segunda-feira, 15 de junho de 2015

a pata do elefante. ou por que escrevo



a escrita tem me dado muitas alegrias. a escrita me deu alegrias a vida toda. dentre outras razões, é por isso que eu abrigo um blog --- exercitando esse fazer por nada, sob o risco muitas vezes de me sentir meio ridícula de ser uma quarentona que escreve nesta terra-de-ninguém o que se assemelha a um diário --- me deixem acreditar, please, que ao menos tento algo como uma pegada escritural.

mas falo de outra alegria hoje. como esta - de receber na manhã de sábado a revista que tem um artigo meu e uma tradução. o fetiche da publicação. mas o certo é que eu não escrevo apenas em nome da produtividade acadêmica. e demorei muito a fazê-lo. precisei levar seguidas broncas da Mariamada até ter coragem de pôr o meu bloco na rua. escrevo como resultado de ter algo a dizer. de querer ter algo a dizer. e algo que vem das leituras que tento fazer a duras penas. sim, porque somente a duras penas um professor universitário hoje se dedica ao ofício da leitura, tamanha a histeria da "produtividade" em todas as áreas::: pesquisa, extensão, social, aulas, orientação, reuniões para tudo e para nada - e o professor emparedado na própria ignorância que vai se formando como uma crosta. é contra essa ignorância que luto bravamente quando resolvo passar uma manhã toda relendo Ulisses só para encontrar uma passagem que, depois, descubro se resumir a duas linhas!  ou quando passo noites inteiras acordadas à base de coca-cola e cerveja [nesta ordem, geralmente...] escrevendo, como fiz ontem::: agora que me cerco outra vez da vontade de escrever sobre alguém.

Tatupai sempre diz que quando estou escrevendo um texto é quando fico mais feliz --- a alegria da ruminação. é mesmo como me sinto. pois escrever para mim é um modo de pensar sobre o que eu ainda não havia pensado. a expressão "penso com os dedos" tem muito de verdade quando se refere a mim. escrever sobre um autor ou uma questão é também uma forma de garimpo. e gosto muito da fase do garimpo. acercar-me da questão ou do autor por diversas maneiras - muitas vezes de modo aleatório, deixando-me pronta para o acaso, a surpresa. pois vejam como pode ser bonito::: ter um corpo de escrita é buscar, essencialmente, um corpo de leitora.

e tem também a alegria da surpresa (um autógrafo de laura erber na manhã de sexta).  não conto. mas digo da emoção --- que foi tamanha. esquilos de pavlov, que foi o livro de 2014 que mais achei "pancada" na literatura brasileira contemporânea. às vezes, a vida tem coincidências tão bonitas!
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deve ser lindo ser escritor ---- de verdade.  ser um criador. sempre penso em Roland Barthes querendo escrever um romance, acercando-se dele, e o seu romance que não existiu ser a história desse cerco. eu não quero escrever um romance. mas é um não-querer que vem da certeza da incapacidade, da impossibilidade. mas eu quero ser uma pessoa que escreve crítica de um modo honesto, íntegro. e mesmo assim, eu me arrisco o tempo inteiro, porque sou uma pessoa de mil vontades que sempre quer escrever sobre o que gosto, mesmo quando mal sei nada sobre aquilo que gosto - como uma "fisgada" que mal conseguimos localizar. estou nesta agora. e estava quando quis porque quis escrever um texto sobre o marcos siscar. me dava uma emoção me imaginar sendo uma leitora que escreve sobre sua poesia --- o problema é que não sou uma leitora assídua de poesia. o problema é que amo marcos pra caralho e não queria escrever algo escroto ou idiota ou desonesto. daí, o risco. mas um risco que foi bonito correr. dias e dias debruçada sobre o que eu não sabia... e bem ----não sei da qualidade do texto [publicado - agora ele viaja para chegar até a mim], não cabe a mim dizer sobre ela, a qualidade. isso de ser apenas uma das leitoras de sua escrita. como em tudo, há aquele intervalo entre o querer e o poder. a ambição e o saber. mas arrisco a  dizer que o texto tem uma busca de integridade. que todo texto que escrevo tem essa busca. e pode parecer bobagem, mas penso que essa busca existe porque, reitero, escrevo porque gosto de escrever.
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este texto da Alea - gosto bastante, a quem interessar possa. escrevi toda séria. queria falar mal de modo elegante ---- como Derrida fazia. e em uma edição para Derrida. muita emoção. mas elegância é um dos meus impossíveis. quem me conhece, sabe::: eu sou a pata do elefante. mas que graça seria se a pata do elefante não quisesse ser o pouso do passarinho?


sexta-feira, 12 de junho de 2015

nós






somos bem bonitos quando estamos juntos.

com amor.

terça-feira, 9 de junho de 2015

dos tempos




temporariamente, moro sozinha outra vez. sozinha, vírgula. tem a Nina, como antes havia Lady e Janis. aquele tempo foi tão bonito que não é possível fazer comparação. não era apenas a juventude. era uma crença muito grande nas pessoas --- em mim e na longueza da vida. mesmo nas pessoas mais egocêntricas que gravitavam ao meu redor, eu sentia a lindeza. e me alimentava dela. havia muita confiança em mim. no que eu podia fazer com meu tempo. e no que eu fazia com esse tempo. meus amigos eram os amigos mais bonitos do mundo. e cuidavam da minha insônia como quem cuida de quem precisa de pão. meu pão parecia ser aquilo que eu sorvia daquelas pessoas todas, ficando eu mesma bonita.


depois, foi o depois. há alguns anos, eu disse aqui que estava irremediavelmente sozinha. mas aí encontrei o Tatupai. e fizemos juntos o Poeminha. e aí eu virei esposa outra vez e virei mãe. achei tudo tão poderoso. só não foi comercial de margarina, porque não dá para acreditar em sabor da margarina. mas era tão bonito que me deixou em paz por um par de anos. agora que o par de anos passou, tentamos eu e Tatupai saber onde estamos. o que é bonito são as tentativas. aquele apego ao que em nós precisa um do outro. -------------------

--------------- quase não sinto dor. mas há dias que alguma esperança lateja. e sinto uma certa dor. porque não sei sentir esperanças.

meu alimento preferido nunca foi a esperança. sempre foi a beleza dos dias. tantos anos depois da doença que quase me matou, vejo bem que não senti medo ---- não senti medo pela razão errada, mas não senti. e isso importa muito. hoje tenho mais medo do que antes. porque não soube fazer o que deveria ter feito como uma sobrevivente. naquele tempo, eu tinha a certeza de tudo ter feito para viver bem. sem ainda conhecer a palavra, havia muito empoderamento naquilo que eu era. eu sentia que podia morrer --- e estaria em paz. eu ainda era a pessoa de dez anos antes que havia cumprido a promessa de tudo fazer para ser feliz -- dali em diante. dez anos haviam passado rápidos. e haviam sido muito poderosos. Tatupai, numa das longas noites, me disse que se ressentia do modo como eu havia dito na época que poderia morrer - e não seria nada ---- o que para mim era uma paz enorme comigo mesma e com o mundo, ele sentiu como um certo alheamento à nossa história. quando para mim era o exato oposto. era justamente porque estava tudo no lugar::: era tudo muito bonito e muito intenso. não era nada disso de "estar no auge" ou coisa parecida, mas era um estar inteira. achava que era assim que se deveria morrer, sem ter muito sobre o que se lamentar. ser uma morte qualquer entre tantas mortes. como chicoanysio, eu não sentia medo de morrer. sentia pena::: Poeminha estaria em boas mãos por mais que me doesse deixá-lo. e para Tatupai, eu deixaria tudo que havia em mim e de mim até aquele instante, que não era muito, mas era tudo que eu tinha::::: meus livros, meus cds e minha grande ânsia de vida. achava na época que essa era uma grande herança --- que ele poderia estendê-la até muito longe e ser feliz e fazer feliz nosso filho. e que eu seria uma memória muito bonita. 

deixar para o outro a intensidade das minhas alegrias era o meu maior legado--- não poderia haver herança mais significativa.  e esse empoderamento vinha do meu "miolo mole". eu era um "miolo mole" ----. agora,  já não sei. a herança é quase a mesma. mas o quase lateja.  agora eu sofro de excesso de realidade. dá para acreditar nisto? pois acreditem.
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e antecipando as perguntas, digo que houve muita lindeza neste depois. mas foram muitos os baques. perdi um pouco do amor pelas pessoas. e isso me feriu de morte muitas vezes. tem dias, eu mesma passo a mão na minha cabeça, no gesto que faço com Poeminha quando ele se machuca: "foi falta de sorte, filho, já vai passar". mas é que às vezes não passa. às vezes, tudo é acúmulo. e eu fico sem saber se as pessoas já eram assim ou se eu que não o era. talvez seja isto: eu tinha o olho mais bonito --- mas este olho quem havia me dado eram os amigos. e agora, eu me perdi deles. muita boniteza que eu pensava existir, não existe. e aí sinto espantos. e me pergunto por que perdi a mão. por que deixei de ver vaga-lumes no escuro.  

a conclusão que eu posso tirar deste marasmo de texto - e que pode consolar - é só uma::: morrer agora seria uma bobagem --- porque eu iria me lamentar de uma porção de coisas. e ia ter medo. e caralho, pois o que me fez não ter medo de morrer foi justamente não ter do que se lamentar. preciso de um tempo a mais para acertar o olho. porque morrer com medo deve ser muito triste.

[este texto é para meu amigoamado marcio. e que não reste dúvida::: ele é um daqueles amigos que por ter um olho todo bonito enche meu olho de bonitezas infindas vezes].

domingo, 17 de maio de 2015

dos dias.

destes dias.







vim bem aqui em Itabuna. para um seminário. não não. não o seminário destas fotos. a cada vez que viajo para um novo lugar, levo comigo a esperança de que vou fotografar as miudezas, os instantes. imagino que vou encontrar o tempo a ocasião a imagem que me darão vontade de vencer a dificuldade da técnica. 

mas as ocasiões têm sido escassas. porque fotografar, para mim, tem a ver com aquilo que me toca. com aquilo que quero guardar. carreguei a câmara por três longos dias --- e apenas neste seminário, no qual fui no fim do primeiro dia do seminário de que participava, senti vontade de fotografar. senti ali uma força viva e poderosa. e o contraste entre um e outro seminário me deu um vazio incomensurável. passei da mais profunda indignação para uma letargia triste.

em outros tempos, com menos cuidado de si, eu teria pedido a voz e testemunhado meus assombros. teria demonstrado talvez indignação, talvez desespero. o mesmo desespero que vi em muitos rostos e muitos discursos. talvez ainda o faça --- em qualquer dia que essa letargia resolver dar uma trégua. mas o certo é que a chance do humano no interior da universidade é cada vez mais rara. quando ela parece apontar para isso é quando o humano mais é rechaçado. 

a universidade está corrompida pelos jogos de poderes, pela mesquinhez dos campos de disputas, pela alienação dos que ocupam o lugar das ordens e daqueles que batalham como vespas por estes lugares ou por, no mínimo, estarem próximos deles. 

a arrogância é a marca mais visível. mas não a arrogância alegre e criadora das vanguardas, embora essa palavra tenha sido ouvida a todo instante. talvez no mesmo gesto, por diversas vezes, lembrei que nenhuma ideia, nas artes, envelheceu tão rápido como a ideia de vanguarda. e justamente porque logo perdeu o viço, a alegria, a juventude. e hoje só sobreviva como tradição - vide octavio paz. 

ninguém lembrou de pensar que talvez o gesto pudesse ser o gesto da diferença. não o da inovação, da vanguarda, mas o da diferença. e não exatamente isto: apenas o desejo da diferença, o que permitiria a todo instante contrastar essa vontade com as limitações do real. talvez essa palavra não tenha sido sequer mencionada porque -- se bem pensada -- pudesse abrir o fosso, mostrando, assim, o abismo em que todos estamos metidos. escolher palavras mais ruidosas talvez ajude a esconder as ruínas da nossa própria miséria. 
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talvez, por isso, o fascínio por esta diferença das fotos --- 
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agora, aqui, no fim do terceiro dia, olhando esta dezena de fotos que tirei no hiato, pergunto-me qual a via possível. e daí me lembro de três nomes. três nomes que pincelei no decorrer do longo e triste seminário de três dias. os nomes-esperanças. resolvo, então, por ora, ficar com eles em busca de alguma filiação possível --- para que valha a pena o desgarramento do que já me era conhecido.


As fotos foram tiradas na abertura do 10º Seminário Nacional Religiões Afro-Brasileiras e Saúde: Cultura, Práticas de Cuidado e Políticas Públicas, que aconteceu na cidade de Ilhéus nestes dias. linda a abertura. as fotos mostram meu olhar de espectadora. tirei-as sentadas, enquanto via e ouvia.


quinta-feira, 30 de abril de 2015

Dos gostos - e do lugar certo (Para poeminha)



hoje, com muita saudade do Poeminha, que já está há quase um mês longe de mim::: que vim arrumar tudo por aqui, na nova morada, ouvi Marisa Monte e Barbatuques. e ouvindo, todo ele me veio --- inteiro. Poeminha aprendeu a amar Marisa Monte sem que eu soubesse exatamente como. de ouvido. sabe de cor todas as músicas do seu último DVD --- um dia, levou-o para a escola e - conta a professora - perguntou aos coleguinhas se a conheciam deste modo::: "vocês conhecem Marisa Monte? Ela é muito linda".

o primeiro disco que comprei na vida foi de Marisa Monte. e ela ficou para sempre, mesmo nos cds que gosto menos. quando fui ver o show dela em Paris errei o caminho que já havia percorrido várias vezes --- de tão nervosa. chorei durante todo o show. tão parca de memória - lembro de cada segundo. depois, saí na noite branca e percorri diversas ruas de bicicleta, entrei e saí de museus, galerias, pontes, ruas, levando-a em mim. quando vi seu show novamente, já era o frio de São Paulo. o coração doía, mas sabia fingir que ali podia estar o amor. não estava. mas foi tão bonito que é como se estivesse.

e mesmo assim, não sei exatamente onde começou o amor do Poeminha por Marisa Monte. ele ama um tanto de coisas --- cuido das referências na medida das minhas próprias referências e também das minhas concepções::: tudo junto e misturado: Poeminha é um pouco do que ele recolhe de mim, com seu grau de "sofisticação", e do que recolhe dos meios que estão a mão quando estamos ocupados demais para lhe dar a atenção devida: é assim que ele já amou a Galinha pintadinha e a Peppa. e também os Barbatuques e a Adriana Calcanhoto. 

vez ou outra, bate o receio de meu filho se sentir um estranho na escola. agora, ainda mais. algum colega pode decidir que você não é do "grupo" e aí o seu recreio pode ser um inferno. E Poeminha viveu recentemente o seu inferno --- e se saiu muito bem::: ao que parece. tudo porque sua mais nova paixão são as "my little ponys". e as ponys são cor de rosa. são de meninas. são. em suma, o universo do meu filho é feminino - o que a convenção diz ser o feminino. sua concentração e sua capacidade de invenção são de causar inveja a qualquer adulto. no tablet do Tatupai, ele assiste aos vídeos das ponys, baixa os tutoriais e realiza-os em seguida. customizar é sua palavra de ordem. com massinhas, com os cabelos cortados das ponys, com os retalhos que angariou na casa da tia Rô. e na próxima semana vai a um show de umas moças aí que se denominam ponys e me garantiu, com a voz firme e alegre, que não se sentirá mal se só tiver meninas. acreditei.

pois é assim que eu quero que ele seja::: destemido. deixei que Poeminha amasse as ponys e me esqueci da escola, das outras crianças --- esqueci do mundo cão. e meu filho pagou o preço. um certo coleguinha convenceu a todos os outros que os seus gostos eram "gostos de menina"; para ser um pária, bastou um monstro-mirim. porque os monstros-adultos educam muito bem para que seus filhos sejam também monstros-mirins, reproduzindo a mesma enxurrada de preconceitos que devem ouvir em casa. e aí, claro, meu filho sofreu. mas logo compreendeu com nossa ajuda que fazer escolhas, que ter gostos fora do rebanho, implica em ter que construir uma casca de proteção para si mesmo.

como mãe perdi pela primeira vez meus superpoderes. porque era um superpoder deixar que meu filho tivesse ponys cor de rosa e equestrias de longos cabelos ruivos. não estou a fim de levantar bandeiras. não tenho a mínima ideia se será isso que ele vai querer. mas gosto muito de virar as costas para todos esses lugares preestabelecidos. quero estar fora de todos eles. minha luta branda sempre adveio do desejo de não pertencer a esses grupos que classificam de forma impiedosa. só quero dizer uma coisa::: não vou rotular meu filho. o que digo agora é que suas referências demandam uma sensibilidade que não é do mundo-homem: seu maior abismo agora é entender por que todos os seus colegas gostam de futebol. e de tudo que tenho visto e sentido, todas as crianças reproduzindo os preconceitos dos adultos, eu só posso dizer uma coisa::: Poeminha nasceu na mãe certa. na família certa. porque, aqui, na nossa casa, no nosso amor, meu filho pode ser o que quiser, pode querer quantas bonecas seu olho brilhar.

talvez nada disso tenha a ver com orientação sexual --- mas se tiver, ele tem desde já seu paraíso particular. é aqui, junto de mim. se alguém vier com alguma gracinha eu vou dizer em alto e bom som que meu filho é um filho da mãe. não vou poder protegê-lo da lógica perversa do mundo, mas no meio da desproteção, ele saberá que estou aqui --- e que abomino com todas as minhas forças todo ódio às diferenças.

é o que tenho dito à família do Poeminha::: materna e paterna::: não me venha pedir para que eu não compre Peppas e Ponys. compro, sim. compro como compraria um carrinho, se assim ele desejasse. compro o que ele tiver vontade e não o que eu ou outro tiver vontade! gasto muito tempo na tentativa de equilíbrio entre proporcionar o que ele deseja e o que é excesso. e neste tempo, só estou convicta de uma coisa: só algo horrendo pode abalar o que hoje sinto pelo Poeminha. se ele desandar - e tornar-se ladrão, traficante, mau caráter, perverso, sei que o ser mãe vai me pesar. em suma, se ele virar gente que não respeita o outro. todo o resto ele poderá ser. se ele mantiver a sensibilidade, o cuidado com o outro, o respeito, a bondade, eu serei uma mãe por inteira feliz, como sou agora com a sua existência. quando Poeminha veio, eu já era uma senhora. eu estava pronta, se é que isso existe. mantive meus desejos e realizo-os na medida do possível. mas abandonei todo o supérfluo. abandonei as noitadas e virei uma mulher que via todos saírem - inclusive o companheiro - e me aninhava ao lado do Poemina, achando muito natural a não vontade. e consegui deixar sua bagunça espalhar-se pelos cômodos da casa --- logo eu, que só tenho paz se está tudo em ordem.  
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por que não é isso que importa???? importa é esta abertura para o ser mãe. para que o filho tenha a chance de ser uma gente feliz. faço todas as apostas nisso. neste "euteamo" contínuo e incondicional.

[[[e Poeminha, não vou mentir, se você virar um desumano, eu serei a primeira a meter o dedo na sua cara. suporto não. suporto não esta gente perversa, preconceituosa e infeliz que quer comandar o corpo do outro, o desejo do outro, a religião ou a sem-religião do outro. não me venha trazer para dentro da nossa casa esta lógica desumana. e filho, é melhor sofrer o deslocamento do que compactuar com esta gente que acha natural espancar, torturar, matar toda gente com as quais eles não querer parecer.

E não parecem mesmo, filho. Porque a cara do preconceito é horrenda, é terrível. e é a ela que devemos virar a cara. para que nossa face possa ser mais visível, mais humana, no sentido de um desejo de transformar o humano numa face mais visível de beleza.

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Vita nuova II







 
 




Mas arrumar as malas é sempre uma dor. Mesmo quando saio de férias, ou vou para uma viagem que quero muito, me vem um nó que se instala não apenas na garganta, mas no corpo todo. O corpo dói; as lágrimas descem, descem. Desta vez, não foi diferente. (Vita nuova) 

eu achei que não ia chorar. eu estava doida para ir embora. em 2015, tem me vindo tanta ânsia e me importa muito vivenciar tudo isso. mas o fato é que eu chorei. comecei a me despedir da turma que eu estava dando aula e desandei a chorar. depois, respirei e expliquei a razão do choro. não lembro de tudo que disse, mas disse algo que nunca vou esquecer, porque foi bem assim:::: "eu vim porque quis. e vou embora porque quero". achei poderoso. não não. não fiz nenhuma revolução. a mudança foi acanhada em vários sentidos. foi quase por acaso, na verdade. mas ainda assim, acho poderoso. não é todo dia.

colocar as malas nas costas - e que malas para tão poucas costas - não se faz todo dia. nunca escondi que vivia em Vilhena como se a cidade não existisse. acho que às vezes parecia ofensivo para as pessoas que adoram Vilhena, mas não era a minha intenção. quem prestou atenção, percebia que eu também dizia que vivia bem. em todo lugar, ou se aciona o paraíso particular ou a cidade importa muito pouco. sempre penso nas milhares de pessoas que vivem em São Paulo como se a cidade não existisse - tanta maravilha - espetáculos, shows, filmes, livrarias, restaurantes - e tantos no seu quadrado. mas às vezes é assim:::: e não há o que fazer.

Vilhena é uma cidade bonita, com ruas largas, para quem tem condições de morar no seu "miolo", como eu dizia. eu morava no miolo numa casa amarela que depois foi virando amarela-desbotada. as fachadas das casas são de encher os olhos. e meu amarelo ofuscava, mas eu bem que gostava. e as ruas são bem largas. eu estava quase familiarizada com elas --- com minha bike para lá e para cá. mas era só isso - para mim.

a linda da Aline me disse que em Vilhena só sente saudade de banca de jornais e revistas. para quem morou em lugares maravilhosos como ela, a afirmação me assombrou um bocado. fiquei envergonhada do meu pouco amor à cidade. mas compreendi. e achei que minha falta também era desta ordem, mas ainda mais larga. e pensando friamente, vou continuar sentindo falta nesta nova cidade que agora habito. pois acho que a minha falta tem a ver com algo ainda mais longínquo e imprevisível que eu não sei exatamente nominar.

eu fui para Vilhena com um tanto de desejos. logo de cara, perdi algumas partes de mim. e reencontrei-as muito rapidamente. uma amiga sabe contar esta história melhor do que eu - com muito humor. eu fico envergonhada quando ouço, mas  o tanto de verdade que há nela carrega o seu charme. eu também costumo dizer que eu tinha que ir para Vilhena para lá encontrar o Tatupai e fazer viver o Poeminha --- e isso já diz tudo::: já diz que Vilhena me deu tudo.

me deu um amor --- que anda com as entranhas estranhas, é verdade. porque o amor às vezes pesa. este ciclo interminável de muitas horas de riso e de lágrima. eu não sei para onde os Tatupais vão com este amor e também não me interessa dizer apenas das flores. tantas palavras inomináveis nos sobram. tem muitas saídas, creio eu. mas como sofro de dicotomia, me vem uma vontade de pensar que só há duas:::: se for de riso, haverá chance. se for de dor, melhor que não. e penso assim porque insisto em sustentar que quase não tenho medo. só tenho medo dos maus tratos do dia-a-dia. sabe::: isso que espezinha. estas palavras espraiadas que ferem como espinho no pé. não consigo pensar no porvir com espinho no pé. quero meus pés bem plantados --- para poderem planar.

e esse amor me deu um filho --- que saiu das minhas entranhas e que me encanta a cada dia, a cada hora, a cada minuto, a cada segundo. e ele nasceu em Vilhena. e não me causou nenhuma dor. e tem sido assim há cinco anos. só isso já faz de Vilhena uma cidade-maná. uma cidade para nunca esquecer. de lá, um filho. de lá, um Poeminha. meu meu meu. tem noites, quando estamos naquela de ler e de "beijar beijar beijar", me vem este dizer de posse e eu repito e repito::: "você é meu meu meu". é mentira, mas por ora é verdade e todo riso que vem daí e os beijos nas barrigas já valem uma vida (dia desses, o Poeminha disse: "se você ler duas histórias, eu dou dez beijos na sua barricotinha". e quem souber, que diga quantas história eu li.

quando Amanda me imitou na festa de despedida organizada pela Rô, ela repetiu uma frase que eu disse --- e o tom era de ironia e de graça::: algo como::: "desejar é perigoso. mas é tudo. tem sonhos que nos levam a Paris; outros nos levam a Vilhena". era o fim da história que eu sempre conto::: que desejei ir a Paris para andar nos corredores do Collège de France, onde Barthes deu aula. A história inconclusa era que eu fui para Vilhena porque eu queria ser professora universitária. Tudo, então, é desejo. são vontades inconclusas. são histórias.

não guardo nenhuma mágoa. vim embora com o peito aberto. sofri um bocado. e me diverti um bocado. e fiz um outro bocado. foram anos intensos. e é disso que me lembrarei. não falarei mal nem de Vilhena nem das pessoas de lá nem de mim mesma quando lá estive. já disse: encontrei um amor, tive um filho, quase morri de doença, encontrei uma grande amiga, fiz coisas maravilhosas na universidade. trabalhei trabalhei trabalhei. e deste trabalho, tão difícil na lida do dia-a-dia, extraí do pior o melhor de mim. lutei bravamente contra a corrupção dos dias, contra a mesquinhez das relações e com isso aprendi um bocado sobre mim e sobre os outros. não desejei mal a quase ninguém e sei que não fiz mal a ninguém. jamais, nenhum gesto que pudesse soar como vingança, mesquinharia, estupidez. uma nordestina "cangaceira", mas que não puxou o tapete de ninguém --- nem no posto de chefe - que ocupei por dois anos::: neste posto, aprendi a alegria do acolhimento e da indiferença. acolhi os que achei que valiam a pena e fui indiferente a todas as estocadas --- e este foi apenas o veneno que espalhei. uma serenidade no meio de tanta palavra maldita. - "as roupas e as armas de Jorge". e acho que consegui porque me impus uma certa disciplina. a disciplina de saber que nem toda gente está de acordo comigo. há o desacordo, a diferença, o estranhamento. e há de se levar em conta isso.  tem pessoas que se orgulham das trapaças que conseguem realizar --- e eu me orgulho de manter o rosto sempre limpo, de dizer as piores coisas olho no olho, sem simulação, sem disse-me-disse. é ridículo, eu sei, no mundo de hoje. mas me dá uma felicidade perversa ter coragem de dizer num mundo em que tão poucos têm coragem do dizer. dizer o dito. e não realizar nada que possa me envergonhar - ou envergonhar meu filho, se um dia ele souber. e é tudo. e assim encontrei a paz antes de partir. e a paz, quando estava lá. e a lição de todos os tempos que carrego sempre comigo:::: o tempo o tempo o tempo. agora, repito: me livrei de tudo - do bom e do ruim - por decreto. uma portaria::: e já mais nada era meu. despossuída, desapropriada, livre. que bonito que bonito é o tempo. e a desimportância dos postos, das coisas, dos dias, enfim. e agora, de novo, a chance de guardar em mim apenas o bonito que foi: a amiga, os amigos, o silic, o gepec, as segundas-feiras do gepec, o filho, as ruas retas na bicicletas, as longas noites de festas na varanda de casa, os lindos lindos (Anderson, Gabriel, Dinalva, Dariete, Carlinha, Mislene, Andrielly) e ainda outros lindos lindos ---- todos aqui, no meu coração, que me disseram de algum modo (prof.ª Araci, como esquecer sua sabedoria? Marisa, sua reviravolta?, Dariano, seu olhar direto e franco? Emerson, sua entrega? Bibi, seu imenso amor pelo Poeminha? Inildo, seu abraço cheiroso e sua sabedoria? Sandra e sua tranquilidade discreta? Aline, sua delicadeza e inteligência assombrosas? Lilianaluna, sua vontade ferrenha? Paula, e seu lindo desejo de viver na alegria? Nilza, sua empolgação? Kotz, por que partiu? Lobão, sempre sua lindeza? E seu pai, como esquecer? E sua mãe, naquela manhã desprevenida em que soubemos toda a dor uma da outra sem nada dizer?  foram poucos. mas foram tantos. e mais, ainda mais, ainda todos que tocaram meu coração de algum modo).

talvez daí o choro. quase sete anos não é pouca coisa. então, ficamos assim. fui. e de lá, tanta coisa bonita. não posso nomear. ontem mesmo tive um sonho --- passei o dia com este sonho, como um acalanto a abrandar a aspereza dos primeiros dias em terra dos outros. e foi de lá. se a vida não fosse do jeito que é, talvez eu pudesse ter feito com que o sonho fosse real. e como teria sido corajoso, imprudente, desafiador. mas ele fica bonito como sonho. e já basta.

e agora, neste entremeio, dentre tantas das minhas frases feitas, dia desses tasquei mais uma: "todo mundo leva seus dentes para onde vai". então, eu vim. e trouxe apenas algumas esperanças. os dentes estão aqui comigo. e se eu quiser que seja diferente, terei que arrancar alguns deles.
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(Vanessa, desculpe. os dias estão tão cheios que não consegui fazer uma postagem bonita sobre a despedida de Vilhena. Mas saiba que dentre as tantas gentes bonitas você foi uma delas. Tão linda! Jovem-casada-religiosa. Uma junção de uma série de predicativos que considero temerosos, mas quanta dignidade há nestes predicativos em você. Um dia flagrei um sorriso cúmplice entre você e Fábio -- e segui com esse sorriso o dia todo como um presente, uma dádiva.  Porque vi tanta beleza! Como não admirar? Obrigada pela presença sempre tão luminosa!)

(Fotos: na cidade que não existia, o paraíso particular::: fotografei a casa várias vezes - para testar a luz na câmera nova, para guardar, mas sobretudo porque eu queria um dia ter fotos com qualidade suficiente para enviar a Mariflor, que tem um blog super lindo sobre casas. Como não consegui fotos com qualidade, protelo indefinidamente este desejo, mas deixo aqui o registro desta casa que construí em Vilhena e que agora está toda encaixotada neste apartamento no Sul da Bahia).
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domingo, 15 de março de 2015

Para o Poeminha - sobre o perdão.


 

 
Poeminha, eu achava que sabia muito do perdão. Pensava que já havia me confrontado com situações, uma e outra e outra vez, em que havia sido preciso perdoar o imperdoável. Mas a cada dia que convivo com você percebo que isto, de retirar com a mão cerrada para depois abri-la o que tantas vezes nos aniquila, é um exercício de todo dia. E tantas vezes é você que me ensina isso.  Pois o que se espera de uma mãe é de uma enormidade sem tamanho. E a equação não bate, filho, porque essa espera vem do seu merecimento. Você merece a melhor mãe do mundo. Mas acho que a melhor mãe do mundo não existe, filho. Porque não somos apenas mães.

Quantas vezes fico pensando que você merece mais do meu tempo e que nem todo abraço dado agora será  suficiente:::: dizem que uma hora você não vai querer mais o meu abraço, que vai ficar avaro com a explicitação do amor – e fico me antevendo órfã e desamparada, pensando no quanto deveria ter dado mais e mais e mais abraços, ter ficado mais e mais tempo com você:::: --- na semana passada, fiquei com aquela nave espacial na mão e todas as lágrimas prestes a rolar e você percebeu e ficou nervoso e preocupado e foi logo dizendo que depois papai montaria ---. eu deveria era aprender a desenhar e a montar esses cubos que vêm na sua revista. Coitada da sua mãe que não sabe manusear as mãos, e tirar delas cubos, bonecos, bichos, sonhos. e sem saber moldar a massa, vivo à turras com essas massinhas coloridas que são o meu terror e a sua alegria. Deve ser por isto, por esta sensação de falta, que sempre as compro, e logo depois juro de pé junto que nunca mais vou comprá-las, para depois esquecer os pés-juntos e comprar novamente, mesmo sabendo que vou ficar toda atrapalhada com elas grudando em tudo que é canto. ----- e se eu fosse tio Vandes, heim, filho? Que sorte, que sorte seria a sua...

E hoje deu vontade de sentar aqui, filho, enquanto você está na sala com suas massinhas, porque me deu uma ternura imensa o tempinho que fiquei ali com você, limpando o terreno para que você possa espalhar seus sonhos. E será, filho, que esse aprendizado do perdão que vem de você vai perdurar? porque, talvez, estar sempre em falta seja o prato de cada dia de todas as mães. E que isso é tão próprio do humano, filho. Porque não somos apenas mães, repito. Quanta dor eu teria poupado do meu pobre músculo atrofiado se eu tivesse descoberto isso antes, filho, se você tivesse vindo antes para me ensinar que nesta relação de mãe e filho é esse abismo incomensurável. E se, de algum modo, em algum momento, eu e minha mãe, comigo ainda menina, tivéssemos tido a chance, a sorte, a ocasião, o tempo, o momento. Acho que é o que eu procuro cavar quando lhe peço desculpas. A ocasião. Não deixar passar o não-dito. Ou o dito que fere quando sai intempestivamente. Me vem, logo a seguir, o desejo de ferir de morte esse mesmo dito, de apagar o grito, o gesto de impaciência, de cansaço. Quando eu digo que, "sim, mamãe, às vezes, é bem idiota" é que quero passar a borracha. Para aprender um pouco mais sobre o perdão, naquele exato instante em que você abre o sorrisão e pergunta o que é ser idiota. E eu tendo dizer, de forma capenga, sobre esse mundo das alturas que uma hora você vai alcançar. tento lhe dizer como é difícil ser gente grande, como é difícil isso da responsabilidade, dos afazeres de todos os dias, das mil tarefas que comem nossos dias – e do quanto é uma batalha não deixar que eles comam também nossos sentimentos, nossa delicadeza, nossa pele exposta às intempéries.

E só mais isso, Poeminha.

Esqueça não esse seu gesto de estirar a mão,  esse mesmo gesto que você fez ontem quando eu lhe pedi desculpas por ter gritado e você disse logo depois com um sorriso largo: “então, agora venha aqui para eu dar um beijo nesta barricotinha”, esta barricotinha que é minha barriga que você beija tantas vezes. Quando acontecer o inominável e de algum modo você for invadido no seu templo, lembre que é libertador, revolucionário, acolher o outro na sua indefesa do pedido de desculpa. A primeira vez, filho, que - de uma forma séria, grave, sem retorno - eu senti que realmente precisava decidir qual gesto seria o meu eu o fiz não pela pessoa a quem, por fim, eu decidi estirar a mão. Não o fiz por essa pessoa, filho. Fiz porque eram dele duas pessoas muito amadas. E eu perderia essas duas pessoas, se assim eu virasse as costas. E o que aprendi é que esse gesto originário traz muitos outros, porque é a chance de trazer de novo o outro para junto de si. E é bonito demais apreender o que vem depois quando não sucumbimos à mágoa ou, melhor, quando a solapamos de tal forma que é ela a ficar indefesa, estrebuchando diante das edificações que se levantam como que por milagre só porque a decisão foi levantar paredes depois da invasão:::: e levantar para colocar todos ali dentro. Eu mesma, o invasor, os outros, o que já não se é mais quando se descobre que é de todo dia essa aventura de estar no mundo e não estar só; de estar no mundo e viver essa difícil e extraordinária aventura de viver junto. De estar-com. E não apenas estar.  Estar-com.
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terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

para o filho de óculos




O contorno das pessoas e das coisas perdia a nitidez, tudo se tornava desfocado, até os sons pareciam mais abafados. O mundo, quando eu o via sem óculos, perdia a aspereza. Ficava tão suave e macio quanto um travesseiro fofo no qual encostava o rosto e terminava por adormecer.
- Está sonhando com o quê, Filomena? – papai me perguntava. – Você deveria pôr os óculos.
Eu obedecia e tudo retomava a rigidez e a precisão costumeiras. De óculos, eu via o mundo tal como ele era. Não podia mais sonhar.
(MODIANO, Patrick. Filomena Firmeza)



Poeminha, encontramos nos seus livros as palavras que eu não saberia lhe dizer. Pois tenho que confessar:::: doeu bem aqui no ponto mais sensível do coração quando seu pai me telefonou e me anunciou que você precisaria usar óculos. Filho, filho, impossível não ter ido muito, muito longe. Tão longe quanto é aquele lugar onde uma menina de seis anos pôs os óculos pela primeira vez e sentiu realmente que o mundo existia. Ao contrário de Filomena, toda a minha poesia de infância está na descoberta de um mundo nítido. Lembro com muita certeza das nuvens. Saber de sua existência, aos seis anos de idade, ao pôr os óculos, Poeminha, mudou a minha vida. Porque aos seis anos, talvez, eu já fosse uma leitora. E naquela época, me parece hoje, era tudo que eu tinha de meu. 


Faz 34 anos que uso óculos, Poeminha. E você, quatro dias.  Tenho longas histórias tristes, filho. E o medo de vê-las repetidas em você me fez logo pensar numa necessidade que eu não havia pensado para mim: seria comprar dois óculos – e os mais bonitos que achamos. E que plural, filho. Desde o início eu e o Tatupai confiamos a você  a escolha. E você vai lá, filho, e escolhe os óculos mais fodas que eu havia achado.  E sabe, Poeminha, eu escolhi passar a vida atrás dos óculos. Quando pude escolher, já não sabia como fazer. Quase nunca usei as chamadas lentes de contato. Comprei uma atrás da outra, quando pude, e uma atrás da outra, vi-as apodrecerem sem uso. E nunca cogitei fazer nenhuma operação corretiva. e acho, filho, que é por que nunca tive coragem de retirar esta prótese que me mostrou as nuvens. 


Esta sua mãe, que tem uma vaidade toda particular, usa um óculos de cada vez. E até que ele descasque, risque, borre. Tão dada a coleções, jamais colecionei óculos. A cada vez, cada um, trato-o sem cuidado, mas com toda reverência. Uma vez, Poeminha, num tempo muito distante, não sei como, uma das pernas de meus óculos quebrou. E foram vários dias a ver o mundo embaçado. Até que eu tive a ideia de ir lá, no fundo da gaveta, e ficar só um pouco com aqueles óculos de uma perna só. Só um pouco sentir a nitidez do mundo. Não sei qual foi o movimento, mas os óculos caíram na beira da calçada daquela casa cor-de-rosa e uma das lentes quebrou. Como sofri, Poeminha! Como dizer àquelas pessoas que os óculos, agora, sim, eram uma prótese inútil. Tive medo de ser repreendida. Chorei. Senti como um grande castigo – precisar de óculos – e eles terem me traído por duas vezes. E agora? Como iria dizer que eu era a culpada de eles terem quebrado – e por duas vezes?  Não lembro o que aconteceu depois. Ficou apenas este saber de não saber viver sem óculos. 


E lembrando agora, desta história triste, não vou lhe dizer que você pode quebrar quantos óculos quiser. Vou lhe dizer que, sim, é bom que existam óculos. Que como nós eles são tão frágeis. E que, embora não sejam gente, são um pedaço de nós. Mas você pode escolher deixá-los de lado. Fazer outras escolhas que não as minhas. E que, sim, Poeminha, quando um acidente ocorrer, não hesite em me dizer::: eu faço o que for preciso, mas jamais lhe deixarei um dia a mais sem a possibilidade da nitidez. Para que como Filomena você possa escolher ficar sem ela – a nitidez – a hora que quiser.


Posso lhe garantir:::: é bom. Não tiro os óculos para dançar, como Filomena, mas tiro-os em tão poucos momentos::: para dormir, tomar banho e fazer amor. Nos três, quanto mais os olhos se fecham involuntariamente, mais bonito é. Acredite. 

E acredite ainda mais:::: você ficou lindo de óculos.
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domingo, 8 de fevereiro de 2015

Nina



Nina nos escolheu. e isso virou uma grande responsa. e uma alegria. não sou adepta de tratar os animais com mais atenção do que se trata as gentes. sou desatenciosa tanto com um quanto com outro. mas sou louca pela Nina. como já fui louca pelos meus outros gatos, Joplin, Janis e Lady, que viveram comigo há muito tempo, quando eu era outra. Nina veio. não demos a menor atenção. e mesmo assim ela não foi embora. então, demos atenção e nunca mais paramos de dar, a ponto de Poeminha dizer: "nossa família somos eu, mamãe, papai e a Nina". acho justo. acho de bom tamanho, embora nos dias ternos eu fique imaginando que seria bonito outra pessoinha desarrumando a casa junto com Poeminha.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

aqui um pouco mais.


passei o mês de janeiro sem fazer nada - nada da lei da utilidade, da responsabilidade. parte do mês fui visitar meu amigo Binho - e mostrar um pouco da Sampa que eu amo para o Poeminha. foi bonito. bem bonito. passeamos de mãos dadas todo o tempo. ora de metrô, ora de táxi, ora a pé, fui lhe dizendo por que amava Sampa. fomos a um tanto de lugares - eu e ele. zoológico hopi hari exposição do salvador dali do ron mueck castelo rá-tim-bum livraria cultura teatro showzinho comprinhas. às vezes, encontramos alguns amigos (ele e Maria Teresa - tão bonitos, ele apaixonado pela Lu, irmã de Carlinha; e nós, meio-dia em ponto, a conversar com aquela senhora tão maravilhosa naquela longa fila, e naquela outra a esperar o Emerson, nós a visitar a Lan,  e o tio e os primos.....). às vezes, foi tenso. em casa a liberdade é sempre tão maior. é sempre uma tensão o confronto do olhar do outro ante uma criança. é tanta adulteza no mundo que, às vezes, eu emboto todo o meu olhar. mas o bonito que foi não há como retirar. estar ali com Binho e poder conversar com Carla e poder ouvir a Lu e poder sentir os silêncios de Clara, foi bonito.  aprendi um tanto de mim e aprendi um tanto deles - e isso é tudo.

mas quando voltei, ainda estava com o mesmo olho embotado do fim do ano passado. como este rato no jogo de xadrez. precisava parar. precisava de algum hiato que pudesse me salvar de mim mesma. e dos outros. vi que não podia começar a pôr em dia todo o trabalho já acumulado. sempre esta crise. sempre este não saber o que faço com a universidade.  minha amiga Mariamada já me viu tantas vezes neste mesmo lugar - nesta vontade de parar, de saber viver outra vida. e sabe que eu sempre retorno. gosto, faço, me empolgo. mas tem horas que fico "inchada", como uma adulta que não se conforma de ter perdido a criança que nunca foi: evento pra organizar, aulas para ministrar, trabalhos de orientandos para ler, artigos pra escrever e mais uma infinidade de pequenas coisas... tudo isso me parece tão-sem-sentido às vezes. e eu me sinto tão pequena. fico sem saber onde começa minha vida pessoal e termina a profissional. tem horas que vira tudo trabalho - por mais bonito que seja. daí, eu acato estas pequenas crises. e com elas respiro. vou bem ali ------ meus hiatos. acho que morreria se eles não existissem. ou, tirando o excesso do drama, não me acharia mais. nem por excesso, como na mamografia que fiz nestes dias. este apertar os peitos, senti-los contra a laje fria da máquina. e sair de lá, dissecada, radiografada. e ainda sem mim.

em dezembro, eu estava assim, com uma cartela de tarefas. não via como parar. e aí chorei no ônibus vindo de Porto. E aí chorei outro tanto de vezes. e aí comecei a ser dada a solidões. ou passava os dias tentando "colocar em dia" os trabalhos. ou estancava aquelas lágrimas todas ---- que vinham de um tanto de lugares. estancar. cortar a pulso. escolhi a segunda opção. e li dez romances desde então. ora na rede - a que balança, ora recostada na cama - a que tem a melhor luz. e verti lágrimas por outras dores além das minhas. deixei passar por mim histórias outras - tão mais grandiosas, tão mais sublimes que a minha. e me deixei carregar. deixei deixei deixei ---- assim, toda a luz, mesmo que não vissem, que eu não visse, que não dessem importância, que eu mesma não desse importância. deixei deixei e senti um tanto de sentidos.

e agora, espero estar pronta para voltar. voltar com mais solidez. voltar com mais atenção ao que há no resto do tempo que é preciso criar. agora, é a prova dos noves. agora, é um ano que está no início. agora, é uma vontade feita de erros, de desconcertos, de precariedades. 
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e lá, comprei uma nova máquina fotográfica. cumpri a promessa de só comprar outra depois de pagar a que me foi roubada em Paris. e desta vez, investi ainda mais alto ---- como uma senha para investir ainda mais naquilo que me retira de todo este turbilhão da produtividade, embora, às vezes, seja tão bonito. como este momento:::: no meio da tarde, últimas páginas de O manual dos inquisidores, vejo o email e está lá a equipe da revista anunciando que saiu o número da revista com nosso artigo --- e eu lembro de como ele foi escrito, de que forma eu e Lili pensamos sobre literatura brasileira contemporânea, de como vamos construindo este diálogo::: ela, com um forte poder conceitual, com uma memória poderosa; eu, não sei. mas diálogo, sim. e tive que, dessa vez, dormitar um pouco mais. dormitar um pouco mais entre a alegria e a alegria. 
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sábado, 24 de janeiro de 2015

Luz em agosto, luz em janeiro

não deveria nunca existir um livro como Luz em agosto, de Faulkner. somente deveriam existir livros como Luz em agosto, de Faulkner. nos poupariam um bocado de leituras inúteis. leituras sem paixão. leituras protocolares. desmesurada como sou, uma tarde tive que abandonar Luz em agosto. não adiantou chorar bem alto. precisei sentir no corpo aquilo que me vinha como um passado imemorial. e uma vez que a vida é comezinha, fui lavar a área da casa. esfregando ali toda a dor ressurgida por meio daquelas linhas. daquele silêncio ávido de palavras. quando todas estão ali --- dentro da cabeça. em outras tardes, bastou ficar em silêncio sentindo toda a vida passar ali ---- como o que não tem volta. 

desde que li Enquanto agonizo, Faulkner é um dos meus escritores essenciais. foi com ele que aprendi que aquilo que eu penso nunca é o que o outro pensa que eu estou pensando; e o que o outro pensa nunca é o que eu penso que ele está pensando. parece complicado, mas é simples de entender depois de ler Faulkner:::: o fato - ou o acontecimento - está ali. tudo leva a crer que os envolvidos pensarão e agirão de determinado modo diante do fato - ou do acontecimento. e aí Faulkner dá voz as suas personagens::: e nada, nada, nada é como imaginamos. é tudo confusão. é tudo engano. é tudo embaraço. é tudo a partir de um "eu" insensato inseguro impensável. como é difícil. como é difícil. e como é simples se imaginarmos a justa distância de cada um, a diferença fundante. 

não são as diversas histórias que me atordoam. não é o fato de elas "estacionarem" em determinado ponto para retornarem muito tempo depois::: o que me atordoa é a matéria humana de que são feitas. Joe Christmas, a personagem mais impactante do romance, pode até nos ensinar toda a tragicidade do que é estar no mundo numa pele que não é a sua::: um negro na pele de um branco, em Jefferson, no condado de Yokanapatawpha, este lugar fictício criado pelo escritor para expor todas as mazelas dos Estados Unidos. Nesse lugar, Christmas será perseguido, condenado e morto. E não haverá compaixão. Ele também não sabe o que é isso. Carregando a sua história como um fardo, é todo revolta, é todo confusão; nada nele é da ordem da identificação. o bem, o mal e o duvidoso misturam-se de uma maneira terrível e irreversível, em que todos desejam algo que não estão neles. 

Christmas nos ensina, mas tantos outros dobram a nossa coluna::: Byron Bunch, por exemplo::::: que foge do mundo, das quais as tardes de sábado em que continua a trabalhar, enquanto os outros vão embora, são a prova inelutável. até que Lena Grove aparece. logo ela, límpida, tranquila, determinada, na sua longa travessia do Alabama ao Mississipi, à procura de Lucas Burch, de quem carrega um filho. Lena é mais uma das personagens que serve para alicerçar o mundo terrível de Faulkner, no qual todos, sem exceção, sofrem com a impossibilidade do encontro. onde não há paz nem descanso. nesse sentido, a história de Gail Hightower, ex-ministro da igreja, expulso pela igreja, expulso de sua comunidade, mas que se recusou a ir, e passa a vida isolado, sozinho em sua casa, como mais um dos párias desse longo e triste romance, prova o  quanto Faulkner escrevia para pôr em xeque a comunidade. para representá-la como o lócus de todo tipo de segregação - religiosa, racial, de gênero. Christmas, Lena, Byron, Lucas/Joe, Gail, Joanna Burden - e ainda uns tantos outros - estão à mercê de si mesmos. e dos outros. não importa que uma hora ou outra suas histórias se encontrem - e elas se encontram. nenhum pode ajudar um ao outro. nenhum pode ser ajudado. talvez Lena e Byron - mas o "momento final", narrado em off por um homem "de passagem", que lhes dá carona como prova de que a travessia continua, não diz exatamente isso, não abre, de fato, nenhum vão de esperança. e é por isso que são personagens inesquecíveis, que é um romance que só pode trazer um tipo de felicidade: o da leitura. todo o resto é desalento. 

e é por isso que não posso fazer nenhuma crítica. nenhuma análise. só posso agradecer por ter me dado o tempo de ler este livro em janeiro de 2015, depois de ter ido lá, fazer o que achei que deveria fazer, o que eu queria fazer. assim. simples assim. por isso, não é uma resenha de Luz em agosto. deve haver várias nesta rede. este texto é apenas para dizer que morri um pouco ao ler Luz em agosto. e que vivi um pouco mais - como deve ser a vida - ao ler Luz em agosto.  e isso só pode ser o prenúncio de um bom ano que se inicia. assim desejo.
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quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

oui, je suis charlie!



Eu sou Charlie, sim! Entendo em parte a comoção inicial das pessoas e também a desorientação posterior quando tomaram conhecimento do que era o Charlie Hebdo. No Brasil, a surpresa deve ser ainda mais geral, já que se existe um jornal semanal totalmente  dedicado ao humor desconheço completamente. E dá-lhe a turma do politicamente correto querendo se retratar por "ser Charlie". Afinal, Charlie era, em letras garrafais, ou melhor, em charges monumentais, escancaradamente politicamente incorreto. 

Adianto logo que olho para o discurso do humor com grande desconfiança. Nunca tive leveza suficiente para encarar certos discursos de humor. Por um acaso que só as férias podem proporcionar, nestes dias, assisti ao filme "Minha mãe é uma peça", passado na rede Globo. Disseram-me que é um filme de humor de bastante sucesso. E eu achei um horror. Para mim, uma forma caricata, rasa  e agressiva de "ler" as diferenças entre mães e filhos. Não achei nada engraçado, enquanto ouvia risadas ao meu redor. Mesmo o Porta dos fundos, que prometia ser a grande redenção do humor nacional, só me divertiu uma noite. Depois, comecei a achar tudo plastificado demais e abandonei de vez. Eu sou leitora - e assinante por achar que, assim, contribuo para a sua sobrevivência - das revistas Cult e Piauí, que têm tão poucas sessões de humor que é facilmente possível "pular" sem esforço algum e reportagens e dossiês longos e por vezes maçantes que constantemente me vejo perguntando quem como eu ainda os lê. Então, evidentemente, não tenho nenhuma afinidade com o humor do Charlie Hebdo

Entretanto, depois dos dias, tendo lido textos coerentes e emocionados, prós e contras, ao Charlie, continuo convicta de que, para mim, não há outra forma possível a não ser assinar embaixo no "Je suis Charlie". Desde o "11 de setembro" norte-americano, o uso da palavra "terror" serviu para um sem-fim de aberrações. E por conta disso, discordo totalmente do uso ideológico dessa palavra. Então, "ser Charlie", para mim, também não tem nada a ver com compactuar com o uso político indevido do atentado, que incita a "islamofobia". "Ser Charlie" é, para mim, ser contra a um tipo de violência superior a qualquer outra - aquela que tira a vida de sujeitos.

E sim, é ser contra um certo discurso religioso.   

Há cerca de quinze anos, decidi não seguir mais nenhuma religião. Nos anos anteriores a essa decisão, tentei participar ativamente de comunidades religiosas e, na verdade, foi nelas que perdi a crença. Na minha experiência, os líderes dessas comunidades abusavam enormemente de sua posição, tentando insuflar opiniões que, para mim, sempre foram verdadeiras aberrações da cultura do humano. O discurso separatista que eu pressentia ainda na minha adolescência está em todas as religiões e, parece-me, nos últimos anos, apenas se exacerba. E de modo geral, é um discurso que segrega, que confina todos em um mesmo lugar. O velho ditado "Diga-me com quem andas que te direi quem és" é, a meu ver, uma mal disfarçada forma de projeto de convívio tão somente entre os iguais,  abominando toda e qualquer diferença. 

Se a fé não tem absolutamente nada a ver com os atentados que acabaram de ocorrer, e não param de ocorrer todos os dias, em escalas menores, mas não menos virulentas, para mim, é inegável que os discursos religiosos carregados de ódio possuem um cota grande de responsabilidade por esses atentados contra a vida. Não todo discurso religioso, leiam bem. E sim os discursos religiosos carregados de ódio contra as diferenças. Não precisamos pensar no islamismo para aceitarmos como fato a proliferação desses discursos. Somos seres constituídos em sociedade. Parte do que somos é resultado da interação nas comunidades, dentre elas as comunidades religiosas, que têm um papel fundamental no modo como vivenciamos e refletimos sobre as experiências. Em síntese: o sujeito se constitui pelo discurso no interior das comunidades. E o que se ouve, e como se vai elaborar isso, é a diferença entre a fé e o fanatismo, num limite sempre indefinido, perigosamente indefinido, indecidível. E como não ser? Como participar de uma comunidade que tenta a todo custo nos provar que ela é "a comunidade eleita" sem pensar que as outras pessoas devem ser doutrinadas segundo nossos preceitos? Foi por não ter resposta para questões como estas que eu me afastei das comunidades religiosas, mas quero crer que não de um certo pensamento, ou certa reflexão, sobre um ser - para além de nós..

E não foram poucas as vezes que, de diferentes formas, me senti intimidada ao dizer que não tenho religião. Na maioria das vezes, as pessoas me olham como se eu fosse uma degenerada e vivesse em um antro de perdição. Que me atire a primeira pedra quem não me olhou com desconfiança - do amigo mais leal ao mais distante conhecido. Já passei por situações que pressenti que, se pudesse, a pessoa entregaria Poeminha ao conselho tutelar devido ao fato de não oferecermos a ele uma educação relacionada a uma religião específica. E se não oferecemos, é por que estou convicta de que o que ele precisa aprender é uma relação de respeito e cuidado com o outro - o outro como ele, em suas diferenças fundantes. Na escola, a professora, certa vez, disse que ele não podia brigar com os "coleguinhas", porque "papai do céu" iria castigá-lo. Fiquei pasma.  E tudo que pude fazer no papel de mãe, foi tentar desmistificar essa ideia, reafirmando que ele não podia bater, brigar, xingar uma pessoa, um colega, um amigo, por causa daquela pessoa - porque as pessoas merecem respeito e cuidado. Pedi para ele se colocar naquele lugar de quem foi xingado. Sim, sentir a pele do outro a partir da própria pele. Saber que dói, saber que há consequências que dizem respeito ao encontro com o outro, ao convívio com o outro - que é sempre um assombro de diferença. Evidentemente, faltava no discurso do Charlie essa fricção de pele em que se é atingido brutalmente pelo que o outro diz, faz e sente e, ao invés de querer reagir em contrariedade, saber simplesmente deixar esmaecer as diferenças em nome do respeito mútuo que a vivência em sociedade exige ou deveria exigir, mas aí isso ser razão para justificar o ataque, convenhamos, há uma diferença fundante e essencial. Para mim, é como admitir que o estupro existe porque as mulheres provocam. Porque, sim, todos foram mortos devido ao que escreviam e quem os matou deixou bem claro que o conflito era da ordem do pensamento religioso. Aceitar isso não significa admitir que todos os discursos religiosos são geradores de ódio, mas, sim, que alguns, incontestavelmente, o são.   

Nunca é apenas um indivíduo que puxa o gatilho. Somos feitos dos outros. E exércitos inteiros estão sendo formados sem esse mínimo cuidado. E não são apenas nos movimentos "terroristas" organizados, como nos querem fazer crer, que vemos o horror às diferenças Quando se mata alguém, não é a ideia que morre. Sai sangue é do corpo. É uma vida que se tira, se retira. As ideias continuarão todas aí. Três milhões de exemplares do "Charlie Hebdo" circularão hoje. Quem morreu? Gente, porque é gente que morre, é de gente que esguicha sangue. Enquanto as comunidades religiosas não derem conta de propagar uma ideia tão simples de respeito ao corpo do outro, haverá sempre esta falência comunitária. 

Então, se hoje já se levantam tantas vozes contra o discurso do Charlie, que se levante também vozes contra o discurso religioso fundamentalista. Quem vai proteger as mulheres? Quem vai proteger os homossexuais? Quem vai proteger as pessoa dos atos bárbaros que se realizam em nome da religião? Por que toda esta gente que agora exige de um "jornal irresponsável" a responsabilidade por seu discurso não faz o mesmo quando ouvem nas redes televisivas nacionais discursos reacionários contra os direitos das mulheres, contra a simples existência dos homossexuais? Quem sustenta hoje o discurso homofóbico? Quem faz lobby para não haver campanhas contra aids porque seria um atentado à família? Quem coloca a mulher numa posição de subserviência ao homem? Por que o discurso religioso é intocável, em nome da liberdade religiosa e o discurso do humor não poder sê-lo, em nome da liberdade de expressão, uma vez que tanto um quanto o outro são falhos e guardam em si uma enorme carga de incoerência e preconceitos?

Então, que me perdoe Leonardo Boff, a quem tenho verdadeira admiração, e muitos outros, mas eu sou Charlie, sim. Eu acho, sim, que os discursos religiosos fundamentalistas são perigosos e violentos, porque dão vazão e razão a atos violentos. E acho, sim, que eles matam mais gente, que massacram mais gente, que separam mais gente, do que qualquer discurso de humor. E como já disse, tive uma relação muito próxima com religiões. Tentei uma e outra e outra vez. E todas as vezes me espantei enormemente. Tenho um irmão padre. E tenho uma família que antes olhava de revés para esse meu irmão e agora que ele é institucionalmente padre afirma amá-lo desde sempre - e credito isso, sem ironia, à força da ideia de religião. Tenho uma irmã evangélica. Uma irmã linda, de coração maior que o mundo. Então, cada vez que me ponho a pensar sobre essa questão, não mapeio nada pela intolerância. É mesmo desconfiança. Guardo em mim a ideia de que necessitamos de um ser, uma força, uma essência desconhecida para nós corporalmente, mas escolhi não buscar esse ser em nenhum espaço físico, nenhuma comunidade, por temer essa indecidibilidade entre a fé e o fanatismo.

Por convicção intelectual, penso que é possível - e necessário - creditar uma certa irresponsabilidade aos discursos. Que certos discursos podem e devem estar livres das ordens institucionais. Que podem ser virulentos e contraditórios, mas justamente por serem contraditórios que sejam compreendidos em sua contradição. Que se duvide deles. Assim, diante de uma charge de "mau gosto", que se saiba virar as costas. Diante de um discurso religioso extremista, que se saiba perceber o extremismo - e também virar as costas. 

É assim, contra o gesto, contra o sangue que sai dos corpos, que eu sou Charlie. Que eu sou todo e qualquer homossexual morto por intolerância religiosa. Que eu sou toda e qualquer mulher intimidada e subserviente ao homem. Que eu sou todo massacre como o da Nigéria - obscurecido pelo da França e usado como exemplo para não ser Charlie. Que eu sou contra a pena de morte.

E apesar de tudo, penso que é vital perdoar o imperdoável:::: como as charges, como o ataque à redação do Charlie. Perdoar o imperdoável é abrir a via que barra a intolerância, o preconceito, a miséria humana.
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