terça-feira, 6 de junho de 2017

paraguassu - a feira

ainda estão em mim as intensidades que a Feira de impressos Paraguassu gerou. de 02 a 04 de junho, aqui em Salvador, presenciei uma energia viva, forte, bonita. uma presença que é vivência. muito se fala sobre o presente, e sobre a dificuldade de defini-lo no campo das artes e das letras, mas é preciso fazer uma imersão em uma vivência assim para vir a ciência de que nada está mesmo definido. 

é quando o papel se destina à beleza. é quando o livro vira objeto. ou somente livro mesmo. é quando a ilustração tem cores, formatos e linhas distintas. é quando os discursos de que o papel já era restam natimortos. é quando é possível revirar a história. e ir ao encontro dela. como a ida a Cachoeira e São Félix saudar os tipógrafos e suas experiências. e em um ônibus cheio de poetas, escritores, ilustradores --- uma comunidade de artistas, enfim, a atravessar. a travessia. é um dos nomes.

uma comunidade de artistas. quase me vem a ideia de escrever o quanto isso é raro hoje em dia. mas foi justamente o contrário que aprendi nesses dias - que não é raro. essas comunidades não dão notícias nos jornais, mas estão por toda parte. e em toda parte se reúnem. e festejam com afeto o estar-junto. uma feira de artistas independentes - das grandes empresas de produção e distribuição de artes e livros - não se parece em nada com as reuniões tristes da academia. se há disputas e invejas, são bem veladas, por isso prefiro crer que o que se vela, o que se guarda, a todo momento é mesmo a alegria do encontro. é quando a distância vira encontro. e o encontro, abraço. e isso se estende aos compradores, aos admiradores, aos olheiros. é quando o produtor abraça o consumidor. e conversa. e se contam muitas histórias. 

é quando o artista encontra seu público. um olho para outro olho.

eu costumo dizer que é preciso criar reservas de felicidade. e agora, quando a tristeza me é ainda tão funda, descubro que é preciso inventá-la também. onde não é possível ainda que exista felicidade, talvez eu deva forjar outro sentimento, que pode ser mais simples, menos impossível. ou pode ser simplesmente isto: observar, atrás da máquina, a alegria de outros. e deixar que isso me traga outras histórias sobre a minha vivência com os livros. 

fotografei bem de perto. com minha nova lente. sem pedir licença. ou licença só com o sorriso. fiquei por ali. vivendo. vendo os livros. tocando. olhando. perguntando, vez ou outra. muda de emoção. é um outro nome --- a emoção. 





















sábado, 18 de março de 2017

sobre os dias em que meu irmão não vive mais



“É que, quando alguém morre, pensamos que já ficou tarde para qualquer coisa, para tudo – ainda mais esperá-lo -, e nos limitamos a dar baixa nessa pessoa. Assim também com nossos achegados, embora nos custe muito mais e os choremos, e sua imagem nos acompanhe na mente quando caminhamos pelas ruas ou em casa, e acreditemos por muito tempo que não vamos nos acostumar. Mas desde o início sabemos – desde que morrem - que já devemos contar com eles, nem para a mais ínfima das coisas, para um telefonema trivial ou uma pergunta boba (“Lembrou de deixar a chave do carro?”, “Que horas mesmo as crianças saíam hoje?”), só por perguntar, por nada. Nada é nada. Na realidade, é incompreensível, porque supõe ter certezas, e isso vai de encontro à nossa natureza: a certeza de que alguém não vai mais vir, nem falar, nem dar um passo, nunca mais – nem para se aproximar nem para se afastar -, nem olhar para trás, nem desviar a vista. Não sei como resistimos a isso, nem como nos recuperamos. Não sei como por vezes nos esquecemos, quando o tempo já passou e nos afastou deles, que ficaram parados”
Javier Marías, no início de Os enamoramentos.


Sábado mesmo era essa a minha questão, o meu dizer. Eu só não sabia dizer com a mesma justeza de Javíer Marías, até que anteontem à noite, às 4h da manhã, insone, encontrei-as – as palavras justas. Pois é assim que me sinto desde que meu irmão morreu. Fico até mesmo abismada quando as pessoas, para me consolar, se centram na minha pessoa – o que seria perfeitamente coerente, dado o fato de ser eu que ali estou, teoricamente para ser consolada. Mas não me parece coerente, porque não foi a minha vida que parou, que acabou ali. E minha dor parece tão sem importância para mim – sim, porque essa dor pode ter inúmeros sinônimos, mas no fim termina nisto mesmo::: em dor – reside nisto: no fato de saber que meu irmão não existe mais. 

O que me dói é que meu irmão não está mais vivo. Não tem nada a ver comigo, com a minha vida. A minha vida não está parada naquele exato instante em que ele decide descer em um poço sem proteção alguma. Foi a dele, com suas alegrias e tristezas e dificuldades, que estancou. Ele ter existido e eu fazer com que ele exista na minha memória me parece pouco, quase nada, na inteireza que contém uma vida. É por isso que não quero ser consolada, e não quero nem vou tomar nenhum remédio para o meu sono que não vem mais. Prefiro pensar como sempre fiz com a insônia que me habitava até antes de Poeminha nascer: fazer as pazes com ela. Noite dessas, perguntei diretamente ao meu irmão porque ele não me deixava dormir, uma vez que a minha vida, nos dias, parecia seguir seu rumo comezinho e mais prosaico: cuidar da casa, trabalhar na universidade, juntar os poucos amigos no fim de semana para beber umas cervejas – agora só acrescentada por uma lerdeza advinda das noites mal dormidas. E essa pergunta me deu um alívio, porque de imediato eu soube a resposta e achei justa. Dei mesmo um sorriso, porque sei que meu irmão sorriria dessas complicações de gente metida a leitora; ele, que nunca deve ter terminado um livro por inteiro. 

--- Porque eu não quero ficar parada. Ainda que a vida agora pareça uma bosta, que nada me faça realmente feliz, ficar parada parece demasiado um gesto impróprio para quem quer tanto que o seu irmão continuasse nessa vida. Eu não tenho nenhuma inveja das pessoas que se consolam por outras vias, porque eu ainda estou num tempo – sim, porque há tempos de luto; eu já vivi e li o suficiente para saber disso – que pensa nessa dor como uma maneira de fazer com que ele esteja próximo de mim. Agora -- que a presença daqueles dias infindos de velá-lo e enterrá-lo ainda me queimam como uma úlcera mal cuidada. É somente agora que ainda há pouco ele estava vivo::: que vivia com Rutinha, que morava num sítio onde era preciso atravessar de barco, que havia comprado uma moto e matava Maneca de preocupação quando ela pensava que ele podia se acidentar; somente há pouco ele atravessava o rio e vinha na cidade telefonar para os seus, somente há pouco ele deixava os festejos de ano-novo para trás para poder cuidar de seus cachorros. Somente há pouco ele desejava ter dinheiro para tirar a carta de motorista e comprar um carrinho velho que fosse – e quem sabe levar energia elétrica para suas terras. Este "há pouco" agora é "nunca mais".

Dia desses, eu me peguei perguntando por que meu irmão morreu, como se devesse existir uma razão para tanto. No fundo, é que eu quero que não tenha sido em vão – por mais que eu saiba que morrer é de todo dia. Que a razão é a que todos sabemos.  Me danei a ler livros nos horários mais doidos, nas brechas mais improváveis, como se ele pudesse me ver e saber que eu, viva, estava fazendo algo que eu considerava mais importante do que todos os afazeres idiotas que parecem consumir minha vida de dona de casa e professora universitária com seus mil formulários e mil reuniões a frequentar. 

E ainda assim, eu consigo rir de mim mesma [meu olho pestaneja involuntariamente seguidas vezes e alguém me diz que é sinal de estresse, mas eu ignoro, porque não quero sentir pena de mim e não quero que ninguém sinta. Não fui eu que morri, caralho! Foi meu irmão. Era ele que, naquele instante da morte, precisava que ela se demorasse mais um bocado]. Sorrio porque antecipo o riso entre envergonhado e incrédulo que meu irmão sabia dar tão bem. Porque meu irmão acharia essa minha vida de leitura bem besta. E ficaria puto se soubesse que eu estava buscando um sentido na sua morte na minha própria vida. Mas eu diria a ele que nada mais me cabe. Nada mais me cabe, nesse momento, do que encontrar saídas para a vida que criei para mim. Ou que me veio sem que eu soubesse como estancá-la, como modificá-la, como fazê-la à semelhança dos meus desejos.   

(eu lembro apenas de uma única briga grande que tive com meu irmão. Assim como lembro da única vez em que meu pai me bateu, ainda menina. Ou seja, uma exceção --- todo o resto foi de contemplação, de alheamento, de comunhão.  Era uma noite de festa e ele se desentendeu com sua companheira. Falou palavras impróprias. Houve gritos. E eu, mulher, fiquei do lado da sua mulher. Acho que lhe dei um empurrão e uns gritos no corredor estreito da casa da Maneca, para que ele soubesse parar, voltar à razão. Ai, como eu era corajosa e como era idiota. E vaticinei: “Na minha frente, você não vai tratar mal uma mulher”. Depois, esta mulher tirou tudo que ele tinha. Era pouco, mas era dele; era ele que havia escavado tudo com suas mãos e seu suor. Meu irmão, atônito, tudo aceitou. Só queria ir embora. Recomeçar. Encontrar outro alguém que não lhe colocasse em risco. Quando perguntamos se ele deixaria tudo para trás, ele disse que sim. Que aquilo não era nada --- e era tão bonito::: todas aquelas hortas, aquelas plantas, aquela terra). E nós, eu e Maneca, aceitamos o seu desistir. E ele se foi. E depois voltou. E depois recomeçou ainda e ainda. Essas mulheres --- poucas e tão parecidas quanto à idade; sempre mais velhas que ele e quase sempre mulheres que facilmente se amava e se admirava. As do meu irmão. Era meu irmão que dizia Rutinha. "Então, pronto"::: Rutinha.

- Ainda que houvesse mais brigas com meu irmão, ainda que, como hoje acontece com meu outro irmão, houvesse silêncio e desentendimento, eu ia querer que ele estivesse vivo. Vivo! Porque nada mais acontece depois da morte. Depois da morte é este vazio imenso. Infinito. Para sempre. 

Tenho mais três irmãs. E mais uma, que não me é suficientemente irmã porque veio bem depois de mim e nunca convivi com ela. E mais um irmão, que eu pensava tão próximo, tão ao lado dele. E tão ao meu lado. Essas irmãs foram sempre meu bote, minhas salva-vidas, meu lugar no mundo.  Eu me reconheço nelas, embora eu seja tão diferente. Criei a fantasia que sou super amada por elas; e acho que sou. pelo menos, nunca desmentiram essa minha fantasia. Para uma, nas horas de aperto, tenho coragem de pegar uma grana emprestada, mas aviso logo que não aceito sermão; para outra, não tenho coragem, porque acho que ela me diria não. Então, não quero que ela passe por esse vexame de me dizer não. Acho que conheço cada uma delas. E no fundo, torço para que me conheçam. E me amem assim como eu sou.

Levei um susto com meu outro irmão há uns dois anos. Acho que não tinha elementos suficientes para entender o que ele fez e o quanto era importante para ele, e vacilei, mas depois ele não soube me perdoar pelo vacilo. E me apagou, como se eu fosse um nada, uma não-irmã, porque o sangue. Talvez eu achasse que todos os anos em que estive ao seu lado, em sua defesa, me fizesse mais irmã do que todas as irmãs do mundo. Porque antes de ele ser a representação de Deus na terra, ele esteve sozinho muitas vezes. Quando vejo toda minha família lhe pedir algum tipo de bênção só me vem uma música de Chico César na mente:::. É porque tenho as memórias de antes. Aquelas que ninguém quer lembrar porque todo mundo quer ser bom. E tenho as boas também. Lembro de nossos tantos encontros por este Brasil, cheios de risos. Nós dois, eu e ele e seu senso de direção prodigioso --- tenho ainda todas as louças que ele me ajudou a comprar quando voltei de Paris e não queria mais comer em louças feias e enferrujadas. Eu que não acredito em representação de Deus na terra. E agora, ele deixou de ser meu irmão; é o que diz minha mãe. "Vocês perderam seu único irmão; ainda bem que eu tenho ainda um outro filho". Eu credito essa frase da minha mãe a dor intensa que ela sentia no momento, apesar de ela me doer como o quê; se era esse o propósito. Se eu tivesse perdido meu filho, o Poeminha, talvez eu me agarrasse em qualquer coisa para suportar essa imensa dor. Talvez eu matasse, ou odiasse, um tanto de gente em mim. Porque não vou mentir ---- odiei a mim mesma por estar viva, quando vi meu irmão na porra daquele caixão. Mas agora eu vivo os dias infindos de tristes: perdi meu irmão e nada me consola quanto a isso. E tenho um outro, ainda que ele agora me diga não.  E tenho uma mãe. Um pai. Um filho. E quatro irmãs. E um companheiro. E um tanto de amigos. Amigas, sobretudo. Mas nada nada ninguém ninguém substitui este meu irmão morto. É ele agora que me perfura como um ferro de marcar boi [e sim, essa é uma meria, numa manhã muito distante; meu padrinho marcando os bois, meu irmão segurando as cordas e eu, de olhos arregalados, fingindo que ajudava em alguma coisa, tão menina, às 5h da manhã, quando a Fazenda Lobo já estava acordada há tempos]; como aquelas dores do guillain-barré. E quando esta dor dos infernos passar, ainda será dele que me lembrarei --- do meu irmão que me ensinou a nadar, do meu irmão que me abraçava me levantando do chão, do meu irmão que convivi muito menos do que desejo agora, do meu irmão meu irmão meu irmão Fernando. só ele. só ele. ninguém mais no lugar dele. todos estão em mim. mas nenhum substitui um outro. são todos únicos. e agora, sofro e sofro porque não estão comigo cada um. e ele, sobretudo. agora, ele, sobretudo. 

E não. Ninguém agora me faz feliz. Porque ainda não posso esquecer meu irmão que morreu. Não posso. Penso nele a cada segundo. Não pensava antes, quando achava que ele estava bem, que ele estava vivo. Mas, apesar de tudo, eu quero dar provas de que estou viva. Não a ele. Mas a mim. Meu irmão morreu na porra de um poço e eu nunca vou saber exatamente como ele morreu. O laudo diz que ele morreu afogado. E uns três meses antes de ele morrer, eu comecei a ter aulas de natação porque havia decidido que ia aprender a nadar de verdade; porque havia aprendido a nadar, às escondidas, com ele e com meu primo Ricardo no açude da Fazenda Lobo, quando éramos crianças e éramos invísiveis para os adultos --- e era melhor assim. Invisíveis --- meu irmão e meu primo Ricardo nadavam de ponta a ponta o açude do Lobo e eu nadava nas beiradas, enquanto eles iam cada vez mais fundo e mais longe --- e eu ria e ria dizendo que não conseguia e eles riam e riam dizendo que eu conseguiria se tentasse. Lobo lobo --- que dias felizes! Mas eu nadava desajeitada. E depois de adulta, nunca mais nadei, assim como nunca mais dancei, porque tive o azar de não estar com ninguém que soubesse dançar --- eu que tanto amava dançar. 

Depois que mano morreu, e por mil vezes me passou pela cabeça que ele pode ter sofrido nos instantes antes da morte, eu voltei às aulas de natação. E entrei em pânico. Metia a cabeça na água e pensava no meu irmão morrendo. Mas não aceitei o pânico. E me esmurrei bem forte porque quis que fosse frescura esse pânico. Eu não estava morrendo. Eu estava numa piscina, quase que protegida; foi o que pensei. Então foda-se o pânico. Eu não estava ali para sentir pena de mim. Nem de meu irmão. Estava ali para aprender a nadar. E continuei a nadar. E sequer disse a meu instrutor porque estava tão doida sem saber o que fazer o que já sabia fazer antes. E continuo a nadar. E o professor diz que estou cada vez melhor.
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E agora, leio o livro de Javier Marías há três noites. Foi Aline que me falou sobre ele, depois de ver que eu havia lido outros dois livros dele. Leio às 3h da manhã quando acordo depois de ter dormido umas quatro horas. Às vezes, choro pra cacete. Mas não estou nem aí. Leio, choro, depois adormeço um sono agitado e cheio de sonhos. Antes, "embrulho" Poeminha, que está bem do meu lado, repito meu mantra "que sorte, que sorte, você existir"; às vezes ele se mexe e dá um sorrisinho; outras vezes, mal se mexe. E que ninguém me diga que isso, por ora, não seja a vida possível. Ou me exija mais que isso. Ou diga que já é tempo de ser outra coisa. Que seja o que tiver de ser --- E que ninguém me tire essa dor. Ou queira senti-la. É minha. E dos meus que amavam meu irmão. E dos que amavam meu irmão e não eram meus.
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terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

mano, tão cedo



meu irmão foi embora tão cedo. foi embora tão cedo meu irmão. meu irmão morreu. morreu meu irmão. não importa que ordem eu dê a essas frases, a esse acontecimento, a cada vez me parecem estar fora do lugar. quando soube, vagando entre o desespero e o inominável, eu repetia sem parar: "não morra, mano, não morra", como se eu pudesse revogar o que já havia sido. depois, fiquei com medo de que, de alguma forma, eu pudesse estar atrapalhando a sua travessia --- quem sabe no que acredita diante do horror do acontecido? e passei a dizer que ele podia ir, que ele não se importasse, se ali pudesse nos ver - quem sabe no que acredita? - porque já era só dor, já éramos apenas nós que ficávamos. nós não importávamos.

agora que meu irmão se foi, eu descubro que passei a vida toda pronta para que fosse eu a morrer primeiro. eu que passei toda minha infância condenada a morrer. e que, já adulta, adoeci repentinamente de uma doença com grande índice de mortalidade. com a qual descobri que ainda não senti o medo da própria morte. dor, sim. uma dor grande, física, terrível. mas infinitamente menor do que esta, ao saber da morte de meu irmão. essa dor que ainda me acorda no meio da noite como um prego que rasga a carne no meio da travessura de passar na ponte de tábuas tão soltas.

como aquela ponte --- da infância. feita de madeira oca. aquela que eu e meu irmão atravessamos, no momento exato em que me desequilibrei e o prego entrou na minha carne, mas não na dele. ou daquela vez, em que no meio da palha onde brincávamos de gangorra, a palha entrou na carne dele, e não na minha. ou quando brincávamos de perna de pau, ele desequilibrou e caiu dentro do tambor cortando o cílio, carregando para sempre a marca, e não eu.

minha mãe costuma dizer que os da geração de 1970 vieram para fazer tudo que as outras não fizeram. eu e ele, os da geração de 1970. na infância, isso significou desobedecer uma a uma a todas as regras que não entendíamos as razões, aproveitando-nos de todo descuido --- jogar bila no terreiro, andar de perna de pau, desviar-se do caminho de casa e da escola, aprender a nadar e vagar pelos terreiros e terrenos ao redor da morada. vem daí uma das lembranças mais ternas da minha infância::: eu e ele correndo atrás de um cavalo num grande pasto devastado, dando risadas, tentando agarrar o rabo do cavalo, não conseguindo e caindo exaustos de tanto tentar, rolando no chão. e rindo rindo rindo. sempre às escondidas, sempre à mercê das piores surras.

e na vida adulta, isso significou tantas histórias impublicáveis. tanta bebedeira, tanta farra, tanta lindeza. [dois moleques grandes cúmplices nos erros alegres]. e agora, fiquei sozinha nas doidices, minhas irmãs caretas que não bebem uma gota. 

ao contrário de mim, meu irmão era manso. sempre. na hora da surra, era preciso que eu gritasse: "corre, mano, corre". e ele não guardou mágoa alguma - aquela mesma que me corroeu durante tanto tempo e a mesma que agora eu  procuro extirpar sendo uma mãe amorosa. meu irmão era bom. tinha um coração bom. e não digo isso porque agora ele se foi. tantas e tantas vezes, foi esse seu álibi. no meio de nós, irmãs, foi sempre o diferente, o que não fez como nós, o que não se disciplinou, o que esteve sempre à deriva --- a ponto de ter se colocado ali, num poço de quinze metros de profundidade, sem grandes experiências, a não ser a de sua grande coragem. e de sua grande necessidade. um cabeça-dura. um miolo mole. e foi esse miolo mole que o fez melhor que nós. mais livre, mais solto, mais longe. e agora, como ele faz isso com ele? como vai parar na merda de um poço sem ar e morrer ali? como dói. como dói.

um disléxico --- um disléxico sem diagnóstico, quando a miséria escolar era ainda maior do que a de hoje, quando ninguém olhava para os que não aprendiam. quando o desleixo, mesmo quando o amor era tanto, impedia o saber. creio que nunca nos recuperamos daquela 3ª série, em que eu segui e ele ficou ali para sempre. ou ficou ali até o dia em que, já adulto, por fim aprendeu a ler de verdade, vencendo a dislexia (eu tão sem memória, lembro perfeitamente do dia que o vi lendo de verdade::: na casa da Maneca, sentado num sofá que parecia sofá de zona, com um livro postado em cima de uma mesinha de centro preta. naquele dia, o mundo todo passou por mim. ficamos ali naquela 3ª série - eu com minha culpa; e ele, com sua falta de jeito, vendo milhares de vezes uma professora desgraçada agarrando a mão de meu irmão e obrigando-o a escrever palavras que ele não sabia escrever. com a histeria e o despreparo imprescindíveis para marcar tão violentamente vidas para sempre. ou não. talvez apenas eu fiquei ali, e por isso como professora goste sempre dos mais desajeitados, dos mais desajustados, e não obrigue ninguém a fazer nada:: a escrever o que não pode escrever. nem a falar, nem a calar.

porque meu irmão pensava muito. como meu pai, como eu, como minhas irmãs --- um pensar infindo; ora terrível, ora sublime. dava para sentir nas suas poucas palavras, nas suas tantas histórias, que a mente fervilhava. a mente sonhava. desejava. ansiava. mano mano mano. e ele passou a vida tão curta dele atrás desse sonho. que era o oposto dos nossos. e que era a sua salvação, o seu guardião. meu irmão queria ir sempre para mais fundo da mata. tinha medo das cidades. porque nas cidades seu caminho era errático e era tão próximo do caminho do meu pai, que, ao contrário, sempre preferiu as cidades.

conta Rutinha, sua companheira neste sonho, conta minha mãe, conta Maneca, conta Dedega, seu primo-irmão de uma vida toda, que agora ele se sentia no seu sonho. para chegar nas suas terras, no seu lote ainda sequer registrado, era preciso atravessar o rio de barco. lá, ele vivia com Rutinha e seus vários cachorros. nem havia de folga o que comer e tinha esses cachorros todos. nada diz tanto sobre meu irmão quanto isso. seu miolo mole, sua falta de ambição, seu amor pelos bichos, pela terra, pela vida.

cada um que o conheceu, certamente tem sua imagem. mas creio que ninguém discorde de um ponto --- justamente o que me consola e, ao mesmo tempo, me dilacera: meu irmão era feliz, como o são apenas aqueles que amam, de fato, a vida. e vivia a vida como o sonhador que era. como quem acredita. como quem tem fé. sempre amortizava as dificuldades de sua vida em prol de um porvir que lhe seria generoso, ainda que o presente nem sempre lhe fosse. as contendas de meu irmão eram sempre poucas e acabavam do mesmo modo: "então, pronto". quando havia a mínima possibilidade de um acordo, ele vaticinava de imediato: "então, pronto", calando seu interlocutor com seu próprio silêncio. que era firmeza. que era teimosia. que era ternura. que era introspecção. meu irmão tinha a elegância de guardar seus demônios para si. e só lançá-los ao mundo quando tiravam-no muito do sério. também dizia: "agora pronto" --- que equivalia a algo como: "só faltava isso". e era quase sempre como que um pedido para que não o tirassem do sério.

meu irmão. que se foi. meu irmão, que era o filho da minha mãe. e do meu pai. que se fez filho também da minha Maneca --- um pouco como eu. nós dois, que tanto amamos Maneca. eu e minha Princesa, filha de Maneca, nos encarregamos de levar o corpo do meu irmão para nossa cidade de origem, depois que Maneca, Manamácia e os anjos que sempre aparecem nessa hora cuidaram de tudo. é o inimaginável --- esperar alguém que não está mais aqui. eu e ela --- minha desde que tinha um ano de idade. paramos na cidade onde eu e ele nascemos, como se já estivesse escrito:: Limoeiro do Norte. e foi ali que tiraram a estrutura de metal que protegia o corpo do meu irmão que veio de tão longe. e foi ali que o vi::: no meio do caminho. quando o caminho já era findo. depois, na longa noite, atravessamos as curvas que é preciso atravessar até Iracema, nossa cidade. lembrei de nós na nossa infância, quando íamos de ônibus, apenas eu e ele, para essa mesma cidade. de Tabuleiro a Iracema. era tudo tão mais simples.  não havia Estatuto da Infância e da Adolescência a nos proteger. havia apenas rostos que nos conheciam, que sabiam quem éramos --- os filhos de Chico Tavarim. os filhos que iam e vinham com sacos de comida enviados pelo meu pai. e Iracema, e as tantas pessoas que ali habitam e já ouviram falar de nós, deram ao meu irmão um velório e um enterro tão bonitos. isto::: da necessidade do ritual. o poder-lembrar depois.

Dedega - seu primo-irmão da vida toda - me disse tudo::: a travessia dos bons bocados. bons. bons. foi bonito ouvir: "atravessamos bons bocados juntos". e eu fiquei a lembrar de nós. eu lembro dele. e de tudo que eu vivi e também que não vivi com ele, mas que ele viveu com outros. com Dedega, com Rutinha, com seus tantos amigos. meu irmão era doce. meu irmão saía do sítio que agora era seu e vinha para a cidade telefonar para os seus: para mãe, para Maneca, para Dedega, para... Vinha na noite de natal, do ano novo, no seu aniversário, no aniversário de alguém. isso, de atravessar; de atravessar por quem importava, de falar com quem importava. atravessar a mata e atravessar o rio para falar com os vivos. ele mesmo::: vivo!

agora, como disse manaMácia, acordamos, e tudo havia acabado. sempre é tarde. acabou para meu irmão. e para mim, foi tão cedo que acabou. sei que para ele também. para ele --- que amava a vida, que amava viver. que amava gente. que nos amava.e eu, que tanto admiro tudo que Derrida fala sobre o luto, não encontro nada, ali, que possa me consolar. sei que a vida continua. já ouvi minha risada depois que ele se foi. mas sinto que, a partir de agora, sentirei, enquanto eu viver, esse espanto de que mano não vive mais. logo ele:::

[agora, já não veremos mais ele enrolando seus cabelos com uma das mãos. agora, ele não nos abraçará mais -- e como se o abraço fosse pouco, não nos levantará mais do chão no exato momento do abraço. e agora, não haverá mais: eh, neguinha!; eh manavéia]
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post scriptum --- escrevi para uma pessoa muito amada::: "ainda estou no limbo. dói. dói. dói. mas nessa dor, eu fico só imaginando como serei feliz quando essa dor passar: pelo meu irmão. pelo tanto que ele foi feliz na vida breve que teve". e pela vida. porque ela acaba. e por isso, penso desde sempre que só vale a pena atravessá-la se for assim, como o mano atravessava: amando intensamente a vida, amando estar vivo.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

nos dias de São Paulo

Não, não
São Paulo é outra coisa
Não é exatamente amor
É identificação absoluta
Sou eu 
(Itamar Assumpção)













preciso dizer, antes de mais nada, que em um dos dias que perambulei por São Paulo, com uma heinekken na mão na avenida Paulista, sozinha, mas inteira feliz, como naqueles cartões-postais que imprimimos para fantasiar nossa história, eu pensei que estava toda linda. e linda porque estava ali como eu havia imaginado, mas que havia dúvida de não conseguir. e imaginei como era bonito ter coragem de me olhar e ver que havia um tanto bem errado, que ou mudava ou seria um sem-fim de erros. agora que se avizinham meus 42 anos, penso estar mais próxima da velhice do que da juventude. no entanto, quanto mais envelheço, mais quero me rebelar contra a cristalização. quero estar pronta, ainda, para mudar. e eu pensava em Mariamada, Inildo, Manamácia, Maneca; essas pessoas todas tão distintas de mim, mas que aprendi a admirar justamente pelo que não sou. e que só poderei ser cortando uns pedaços da minha carne.

eu sou uma pessoa muito impertinente. as pessoas me amam ou me odeiam. e algumas me amam e me odeiam. sou difícil. mas quero crer, no que vejo de mim, e não posso alcançar no que os outros veem em mim, que sou fácil de lidar. quando gosto, gosto muito. quando não gosto, sei ignorar, embora saiba travar grandes lutas. e apesar disso, de ter uma boa imagem de mim, como parte dessa cegueira que nos constitui, eu quero ser outra o tempo todo. eu quero ser a que muda, a que se rebela diante de qualquer conselho, mas que, com a cabeça longe da predição, no silêncio, ouve, não uma voz interior, mas essas outras tantas vozes - nesse caso, mariamada, inildo, manamácia, maneca. eu quero ser como elas e ele. mas quero ser, sem que minhas vísceras sejam destripadas.

dá para ser assim aos 42 anos? acho que dá. eu quero marretar mil vezes minha cabeça antes de cristalizar meus defeitos. e antes de esquecer minhas alegrias. eu fui uma mãe velha. quando meu filho tiver 15 anos, eu terei 50. é muito tempo. preciso envelhecer até lá com a alegria que ainda me habita agora (e sei que há uma questão de língua portuguesa nesta frase).

e foi assim que fui para São Paulo. fui porque é uma das minhas cidades. como disse Itamar, vai que nem é amor. é identificação. São Paulo::: aquela que cabe na palma da minha pica, se eu tivesse uma. é pequena a minha São Paulo, mas é medonha. fui como um dia fui para Bruxelas ver o show de Bob Dylan --- só porque dava um belo conto que nunca escrevi --- sem tostão algum. fui porque queria ver a Bienal de Artes. apenas isso. não programei mais nada. sabia apenas que queria ver a Bienal e assistir a quantos filmes fossem possíveis. porque um ano inteiro sem ir lá me deu uma baita saudade das salas escuras de cinema. sim, elas são caras. eu driblo essa carestia com meu contracheque de professora --- meia é o que salva.

e foi assim. calhou que pedi abrigo no apê de Talita e Michele. calhou que me apaixonei pelas duas --- tão bonitas na construção de suas vidas a duas. fiquei com inveja danada dos seus cafés da manhã e dos seus banhos a duas. dormitava enquanto elas construíam suas vidas inteiras. não sei se disse a elas, mas o certo é que saí de lá com muita fé na vida a dois. vida a duas. dividi com elas meu amor pelas cervejas. e tentei cuidar de seus amores pelo vinho. fiz um pouco do que minha amiga Lili me ensinou. e acho que diminuí o estorvo de ser hóspede. só elas podem dizer.

e andei e andei. e vi muitos filmes nas salas escuras. e errei direções. e andei em alamedas inteiras entre transitam somente carros. e não fui a nenhum shopping, afinal sempre tive a firme certeza que, quando ia, era somente por obrigação de estar em grupo. também não fui a nenhuma das lojas que costumo ir por amor quando vou a São Paulo. gastei apenas naquilo que valia a pena. naquele restaurante incrível. naqueles catálogos das exposições que eu não queria esquecer que havia ido. e mesmo assim, senti-me como Inildo e Mariamada --- sem miséria alguma. um sentimento intenso de que poderia fazer o que havia feito, por obrigação, há uma década, quando eu e Mari perambulamos pela Europa quase sem nenhum tostão --- por um ano inteiro.

e vi Liniker, por acaso, na Livraria Cultura, quando fui comprar os únicos três livros da viagem (que agora, depois de lidos, caso pudesse, pediria reembolso). e ali achei-o mais bonito do que quando vi o seu show junto com Elza Soares, uma noite depois. Porque Elza é soberana. Elza arrepia, mesmo quando ela não se mexe, na sua cadeira que deve ser uma prisão, mas que é, para nós que a vemos e a ouvimos, um altar::: um lugar para querer estar sempre. vi também Anelis Assumpção. até a última hora, fiquei na dúvida. porque em São Paulo, há sempre tanto a escolher. por fim, Anelis. e que bonita esta moça, filha de Itamar. com voz dela. sua. talvez eu tenha sido a única pessoa na plateia a chorar (respeitem meus cabelos brancos que começam a surgir na minha fronte), porque um arrastão de memórias me dominava vendo Anelis ali --- eu naquela tarde fria, longe longe longe, ouvindo Itamar, e achando que se não houvesse nenhum sentido para a vida, é certo que havia algum sentido em Itamar existir e ser o que ele foi. e vi também Céu --- a mesma moça que vi há mais de uma década. e ainda agora, acho-a inteira linda no palco. tentei entender o que era aquilo que havia sentido há tanto tempo. histórias do pop:: o poder de um corpo e de uma voz. viva Céu. Viva viva. foi uma noite incrível. achei que havia perdido a câmera. imaginem! choro, agonia e cuidado. depois, não era nada. a câmera havia ficado em casa. na casa de Talita e Michele. atrapalhei a noite delas, mas senti que Michele me entendeu. será? ---- eh, alma barroca.

e a bienal de artes deve ser uma história à parte.  no primeiro dia, senti uma dor intensa que vinha das vísceras. é verdade. faz parte do ser exagerado que sou. fiquei inteiramente perdida. e detestei. vi apenas o primeiro pavilhão. e saí de lá como o diabo foge da cruz. perdi a direção. foi aí que andei no meio dos canteiros com uma chuva fina a me molhar. achei que ali era o presente. esse fardo que ninguém sabe o que seja. que horror que horror. depois, com mais calma, voltei mais duas vezes. e encontrei beleza mesmo no primeiro pavilhão. encontrei jonathas andrade e seu peixe. e fiquei ali, apaziguada, por uma hora. ou mais. mas achei que o horror continuava por toda parte; uma visão desvirtuada do que seja arte. ou a arte destituída do que ela seja, tentando ser outra coisa. ou os artistas tentando encontrar o Outro sem saber como. tudo mentira. o contrário da arte. por fim, caminhei mais tranquila. e encontrei muita beleza. dei tempo ao tempo que uma bienal exige. quantas horas foram? muitas. e o tempo me deu outro olhar. não digo que o pensamento mudou. digo que se deslocou. --- pensei na Adri. e no que ela me ensinou naquele museu muito distante.

por fim, agora que escrevo, penso nas estações de metrô. eu sou uma senhora que foi assaltada oito vezes. oito vezes. inclusive, em São Paulo. na Augusta. porém, não tenho medo algum. com muito custo, tento ser cuidadosa. ando sempre com uma grande mochila. câmera sempre mais cara do que posso pagar. todos os documentos na carteira. todos os cartões. e ainda assim, quase nunca tenho medo. andei por essas estações de metrô onde mataram um ambulante bem agora. eu me pergunto se teria reagido. ou se o medo teria me deixado sem ação. a crer em mim, o que teria feito? teria exposto minha cara à loucura dos desgraçados? quero crer que sim. mas tenho medo. quero crer, por meu filho, que teria exposto minha cara a esses ensandecidos. teria gritado. teria reagido. porque, muitas vezes, não tenho medo. talvez sentisse medo apenas quando eu também fosse uma vítima. mas quem pode saber? é o horror de estar no mundo (há muitos anos, assaltada pela terceira vez na rua de casa, eu tive sangue frio para negociar com o ladrão que estava com uma arma na minha cabeça. lembro ainda da frase que hoje me parece inconsequente::: "ah, não, cara, você não vai levar minha carteira de novo. eu não vou tirar meus documentos outra vez de jeito nenhum".

fui ver Laura Erber no CCBB, na Sé. e andei por ali com minha grande mochila. para além do início da noite. assim como andei na Paulista para além da meia-noite. cogitei ir a pé para o apartamento das meninas. mas senti preguiça e peguei o metrô. talvez pensei que estivesse mais segura./// ver Laura foi bem bonito. não vou esquecer seus 'hum. hum. hum. hum". como quem concorda. e como quem não quer acrescentar. é bom admirar alguém que você sabe que pensa. e abrir o tempo para entender parte de seu pensamento. e ver Manuel da Costa Pinto, o entrevistador de Laura, levou-me a outro tempo. a um seminário sobre Barthes na Maria Antônia. eu, Marcia, Fabíola --- naquele tempo era tudo muito bonito --- como é o passado. elas lembram? eu, com minha parca memória, lembro das duas ---- lindas. e de Fabíola dizendo o que nunca mais dirá::: "quando entreguei o livro, não quis dizer que era do meu marido, para que ele não interpretasse de outro modo". há certas frases que só o passado explica, porque o presente decupa tudo. e já é outra coisa.

seria preciso dizer tudo dos dias. mas é impossível. ainda queria falar do "Útero do mundo". e do "Portugal, portugueses". estavam ali ao redor da Bienal, no Ibirapuera. podem até passar despercebidas, mas são exposições que dizem muito sobre o presente. e onde foi muito prazeroso me demorar.  

e o que dizer da minha noite com meu amigo Celso, onde a minha única preocupação era me manter sóbria suficiente para chegar em casa em segurança? bebi umas dez garrafinhas d'água para cumprir meu intento. e dancei. e dancei. e dancei. e misturei as águas, evidentemente. 6h30 da manhã, aguardava um Uber, de cara para o edifício Copan, com o sol nascendo, tonta e grata pela grande noite. ==

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ainda não conheço outra forma mais bonita de trapacear os dias cotidianos, a não ser desta maneira::: nos hiatos. (((prazeres dos gostos))).