser difícil uma arte do azul? Picasso, na sua fase azul, é de uma tristeza de escorrer lágrima. O quadro do Soutine que mais me abisma é azul e "amarelo queimado" no centro. Le poulet plumé. O azul da Dri é delicado. Não me parece de dor, a não ser aqui e ali. É uma memória do azul = associações que nos leva a outros objetos, outros tempos. A toalha da mesa que não pode ser separada do pão = a vida nos pequenos gestos [comer pão na mesa preparada para o café da manhã]. Quando vivi isso mesmo? É aí que habita a dor da obra da Dri. Em quem olha. Vestígios do que não se tem ou se viveu ou se perdeu ou se guardou. Indícios, ela me diz. E tem o corpo, isto que sente. Dri embrulhada em papel de pão. O corpo amarelo, como todo corpo, dentro do papel de pão. A sensualidade do pão, o horizonte no pão, o pão onde não se imagina. Este inesperado da delicadeza das pequenas coisas é o que mais me encanta na Dri artista, amiga, pessoa, gente, mulher. Azul e branco sobre azul e branco nas mãos de luva. A mão amarela escondida pela luva azul e branco em cima da toalha de mesa azul e branco. Quadrados. Migalhas. Momentos tomando conta. Me vêm agora estes lampejos, estas frases sem sentido. Sou um azul de saudade num dia branco nesta cidade cinza.



eu não encontrava Adriane desde esse dia triste e chuvoso em Paris. nestes anos todos, guardei-a em mim --- uma Dri que eu amei em Paris. reencontrei-a no fim de semana passado em sua Porto Alegre. e constatei com alegria e emoção que havia guardado muito dela dentro de mim. eu, desmemoriada, guardei em mim suas frases inclassificáveis. seriam agridoces, se não fosse sua voz delicada a proferi-las. uma mistura de zombaria e cuidado que imprime um saber que gruda. foi assim que Dri me levou pela mão em muitos lugares de Paris. como artista, como estudiosa das Artes, como ser que sabe o valor do silêncio, Dri sempre me emocionou.

Dri é lenta. não é a minha lentidão, que, de fato, é uma incapacidade de ser prática. Sua lentidão é um modo de estar no mundo. e cuidar de seu tempo com o peso e a beleza que a vida pede. Dri gargalhou quando me viu. gargalhava e me olhava com seu olhar inteiro. gargalhamos juntas. nunca havia acontecido algo assim comigo::: gargalhar pelo encontro - abraçar abraçar e gargalhar gargalhar. nunca vou esquecer. mais um gesto que ela me imprime.

conversamos tanto tanto tanto. e agora, ainda acho que foi pouco. dormimos sempre depois das 3h da manhã. mesmo quando falamos de nossas dores, de nossos tantos impasses institucionais, me senti na presença da delicadeza. já no avião, de volta para casa, me deu vontade grande de chorar. e chorei --- me veio o pensamento de não ter me enganado durante todos esses anos. A Dri que eu havia conhecido não era apenas uma figura de meu imaginário. ela é o que eu havia imaginado todos esses anos. ir nos seus lugares em Porto Alegre, conhecer alguns de seus alunos bonitos, estar no ateliê que ela dá aula, ver a exposição da qual ela é a curadora, assistir ao espetáculo de Chico, seu namorado, e ter a certeza de que me apaixonaria também por ele, tal como sou apaixonada por ela; bebermos muitas cervejas artesanais juntas, irmos ao MARGS e ela soltar meia dúzia daquelas frases inclassificáveis; provocá-la para me mostrar seus livros favoritos na sua biblioteca (e ela aceitar o desafio e me dizer por muito tempo o que faz com cada texto que apresenta aos estudantes) --- tudo isso me deixou viva e feliz. 
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também vi a nova fase de seu trabalho --- isso de ver e ouvir::: Dri ali, me explicando cada traço. a ideia de camadas, do aleatório, da construção de uma linguagem - o azul o azul o azul. passarinhos. verde. uma cor de assalto. visão e invenção. --- todas as noites deviam ser tão belas como esta.

hoje, reli parte de Palomar, de Italo Calvino, um dos livros sobre o qual ela me falou apaixonadamente. e me senti de novo em sua presença. e de novo, fiquei feliz --- prometo que não passarão mais dez anos para nos reencontrarmos. qualquer dia volto com Poeminha pela mão. para que ele conheça a sua delicadeza. e seu olhar que pergunta. e responde.