quarta-feira, 14 de abril de 2010

Certa manhã acordei de sonhos intranquilos, de Otto


Se o cd anterior de Otto era uma celebração ao amor (todo os seus fãs lembram que as músicas giram em torno de uma viagem feita com seu amor), este é um cd que canta as dores do amor quando ele acaba. E por isso é tão pujente, tão dolorosamente belo. Otto é uma figura ímpar na música brasileira contemporânea. Não tem o refinamento de um Lenine nem os trocadilhos geniais de um Zeca Baleiro (só para citar alguns dos seus "próximos"), mas tem uma candura visceral que não se encontra em qualquer um.

Ele cria versos pungentes, tais e quais as estocadas que o vimos dar nas fotografias do álbum. Amei o cd desde a primeira música: Crua: "há sempre um lado que pesa/ e outro lado que flutua a tua pele/ é crua". E o título é genial. Referência a Kafka, que nos ensina a estabelecer uma ligação com toda e qualquer vida que corre sem sentido. Otto goza. Otto sofre. E diz tudo em suas músicas. É muito foda. Ou é muita foda. Tudo transpira. Suas releituras de músicas bregas do passado dizem que todos temos um coração que sangra - frase brega por excelência. E quando ele urra com a sua voz está por inteiro tomado por essa breguice: "[...] nasceram flores/ num canto de um quarto/ escuro/ mas eu te juro/ são flores de um longo/ inverno".

Tem um verso mais lindo que o outro, mais perturbador que o outro: "conforto alucinante/ tranquilidade na clareira do caos". Até quando regrava, escolhe aquilo que é mais pungente: "beleza são coisas acesas por dentro" (Mautner e Jacobina).  E se no cd anterior, tinha a voz de Alessandra Negrini, o amor perdido, neste tem as belas vozes de Céu e de Julieta Venegas. Por essas e outras, esse cd não para de tocar aqui em casa.  
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1 Palavrinhas:

Tata disse...

caramba. você sempre me pondo água na boca, coisa maluca.