segunda-feira, 13 de outubro de 2014

para o filho



 Poeminha, ontem foi o dia das crianças (você já percebeu que existem estas datas instituídas e já sabe valer-se delas para, entre meus joelhos, apontar o que quer e repetir repetir repetir até a coisa se materializar). eu sou muito vacilona neste sentido. faço o discurso que é caro, mas compro. e foi assim sábado. entrei naquela loja cheia de prazeres e me deu uma dor grande bem no meio da minha garganta. teve uma hora que meus olhos marejaram muito e só não me permiti sentir o sal no canto do lábio porque seria um despropósito, ali, no meio daquela gente toda. é que lembrei daquela criança que talvez eu nunca tenha sido, mas que colei aqui como parte da minha identidade. fiquei meio tonta, acho. mas você não percebeu nada. e saiu de lá com o mundo cor de rosa nas mãos. tenho adorado isto. é marketing puro. mas é uma porquinha (mulher), rosa, que tem destruído anos e anos da distinção azul-menino, rosa-menina. queria que quando você crescesse já estivesse tudo misturado, filho. 


mas está difícil. o mundo está turvo demais, poeminha. bastou uma campanha eleitoral para presidente para disparar ódios que já pareciam soterrados, mas que, na verdade, sempre estiveram na superfície, à beira de. "um horror, um horror". você também logo vai saber que uso esta expressão extraída de um livro maravilhoso a cada vez que me faltam palavras para expressar alguma terrível surpresa que me domina e nos domina. sua mãe, eu, pressentia isso há tempos. acho que por ter sido desde sempre "diferente", filho, logo quis aprender a estar do lado do "diferente".  e comecei a ver como isso chocava até mesmo algumas pessoas que me pareciam tão bacanas. eu não sou fácil não, filho. às vezes, lanço uma mão pesada sobre pessoas bem amadas por mim. mas nunca, nunca por uma razão genérica. tem sempre a ver com o que me parece um "cuidado". tenho medo, e logo você vai saber, de uma desconexão parcial ou total com uma certa disciplinarização. porque eu acho que sou bem assim::: não me desprendo da disciplina, apesar de gostar dos devaneios, das luzes fugazes das longas noites. então, quando sinto que alguém amado afasta-se deste "cuidado de si" (algo bem mais bonito do que "disciplinarização"), eu me enfezo e me dano a querer cuidar, sem saber fazê-lo de jeito nenhum. mas o certo é que você nunca vai ouvir neste mundo que é nosso, na nossa casa, ódios genéricos. preto branco gay pobre nordestino nada disso existe aqui como raça como classe como origem. o que existem são pessoas. pessoas que amamos, pessoas que quero que você aprenda a amar, por mais que não tenham em si esta mania de ordenação que me persegue. é porque bom é isto. o outro que não é igual a nós a ensinar-nos outra via, outro vão. 

mas então.  o que eu estava dizendo era que ontem foi o dia das crianças. e o momento mais bonito foi você quem nos deu. sua tia-avó Juju, que você aprendeu a amar nos dias que esteve com elas - as tias-avós, a avó, o avó, a bisavó, o tio-avô -, está aqui. e adivinhe::: veio para me ajudar a organizar seu aniversário de cinco anos, que já passou, mas que não pode passar em branco como nos outros anos. olha que sorte, filho! tanta gente me aponta o dedo, machuca minha ferida, pela minha tola incapacidade de fazer uma festa de aniversário do jeito que você merece, e de repente aparece esta sua tia-avó, a mesma que fez seu enxoval, e simplesmente diz que vai me ajudar, que está vindo, mais de mil quilômetros, sem que eu peça, para fazer a festa junto comigo. filho, que sorte, que sorte a nossa. 

pois ontem ela fez o almoço do dia das crianças. e ante nossa pressa de almoçar, fez um agradecimento na mesa. e acatamos este agradecimento. e  você acatou. e foi aí que aconteceu o momento mais bonito. você agradeceu e começou a nomear várias pessoas, a bendizer várias pessoas que lhe são amadas: júnior zé consuelo sua avó e outros tantos. fiquei de novo com o olho marejado. mas desta vez foi por pura felicidade. sem se dar conta do que fez, por lhe parecer tão natural, à noite, depois de ficar por aqui, me vendo trabalhar, ainda pegou o violão enferrujado do Tatupai e ficou tocando e cantando. e volta e meia vinha e me perguntava como era tal palavra em francês. e eu não lembro de haver lhe dito que estava, justamente, fazendo uma tradução em francês. que dia, poeminha, que dia você me ofertou. obrigada, filho, obrigada. não estive à altura do que você me deu, mas prometo tentar me redimir no próximo sábado, quando seu aniversário vai acontecer, longe do azul, perto do vermelho. vermelho da Frida, por quem você está mais do que apaixonado. mas isso já é outra história que prometo contar depois. 
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só mais uma coisa. o que eu desejo, sobretudo, é lhe ensinar que existem estas tantas cores. esta cor forte chamada vermelho. que pode se misturar com o verde o azul o amarelo o rosa o azul. e quero ensinar o que, pressinto, você já sabe.
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2 Palavrinhas:

Wesney José Souza disse...

Caralho! Que texto lindo...

Joice Joy disse...

"[...] é porque bom é isto. o outro que não é igual a nós a ensinar-nos outra via, outro vão". Show de bola, Milena!