quarta-feira, 2 de julho de 2008

Do outro lado do espelho


Dias de professora. A disciplina que me cabe neste momento é Literatura Portuguesa I. E claro que eu preferia estar lendo outros livros, mas tenho me divertido. Tem os autos de Gil Vicente, tem Camões, e a possibilidade de fazer a ponte com Drummond, com Haroldo de Campos etc, até Dom Quixote já rolou. É uma alegria ler estes livros e imaginar modos de fazer com que os alunos leiam. Meu objetivo é sempre pensar no presente. E os alunos já ouviram desde "cantigas de amigo" interpretadas pelo grupo Quadro Cervantes até Maria Bethânia interpretando Olhos nos olhos, do Chico. Alguém pode dizer que essas associações são meio óbvias, mas, em um país em que as pessoas chegam à Universidade com muito pouco conhecimento da cultura letrada, a obviedade nem sempre é tão óbvia! Até para percebermos a obviedade, é preciso conhecer! Digo que Olhos nos olhos é uma cantiga de amigo “contemporânea”, e que isso faz toda a diferença, porque contém também outras características que a aproximam, por exemplo, das cantigas satíricas. O gênero puro não existe mais. Ou nunca existiu.

Minha única ambição é não mostrar a literatura como uma coisa morta, encalacrada na história. Quero crer que levo o óbvio e tento acrescentar algumas “dificuldades” ou simplesmente novidades. É por isso que tem lugar até para Fernanda Takai, vocalista do Pato Fu, nas minhas aulas. E pergunto: “Conhecem a Fernanda?” E muitos não a conhecem. Ambição na medida.

Parto do princípio de que há muito a aprender. Aprender a pesquisar, a ler, ou simplesmente a escrever. Os alunos estão escrevendo na sala para evitar o “corta-cola” da internet. Isso me dá a oportunidade de conhecer as dificuldades de cada um – e comentá-las. E também de exercitar o que sempre achei que era um problema da Universidade, que acaba sendo um lugar em que se escreve muito pouco durante as aulas. Falei escrever, e não copiar. Como estão no terceiro período, os alunos ainda estão meio atônitos com a obrigatoriedade do comentário. Como fazê-lo? Como ler um conto, um poema, e intermediar com a teoria lida na aula anterior? Eu respondo tudo, e dou exemplos, e repito. Hoje me flagrei dizendo que os termos interessam muito pouco. Personagens planos, redondos, são meros conceitos – e antiquados! - e o que importa é internalizá-los até que se dissolvam, sobrando apenas a idéia que permitirá reconhecer o modo como a personagem é construída. Não sei o que a professora de teoria diria se tivesse me ouvido, mas sei que acredito cada vez menos no ensino de uma teoria calcado no aprendizado de termos, fórmulas, exemplos... Acredito muito mais na junção de sensibilidade com conhecimento, indo ao passado e voltando ao presente de um modo quase brincalhão, teatral. Tomara que seja este o caminho.
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8 Palavrinhas:

Halem Souza disse...

Milena, que bom tê-la de volta, ativa na blogosfera. Já está convenientemente instalada? Espero que sim.

Não li Sandro Márai, mas vou procurar.

Quanto à sua postagem, acho que existe uma expectativa em relação aos alunos dos cursos de Letras, por parte dos professores (mas acredito que não era a sua), que acaba sendo frustada. Há o pressuposto de que esses estudantes, por terem escolhido tal curso, devem ter a escrita apurada e a leitura atenta. E isso está longe de ser realidade. Antes de abandonar a graduação em Letras, não pude reclamar: tive colegas brilhantes, que me ajudaram a ser menos obtuso. Deixei de lado o curso porque compreendi ainda no 5º período que, como professor de Língua Portuguesa ou Literatura, muito pouco poderia fazer para auxiliar as pessoas a serem melhores leitoras e redatoras. O buraco é muito mais embaixo: tem a ver com a escolarização básica e com a indigência (cultural e financeira) em que vive boa parte do país. Mas quem é que está interessado em educação básica? Certamente, não o Congresso, que acaba de inventar mais um projeto irrelevante para o ensino superior...

Falando de outra coisa, visto a camisa dos que defendem a teorização e o uso de conceitos - antiquados ou não. Somente dessa forma, segundo penso, é que se elabora conhecimento acadêmico. É uma chatice, tá certo, mas pagar imposto também é, e ninguém conseguiu até hoje imaginar um outro jeito de financiar o Estado que não esse.

Mas tenho certeza que com sua criatividade e inteligência, suas aulas serão ótimas e os alunos vão adorar.

Nossa, escrevi adoidado! Chega! Um abraço.

Fictícia disse...

Ô amiga ! Vc é uma professora muito dez !!! olhos nos olhos, Pato Fu ???? Eita !!!!!!

Sérgio Rivero disse...

Milena dos meus corações vagabundos....Elizabeth Bishop é o Bicho pra tradizir...Difícel de Difícel...Como eu ainda tou moendo no asp'ro, peixe vivo no moquém...só deu o comecinho do poema...risos. Mas aprometo que um dia sai todo...tá lá na minha gaveta...

A vida de profe é boa... Não dá pra ficar no range rede, mas é boa que só... A gente se diverte.

Eu fui em porto mas foi, pra variar, corrido...Tou mais ocupado e atrasado que o coelho da Alice...

Li o novo Hatoum...Finalmente aquele comedor de jaraqui voltou à velha forma!! Adorei o "short novel"...maravilha de sempre de novo.

Quanto aos restos...correndo correndo. Vê se acha algum congresso por aqui pela terra das mangueiras...A gente te recebe em casa...e aí vai ter literatura-cerveja-comidinhas-literatura-comidinhas-literatura-cerveja-ceveja...risos.

Neste julho vamos lá pra terra do shakespeare por duas semanas...vou ver se vou visitar a mona lisa também...ehehehe, vamos ver.

I love Paris in the summer... Um dia aprendo dizer estas coisas na língua do camus (ahahah...Ele era argelino...risos)

Beijos Ensolarados

Maffs disse...

Milena, Milena!
Eu me pego lendo o seu blog e pensando: quanto tempo não leio esta moça? E não é verdade. Eu sempre leio esta moça com imenso prazer. O que não tenho feito por absoluta preguiça é comentar, mas hoje me deu aquela vontade de falar contigo e de saber de ti. Então, minha amiga, vim aqui para te ler e me deparei com este post. Mi, eu só vou dizer isso: queria ter como professora, uma professora como você. Acho que eles, os seus alunos, ganharam um presente! E ainda vem para Braga?

Beijinhos, ainda de Portugal.

Denise

Tata disse...

puxa... se eu tivesse tido uma professora como você acho que não teria me desiludido tanto com a faculdade de Letras...

M. Gusmão disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
M. Gusmão disse...

Oi, minha linda!!!!
Tenho adorado acompanhar sua nova fase pelo blog... Mas, ainda quero ver fotos, quero mais detalhes, quero muito saber de você... Espero que no meio de tanta correria você encontre tempo pra me escrever... Saudade de tu, cara de tatu!!!!!
Cheiro grande, lindona!!!!

Johnny disse...

Bem Milena, não posso anular um comentário agudo que me surgiu quando da leitura de sua escrita.
stou , atualmente, pesquisando a educação, mais detalhadamente, a que temos depois de Auschwitz, e para esmiuçar, dialogo com o resvala sua parte emancipatória.
Para balizar minha teoria, tenho usado, entre comentadores contemporâneos, até Freud, Kant, MArx - mas a ênfase recaí na figura de Adorno.
O que eu quero comentar, feita a digressão, necessária (?), , reside numa parte, muito bem pontuada em seu texto, qual seja:

''Não sei o que a professora de teoria diria se tivesse me ouvido, mas sei que acredito cada vez menos no ensino de uma teoria calcado no aprendizado de termos, fórmulas, exemplos... Acredito muito mais na junção de sensibilidade com conhecimento, indo ao passado e voltando ao presente de um modo quase brincalhão, teatral. Tomara que seja este o caminho.''


É justamente aí que reside o que quero tratar, e devo.
Sua pontuação, como dissera, e foco, fora genial, porque temos observado, e me incluo como professor, a fórmula tomando o lugar da teoria, com o intuito de suavizar as coisas, pedagogicamente nociva, e filosoficamente malograda, esta razão, qual seja, a instrumental, forma-se por meio da fórmula, e nos propicia o que eu chamo de ração humana - uma mistura indevida e planos mal entendidos, de características mal formuladas - quer dizer, colamos na fórmula e nela achamos que disolvemos qualquer problema - pleno engano.
Hoje, a mesma razão instrumentalizada, é herdeira de uma razão que superara o mito, e não se dera conta que sua ação fora paradoxal e sangrenta.
O que quero dizer com paradoxal e sangrenta?
paradoxal , pois, o mito já é uma forma de esclarecimento por meio da mágica.
e sangrenta, para fazer uso da figura do filósofo Nietzsche, que dissera ser esta passagem uma afronta para a humanidade.
e o sangue (para ser poético), para onde escorrera?
E o paradoxo, onde ficara?
Eis a questão, pois, esta mentalidade mecanizada, mais tarde, no intento de organizar aquilo que não conseguira sublimar, o sangue e o paradoxo, criara o seu paranóicos, sua razõ que explica tudo, e mais, o estranho , para lembrara Freud, sendo este o grande causador do que conhecemos e ainda pagamos: nazismo e fascismo.
E nossa história atual, quer dizer, nís, vc e eu, que não fomos os divulgadores nem disseminadores do nazismo ou facismo ainda pagamos por ele, sem notar, entretanto, que estamos criando um outro, sintetizado na mentalidade de ticket, instrumental, o da fórmula.
Termino com um chiste:
compro, logo existo!
e que assim nunca seja!
abre-te Sésamo, porque eu realmente quero sair.
abraços carinhos
e beijo na íris reluzente de todos vcs, pessoas maravilhosas
Johnny Dias