quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

carta na janela à turma MEL 2014.2



fiquei pensando, enquanto voltava para casa, depois desta semana intensa, que havia muito ainda a dizer. o que eu não disse. o que vocês não disseram. isto do tempo. e da insuficiência das palavras. relembrei o que pensei como figura da disciplina::::  “A linguagem é uma pele: fricciono minha linguagem contra o outro. Como se eu tivesse palavras à guisa de dedos, ou dedos na ponta de minhas palavras. Minha linguagem treme de desejo ... Falar amorosamente é gastar infinitamente, sem crise; é praticar uma relação sem orgasmo” (Barthes). e quase todo tempo foi isso para mim, acreditam? 

eu dou pouca importância para muita coisa na universidade. o famoso "cago e ando". e estou convicta de que a vida pede isto::::: um certo alheamento para o mundo-cão. viver de tal modo que apenas o que me interessa tenha importância. e a docência me interessa. tem muita importância, portanto. professora, eu penso na minha linguagem como uma forma de tocar o outro. porque sou professora de literatura. e literatura tem muita importância. literatura é onde se podem desfiar as linhas mais torpes e mais doces. é onde se pode falar amorosamente do outro, sobre o outro e onde também se pode morrer, matar, matar o outro. literatura é a linguagem do impossível. 

não sei se deu tempo de dizer a vocês que antes de ler literatura brasileira contemporânea, eu só lia italo calvino, graciliano, thomas bernhard, antonin artaud, kafka, dostoiévski e...  beckett, que descobri no meu penúltimo ano de doutorado. descobri muita coisa no doutorado, acreditem. descobri e/ou alicercei estas experiências-limites de ser leitora desses autores que nunca escreveram para nos dar paz. e vi certamente mais de quinhentos filmes nos quatro anos e não sei quantos livros li porque ainda não tinha a mania de listá-los. mas a lista, se existisse, seria enorme igualmente. listei também as peças de teatro, os shows... e não foram poucos. e os países não cabem nas minhas duas mãos. 

não digo isso para lhes dizer que este é o caminho. talvez diga para constituir uma imagem que eu acho bonita. que é a imagem do desejo. o desejo é o oposto da burocracia, do conveniente. então penso que tudo que fiz no tempo do doutorado é dessa ordem incerta do desejo. a tese é bonita, acreditem. sem que eu diga uma linha, diz muito de todas estas experiências. desta minha experiência de estar inteira para o mundo. não tenho dúvida de que em cada linha está dito::: é por amor que escrevo. e escrevi muito. trocava dias pelas noites. fechava janelas e acendia luzes nas tardes e assim, como um deus brincalhão, fazia com que as noites surgissem antes das noites. e me apaixonei loucamente pelo(s) sujeito(s) sobre o qual(is) escrevi. ainda hoje, quando me vejo num impasse, quando penso que talvez seja preciso estar mais atenta, menos alheia, é nele(s) que me guio. e daí não tenho medo algum. daí estou entregue às experiências de dizer. e dizer como quem acredita. como quem ama. uma amadora (é linda esta imagem do Barthes, já leram?). pois é preciso ler. e ler como nordestino/a. na calada da rede. não nesta rede midiática, mas nesta que range, que é preciso distorcer os punhos antes de nela deitar.
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e quando ensino, e estou no meio de uma turma como a de vocês, que vai passar pela experiência da escrita, da leitura, fico com vontade de espalhar estas incertitudes. de reafirmar toda a potência da experiência da pesquisa. da leitura. do pensar. do vivenciar. tenho vontade de sepultar a burocracia, o conveniente. tenho vontade de dizer: apenas amem. e cuidem de tudo que vier deste amor. se isso lhes trará sucesso, dinheiro, sossego, não vale a pena pensar agora. quanto a mim, posso dizer que trouxe o que eu já tinha em mim:::: desassossego e alegria [é também bonita a alegria barthesiana], vontades e um certo tédio, emoção e uma certa poção de descrença.

para esquecer - ou para intensificar - a experiência das nossas duas semanas, agora vou reler Em busca do tempo perdido - estes temidos sete volumes. Ou serão oito? na minha edição resumem-se a três. enormes catataus de três. e por que escolhi este catatau? porque fiz recentemente quarenta anos, porque a vida é uma narrativa escrita por nós mesmas.  e achei que seria bonito, quando ficasse velhinha, se eu ficar, dizer que reli Em busca do tempo perdido quando fiz quarenta anos. agora, tenho mais certeza de que foi a escolha certa. Proust será, nas próximas semanas, minhas armas. minhas armas de Jorge. conhecem? 

bem aqui, ó! >>>>>. assim mesmo, no improviso. caetaneamente. como tudo. feliz tudo pra vocês nos dias que virão.
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as imagens foram tiradas por mim, enquanto as crias de Nina, nossa "gata peluda", faziam de minha biblioteca um enorme parque de diversão. achei que tinha tudo a ver com o que eu queria dizer a vocês::: pesquisar, escrever, ler, quando passa pelo desejo, é como um parque de diversão. é só se deixar levar pelo ritmo desconcertante de algum brinquedo que gira, gira gira gir gi
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4 Palavrinhas:

Mácia disse...

Lindo.
Bjs.

karla andrea cândido rêgo soares disse...

Belíssimas palavras. Elas trazem muito da inquietação que vivemos nessas duas semanas, mas sabiamente revelam um mistério e uma descoberta, os quais nos encantaram muito nas leituras e nas espetaculares aulas. Professora maravilhosa, gostei muito de suas aulas e tenha um fim de ano e Natal maravilhosos.

Márcio Costa disse...

Que surpresa agradabilíssima "descobrir" esse texto tão afetivo.

A experiência que a sua presença impôs, com suavidade tamanha e, ao mesmo tempo, tão cheia de força, tal qual o despertar de uma semente que "rasga" a terra dura em busca da luz, para mim, foi muito gratificante e, principalmente, estimulante.

Suas palavras aqui soam como o eco vivos dos momentos que tivemos nas duas semanas de aulas... um momento de prazer... (mesmo que sem orgasmos)... de amor...


... (pela literatura, por...)

Chirlane Nobre disse...

Li só agora nesse exato momento que precisava ser acarinhada. Nesse dia nublado e frio...são poucos em Porto Velho. Dissemos muita coisa uns aos outros e compartilhamos vida entrecruzada com a nossa função no mundo, mas por alguns minutos fugimos da caverna e contemplamos a luz e nos sentimos aquecidos e seguros pela conversa que fisgava mesmo os mais difíceis. Diante de tanta insegurança, medo de não conseguir... um caminho sereno e envolvido pela paixão, pelo conhecimento e por todos aqueles que elegemos para nos acompanhar a escrever esse trajeto. Grata, viu. Gostei um tanto da nossa prosa. Saúde e muita alegria.