sábado, 31 de outubro de 2015

do que senti - As pequenas virtudes, de Natalia Ginzburg


é tão bonito o livro As pequenas virtudes, de Natalia Ginzburg. quanta firmeza e quanta delicadeza na escrita de uma mulher. a sua sagacidade e sua inteligência recobrem tudo. das questões mais comuns às mais complexas, sentimos que há ali um pensamento único, constituído ao revés de seu tempo e mesmo de sua condição.

é um livro de ensaio na sua acepção máxima. não é o sobre algo que faz a sua potência, mas o fato de nos sentirmos no seu interior, como se  estivéssemos em suas vivências: na guerra, na maternidade, na amizade, no luto. e isso numa linguagem límpida, que não titubeia. é a face da coragem que transparece. fiquei dias irmanada com esse misto de força e delicadeza.  porque há um impacto que apenas inicialmente reconhecemos como alentador, pois o alento é exigente, recorda-nos do imperativo das escolhas a todo momento. e não nos permite a passividade. ou a aceitação da fatalidade. não importa por quanto tempo não tenhamos vontade de tirar os sapatos rotos, mas o que sobra, no fim, é que não podemos ficar com eles para sempre (como se pode extrair de sapatos rotos tamanhos significados?):

Vou olhar o relógio e controlar o tempo, vigilante e atenta a cada coisa, e cuidarei que meus filhos tenha os pés sempre enxutos e aquecidos, porque sei que é assim que deve ser sempre que possível, pelo menos na infância. Aliás, para aprender mais tarde a caminhar com sapatos rotos talvez seja bom ter os pés enxutos e aquecidos quando se é criança. (p. 23) 

e assim, de um tema a outro, as paisagens são humanas. no vilarejo onde fica durante a guerra, em Londres, na cidade em comum com o grande amigo Cesare Pavese não são sobre as cidades que sabemos, mas sobre os rastros que ficaram nela - Natalia - dessas cidades. são paisagens humanas.  por essa humanidade, no que há aí de insondável, seria preciso retomar o hábito das longas citações para demonstrar o quanto solvi de suas palavras:
 
Não nos é dado ser feliz ou infeliz. Mas é preciso escolher não ser diabolicamente infeliz. O silêncio pode atingir uma forma de infelicidade fechada, monstruosa, diabólica. Murchar os dias da juventude, tornar o pão amargo. Pode levar, como já se disse, à morte (p. 96).

mas por ora, quero deixar apenas o registro da beleza que se fez em mim. nos dias ternos e corridos de São Paulo, li em voz alta, entre amigxs, o trecho que segue. como um apelo ao meu próprio desejo, se eu tiver a grandeza do alcance:

No que diz respeito à educação dos filhos, penso que se deva ensinar a eles não as pequenas virtudes, mas as grandes. Não a poupança, mas a generosidade e a indiferença ao dinheiro; não a prudência, mas a coragem e o desdém pelo perigo; não a astúcia, mas a franqueza e o amor à verdade; não a diplomacia, mas o amor ao próximo e a abnegação; não o desejo de sucesso, mas o desejo de ser e de saber. (p. 123)  

porque é preciso não desistir. no deserto de maior escassez, antes de tudo, permitir a ternura, tirar a areia dos olhos, acalmar a própria aridez, refazer percursos, abandonar o que nos obriga aos sapatos rotos. e estancar. para poder respirar.
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não é simples. mas é o que deve ser feito. porque há um filho que precisa de "pés enxutos e aquecidos".
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GINZBURG, Natalia. As pequenas virtudes. Trad. Maurício Santana Dias. São Paulo: Cosac Naify, 2015.

terça-feira, 27 de outubro de 2015

4.1





rô interrompeu a trivialidade que eu quis imprimir ao dia enviando flores de muito longe. Poeminha  deixa buracos no seu álbum de fotos gigante e faz delas o que quer. metódico, procura lugares que julga ainda melhores. inventa porta-retratos de todo tipo. e novos álbuns de fotos. traz uma folha que pintou em Sampa no dia das crianças e tem uma foto nossa bem no meio. e fico pensando que ele não para de me emocionar. 

nem que seja para contrariar a mim mesma me orgulho ao deixar que ele espalhe seus desejos pela casa. se eu estiver errada, e se tiver mesmo algum problema com excesso de ordem e limpeza, como vez ou outra sempre tem quem diga, posso ficar ainda mais contente comigo mesma::: a bagunça de Poeminha é o excesso que não me perturba quase nunca. não é todo dia nem qualquer uma - quanto mais neste difícil papel de mãe - que consegue que a própria loucura não atinja o filho. 

talvez esteja de bom tamanho para os 41 anos. mas quem pode saber? eu não sei. aos 41, eu devia querer saber dirigir, ter uma casa, um carro acima de 1000, mas o fato é que eu não quero nada disso. vez ou outra digo que quero. mas é mesmo só para afugentar a consciência. ou para acalmar a manaMácia que faz planos para que eu envelheça com alguma dignidade. mas se me perguntarem o que realmente gostaria de fazer nos próximos dez anos, eu diria que quero conhecer dez lugares diferentes::: um por ano. seria bonito. e seria tão mais instigante. porque aos 50 deve ficar mais difícil. então, dos 41 aos 50, eu queria ir a Machu Picchu, a Nova Iorque, aos Lençóis maranhenses,  a Fernando de Noronha, a Berlim, a São Petersburgo e onde mais der na telha.

talvez seja isso que esteja de bom tamanho:::: manter a postos os desejos. não deixar que eles atrofiem. manter o mesmo sorriso de sempre. a mesma loucura. não acreditar nunca na descrença. puxar o olho do tempo em que tudo era bom. querer olhar o porvir. querer que ele exista. não morrer ---- porque quem já quase morreu, sabe da possibilidade. 

(espero não perder o que consegui ao longo desse último ano, que poderia ser dito de muitas formas. mas que talvez deva chamar de cuidado de si (mim). que veio num momento muito difícil, no qual eu precisava acreditar de alguma forma. pode parecer que seja apenas exterior. mas não o é. conquistei muita coisa dentro de mim a partir desse cuidado).

talvez seja isso. ou não. sei que tem dias que o mundo balança. mais que antes. e ainda assim, me sobra tempo para os quereres.e quem não há de dizer que tudo vale a pena, se a alma...
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sexta-feira, 23 de outubro de 2015

adriana. e a osesp. e nós que nos amamos.













é uma alegria imensa compartilhar um gosto musical com o próprio filho::: Marisa Monte e Adriana Calcanhotto são definitivamente amores incondicionais do Poeminha. e sou doida o suficiente para viajar muitos quilômetros somente para ter a alegria de vê-lo, ali, junto com um desses amores [se já fui a Bruxelas só para ver Bob Dylan, por que não iria agora para ver seu olho brilhar?]. e que trabalho lindo este de Adriana. e junto com a Osesp ficou mais bonito ainda.

não não. ela não é divertida no palco. ela é mesmo meio tímida. nunca achei os Dvds partimpim uma super festa... mas talvez seja por isso que Poeminha tanto se encanta. Poeminha tem uma timidez e uma delicadeza que vêm do Tatupai. sinto isso quando flagro os seus sorrisos tímidos. e talvez ele tenha herdado de mim essa expansividade -- que vem logo após a timidez dos sorrisos.
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chorei por tantas vezes --- de emoção. 
e no corredor da Sala São Paulo::: "é minha música! é minha música!" 
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sábado, 17 de outubro de 2015

os dias - bonitos - no lugar que mais amo

 um velhinho, como disse tatupai, esperando impacientemente a mala azul - e com sua mochila - inseparável durante toda a viagem.


com a moça linda que não gosta de fotos, mas que teve que se curvar aos meus deslumbres de registro


lindos.de costas. 


ná, que amo.


elxs. lindxs.

Poeminha, conhecedor de livros.

Frida, paixão de Poeminha.

nós. na única foto que justificou levar o trambolho do tripé.
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(na próxima postagem, mais fotos)

NÃO HÁ mês que eu ame São Paulo mais do que outubro. tudo acontece ao mesmo tempo em São Paulo, mas eu inventei que em outubro o tudo é ainda mais. porque outubro é o mês que eu nasci. e no mês que eu nasci quero apenas ser feliz. e eu sou sempre feliz em São Paulo.

então peguei o feriado pelo pé e fui ali em São Paulo. rápido, bonito, intenso, inteiro. mudei o que ali ia fazer em nome de um menino chamado Bernardo, vulgo Poeminha. pensava na Mostra que só acontece daqui a umas semanas. mas procurando o que lá fazer, encontrei a Adriana Partimpim; depois o Barbatuques, depois o Pequeno cidadão. e aí achei que era o tempo. já não lembro quem me disse que poderia ser "para depois". mas lembro que discordei. é agora que Poeminha ama Adriana Partimpim, Barbatuques e Pequeno cidadão. e se depois não tiver mais importância?

ele dormiu no fim do show do Barbatuques, cansado que estava de tanto perambular. ficou tão eufórico no Pequeno cidadão que mais rolou em cima de nós do que viu o  show e enquanto Adriana lia a história de Pedro e o lobo com a OSESP, ele se virava para mim com olhos ansiosos e perguntava: "ela não vai cantar?". e quando ela finalmente cantou, ele se aquietou até ter vontade de ir ao banheiro. e como a vida tem disto, quando voltamos, ela terminava de cantar a sua música preferida::: Fico assim sem você. e acho que nunca vou esquecer da imagem de Poeminha correndo nos corredores da Sala São Paulo gritando::: "é minha música, é minha música".

é provável que tenha sido eu a mais me emocionar nisto tudo que Poeminha vivenciou. talvez tenha sido porque juntou minha ânsia de mãe com o que eu já sinto ao ver um grande artista no palco, mas posso dizer que ver Adriana e a Osesp juntos foi uma das grandes emoções da minha vida. quando a orquestra começou a tocar, eu já sabia que ali viveria um momento mágico. e assim foi.

e assim também senti a presença das meninas Lilian e Aline e do menino Anderson: como um momento mágico que existe só para nos dizer que a vida é bonita bonita. sem pensar na diferença de idade, sem pensar que até um dia desses eu era a professora delxs, senti que estava entre amigxs. e por tantas vezes me vi mais menina do que elxs: nos deslumbres, na inconsequência das cervejas, na disposição de sempre estar pronta para fazer qualquer coisa. e senti o tempo todo que era por causa delxs, era por elxs que minha emoção ficou à flor da pele todo o tempo:::: porque me enchi de alegria por elxs terem escolhido estar ali com duas véias e um menino.  foi um presente. um presente muito bonito que elxs nos ofertaram, a mim e a Rosana. e ao Poeminha. trouxe para casa livros e cds indicados por elxs. trouxe para casa a imagem delxs na manhã linda na loja da cosacnaify. no show de ná ozetti. no show do caetano e gil. nas exposições de Frida Kahlo, Truffaut, Nuno Ramos. na livraria cultura. nos shows de Adriana Partimpim, Barbatuques, Pequeno cidadão. na feira da praça Benedito Calixto. na minha doidice de levá-los às 2h da manhã ao Estadão só para dizer que era lá que eu acabava as minhas noites no tempo em que vivi com uma bolsa de doutorado e sem nenhuma dívida, mas curtindo adoidada São Paulo e toda essa efervescência cultural da qual vez ou outra eu preciso me nutrir. e nos restaurantes que bebemos e comemos o que, para mim, São Paulo serve de melhor: comida podrona deliciosa que engorda e serve a nossos bolsos tão desprovidos de dinheiro, mas tão cheios de vontades. 
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poderia ter escrito esta postagem "ao meu filho", dirigindo-me a ele, mas por fim decidi não fazê-lo, porque essa viagem foi de todxs nós: eu, Rosana, Poeminha, Anderson, Lilian, Aline. fomos todxs nós que a desejamos, que a fizemos acontecer. fomos nós todxs que nos demos pingos de alegria. pingos de alegria que servem para dizer que a vida deve servir a isto:::: a alegrias desmedidas --- que sempre nos nutrirão nos momentos em que a alegria faltar.
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sexta-feira, 25 de setembro de 2015

sou sua mãe há seis anos e nove meses







Poeminha, o dia foi tão bonito que não consigo dormir. e o mérito é todo seu, filho. é você que tem me ensinado a ser mãe. antes de você aparecer, eu nem sabia que queria ser mãe. mas desde aquele dia que parece ter passado tão rápido - para mim e seu tatupai - você nos diz a cada instante que é uma alegria-sem-fim o acontecimento de sua existência. e ontem você me segredou que também é feliz por eu ser sua mãe.

cultivei muitas identidades, filho. forjei algumas. leitora, alegre, lesada, briguenta, problemática, meio doidinha, desmemoriada, egoísta. mas nenhuma me parece tão certeira quanto esta de ser sua mãe. e não. não sou uma mãe modelo. sei lhe abandonar. e fico algum tempo feliz com este abandono. as pessoas ficam como vespas ao meu redor -- e eu finjo que não é comigo. porque eu não sou apenas sua mãe. minto que está tudo bem. comigo e com você. e acredito nisso. mas a cada dia sinto que você é ainda inteiro meu. um menino na minha barriga. um menino que mamou nos meus peitos. e quando não havia mais nenhum leite, e teve que ficar longe de mim, fingiu que não era nada. fez de sua tia Morg uma mãe, fez de um copo com bico duro um peito macio. como fez de tia Rô e tio Inildo e a Bibi e o Tatupai seus portos seguros, quando agora lhe deixei para trás. você é meu filho, Poeminha::: sabe viver bem no aconchego e no abandono.

e é todo mundano como eu. quer ir as Americanas, como eu quero visitar o site da Cultura e da Farm. eu tento lhe dizer que não é isso que importa. porque acredito nisso. mas lhe levo nas Americanas e deixo que você escolha as bonecas e bonecos Frozen. porque acho tão desinteressantes as pessoas que acreditam em um único caminho! ou porque sou como Barthes ---- o que me faltou - agora quero em dobro.

agora você tem seis anos. e eu tento diminuir a altura da sua voz. e apresento a você Alice no país das maravilhas, do Tim Burton. e você não para de me falar no desenho da hora. mas em dois dias, você assiste a Alice uma dezena de vezes. e me segreda::: "mamãe, ela é tão linda!". e faço comida para você a muito custo, mas faço --- comemoro um feijão com bacon e calabresa como se fosse um prato de brocólis e cenouras. e você aprendeu a dançar pendurado na minha perna. e a me dar pequenos murros - com os punhos bem fechados -- quando está zangado. mas logo se arrepende. e pede desculpas. dá beijos, muitos beijos. e eu insisto que não --- não. você não pode. não pode bater em quem você ama. e digo e redigo que é por isso que não bato - é por amor. e é porque tenho dores muito antigas. tenho vontade algumas vezes. porque deve ser mentira quem diz que não tem. ou deve ser verdade. mas a minha verdade é que às vezes tenho vontade. mas não bato. sustentarei por toda a vida que por ser sua mãe devo cortar meu braço antes que ele encoste em você. porque você é um menino que agora está na altura dos meus peitos. e sente um imenso orgulho disso - de se ver crescer. tio Inildo lhe ensinou a medir a "pança". e por analogia, você aprendeu a se medir em mim. e agora sabe que sua cabeça está na altura dos meus peitos.

e assim, Poeminha, vamos nos re-conhecendo. tenho medo que as pessoas leiam o que eu escrevo aqui - sendo você meu interlocutor do porvir - e pense que nossa vida é "bolinho". e lancem um olho grande sobre essa vida-bolinho. mas nos dias felizes como hoje eu prefiro pensar que há mais olhos belos sobre nós do que olhos invejosos. nossa vida-bolinho é, de fato, uma vida bem comum. você é um menino bonito, como são todos os meninos de seis anos. eu sou uma mãe toda doida que tenta acertar - como o são quase todas as mães. a diferença, talvez, é que eu escrevo estas cartas para você. mas que são lidas, primeiro, por outras pessoas. algumas conhecem você. algumas me conhecem. algumas conhecem apenas a minha escrita. porque tem isto, filho:::: a escrita. 

e agora, depois de quase cinco meses, fui lá buscá-lo e não há um dia que eu não me bendiga. que palavra bonita, filho:::: bendizer. você é o que há em mim de mais bonito:::: este amor..... obrigada, Bernardo, por existir. e me ajudar a estar no mundo. obrigada por ter este olhar exigente e severo que me diz que todo amor exige cuidado, atenção e delicadeza. todos os dias, filho, lembro disso. sei que falho. mas hoje, quando faz seis anos e nove meses que soube de sua existência em mim, tentei não falhar. fui inteira sua mãe. não foi uma grande festa como a do ano passado. não tenho o talento da tia Juju, da tia Jucinha, do tio Wandes. fomos ali e você escolheu tudo. estava tudo pronto. nossos amigos e amores, excetuando esses quatro bonitos (Os tios Lili, Marcinho e Celso e sua amiga-irmã Consuelo), estão todos longe. e ainda assim foi bonito, não? confesso, filho, que me enternece lhe deixar escolher::: um homem que me pareceu muito sério olhou com muita raiva quando lhe viu passar com os bonecos Frozen, agarrado a uns apetrechos de Peppa. senti que devia ignorar. minha prenda é mais leve. não tenho que fazer de você um homem modelo. estou aqui apenas para lhe mostrar lindezas. e delicadezas. e cuidados --- na esperança de que você multiplique essas lindezas, delicadezas e cuidados. projeto em você o melhor das criaturas, porque esse é o anseio maior de toda mãe, mas é só isso::: desejos. o que me importa é saber do agora. é agora que quero ser aprendiz, filho. me ensina, filho. me ensina a dar a curva. me ensina a brincar. me ensina a parar. me ensina a estar com você. é só o que agora quero. é só o que quero para o agora. prometo, filho, ser uma aprendiz atenta. e é só o que lhe prometo.  

amoamoamoamoamoamoamoamoamoamoamoamoamoamoamoamoamoamoamoamoamo

terça-feira, 15 de setembro de 2015

sair de mim. vir a ser ---


fiquei pensando que preciso tentar de novo --- continuar nesta trajetória de melhorar o olhar. de cuidar dele e da capacidade de ele ser uma abertura para o contato com as pessoas. isso exige de mim - agora - desviar o olhar. sem perceber, passei os últimos anos obscurecendo esse olhar. obscurecendo-me. 

numa entrevista do antunes filho, ele diz: "Sei ler um ator de costas ou de frente, consigo ver como está o corpo e a voz dele. Em 15 segundos, sou capaz de ver os defeitos e as qualidades de um profissional". sou também uma boa leitora de corpos --- o corpo como um lugar que podemos chegar ao interior -- se alterarmos a dicotomia. não sei como --- mas tenho o dom de perceber com muita clareza quando uma pessoa está desconfortável, quando está mentindo, quando está sendo sincera. olho e vejo. percebo pelas alterações no tom de voz, nos movimentos das faces, dos corpos. e quase nunca erro. duvido muito. mas quase sempre os acontecimentos posteriores confirmam meu olhar --- amoroso ou não. e daí para pensar que sei quando uma pessoa é boa, é falsa, é bonita, é chata, é problemática e linda ao mesmo tempo foi um pulo. digo isso para explicar o obscurecimento do meu olhar. foi por conta dessa visceralidade. dessa proximidade que quase sem querer estabeleço com os corpos. 

mas ter essa percepção é quase um castigo. imaginem:::: amar uma pessoa e saber vê-la quando mente, quando está distanciada, quando está lhe dando uma estocada. é como se eu pudesse ouvir o que falam "nas minhas costas". traz muita tristeza. e deve ter sido isso::: perdi parte do encanto pelas pessoas. sobraram poucas. e foi aí a minha desgraça. porque nesse entretempo perdi o que me permitia só ter alegria no olhar::: esqueci da complexidade do que somos. 

amava muito os loucos e lindos. os que mentiam. os que traíam. os que davam uma estocada bem no meio do peito. eu era uma boa observadora --- e aquela que dava de ombro, dava risada, dava conselho, como uma tia mais velha. passei dessa posição a outra mais incômoda  ((((e que me tem me deixado cada dia mais infeliz)))): a de julgadora --- a que condena liminarmente.

resolvi estar fora de mim, então. ir atrás de mim outra vez. ou mesmo::: ir atrás do que ainda não sou eu agora. e posso vir a ser. é lindo isto do vir a ser.  esse tem sido meu empenho.
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sexta-feira, 21 de agosto de 2015

um pouquinho antes, e tudo estaria igual



em algum momento dos últimos dois meses, tentei assistir a um filme por dia. quase deu certo. uma viagem e a preparação de outra atrapalharam a ideia. ou a realização da ideia. mas por ora prefiro ficar com a alegria dos primeiros dias, quando realmente consegui assistir a um filme por dia. a decisão por si só já mudou meu ritmo. e foram os dias em que me senti pela primeira vez nos últimos meses realmente feliz. vi filmes pela manhã, sem nem sair da cama, à noite, de madrugada, no meio da tarde. no notebook, na tv, no chão, no sofá. chorei baixinho, bem alto, ri, dei gargalhadas, dormi no início, no meio e nunca no final de algum filme. e enterrei a ideia numa sequência de quatro filmes.

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perdi algo nos últimos anos que não consigo mais reaver --- parece que meu tom alegre misturou-se com outro menos admirável. sempre me espanto quando alguém me diz que sou reclamona. ontem márcio me disse isso. doeu bem aqui na minha alma, se ela. passei o resto do dia pensando no meu amigo Binho que durante um tempo me ensinou a alegria da impossibilidade de reclamar. sempre penso nos meus amigos antigos quando percebo minhas perdas. o tempo. 

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fiquei tão doida em Brasília. uma doida bonita. no último dia, fui ao cinema sozinha. uma sequência de quatro filmes. no último, a atendente me perguntou. "é porque moro longe". e depois me enchi de questões. nunca quis tanto abandonar o que sei fazer como agora. mas talvez imitando a personagem de algum filme perdido na memória parca, recostei-me no táxi que me trazia de volta e sorri levemente: logo eu, que sente tanto espanto com aqueles que querem abandonar aquilo que sabem fazer de melhor. a vida é mesmo este imprevisível agridoce. 

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recebi um email que me deu uma alegria tão grande que deixo anotado aqui para não esquecer. no que sei fazer. 

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parece que foi ontem, mas já faz mais de quatro meses que mudei de cidade. e hoje, num aeroporto quase vazio, estou fazendo a viagem de volta para pegar o Poeminha. um tempo sem ele pareceu uma vida muito longa. a frase do título me veio pensando nisso. não. nada pode ser igual depois de quatro meses da vida de um menino-poeminha. perdi um tanto de coisas. fiquei apenas com o que chegava pelas próteses. tio Inildo e tia Rô enviaram centenas de fotos. e Tatupai ligava a câmera para que eu o visse à noite ou dormindo ou não dando muita bola para mim. mas nunca me senti desamada. e penso que ele também não. terá herdado de mim essa confiança no amor?

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eu já me enganei uma e outra vez por causa dessa confiança. um pouco depois e nada mais é igual. um dia desses, dizendo em voz alta os meus pecados, sem confessar os dos outros, pensei nisso também. de como basta um instante para nada mais ser igual.  e como fazer para que o amor do outro permaneça? e o seu próprio amor permaneça? eu nunca soube essa resposta. só sei do seu contrário. quando amei sem poder amar, de volta das cidades frias, espantei-me com minha própria frieza. nos dias mais tristes, eu apenas olhava o porvir. e tinha certeza de que aquele frio passaria. a soberba da sobrevida.

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uma moça linda chamada Aline sempre quando escreve me faz chorar bem alto. ela parece saber tanto de mim que eu mesma me espanto. conto coisas que nem eu sabia que podia contar. A vida é mesmo feita a golpes de pequenas solidões. foi o que ela me disse. e me pareceu tão certeiro. ontem passei o dia assim. e parte do dia de hoje. vindo para casa, de bicicleta, espantei-me com esse golpe de pequenas solidões como se o sol quente fosse a materialização desse golpe. Nina Simone, coincidentemente, estava na vitrola. foi só apertar o play. e de repente, eu não estava mais só. vou bem ali ---- encontrar Tatupai e o menino Poeminha. 

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perguntei ao Tatupai para onde eu deveria ir. ele parece ter se espantado.  como se nunca houvéssemos deixado de estar lado a lado. falei para minha manaMácia para não me pressionar:::: perguntas exatas não devem ser feitas para quem não tem respostas exatas. eu não sei quanto de mim deixei de ser para ocupar agora esta posição de não insistir em respostas exatas. mas sei que, por ora, isso me dá alguma tranquilidade. embora nenhum risco tenha sido abortado. 
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sim. de vez em quando sinto falta dos diários da infância. estarão todos eles queimados?
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e juro. se eu tivesse a técnica, largava tudo. na croácia, esta menina que sobe a árvore nunca vai saber que eu a fotografei, roubando-lhe o seu instante.

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Para o filho, na Marcha das Margaridas.












"Brasília está florida. estão chegando as decididas".

Poeminha, os últimos três dias têm sido de muita emoção. sinto-me fazendo parte da História - da história em tempos sombrios, como me disseram dois amigos dos mais amados. são tempos sombrios, filho, mas tenho convicção de estar no lado certo. vão dizer muita coisa sobre o que vim ver e viver aqui em Brasília, a capital do país. mas não acredite, filho, se um dia você topar com a miséria da nossa mídia nacional. 

dirão que as quase cem mil mulheres que vieram do Brasil inteiro para a 5ª Marcha das Margaridas só vieram porque foram financiadas pelos sindicatos (que por sua vez foram financiados pelo poder público). e vão fazer esta afirmação para denegrir a imagem da longa viagem destas mulheres em direção à Marcha. mas não acredite, filho. estas margaridas (mulheres e homens trabalhadorxs do campo, da floresta e das águas, mais mulheres do que homens), de fato, não pagaram suas passagens para virem até aqui. e boa parte delas nunca havia viajado. e isso porque vivemos num país absurdamente desigual --- e elas por mais que quisessem não teriam dinheiro para vir até aqui. mas não há nada de errado nisto::: é função dos sindicatos organizar e garantir condições para a  realização de manifestações como essas -- e de captar recursos para isso.

as mulheres trabalhadoras vieram porque acreditam nas causas que defendem. porque há um movimento (invisível para boa parte da população) que transformou a vida dessas mulheres trabalhadoras nos últimos anos. isso se chama políticas públicas voltadas para as populações necessitadas, filho. e políticas públicas que não existiam antes do governo popular do PT ter chegado ao poder. e você corre o risco de nunca saber que elas existem porque essas políticas - mesmo agora, no momento mesmo em que acontecem - não aparecem na mídia, sempre interessada em mostrar mais os escândalos do que as realizações. 

nos últimos três dias, estive muito próxima dessas mulheres que acamparam desde segunda no estádio Mané Garrincha e hoje atravessaram as grandes avenidas de Brasília para dar um "acocho" no congresso nacional::: e eu te garanto, Poeminha::: a imprensa mente e age de má-fé quando trata a marcha por meio dessa visão estreita e deturpadora: essas mulheres sabem que antes não tinham visibilidade alguma. e visibilidade onde é importante que tenham: no lugar onde vivem. e agora têm. elas têm brilho no olho. elas sabem dizer o que de bom acontece e o que esperam que ainda aconteça. e estou falando de um aprendizado bonito e persistente de empoderamento (uma palavrinha que eu encrenco, mas que agora existe no nosso vocabulário para sinalizar mudanças nas relações de poder daqueles que batalham por reversão nos lugares de poder).      

hoje há um ódio generalizado, Poeminha. e eu fico feliz de não fazer parte dele. o sistema político do Brasil sempre foi corrupto; algo como "todo político é milionário", mesmo que tenha nascido pobre de marré-marré. e nunca  se questionou de onde se anoitecia pobre e se acordava milionário. pelo contrário: nossos "grandes políticos" nunca esconderam a sua face abastada. o ícone da nossa democracia desapareceu no mar em um helicóptero - e nunca questionaram como era pago um helicóptero para sobrevoar os mares. mas agora, todos viraram justiceiros. todos querem acabar com a farra instituída há centenas de anos. 

e sim, Poeminha. eu também fico indignada porque essa patifaria continua aí como sempre esteve. mas eu já era indignada antes. e daí eu posso começar a te responder por que continuo apoiando um partido como o PT no poder, apesar de ele ter compactuado com esse sistema político corrupto. e por que aprendi a amar a Dilma mais do que ao Lula -- embora ontem eu tenha chorado do início ao fim de seu discurso::: o discurso de alguém que sabe mexer com nossas emoções mais primitivas -- e hoje tenha reconhecido em Dilma uma limitação na sua capacidade de emocionar pela palavra. mas acredito quando ela diz que enverga, mas não quebra. acredito muito mais nela do que naqueles que a rodeiam. e mil vezes mais do que naqueles que bradam a sua ingerência. e se acredito é porque minha indignação com as injustiças, com as patifarias, vem de muito antes. desde sempre reconheci os abismos e sempre me levantei contra eles. e como você já tantas vezes comprovou, Poeminha, eu sou uma leitora --- não apenas dos livros, mas também do mundo. 

nunca fui uma militante, filho. hoje foi a primeira grande passeata da minha vida (e tenho que agradecer sobretudo a nossa amada Lili por estar aqui), mas sempre estive próxima da militância. sempre soube ler o mundo e por isso estar próxima dos grupos que defendem micropolíticas de empoderamento - muito antes dessa tal palavrinha existir. e quem fez isso no Brasil, filho, foram os sindicatos, os movimentos estudantis (no meu tempo de juventude, antes de ser corrompido por uma ideia de Deus do merecimento, até o movimento católico, onde conheci uma das pessoas mais lindas que já passou pela minha vida) e  os partidos políticos como  o PT, que se constituíram pela defesa de um estado utópico de participação popular.

é por isso, Poeminha, que não farei "panelaço" nem sairei às ruas no dia 16 -- o dia que se planeja mais uma vez pedir o impeachment da presidenta. tenho vergonha alheia dessas pessoas --- que vivem num país que conheceu a ditadura e agora querem aplicar um golpe na democracia. por ódio. por puro ódio. por que não elevaram suas vozes contra a corrupção antes, filho? eu arrisco uma resposta: porque não estão levantando suas vozes, de fato, contra a corrupção, mas pelo incômodo do aparecimento dessas micropolíticas que começam a afetar suas parcas vidas, suas alienantes vidas.
 
este não pode ser o nosso lado, Poeminha. nunca foi. e nunca será. podemos viajar de avião como eles, podemos comer filé e picanha como eles, podemos morar numa casa boa como a deles. você pode e vai estudar nas escolas de seus filhos, mas não será um deles. não queira ser, Poeminha. faça como sua mãe. adentre os seus covis e mantenha a sua diferença. a sua soberba. saiba ser de outra linhagem. porque minha herança é esta::: eu vim dessas mulheres e homens que estão nas imagens que flagrei hoje --- desses rostos marcados, desses pés rotos, desses sorrisos soltos e soberanos.    

e não se preocupe, Poeminha. eu vou te mostrar nas formas mais bonitas esta nossa herança. como agora --- agora que eu escrevo estas linhas como uma promessa para o seu porvir. você confia em mim? pois confie. eu confio bastante. em mim. em você. nas pessoas todas que vi nesses últimos três dias.
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# O nome da Marcha é uma homenagem:: Margarida Alves, sindicalista no Sindicato dos trabalhadores rurais de Alagoa Grande, na Paraíba, dizia que "É melhor morrer na luta do que morrer de fome". E foi morta pelos latifundiários por causa da força de suas ideias e suas lutas. mas virou semente. hoje são muitas margaridas. e se elas escolhem de que lado estão, não é à toa. a primeira vez que estiveram em Brasília foi em 2000. não foram recebidas pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso. não teve ninguém para ouvir suas pautas de reivindicação. nos anos seguintes, quem as atendeu foi Lula. e foi Dilma. de que lado poderiam estar elas, senão dele e dela? e como poderiam estar ao lado dos que estarão nas ruas domingo, se nenhum deles sabe de suas existências? veja. são respostas fáceis. 

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

fico cansada, juro



Neguinho não lê, neguinho não vê, não crê, pra quê?
Neguinho nem quer saber
O que afinal define a vida de neguinho

Neguinho compra o jornal, neguinho fura o sinal
Nem bem nem mal, prazer
Votou, chorou, gozou: o que importa, neguinho?

Rei, rei, neguinho rei
Sim, sei, neguinho
Rei, rei, neguinho é rei
Sei não, neguinho

Se nego pensa que é difícil, fácil, tocar bem esse país
Só pensa em se dar bem - neguinho também se acha
Neguinho compra 3 TVs de plasma, um carro, um GPS
E acha que é feliz
Neguinho também só quer saber de filme em shopping

Rei, rei, neguinho rei
Sim, sei, neguinho
Rei, rei, neguinho é rei
Sei não, neguinho

Se o mar do Rio tá gelado
Só se vê neguinho entrar e sair correndo azul
Já na Bahia nego fica den'dum útero
Neguinho vai pra Europa, States, Disney
E volta cheio de si
Neguinho cata lixo no Jardim Gramacho

Neguinho quer justiça e harmonia
Para se possível todo mundo
Mas a neurose de neguinho vem e estraga tudo
Nego abre banco, igreja, sauna, escola
Nego abre os braços e a voz
Talvez seja sua vez:
Neguinho que eu falo é nós

Rei, rei, neguinho rei
Sim, sei, neguinho
Rei, rei, neguinho é rei
Sei não, neguinho
(Caetano/ Gal Costa)

nesta semana, um médico me perguntou: "você acha que bebe demais?". e eu respondi: "uma pessoa que bebe nunca acha que bebe demais". o médico, silenciado, olhou para mim. parecia surpreso. acho que não esperava por minha resposta. não espera uma mulher dizer que suas dores no estômago podem estar relacionadas aos seus maus hábitos que se traduzem em cerveja e coca-cola.

o mundo está muito chato. 

eu defendo muitas bandeiras. eu não aceito que dividam o mundo em azul e cor de rosa. eu protesto contra o preconceito aos gays aos negros aos pobres aos nordestinos. isso, das minorias. e desde sempre. muito antes de ser moda. assombrei minha família amada quando disse em alto e bom som que não via problema algum em ser gay. e quando me disseram que, além de gay, havia a desconfiança da promiscuidade, eu disse apenas que estava no script. e quem pode negar que é maravilhoso? muito antes de ser politicamente correto. porque não gosto de nada do "politicamente correto" e suas demandas. nunca fumei --- mas me assombra o mundo que varreu os fumantes para as ruas --- entregues à própria sorte da discriminação. Tatupai é fumante. e vez ou outra me preocupo. não quero que ele morra de câncer. mas não querer que seu amor morra é do humano. penso.

o "meu problema" é que penso que passamos por uma higienização do presente que por vezes me dá engulhos. estamos vivendo um revival mal feito dos movimentos sociais dos estados unidos. agora, tudo precisa ter uma ordem bem demarcada. como se, nordestina, precisasse proferir meu ódio aos que odeiam os nordestinos, mas proferir de tal modo que pareça que apenas reivindico o lugar que nunca tive. mas que lugar de reivindicação é este? não é o meu.

odeio a palavra bullying. a porra da palavra já prova nossa submissão às ideias vindas não apenas de fora, mas em forma de onda. quando poeminha foi ignorado por seus coleguinhas por gostar de pôneis, não pensei em bullying. pensei que é do viver em grupo. e vi nisso a oportunidade de explicar a ele que o mundo, às vezes, é bem feio. e que está ao nosso alcance não sucumbirmos. ser feios como os que julgamos ser feios é a pior das posições. acredito nisso. hoje nos impelem a nos afastar de tudo que não tenha uma bandeira efetiva e visível. estou fora. falei para o Poeminha: -------

não quero o mundo no seu contrário. quero o suplemento. quero amar os indígenas e os não indígenas. o branquinho e o negão. ou o neguinho. quero amar as bichas. mas não como categoria.  não quero nada em categorias. e quero poder dizer que, se defendo bandeiras, me cansam os olhares todos voltados para as bandeiras. tenho visto muitos enganos --- e todos passam por este olhar "preservacionista" - amam os indígenas e os negros paramentados de indígenas e negros. quero ver amar o neguinho e o índio com seus cordões de ouro e prata e seus carrões f1000qualquercoisa. pensam num mundo estático, como se todos não estivéssemos neste movimento errante de esquecermos as próprias tradições.

como ser nordestina. ser nordestina é uma desgraça. cearense, então. o cearense não tem o orgulho do pernambucano, do baiano, do paraibano. o orgulho do cearense é ter sobrevivido a grande fome. somos um povo acanhado. não temos o frevo nem o axé. vivemos do forró - que só teve seu período áureo com luiz gonzaga e com o tal forró universitário. mas temos tanto! e foi este tanto que esteve sempre comigo --- o que me permitiu estar aquém ou além da estereotipia, a depender do momento.

em paris fui arrastada pelo meu supervisor de doutorado que ao descobrir aparentemente surpreso que eu havia lido a trilogia de beckett saiu me apresentando como a brasileira que leu... e não esbocei nenhuma reação, a não ser um sorriso amarelo de quem mal sabia falar a língua daqueles que me passaram a ver como exceção. mas me vingo até hoje ao transformar meu supervisor na mesma estereotipia::: um francês idiota que não sabe que no Brasil se lê Beckett. o que quero dizer com isso é que todas essas classificações tornaram o mundo muito chato. entendo a história. indigno-me com a história. mas não. não estou a fim de fazer uma revisão da história a partir de uma higienização do presente. 

porque batalhar pelas diferenças não é o mesmo que querer transpor tudo ao seu contrário. não me alinharei nunca àqueles que nas passeatas defendem a volta à ditadura. essa gente classe média que não me representa. e defenderei até sempre um partido como o PT no poder --- falei ontem mesmo:::: "se vocês pensam que esta universidade existiria se um partido como o PT não estivesse no poder, é porque vocês não entendem nada de política". e vou na marcha das vadias, nas paradas gays. sou a favor das cotas. e meu filho não vai se beneficiar delas, porque ele não é neguinho para os padrões brasileiros e eu não vou ter coragem de mantê-lo na escola pública. mas não me peçam para fazer o jogo da substituição. não me peçam para cooperar na instituição de uma nova cultura --- que tenha como premissa o esquecimento das tantas culturas.

um exemplo::: acho mais importante que o neguinho brasileiro leia o branquinho guimarães rosa e o sarará graciliano ramos do que leia os branquinhos agualusa e mia couto. e acharia diferente se o povo soubesse fazer de outro jeito::: colocar tudo junto e misturado. mas só vejo o contrário. uma parte de professores totalmente envergonhada, e outra indignada, quando se fala em ensino da literatura brasileira, da arte brasileira. agora, só pode ser literatura das minorias, arte das minorias. como se nós mesmos não fôssemos uma porra de país que mal sabe o que seja literatura, o que seja arte. que mal sabe quem foi graciliano ramos e guimarães rosa, quem foi hélio oiticica. mas não::: preferem que agora se saiba quem é mia couto e agualusa (incríveis, sem dúvida, mas quem conseguir me provar que a prosa de agualusa vale um dedo da de rosa, juro, como eu digo::: não corto o dedo do meu filho, mas corto o meu). porque estou falando de deslumbre: do momento ímpar de ler grande sertão: veredas e ficar chapada a vida toda a cada vez que lembra. e eu li barroco tropical, do branquinho agualusa, e vi muito mais pretensão do que qualquer outra coisa. fico cansada, juro. e não é nacionalismo. é política de leitura. defendo que se estude literatura brasileira porque somos brasileiros. e também norte-americana, francesa, italiana, africana, japonesa, porque somos brasileiros e precisamos abrir o olho para o resto do mundo. não para um certo mundo. mas para o mundo todo. me ajoelho diante de mia couto como me ajoelho diante de beckett. é mentira ---- me ajoelho mais diante de beckett de dostoiévski de kafka. e que se dane o fato de eles terem nascido na europa branquinha. são neguinhos como eu. 

quero estar no entremeio. por que diabos não posso? por que diabos não posso ser uma mulher que desconfia que sua dor no estômago é do excesso de cerveja e coca-cola que ingere? ou não. e não sou feminista nem defendo uma masculinização, uma europeização do mundo. sou mulher. tenho uma independência emocional que cultivo com orgulho e dedicação. e conheço poucas pessoas que a tem. preciso ser amada por poucas pessoas. e mal me mexo quando me descubro não amada. mas sou mulherzinha também. cuido da casa. lavo a roupa da casa. passo a roupa da casa --- isso significa que quando o tatupai está aqui eu cuido dele. eu dobro as suas camisas e coloco-as na posição de usar no guarda-roupa. mas Poeminha, quando tinha quatro anos, disse espantado: "Papai, mulher cozinha!", porque nunca tinha me visto cozinhar. porque é isso, né? a porra da diferença é isto. é branquinho e neguinho tudo junto e misturado. é tudo cor. é tudo gente. é tudo sentir na pele. e para mim, esta deve ser a política.

(hoje recebi um abraço muito apertado. da moça que fez uns vinte tipos de raios-x do meu corpo. junto com o abraço, ela me disse que desejava que eu ficasse boa. disse que acreditava em Deus, que Deus era a cura. falou abraçada a mim. e eu a abracei fortemente. agradeci com uma grande alegria no coração. não era ali que teria medo do abraço de uma desconhecida. mas não menti::: disse que não era religiosa. mas que agradecia enormemente aquele abraço e aquele desejo que eu melhorasse. e por fim, fiz a reverência de agradecimento: curvei os meus joelhos e disse: "obrigada!". curvei-me àquele desejo diante da diferença. ela tampouco titubeou. abraçou-me mais uma vez).
 

sábado, 18 de julho de 2015

tia Elita - e o mundo que se extinguiu.




ontem, tia elita se foi - na difícil travessia da qual é possível falar apenas por eufemismos. esta maldita palavra impronunciável. foi assim um dia triste, muito triste. grande de memórias. tia elita era a última sobrevivente dos meus velhos. daqueles que, mais de uma vez, falei aqui. daqueles que moldaram meu jeito de ser. tia Elita. minha tia-avó. que sem ter tido filhos foi a mãe de um tanto de nós. não. não era maternal. era companheira. era uma de nós. tinha humor, muito humor, mesmo sendo rabugenta; tinha umas tiradas incríveis, uma ironia inteligente que era um verdadeiro aprendizado. ouvia, sabia ouvir. era tão inteligente, tão única, tão maravilhosa. tudo advinha da sua maneira ímpar de ver o mundo sem nunca se afastar de uma ética para a vida. mesmo quando pôde, mesmo quando foi tentada a ser a senhora da casa, preferiu abandoná-la, cuidando da memória de sua irmã, de quem era o seu oposto:::: vó. vó e sua delicadeza adquirida na meninice da velhice.  preferiu abandonar a sua vida inteira a ocupar o lugar da outra --- sabem o que é ter sido testemunha - ainda que já distante - deste gesto? é ter para sempre impresso na pele esse gesto raro.   

tia Elita era uma mulher altiva. é assim que lembro dela. magra, com seus cabelos sempre curtos. elegante com suas saias e blusas para fora das saias. não se via ela desarrumada no dia a dia. herança do seu ser-costureira. a vida toda na máquina de costura. a vida toda que se extinguiu há um par de anos. anos em que ela viu todos se irem. os seus que nasceram junto com ela. e nós, que nascemos depois, mas também a deixamos. 

tia Elita foi a primeira hipocondríaca que eu conheci - e por muitos anos e por tantas razões, herdei essa hipocondria. e agora, que ela foi a última a ir, me vem um choro triste, mas quase um sorriso por saber que a hipocondríaca foi a última a sucumbir. e a única fumante. manaMácia, ontem, para contar uma cena ainda sua, me contou que ela havia perguntado há poucas horas antes de ir quando poderia fumar novamente. e quando lhe responderam que Liduína se encarregaria de perguntar ao médico, ela vaticinou: "então, não vou fumar mais, porque Liduína não vai deixar". era assim. ela nos conhecia. sabia de nós. sempre soube. queria muito ter tirado uma foto dela com seu inseparável cigarro. aquela baforada na calçada. antes, em pé, com a mão na cintura a contar ou a escutar alguma história. e depois, na cadeira de balanço, no limiar da calçada.

tia Elita tinha 91 anos. achei que, por isso, não seria preciso fazer seu luto. há poucos dias havia sido condenada a ficar na cama. e ninguém queria imaginá-la nessa condição. chorei e me sentei de novo nesta cadeira que agora escrevo. mas logo tive que abandoná-la. não. para mim, não era natural. não era uma morte qualquer. todo um mundo que eu tanto prezo havia acabado de se consumir. a tarde foi um longo hiato.  e hoje pela manhã amaldiçoei a minha vida. presa numa reunião, vi que construí minha vida a tal modo que não posso enterrar meus mortos. e para quê? 

tia Elita me diria, como disse tantas vezes: "eh, Cláudia, é você que tem que saber". o que eu tenho que saber é ainda a minha nebulosa, décadas depois. mas o que sei mesmo, nunca duvidei, é que minha vida teria sido terrível se eles não tivessem existido. pois nunca na vida precisamos tanto de pessoas como a idade em que tudo é um grande dilaceramento. e ter pessoas que nos estendem a mão e que chegam até nós como pessoas íntegras, boas, é só o que pode nos salvar.é só um gesto - e é tanto. 

eles se foram não porque foram cedo demais. mas porque eu os conheci quando já estavam aqui há muito tempo. e com isso puderam espalhar em mim a sabedoria de uma vida toda. pensar neles - minha vó Adauta, meu avô Tavarim, minha tia Mariah, meu tio Delbrandro, minha tia Expedita, meu tio Sebastião, meu tio Manuel, minha tia Elita (todos meus tios-avós) - me dá uma sensação maravilhosa de pertença a uma linhagem que soube viver com dignidade, que soube ter dignidade e que sem alarde soube amar - no que o amor tem de mais inteiro::::: saber estar na diferença. não denegrir. não acusar. não jogar uns contra os outros. 

(lembrei agora de uma história. uma história triste. menina sem nada na vida cometi um erro. e não ouvi deles mais do que sussurros. dela, sobretudo. apaziguou tudo. deve ter posto na conta das doidices de menina. depois, meu pai, desgostoso, contou para minha mãe. e aí o alarde foi extemporâneo. apanhei na cozinha entre alaridos e soberbas, enquanto pensava na dignidade daquela de quem eu havia, de fato, usurpado o que era dela. saberia ela a razão? não tenho dúvida. sempre pressentiu o abandono a que eu era submetida).  

(e de uma história alegre. dormíamos no mesmo quarto por vários meses. anos, talvez. e eu via o seu ritual de dormir. vestir a camisola, amarrar lenço na cabeça, colocar o penico embaixo da cama, fechar as portas que ligavam ao outro quarto e a sala de jantar. e me ouvir a perguntar no escuro - da rede: "tia Elita, já dormiu?". E ela responder: "ainda não, porque você não me deixa dormir com suas perguntas". então, o silêncio. até que ela dizia: "dorme, bode velho, que amanhã você tem que acordar cedo senão sua mãe te pega". eu dormia, então, apaziguada em sua companhia.)

nunca. nunca esquecer essas lições. e se não posso ser mais do que uma pálida figura de tamanhas sabedorias, que eu as carregue comigo, que estejam comigo, nos momentos em que não souber nada fazer - para ali encontrar o caminho. 
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ela me chamava de "bode velho" por causa dos fungados e espirros - eu, toda alergia. 
 
a qualidade das fotos é péssima. mas me faz lembrar::: ela tocou o Poeminha. pôs sua mão grande sobre ele. como pôs sobre mim tantas vezes e de tantas formas. 

segunda-feira, 15 de junho de 2015

a pata do elefante. ou por que escrevo



a escrita tem me dado muitas alegrias. a escrita me deu alegrias a vida toda. dentre outras razões, é por isso que eu abrigo um blog --- exercitando esse fazer por nada, sob o risco muitas vezes de me sentir meio ridícula de ser uma quarentona que escreve nesta terra-de-ninguém o que se assemelha a um diário --- me deixem acreditar, please, que ao menos tento algo como uma pegada escritural.

mas falo de outra alegria hoje. como esta - de receber na manhã de sábado a revista que tem um artigo meu e uma tradução. o fetiche da publicação. mas o certo é que eu não escrevo apenas em nome da produtividade acadêmica. e demorei muito a fazê-lo. precisei levar seguidas broncas da Mariamada até ter coragem de pôr o meu bloco na rua. escrevo como resultado de ter algo a dizer. de querer ter algo a dizer. e algo que vem das leituras que tento fazer a duras penas. sim, porque somente a duras penas um professor universitário hoje se dedica ao ofício da leitura, tamanha a histeria da "produtividade" em todas as áreas::: pesquisa, extensão, social, aulas, orientação, reuniões para tudo e para nada - e o professor emparedado na própria ignorância que vai se formando como uma crosta. é contra essa ignorância que luto bravamente quando resolvo passar uma manhã toda relendo Ulisses só para encontrar uma passagem que, depois, descubro se resumir a duas linhas!  ou quando passo noites inteiras acordadas à base de coca-cola e cerveja [nesta ordem, geralmente...] escrevendo, como fiz ontem::: agora que me cerco outra vez da vontade de escrever sobre alguém.

Tatupai sempre diz que quando estou escrevendo um texto é quando fico mais feliz --- a alegria da ruminação. é mesmo como me sinto. pois escrever para mim é um modo de pensar sobre o que eu ainda não havia pensado. a expressão "penso com os dedos" tem muito de verdade quando se refere a mim. escrever sobre um autor ou uma questão é também uma forma de garimpo. e gosto muito da fase do garimpo. acercar-me da questão ou do autor por diversas maneiras - muitas vezes de modo aleatório, deixando-me pronta para o acaso, a surpresa. pois vejam como pode ser bonito::: ter um corpo de escrita é buscar, essencialmente, um corpo de leitora.

e tem também a alegria da surpresa (um autógrafo de laura erber na manhã de sexta).  não conto. mas digo da emoção --- que foi tamanha. esquilos de pavlov, que foi o livro de 2014 que mais achei "pancada" na literatura brasileira contemporânea. às vezes, a vida tem coincidências tão bonitas!
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deve ser lindo ser escritor ---- de verdade.  ser um criador. sempre penso em Roland Barthes querendo escrever um romance, acercando-se dele, e o seu romance que não existiu ser a história desse cerco. eu não quero escrever um romance. mas é um não-querer que vem da certeza da incapacidade, da impossibilidade. mas eu quero ser uma pessoa que escreve crítica de um modo honesto, íntegro. e mesmo assim, eu me arrisco o tempo inteiro, porque sou uma pessoa de mil vontades que sempre quer escrever sobre o que gosto, mesmo quando mal sei nada sobre aquilo que gosto - como uma "fisgada" que mal conseguimos localizar. estou nesta agora. e estava quando quis porque quis escrever um texto sobre o marcos siscar. me dava uma emoção me imaginar sendo uma leitora que escreve sobre sua poesia --- o problema é que não sou uma leitora assídua de poesia. o problema é que amo marcos pra caralho e não queria escrever algo escroto ou idiota ou desonesto. daí, o risco. mas um risco que foi bonito correr. dias e dias debruçada sobre o que eu não sabia... e bem ----não sei da qualidade do texto [publicado - agora ele viaja para chegar até a mim], não cabe a mim dizer sobre ela, a qualidade. isso de ser apenas uma das leitoras de sua escrita. como em tudo, há aquele intervalo entre o querer e o poder. a ambição e o saber. mas arrisco a  dizer que o texto tem uma busca de integridade. que todo texto que escrevo tem essa busca. e pode parecer bobagem, mas penso que essa busca existe porque, reitero, escrevo porque gosto de escrever.
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este texto da Alea - gosto bastante, a quem interessar possa. escrevi toda séria. queria falar mal de modo elegante ---- como Derrida fazia. e em uma edição para Derrida. muita emoção. mas elegância é um dos meus impossíveis. quem me conhece, sabe::: eu sou a pata do elefante. mas que graça seria se a pata do elefante não quisesse ser o pouso do passarinho?