segunda-feira, 23 de março de 2009

Sobre Cony, sobre...

Influenciada pelo meu amigo Halem, do blog Sinistras bibliotecas, nestes dias eu li Carlos Heitor Cony e Bernardo Carvalho. Do Bernardo falo depois. Na verdade, eu sinto uma baitainveja do meu amigo Halem. Creio que já disse isso a ele. Mas com o cuidado de dizer-lhe que minha inveja é sempre branda, daquela que não faz mal a quem é dirigida. Pois tenho inveja porque ele é um puta leitor de literatura brasileira. E eu, vá lá, sou uma leitora sofrível da ditacuja. Para ser mais sincera ainda, quanto mais leio, menos gosto. Aiai, ok, eu já citei aqui meus escritores brasileiros preferidos - e são muitos, apesar da minha rabugice. No ano passado, tive o prazer de acrescentar mais um, que foi nadamaisnadamenos do que Machado de Assis, que nunca tinha lido direito. Por conta de uma disciplina na Universidade, li sistematizado vários dos seus livros. E foi um deleite. Era um período conturbado, infeliz, e posso dizer que Machado foi um achado, para usar esta rima semvergonhazinhadetãoóbvia. Porque é aí que eu quero chegar, na minha desconfiança de que a literatura brasileira sofre do mal da obviedade, sem quase nunca chegar àquilo que realmente esperamos de uma grande literatura.
.
.
No fim do doutorado, atrás de um rumo que quase um ano depois ainda não encontrei, decidi-me leveefaceira especializar-me em literatura brasileira contemporânea - porque se tem algo que gosto menos do que a literatura brasileira é a tal da nossa literatura de formação. Salvo uma e outra exceção, a meu ver, literatura no Brasil só a partir do modernismo, e ainda fazendo uma limpeza bem grande. Meu plano segue, cochomoledevagar, mas segue. Tem até seus devidos afunilamentos, e a relação entre biografia e ficção é uma delas. Daí, claro, com o empurraozinho do Halem, eu ter chegado a Quase Memória, do Carlos Heitor Cony, que promete ser um misto de ficção e memórias relacionadas ao pai do autor. Digo isto para não pôr a culpa por inteiro no Halem - porque depois de todos estes volteios, é lógico que não me resta dizer outra coisa senão declarar o que agora é óbvio: que eu não gostei do livro. Direito meu, penso aqui entre meus vômitos. Dá vontade de agir como uma menina birrenta e dizer: "Não gostei e pronto. E ninguém me obriga!" Mas, vejam, o meu ganhapão vem justamente do fato de eu ser professora da tal ditacuja! Vivo repetindo a mim mesma que não adianta nada eu ser uma ávida leitora de outras literaturas se não souber o beabá da que eu sou paga para saber! Mas eu me pergunto também: a crítica no Brasil precisa ser tão tacanha? Precisa eleger ao panteão qualquer borrabotas que saiba contar uma boa história - certinha, esquemática, previsível? Tudo bem, não estou chamando Cony de um borrabotas. Estou quase. Mas quase ainda não é chamá-lo. Assim como o Quase memória dele não sai de um quase, eu fico por aqui. Ele é um ótimo escritor. É jornalista de formação, todos os pingos nos is, o que neste país de poucas linhas já é muito. Mas não é o bastante. Quase memória ganhou o prêmio Jabuti de melhor romance no ano do seu lançamento. E o Jabuti, vocês sabem, é o prêmio mais importante destas terras, que faz, entre outras vantagens além da financeira, com que o ganhador obtenha um razoavel destaque nas mídias tupiniquins, fazendo com que um e outro se interesse pelo livro etaletal. Mas Quase memória não é um bom romance nem aqui nem na china nem. No máximo é, como disse Halem, um bom anedotário. E deveria ser, dentro da obra deste autor, aquilo que os franceses chamam de "obra menor". Custavam ter dito isto? Deve custar, afinal "tantos anos que Cony não se aventurava pelo romance", agora vem com este "livro comovente", "ponto alto na produção literária brasileira". Poupem-me! É o que dá dar atenção à crítica de livros! (esclareça-se: não foi o Halem quem disse isto, mas está na contracapa do livro para quem quiser ver). Injuriada, eu fiz questão de ir até ao fim, porque, debilitada fisicamente, eu precisava mesmo ler estas histórias engraçadinhas, assim como qualquer cidadão médio deve precisar de uma novela como Caminho das Indias. Porém, se por acaso tiver um grau de exigência mais apurado, certamente não encontrará muito neste livro nem em Caminho das Ìndias - anedotas. No caso do Cony, bemfeitinho, bemescritinho, engraçadinho, mas só. E ponto.
.
.
.

4 Palavrinhas:

Olga disse...

Quase Memória é um exercício de engenharia para prender o leitor.
Prêmios literários concedidos pelo mercado editorial têm sempre um viés comercial,claro. Pega o "Tigre Branco", que ganhou o Booker Prize. É pra ler num jato, igual ao Cony. Mas não é vão. É entretenimento bem elaborado, bem estruturado.

Halem Souza disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Halem Souza disse...

Milena, eu voltei e reli o que escrevi sobre este livro. E confimei: eu também não gostei dele (receio, contudo, que isso não tenha ficado explícito na postagem). E acho que esta é a terceira vez - após muitas (e adoráveis) divergências - que concordamos em alguma coisa (a outras, se não me engano, têm a ver com as obras de Lúcio Cardoso e Graciliano Ramos)...hehehe...

Quanto ao "dilema" que você menciona ("ser professora de Literatura Brasileira sem ser muito apreciadora dela"), penso que isso é muito comum nas faculdades de Letras, aqui e acolá. Quando aluno da FALE/UFMG - exceção ao Murilo Marcondes de Moura - notei que os demais professores detestavam escritores brasileiros (não declaravam, mas era muito perceptível). Não vejo isso como problema. Acho que o preparo "corrige" essas situações paradoxais (e você sabe muito).Eu, por exemplo, detesto crianças. E trabalho com elas há 12 anos (suponho que não dou muita "cagada" porque até hoje não recebi reclamações formais).

Lamento tê-la "induzido ao erro", ao tratar do Quase memória. E cá pra nós: eu sou um limitadíssimo leitor de qualquer Literatura.

Um abraço.

Aline Belle disse...

Milena,
Não sei se já comentei, mas estou no último semestre de Letras (licenciatura ainda). E achei engraçado o comentário do Halem, apoiado no seu texto, qdo diz q poucos gostam de Lit. Bras. Na minha turma, temos fascínio por tal disciplina. Talvez, mude os professores, mude os gosto. Não sei. Enfim. Há muita propaganda em torno de alguns escritores justa/te pq são 'vendáveis' pra esse público de leitores 'médios' tão vasto em nosso país. E acho q aí voltamos a questão do professor, né? Claro que há uma boa parcela de interesse/gostos pessoais/etc do aluno/leitor, mas quem o inicia? Quem pode fazer esse papel de despertar o senso crítico? Contudo, acho válido ler tudo e todos (ainda mais no estágio em q vc se encontra), precisamos conhecer pra dizer “Não gostei e pronto!” ou “gostei”.
.
.
Beijão, moça. E parabéns pelo bebê!