terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Sobre os amigos ou "o que desejo"


Eu queria fazer um texto bem especial para o fim do ano. Mas nada me vem. Eu poderia falar da leitura de Maus. Ou do cd do Otto, que amei. Ou do Soda acústica, que ouço e me orgulho como se fosse parte de mim. E nada. Fica tudo aqui. Então eu lembrei que não escrevi realmente sobre o SILIC, simpósio de literatura contemporânea que organizamos. E de como foi maravilhoso ter hospedado meus amigos Binho, Márcio e Mettal, que foram convidados para o simpósio. O SILIC foi arquitetado amorosamente pelo grupo de pesquisa. Não tivemos financiamento institucional. Um ficou no sofá, outro na rede e outro no colchão de casal que era do Tatupai antes de encontrar a Tatumãe. O que só se faz com os amigos, bem poderia ser o título. Acho que para todos foi uma grande festa, tanto que ou por necessidade ou por vontade todos deram uma "esticadinha"depois do simpósio. Poeminha ainda estava na barriga, mas foi muito paparicado. Memórias. Depois que eles se foram, foi um baque - amortecido pela chegada do Poeminha e pela vinda da minha família. Quando o apê ficou de novo vazio, e eu e Poeminha ficamos por aqui, bateu forte a solidão. E haja relembrar. Isso tudo porque Márcio, Mettal e Binho são amigos maravilhosos. Eu passaria toda a vida conversando com eles. Como é bom! Conta, sim, eles serem muito sabidos. Eu sei levar bem as conversas corriqueiras, mas, ao pensar nos "meninos", me vem a certeza de que, nestas conversas, há um certo "fingimento social", pois o que eu gosto mesmo é de partilhar saberes, sobretudo quando não há nenhum pedantismo. Quando tudo flui naturalmente. Fala-se de coisas interessantes porque vive-se de forma interessante. Nada de assuntos institucionais. Os meninos vivem no corpo os seus interesses. Não leem ou estudam ou ouvem música ou veem filmes por obrigação. Não há pose. Só entrega. E eu sinto falta disso. Sinto falta deles. E de mais um tanto de gente que conheço. Eu brinco: "será que meu filho vai gostar de coisas ou vai gostar de não gostar?". Sinceramente, eu espero que ele escolha a primeira opção. Viver como um lesma, sem gostar de gostar, é um pouco como estar morto. Tem muita gente morta por aí e não sabe.
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Então é isto que eu quero desejar a minha meia dúzia de leitores: que gostem de gostar. Que aprendam a reinventar o seu dia a dia. Eu também quero aprender muito mais. Meta? Mergulhar ainda mais no meu paraíso artificial. Tenho ensaiado. E tem sido bom. É isto. A todos, um grande mergulho em si mesmos. Nem todo dia o céu é azul. E nestes dias, só o paraíso artificial nos salva.
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Tenho vontade de sair pelo mundo. E às vezes cantarolo baixinho com algum espanto e algum medo: "será que eu vou virar bolor?". Sempre muitas perguntas no fim do ano, mesmo que se preencha todo o tempo. Deve ser por isso. Preencher tudo para que não sobre nenhuma pergunta. Eu gosto de perguntar. Mas às vezes, muito medo de responder. Sou muito lúcida. Sou. E por sê-lo, por vezes fujo. Viver no exílio é sempre uma forma de vivenciar a dor. E eu me sinto no exílio. Embora me sinta em casa. Contradições de que a vida é feita. Ano 10 depois do fim do mundo. Tempo tempo tempo. Ano lindo, este que está passando. Um pedaço de mim foi gerado, cresceu, saiu para o mundo e agora está aqui por inteiro. Não tem nada igual. Procuro alguma foto no hd para dizer que ainda assim algumas vezes sou só eu. Eu na minha cabeça. com minhas vontades meus desejos minhas frustrações. Mas não tenho nenhuma foto sozinha no último ano. E isso me assusta um pouco. Um bocado. Então me sobra uma foto do palhaço do cirque de soleil - um momento todo meu. Mais não digo. Divã online pede sutileza. Elegância não faz mal. E por falar em elegância, hoje eu estava no supermercado, uma gripe de dá dó, e vejo uma moça elegantíssima. Nada fora do lugar. E antes que eu sentisse inveja, ou motivada pela inveja, um pensamento me cai como um raio: "que tipo de gente se produz assim para vir ao supermercado? é o cúmulo da deselengância". Ponto de vista. Gostar de cara lavada e sandália havaiana dá nisso. Então tá. Estou lendo Ulisses. Há três dias, acordei decidida a ir até ao fim desta vez. Por que? cansei de ir de um livro a outro. Exceto Maus, nenhum de fato realmente me arrebatou. Um ou outro me encantou, me divertiu, fez passar o tempo, mas... sempre o mas. Acho que é hora de. Estou em busca, eis. Ainda sou aquela menina.
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quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

para o filho


Poeminha, seu pai sempre dança com você. e sempre dança para mim. você vai ver: dou muitas risadas nestes momentos. ele e sua cara de menino maroto dançando pela casa, olho no olho esperando a minha reação. também dançamos juntos, eu e ele.

e não há um só dia em que eu não faça o mesmo com você. eu e você agarradinhos. já cantar, não dá. tudo que consigo fazer é uns "humhumhum". não tenho voz. não tenho ritmo. mas lhe embalo como quem sabe. aproveito agora que você não percebe que não sei.

talvez você já perceba que nunca falta música aqui em casa. eu coloco várias pensando em você. dizem que música clássica é bom para afinar seu ouvido. por isso, temos ouvido muito. chopin schubert mahler nelson freire. e também muito jazz. mas também escutamos "todo tipo". eu gosto muito de vozes femininas. seu pai gosta muito de chico buarque. desde a barriga que ele coloca para você ouvi-lo. e agora estamos ouvindo o novo cd do otto. na primeira vez, ele tocou inteirinho com nós dois na rede. muito, muito bom. ora você arregalava o olho, ora resmungava, ora chupava a mão, e já no finzinho se espreguiçou todo como quem diz "já chega".

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coleções


O colecionador é um escravo. É como alguém num deserto: sempre sedento. Nunca se satisfaz com o que tem; o olhar está sempre no que, aparentemente ao seu alcance, ainda não lhe pertence. O "ainda não" é o copo de água do colecionador. É o que lhe impulsiona.


Sempre me espantam os números dos colecionadores. Ed Motta disse numa entrevista que tem mil garrafas de vinho. Um amigo meu tem uns três mil vinis. Outro, uns cinco mil livros. Eu tenho mais de mil cds. Quantos livros, não sei. Não conto. Só sei dos cds por causa da estante. Tenho vários amigos que ultrapassam a casa do milésimo em relação aos seus gostos musicais e livrescos. O número mil parece ser um número fetiche. É excessivamente tentador para um colecionador.

Quanto a mim, considero que só tenho uma coleção: a de corujas, que anda meio combalida e está muito longe de alcançar este número. Falta muita água para matar minha sede. E acho que sempre faltará.
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para o filho


Poeminha, você é como a sua mãe. dorme bem tarde da noite. e durante a manhã. tem dias que só acorda meio-dia. então, quando você crescer, se continuar a ter insônia, vou lhe dar um conselho: goste da noite. é preciso gostar daquilo que lhe chega como um espanto - e de modo irreversível. não se torture tentando dormir. quando eu comecei a ter insônia passava horas de olhos arregalados no escuro. hoje passo muitas horas de olhos arregalados, mas nunca mais no escuro. você vai perceber logo: olhos servem para ver o mundo. e a noite é um mundo todo.

pode ser em uma destas noites que você leia o livro da sua vida, ouça uma música que nunca vai esquecer, beba seu primeiro porre, passe a noite inteira conversando com um amigo ou com um amor que você nunca mais vai amar como naquela noite. ou talvez seja em uma noite assim que você veja um filme do bergman e lamente que ele não esteja mais vivo para continuar fazendo pérolas de beleza e dor.

Pode ser também que em uma dessas noites você nine seu filho para que ele aprenda a dormir um pouco mais cedo do que você.

domingo, 20 de dezembro de 2009

Faça você mesma


Eu não sou muito adepta do "faça você mesma". Falta-me criatividade e paciência para o manuseio da "coisa". Além de sempre achar tudo meio tosco. No entanto, em tempo de grana parca, com papéis se espalhando pela casa toda, "fiz eu mesma" esta estante com caixotes de supermercados e pedaços de madeira. Estes me acompanham há um tempão, desde a morada em Rio Preto. A versão anterior da estante era com tijolo, mas era muito, muito tosca. Feria demais meu senso estético. Cheguei nesta, enfim! É ainda tosca, mas me parece mais bacana. Continuo imaginando algum móvel bonito neste lugar, mas agora dá para esperar. Afinal, meu mantra para consumir menos tem sido "PRECISO ir bem ali mostrar o mundo aos meus dois homens".
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sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

O livro amarelo do terminal, de vanessa barbara

"o livro amarelo do terminal", de vanessa barbara, é bárbaro (hehe! como resistir a este trocadilho infame!? só se eu escrevesse tão bem quanto ela!). eu já sabia disso antes de darem a ela o Prêmio Jabuti 2009 de jornalismo. em 2003, vanessa perambulou pelo tietê para escrever a reportagem de conclusão do seu curso de jornalismo. e deu no que deu: um livro delicioso. dizem que é reportagem. eu acho que é crônica, daquelas de dar água na boca. e uma pontinha de inveja: "por que não fui eu a escrever isto?". a primeira frase já me pegou de jeito: "A rodoviária do tietê é uma cidade de coisas perdidas". eu já disse aqui que gosto de definições. e esta é inusitada. e é assim, de inusitado em inusitado que ela vai tecendo a vida dos que passam e dos que vivem na rodoviária do tietê. esta é uma boa sacada: há uma multidão que por lá passa, mas que por lá também vive, mesmo que temporariamente: os vendedores, os balconistas, os vigilantes etcetcetcetcetcetc. e ela fala com toda esta gente. e nos conta histórias deliciosas sobre eles. as páginas são irritantemente amarelas e azuis. o projeto gráfico bem que podia ser menos exagerado. mas isso é o de menos. importante é que o leitor se diverte e aprende. muitas historinhas de bastidores. tem espaço pra tudo: até pra desancar seus colegas de jornalismo, em uma seção intitulada "a imprensa". nela, finalmente entendi porque todas as reportagens parecem iguais. porque são mesmo. um "gerador automático de reportagens" dá conta de dar todas as informações do movimento do Tietê em épocas de ( ) carnaval, ( ) páscoa, ( ) natal. todas as informações, vírgula. é esta diferença que faz o livro de vanessa. ela foi atrás do que ninguém vê. e a partir daí disse de um jeito que ninguém diz. deve ter aprendido com os grandes que a matéria de toda boa história - seja jornalismo, seja ficção - é o humano.

para o filho

"Poeminha, quase todos os dias vamos à casa da sua bisa. a sua avó, que mora longe, também está aqui. tem também a tia. três mulheres que ficam enlouquecidas quando lhe veem. disputam cada um dos seus sorrisos. é bonito de ver. mas bonito mesmo é ver a cara de felicidade do seu pai. ele nem precisa ser expansivo - sim, sim, você vai ver que ele tem um sorriso tímido - para que eu perceba todo o amor que ele sente por elas. por nós".
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tarde saudade

em uma tarde como esta, chuvosa, com o filho dormindo na rede, sinto saudade de muitas coisas e muitas pessoas. "A saudade/ é brigitte bardot/ acenando com a mão/num filme muito antigo".
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sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Cabelo liso

O mundo quer cabelo liso. Eu que tenho poucas melengas lisas sempre achei muito estranho. Tanta mulher linda estragando o seu cabelo lindo... Até quem tem cabelo liso, quer mais liso ainda, aí fica todo mundo igual com cara de quem acabou de sair do cabeleireiro. Sem querer, perde-se a noção da diferença. Mas isto não é de agora. Que o diga Sarará miolo, do Gilberto Gil, que é boa para dançar e para pensar.

Sara, sara, sara, sarará
Sara, sara, sara, sarará
Sarará miolo

Sara, sara, sara cura
Dessa doença de branco
Sara, sara, sara cura
Dessa doença de branco
De querer cabelo liso
Já tendo cabelo louro
Cabelo duro é preciso
Que é para ser você, crioulo
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acordinho

Acho que vou fazer um acordo comigo: a cada vez que ler um livro, terei direito a outro. O que pode à primeira vista parecer uma grande vantagem é na verdade uma forma de punição. Sempre compro mais livros do que dou conta de ler. O tempo é tirano.
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quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

O melhor açúcar do mundo


Um filho vem e ensina a cada dia uma coisa. Registro isto para não esquecer. Tenho sentido vontade de escrever mais sobre o Poeminha. Explico: este blog existe porque não tenho boa memória. Esqueço muito facilmente tudo que me acontece, seja uma leitura, um filme, um acontecimento. Uma psicóloga que à época me parecia muito incompetente me falou uma vez que minha memória só lembrava do que tinha acontecido de ruim. Por via das dúvidas, resolvi me prevenir. O blog, desde a sua primeira versão, que sumiu no buraco da net, foi feito para funcionar como uma espécie de memória artificial: eu não queria esquecer os anos de doutorado.

Durante a gravidez, escrevi muito pouco sobre o fato em si. Sobre o que sentia, o que pensava, o que fazia por causa deste acontecimento. Pudor. Não queria dizer o que toda mãe diz: tudo açucarado demais para o meu paladar que passou a gostar de doce de leite apenas durante a gravidez (talvez porque gostava na adolescência e havia esquecido). Nem biscoito recheado eu engulo. Nem chocolate.

Mas nestes dias me veio um susto. Eu trocava a fralda do Poeminha e constatava mais uma vez que é nesta hora que ele, aos dois meses, mais emite ruídos (solta gritinhos, gemidos, de modo alegre e concentrado). Parece que quer conversar. E o que dizer das caras engraçadas que faz logo depois que mama? Acomodando o leite, preparando-se para "arrotar", ele se espreme, geme, se espreguiça, faz biquinho... E que delícia é isto, que alegria infinda observar tudo que ele faz. O susto: e se eu não lembrar depois, se for para o sumidouro da memória, onde está a maioria de tudo que vivi e não registrei? E se eu não tiver nada para lhe contar deste tempo? Ou pior: e se ele ler, um dia, este blog e perceber que eu escrevi muito pouco sobre ele? Eu que já morro de medo de que ele cresça tendo a sensação de que eu lhe abandono por causa dos livros e dos filmes?

Como minha meia dúzia de leitores já está acostumada à mistureba que é este blog, fica então o aviso: vez em quando, vai ter conteúdo açucarado - o melhor açúcar do mundo. Isso me traz uma certeza: a escrita, qualquer que seja ela, é antes para si do que para o outro. Porque ninguém mais se deleita e/ou se tortura com o que escreveu do que o autor. E nada neste meu momento é mais importante do que cuidar do meu filho, aprendendo com ele como se nasce, como se cresce, afinal eu não lembro de como nasci, como cresci. Fico pensando que observar o filho é também uma forma de se observar, de se ver em um tempo em que isto ainda não é possível. Que eu seja então fiel ao meu princípio, que este blog continue sendo o que procurava ser: "Sem análise nem crítica. Somente aquilo que advém de Barthes: humores. O jogo estéril do gosto/ não gosto. "Para guardar". "A regra = oferecer o íntimo, não o privado".
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sexta-feira, 27 de novembro de 2009

sobre os sacos de lixo e o amor


Moro no segundo andar. Quem mora em apartamento sabe que o ato de levar o lixo é sempre uma chatice. Ainda mais quando não tem lixeira no andar. E eu, sem consultá-lo, instituí que isso seria obrigação do Tatupai. Será que levada pelas cenas dos filmes hollywoodianos, que têm sempre uma mulher mandando o homem levar o lixo pra fora? Eis um ritual de "estar casada". E eu que corria de casamento, me espanto em constatar que desde o primeiro "amanhecer" Tatu morou aqui. Até nos dias em que viajei, ele ficou com a chave. Lembro de ter tentado resistir sem convicção alguma. Ainda cheguei a perguntar: "você não vai mais dormir na sua casa?". Ele me perguntava se eu queria que ele fosse e eu, mal acreditando, me ouvia dizer que não. Não que eu soubesse que já o amava. Havia uma dor latente apenas amortecida. Mas rapidamente percebi que adorava a sua companhia. E que o esperava. Algo que me lembrava apenas as minhas grandes paixões. Confesso que nunca "esperei" as pessoas que namorei por anos seguidos. Pelo contrário, sempre corria como uma louca para fazer tudo o que eu queria, porque sentia muito fortemente que o outro ia me "atrapalhar", ia roubar meu tempo. E ele, eu esperava. E continuo esperando. Surpreendo-me lhe telefonando perguntando se ele virá do trabalho direto para casa. Por pura vontade que ele diga que sim.

E o que isso tem a ver com os sacos de lixo? É que mais uma vez eu me surpreendi, diante de uma pilha de saco de lixo (porque ele simplesmente sempre "esquece" que deve levar o lixo), pensando de modo diferente. No meio da minha irritação, eu pensei: "Ué, por que estou irritada, se ele nunca me disse que levaria os lixos? Se fui eu quem lhe impus esta tarefa?". Eu me vi então entre escolher a imagem ideal (a mulher que tem um companheiro que lhe ajuda de forma expontânea) e a imagem real (esta, de quem mora com alguém que é capaz de sair altas horas da noite para comprar algo que você quer, mas que é incapaz de ajudar em qualquer serviço de casa, sem que haja antes negociação). Escolhi então a imagem real e fiquei em paz. Senti muito fortemente que quero esta família, quero este homem, mesmo que a imagem vendida pelos filmes hollywoodianos e europeus não seja possível por aqui.

E comecei a pensar que isso é amor. É simplesmente amor. E que não quero perder isso por nada. Nem que eu tenha que levar os lixos (embora eu vá continuar tentando que ele os leve!).
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terça-feira, 24 de novembro de 2009

O cheiro do ralo, de Lourenço Mutarelli


Lourenço Mutarelli tem arrebanhado prêmios literários por aí [Jabuti, BrasilTelecom e tal e tal]. É um querido dos cineastas. É um quadrinista super talentoso. É um escritor que "acontece". E parece ser super gente boa - e assim meio louco. É o que acho quando leio seu blog, que já teve outro endereço e que talvez nem vá para frente. Com esse currículo quem não tem vontade de ler algum dos seus livros? Eu comecei com O cheiro do ralo. Ok. Foi uma escolha óbvia, própria de quem gosta de cinema. Mas a razão é boa: Marçal Aquino, o escritor, esteve por estas paragens rondonienses. E tanto falou, tanto disse, sobre este livro/filme, que eu acabei comprando-o e lendo-o. Adianto: é uma delícia. Não é uma obra-prima com linguagem refinada. É uma obra com a linguagem descolada do nosso tempo. Leva-se um susto logo ao folhear. Visualmente, parece poesia. Cada frase em uma linha em boa parte do livro. Frases curtas de uma mente obsessiva, como é a do narrador protagonista, que, no filme, tem o rosto do Selton Mello, mas no livro é a cara do cara do comercial da Bombril. Simples assim.



Mutarelli tem coragem. Escreve um livro em que quase nada de diferente acontece. Dias após dias - fedorentos. Ele, o narrador, não tem caráter algum. Poucas coisas, até a uma certa altura, tiram-no do sério: o cheiro do ralo, a bunda que ele quer comprar, a noiva que ele dispensa quando os convites já estão na gráfica. Ele é um comprador. E as pessoas que passam por ali para lhe vender bugigangas - e sentem o cheiro do ralo - no fundo sabem que ele "chuta baixo" o valor. Ele compra, as pessoas estão à venda. Tem uma crueldade engraçada neste princípio torto. O narrador é torpe, mas é também engraçado. No fim, torcemos por ele. Mas aí já é tarde. É a solidão, a loucura, o desamparo, o azar dos malditos o que sobra. E o ralo, e não o ser.


Mutarelli faz parte daquele tipo de escritor que não está nem aí para as convenções literárias. Geração Beat anos 2000. Escreve com a linguagem das HQs, das ruas, do teatro jovem. Não é todo dia que tenho vontade de ler esse tipo de texto, mas que é uma delícia, ah isto é. Lembra minha primeira leitura - fascinada - de Feliz ano velho, do Marcelo Paiva. E tambem tem muito a ver com meu lado que gosta da Clarah Averbuck. Espero que meu filho leia esta gente toda. Eu já disse de inúmeras formas: gosto de gente esquisita. Ler Mutarelli é como ver um filme com um enorme saco de pipoca e uma coca-cola ao lado. Para o bem e para o mal, é esta a minha imagem.
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os desenhos são dele.
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A literatura segundo Silviano

A literatura é sempre parte do corpo de quem escreve. Dos seus sentimentos, das suas idéias, dos seus sofrimentos e alegrias. É tudo aquilo que nos constitui, e que a gente julga que possa servir de matéria-prima para se fazer algo que possa transcender a questão meramente autobiográfica.

Silviano Santiago.

Dias


o filho dorme na rede branca. presente da tia.
o calor é aos poucos substituído por um vento de chuva.
a cortina balança.
eu terminei ainda há pouco um livro de Silviano Santiago, O falso mentiroso.
talvez a chuva venha.
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quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Os diários de Susan Sontag

Em que eu acredito?

Na vida privada

Em mostrar cultura

Em música, Shakespeare, prédios antigos

Os diários são os blogs de antigamente. Mas eu que tenho pilhas de diários, no mesmo instante em que escrevo essa frase, discordo dela. Porque por mais que digam que quem escreve diário espera ser lido, não é bem assim. A possibilidade de não sê-lo faz com que escrevamos coisas que jamais escreveríamos em um blog - escancarado na sua essência. Duvido que Kafka, nos seus diários, sangraria daquele modo se fosse em um blog. Ele sangra na sua literatura, mas tranvestido de "ele". Ficção. A primeira pessoa do singular, para quem tem algum bom senso, é poderosa. Obriga-nos a selecionar.

Pensava nestas coisas lendo o primeiro volume dos Diários, de Susan Sontag. Não leio muito este gênero, mas Sontag é uma figura que dá vontade de saber mais. Amou o que eu amo - Roland Barthes. Uma norte-americana fascinada pela Europa. E que registrou seus pensamentos em mais de 100 cadernos durante toda a vida. Este primeiro volume compreende os anos de 1947-1963. Sontag é muito jovem, são seus anos de formação. Em todos os sentidos. Os diários são antipáticos. E o que há de mais interessante é perceber como ela tinha medo de ser lida: enquanto esteve casada, numa relação heterossexual, há uma impessoalidade que beira à obsessão. Depois, ela se solta, é a queda livre sem rede de proteção. Assume todas as dores e as delícias de suas relações homossexuais. E isto acontece justamente quando vai para Paris. Fica a impressão de que lá todas as experiências são possíveis.

Os diários dão a medida exata da sua obsessão pelo saber. Listas e listas de livros a comprar, de filmes vistos e a ver. E muita música, sobretudo clássica. E há também muitas citações de outros autores. E aquelas bizarrices que nos fez refletir - eu e Bozoca - que diário publicado post-mortem deixa sempre a dúvida: deveriam ter sido publicados quando a autora não o fez em vida? A bizarrice mais recorrente: ela não gostava de tomar banho. Escreve inúmeras vezes sobre isto. Martiriza-se por que não gosta. Fica feliz quando sente que está progredindo. Vejam. Uma intelectual respeitada, admirada, "e é capaz de a partir de agora ser lembrada por causa disso". Tudo se resume, assim, à imagem. É a imagem que é flechada, condenada, nos diários que supostamente não serão lidos.

Agora, é esperar pelos outros dois volumes que sairão. Porque esta é uma característica deste gênero: ao mesmo tempo que causa em mim um fastio, causa também um fascínio.

SONTAG, Susan. Diários - 1947-1963. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

Do diário de Susan Sontag

31/12/57

Sobre fazer um diário.

É superficial entender um diário apenas como um receptáculo dos pensamentos privados, secretos, de alguém - como um confidente que é surdo, mudo e analfabeto. No diário eu não apenas exprimo a mim mesma de modo mais aberto do que poderia fazer com qualquer pessoa; eu me crio.

O diário é um veículo para o meu sentido de individualidade. Ele me representa como emocional e espiritualmente independente. Portanto (infelizmente) não apenas registra minha vida real, diária, mas sim - em muitos casos - oferece uma alternativa para ela.

Há muitas vezes uma contradição entre o sentido de nossas ações em relação a uma pessoa e o que dissemos que sentimos em relação a essa pessoa num diário. Mas isso não significa que aquilo que fazemos é superficial e só aquilo que confessamos para nós mesmos é profundo. Confissões, refiro-me a confissões sinceras, é claro, podem ser mais superficiais do que as ações.
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sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Rapidinhas

Mundo louco. Uniban. Apagão. Madonna no Rio. Basta uma passeadinha pela net para sacar que realmente não vale a pena ficar a par.

Tenho gostado mais de ver filmes antigos do que filmes de agora. Je suis un grand menteur, sobre Fellini, vale mais a pena do que muitos filmes que saíram do forno agora. Do que muita conversa jogada fora. Ouvir gente sabida é outra coisa. E Hiroshima mon amour, então, é até covardia comparar. Filme que me deixa com dor nas tripas. E meio melancólica: não é um filme sobre uma história de amor. É um filme sobre o "horror do esquecimento". Sei bem o que é isto. Eu sofro porque sei que vou esquecer. Cena: manhã fria em um estúdio de Paris. Um choro sentido, longo e, pensando bem, nada elegante. E eu digo que choro porque vou esquecer, porque é só naquele momento que sinto o que estou sentindo.

A revolução dos bichos, de George Orwell. Sempre a culpa por não ter feito aquelas leituras óbvias - meio obrigatórias para qualquer leitor que se pre... Dificuldade de gostar do discurso. Prefiro a fábula: os porcos andando sobre duas pernas mandando nos cavalos, nas galinhas, é de morrer de rir. Troco a sisudez da "mensagem" pela hilariedade da imagem. Deve ter algum filme baseado no livro. Vou procurar.

Horror à intolerância. Diante de alguns fatos, fiquei pensando que falta humor no mundo. Em mim, inclusive. Talvez com a diferença que eu fico alerta. Mas não sei se ficar alerta evita a minha intolerância (talvez intolerância com quem é intolerante!) ou só me deixa mais tensa. Só sei que não tenho fobias tão grandes com os seres esquisitos. Gosto das esquisitices. Gosto dos seres esquisitos que pensam. Ou que são engraçados. Só não gosto da pose. Horror à pose também.

Maria Gadú canta pra caralho. E tem um jeito de quem não está nem aí - que adoro. Vale a pena todo o CD: é delicado - uma "bela flor". Gostei também do novo CD da Céu - mas gosto mais do primeiro. Legal isto de ela ter "dado um tempo", e ter colocado o nome do CD de "Vagarosa" - e tudo é meio lento mesmo, com aquela ginga de malandro - samba e reggae... E na faixa "Vira lata", tem meu amado Luiz Melodia. O iê iê iê de Arnaldo Antunes é coisa de gênio. Ui! Da minha parte, continuo com aquela estranheza de sentir que Arnaldo quer cantar certinho, bonitinho. Sinto falta do grito, já disse. Mas gosto destes trabalhos conceituais. É preciso ouvir o CD todo para compreender a proposta. Dá para voltar no tempo e curtir a atmosfera do iê iê iê.

Sim. Vida. E meu filho aqui ao meu lado. E o amor Tatu ao meu lado.
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Presentão


Neste ano, não teve festinha de niver. Talvez pelo dinheiro parco. Talvez, ostra. Mas Tatu me deu um presente tão bacana, tão "desejo de nós dois", que eu quero registrar aqui, embora já faça tempão. Não que eu entenda de vinho, mas gosto muito. Gostamos muito. Agora é so degustar na temperatura certa...
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Duro é parar os vinhos lá dentro!

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Sobre Kafka

Nas palavrinhas:

Olá! Quero dizer que amo seu blog mas nunca tive o ímpeto de me manifestar. Sou uma amante das letras, e dos livras, claro. Estudo biblioteconomia (!) e queria tirar uma dúvida com você. Conheci o Kafka aqui (vergonha, rs) e fui ansiosamente providenciar um livro dele. Como não conhecia nunhum, fiquei com o Metamorfose, mas como não sou tão veterana em leitura como você, não estou entendendo muito bem o livro (vergonha 2, rs). ... Não sei se você já leu esse livro, mas, em caso afirmativo, poderia me ajudar a pegar a linha de pensamento, ou a crítica, sei lá, que está escondida nesse cotidiano narrado na obra. .
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Natália Branco, quem é você? além de ser palavras, tem um corpo, uma história? E como chegou aqui? E por que nunca tinha se manifestado? Pois vejam o que é um blog, como são grandes as dimensões das suas portas. O blog é o lugar da hospitalidade por excelência; entrar e sair pode ser a qualquer hora e sem deixar rastros. Isso é tão bonito e ao mesmo tempo tão assustador para quem escreve.

Natália me pergunta sobre Kafka como se eu pudesse responder as suas questões... Sinto uma espécie de pudor que me paralisa, como sempre acontece quando pressupõem, de antemão, que eu sei falar sobre algo. Sei que essa sensação não condiz com a minha condição de professora [e quem disse que precisamos ser coerentes em tudo?] ...

Natália, você deve saber que este blog não faz crítica, que não passa de uma colcha de retalhos sobre o que leio, vejo e vivo. Não há nenhuma análise aqui, apenas devaneios. Por isso, não sei responder ao que me pergunta. Tudo que posso dizer sobre Kafka é que ele me atinge enormemente, embora tambem não o compreenda. Kafka é um escritor que nos dá machadadas sem que saibamos a razão. Eu fui em Praga buscando encontrá-lo. Isto é, buscando, através do seu mundo, das ruas onde andava, do frio que passava, das cores que via, os possíveis traços da sua literatura. E Praga é uma cidade avermelhada, nem mesmo é cinza como Paris, embora seja muito fria. Talvez Kafka seja assim: avermelhado e frio. Em A metamorfose sinto isto: por um lado, toda a frieza, por outro, o vermelho, a saída, a esperança. Não é assim? À medida que ocorre o aniquilamento de Gregor Samsa, ocorre a reestruturação da sua família. Talvez este seja, de fato, o grande absurdo na obra kafkiana: o lado terrivelmente humano.

O que ainda posso lhe dizer, de forma canhestra, é que os livros de Kafka não se deixam compreender como certa literatura se deixa - mas isto você já sabe. Ele é absolutamente real nas situações mais inusitadas. E isto causa espanto: mostrar aos nossos olhos descrentes o imponderável, o inimaginável. Mas se fosse só isto, seria pouco. Este inusitado é formado por uma fina camada grotesca, abjeta., que nos choca e ao mesmo tempo nos seduz. Ninguém fica feliz lendo Kafka - e saber disso me ajuda a constituir meu gosto literário. Explico: gosto de estar feliz. Para mim, é quase um imperativo. E por outro lado, sinto em mim a densidade do mundo, como se exisitisse algo pesado contra o qual seja sempre preciso lutar. Pois travo esta luta com autores como Kafka, Genet, Beckett, Thomas Bernhard. Não que eles me deem alguma lucidez. É o contrário. Nas interrogações abismais existentes nos textos destes autores, encontro meu tênue equilíbrio, o único possível no espaço da loucura. Veja então: Kafka é o remédio e o veneno; exatamente o que eu penso que seja a literatura.

Um abraço, Natália. E espero que você volte, mesmo que eu não tenha respondido as suas perguntas. As fotos foram tiradas em Praga. Constatei que ele está em toda parte por lá, como um fantasma. Tomara que você goste.


domingo, 1 de novembro de 2009

Loki, de Arnaldo Baptista

Cê tá pensando que eu sou loki, bicho?


Loki
é um cd excepcional. Lançado em 1974, no ano em que nasci, continua tão belo, tão atual, tão visceral, como se tivesse sido lançado ontem. Minto. É dificil encontrar um cd hoje em dia que tenha tanta verdade - sabe quando quase se vê as veias latejando, aquela dor latente, demorada? é assim o cd de Arnaldo Baptista. Eu nascia enquanto ele ia cada vez mais longe na sua caminhada rumo à morte. Salvo por um anjo depois de alçar voo, virou menino outra vez. É o que se pode ver no documentário que carrega o mesmo nome deste cd. O documentário é lindo, mas não é visceral como o cd. Falta a dor que está exposta em cada música. Como ele é um sobrevivente, retiraram a tristeza do documentário. Mas a tristeza está no cd de 1974 e está também no último que ele lançou - Let in bed. Mesmo menino, Arnaldo está marcado. Viver a vida como se ela fosse arte tem seu preço. Ou não é nada disso. Talvez tudo seja tão difícil porque o que ele experimentou foi "o barato de ser ser humano". E como é dificil "ser ser humano!" Não há fórmulas. Às vezes, pensamos que estamos no rumo, que está tudo certo, aí vem o vento e leva tudo. "Será que é difícil esquecer os males?". Ou a gente se brutaliza! É tão perturbador ouvir um cd desse tipo. Parece que doi. E ao mesmo tempo dá uma felicidade, uma alegria por estar viva e ter tido a oportunidade de ouvir uma belezura desta. Ah, viver é tão perturbador. Tem destes encontros que nos dão tudo e nos tiram tudo. Arnaldo viveu isto de modo extremo. E ele sabia disto: "O que é isso, meu amor?/ Será que eu vou morrer de dor?" Sim, morreu. Mas o anjo estava bem ali para fazê-lo menino outra vez. Ainda bem.
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* postagem para o Tatupai, que amou este cd desde a primeira audição e que a cada vez fala dele com os olhos brilhando.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

mutum


Mutum no dia do aniversário, depois que os amigos se foram, entre uma mamada e outra. e no silêncio, lágrima rolou. mutum dentro de mim. um sertão. ali, a infância perdida. aquela tristeza. aquele mundo adulto aniquilando o mundo criança. aquele choro sentido, muitas vezes. tantas vezes que foi preciso esquecer toda a infância. se houve felicidade, algum dia, não há como saber. as memórias são todas memórias tristes. como quase todas as memórias. o sertão. a paisagem, de cócoras no parapeito da cozinha. as roupas voando no varal. a louça suja nas tábuas velhas servindo de pia. a água caía no chão e respingava nos pés cheios de frieira. as paredes de tijolos descobertos. e muita, muita areia. por toda parte. sapos na boca da noite. pular entre um e outro. brincar escondida, que ninguém soubesse. os olhos arregalados. os olhos bem apertados fingindo dormir enquanto ouvia a mãe bem tarde da noite. só bem tarde da noite. areia quente meio dia e meia na hora de voltar da escola. estômago que nunca parava de roncar. o desejo de que sobrasse um ovo ao menos uma vez. uma única vez e já teria sido o bastante. cadê a vida, ela existe, deus? deus era um ser cruel que matava os cachorros aos poucos sem que nada pudesse ser feito. deus abandonava a menina magrela e amarela fraca das pernas. deus na terra do sol só existia por teimosia. mutum era um mundo e também um estado.



o certo é que nunca se parte de vez de mutum. embora a única chance de se salvar seja ir embora. seja emudecer. até que ele volta sem avisar.

mutum é o filme de sandra kogut. aqui, são minhas memórias. as fotos são da minha última viagem à cidade da infância.

Decoração e outros afins

Minha irmã Maneca, após um comentário meu sobre decoração, solta esta: "Mana, para falar a verdade, se eu disser a algumas pessoas que você agora liga para estas coisas, elas não acreditariam". Será mesmo?, é o que eu me pergunto agora. Na verdade, sempre tive uma preocupação com a casa, mas entendo o que Maneca quis dizer. "Ligar para essas coisas" relacionava-se a objetos de decoração relativamente caros. Para mim, tem a ver com aprendizado. Uma vez meu amigo Binho me disse que eu não tinha nada a agradecer a quem me ensinava algo, pois o aprendizado deriva da vontade. É algo que vem de nós quando pensamos que vem do outro. Então posso dizer que sempre tive uma "queda" por uma série de coisas e depois fui aprimorando meu gosto. É a este tipo de aprendizado que me refiro. Podemos gostar de música, de livros, de filmes e mesmo assim passarmos a vida inteira consumindo com um "gosto médio", sem se preocupar de fato em aprimorar a tal "queda". Eu vou no sentido contrário. Gostando de música, de livros, de filmes, cada vez mais nos últimos anos tenho me pautado pela pesquisa. Embora lenta, seletiva, displicente, o que busco mesmo é me rodear "do bom e do melhor". Podem me dizer que isso é coisa de gente metida à besta (de fato, era o que minha irmã me dizia). Eu prefiro pensar que é uma atitude inteligente de não querer me pautar pelo gosto médio, que em alguns casos é pior do que não ter gosto algum. Se eu vou dispender meu tempo lendo um livro, por que deveria ler o último best seller indicado pelas revistas quando posso ler um clássico que indubitavelmente é bem melhor do que aquele (ok, seria preciso discutir a questão do que significa este "melhor")?.

Voltemos à decoração. Pois bem. Quando desisti de morar de "modo provisório", resolvi arrumar a casa, mesmo sem ter casa. Comecei em Sampa. Nosso apê (meu e da Mari) era muito charmoso. Aqui em Vilhena, resolvi que começaria a comprar meus móveis "definitivos". Estou há mais de ano nesta história. Natural que me interessasse por decoração (a pesquisa, a pesquisa...). Eu já estava com boa parte do apê arrumado quando conheci um blog interessantíssimo chamado Decoeração. De lá para outros, foi um pulo. Assim, eu cheguei na minha cadeira de amamentação (que derivou o comentário da Maneca). É uma cadeira de balanço Eames e tenho minhas dúvidas se é boa para amamentar, mas é com certeza boa para ler historinhas... e é linda! Encomendei-a em Sampa e, é verdade, vou pagar os tubos pelo frete. Não é a primeira vez que faço isto. A transportadora que trouxe minhas coisas para cá é "estilo caseira". Vez ou outra eles "quebram o galho" das minhas maluquices (e cobram mais barato do que outras).

Por que seria estranho eu gostar de decoração? É a questão da imagem. Deveria uma pessoa que passa a maior parte do seu tempo ocupada com atividades consideradas nobres, como ler, escrever e tal, preocupar-se com estas coisas mundanas? Não seria mais apropriado morar em um galpão? O que as pessoas que pensam assim não percebem é que, mesmo se morasse em um galpão, ele acabaria tendo a "minha cara", ele se impregnaria do meu estilo. Não há nada de incoerente na minha atitude. A beleza está em tudo. E eu quero viver rodeada de beleza. Uma beleza que tenha a ver comigo, com minha história. E agora com a história de Tatu.

Foto: o desenho da estante, como já disse aqui, fomos eu e Tatu que criamos, assim como criamos o quarto do Poeminha. Decidimos juntos tudo que vamos comprar. Esta é a boa notícia. Tatu aprova e me ajuda na decoração do apê.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

3.5


estou aqui. estar aqui é muito. reinventei a vida. ou ela se reinventou e eu, sortuda, me vi inteira. reinventar a vida é como uma fruta madura retirada do pé e comida na hora, sem se preocupar em lavar. uma fruta que se come sentindo-a escorrer pelos cantos da boca.
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feliz. nem precisava dizer, né?
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quinta-feira, 22 de outubro de 2009

O perfume, de Patrick Süskind


Mas o ódio que sentia pelas pessoas permaneceu sem eco. Quanto mais ele as odiava nesse momento, tanto mais elas o adoravam, pois nada percebiam dele senão a sua aura, a sua máscara odorífera, o seu perfume roubado, e este era, de fato, divinamente bom.

Terminei a leitura de O perfume, de Patrick Süskind. Estava lendo-o quando Poeminha resolveu vir ao mundo. Depois, ele ficou um tempinho na cabeceira. Aliás, é uma releitura. Havia assistido ao filme em Paris em um dos cinemas mais bonitos de lá. E não gostei muito. Porém, não lembrava muito do livro. Só minhas marcações revelavam que eu já o havia lido. Esta memória tirana. O livro é formidável - infinitamente melhor do que o filme, constato agora, embora não goste muito desta comparação, em que o livro, para os aficcionados, sempre acaba por ganhar. Esta é uma daquelas comparações que não dá em nada, além de ser previsível. Como eu gosto de cinema tanto quanto gosto dos livros... Mesmo assim, arrisco um palpite de o porque de o filme ser tão distante da excelência do livro: a culpa é do protagonista que, no filme, parece um abobalhado, enquanto que, no livro, ele se parece premeditadamente abobalhado. Eis toda a diferença. O verme Jean-Baptiste Grenouille, de fato, é um homem mau. E a narrativa da sua vida, desde a hora do nascimento até ao momento em que decide extingui-la, é para reiterar esta maldade, que acaba por destacar a de todo ser humano com o qual ele convive. Neste sentido, as forças antagônicas estão irremediavelmente ligadas: a vida e a morte, o odor bom e o odor fétido, a explosão de cheiros (sentida por Grenoille) e a ausência de cheiros (inexistente em seu corpo). Daí vem a inexistência de sentimentos ligados ao corpo. A matéria seria desnecessária, se não fosse ela que carregasse os odores.

Como trazer para a linguagem o olfato? O ar fétido da Paris do séc. XVIII, a podridão das ruas, o corpo nojento das pessoas, a putrefação das comidas, o fedor dos cadáveres, o horror, o horror... embora a linguagem seja clássica, está tudo aqui. O escritor alemão nos conduz por uma viagem inebriante pelos infinitos odores do mundo. Aproximamo-nos tanto do abjeto quanto do sublime e nos damos conta de que eles estão sempre próximos. E espantados, concluímos que é para esconder o abjeto que buscamos o sublime. As garras daquele são as asas deste.

É, portanto, a história da incompletude de um eu que, sabendo-se deus, reconhece como ninguém a solidão. E a solidão leva ao mais primitivo dos sentimentos: o ódio - que bem pode ser amor.

Soberbo!



segunda-feira, 19 de outubro de 2009

O fetiche dos livros

Fazia tempo que não lia páginas tão primorosas sobre o fetiche produzido pelos livros, como li agora em Bibliomania, de Flaubert, um pequeno grande conto inspirado em uma suposta notícia judicial. Sempre digo que possuir livros, constituir uma biblioteca, tem muito a ver com aquilo que Caetano Veloso chama de "amor tátil". É também um fetiche, uma assombração, uma obsessão, escravidão até.

E que conto! Flaubert faz uma pequena obra-prima aos 15 anos de idade. A história de Giácomo, o livreiro:

"Tinha trinta anos e já passava por velho e acabado; possuía alta estatura, mas curvado como a de um ancião; ... Raramente era visto nas ruas, a não ser nos dias em que eram vendidos em leilão lotes de livros raros e curiosos. Então, não era mais o mesmo homem indolente e ridículo, seus olhos se animavam, corria, caminhava, saltitava, mal podia moderar sua alegria...

À noite, os vizinhos podiam ver, através das vidraças do livreiro, uma luz que vacilava, depois progredia, afastava-se, crescia, e a seguir, uma vez ou outra, se apagava... Tais noites ardentes e febris, ele as passava com seus livros. Circulava entre suas estantes, percorria as galerias de sua biblioteca com êxtase e encantamento; depois detinha-se, com os cabelos em desordem, os olhos fixos e faiscantes, as mãos trêmulas ao tocar a madeira das prateleiras; que eram quentes e úmida.
Apanhava um livro, folheava suas páginas, manuseava seu papel, examinava suas douraduras, a capa, os tipos, a tinta, as dobras, e o arranjo dos desenhos para a palavra finis; depois, trocava-o de lugar, colocava-o numa prateleira mais alta, e permanecia horas inteiras a observar-lhe o título e a forma. ...

Oh! ele era feliz, esse homem, feliz em meio a toda essa ciência cujo alcance moral e valor literário mal penetrava; era feliz, sentado entre todos esses livros, passeando os olhos sobre as letras douradas, sobre as páginas gastas, sobre o pergaminho desbotado; amava a ciência como um cego ama o dia. Não! não era de modo algum a ciência o que ele amava, mas sua forma e expressão; amava um livro porque era um livro; amava seu cheiro, sua forma, seu título".

Algum leitor pode negar que seja assim? pode negar que não se viu, ao menos uma vez, no lugar deste livreiro?


confissão incômoda

Depois da leitura de Bibliomania, de Flaubert, sinto-me mais normal. Pensando bem, sinto-me mais cômoda com minha anormalidade. Há tantos zunidos no mundo - e eu me pergunto por que estou com esta vontade medonha. Deve ter sido excesso de gente. Amo, mas enjoo. E este negócio de ser mãe tem um lado complicado. Deus e o diabo querem dizer o que devo fazer. E tudo gira em torno do fato de ser mãe. Falta-me humildade para viver isso com tranquilidade. A relação com o Poeminha, linda. Quando ele chora, dá vontade de colocá-lo de volta no útero, mas não me desespero. Criança chora porque não sabe falar. Dá vontade de dizer isso a todos. Ou dá vontade de não dizer nada. Tatupai está vivenciando isto de outra maneira. Está tão feliz que quer o mundo todo perto dele. E eu, uma ostra, menos para eles dois.
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terça-feira, 13 de outubro de 2009

a isso dou o nome de amor


Elas foram embora ontem. Minhas duas irmãs e minha sobrinha. Mana Mácia veio de Fortaleza. Maneca veio de Porto Velho. Distâncias enormes deste Brasil tão grande. Tia Fá também veio. Princesa ficou apenas três dias. Mana, doze. Ela queria ter acompanhado o parto do Poeminha, mas ele estava ansioso para ver o mundo, viver a vida fora da sua "zona de conforto", como disse a Cy. Foram dias bonitos. É bonito como me relaciono com minhas irmãs. Aprendemos a nos amar. Sim, porque amar é um aprendizado, não é uma imposição marcada por laços de sangue. Amar bem. Amor tem a ver com admiração, cuidade, entrega, cumplicidade, emoção. Há muito disso tudo em nós. E cada vez mais. A ausência mais sentida foi a da minha mãe. De tanto perguntarem por ela, comecei a sentir a sua falta. Este ainda é um amor de longe. Ainda bem que é amor.

Minhas irmãs e minha sobrinha têm vindo até a mim. Me comovo quando penso. Foi assim na minha defesa de doutorado. Elas foram. E também foram dias belos. Mas como eu só senti de fato que era um momento marcante na minha vida quando vi os dias acontecendo, a emoção demorou a bater. E na defesa tinha Sampa para mostrar. Era um aperitivo e tanto, o que justificava a ida delas. Aqui em Vilhena não há aperitivo algum. Vivemos à margem da cidade, construindo espaços de delicadeza longe das suas ruas. Então, o que elas viriam fazer aqui? agora, sei a resposta. Vieram por mim e pelo Poeminha, vieram sentir os primeiros dias da sua vida. Como já disse: dou a isso o nome de amor.
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post-scriptum: a Mana bem lembrou que, de fato, além de cuidar do Poeminha, o que fizemos o tempo todo foi assistir a filmes, comer e conversar sem parar - esparramadas no nosso sofá tamanho família! Eh vidão!

sábado, 10 de outubro de 2009

Imagens, de Bergman

Há uma cena terrível em Fanny e Alexander, de Ingmar Bergman. Uma cena de castigo físico. O padrasto pune com uma vara o pequeno Alexander, que tenta manter a dignidade. Este filme, aliás, é terrível, embora o final seja redentor. Bergman é medonho em todos os seus filmes. Não dá para sair ileso de nenhum deles - as dores das almas dão fisgadas constantes. Nossas culpas, até as que julgamos inexistentes, dão o bote na calada da noite.

No entanto, medonho mesmo é constatar no livro Imagens, uma espécie de memórias cinematográficas deste cineasta sueco, que esta cena fazia parte do seu banquete familiar. Bergman é daqueles artistas que não deixa a menor dúvida de que seus filmes saem das suas entranhas, que os fantasmas que aparecem neles, por mais pavorosos que sejam, são seus próprios fantasmas. Daí ser tão difícil ler este livro, embora eu o leia agora com imenso prazer, nos espaços de sono do Poeminha, enquanto observo a movimentação das minhas irmãs que vieram ficar comigo nestes primeiros dias de nascimento.

Tem algo de terrível neste homem que impingia a si - e também aos que conviviam com ele - tanta dor ao mesmo tempo que transfigurava tudo na arte. Não vejo nele separação entre dor física e psicológica, tamanha a naturalidade com que convive com as duas. É mais do que naturalidade. É uma forma de fúria - a mesma que fez dele um dos maiores cineastas de todos os tempos.

O que mais me comove é a impressão de que, por mais terrível que seja uma cena de Bergman, ela é mais terrível para ele do que para seu espectador. É o caso da cena da vara. No filme, é o padrastro que a aplica, então podemos transferir toda nossa raiva para esta figura, imaginar que ele é capaz de imprimir castigo tão cruel porque é um padrasto. Mas para Bergman não havia essa mediação, que ele oferece ao espectador como se dissesse que sabe que sem ela a dor seria muito maior.

sábado, 3 de outubro de 2009

poeminha


poeminha Bernardo nasceu. o que acontece todos os dias com tantas mulheres, quando acontece conosco, ganha a forma de um milagre. veio assim, alguns dias antes do esperado, porque já veio sábio, adivinhou que não devia ficar mais tempo na barriga, pois corria o risco de não ver o sol, a lua e as pessoas e ele queria ver o sol e ver a lua e ver as pessoas. chorou como todos os bebês, e eu como todas as mães. não me deixou sentir dor, embora eu, tão pouco afeita à dores, estivesse disposta a senti-las, mas não me frustrei. é bom ser contrariada e depois sentir apenas a beleza do momento. dizem que ser mãe tem um pouco disso. agora estamos aqui envoltos em ternura. cada dia uma descoberta, um susto, uma surpresa. ser mãe é tudo e é tanto. em uma das noites, enquanto ele dormia, eu não preguei o olho - chorei e sorri transbordando a emoção que eu não sabia existir. o que é a plenitude, senão o inalcançável?, é o que sempre pensei. mas ali, no meio da noite, senti a plenitude. e continuo sentindo-a. ele tem um jeito tranquilo mas já com os olhos arregalados para o mundo. atento aos barulhos, aos gestos, aos seus e aos nossos.

eu e o tatupai estamos inundados de amor e de felicidade. ontem, fez um ano que estamos juntos. não deu para comemorar como dita a cartilha dos namorados, mas nos sentimos inteiros confiando na nossa história, nos nossos caminhos. inteiros pai e mãe. inteiros amantes. por inteiro amados e amando.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

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Imersa.
Inteiramente à espera.
Inteira.

Imensos dias.
Tudo.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Os titãs e os berros

Com tantos cds é natural que muitos deixem de ser ouvidos. Quem consome bens culturais, não deixa de ter a voracidade de outros tipos de consumidores. Às vezes, a avidez pela novidade é apenas isto: avidez, enquanto aquele velho cd, ou livro, ou filme, estão ali esperando para serem de novo "contemplados". Nestes dias, eu tenho me dado ao luxo da revisitação, ouvindo cds antigos, assistindo a filmes que havia comprado e ainda não havia assistido e lendo alguns livros. Enfim, tornando viva matéria morta. E hoje, por conta da visita do Bozoca (preciso escrever sobre esta figura!) que apareceu sábado no exato instante em que eu resolvia ver um filme que o deixou estarrecido, melancólico e ainda mais cáustico do que já é, amanheci ouvindo Titãs - fase Arnaldo Antunes. E como eram bons os Titãs! Nada a ver com a cópia em que se transformaram. Os cds ouvidos foram Jesus não tem dentes no país dos banguelas e Õ blesq blom, que dispensam apresentações para quem era fã da banda. Embora eu tenha grande admiração pela trajetória do Arnaldo Antunes - fã de babar mesmo, de comprar tudo, desde os livros até os cds -, ouvindo estes cds eu fico com saudade do Arnaldo que não existe mais. Sinto saudade do berro, do ruído, da boca suja (ok, boca suja ele ainda tem, mas o tom visceral, próximo do grito, faz falta), como quando Os Titãs berram, bem próximo da oralidade: Todo mundo quer amor/ Todo mundo quer amor de verdade/ ... Quem tem pinto saco boca cu buceta quer amor/ Ele quer/ Ela quer.

Sim, sim, o mundo precisa deste tipo de berro vindo da arte, deste choque, desta estocada nos bons costumes, nas palavras comedidas. É preciso sentir o pulso pulsar bem forte, deixar-se contaminar pelo nosso lado mais cão, porque ele existe. E isto não significa deixar de ser gentil, de ter cuidado conosco e com o outro, significa ser menos ascéptico, saber gritar quando o outro grita, saber se lambuzar de doce ou de porra ou de porre e nem por isso duvidar que se é cumpridor do seu cartão de crédito a vencer. Isto me faz lembrar de outra música que diz: "Não preciso ser alguém,/ eu consigo viver sem/ armas pra lutar." E enquanto ouço, penso que meu intento sempre foi este: desarmar-se. Viver armado é a maior merda que se pode fazer com a própria vida - como são tristes pessoas que não param nunca de pensar que existe um batalhão pronto para devorar seus rabos. Deveriam ouvir mais música, ler mais livros, ver mais filmes, deveriam querer "inteiro e não pela metade" , deveriam vez ou outra experimentarem a delicadeza de um instante porrada ao som dos Titãs.
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Talvez seja Bozoca que esteja me fazendo lembrar, talvez sejam os Titãs, ou talvez eu seja assim mesmo, sempre tenha sido, embora ponha reparo para não dar muito na vista.

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sexta-feira, 11 de setembro de 2009

O correr dos dias

Durante o SILIC, meus pés incharam muito. E tendo irmã enfermeira, sem contar todos os conhecidos que viram médicos, benzedeiras, curandeiras, passamos a fazer a maioria das refeições em casa para diminuir o sal, o que, dizem, é essencial para diminuir o inchaço e para que a pressão não suba (esta, sim, o verdadeiro vilão da história). Tatupai não é chegado a sal mesmo, então tem feito uns pratos que não têm sal algum, mas muito saborosos. Minha única contribuição continua sendo as saladas e vez ou outra um arroz. Além de toda trupe de "médicos", ainda topamos com uma daquelas senhoras de posto de saúde que nos disse que uma pressão 12 por 8 em uma grávida já era um perigo iminente. Tatupai não titubeou: comprou um aparelho de medir pressão. E eis que todos os dias averiguamos a pressão, mesmo depois que o médico disse que a tal senhora falou uma grande bobagem. A pressão vai bem, obrigada. E os pés desinchados.

Eis que descanso então! Esta é a outra mudança. Trabalhei incessantemente, e em ritmo acelerado, durante toda a gravidez a ponto de ter a sensação de não ter visto este tempo passar. Começando a carreira acadêmica, a universidade virou prioridade. Mas agora, no último mês de gravidez, barriga pesada, com o fim do SILIC, resolvi desacelerar, embora ainda tenha mil coisinhas pendentes. Estou resolvendo essas pendências a conta-gotas. E ao contrário da maioria das grávidas, embora à noite tenha que negociar horas de sono com o Poeminha, não sinto muito sono de dia. Então estou fazendo aquilo de que mais gosto: vendo filmes, lendo bastante e ouvindo muita música. A barriga incomoda, sim, mas me encho de almofadas ao redor de mim e abro minhas janelas. Não tenho palavras para explicar como isto me faz bem. Difícil compreender as pessoas que se sentem ou solitárias ou entediadas em casa. Eu me sinto viva, totalmente entregue a estes momentos.

Colocamos uma rede ao lado dos cds, no meio da casa, como um convite para os momentos de entrega à música, à leitura, à preguiça. E finalmente temos um sofá exatamente como imaginamos. Eu brinco que tem cara de sofá de "novo-rico" (entendam a ironia: é aquela coisa exagerada, quando o tamanho da sala pediria algo menor), mas como é confortável! À noite, reencontramos o prazer de ficarmos deitados assistindo a filmes, conversando, traçando vidas. E à espera. Ficamos com a sensação de que as noites são nossas.

Enfim, o mundo todo bem aqui conosco à espera.

Nós

Eu fico olhando para o mundo daqui da minha janela imaginária. E entretanto tenho curtido muito viver do lado de dentro da janela. Existem "vidas" que só sabemos que queremos vivê-las quando de fato a vivenciamos. Tem sido assim com minha vida de "casada" e mãe (embora Poeminha ainda não tenha visto o mundo, já me sinto toda mãe). Se me perguntassem há um ano se eu queria isto, a resposta teria levado este momento para um futuro longíquo, como uma pedra que jogamos no mar esperando que ela se perca no horizonte. Como tudo aconteceu, não tenho resposta. Lampejos de carinho. Cumplicidade. Leveza. Tesão. E aí estava o momento certo surgindo... Tudo sem planejamento e sem stress, sem pressão, como se seguíssemos uma cartilha interior que estivesse nos ensinando a chegar até aqui. E já vai fazer um ano! Rimos da nossa pressa, da nossa falta de jeito, do nosso jeito. E é isto. Rimos. Somos dois Tatus. E já nos acostumamos tanto a sê-los que quando proferimos nossos nomes nos espantamos, como se aqui, do lado de dentro da janela, tivéssemos aprendido a nos reinventar. Se seremos daqui a um tempo um casal cansado como muitos que conhecemos? Não sabemos a resposta, mas também não fazemos esta pergunta. Traçamos planos o tempo todo, como se nosso amor nunca fosse envelhecer. E vivemos o "a cada dia" sempre cheio de delícias, de pequenos cuidados, de esperas, de chegadas, "enosmesmados".


imagem: Majeak Ann

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

...


Um reality show de palavras?
Para mim, o twitter é uma bobagem!

Primeiro a frase antipática para depois modalizar o discurso: ali nada me parece interessante. Mas eu acho ruim ser tão do contra, afinal tanta gente que parece legal acaba "twittando"! Aí, eu fico matutando: "por que acho tão besta?" E me vem uma resposta que, lógico, é muito pessoal, diz respeito ao modo como me relaciono com os tais "sites de relacionamento": eu não quero saber o que as pessoas fazem; quero saber o que elas pensam a partir do que fazem.

Os melhores diários, assim como os melhores blogs, são aqueles que transcendem a lógica do dia a dia, afinal até mesmo o cotidiano das pessoas mais interessantes é um sem fim de pequenos afazeres desimportantes. E os momentos desimportantes cheios de ternura só fazem sentido para quem os vive. E no twitter, lêem-se coisas do tipo: "indo para a academia", "assistindo ao jogo do Flamengo", "vou dormir, boa noite"... Pra quê dizer ou saber desse tipo de coisa? Eu sempre achei exagerado o discurso apocalíptico sobre a relação das pessoas com a internet, como se isso significasse um empobrecimento das experiências humanas, mas confesso que diante de um twitter eu não consigo encontrar um só razão inteligente para sua existência.

Deixemos então.

O silic e o gepec




... O SILIC aconteceu. E foi um sucesso. Sucesso é palavra besta. Foi um tanto de coisa então. Emoção. Chorei desde a abertura. Acho que não expliquei. Participo de um grupo de pesquisa na Universidade. Chama-se GEPEC - Grupo de Pesquisa em Poética Brasileira Contemporânea. Todas as segundas nos reunimos por uma hora e meia. E o SILIC foi o simpósio que inventamos. Invenção de várias cabeças. Um blog deveria servir para contar estas coisas. Mas eu fervilho. E talvez o essencial não vire palavras. Só digo que teve de tudo. Organização para ninguém botar defeito. Se brincar, passaremos a vender consultoria de como organizar eventos com pouco dinheiro e muita criatividade. Sabe quando um grupo está por inteiro entregue a um projeto? Foi assim. Nenhuma ordem precisou ser dada, nenhuma pressão, nenhum stress. Três dias felizes... e os extras aqui em casa. Quem pode falar assim hoje de um trabalho acadêmico? Sim, muita sorte eu tenho. Sempre gente boa aparece ao meu lado fazendo com que minha vida seja uma constante surpresa.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Barriga

Recebi hoje do meu tio amado:

"Estou meio perdido, sem tempo...fechei os olhos e vi vocês...um homem, uma mulher e uma barriga....".
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Sim, também estou sem tempo. E, sim, é o que também vejo. Ver um homem, uma mulher e uma barriga é, de longe, a mais bela visão da minha vida.
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segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Convite


Todos estão convidados. Está sendo feito com muito amor. E também com muito suor. Envolve muita gente do bem, disposta a trabalhar de graça para que a universidade seja o lugar das discussões, dos sonhos e das amizades.


terça-feira, 11 de agosto de 2009

Arquivo




Em Salvador, todo mundo quer ser Pierre Verger.
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quinta-feira, 6 de agosto de 2009

ansiedade mundana

Calma, calma. como toda grávida, eu estou ansiosa. Mas a ansiedade do título deve-se a algo mais, digamos, mundano. Junto com o quarto do Poeminha, eu e Tatu cometemos a loucura de mandar fazer um móvel para os CDs. Criamos o modelo a partir de um que vimos em uma revista. Pronto, virou desejo de última hora, embora o bom senso soltasse alerta vermelho a cada segundo. Como boa teimosa, ignorei todos os piscaspiscas, rebatendo-os com frases como: "Quando Poeminha nascer, ele vai puxar as caixas de cds que vão cair na cabeça dele". A avó dele, como já anunciei aqui, concordou comigo. O certo é que agora o móvel, depois de remodelado, acrescido, deve chegar a qualquer momento e vai ocupar uma parede inteira. Um móvel para 1000 cds. Inicialmente, o projeto era para 600 cds. Eu chutei este número por alto. mas quando tivemos que fechar o projeto, o jeito foi contar um por um e, para minha surpresa, chegamos nesta conta medonha. E esse número continua aumentando, porque eu sou das "antigas", gosto mesmo é de ter o cd, e não apenas baixar músicas na internet.

Porém, se móvel planejado é bom, porque sai do modelo que queremos, é também um saco, porque tem prazo longo de entrega. E eu que até gostava de como os cds estavam, agora, a cada vez que passo por eles, suspiro, imaginando que muito em breve eles terão um lugar à altura. Este lugar à altura foi a frase mais dita pelo vendedor para nos convencer ante a exorbitância que nos cobrou. Mal sabia ele que eu já estava convencida. Para afagar ainda mais meu ego, ele chegou a perguntar se alguém tinha decorado o apartamento, acrescentando que era muito original, muito bonito. Toda prosa, embora ciente da estratégia ali embutida, agradeci com aquele ar de humilde que fazemos quando, no fundo, estamos envaidecidas até o último fio do cabelo.

Definitivamente, eu sou um ser anfíbio, imersa em desejos. Já desisti de fazer ar blasé de quem não está nem aí para o supérfluo. Construo uma casa com afeto, embora ainda não tenha uma. Tenho o que dentro coloquei. Se minha casa é original, como disse o vendedor, é porque ela está carregada de história. Tem objetos caros, mas muito mais de valor emocional. Por toda parte, há minha autobiografia espalhada. Há mesmo uma certa poluição visual - casa à la almodovar: cores, livros, cds, malas espalhados, objetos que me fascinaram por uma ou outra razão. Vendo por este lado, sou muito mais cronópio do que esperança no que se refere à casa: uma esperança compraria, primeiro, um fogão ou um sofá, mas como boa cronopiana, prefiro antes um objeto com a função primeva de deleitar meus olhos, como esta estante que agora espero.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Os relâmpagos de Gullar


Ferreira Gullar me causa estranheza. Gosto muito da sua poesia, mas não gosto das suas entrevistas e de vários de seus textos. Sua luta em defesa da pureza da arte é quase vã. Uma vida toda de mea culpa por ter caído momentaneamente de amores pela poesia concreta. Aí veio o neoconcretismo, a volta à poesia discursiva... Mas nada disso tem importância quando leio seu livro Relâmpagos. A paixão pela tradição aqui tem outro matiz. E o que é imagem viram palavras carregadas de emoção e sensibilidade. Relâmpagos são pequenos instantes de delicadezas, como se Gullar, desnudo, tivesse contemplado por muito tempo cada pintura, cada escultura, e tirado dessa contemplação nem análise nem crítica, mas palavras de quem ama intensamente - palavras de amador, palavras amorosas. Não pode haver melhor transporte, melhor tradução para a arte, do que palavras assim - em carne viva.

ps. para minha surpresa, quando estava à cata de uma imagem, descubro que o livro está digitalizado. Eu ainda prefiro o folhear, mas para quem não se incomoda, é só clicar aqui.

merci!

tanto carinho aí embaixo nas "palavras". merci à tous! fiquei ainda mais cheia de amor. estar à espera do poeminha Bernardo, já sentindo-o por inteiro aqui comigo, é a mais doida das minhas aventuras até hoje. acordo no meio da noite e fico conversando com meus dois homens enquanto eles dormem. é uma lezeira gostosa, esta de expressar em voz alta todo o amor que há agora em mim. como disse a Rê, tudo transborda.
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tudo delira.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

sobre ser mãe

nunca tive certeza se queria ser mãe. e já tive certeza de que não queria. sempre tive medo das mães. primeiro da minha. medo que se estendeu a muitas outras que conheci. bicho estranho é mãe. ou é boa demais. e assim faz mal aos filhos. ou é ruim demais. e assim faz mal aos filhos. meus olhos secos sempre acham que uma filha está mentindo quando afirma que nunca odiou aquela que lhe pôs no mundo - nem que tenha sido por um instante. porém, o que me impedia o desejo de ser mãe era a vontade de "correr mundo, correr perigo". sempre tive relacionamentos longos e ainda assim cheguei aos 34 anos sem uma prole. não que eu tenha planejado que assim fosse. não deu certo por uma ou outra razão. dolorosas algumas. daí que eu tinha convicção de que se não tivesse filhos não me frustaria. nem mesmo pensava em outras hipóteses como adotar. a imagem mais corriqueira que eu fazia de mim era envelhecendo em uma casa com gatos, livros, cds e alguns poucos amigos que me ligariam e não esperariam por nenhuma ligação minha, sabedores que seriam da minha fobia por telefone. queria envelhecer do modo que eu já vivia e que sempre me pareceu muito bom, muito charmoso, muito poderoso. nunca fui acometida de solidões que me levassem a pensar que eu precisaria de uma família, de um filho.

então Poeminha veio e mudou tudo. assim que eu soube, comecei a chorar. e as primeiras frases que pronunciei foram: "eu não quero ser mãe. eu não quero estar grávida". as do pai foram bonitas e arrebatadas da paixão que agora vivenciamos dia a dia: "não chore, senão ele vai saber que você não quer". eu achei que choraria a manhã inteira, mas para minha surpresa voltei para a cama e adormeci quase de imediato. sono profundo e repousante. e à noite, já sonhava nomes aconchegada nos braços do pai. escrevo sobre estas coisas porque, agora grávida, submeto-me à hidroginástica e a sessões de shiatsu. primeira vez na vida que me entrego aos cuidados de uma técnica oriental. sempre achei admirável. só nunca tive paciência para buscar este tipo de bem-estar que sempre me pareceu artificial. algo do tipo: "se você não é capaz de relaxar sozinha vendo um bom filme, lendo um bom livro, vivendo sua solidão necessária, então pague a um profissional que lhe dê alegria". burrice, claro. porque o corpo precisa de movimento. e é justamente isso que meu corpo mais fala para mim neste momento grávida. poeminha está com os pés "alojados" na minha costela, na posição vertical desde o princípio. dor latente, incômoda, física. e lá me vem a moça do shiatsu com aquelas perguntas de psicólogo de botequim: "você está nervosa? ansiosa? impaciente? você deseja estar grávida?" e eu lá: "não, não, não; sim, muito". e me diz que toda minha energia está represada por alguma contrariedade. e eu me esforço para encontrar a tal contrariedade. e nada. e penso em freud. em lacan. e me pergunto: "será? será que no subconsciente ainda estou com medo de ser mãe?" e penso nestas coisas. na minha mãe. na minha alegria, nos tantos perdões, na tanta leveza que carrego em mim, nos tantos fantasmas. e decido por conta própria que não tenho energia psíquica nenhuma represada. o que tenho é um menino bernardo com os pés nas minhas costelas e uma enorme alegria por ter me enganado. porque estou amando estar grávida, amando a ideia de ser mãe, e cá para nós: como toda mãe, estou convicta de que serei a "melhor do mundo", no que isso tem de bom e tem de medonho.
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sexta-feira, 17 de julho de 2009

auto-biblio-grafia

Eu li em algum lugar que a constituição de uma biblioteca pessoal é uma espécie de autobiografia. Concordo. Na quarta, muitas pessoas, épocas e lugares passearam por mim enquanto eu tentava organizar os livros, já que fim de semestre pede uma boa organização. Deliciosas cinco horas. É como se cada época da minha vida estivesse estampada nas capas, desde as primeiras aquisições. Ao empilhar os de capa dura, lembrei-me do tempo em que só tinha dinheiro para comprar as edições que saíam nas bancas de revistas - Machado quase completo, Mestres da literatura mundial, Mestres da literatura brasileira. Muitos já troquei por edições ou traduções melhores, mas não consigo me desfazer de boa parte deles. Também veio à memória a professora de literatura que deu novo rumo às minhas leituras na época da graduação em Letras. Foi ela quem me apresentou Italo Calvino, Borges, Saramago. E quem me fez querer ler todo Guimarães Rosa e Clarice Lispector. Foi aí que adquiri o hábito de comprar as obras completas de um escritor, se ele me interessasse. Hoje, seleciono mais.

E são inúmeros os livros que adquiri por causa da livreira mais sensacional que tive o prazer de conhecer. Ela tinha uma livraria que levava seu nome - Rose - e também o dom de adivinhar antecipadamente os desejos dos compradores; influenciada por ela comprei quase tudo do Cortazar. E foi ela quem me deu "Cartas a Milena", de Kafka. Foram dias inteiros deitada no chão da livraria bebendo chá, folheando livros, jogando conversa fora, fazendo novos amigos leitores. Nunca mais me senti tão poderosa como naquela época. E não apenas eu. As manhãs de sábado nunca mais foram as mesmas depois que ela fechou as portas e partiu para a cidade maravilhosa deixando mais comuns, sem a aura de confraria, todos os leitores da cidade à beira do rio Madeira.

Sempre fui viciada em me deixar influenciar pela leitura dos meus amigos. Embora, por mais que tente, eu não consiga lembrar de quem me indicou Graciliano Ramos. Talvez ninguém. Gosto de imaginar que já o amava muito antes de amar os livros. Binho, Alberto e Manu estão presentes em muitos livros. Comecei a ler poesia por indicação do Binho, um poeta músico fascinado pelos irmãos Campos e por Arnaldo Antunes. Essa influência arrefeceu um pouco no doutorado, quando me interessei pelo oposto da poesia concreta. A poesia de Cacaso, Ana Cristina César e de Leminski ocupam, assim, também minhas prateleiras. A pouca quantidade de poetas como Pessoa, Drummond, Bandeira mostra meu certo "desgosto" pela poesia discursiva. Dostoiévski e Hilda Hilst me lembram, sobretudo, Manu, um aficcionado por esses dois escritores. E foi numa tarde quente, à beira do rio, que Beto Bertagna me falou pela primeira vez de Samuel Beckett. Depois que li sua trilogia, meu gosto literário nunca mais foi o mesmo. Nas livrarias de Paris, comprei tudo dele que encontrei. Eu passava quase todos os dias na Gibert Joseph para ver se tinha algum livro "d'occasion" de Derrida ou de Barthes. Quando não encontrava deles, comprava algum outro. A etiquetinha amarela significava, muitas vezes, o livro novinho pela metade do preço. Ou menos. Marie, minha ruiva, me disse uma vez que as etiquetas eram feias e eu devia retirá-las, mas deixei-as. Elas fazem lembrar das minhas horas em frente às prateleiras à procura delas.

Em Paris, também comecei a comprar livros de artes. Timidamente, claro, devido à grana escassa. Lembro da Adri me dizendo que as pessoas compram os livros introdutórios da Taschen e já saem arrotando conhecimento. Seu ar irônico de quem entende do babado não me deixou arrotar nada. Daí, sempre os leio com um misto de desconfiança e de deleite. Tão baratos, tão bonitos! E por toda parte das estantes, está expresso meu fascínio pela Cosacnaify - as suas edições primorosas enchem os olhos. E o atendimento personalizado me espanta desde que tentei adquirir o livro do Farnese de Andrade e, aconselhada pelo meu orientador de doutorado, pedi um desconto e recebi como resposta a mais improvável das perguntas que já li em um email: "Quanto a senhora acha que pode pagar pelo livro?" Adquiri-o com 50% de desconto.

Foi nesta época do Farnese que comecei a comprar livros sobre cinema, levada pela urgência de entender um pouco mais desta arte que me arrebatou por completo nos dias frios de Campinas e de Paris. Sinto vontade de rir quando lembro das inúmeras horas roubadas dos estudos. Até mesmo "plano de estudo" de filmes eu cheguei a fazer. Como sou dispersa, sempre me fascinou a ideia de adquirir métodos de disciplina. Desde o mestrado, costumo seguir um plano: ler 30 páginas de um livro de ficção antes de começar a estudar. Eu teria lido bem menos sem este "método". Lembro que quando li A montanha mágica estava em pleno furacão: fazia uma disciplina sobre tradução em Campinas, outra sobre música em São José do Rio Preto, escrevia dois capítulos de um livro, aprendia francês, tentava entender Derrida, seguia meu programa de filmes e viajava quase todos os fins de semana para curtir a vida cultural de Sampa... e, no entanto, seguia diariamente a estadia de Hans Castorp no sanatório onde ele chega saudável e sai morto.

Minha vida acadêmica, aliás, está muito bem representada. A cada disciplina cursada, no mínimo, uma dúzia de livros. Isso desde o mestrado - então tem a fileira estruturalista, da semiótica (todos os livros de Umberto Eco), pós-moderna... toda esta parafernália "teórica". E, claro, tem minha grande paixão: Roland Barthes. Este ocupa um lugar à parte, cercado por uma aura de divinização. Olhar para seus livros às vezes me acalma (quando estou lendo algum); às vezes me deixa nervosa (quando faz tempo que não leio nenhum).

E, por fim, espremendo prateleiras que não cabem mais nada, cheguei à constatação óbvia: só agora adquiro os teóricos nacionais. Li neste semestre boa parte da Formação da Literatura Brasileira, de Antonio Candido, que nunca tinha me interessado. E também li Revisão de Sousândrade, dos irmãos Campos, a resposta sofisticada dos esquecimentos daquele. E nunca comprei tanta ficção brasileira como agora: com o grupo de literatura contemporânea, e com o desejo de fazer pós-doc nesta área, é a vez dos escritores contemporâneos nacionais. Ainda aqui é a imagem de um amigo que aparece: as indicações do meu amigo Márcio têm sido fundamentais.