terça-feira, 15 de abril de 2008

Este lado do paraíso, de F. Scott Fitzgerald

Nem Proust, nem Artaud... o livro que comecei a ler já no momento em que a tese era imprimida foi Este lado do paraíso, de F. Scott Fitzgerald. Eu sempre tive curiosidade pela literatura norte-americana, mas nunca a li realmente. Eu leio – e gosto muito de – Faulkner, mas em geral tenho uma certa resistência que acompanha a curiosidade. Explico melhor: eu deveria ter lido a literatura norte-americana antes; agora, quando meu gosto vai cada vez mais para escritores como Artaud, Kafka, Beckett, Bernhard, fica difícil me prender. Faulkner não me parece com nada e tem a “dificuldade” exata que me prende a um livro. Acho que ele é um hiato na linguagem direta, quase jornalística da literatura norte-americana. Talvez por essas razões, não caí de amores pelo livro de Fitzgerald, embora eu reconheça uma maestria enorme na construção dos diálogos e na descrição dos acontecimentos, exatamente devido à linguagem exata – uma linguagem que diz. É a forma direta que me exaspera um pouco. Tenho a nítida sensação de estar vendo um filme de Hollywood, daqueles que nos prende pelo enredo, pela perfeição técnica, mas que não é nada mais do que isto. O grande Gatsby, que inspirou o filme de Jack Clayton com Robert Redford, é do Fitzgerald, e quem o assistiu talvez entenda melhor o que quero dizer.

Este lado narra a vida do jovem estudante Amory Blaine, em seus anos de formação e, segundo dizem, é largamente “autobiográfico”. A partir disso, temos um retrato irônico e desencantado do modo de vida dos jovens no início dos anos 20 e do sistema universitario norte-americano. Amory é brilhante, tem autoconfiança na mesma medida da arrogância e da prepotência – e é na construção desta figura que reside todos os méritos do livro. A atmosfera superficial e as personalidades de certo modo degeneradas dos seus colegas servem tão-somente de contraponto para a construção da imagem do jovem Amory: ela mesma é também degenerada, mas dotada de fascínio, de resistência e superioridade suficientes para dar a entender que ele sobreviverá a si mesmo, ao ambiente que o constitui, apesar da sua repulsa a este, e aos fatos. É a narrativa de uma passagem iniciática, largamente construída para ser mítica, na medida em que é possível uma construção mítica calcada na ironia, no desencanto, no tom superficial que cobre tudo.
É isto: posso falar sobre o livro, dizer que é muito bom, afirmar que Fitzgerald é um dos maiores escritores da sua geração sobretudo porque soube representá-la como ninguém, mas é apenas isto que posso fazer. Fica me faltando a emoção, o entusiasmo de leitora.
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3 Palavrinhas:

Halem Souza disse...

Pois é, Milena, também me falta entusiasmo para a Literatura americana. Percebo bem o que você chamou de "linguagem exata, linguagem que diz", típica de Hemingway, mas também de Capote, Mailer e Gore Vidal e, mais recentemente, Tom Wolfe (dos quais li alguma coisinha). De Fitzgerald, só li o mais conhecido, O Grande Gatsby. Mas fica a dica anotada. Vou correr atrás.
Um abraço.

Olga disse...

Eu gosto muito de Fitzgerald. Mesmo. Sou enlouquecida por seus contos, mas não é todo mundo que gosta de contos, né?
Acho que vale muito a pena ler os "Contos da Era do Jazz". Aliás, acho que os grandes escritores americanos eram grandes contistas. Todos. Desde Bret Hart. O Faulkner tem uma jóia chamada "Uma rosa para Emily". Hemmingway, de quem particularmente sou muito pouco fã, mas era uma paixão de meu pai, tem contos fantásticos. Fitzgerald, para mim, é melhor que tudo. Há uma coletânea de contos deles, publicada no Brasil, reunindo os que escrevia para revistas, simplesmente maravilhosos.
Agora, esses caras eram realmente uns grandes mancheteiros. Muito bons de título.
E muito jornalísticos mesmo. Vide "A Sangue Frio", do Capote, que é perfeito.

Anônimo disse...

scott é o maior de todos os escritores. por favor leiam the crack-up ou a fenda aberta. ASSOMBROSO