sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

Sobre as promessas



Não há nada mais difícil do que desmontar situações estabelecidas.                         Sandor Marai, em De verdade. 

para 2020, eu prometo --- na tentativa de apanhar os sonhos:

--- ler mais;
--- fazer exercícios regularmente; consequentemente, cuidar mais da saúde;
--- beber menos;
--- gastar menos ainda;
--- estar mais com meus dois homens;
--- ser menos intransigente no trabalho. 
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eu pensava sobre essa lista de boas intenções, enquanto caminhava indolente, no início da noite morna, quando me veio o pensamento de que toda promessa é um sair-de-si. 

eu não preciso fazer promessas do tipo:

--- cuidar mais da casa;
--- ser mais dedicada ao trabalho;
--- ter mais coragem de discordar.

é o contrário. para cumprir a lista de promessas, é preciso abandonar o que constitui a nossa identidade, o ethos, as perfomances visíveis e invisíveis. no meu caso, é preciso desabituar meu corpo do imenso corpo de trabalho e disciplina que adquiri ao longo da vida. e não é pouco::: 45 anos adestrada para em todas as qualidades e defeitos que me compõem, que evidentemente não surgiram todas de uma vez, mas são suficientemente sedimentadas a ponto de parecerem ter assinado pacto de longevidade. 

é verdade que, principalmente nos últimos dois anos, tenho conseguido fazer torções bem significativas em relação a essa identidade - talvez porque eu não me identifique com uma porção de gestos que teimosamente constituem meus dias.
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será preciso um mata-borrão? como borrar isto que sou? como borrar este olhar duro, quase sempre certeiro, sobre o outro? é bem difícil, porque há aí involuntariedade, perspicácia, percepção. ainda assim eu me pego pensando que, neste ano, eu quero olhar menos para o outro. não que eu faça propositalmente. de modo geral, a vida dos outros me interessa quase nada. mas me interessam os gestos, as falas, o modo como a pessoa respira quando fala e revela se ela está nervosa, cansada, em paz, em pose. tenho essa facilidade de radiografar o outro --- de observar o outro como que nu.

mas hoje eu penso que não há outro modo de viver a não ser acatar o modo de vida de cada um que está próximo. e buscar aí alguma beleza, alguma verdade. porque há muita fragilidade nesse momento. todos estamos afetados por modos de vida que não são exatamente os nossos. daí, talvez o desafio quase sempre seja este::: cultuar promessas e vê-las se desfazendo no decorrer do ano, mas restando princípios, centelhas.

mas não é sobre isso. é sobre mim. sobre as injunções. não que as promessas sejam injunções. promessas são uma tentativa de domar o porvir::: eu vou fazer isso; eu vou fazer aquilo --- vou fazer o que eu ainda não fiz, ou fiz de modo incipiente. e vou transformar em hábito, modo de vida, estilo, todo dia. por isso, elas resultam quase sempre em nada. porque não há nada mais difícil do que movimentar o que se comporta com um estar-aí.

um pouco do nosso horror diante dos nossos anseios vem da incapacidade de nos retorcer de outro modo que não aquele de todos os dias. como é que alguém que penteia os cabelos todos os dias de um mesmo jeito, de repente, vai fazer diferente? a contrapelo? não é que não tentamos. é que, no momento mesmo que tentamos, vem a dúvida: será que não é melhor deixar como está? é um apego que é diferente do apego do querer-bem. porque deve existir, no mínimo, duas vontades: aquela que condiz com a imagem que fazemos de nós mesmas e aquela que resiste porque é o que fazemos desde sempre.

ou nem é mesmo dúvida. é porque continuar a ser o que somos --- mesmo que não seja o que queremos ou pensamos ser --- não dá trabalho. só dá trabalho de manhã, quando acordamos e vem na mente que é aquilo mesmo::: é mais um dia sem cumprir as promessas.

de tudo que ainda poderia dizer, o que há de mais aparente que ainda pode ser dito:::

aos trancos e barrancos, eu faço caminhadas desde que vim para a Bahia. quando vejo que já faz semanas que não caminho, me chicoteio horrores. Rosabela é minha fiel companheira, que me cobra todas as noites para eu me por em movimento. quando consegue, ela me arrasta pelo calçadão, serelepe, pronta pra latir por qualquer cachorro que passe. parte dos dias, não rola. mas quando me perguntam que exercício faço, respondo sem titubear: eu faço caminhada. e é verdade. jamais poderia dizer isso antes. lá para outubro, nesse mês de tantas promessas que se configura como "meu", eu comecei a fazer pilates. parei em dezembro e retomei agora, ainda nas férias --- a promessa é não parar mais.

não sei quando eu desisti dos cabelos longos ou meio longos, mas hoje não consigo imaginar como é que passei a vida toda com um cabelo que não tinha nada a ver comigo. gosto demais dessa coisa esfiapada, curta, desarrumada, que agora é meu cabelo.

passei boa parte de minha vida usando calças jeans e camisetas. depois, passei para calças jeans folgadas e estranhas. se eu tivesse boa memória, lembraria quando foi que praticamente as abandonei e enchi um guarda-roupa de vestidos, saias e blusas estampadas ---- sei quais foram as razões. e tenho imenso orgulho do que me tornei depois daqueles longos dias tristes --- adquiri um amor pelo meu corpo que transcende  a questão do vestiário. não é fácil abandonar a estética da magreza, que sempre me constituiu. às vezes, sinto um espanto enorme com o que vejo como decadência mesmo da estrutura do corpo, que vai se enchendo de volumes, de pesos, de dobras, mas esse espanto nunca barra a minha disposição de deixar o corpo livre, de amá-lo, de cuidá-lo. dá trabalho, porque a(s) doença(s) faz(em) parte de sua composição, mas eu sigo --- feliz.

nos últimos dois anos, por imposição do tempo, eu tive que largar a casa. Tatupai disse que nem percebeu, porque ele usa do artifício da não-visão para fazer de conta que a casa existe por si só, sem necessidade de mãos humanas para mantê-la limpa e organizada --- mas  a verdade é que já não cuido dela como antes. há recaídas, é vero. e continuo apegada a um senso de organização e de limpeza. e o fato de ter que ter que passar a ignorar um dos seus cômodos trouxe muitas revelações sobre mim ---. seria preciso uma longa reflexão sobre a hospitalidade que talvez não caiba aqui. apesar disso, hoje consegui roubar muito tempo que antes era da casa --- nesse tempo, leio, sobretudo.

sobre as leituras. sem querer voltar a postagem anterior, eu faço uma última promessa::: ler com mais critério, a partir do que estou definindo como objeto de trabalho, sem deixar de lado livros que me fazem um bem danado ler pelo puro prazer de leitura; quase como um roubo, uma insubordinação, um hiato:::

porque talvez seja este meu defeito mais antigo:::: a capacidade de abrir hiatos diante das clareiras do caos. tudo ao meu redor pega fogo e me vem a certeza de que nada me diz respeito. o que me diz respeito são estas promessas sempre a cumprir.
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terça-feira, 31 de dezembro de 2019

Retrô 2019 - os dez livros mais amados e + 1



todo fim de ano, esta vontade de revisitar o que se passou no decorrer do ano --- como se fosse possível apreender o tempo. e daí extrair lições. me vem a vontade do diário e olho desanimada as poucas postagens, como se tivesse falhado com algo que me é tão importante. 

escrevi muito neste ano --- centenas de textos técnicos. mas quase nenhuma linha do que realmente me importa. não que essas centenas não tenham importado. aprendi muito neste lugar da técnica. muito mais do que em qualquer outro tempo julgaria capaz de aprender. e de gostar. pois foi assim. entretanto, isso não supre todo o resto que faz falta. 

antes de fazer minha lista de "livros do ano" (porque com tanta gente bacana fazendo as suas listas, é difícil resistir), preciso dizer que li muito menos do que achei que havia lido. li mais do que no ano passado, mas ainda tão pouco se comparado com a minha ambição de leitura.

começo, então, pelo fim::: pelo dia em que passei lendo O compromisso, de Herta Müller. na semana passada, em um daqueles dias de banzo, meio ressaca, meio cansaço, de férias finalmente, lá pelo meio da tarde, após passar a manhã toda lendo, resolvi que leria o livro até o fim. e assim foi. e foi tão impactante, porque me dei conta do tempo. deste de agora e daquele em que era tão comum passar o dia todo lendo.  

eu leio na van, a caminho do trabalho. foi assim que li a maioria dos livros deste ano. enquanto a maioria dormita, cochila, vê o celular, eu leio; às vezes, lutando contra o sono e o cansaço; outras, com a luz das lanternas de leitura, porque eu ainda leio livros de papel; e acho que sempre vai ser assim. isso dá duas horas diárias de leitura; nos dias de maior concentração, 2h40, que é o tempo da ida e da volta para a UFSB. 

leio também aos sábados pela manhã, na varanda do meu quarto::: a cada vez, um momento de muita plenitude. eu sempre me espanto como fiz, quase sem querer, desse lugar na varanda o meu melhor lugar no mundo nos últimos dois anos.

ainda assim, perto da minha ambição, da minha imensa biblioteca, foram poucos livros. daí que, neste dia de dezembro, em que li todo o livro de Herta Müller, eu tomei a decisão de que esta será uma das minhas promessas de  2020: tirar da loucura dos dias aqueles que serão dedicados apenas à leitura, escolhendo sempre livros que possam ser iniciados e finalizados em um único dia. daqui a um ano, se nenhum raio tiver me partido, eu digo aqui sobre o percurso dessa promessa. 

2019 foi o ano dos "inéditos" --- autores que jamais havia lido, seja porque não os conhecia, não tinha interesse ou não havia dado o tempo. daí, terem sido verdadeiros encontros. 

se eu tivesse que escolher um, escreveria Os detetives selvagens, de Bolaño.
dois, acrescentaria Os diários de Emilio Rizzi - os anos felizes, de Ricardo Piglia. 
três, não esqueceria de Bússola, de Mathias Enard. 
quatro, devotaria amor eterno a Mrs. Dalloway, de Virgínia Woolf. 
cinco, reservaria O quarto de Giovanni, de James Baldwin. 

desses cinco, apenas Piglia é meu velho conhecido. 

mas como esquecer de O amor de uma boa mulher, de Alice Munro?
e Amada, de Toni Morrison? é preciso continuar: seis, sete. 

quando meu pai morreu, eu estava lendo Tristes trópicos, de Lévi Strauss. que eu tratei como ficção, de tão bem engendrado. por conta disso, deste acontecimento tão irreparável, ficaram faltando as últimas trinta páginas. não é fácil estar lendo um livro e, no minuto seguinte, estar descendo as escadas da sua casa, com o celular na mão, para ouvir daí a instantes que meu pai havia ido - passarinho. como voltar àquele instante anterior? não há como. Lévi Strauss entenderia. oito. 

na bagagem da longa viagem, levei Jane Eyre, de Charlotte Brontë, por conta do Leia mulheres Ilhéus, que me trouxe tão lindos encontros neste ano. quando a garganta deixa de ser comprimida, quando a cabeça para de martelar e entra num torpor indefinido, são os livros que me salvam. naquela rede da casa da tia Marlete, afastada da tagarelice da cozinha, em que tantas moralidades eram postas em jugo, eu me enterrei na rede, no mesmo local em que minha avó havia vivido os seus últimos anos. e dediquei algumas horas a essa história tão antiga, que, para subverter minimamente as histórias das heroínas entregues ao seu herói, iniciou pelo corpo, destituindo-os de beleza. 

depois, comentamos no Leia mulheres. e eu não lembro se contei ao quinteto as circunstâncias em que havia lido esse livro - tão antigo, como disse, mas ao mesmo tempo tão assombrosamente inadequado para a sua época. ah, as mulheres! que histórias bonitas estas mulheres me contaram: Alessandra, Daniele, Lu, Verena. se elas pudessem saber o tamanho da minha gratidão! é o nono. 

volto ao início::: Herta Müller --- A raposa já era o caçador. Nunca um livro havia me mostrado como eu havia deixado de lado algo tão essencial de outro livro. ao finalizá-lo, me deu vontade de reescrever de tantas outras formas o artigo que escrevi sobre o livro de Laura Erber, Esquilos de Pavlov, para preencher as lacunas que deixei ali de modo tão flagrante. é o décimo. 

ainda seria preciso falar das leituras inacabadas, para além de Tristes trópicos. porque toda história de leitura está repleta de hesitações, desejos frustrados, páginas pela metade::: conto nove aqui em cima de minha mesa, pelas mais variadas razões. há muito mais de volta aos seus lugares de chumbo à espera de um tempo que talvez nunca chegue.  é a primeira vez que, deliberadamente, me dou ao luxo de não me obrigar à leitura de um livro iniciado até às últimas páginas. 

foi um ano irrequieto. medonho --- se penso no coletivo, no papel social que é preciso exercer e estar atenta. foi o ano de maior revolta, sem dúvida. e foi, no íntimo, mais um ano tão triste -- o ano em que Chico se foi. e apesar de nunca serem suficientes, nunca serem um lugar de consolo, os livros lidos, inacabados, desejados, ignorados, comprados, folheados, foram um sossego da loucura e da dor. 

e é por isso que não posso prescindir desses hiatos em que me dou a chance de ler. prescindir seria arrancar de mim uma parte que considero bonita, embora, como outras partes, seja também conflitante, incompleta, imperfeita. 

Talvez seja como o personagem de Bússola:

Meu pobre Franz, você sempre se agarrando às ilusões, teria dito Mamãe em seu francês tão suave, você sempre foi assim, um sonhador, meu pobre menino. No entanto, você leu Tristão e Isolda, Vis e Ramin, Majnun e Laila, há forças a vencer, e a vida é muito longa, às vezes, a vida é muito longa, tão longa quanto a sombra sobre Alepo, a sombra da destruição. 

Pois.

De longe, o livro mais desencantado de todos esses. Se não existisse Desonra, de J. M. Coetzee, teria sido o livro mais desencantado. Mas existe. E quando um livro como Desonra existe, na verdade, ele paira sobre todos, como uma grande exceção --- único, medonho, grande, muito grande. 















quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Chico, Chico




antes, quero dizer que, embora este blog esteja parecendo um obituário, há muita vida por aqui --- na vida. nem sempre fácil, algumas vezes muito difícil --- mas vida. aqui, em torno. 

meu pai foi embora em um sábado --- o dia que ele mais amava, o dia que elegeu, durante toda sua vida, como o dia para sair de si, para estar na rua, para ficar tonto. --- como se alguém que, gostando muito de carnaval, morresse em plena avenida, entregue à alegria da batucada. foi assim --- num repente. 

talvez tenha dado tempo para sentir um pouco de medo, mas não muito --- é o que espero. pois ele tinha muito medo da morte. sempre que atentou para alguma mudança em sua vida foi na tentativa de burlar a morte, de enviá-la para longe de si. gostava de imaginar que viveria tanto tempo como seu pai, como seus antepassados --- com vidas tão longevas. seu neto Emanuel,que esteve com ele todos os dias nos últimos seis anos, disse que ele viveu sua vida todinha --- e me deu uma pequena alegria esse pensamento. porque para nós, os ainda vivos, parece sempre pouco. é sempre um ainda não. 81 anos é mesmo uma vida todinha::: deu para engendrar outras vidas que o amavam, que tinham nele a maior referência de amor e de delicadeza. 

meu pai não era um homem comum. com isso não quero dizer que era extraordinário. quero dizer que ele tinha os dois pés fincados no imaginário. ele falava com os bichos, falava com as crianças. mas principalmente falava sozinho --- numa peleja grande com suas tantas histórias pra dentro - sussurradas, ligeiras, secretas. isso lhe dá pelo menos duas existências::: a que vivia com as gentes de fora e a que vivia com as gentes de dentro dele -- inventadas, recriadas, contadas e recontadas.

[e eu sou a sua herdeira direta desse viver para fora e para dentro --- pelo menos, até onde sei. pois se é a primeira vez que confesso minhas outras vidas, talvez outra das minhas irmãs também tenha herdado esse inventar histórias, criar outras paisagens e outros fins para dentro --- dentro de si. fim da confissão].

por muito tempo, meu pai foi o menos silencioso de sua família silenciosa. agora, que eu estou mais próxima da velhice do que da juventude, é ainda mais bonito reafirmar o que essa família representou na minha formação::: o que enxergo nela como o que me constituiu e o que eu gostaria que tivesse me constituído --- que passa por nomes como dignidade, altivez, que sempre impressionaram o meu eu-menina. dessas heranças que valem uma vida toda. digo "por muito tempo", porque, nos últimos anos, meu pai havia finalmente incorporado o silêncio de sua família. e plantava seus olhinhos calados sobre nós a perguntar, sim, pela sua vida -- o que havia sido das terras? da casa deteriorada? do pobrezinho de seu filho que havia ido tão cedo? o que havia sido dela com quem não podia mais se encontrar? E menino de vô, cadê? E Ney, como vai? -- era assim sua vida de fora. a de dentro era, por vezes, assombros e batalhas. 

ter um pai aluado é, desde menina, conhecer um menino-deus. é ter que desde cedo reconfigurar a imagem de pai e de homem, de sucesso e fracasso, de poder e saber. pois foi assim que carreguei em mim meu pai a vida toda --- sabendo ser ele diferente. um homem-menino com toda a carga de beleza advinda daí::: o melhor abraço, o beijo mais bem dado, o sorriso meio de lado, quase que envergonhado, a timidez, as poucas palavras, o jeito doce, o cheiro mais reconhecido.

meu pai gostava de perfumes. de camisas azuis  --- jamais o vi de camiseta. de calças em vez de bermudas. de relógio. de chapéu preto de feltro, de sandálias de couro. de botas - que deixou de usá-las nos últimos anos. 

meu pai gostava de presentear perfumes e sabonetes.

meu pai gostava de pentear os cabelos. de escovar os dentes. de tomar banho. de beber pinga. de cheirar as filhas, os filhos e os netos. e as mulheres, quando elas deixavam. 

meu pai gostava de deitar em rede.

meu pai gostava de crianças. e as crianças gostavam demasiadamente de meu pai.

meu pai amava minha mãe. amor grande medonho desmedido desalmado. era riobaldo, baltazar e serapião. sim, serapião. nos últimos anos, serapião. 

meu pai me bateu uma única vez. e chorou porque me bateu, agarrado a mim, me dando beijos, com gosto do café que eu não soube fazer. e eu, que fui tão surrada, nunca mais tive gosto pelo café. pela cozinha.  e ganhei gosto por pedir desculpas. por beijar os que amo. 

meu pai comia de um jeito diferente. esmagava toda a comida antes de colocá-la na boca, fazendo uma dança com a colher que era antes de tudo método --- e gostava dos pés da galinha e do pescoço, satisfeito de sobrar para ele as piores partes. as partes da galinha dizem muito sobre a nossa história familiar de faltas. até hoje me é excessivo ver uma galinha assada, daquelas que se vendem para os sábados preguiçosos, e imaginar que posso pegar dali qualquer pedaço. me restam sempre as asas, como para meu pai restavam os pés e o pescoço. de restos, como nossa história.

meu pai comprava queijo e rapadura a cada vez que íamos visitá-lo. e nos fazia trazer esse fardo pesado nas malas. queríamos dizer que não queríamos. mas ele ignorava. e chegava com queijos gordos e rapaduras pesadas. e agora, com gastrite e colesterol alto, não paro de comer queijo e rapadura. desde a volta do cemitério. um primo fez um lanche com muito pão, frutas, sucos. e queijo. comi e comi. e ri e ri. ali, abraçada com Verinha, ouvindo as histórias de Ferdin. Vamos para a Europa, num tour, todos nós. e eu queria ter dito: vamos, Verinha, porque Paris com você seria um sonho dos mais grandiosos, como meu amor por você também desmedido. e nunca soube como dizê-lo do tanto que queria saber dizer. mas você sabe, ali, agarrada na minha mão, na igreja em que o corpo do meu pai foi velado. ali, no cemitério, em que você olha para mim, com ela na frente, e diz: "quem diria?"
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as imagens aí acima parecem expressar meu pai como um homem triste. era não. era só em instantes. talvez tenha sido por isso que, quando as tirei ou logo depois, eu pensei que meu pai estava se preparando para ir. as fotos dizem mais sobre um pai que ama seus filhos. eu as tirei de tão longe quanto a minha câmera permite. e sabia por que ele chorava. era pelo meu irmão morto. também chorei pelo meu irmão no meio desta grande festa e, por isso, pude chegar perto dele, logo depois, e dizer: "chore não, Chico, se tiver uma brecha, ele está aqui se divertindo e bebendo essas cervejas todas". 

pois era assim Chico. 
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um homem que não nos deixava esquecer que os afetos nos esgarçam e nos inteiram. um homem que nos doou - às filhas e aos filhos - um amor delicado, distinto, poderoso inteiro feliz leve passarinho. 

... eu tenho em mim uma memória. guardo-a. é minha. a essa memória de afeto, acrescento esta::: no pequeno corredor que há na casa de Maneca, separando a sala e a cozinha, meu pai está lá, saindo do banheiro, e eu o agarro e digo::: "Chico, Chico, você está tão calado. Chico, Chico, eu te amo". E ele responde, quase em silêncio::: "Tô não, minha filha". 

e agora que estamos sozinhas, sem esse afeto vivo, peço a ele como uma prece:::...........................................................................................................................................

eu não sou de pedir ajuda a ninguém. quando tenho desesperos, são desesperos orgulhosos, solitários, medonhos. estava assim, e a razão de estar assim já se perdeu, há cerca de um ano, e no calçadão que caminho algumas vezes por semana, eu invoquei meu irmão morto e lhe pedi ajuda:::: "me diz, mano, me diz o que fazer, me diz como fazer o certo, me diz, mano".

agora, não estou dormindo. as mortes levam meu sono. e me põem num frenesi absurdo. não sei se é narrativa ou se foi assim mesmo, mas só voltei a dormir depois que meu irmão morreu quando sonhei com ele. um sonho tão rápido e tão bonito. agora, talvez eu espere que meu pai me venha em sonho. e me diga que está tudo bem. enquanto ele não vem, durmo pouco e sonho sonhos. 

merci, Chico. não poderia ter sido mais bonita nossa história. e poderia. a história que manaMácia e a Morg viveram com você foi infinitamente mais bela do que a minha. Por isso, eu as reverencio e agradeço. que os deuses me deixem pronta para a minha morte, mas principalmente para a vida. porque a vida é mesmo esse conto ligeiro, esse fio atado a nada. --- como disseram as minhas irmãs. 
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chamava pai de pai. mas muitas vezes eu o chamava ou me referia a ele --- de Chico, Chico, como se estivesse falando com ele, mesmo se não estivesse, imitando o seu tom de voz, que era - e não poderia deixar de ser - muito peculiar. como um rumor do que ele era. 

quando éramos:::::::::::::::




 de frente, nós. 

       

segunda-feira, 10 de junho de 2019

Casamento da Princesa






pois este ano tem me feito revirar um bocado. agora, fui para ver o casamento da Princesa, dela que provocou, involuntariamente, meu primeiro e mais importante deslocamento, há quase trinta anos.

por diversas vezes, nos dias que antecederam e procederam o casamento, eu pensei que ainda via a Jéssica, ora Princesa, ora Doidinha, como a adolescente que ela era em 2004, quando fui embora de Porto Velho. até ali tínhamos uma convivência quase diária permeada de muito afeto, muito amor, muita admiração. depois, perdemos a cumplicidade dos dias; tanto eu como ela avessas de comunicação à distância. vez ou outra, nesses dias, senti falta dessa cumplicidade agora memória. e me vi investigando em silêncio o que ainda há. e sei que da minha parte é um desmesurado amor. 

eu nunca casei num ritual como esse, e nem tenho lembrança se alguma vez o quis, mas quase tudo que me é estranho é da ordem da emoção. eu fui assim --- para viver os dias em nome deste lugar que é dela em mim. e foi bonito. é o que eu tenho a dizer::: foi bonito --- como tudo que lembro que vivemos. e isso é um milagre. por fim, é um milagre::: ter alguém que se ama tanto e só ter boas lembranças desse amor. 

e foi o que desejei -- a ambos::: que seja bonito o casamento. que haja mais dias felizes do que tristes. isto do caminhar junto - que nunca é fácil, mas é o que quase sempre queremos viver::: o encontro com o outro. 

ainda em casa, tomei ciência de que deveria ir entregue aos rituais, atenta à praticidade que me obrigo a ter vez por outra. me arrumar, arrumar o Poeminha, estar atenta ao que precisassem - pouco, muito pouco. quis encontrá-la, encontrá-las, ela e Maneca; ela, Maneca, Ed e Josimar, com amor, porque, se não me engano, foi o que sempre nos permeou. e é o que posso dar, desatenta que sou::: a minha presença, quando ali estou. e isso me trouxe alegria, muita alegria. estar ali, estar com. 

fotografei toscamente quase todo o casamento. e me embrulhei de emoção diversas vezes. dancei muito e comi muito. e me concentrei para não beber além da. para poder registrar.  pois é o que se tem a fazer em uma festa de casamento: dançar, comer, beber e achar tudo bonito. foi assim. lembrei muito do mano. ele foi a presença que nos faltou nestes dias. e ainda lá, me veio o pensamento de não querer normatizar nem moralizar o luto que ainda dói, ainda que doa. flagrei a dor do meu pai e da tia Fá na pouca luz da festa. e guardei-os, aqui, em mim.   

pela primeira vez, nos encontramos - as quatro irmãs - sem ser no Ceará. Morg finalmente foi nos encontrar. e eu espero que esta primeira viagem tenha sido bonita para ela também. para que ela possa vir aqui, na minha casa. minha maior alegria é ter irmãs, como já disse outras vezes aqui. é um assombro: os mesmos sorrisos, os mesmos vários tiques, as fisionomias tão próximas. em algum momento, expressei nossas diferenças, como um apelo para que estas não nos afastem nem retirem de nós isto que tem nome de amor; amor como um sentimento imperfeito, afeito à curvatura do que temos de próprio em cada uma. 
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a primeira lembrança que tenho de Jéssica é dela correndo na praça da cidade de minha infância. ela tinha um ano. na minha memória, era um vestido amarelo, com laços de fita branco. não sei se inventei essa memória. ou se a construí a partir de alguma fotografia. ali, aos quinze anos, eu já dava início a um dos princípios básicos da maternidade que eu exerceria vinte anos depois: cuidar sem violência. e agora, quando escrevo, me dou conta que também Maneca fez este pacto. e também Josimar. tantos foram os dias e as noites que nos colocamos à sua disposição. para brincar, correr e acalentar. ela não tem a delicadeza que poderia ter se constituído aí. porque é para dentro --- como nós três, arrisco-me a dizer: sua mãe, seu pai e eu. e deve precisar de um esforço extra para lidar com quem está a seu redor. talvez quando ela for mãe - se for -, a delicadeza que há ali, e que é preciso arrancar vez por por outra, prevaleça. ou já agora::: ela e Ed juntos nos dias que virão. tão longos, tão longos, é o que desejo. 


domingo, 17 de fevereiro de 2019

enquanto leio este livro de Mia Couto



enquanto leio este livro de Mia Couto, mais o Brasil deixa de ser o que por um intervalo curto demais imaginamos que ele poderia vir a ser --- ou era. nós, os que acreditamos em presentes. e daí fico sem saber se todas as lágrimas são por conta do livro --- da beleza das palavras, e não propriamente da história --- ou por conta deste aborto chamado Brasil. talvez fosse melhor ser desterrada do que estar ainda mais próxima das entranhas da minha terra, nesta Bahia, embora às vezes esta se sinta mais próxima do Sudeste que lhe renega do que do Nordeste que lhe é. pois estar fincada na própria terra é sentir mais forte quando ela treme debaixo de nossos pés.

sei que nestes dias me sinto mais que nunca cearense. ainda que uma cearense-rondoniense. um travo orgulhoso me percorre. e eu misturo a minha dor salivar do estômago com essa raiva surda por conta de todos estes mortos-matados. o Brasil afunda como a barragem de Brumadinho::: de uma vez só, sem dar tempo de nos colocarmos a salvo, ainda que os avisos tenham passado por muitos ouvidos moucos; ainda que haja sempre um milagre a nos dar um rasteiro alento – como a mulher que dirigia o trator e soube ter a coragem de esperar a hora de sair dali, bem na parte da terra em que a lama deu a curva. a mesma coragem da mulher que arrebentou o vidro do caminhão arrebatado pelo helicóptero que caiu. ouço o relato que Boechat pulou, na tentativa, certamente, de se manter vivo. não tenho forças para conferir. é muita tristeza junta. havia acabado de ver corpos estirados no chão de uma casa comum, no morro do fallet-fogueteiro, mortos em nome da guerra que faz arder o Rio de Janeiro. e também Fortaleza. porque as guerras são todas iguais, é o que sempre nos dizem. e na mesma semana, já havia visto Fernanda chorando por conta dos meninos do Flamengo ---. e agora o segurança mata um jovem já indefeso. MATA UMA PESSOA. e é nítido o prazer de matar. é a vida num estado de terror e revolta 

enquanto leio este livro de Mia Couto, eu tento me acertar; acertar as contas com o que não me serve mais --- lembro da missa a que assisti ainda há pouco do meu irmão padre – tão bonita e tão bonito. não aprenderei a dar glória, nem a usar a hashtag gratidão, mas posso levantar da mesa para fugir das minhas implicâncias; posso subir as escadas, meio trôpega, para não dizer mais nada sobre o que certamente me arrependeria no dia seguinte, quando eu tivesse que me levantar e roubar estes poucos minutos para olhar o que vejo da varanda de nosso quarto. é porque a vida tem esta parte das fugas de si mesmo; do repisar o constante para querer ser outra, ainda que todo tempo seja eu mesma que esteja aqui comigo.

enquanto leio este livro de Mia Couto, lembro que já faz dez dias da última fisioterapia e acordo em desespero para ir. é um rompante para não me afastar das promessas deste ano que mal começou e já poderia ter terminado, porque já parece ter havido tragédias, crimes, mentiras, ignorâncias, burrices em excesso. é muito. e talvez ainda seja pouco. engulo estes comprimidos contra a bactéria do estômago e deixo ausentes a amargura da boca e a sonolência, só porque quero, embora estejam aqui. tenho pressa, mas é porque persigo o vagar. me prometi ler uma centena de livros neste ano, e ver mais de duas centenas de filmes nestas horas em pé, enquanto faço algo muito antigo, que é este passar de roupa e, agora, guardar no método marie kondo. nem que eu precise trapacear e ler alguns muito finos, decidi que vou ler, sob pena de não mais poder dizer que me constituo como leitora. nem que eu tenha que fazer como já faço há tanto tempo: barrar o sono. Vicente e Tatupai riem quando me veem cochilando 1h da manhã, tentando ler ou escrever, já não lembro. eu devolvo o riso, feliz, por estar ali e não ter estado com eles, quando certamente me perderia e deixaria de lado essas promessas tolas.

enquanto leio este livro de Mia Couto, penso que não há razão alguma para temer. para me pôr a salvo, ainda que sob perigo, é só não me afastar dessa grande coragem de me manter leal aos meus princípios --- há quem diga que é arrogância, mas eu prefiro pensar que são as roupas e as armas de Jorge. um querer obstinado pelo trabalho moroso, porém dedicado. tenho horrores também, mas tenho amor, sobretudo. amor, sim, ainda que lesado.   

enquanto leio este livro, eu me lembro que daqui a pouco estarei novamente em Angola. é por Angola que circundo estes livros negros, estes estudos, prenha destas vontades, agora que já não dá mais para estar prenhe de algum irmão-porvir de Poeminha. é da natureza do precoce vir cedo demais; daí ser necessário esse agarrar das vontades outras. é o modo possível para suportar este Brasil que ora nos castiga como o quê. talvez seja como rezar pra dentro, por falta de jeito de rezar pra fora. quando eu esqueço que não sei, eu me ponho em estado de oração, em que penso no meu irmão morto, no meu primo-sorriso, no meu pai e na minha mãe longes, no plural mesmo. nos desejos abortados, nas tristezas fundas que não se curam senão não seriam tristezas fundas, em tantos outros que estão longe, e nestes dois que amo e que estão perto, aqui comigo --- enquanto me deixo arrastar por Rosabela, que late faceira, nesta beira do pontal que aprendi a amar e a chamar de casa.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

o menino-sorriso Luan




mana Mácia, em um de seus momentos de braveza - e com aquela dor do irmão que havia morrido -, me disse que quando morresse não ia querer nada::: nem choro em vão nem texto bonito na internet. há pouco eu havia escrito sobre e para meu irmão morto. o que são as palavras senão monstros para nos apaziguar?  talvez a gente escreva porque a parte escrita seja a parte de uma humanidade perdida --- um jeito de estar com o outro, ainda que a presença, aí, fique rarefeita. é assim que hoje escrevo sobre Luan, o menino bonito de tantos amores que partiu como passarinho --- a atrapalhar as alegrias das festas de fim de ano, meio como naquela música de Chico Buarque.

há tanto a dizer sobre Luan. e não há nada que não tenha sido já dito. eu o vi bebê, menino, adolescente, rapaz e moço inteiro. ou seja, eu deveria ter morrido primeiro para seguir a ordem da natureza. um jovem quando morre - seja de morte matada seja de morte morrida - é um tanto de dor sem fim. já disseram tudo::: morre um passarinho livre. pego de surpresa bem no meio de seu voo.

Luan viveu sua doença de tal modo que nos ensinou a viver como se ele não fosse morrer tão cedo. ainda que sua vida nos últimos anos tenha sido vivida boa parte em hospitais. e agora, quando escrevo, parece estar fora de ordem isso que digo::: suas fotos públicas são todas de um viva ao estar junto, ao sentir e querer estar entre pessoas. com câncer reinventou sua vida um sem fim de vezes. namorou, passeou, foi pai. pai! talvez soubesse que tudo seria breve. ou não::: acho mesmo que acreditava no estar-aqui da eternidade. e com tal sorriso::: não há uma única foto em que ele esteja sério. nem se via ele sério::: é a vida que pulsa. em uma daquelas sortes grandes, faz um mês apenas que pude estar uma hora com ele, apesar de nossos muitos quilômetros de distância::: e não ouvi dele uma única palavra de desalento. era todo fé, era todo alegria. era todo vontade de estar no mundo.

um dia, tentando convencer minha amiga Rosana de que a vida era muito poderosa e não deveria ser vivida senão com alegria, eu lhe disse que a hora é sempre o agora::: ou vivemos ou esperamos o tempo em que viver será ainda mais difícil, pois a morte vem, as dores nos arrastam e já é o fim. 

e agora me parece isto::: tem uma ferradura bem no meio de nós, de mim. a morte de meu irmão é como um antes e um depois --- a tristeza dessa morte lambe meus dias mais felizes, retirando parte das alegrias tantas. ---- ainda que eu persevere na alegria. pois Luan, como meu irmão, também perseverava na alegria. e agora temos mais esta prova para viver os dias. mais um se foi cedo demais. e como sobreviventes temos que viver as provas dos dias. como estar à altura da vida? desnorteada, penso dia e noite nisso. como honrar a chance de estar viva, quando tanta gente bonita morre como se fosse antes da hora?

certamente, Luan sofreu. teve medo, sentiu muita dor, fraquejou no meio das noites, que é quando mais fraquejamos, longe dos olhos. mas nada disso quis compartilhar conosco. o que quis foi espalhar seu sorriso e sua fé. e por isso, apesar desse tempo todo doente, nos parece agora que foi rápido demais. assim:::: num repente --- vestido de branco, vermelho e flor. no meio das festas, da família que ele tanto amava.

penso agora na tia Fá, a mãe de Luan. --- da geração de mães que conheço, ela sempre me pareceu ser das mais ternas, mais entregue a esta aventura de ser mãe. sempre me impressionou a sua falta de sono quando uma de suas crias estava longe de casa --- prova de que ela as queria todas próximas, a salvo sob suas asas. só consigo imaginar a sua dor; jamais senti-la. mas eu sei que ela sabe o que Luan faria e diria::: amor.

então, neste último dia do ano, o que posso desejar a todos que conheço, e ainda mais aos que amo, é que tenham em si a alegria, a coragem e a fé de Luan --- o menino-luz, o menino-flor, o menino-sorriso, o menino-abraço, o menino-gargalhada.

vamos precisar de sua alegria, de sua fé, de sua gargalhada, para enfrentar os dias duros que virão --- e sem perder a ternura, o amor, os desejos --- estes sentimentos moventes::: que eram dele e estavam nele até o fim. que nunca parece ser o fim. porque está aqui -- em nós. 

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sexta-feira, 31 de agosto de 2018

Jardins da memória















ontem, procurando uma foto para colocar no facebook, encontrei as que tirei no jardim Botânico do Rio de Janeiro. e achei-as bonitas. foto de flor é também como paisagem de mar::: não tem erro. mas é difícil. e é uma beleza que saiu de moda. de todo modo, estão aí em cima. e lembram uma tarde feliz.

lembrei que as primeiras tentativas de tirar fotos de flores, com a câmera bem próxima, foi na casa de d. Marlene, a mãe da Kotz. em algum lugar há fotos de flores da casa de d. Marlene nos meus arquivos sempre bagunçados. me veio o desejo de procurá-las. e há bem aqui. me veio o desejo daquela casa. não sei se a casa ainda existe. mas sei que d. Marlene não está mais aqui --- não há mais como voltar naquelas tardes preguiçosas, naqueles almoços pantagruélicos, nem para aquela rede de frente para as orquídeas e o jardim selvagem que rodeava a casa. e por isso me atravessa o pensamento de que as casas para as quais queremos voltar se desfazem mais cedo do que deveriam.   

se eu tenho saudade de d. Marlene, imagine Kotz, suas irmãs, as netas --- toda aquela família que gravitava em volta de d. Marlene --- que nos alimentava com tão poucas palavras, com sorriso tão terno. quase sinto o cheiro da comida. e vejo o fogão a lenha, a grande mesa de madeira sempre farta; e nós ali em volta. Kotz, com suas mil palavras; Lobão com a sua beleza compenetrada, seu Emílio, um gigante menino. pato, porco, galinha. gato. haveria cachorro? e ainda nós, mesmo depois de Kotz ter partido.

ali era um fazer-nada. ficar parada no refazer dos dias. ali, mesmo se eu e o Tatupai estivéssemos muito distantes, se suspendia essa distância. não era nada. e era a delicadeza por inteiro. Poeminha, por ali, tão pequeno. um braço era sempre um abraço. 
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agora que moro nesta casa com o rio e o mato em volta, que não é minha, compreendo bem mais a casa de d. Marlene. e se nunca desejei de fato ter uma casa assinada em cartório, agora me vem esta vontade quando passo distraída diante de uma destas janelas e vejo o rio lá fora. vejo as árvores. e ouço os passarinhos. se me for dado o tempo de envelhecer, bem que o tempo poderia me trazer a delicadeza de seu Emílio e d. Marlene. eu compraria, enfim, uma casa. e ela teria um jardim selvagem com muitas flores. para descansar meus pés inchados de espondiloartrose, eu os levantaria para cima enquanto tentaria ler um livro com os olhos também cansados. eu sei que cena bucólica é brega. e sempre há de se colocar os mosquitos. e a alergia aos mosquitos. mas que se dane::: rememorar o porvir com uma casa no meio de um jardim selvagem é bonito. é de fechar os olhos com a paz bem dentro deles. 
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domingo, 15 de julho de 2018

Sumbe, Angola - parte 1











eu queria ter feito como Danilo, que escreveu um diário. havia decidido fazer, mas os dias se foram sem que o diário existisse. de todo modo, os dias existiram. e são passado e o porvir. volto logo mais. dos dias ficaram um tanto de surpresas, constatações, encantamentos, tantos e tantos pensamentos. alegrias e alegrias.

eu lembrei de uma música que agora não quero nomear, porque me parece um chavão sobre o qual é preciso sempre trapacear. é porque sou cearense. e cearense insiste que já viu de tudo, mesmo quando não viu. esse "ver de tudo" deixa o olho calejado e menos afeito ao espanto, o que não deixa de ser uma maneira de não se deixar afetar. deveríamos fugir da aridez do olho como o diabo talvez fuja da cruz. é o que tento, pois. a cada vez que meu olho arrisca secar eu me arrisco nas alegrias grandes.

espanto de verdade, que mais pareceu tristeza, foi apenas um dia. uma manhã. andar na praia ao lado de Mari é quase como estar de mãos dadas de tão bonito que é. é uma espécie de oração ao tempo que nem tudo pode levar. mas a praia pode ser moradia. extensas áreas de construções cobertas de lonas, como que em cima umas das outras, me deixaram com um oco de tristeza que demorou a passar. foi o sol. ou calha de ter sido mesmo o nunca-visto. dali vem o peixe que depois nos é servido. teimei que devia voltar e olhar com menos espanto === buscar ali o normal de todo dia: gente das mais variadas. e me misturar com aquele alarido todo::: os peixes grandes na bacia, as mulheres de cócoras, os homens a beberem, conversarem e repararem em nós também com espanto. as mulheres, não. as mulheres não têm tempo para olhar forasteiras que chegam. estão ocupadas demais com os afazeres que compõem suas vidas.

as mulheres carregam seus filhos nas costas e as vendas na cabeça. parece ser um equilíbrio precário, é o que pensam meus olhos desacostumados. até que um dia Mari cai no mesmo lugar em que uma dessas mulheres havia descido com um enorme tambor na cabeça: altiva, uma timidez sorridente quando nos viu, braços soltos a seguir viagem. quis de todo jeito registrar uma mulher tal como ela me parece ser: com aquele olhar fixo em quem a observa. será que doem as costas das mulheres que colocam seus filhos nas costas? dói a cabeça com aquele peso todo? será que doem as costas das mulheres que varrem as ruas com as vassouras sem cabo? a mesma vassoura que trouxe para casa com a vontade de transformá-la em objeto de memória? e onde vivem as mulheres que passam o dia a vender com seus filhos nas costas? quem cuida da casa quando elas estão nas ruas? não sei por que fazemos tantas perguntas. não basta apenas ver. a cabeça não para de fazer perguntas.

parece que os angolanos não param nunca de caminhar. percorrem longas distâncias dia e noite, dia e noite. sobe uma poeira fina que deixa tudo avermelhado; e eu teimo em caminhar na beirada da noite, como faço aqui, agora, em Ihéus. tenho medo das mãos dormentes. as ruas ficam vazias - como aqui - apenas aos domingos. nesse dia, as crianças estão na praia. nessa época, somente elas estão na praia. quando eu pergunto a razão, me dizem que ainda está frio. nessa época a água está sempre fria, mas as crianças não se importam. estão na praia, estão na cachoeira, estão no rio, estão nas ruas e querem porque querem que eu as fotografe. não adianta dizer que não quero "pose" ===  e que gosto de imagens que surgem por acaso, que pegam a pessoa distraída. as crianças do Sumbe não escutam. querem fotos e querem ver as fotos. eu tanto me espanto como obedeço quase sem perceber. e fotografo aqueles olhos fixos em mim --- um mais lindo que o outro - abertos abertos abertos, até que de repente um está fechado. e outro está ainda mais aberto a me inquirir. como poderia velar por estas crianças que carregam suas cadeiras da escola na cabeça? por que pensamentos assim enraízam e me deixam no deserto?

uma escola sem merenda me parece tão fora de propósito. como eu teria sobrevivido em uma escola sem merenda, lá pelos seis, sete anos de idade? eu sentiria ainda mais fome do que sinto hoje? a natureza não existe. e a cultura é uma velha senhora. ouço com firmeza que a merenda talvez até atrapalhe a concentração, a disciplina --- essas palavras tão ligadas ao ensino. e antes que eu proteste, a merenda está sendo posta em outra escola. as crianças estão em volta das mesas e eu quase peço para me sentar ali no meio delas para matar a minha fome de criança. mas quando saio dali o protesto cresce dentro de mim, se avoluma, e para que eu possa suportá-lo, leio ou durmo === dormito muito, naquele hotel em que um ou outro rato vem nos visitar enquanto eu, Mari e Danilo comungamos nossas vidas que - insisto - devem ser povoadas de nódoas, senão o que seriam? eles protestam e são felizes. eu também. mas tenho um oco e não sei como mandá-lo embora. nem posso. acabo por me render e admitir que encrenco porque tenho uma alma do avesso. e me apaixono novamente pela Mari. ou lembro e lembro dessa paixão por ela que nunca passa. e Danilo, tão bonito. fico perscrutando suas inteirezas, enquanto ele diz para mim e para Mari que tem um bocado de receio delas. um trio tão bonito surgiu naquelas conversas todas === parece que a vida toda é isto mesmo::: é este pensamento sobre o mundo, a universidade, as pessoas, o casamento, o estar com os outros, o estar aberta aos outros. como é bom sentir que não há nenhuma rivalidade, nenhum temor:: há dúvidas e alegrias permeadas por uma confiança grande no que agora é feito. 

e há um olhar pousado sobre a cidade de poeira fina. um olhar amoroso, sobretudo. e com o por do sol mais lindo que já vi na  vida. por isso, carrego Mari para ver o por do sol, como fazia antes em nossas tantas viagens. ela insiste que não dá para fazer as duas coisas. e eu ignoro; não por displicência, mas porque quero crer que dá. e ali, naquele por do sol, está o menino. faz o quê, o menino? o menino estuda. a onda bate. o casal de namorados se molha. e se beija. o amor é quase palpável naquele fim de tarde. por que ninguém nos diz para arregalar os olhos? para não deixar nada escapar? e pegar tudo que importa e fazer durar. como aquela missa. na última vez que havia estado em uma missa havia sido para rememorar a vida e a morte de meu irmão. naquele dia, meu pai, eu e minhas irmãs sofríamos como o diabo. uma solidão tão sem medida que não passa nunca. na missa de Angola, havia também solidão, mas, sim, alegria, uma espécie de contentamento, por estar ali e reconhecer aqueles passos nos corpos que celebravam.  
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escrevo este texto por conta de e para Aline --- que me diz ser uma pena que eu tenha perdido a alegria de escrever aqui.
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e escrevo por conta daqueles dias === os mais amorosos de muito tempo.