domingo, 28 de dezembro de 2008

reflexões do meio da noite

um dia, quando estava fazendo a tese, o msn não funcionou. não o fato do msn não ter funcionado, mas minha reação. dolorida. histérica. fui em todas as alternativas que minha ignorância permitia. e nada. sentia meu corpo tremer. e veio o choro convulsivo. eu só queria alguém para conversar. não para dizer que não conseguia fazer a tese, mas sim para o contrário. para dizer que estava tudo bem. isto é, para mentir. é a loucura da tese. a loucura da solidão, que só percebemos muito tempo depois, quando a tese está feita. quando a solidão não existe mais. e temos a impressão de voltarmos à normalidade. agora, quase nunca entro no msn, a não ser para falar com minha melhor amiga. e damos altas risadas, se fosse possível ouvir as risadas, expressas por simples e incompletos rsrsrs. agora estou em paz. agora, fico horas na rede - a que balança e faz ruído que deve atrapalhar o vizinho. muito menos do que queria, mas o suficiente para ler um livro inteiro e chorar e sorrir com ele. estou em paz. e estou feliz. e por isso perdôo; o perdão como forma de esquecimento - e cantarolo, se assim soubesse: não há o que perdoar. há tão-somente oito meses de traição. de abandono. e vejo que eu mesma abandonei muito antes. e mesmo assim sinto. porque sempre desejei alguém mais forte do que eu, mais lindo do que eu - que tivesse coragem de me dizer o que eu mesma não tive coragem de dizer. e não foi assim. foi tão normal, tão novela das seis, tão homem funcionário público - o que havia de diferente na nossa relação? e a resposta é um grande nada vazio. não conseguimos ser nós mesmos - a parte mais difícil. talvez toda mulher sinta estes anseios que nada têm a ver com a máscara de libertação que demoradamente construímos. vejo os destroços. e sinto uma certa tristeza nos destroços. porque o perdão só vem quando o amor se vai. se esvai. aquele foi. eu procuro em mim aquele amor pelo amado e só sinto a dor da traição, porque foi ela que tocou em algo que dói apenas em mim e tem a ver com as dores daquela criança que nunca deixei de ser. mas agora a criança acredita de novo. não apenas no amor, mas em tudo. acredita na vida que a adulta construiu. acredita que ela é bonita. é estressante, mas é bonita. é todo ela envolta por uma fantasia. a fantasia de viver em um mundo bonito para além do mundocão. e isto se deve não apenas ao ney, embora ele tenha uma grande porção. ele é bonito. gosta de tudo que eu gosto, e não apenas porque eu gosto. gosta com seu ar blasé, com seu jeito super ativo; tem horas que leio um livro e ele joga no meu celular supercaroesuperchique que eu jamais usarei as funções; comprei apenas porque é bonito e é vermelho - ; até que se cansa e vai embora quando a clausura do meu apartamento lhe sufoca. e volta dizendo que sente saudade. e eu sinto nitidamente que ele sempre irá. porque ele sabe o que quer, para além de mim. e me sinto feliz com isto. ele vai sem nenhum rancor, apenas porque reconhece que sou uma senhora esquisita. talvez seja apenas agora porque é o princípio e juramos dizer sempre a verdade doaaquemdoer - mas o que importa o futuro se o porvir é sempre incerto? é daí que vem o perdão. quando eu sinto que estou muito melhor, repetindo na minha vida aquela música que Bethânia canta com tanta dor. eu digo quase sem dor. apenas com este peso de quem pensa as palavras::::: e as palavras me dizem agora que estar reclusa no ano que quase inicia é um desejo antigo e ansiado. abro as portas apenas para eles. o resto do tempo divido entre minhas fobias, minhas manias, minhas tarefas e minhas paixões. leituras músicas armários arrumados livros limpos um a um. sim, ninguém agora pode me atingir. estou forte e inteira e amada. e amo. amo todos. e amo.
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se eu não voltar aqui antes do ano novo, quero dizer que este blog, embora eu escreva sempre como quem escreve para si mesma, tem um imenso prazer de saber que meia dúzia de pessoas o lê vez ou outra.
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feliz ano novo a todos.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

na rede

ontem, na rede, curtindo uma daquelas ressacas derivadas pelas excursões ao mundo de baco:

"O círculo se fechou. Nada termina jamais. Onde quer que alguém plante raízes brotadas do seu eu mais puro ou verdadeiro, ali encontrará um lar".

na noite anterior, aquela do cristo e do papai noel, vinho do porto bebido como se fosse vinho italiano, argentino, chileno, se não fosse tão doce. mas tinha o italiano, o chileno, os dois argentinos. e tínhamos nós emoldurados de beleza. e tinha a música, a que amamos. a isto não nomeio para que fique apenas a memória de uma noite feliz de natal que mais pareceu uma noite pagã. a de nós quatro. talvez uma das mais felizes noites de natal da minha vida. se é que houve muitas. nunca uma com tanto vinho e tanta doçura. este natal finalmente existe. e com direito a presente. mais um. e lindo.

quanto à citação, é de Liv Ullmann, da sua autobiografia Mutações. antes mesmo de ler meus livros essenciais, eu provo a impureza dos gêneros. ultimamente, muito interessada em livros que não são estritamente literatura. o outro livro pela metade é Uma viagem pessoal pelo cinema americano, de Martin Scorsese - é de enlouquecer de vontade de ver os milhares de filmes comentados. e os outros dois que acabei de ler - Um castelo de pureza, de Octavio Paz e Um diário de Florença, de Rainer Maria Rilke, também fazem parte destes gêneros impuros: o primeiro é um ensaio (brilhante, diga-se de passagem) e o outro, como o próprio nome diz, é o diário de um poeta, escrito para a sua interlocutora ausente, Lou Salomé, por quem ele estava apaixonado. e estou no segundo tomo de O último round, de Julio Cortazar, dois formidáveis exemplares do que a escrita pode alcançar quando faz da colagem, da impureza, o seu limite. pois assim o limite passa a ser não ter limite.

sim, eu não me reconheço. e se choro e se sorrio, também leio desesperadamente, como se fosse uma questão de identidade, como se minha já enorme biblioteca me exigisse o tempo que não tenho e que, culpada, roubo das tarefas que deveria cumprir. agora mesmo, estou cumprindo uma, mas me disperso e venho aqui, me disperso e leio 20 páginas de Mutações, quando deveria estar fazendo uma proposta de ementa para o mestradoquenemseisevaiexistir. perplexa, sinto que não sei o que quero dizer aos alunosseporventuraumdiaexistirem. talvez como rilke, tudo que eu queira dizer seja, "leiam". não importa o quê, desde que esta leitura lhes faça perder o sono. e suas tarefas. se assim for, a leitura vai ter deixado de ser mero passatempo e terá se tornado algo vital, essencial, na vida; como eu acho que é na minha vida. e na vida de meia dúzia de pessoas que eu tenho o prazer de conhecer. mas no mundocão de hoje, ser e sentir desse modo é muito perigoso. sobretudo, impróprio.
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terça-feira, 23 de dezembro de 2008

é quase natal

... é quase natal e eu não sinto que seja. estou feliz. sim, estou feliz. mas quase não me reconheço. choro bem alto para me reconhecer. depois passa. me acalmo. e volto para o natal que ainda não existe para mim. ensaio compras de presentes. mas compro apenas para o binho e o manu. eu sei exatamente o que eles querem. eu gosto da coisa exata. custa-me reconhecer, mas gosto. e eu que sempre achei que voava sem pára-quedas. agora, eu quase imploro. depois volto atrás. rio de mim mesma. e aviso que não sou assim. apenas estou - estado passageiro. e sigo feliz. doze horas dentro de um ônibus lendo sem parar. isso depois de oito horas na mesma estrada em sentido contrário. cinco horas de aula. uma noite no meio. e uma prova aplicada. o ônibus quebra. as pessoas gritam. um senhor conta causos. o homem ao meu lado fede. uma senhora simpática quer conversar. uma troca-troca de ônibus, de cadeiras, de mexericos. e eu continuo lendo. exausta, sento no chão da rodoviária de uma destas de beira de estrada e choro como chorei há anos atrás lendo relato de um certo oriente em uma rodoviária igual sem tirar nem pôr. eu que me sinto toda diferente. agora leio o diário de florença - e lembro da noite cheia de delicadeza - o que seria da vida sem os amigos para nos indicar livros? e choro porque lembro. e choro pensando em veneza, em roma... e em florença que ainda não conheço. e rilke, imperativo, me diz: "olha". e esbraveja contra todos que não têm sensibilidade. cético louco apaixonado jovem monumental. então eu choro. nem que seja para dizer que tenho sensibilidade. posso não ter memória agudeza sapiência, mas tenho sensibilidade. e é com ela que me faço. mesmo que esta sensibilidade muitas vezes atrofie e eu veja e sinta e queira apenas o meu umbigo. tem sempre o momento em que eu me dou inteira. por ora, reivindico a contradição. o sorriso e a lágrima na mesma intensidade. nunca mais almas pela metade, se fosse crente eu pediria isto. descrente, eu tento escapar. crente, eu faço carinho no cabelo. em algum lugar, tenho um castelo de pureza. nem que seja este que agora folheio. é o que agora penso enquanto ouço bem alto o clube da esquina.
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outros outubros virão/ dos homens que são/ prefere o rio/ prefere remar/ falo assim sem saudade/ falo assim sem tristeza/ falo por acreditar/
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misturo as letras. vivencio as músicas. quase me reconcilio com elis ouvindo-a assim ao lado de milton. a voz doce dele entremeado com a voz dura de quem só reconhecia a dor. plenos de sol e de luz.
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quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

madrugada

Um instante de beleza é uma alegria para sempre. Domingos de Oliveira
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amanhã, eu vou sentar aqui; hoje, eu vou sentar aqui e fazer o presente da minha amiga oculta, porque ela merece e porque terei entregue, corrigidos com olhos de lince, todos aqueles textos. a maioria tateia. alguns têm alma e têm medo. outros, medo nenhum e nenhuma alma. eu me descobri em muito sendo professora. uma das descobertas é que não dou conta de tanto livro - ruim - para ser lido. e que não suporto erros gramaticais, embora multiplique minhas vírgulas na ânsia de errar. e ele dorme. eles sempre dormem e eu fico a velar um sono que não é meu. e quem velará meu sono? tenho sempre a terrível impressão. esta dor amorosa que me faz encher os olhos de lágrimas é a dor de agora. ele dorme tão bonito enquanto eu envelheço mais um pouco entre tantas ordens do dia - que se estendem pela noite adentro. pilhas de livro, carrega meu papai noel; eu espicho o olho sonhando com o dia em que terei tempo de me balançar na rede - a rede que agora range enquanto ele dedilha seu violão; indeciso entre uma nota e uma música. eu ouço lendo fábulas. e gosto do que dizem as fábulas: um alma e um medo - tum tum tum! solto um riso solto. depois ele some do rosto e quase tombo. a delicadeza e o horror de cyane - em linhas finas - se encarregam de dizer que ainda é tempo - para além do tempo. e eu insisto::: leio três paginas de octavio paz. outras dez de rilke. e bêbada, mostro-lhe francis bacon. e lhe digo de um modo estranho que o disforme é o que corrompe minha alma. e ele parece compreender quase tão bêbado como eu. no almoço, ele lamenta que já bebemos todos os vinhos da casa. porque ouvir maysa comendo um almoço feito a dois pede um vinho. eu lhe prometo comprar quantos vinhos for desejado. eu lhe prometo tudo e nem percebo. agora o quarto é todo escuro. e posso dormir até mais tarde. bem mais tarde.

sábado, 13 de dezembro de 2008

Meu papai noel


passei por uma loja cheia de papais noéis e pensei com ar desolado: "não há nada em casa que identifique que é época de Natal... bem que eu poderia comprar algo". dei um passo para entrar na loja e hesitei. foi a adulteza que me fez hesitar: "Milena, natal é uma data como outra qualquer; é apenas para os bobos consumirem; talvez se um dia houver crianças correndo pela casa faça algum sentido... não agora em que apenas você a habita". e fui para a casa vazia de crianças carregando a adulteza e a tristeza infinda que lhe acompanha. mas eu sou uma pessoa de muita sorte; almas de crianças me recolhem a todo o momento. foi assim que um papai noel chegou aqui; provavelmente um daqueles que eu desejei sem dar o passo à frente que faz com que o desejo valha a pena. a alma de menina da Nilza me trouxe um papai noel carregado de corujinhas - não no saco, mas na barriga! imaginem: um papai noel grávido de corujinhas de toda espécie é ou não é a própria imagem da perfeição para uma colecionadora de corujas e de meninezas? agora ele fica aqui a me olhar, bem na minha mesa de estudo; um rei no reino da bagunça, a me lembrar da minha alma de menina, a me lembrar do tanto de sonhos e de desejos que eu quero lhe pedir para me ajudar a realizar.
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e Nilza também disse que me sente como uma filha, e eu, tão carente de mãe, choro e choro lendo as suas palavras. fico cheia de silêncios. suas palavras mereciam um tanto de outras palavras, mas eu silencio de espanto. eu nunca sei como um ser egoísta como eu provoca o amor em alguém. e sem saber, resta-me agradecer aos céus por colocar pessoas como ela no meu caminho. isto deve ser a maior prova de que papai noel existe. sim, ele existe. e agora me olha com seus olhinhos curiosos.

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o que me incomoda é este céu aberto – e vermelho. porém, se não for aberto, perde o sentido para mim. se não é meu sangue que escorre, de que valeria escrever? não quero me preocupar se algum escroto vier aqui e tirar conclusões sobre o que escrevo, como se tivesse adquirido a chave de mim e pudesse entrar a qualquer hora. de madrugada, apenas meus amigos têm a chave. apenas eles podem entrar e eu continuar dormindo; senhores absolutos da casa que cuido para eles. os que vêm aqui e que eu amo sabem mais de mim do que qualquer outro. estes que vêm sem nenhuma alma não podem sentir a alma que aqui habita. não que os que nunca vi não saibam de nada. sabem. mas é um saber frio – como tudo aquilo que está distante. e muitos que nunca vi têm alma e calor nas palavras. é porque de fato eu quero um espaço amoroso. o amoroso é minha figura. uma busca obsessiva de lugares de espanto e de amor. e eu quero o espaço amoroso que não me estrangule – que me ouça ou me cale com a delicadeza de uma pena de ganso. aquela mesma que eu deixei perdida no lago onde estive sozinha. eu continuo com medo – e às vezes ranjo os dentes no escuro. o mesmo escuro que alcançou meus olhos por dias infindos da infância. sim, já estive cega. sei o que é abrir os olhos e ver uma pasta cinza bem à frente. eu achava que esta experiência havia levado todo o medo do escuro. mas faz pouco que descobri que o escuro do outro causa muito mais medo. como é que eu não soube disto antes? sim, é de mim que tenho medo – é do medo em mim que eu sinto medo. porque agora eu olho para um outro e vejo tudo cinza à minha frente, mesmo que a delicadeza esteja tão evidente no sorriso maroto e meio tímido. mas a aranha desce morta de trás do quadro que arrancamos da parede para colocar os anzóis e as adagas de cyane. os anzóis e as adagas que fazem saltar os olhos. sim, sempre há quem nos perfure os olhos. mesmo assim, tomamos de empréstimo o vermelho do almodovar e por enquanto estamos a salvo. nada pode ainda nos fazer mal. e se algum escroto vier aqui e achar que eu disse algo indevido, é porque o adjetivo que lhe impus lhe cabe muito bem.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Sobre "beijo de amor" e "amo-te"

não uma. ou duas. mas umas cinco pessoas perguntaram sobre o que eu sentia. como me sinto? quando me perguntaram, eu sorri. ora, era para sorrir; chorar é que não dava mais. aquele sorriso de quando ouvimos uma fofoca indevida que deveria doer bem ali onde não dói mais. o que sentir quando sei que minhas expressões se espalham? e são ditas pelo outro a uma outra que não a mim? ora, sinal que funciona. mas perde o valor? é sinal de maldade, de impiedade, de falta de cuidado para comigo? estas perguntas vêm junto no pacote. também vem junto um misto de desprezo e ironia. sim, um dia tudo se perde. eu sorrio de um sorriso indefinido, e entre divertida e surpresa [a surpresa é sempre uma forma de negação do horror causado pela ação inesperada do outro], esboço respostas que catalogo, agora, aqui. a quem se diz “beijo de amor” quando se diz “beijo de amor”? a quem se diz “amo-te” quando se diz “amo-te”? estas expressões me pertencem? quem mais ao redor de mim as usava antes de eu usá-las? creio que ninguém. mas isto faz com que sejam minhas? ou de certa forma eu as doei? e o que é devido? se eu as doei, elas me pertencem ainda? sempre achei “eu te amo” uma frase maravilhosa. nunca me recusei a dizê-la. eu assim digo; como assim beijo. eu beijo irmãos, sobrinhos, amigos, amores, conhecidos – todas as pessoas que amo ganham sempre de mim um “eu te amo”, e mais abraço apertado, beijo melado. o toque, este que tantos têm medo, eu toco. talvez por isso – pelo tanto dizer – algumas vezes eu sinta necessidade de dizer “eu te amo” diferentemente. então eu invento. primeiro inventei “amo-te”, aproveitando o pouco uso da proclise no português brasileiro. e doei o “amo-te” a uma pessoa. criei para ela. para ser mais do que “eu te amo”. foi também por isso que criei o “beijo de amor”. e achei tão bonito que também assim o disse a minha princesa. beijo de amor para dois. outra forma de acréscimo ao meu gosto pelos diminutivos, pelos cortes nos nomes próprios, pelo tratamento “exclusivo”; é minha alma dengosa que gosta. é de mim. é por isso que eu continuo sorrindo quando me dizem que o "amo-te" e o "beijo de amor" estão em outras bocas. falta-lhes imaginação? sobra imaginação em mim? talvez nem uma coisa nem outra. talvez seja excesso de ternura, de amor. porque estas expressões começaram a ser ditas por mim para isto: para alastrar uma ternura, um amor, que no momento da invenção se queriam e se imaginavam únicos. mas ternura é reiterativa; espalha-se e se reconstrói quando parece que se desfaz. da minha parte, por fim, convém dizer que por pruridos ou por excesso de imaginação eu não uso agora o "amo-te" ou o "beijo de amor", a não ser para alguns amigos. e sequer digo “amado”. amado ainda me parece um nome próprio. essas palavras, de certo modo, expressam a inteireza do que um dia deu certo e foi bonito. como “inventora”, como “autora”, eu me permito crer que posso inventar outras expressões e me desgarrar destas como quem sabe que o que criamos deve sair livre pelo mundo, deve se apropriar de outras ilusões, sob o risco de se perder para sempre. por isso, agora eu invento novas palavras. e quero crer que me recrio. recrio meus gestos. reaproprio-me do meu corpo. e este novo corpo que inventa pede um outro tanto. eu ando me recusando a ser igual. a dizer o mesmo. eu ando à caça de ainda mais delicadeza. e de pessoas ainda mais delicadas entre tantas que já habitam em mim. eu quero toda por inteiro me reinventar. e nessa reinvenção estar ao alcance de alguém. e para este alguém, eu me quero toda diferente. para que o amor não seja repetição. seja também algo novo.

e o que me disseram estas quatro ou cinco pessoas que me perguntaram como eu me sentia foi que ainda e por muito tempo “amo-te” e “beijo de amor” serão palavras minhas. mesmo que eu não as profira. e que sejam proferidas por outros.
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foto: minha sombra e, atrás dela, a arte de cy à espera da parede.

sábado, 6 de dezembro de 2008

Sob os céus de Roma



nas páginas da internet, leio que 5 milhões de pássaros invadiram os céus de Roma. enquanto as autoridades não sabem o que fazer, eu me lembro do inverno de 2006, quando eu e mari estávamos sob este mesmo céu durante cinco dias. no último dia, já sozinha, eu carregava apressada minha mala, dois pacotes, o quase frio, a cabeça de vento, quando me surpreendi com o barulho das asas. em êxtase, só tive ação para clicar estas duas fotos. últimas imagens que agora, sem que meus olhos vejam, se repetem nos céus de Roma.
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Dor


na manhã que parece noite, nossos olhos vêem - talvez pela última vez - as pedras do rio madeira. as pedras daquela tarde. e daquele pôr do sol. e daquela noite sem fim. e desta manhã. o "progresso" vai deixar tudo embaixo d'agua. como é que se chama o nome disso?

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prece às avessas de uma professora

eu leio. mas é difícil para mim. sofro. não sei ler com hora marcada. texto marcado. tanto livro no mundo e uns dez na minha frente por obrigação. é como querer nos obrigar a trepar sem tesão algum. chafurdamos na lama imaginando outra cena, até que quase é. mas não é. depois fica aquilo apodrecendo até ao limite do insuportável. o curso de letras é cheio de cadáveres. e eu não finjo. muitos destes escritores para nada servem; talvez para fazer um leitor se enfastiar até quase à morte. tudo cadáver. um verdadeiro leitor nunca vai ler certos livros que nós, coitados, somos obrigados a. é uma tortura chinesa sem prazer algum. eu não quero saber quem é afonso lopes, jerônimo baía e muitos outros que estão nestas malditas coletâneas de histórias da literatura e vão parar em ementas dos cursos por pura preguiça de quem as faz. ou por puro não-saber. ou por puro descaso. e nos resta escandir versos mortos. uma masturbação sem borboleta. oh jesuscristinho, quero de novo minhas borboletas sem hora marcada. quero de novo a verdadeira literatura. aquela que me embriaga. que me deixa insone. que me deixa revoltada. mas de uma outra espécie de revolta que não esta.
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terça-feira, 2 de dezembro de 2008

emoção é a palavra

ouvimos este cd com a alma na mão. o coração aos saltos. e saem tão espontaneamente palavras de admiração. é um momento único, um músico único, como diz o apresentador do festival de montreux. em 1979, eu tinha apenas 5 anos. ele, ainda nem tinha nascido. e agora rimos feito meninos ouvindo as peripécias deste senhor de cabelos todos brancos nas terras do velho mundo. a verdadeira arte, seja qual for sua manifestação, não envelhece nunca. pulsa como um coração em contato com o coração do outro.

eu tenho tanto a dizer do espanto destes dias. mas por que espanto, falta-me o tempo. olho agora para os irmãos karamazov. carrego a caixa como quem embala um bebê. dentro dela, os desejos. e os anzóis vêm em minha direção. cadê cyane que está bem aqui na minha frente? suas adagas e seus anzóis, estão. mas sinto sua falta na janelinha virtual.

e o que dizer a nilza, que me leu e escreveu assim tão bonito? "adorei, amei, me encantei. chorei até umas horas. Meu pai vem é lindíssimo, de uma singeleza, como vc gosta de dizer, delicadeza, meiguice. Seu prof tem toda razão, a sua escrita escorre quente, humana, de parto natural. Vc já deve ter fãs n°1 aos montes, portanto quero ser só a leitora de outros mais escritos como estes".

por inteira, me emociono. e mais do que nunca sinto que o caminho é este. o caminho do bem-querer. da gentileza. do cuidado. da dedicação. da concentração. e também da dispersão. da noite longa. dos olhos cúmplices e marotos. do entregar-me inteira à aventura do viver, mesmo que a lágrima caia. mesmo que os enganos existam. há e haverá sempre uma varanda com vista para a estrada. a varanda da imaginação. e durante a noite corre um vento frio. um sopro quente. e a ternura.

sim. ainda minhas meninas. diazinhos beijando-as todos os dias. com gosto de batata recheada feijoada peixe sushi sashimi. as delícias da mesa; tão boas que não deveriam engordar. e tão bonito maneca me deixando na rodoviária dirigindo seu super carro, adiantando a cabeça para receber meu beijo enquanto pergunta quando voltarei numa saudade que parece antecipada pela presença. logo. logo.
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e a manhã com cara de noite. passeio pela chuva até ao rio que agoniza. a vitrola interna exteriorizando um sem-fim de cumplicidades. e a noite com cara de madrugada. olhos doces e sabidos a me ouvir. e eu, com meus zoinhos cada vez menores, a escutá-los. depois a rua vazia recebe nossos passos trôpegos. chaplins ébrios carregados de memórias imaginando alto o diário de florença.
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sim, a vida. hermeto eterno. o fogo. e o espelho que quebra no momento de ir para a parede. e ainda pina bausch e leonilson sobre a mesa à minha espera. e julio cortazar, que me lembra denise. de quem sinto saudade. e aqueles olhos doces me trazem também marie, de quem também sinto saudade. e mari me lê por aqui. ficaria vermelha, se fosse branquela. sendo preta, ruborizo por dentro.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Ainda May B

may b demora a sair de mim. talvez por isso vasculhe a net à cata de. encontrei belas fotos do fotógrafo olivier rickebusch. os fantasmas no meio do deserto. e também palavras de maguy marin.
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"Arriver à déceler ces gestes minuscules ou grandioses, de multitudes de vies à peine perceptibles, banales, où l'attente et l'immobilité "pas tout à fait" immobile laissent un vide, un rien immense, une plage de silences pleins d'hésitations. Quand les personnages de Beckett n'aspirent qu'à l'immobilité, ils ne peuvent s'empêcher de bouger, peu ou beaucoup, mais ils bougent".
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é isto mesmo. a imobilidade total é apenas miragem. "pouco ou muito, ... eles mexem". o "nada imenso" de beckett é insuportável. mas como disse rimbaud, "o insuportável é que não há nada insuportável".



sexta-feira, 21 de novembro de 2008

à memória de may b


(para quem quiser situar o que me parece insituável, eu aconselho a ler antes o post anterior, que está logo aí embaixo)

meu amigo me deixou ali sem esconder o espanto ao saber que eu ia ao subúrbio de paris para assistir a um espetáculo de dança. achava um absurdo tanto tempo despendido. mesmo assim saiu gritando para eu não esquecer a chave. era imprescindível usar a chave. para mim, imprescindível ver o espetáculo. era may b, de maguy marin, inspirado em beckett. de tudo que vi no ano beckett em paris, foi este espetáculo que quebrou as minhas pernas. todo mundo sabe que eu sinto dores quando algo me arrebata. e ainda assim posso dizer que com may b o arrebatamento foi inominável, para usar uma palavra do vocabulário de beckett. não foi a mesma angústia que senti ao assistir a bandonéon, de pina bausch, causada em grande parte pela tristeza infinda daqueles dias. em may b, foi uma angústia de quem se sentiu lado a lado de beckett, como se eu tivesse me transportado para um mundo insuportável. foi a leitora de beckett que foi ao inferno naquele teatro. todas as personagens dançaram sobre mim. aqueles seres sonâmbulos, enfileirados, arrastando seus pés, naquele lugar sombrio, fechado, claustrofóbico, atingiu não apenas a mim. éramos todos fantasmas habitando o mesmo espaço. eu me arrastei como eles. e diante do pére lachaise, duas horas depois de findo o espetáculo, embora soubesse que ele me esperava, sentei para olhar os corvos. e olhando os corvos o mundo todo se fechou sobre mim. eu era ali uma alma penada perdida na noite de poucas luzes. muito tempo depois, girei a chave na fechadura. eu nunca tinha tido a chave da casa de alguém que me esperava. e que me esperava com uma certa imagem – a de quem sorria com a espontaneidade desejada. logo naquela noite em que eu era tudo, menos a vitrine que eu tinha cuidadosamente construído para ser eu. eu não podia, naquele momento, ser a vitrine. eu me pressentia como uma grande víscera exposta de onde se podia ver cada putrefação. e mesmo assim eu girei a chave. ele não me disse nada quando me viu. sentou ali ao meu lado até beckett ir embora, envolvendo-me em um silêncio cheio de palavras. depois serviu o jantar. havia vinho sobre a mesa. e música na vitrola. muito tempo depois ele me disse que aquele choro que não compreendeu era a mais bela tradução de minha pessoa. e que tinha aprendido naquela noite a traduzir um estrangeiro sem o estereótipo. até hoje o verbo traduire me espanta. o que ele diz de mim e daquelas vísceras expostas? talvez por isso eu guarde em mim aquela noite como um dom. eu a chamo noite may b. e assim, carregada de memória, desta memória que nos tatua, assisti a umwelt, também de maguy marin, no SESC pinheiros, na véspera do meu aniversário. e talvez por não ter mais a chave, que deixei lá em uma manhã de frio quando fechei para sempre as cortinas de tecido cru, enlouqueci um pouco no decorrer da noite, de uma loucura feliz. havia fantasmas demais em mim. mas eles dançavam - uma dança louca.
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May B em 28 de janeiro de 2007


Finis
C'est finis
C'est peut-être finis
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May B. Fui às lágrimas. A francesa ao lado também soluçava. Antes, lia um livro de Dosto. May B é Beckett em movimento. É terrível ver a dor a descrença o abjeto o horror o mutilado o não o sim a espera o corpo a miséria a torpeza o aleijão o pior dos mundos [o de dentro de nós] o medo a dúvida a angústia a solidão o luto o escárnio o sexo mecânico [há algum que não?] o obscuro o absurdo o estranho a memória o estrangulamento a desordem a repetição o peso o emparedamento - em movimento. Grutas Cavernas Buracos. Hesitação. Peut-être. Talvez. Quem pode nos salvar da humanidade que há em cada um de nós? Alguém pode nos salvar do efêmero do transitório do absurdo dos desejos dos medos? A salvação é uma mera formalidade. Perder-se é tudo na obra de Beckett. Os dez dançarinos gemem grunem arrastam seus pés deixando uma nuvem branca que pouco a pouco toma conta do palco: e soltam seus vermes seus espasmos seus gemidos - defecam - na hesitação disto que é a literatura no seu mais alto sentido; na dança no seu mais alto espanto. Perplexidade. Dúvida. Haverá algum dia um dia? Não se pode morrer sem ler Esperando Godot; Fim de partida; Molloy; O inominável; porque são nestes livros que se aprende a morrer a cada dia; e a viver sem que a vida seja ela mesma uma vida de ameba. A imobilidade de Beckett - seu absurdo riso - pesa sempre sobre mim a me mostrar o abismo profundo. Não há nenhuma terra prometida. E quem precisa dela, se só nos resta a solidão quando os outros dormem o sono dos justos. A justeza e a justiça são tão vazias. A luz diminui. Apaga. O homem fica só no meio do palco. Hora de parar de chorar. Todos aplaudem por mais de dez minutos.
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* May B, da coreógrafa Maguy Marin, foi concebido em 1981, e já atravessou meio mundo em mais de 500 apresentações. Estava na programação do Festival Beckett, organizado por Peter Brook, em diversos espaços e linguagens, aqui em Paris.
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* Vi no Teatro Jean Villar, em Vitry-sur-seine, às 16h. Difícil chegar lá. Prazerosa a busca.
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segunda-feira, 17 de novembro de 2008

zeca baleiro... e o que digo quando o escuto

um músico que nunca deixa de tocar na vitrola daqui de casa é o zeca baleiro. agora que voltei a morar sozinha, ele deve atrapalhar um bocado os ouvidos dos vizinhos. pois zeca baleiro pede música alta, pede balanço no corpo, pede sorriso maroto. e pede dançar agarradinho rindo das dores de amor. pede para se danar. desde o primeiro cd zeca transa esta coisa que chamam de “brega” com muita irreverência e humor. ele colhe o bom sentido deste brega e faz uma zoeira danada com suas "trombetas distorcidas e harpas envenenadas". para mim, por onde andará stephen fry e vô imbolá trazem uma macumbapopeletrônica difícil de ser igualada a qualquer outro cd seu, mas eu gosto disto. ele não seguiu um caminho já dado. virou outra coisa sem perder a invenção. sempre com muito estilo, muita inovação. foi assim em líricas. cd pra lá de conceitual. tem uma música lá que é toda minha história com alguém muito lindo. e totalmente alheio. muitas vezes eu deixei em suspenso a pergunta de qual era "a parte da sua estrada no meu caminho". o tempo se encarregou de dizer qual era, mas o "quase nada" - que foi muito - ficou para sempre. assim como ficaram os versos de "brigitte bardot"::: "a saudade/ é um trem de metrô subterrâneo escuro/ escuro claro/ é um trem de metrô/ a saudade é prego parafuso/ quanto mais aperta/ tanto mais dificil arrancar". foi muito depois que eu entendi o que era isto. foi no último metrô. então minha história se confunde nas músicas de zeca. agora ouço este "lado z". e é muito, muito divertido. tem a ver com meu atual momento: de muita alegria. e é o lado z mesmo: tem odair josé, tem moreira da silva, tem martinho da vila. tem tom zé. tem joão do vale. tem sérgio sampaio. tem a voz rasgada do zeca. levei para os meus alunos ouvirem. e saiu cada comentário. dá vontade de beijar na boca. dá vontade de se matar. de dançar agarradinho. cruzes de amar assim. e muita risada. porque dar risada é imprescindível. é o elixir. a tosse vai embora. a garganta arranha. responsa mostrar este avesso aos alunos.

e isso porque nem falei de ode descontínua e remota para flauta e oboé, cd onde ele musicou poemas de hilda hist e entregou às vozes de grandes musas da música. eu me embrulhei toda nesta entrega de ariana a dionísio. eu quero amar assim. eu quero que alguém venha aqui e me faça calar. e me deixe falar. e não me peça licença. ou não venha para que tudo vire poesia. ou que venha e ponha esta música para mim. e transforme a casa em cinema. e me olhe com desdém, com humor e com paixão. e não se intimide com meu espírito de colecionadora e me mostre que tem muito ainda que não vi nem tenho nem sei. eu não vou rastejar por esta pessoa. porque não sei rastejar. vou ser altiva como ariana. mas vou me entregar como ariana. só peço para não ter medo de mim. eu não meto medo. eu sou uma senhora com alma de menina. eu só quero alguém que me faça rir. que me deixe ir. que vá comigo. que me leve a esquecer a insônia. e me faça perder o sono. é tudo que posso ser. ser para o outro. sem promessas. sem salvo-conduto. pára-quedas que não abre. ou abre no último segundo. juro, como ariana, que sou inteira. que me divido, mas inteira me entrego. eu não me basto. nem o outro me basta. mas dois se bastam. dois sentem melhor o sol que está para nascer. fico com vontade de dizer estes desvarios ouvindo estas odes. fico aqui, então. na vitrola.

pois zeca. é melhor ouvir. na sua música, "deus brinca de gangorra no playground".

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Nosferatu - os dois filmes


Ontem, menos um buraco no meu amor pelos filmes. Menos dois buracos. Assisti aos dois Nosferatus. Eu já tinha tentado ver o clássico de F. W. Murnau em uma retrospectiva do expressionismo alemão que houve na Cinemateca Francesa quando eu estava em Paris. Um problema no metrô me fez chegar atrasada meia hora. Clássico é clássico. Uma enciclopédia o constitui. O imaginário está formado. A emoção é ao mesmo tempo saber. Não tem comparação. E me resta concluir o que muitos ja concluíram: é sublime. Porém, Nosferatu, o vampiro da noite, de Werner Herzog, me tocou muito mais. Talvez seja esquisito falar isto de um remake. No filme de Murnau, a beleza do preto e branco é uma aula de cinema (é uma escola, é o próprio expressionismo alemão), mas Herzog, a meu ver, conseguiu algo magnífico: vemos o mesmo preto e branco em seu filme em cor! Vemos a mesma luz difusa recaindo sobre as personagens para destacar suas expressões, seus gestos, seus pavores. Tal e qual! E que vampiro triste! E o terror, neste filme de terror, é esta tristeza expressa em cada gesto do corpo do ator Klaus Kinski; é através de seu corpo alquebrado, de seu rosto atormentado, de sua loucura - inveja e despeito, superioridade e inferioridade, amor e ódio -, que sentimos em toda a dimensão o horror da imortalidade. O horror de não ser humano. E Isabelle Adjani, como Lucy, lânguida, belíssima, quase um fantasma, entregue literalmente aos dentes do vampiro Nosferatu, é uma das cenas mais bonitas que já vi. Há muito de horror, de gozo, de fé, de loucura, de fascínio, de entrega, no sacrifício. E se o sacrifício da "pessoa pura" é muito mais enfatizado no filme de Herzog é justamente para nos provar isto.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

no mato


o ser humano tem a mesma natureza
vê tanta beleza
e abre o coração
a regra diz pra comer na mesa
mas gostoso com certeza
é comer na mão
(chico césar)
.
eu tenho aprendido muito. pensei assim ollhando as estrelas lá no mato. este tipo de pensamento vem fácil olhando as estrelas. sentindo o barulho do rio lá embaixo. ou dentro do rio rindo que nem criança que não teve infância e de repente se lembra de uma fresta daquele tempo. havia uma menina triste em mim. e outra sorridente. e outra amorosa. quero crer. quero crer em muito. uma lágrima caiu. mas eu a coloquei para dentro. nunca faço isso de colocar lágrima para dentro. mas fiz porque achei que estava chorando por engano. eu queria mesmo era sorrir. e crer naquele momento. ali no rio. ali na beira do rio. ali dentro do rio. ali na barraca que comprei por outra razão. mas que de repente comecei a achar que ela foi comprada para aquele instante. se o instante só existe quando existe emoção. que ela se armou por milagre. e que é um milagre a vida de todo dia. esta tecitura. este amarrar de nós. bem fortes para não desamarrar. talvez isto seja de fato desaprender. isso de sentir o barulho dos sapos e se sentir como se fosse um. uma sapa. um sapo. dois sapos. um coaxar que não assusta. ou assusta só um pouco. dois tatus. isso de sentir a areia. não areia fina. cascalho que arranha as costas. e fazer figa para que arranhe bem muito. para que deixe marcas. e que sejam todas bonitas. como o dinossauro que vi nas nuvens. como o pingo grosso que nos molhou. como a barrigada que dei porque nada sei de mergulho. suculenta e saborosa como a carne que comemos como bárbaros. longe dos pratos. com os dedos afundados na gordura. isso de desaprender tem sua beleza. pensei errado então. assim como chorei errado. eu agora desaprendo.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

26 de outubro: abertura da bienal de São Paulo

Sendo mais Duchamp do que Leonardo da Vinci, museu D’orsay do que Louvre, mais Ernesto Netto do que Beatriz Milhazes, nada mais apropriado do que ir a Bienal no dia do aniversário. Ou isto ou não ir mais. Dia seguinte, voltar para casa. Tarde perambulando sozinha. Paredes do estômago se encontrando. Ânsia aqui e acolá. Ressaca dos diabos. Uma bienal feita não para meu gosto “avançadinho”, mas para meu estômago bebedor de coca-cola e cerveja. A Bienal do vazio. Uma aposta radical derivada dos tempos de crise. Uma aposta crítica::: combater a idéia de Bienal dentro da própria Bienal. Nada daquele frenesi, daquele amontoado de obras. O entulho engolido. O segundo pavilhão inteiro ao nosso dispor. Sentar. Deitar. Checar a máquina. Olhar o menino que corre. Desejar. Lembrar. Morrer um pouco. Observar aquelas curvas. Sentir a falta das paredes. O projeto moderno faliu de vez? Mas o vazio já não era uma proposta moderna? A arte acabou. Viva a arte. O vazio cheio de sentidos. Os parques de diversão entregues ao alarido do silêncio. Vem um homem e os fotografa mundo afora. Fácil? Fácil. Porém, corajoso. Não que a Bienal mostre o que seja a arte “hoje”. Ela escolheu um braço, abriu um hiato e tornou tudo intimista, pessoal, subjetivo, confessional, monocromático como os suportes de madeira que sustentam os poucos artistas escolhidos para expor no terceiro pavilhão. Uma arte da confissão. Os corpos dos artistas – em suas variadas poses - dispostos à nossa posse, ao nosso corpo de voyeurs. “A visão da pintura ocidental” é já reprodução nas paredes da Bienal. Reprodução e trabalho crítico: Fernando Bryce cataloga o desvario do outro. É impressionante. Também impressiona a outra série de quadros quase escondida pela “foule” que forma filas para descer o tobogã de Carsten Holle – o único trabalho realmente bizarro de toda a Bienal – que a excede, corrompendo as paredes do prédio até o lado de fora. Na série de quadros, dispostos em ordem alfabética, os caracteres do romance O estrangeiro, de Camus. Não bastam as reproduções, ainda me vem esta paisagem branca dos quadros de Vibeke Tandberg: ainda é o romance de Camus? Ainda é arte? Meu estômago bebedor amaldiçôa a multidão que mal repara no soco de estômago destes quadros. Amaldiçoa-os a continuarem descendo o tobogã, se isso lhes dá prazer. Talvez por isto o estômago bebedor fugiu das “obras participativas” e se perdeu por mais de uma hora vendo as gravuras de Leya Mira Brander: na convulsão de imagens e frases repetitivas, um mundo de delicadeza. Sentimentos em miniatura. Eu me embrulho toda. Paro. Recomeço. Fecho os olhos. Sinto medo. E uma ternura imensa. Depois tento ler o diário de Sophie Calle. Malditas aulinhas de inglês que me servem malemale. Tento decifrar a sua obsessão autobiográfica que já tinha me fascinado no Museu de Arte Moderna do Pompidou. Por instantes, penduro minha alma no varal. Vem o vento e a leva junto com o varal. Saio correndo enquanto alguém me olha com ternura. Quando foi mesmo? No caminho, encontro o tapete voador, que está lá na Bienal; é só olhar para cima. Por isso, paro. Ardo. Choro. E dou meia volta. Quem for, não esqueça de levar a chave. Qualquer chave. Entre na fila e troque pela da Bienal. Com ela, pode-se entrar a qualquer hora. Mas não acredite simplesmente.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Junio Barreto, pernambucano

ontem acordei de susto
do ronco da minha barriga com fome
bem quando sonhava
que estava jantando
com alguns amigos bons
.
quase trôpegas. ou ainda não. e ainda com entrada vip (era niver, o moço acreditou logo, porque eu sou assim: dia de niver fica escrito na testa: "é hoje o dia"). assim vimos junio barreto fazer as honras do studio sp. junio barreto é um músico muito atípico. é um pernambucano atípico. não no sotaque, que é igualzinho a de todo pernambucano. mas no modo como traz de lá a sua música. eu queria dizer que ele é o joão gilberto pernambucano. será que pode? tá bom. já disse. ele tem um cd independente com uma capa muitíssimo estranha. coisa caseira. tem nem nome dele. sei não. é bom. e como joão gilberto, eu tive que ouvir mais de uma vez para gostar. mas cada vez que ouço esta bizarrice, mais gosto. ai - este arrastar de voz. esta língua. é bom. muito bom. sambinha devagarzinho com sotaque. arrastando também as batidinhas eletrônicas. dá preguiça, muita preguiça. e vontade de dançar malemolenga. me disseram que eu tirei o chapéu para ele e o saudei à moda japonesa exagerando enormemente. e lhe disse que já conhecia o seu cd e já tinha ido ao show dele e que gostava demais, sabe? pago um mico deste e ainda pago o mico de esquecer. tadinha. importante é esta sonzeirazinha, coisinha de nada. desimportante, das desimportâncias próprias da arte. amém, mãinha.


afro-reggae. eles já bastariam. uma sonzeira coletiva linda de ver e ouvir, incrivelmente boa de dançar. mas como entendem bem do fazer junto, ainda trouxeram vários convidados. resultado? muito suor.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

a moça de chapéu vermelho clicada no museu pela amigamari
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fazer planos é a maior besteira. dá sempre merda. até uma gripe filhadaputa acompanhada de uma inflamação na garganta me faz lembrar que o simples ato de engolir pode ser bem doloroso. e dor é soberana. instala-se e expulsa tudo. pois a vida dói. às vezes dói como dói esta garganta inflamada. e eu com tanto a fazer, as melhores intenções do mundo, multirão de leitura e de textos a corrigir, mal consigo levantar a cabeça, pernas doem, a tendinite fica aguda, a cabeça vira uma esponja e toda a água do mundo resolve se alojar na minha boca me fazendo cuspir a todo minuto como uma velha mascadeira. e eu fico três dias atrás de uma misericórdia divina ou farmacêutica ou de benzedeira, qualquer coisa que o valha, quando deveria estar atrás do que tenho mais que fazer. é foda, nãosuportoestafraquezanocorpo, talvez por isso acordei no meio da noite choramingando - sem saber se com frio ou com calor, na dúvida liguei o ventilador e me embrulhei com o edredon que veio junto com minhas coisas que estavam no naufrágio e segurei na mão. mas tudo isto foi depois do bolo de aniversário. teve bolo de verdade, com cobertura em cima. para mim e para o lobão. bolo e vinho e vinho. e eles. esta moça kotz não é de brincadeira. nem este moço ney.

agora o nascer do sol. ele me dá agua. e me faz chá. e bagunça a casa sem nenhuma cerimônia instalando som e fazendo virar cinema. e fica doente como eu. mas tem mais humor. e quando melhoramos um pouco, assistimos a uns filminhos, que é tudo que se pode fazer quando o corpo está neste estado de degradação. e eles vêm. a turma toda. e os beatles amolecem nosso coração e enternecem nossa alma e ficamos achando que a vida é bonita. quem pode imaginar uma moribunda? aposto que a rô achou que era invenção.

aí o primeiro dia veio, hoje. quando a campainha toca às 8h30 da manhã e um corpo neste estado precisa se levantar, coitado de quem a fez soar. mas é um portador. tem nas mãos um pequeno pacote onde reconheço de imediato a letra do meu anjo ruivo. tremo antes mesmo de abrir, envolta em emoção antecipada. dentro dele todo o nosso afeto. não são as coisas que me emocionam. é reconhecer nelas as nossas conversas. é me reconhecer nelas. é saber que a ruiva as escolheu porque presta atenção em mim, porque sabe o que amo. e eu a sinto inteira aqui. ela está deitada na rede vermelha. eu estou sentada no chão ao seu lado. até que ela me diz algo e eu agarro o seu pescoço e ficamos por ali enternecidas de amor.

então a tv acende. el greco começa. e eu vejo os muros de toledo. eu me vejo na cidade. me vejo vendo as suas muralhas. me lembro da promessa que fiz por lá. me lembro do acidente que quase provoquei. me lembro do conde d'orgaz. lembrar é o céu e o inferno. mas é o céu que toco agora. e depois leio as cinco notas sobre a obra de louise bourgeois. ai ai ai.

agora o dia pode começar. o corpo mareado está carregado também de amor. vou ligar o automático e fazer o que tem de ser feito. vou começar indo ali pagar umas contas antes que a conta estoure de vez. quando eu virar uma pessoa séria, eu serei minha irmã mana. contas no automatico. organização na caderneta. poupança para a velhice. mas pensando bem, será que eusendominhairmãmana escreveria neste blog? por enquanto, então, continuarei sendo eu mesma. porque gosto deste blog. e gosto da minha vida. embora eu queira um pouquinho do juízo da minha irmã mana e outro pouquinho do da minha irmã maneca. mas eu tenho cá para mim que tenho só a tranquilidade da minha irmã morg. acrescida de uns desvarios da minha mãe. receita nada compatível com o juízo das minhas irmãs mana e maneca. ai ai ai.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

O Hamlet de Aderbal e Vagner Moura

O cenário é horrível. Os tênis incomodam. A Ofélia é bobinha e recita vez ou outra. Vagner Moura cospe demais. Alguns pulos são sublimes; outros bastante idiotas. E o “mamãe” com voz de falsete é de embrulhar o estômago. Mas como o que importa, já diz o Vanguart, é o que faz rachar as velas, nunca tinha visto um Hamlet tão visceral, tão louco, tão astucioso, tão irado, tão cínico, tão teatral, tão apegado aos detalhes, tão lindo. Quando vem “o resto é sillêncio”, o corpo todo pede tudo de novo. E me vem a tarde em que vi uma entrevista de Vagner Moura. E tenho certeza de que o que há de erro e de acerto na montagem vem do horror que o texto lhe causa [a entrega ao horror é o oficio de qualquer grande ator, não?]. E também deve tomar conta de Aderbal Freire-Filho.

Eu diria que é um clip do Radioread, mas quanto mais penso, mais quero resumir tudo assim: Hamlet é Dom Quixote. Hamlet é o príncipe Michkin. Hamlet são todas as personagens antes e depois dele. Hamlet é o próprio teatro. E esta encenação nos diz exatamente isto.

Espelho


E quem puder que lute contra o outro com tanta beleza.
Contra o seu outro.
Contra o outro do outro.
E rasteje até quase lá.
Até quase alcançar.
E alcançar outra coisa
Equilibrando-se em pedras soltas no ar.
Se tombar nenhuma piedade no segundo seguinte.
Mas quem pode?
Só quem tem coragem.
.
.
.
Penduro minha alma em ganchos.
E sento na cadeira de cabeça pra baixo.
Como vi.
.
.
.
putaquepariu!
queespetáculomaismaisfodido.
.
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* foto de divulgação

Sonny Rollins


O que não tem preço?
Ver e ouvir Sonny Rollins com a Mari na véspera do meu niver no Parque do Ibirapuera.
Não é sempre que podemos ver e ouvir uma lenda do jazz.
Ao meio-dia.
Digrátis.
O sol nos deixando mole.
E o seu saxofone nos enfeitiçando.

Queimando a pele toda por dentro e por fora.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

velinhas para mim

era para ter sido duas caipirinhas a menos. ou duas cervejas. ou ter biritado menos no copo de álcool da tati. mas foram duas caipinhas a mais, duas cervejas a mais. e o copo desta menina linda estava tão bom que a noite foi ficando cada vez mais bela mais exagerada mais louca mais mais mais. eu digo que desejar é perigoso. sim - digo isto ao fazer 34 anos. desejar e cuidar do desejo. desejar é perigoso porque o desejo sempre carrega em si a chance do vir-a-ser. e digo isto porque eu desejei um aniversário e ele foi tal e qual. até o studio sp pareceu estar ali como do nada. havia tantas opções. e o studio era dos planos de antes. e de repente ficou sendo o da hora. e foi tal e qual. e ainda mais. mari me diz que o exagero é o meu próprio e que nada nem ninguém deve tirar isto de mim. só eu mesma quando achar que devo parar de querer "tudo aos tubos". crio uma imagem do "tudo aos tubos" e sorrio sorriso grande. e me assusto com a idéia dos 34. muita idade. mas me acalmo se penso no percurso. modéstia às favas, eu acho que posso dizer que vivo bem. e vivo bem na medida em que tudo faço para viver bem. para viver como acredito. viver como quero. tenho parafusos soltos na engrenagem. mas eu os deixo soltos ou porque não sei onde montá-los ou porque muitas vezes não quero mesmo montá-los. a engrenagem solta busca melhor. a desmontagem das crenças, a reinvenção de outras, talvez seja o que eu queira de melhor para mim. sei que é difícil entender, mas ter passado a noite no studio sp ouvindo, dançando música boa, meio inconsciente ou totalmente inconsciente, talvez explique bem o que eu quero dizer sem dizer. eu dizia ainda há pouco que havia me cansado da noite, que não tinha mais "idade", mas em uma das noites insones eu me vi com saudade da noite. destas noites em que se dança, em que se sua, em que se levanta o chapéu para olhar melhor alguém que no outro dia não lembraremos nem do rosto. eu me vi com saudade e senti que era bom não cristalizar nada, não acreditar que já sabia exatamente do que gostava e do que não gostava mais. então desejei dançar a noite toda no meu aniversário. então eu comecei a dançar a meia noite do dia 26 e parei apenas às 6h da manhã. e depois saímos andando pela cidade. tal e qual. mari me contou como foi. porque eu não lembro de quase nada. devia ter sido duas caipirinhas a menos. ou duas cervejas. mas todo o resto deveria ter sido tal e qual.
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gracias às moças lindas que me acompanharam e cuidaram de mim. devo ter dado trabalho. mas também muita risada, assim:::: amém e bis!

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

A 32ª mostra de cinema de São Paulo

Eu não sei se uma Mostra de cinema da envergadura da de São Paulo é uma dádiva ou uma tortura para uma metida a cinéfila como eu. São as duas coisas na mesma proporção! O frenesi, a correria, uma certa histeria, para dar conta de ver um tiquinho dos filmes (mais de 400 nesta edição!), são inevitáveis. E é delicioso. E a frustração de não conseguir um ingresso? E quando o filme é ruim e ficamos a imaginar nos tantos outros que estão passando simultaneamente e "certamente" são melhores? e o folhear interminável do catálogo em busca de filmes que não aparecerão no circuito nacional ou mesmo aqueles que aparecerão apenas aqui em Sampa e eu não terei a oportunidade de ver? avedapalavra! me vem aquele desejo de ser mais de uma, mais de uma, mais de uma... Ops! Já pensou mais de uma Milena pelo mundo? é melhor parar com o delírio, porque sendo só uma eu já me dou bastante trabalho! Por ora, eu me sinto uma errata exilada na floresta. Uma errata feliz.
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E, no meu caso, como não poderia deixar de ser, a Mostra tem disputado com congresso em outra cidade, exposições, peças de teatro, comprinhas para a casa na floresta... mas eu dei conta de assistir a nove filmes por estes dias, sendo que uma parte não é da Mostra. Se tivesse tempo falaria sobre cada um deles. O que dizer de Sem sol, do documentarista-poeta Chris Marker, que vi ontem na casa da Dê? Não bastam adjetivos!
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Nesta salada, o cinema do argentino Pablo Trapero foi uma descoberta da Mostra. Nascido e criado e Leonera são filmes que vou guardar para sempre na caixinha de memórias. Trapero constrói um cinema de pessoas em situações-limite, tecendo com muita delicadeza o "depois" da quebra, da ruptura. Como viver depois da perda? como decidir o caminho se parte dele faz parte do indecidível e é permeado de horror? Nas primeiras cenas de Leonera, estas questões nos espetam como esporas. Depois da quebra do cotidiano, a protagonista tenta seguir como se nada tivesse acontecido. A água do chuveiro leva o sangue do seu corpo e ela parte para o trabalho. No entanto, quando volta para casa, o horror continua ali espalhado por todo lado. O que resta é o enfrentamento. E não é apenas isto: a maternidade, o ambiente inóspito da prisão, a ambigüidade da inocência e da culpa, tudo vem neste "depois". A dureza e a aspereza enchem-se de pequenas delicadezas e põem qualquer alma em cima de uma navalha. Cada cena se encarrega de construir a tensão e a emoção com muita sobriedade. Houve momentos que eu nem sabia por que chorava de tanto que a cena era sóbria, mas chorava! E chorava por causa do filme, como se sentisse tudo aquilo, sentisse o que a protagonista se recusava a sentir e que, por fim, sente em toda completude.
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"- Diga-me, Mari, o que te constitui e você não poderia viver sem?
- ... Hum.
- No meu caso, eu não poderia viver sem livros e sem música. (pausa longa). Pensando bem, eu não poderia viver sem filmes. (outra pausa). Eu fico sem ler, mas se fico uns dois dias sem ver um filme, já fico impaciente".
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Oh yeahhh. Eu sou mesmo uma errata!
Fazendo quase tudo errado, mas quase tudo dando muito certo.
As coisas me esperam. E pronta, eu as enfrento.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Na cidade

Em BH foi maravilhoso. Uma paisagem urbana cheia de carinho. Depois vou lincar aqui as pessoas que conheci e já conhecia antes. Foi tão bonito. Halem eu quis conhecer. E foi tão rápido! E teve a Ana e o Fabiano. Enquanto os via, embora soubesse que já os tinha lido, pensava que nada substitui o conhecer, o ver, o conversar olho no olho.
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Agora Sampa. Depois volto a BH. Sampa é minha cidade. Faço minha às palavras de Daniel::: Sampa é uma prostituta que nos dá tudo e depois cobra o seu preço. Chove chove. Isso jamais foi problema para mim::: trago em mim a chuva ou o desejo de chuva. Hoje vi Tio Vânia, diretor Celso Frateschi. E chorei como um bezerro no fim. Todas as vezes que eu pensar que sou escritora, lembrarei do fim desta peça::: a perfeição. Talvez a perfeição esteja nos clássicos::: a palavra na medida exata. E talvez a dor maior seja que os clássicos nos mostre nossa imperfeição, nossa vontade de sermos mais do que somos.... para em seguida vermos que não é nada disso, que nada podemos. (sem ponto de exclamação, porque meu amigo escritor me diz que isto é fútil e desnecessário!!!!!!!!!!!!!!!!!!) .
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Amanhã vou para São José do Rio Preto para mais um congresso. Sinto que vai ser bom. Por aqui, tudo ao mesmo tempo agora. O Festival de cinema rola. Vi Bergman hoje. Bergman, para quem não sabe, é meu cineasta essencial. Fellini é o outro. E eu estava ali. Tarde fria a ver Bergman. O que mais posso querer da vida? Tanta coisa. É esta incompletude que me leva. Nada saberia ser sem isto. Sinto medo e muito tesão. Parece incompatível, mas é isto mesmo. No filme do Bergman, era isto: ele sabia como caminhar pela vida; tinha o coração puro... mas era tão impetuoso!! Me identifico? Acho que sim.
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e se não for nada disso? Tchekov, que escreveu Tio Vânia, diz-nos que tudo é para depois. Mas enquanto bebo cerveja com estas três moças lindas - mari tati van - eu acho que tudo é para agora.
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A quem dizer que tudo é bom?
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Agora ando pela cidade com um chapéu vermelho.
Agora sou uma personagem.
Agora sou eu mesma com saudade.
Não é romance! Romance é coisachata.
Agora é cumplicidadeolhonoolho.
A bailarina no filete da navalha.
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Agora toda a vida corre em mim enquanto sinto sono sem vontade de ir para a cama.
Chove chove.
E ouço barulhos de carros lá fora.
Toda a noite desce sobre mim.
Melhor dormir.

sábado, 18 de outubro de 2008

... de longe

A noite desce. Os dias tão bonitos. Estou aqui em Sampa. Fui a Belo Horizonte para a Jornada Jacques Derrida. Muito a dizer de lá. Depois digo dos dias em trânsito. Pois então. Vi Ensaio sobre a cegueira. E também o Mistério do samba. E gostei da minha comunicação em BH. Outra pessoa também gostou. Mas o que gostei mesmo foi do que ouvi. Palestras maravilhosas. O ouvido afinado para o que já sei e o que ainda não sei. P o r v i r. E quem duvida? Eu não... que quero mais é viver. E os amigos de lá? Lindos, lindos. Tanta conversa, tanto riso, tanto passo junto com a Lu... Agora estou aqui. E esta cidade é toda minha. Vou dormir, porque amanhã tenho muito a fazer. Sempre se tem quando o mundo dança. d a n ç a...
d
a
n
ç
a
como esta que acabo de ver. bem... dormir.

sábado, 11 de outubro de 2008

Noite

Conclusão da noite: "é tão bom conversar quando se tem o que conversar!" tchubarubando...
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(êtaleseiradevidaboa!).

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

da série "experimentos"


(quando da leitura de "tropicalia: uma revolução na cultura brasileira")

(com foto da série “manifesto antropófago”, de Zé Celso)

o mundo está aí. lagartixas rastejam e algum pássaro voa. a cabeça do rinoceronte enfrenta a linha reta cheia de curvas. talvez baile no meio do perfume que agora sai de mim. a toda hora o acaso bate em alguma fresta. e a fresta ou se fecha ou se expande. o nariz carrancudo vence a peste que o devorou. o mundo está aí. e os répteis se esgueiram nos becos. as luzes queimam minhas pestanas. e eu me despeço de algum eu e olho no espelho meu corpo cheio de vestígios. deixo o dedo espetado na agulha. e a navalha perfura o olho. nenhuma pausa na noite que desce enquanto os fantasmas bailam no tapete daquela árvore mal colocada no caminho. eu os pego pela mão e dou um sorriso de escárnio. a cabeça pende e mais um litro de vinho descansa vazio. o mundo está aí. pare, ouça, ande, veja. não custa nada. só lhe custa a vida - diz Gil e Duprat. com antropófagos e tropicalistas Caetano e Torquato Zé Celso e ele mesmo, toda loucura desce sobre mim na manhã quase noite.



Nada terá tido lugar senão o lugar (Mallarmé).

domingo, 5 de outubro de 2008

fragmentos de um discurso amoroso

as marcas se dissipam. um dia acordamos e nos damos conta de que o passado se desinstalou do corpo e o que resta é apenas alguma dor descontínua não pela pessoa que perdemos, mas pelo que se perdeu junto com esta pessoa. é da idéia de amor que sentimos falta. e não da figura do amado, que é sempre menor do que a do amor. há espanto porque custamos a acreditar que o que até ontem feria como uma chaga exposta no sol de 40° foi anestesiada. e com a anestesia veio a cura. talvez outra emoção. outra beleza. ou simplesmente a escrita. porque a escrita é o lugar em que tudo se resolve por si só. a escrita é a encenação de umas tantas cenas que se apagam junto com aquele que se foi agora não apenas espacialmente. sim. fragmentos de um discurso amoroso é o livro mais atípico de Roland Barthes, e isso não é pouco para quem sempre buscou uma outra linguagem para além da linguagem da crítica que o prendia. é meio lendário. ele já personagem dá a entender que fez o livro para se livrar da perda. então escreve "dramaticamente". nem análise nem crítica. o que faz é esmiuçar, detalhar, a figura do enamorado. surge o drama da enunciação – com a sua respiração, os seus retardos, a sua língua. surge um livro inclassificável, que fantasmagoriza Werther, lugares, amigos, livros. já nem sei quantas vezes o li. agora, eu o reli em uma manhã. é estranho, porque nunca leio pela manhã. mas nesta manhã acordei diferente, como se já fosse noite outra vez. quer dizer, me senti diferente e achei bom. sorvi assim as cenas de um amor quase sempre em partida, quase sempre com algum “pontinho no nariz”, quase sempre em espera. apenas quando estamos em estado de diferença podemos admitir que Barthes desvendou toda a mitologia do amor. admiti-lo é admitir a ironia, a descrença, a reiterabilidade, e não a originalidade do amor. porque todo desvendamento é um enfraquecimento. o amor desvendado não é amor. Barthes escreve eu, mas não é um eu psicológico. não se escreve nada por causa da dor ou do amor, ele nos diz. poetas também já disseram. escreve-se pela escrita. por isso, o eu de Barthes – e também o eu daqui – é um eu estrutural. não há desvendamento de nenhum segredo nem desvelamento de subjetividade. há catalogações. e nenhuma catalogação vem apenas de um “eu”. é outra lição de Barthes. quando cataloga uma a uma as figuras do amor, ele nos diz que o amor – e tudo que vem com ele – é uma invenção. a ponto de, ao sentirmos dor, sentirmo-nos também participante de algum filme que já passou, de algum romance que já foi escrito, de alguma música que já tocou.

(um adendo: Toda uma simbologia ligada ao outro na data de ontem. E eu não lembrei. Passei o dia pensando que 4 de outubro era o último dia para enviar uma proposta de comunicação. Até que alguém me lembra. Alguém sempre lembra. O outro nasceu neste dia. Então eu lembro. Lembro do Bar Sarajevo. Do ambiente esfumaçado. Da música, da dança e do primeiro beijo. Lembro. E nada me dói. A lembrança está aqui. Mas nada além disso. Guardo a imagem, mas o imaginário se dissipou. A simbologia está morta. E não há nada além da simbologia. A não ser uma certa melancolia da perda do imaginário. Ainda é Barthes. É por isso que ele é meu escritor essencial. Por isso sempre acho que sou uma invenção dele).

* Foto: encenação de Banquete antropofágico, de Zé Celso, no Sesc.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Semana

Ao som de Fernanda Porto

"Não jogarei sementes
Em cima do seu cimento".
(Arnaldo Antunes, no drum m' bass dela)

Flores e incensos pela casa.
Meu amigo Binho está aqui.
O Sell* está acontecendo.
Estou dando o minicurso com ele.
Poesia e música pop é o nome do minicurso.
Muita música e muito vídeo para a moçada.
Idéia dele.
E eu vou na viagem.
A antena da cumplicidade elevada ao quadrado.
Dialogando o tempo todo.
Que a vida fosse por inteira assim,
era o que eu queria.

Eu não disse?

quando eu olhar pro lado
eu quero estar cercado
só de quem me interessa.
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porque és o avesso do avesso do avesso.
...

O fio do pensamento estica até ao delírio.
E muita risada.
"Nojentinha, sabidinha, com esta sua calça frouxa de quem saiu de Lyon e caiu bem aqui".
Heheheh! Aguinaldo é o homem-menino-poeta-malino.
Sou eu?
O estereótipo gargalha.
*
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* Seminário de Estudos Linguísticos e Literários, que ocorre no curso de Letras há treze anos, sempre no mês de outubro.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

eles

sábado eles vieram. já tinham vindo outras vezes. cozinhei para eles.
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?! de verdade.
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sim, é verdade. eles merecem. são carinhosos. são alegres. e gostam de tudo do que eu gosto. culpa da kotz que me apresentou a todos. onde esta moça encontrou tanta gente boa? e esta moça mesmo? será alguma fada enviada para cuidar de mim? está mais para Chapeuzinho, afinal tem o seu Lobão. músicas. filmes. quantos filmes vimos? perdi a conta. esqueci até o nome de um. é que não importava mesmo. o que importa é a amizade nascendo assim de forma bonita. e na vitrola lenine e zeca baleiro. e esta rossana de celso (nada menos do que soberba!). o Lobão da moça fica me mostrando estas coisas.

e domingo um deles veio. os outros eram para vir também. mas horário não é com eles. a "regra" é esperar até quatro horas sem reclamação! já saudade da cumplicidade plantada. raiz. vimos três filmes na preguiça de domingo. ele é desastrado. e curioso. e bem humorado. e faz meu computador funcionar que é uma beleza. da primeira vez que veio aqui quase pôs a casa abaixo. mas tem o sorriso tão franco, tão amigo que até deixo pôr a casa abaixo.
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definitivamente eu sou sortuda.
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(adel, camila, jujuba, kotz, lobão-paulo, luciano, ney, assinalo que vilhena não é mais uma cidade triste. vocês existem).
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O que amo



Eu não sou religiosa.

Mas o ritual me emociona sempre.

E ser madrinha do Pedro, meu sobrinho, é de uma alegria tamanha.

Farnese de Andrade

a noite é tão triste, não porque estou aqui desterrada dos meus tantos mundos, exceto o dos livros que devoro para esquecer este não lugar que não me pertence e ao qual não pertenço. a noite é triste porque folheio o livro de farnese de andrade com suas bonecas mutiladas, queimadas, quase cinzas, suas caras viradas ao avesso como monstros aprisionados em algum espasmo do passado, suas faces afogadas em invólucros transparentes que as prendem sem nenhuma piedade, sem nenhuma compaixão. estes objetos velhos, destruídos pelo tempo, nada mais do que trastes, do que restos, me levam a um espaço estreito de amargura, de destroçamento, de solidão. o que pensava farnese? não o alcanço, e não alcançá-lo é o que me fascina.
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sábado, 27 de setembro de 2008

Uma história do CIPA – o congresso

Eu não gosto de congressos. Reclamo. Resmungo que não servem para nada, a não ser para colocarmos no currículo, ainda mais para mim que fala sofridamente de assuntos que aparentemente ninguém sabe do que se trata. E em sessões de comunicação, que são aquelas salas com dois ou três gatos pingados que estão ali porque também apresentarão algo que normalmente nada tem a ver com os outros trabalhos e sobre o qual ninguém quer ouvir, e por aí vai. Porém, quero registrar que este foi diferente.

Ao contrário do que pensei, a maioria dos conferencistas eram belgas, e não franceses. E compreendi muito bem o francês. E eu falei sobre a “concepção” de autobiografia em Derrida em uma destas tais salas de comunicação, mas, milagre dos milagres, havia umas 20 pessoas e, entre elas, alguém que sabia do que eu estava falando. Dizendo porcamente, eu joguei pedra nos bons samaritanos que crêem que autobiografia serve para reconstituir ou resgatar a vida dos seres que “vivem à margem”; o que quer dizer que, se eu fosse famosa e conferencista, estaria apedrejando meio mundo no congresso. Eu detesto todo e qualquer discurso salvacionista. Não sei se ingênuos ou perversos, esses discursos que se servem de histórias de vidas servem muito mais a um arquivamento de vida de pessoas do que de reorientação, reinterpretação e reinvenção destas vidas. E quem pode medir o que pode ser feito com estes arquivos? Quanta barbárie já não se produziu a partir destes arquivos? Ninguém parece preocupado com isto. Todos espalham idéias do tipo: vamos fichar os negros, os marginais, os suburbanos; e eu quase escuto: como os judeus, coloquemos uma estrela amarela nos seus braços, confisquemos os seus bens para que os administremos, nós, que somos quem pensamos, porque assim eles serão notados, dissecados, e em seguida? é o que me pergunto: perseguidos? colocados em gueto? é por aí, não é? Mas todos querem ser o salvador, todos querem fichar os índios, os mamelucos, as putas, as bichas, as criancinhas carentes, ... pois eu espero que todos os "bem-intencionados", os "politicamente corretos", os "messias", queimem no fogo do inferno, isto sim, antes que liguem o gás do crematório onde estariam ordenados todos os marginalizados, porque sabemos muito bem do que o inferno está cheio... ao menos no nosso imaginário. Aff!

Então! O moço que me ouvia jogava pedras como eu, mas por intermédio do documentário Santiago, do João Salles. E foi o bate-bola mais bacana de todas as minhas histórias de congresso, senão o único até hoje. Foi até hilário. Ele me interrompia. Eu o interrompia. E foi ótimo. Eu o pediria em casamento se tivesse demorado um pouco mais, porque um homem que entende de Deleuze, Foucault e Derrida e diz tudo aquilo sobre um documentário que eu amo e sobre meu próprio trabalho só pode ser merecedor que eu lave suas roupas pelo resto da vida. Yeah!

Hormônios à parte (cof, cof!), o que quero dizer é que se os congressos fossem montados para que houvesse realmente a discussão, a participação de todos, a política do CNPq que exige que professores e alunos participem de congressos e publiquem poderia realmente ser eficaz. Porém, na maior parte das vezes, o que ocorre é apenas um cumprimento de obrigações. Nas conferências deste congresso, por exemplo, não houve o momento das perguntas do público. Enfim, ainda falta muito para que seminários, semanas e/ou congressos cumpram realmente sua função de serem lugares de debates e circulação de saberes. Mas eu continuarei participando. Quem sabe um dia eu chegue às conferências, não é? Se bem que encontrar um moço deste em cada congresso que eu for já me deixaria muito satisfeita. E isto nada tem a ver com hormônio, tem a ver com diálogo, com a necessidade de ouvir a voz do outro e ser ouvida também.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Edson, Vera e Milena

eles gostam de mar. mas foram ver o mar porque eu estava lá. palavra deles: quando perguntavam o que tinham ido fazer em Natal, eles diziam displicentemente: “fomos buscá-la” e apontavam para mim. pois foi. perderam-se até me encontrarem. nós nos perdemos muito; sem guia, sem frescuras, sem afobamentos. porque eles baguçaram todos os meus planos. eu queria servi-los do bom e do melhor: hotel bacana, restaurantes da hora, passeios maneiros. mas eles não queriam ser servidos. eles queriam apenas estar comigo. e com isso aprendi um monte. fizemos as contas de quando nos conhecemos. 23 anos que eu e ela. 20 que eu e ele. eu queria ter palavras para destrinchar todos estes anos. é assim: um dois três anos sem nos vermos... o tempo desgasta, não é esta a lei? pois esta lei não nos serve. eu e ela sempre continuamos a conversa do dia anterior, mesmo que este dia anterior tenha sido há anos. se tenho que nomear o que é isto, eu nomeio de cumplicidade, de amor, de confiança, de inteireza, de alma gêmea. eu amo sua risada rápida, o modo que é só dela de dizer “nã, Milena”. quando contei, ela tirou sarro de mim dizendo que vai gravar a risada e me enviar. e ela é bem capaz disto. porque ela ri das frescuras que involuntariamente acrescentei desde que nos separamos, mas também sabe ver que continuo a mesma, que nem distância, nem tempo, nem nada podem tirar de nós o que criamos com todo este bem-querer que temos uma pela outra. e ela sabe o exato dia que parti. nem eu sabia! nem minha mãe sabia! 18 de janeiro de 1991. pois foi. dando razão ao Ed, guardei para mim como uma declaração – e de amor.

foi assim que andamos os três por Natal. passeios maneiros sem guias. jantar em beira de estrada, acolhida deliciosa na casa da amiga deles. cerveja e queijo coalho na cozinha até tarde da noite. muita muita conversa. 9 horas de carro entre Natal e Iracema. muita muita conversa mesmo. quer dizer, na viagem Verinha dormitava, mas tenho cá pra mim que ela ouviu toda a conversa. e minha afilhadinha? linda como eles dois. é mole ter dois amigos destes e ela ainda dizer que esta lindeza de menina tinha sido feita, entre outras coisas, para eu ser a madrinha? não tem coração que agüente. eu gravei umas partes da nossa ultima noite. uma doidice. proibido para quem não compareceu. mas posso adiantar que passei todo o dia com uma ressaca dos diabos. e feliz sem fim de fazer parte da história destes dois.
e de ser parte desta mulher para sempre menina que me ensinou a sorrir.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

é o que me interessa, de Lenine

muitas músicas têm me composto nestes tempos. E de Labiata eu transcreveria várias. Mas esta é tão perfeita. é tão lenine. é tão milena. o replay não para de funcionar. me tocando bem fundo, lá no fundo, bem fundo, borboleta no deserto. chama-se "é o que me interessa".

daqui desse momento
do meu olhar pra fora
o mundo é só miragem
a sombra do futuro
a sobra do passado
assombram a paisagem
quem vai virar o jogo
e transformar a perda

em nossa recompensa
quando eu olhar pro lado
eu quero estar cercado
só de quem me interessa
às vezes é um instante
a tarde faz silêncio
o vento sopra a meu favor
às vezes eu pressinto
e é como uma saudade
de um tempo que ainda não passou
me traz o seu sossego
atrasa o meu relógio
acalma a minha pressa
me dá sua palavra
sussurra em meu ouvido
só o que me interessa

a lógica do vento
o caos do pensamento
a paz na solidão
a órbita do tempo
a pausa do retrato
a voz da intuição
a curva do universo
a fórmula do acaso
o alcance da promessa
o salto do desejo
o agora e o infinito
só o que me interessa

isso do tempo. de ser só o que interessa - sou eu susssurrando no meu ouvido. sou eu dando minha palavra. sou eu trazendo o meu sossego. sou eu atrasando o meu relógio. sou eu acalmando minha pressa.

eu tenho muito medo destes músicos. eu tenho medo dos poetas. dos escritores. tenho um medo danado de quem transforma em palavras. tenho medo. mas tenho também amor.

...

Putz!
é maravilhoso o Labiata, de Lenine!
E eu ali, borboleta sobre aquela flor, a mão tremendo...
Putz!
a vida...
muito boa.

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domingo, 21 de setembro de 2008

a cidade invisível

trazemos as nossas cidades não apenas em nossa memória. elas acabam sendo parte do nosso corpo. é o que acho. trago algumas cidades dentro de mim. coladas em mim a ponto de se confundirem comigo. iracema paris são paulo natal. em natal passei uma das noites mais tristes da minha vida. só mais duas me tatuaram daquela maneira. e para um ser notívago como eu, isso não me parece pouco. a única noite em que eu senti vontade de morrer. e a real certeza de que bastariam uns passos mar adentro para que o desejo estivesse em minha mão. foi uma das minhas sensações mais doloridas. nunca, em nenhum outro momento, senti-me tão próxima do outro lado. mas eu não dei o passo mar adentro. nem mesmo tive coragem de me banhar de escuridão. acabei passando boa parte da noite no alto de uma duna. e esta duna não existe mais. andando pela beira mar de ponta negra eu vi que a minha natal era agora uma cidade invisível. senti um desamparo medonho. aquela ponta de mar era realmente linda. uma área urbana quase deserta, com dunas, morros, vegetações, pouquíssimas casas e bares. agora, é uma orla urbana como qualquer outra. fortaleza, recife, joão pessoa; todas carregam um ar decadente de placas indicando "impróprio para banho", além do cheiro de mijo, bares suspeitos e um ar de promiscuidade que nada tem a ver com a leveza dos surfistas e dos malucos misturando cheiros de erva com cheiros de mar. nada contra o desenvolvimento, as mudanças, mas tudo contra uma politicagem filha da puta que deixa vencer a especulação imobiliária e leis suspeitíssimas de incentivo ao turismo que metem um calçadão que vira mercado livre a céu aberto a dois passos do mar. talvez só um mar de revolta para tragar tanta sujeirada. senti como se um pedaço de meu corpo estivesse entregue aos abutres. mais calma, depois de muito contemplar o que não existe mais, guardei nas minhas vísceras a minha cidade invisível. trouxe até a mim tudo. e deixei muita gente passar por mim no fim de tarde. o que não pude abandonar foi a tristeza de imaginar que as pessoas que passavam não viam o que eu já tinha visto. não andavam por onde eu já tinha andado. alguém pode querer descer mar adentro, mas nunca mais naquela duna, naquele trecho, naquele ponta. talvez seja saudosismo, mas mil vezes aquela duna que agora habita só em mim do que a esterilidade dos arranha-céus a manchar a paisagem da única noite em que quis morrer. e para um ser notívago como eu, isso não é pouco. não é pouco todas as vísceras com desejo de mar.

domingo, 14 de setembro de 2008

Em Natal

Natal, para mim, é uma cidade mítica. Há mais de dez anos vivi aqui como 'hippie" durante três meses. Vejam o que esta que vos escreve já fez por amor! Naquele tempo, na praia de Ponta Negra, havia um camping, e foi lá que instalamos a barraca, todos os dias acordando com o mar bem à frente. Dizem que hoje, no lugar, há hotéis luxuosos. Vou conferir daqui a pouco. Naquele tempo ainda se podia descer o Morro do Careca em pranchas fabricadas artesanalmente pelos moradores. E Herbert Vianna, dos Paralamas, ainda cantava Óculos, o hit de todas as míopes como eu, em pé. Pude conferir. Eu também estava na van que os levou para o hotel. O contratado para levá-los morava no camping e eu fui de carona... Histórias de Natal! Na praia, havia festas maneiríssimas que rolavam a noite toda, então a escolha era ir ou ir, porque não dava para ficar na barraca sem escutar o barulho das ondas e das vozes. Naquele tempo, era tudo tão bonito, tão terno e, ao mesmo tempo, tão violento, tão extremado, como toda história de amor. Eu passava os dias vendendo artesanato nas praias. Com um corpinho de 20 anos bronzeado naturalmente pelos dias exposto ao sol e um sorriso sempre a postos, eu costumava vender o dobro do 'verdadeiro' hippie. E ele ficava puto comigo e/ou com os turistas bobos, geralmente estrangeiros, que compravam umas pulseirinhas pelo dobro ou triplo do que valiam apenas para ficarem me xavecando. Ao menos, era o que ele pensava. E, às vezes, o que realmente rolava. Mas era assim que sobrevivíamos sem um tostão no bolso. Dava para pagarmos o camping, comer cachorro-quente no almoço e no jantar e ele tomar suas biritas, porque naquela época eu bebia muito pouco. Alguém precisava de lucidez, era o que eu pensava - bestamente. Eu também sabia fazer pulseiras e alguns colares, mas o artista mesmo era o Juba. Tanto que ele continua. Eu era uma hippie de óculos, de férias, geralmente com algum livro na mão. No fim da farra, eu voltei para o curso de Letras. Se não tivesse voltado, provavelmente não estaria aqui hoje. Vim para um congresso sobre autobiografia - o III CIPA. Amanhã falarei sobre a autobiografia em Derrida. Chupeta no mel, afinal é minha tese de doutorado. E o congresso está cheio de franceses. Hoje à noite vou conferir se ainda consigo ao menos ouvir em francês. E amanhã, minha amiga de infância chega. Engraçado isto da escrita. Parece normal dizer: "estou aqui em Natal e minha amiga, que mora na cidade dos meus pais, no Ceará, está vindo me encontrar". Ficaremos aqui por uns dias e depois iremos de carro para Iracema, onde encontrarei meus pais, minha afilhadinha, que é a filha da minha amiga... Putz, mas quero dizer que isto não é 'normal'. Pelo contrário, é uma puta emoção estar aqui em Natal com tantas lembranças, esperando minha amiga e também seu marido, que é também um amigo de infância. Pensei em algo agora: sempre acho que mudei muito desde aquele tempo, mas talvez eu ainda tenha muito daquela garota de 20 anos que ficou aqui três meses dormindo em uma barraca e comendo cachorro-quente todos os dias. A diferença é que agora eu caio no mundo com uma certa 'oficialidade' e posso pagar um hotel com água quente, embora já esteja arrependida de não ter trazido minha barraca. De fato, o 'oficial' procura meus afetos, que são muitos. Cumpro as regras de uma professora que acha importante participar de congressos, pesquisar, 'cuidar do currículo', mas o que tem sido mais importante para a minha vida é cuidar dos meus afetos, encontrar meus amigos, falar com minha família. Como Manoel de Barros, eu fiz doutorado em formigas. E tenho andado muito lentamente para cuidar bem destas formigas através da linguagem do amor.

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Então tá: "Milena com espírito de 20 anos deixará o vento bagunçar seus cabelos pelos próximos 10 dias". Beijo aos meus dois ou três leitores ocasionais que passar por aqui.