domingo, 8 de fevereiro de 2009

leitura e escrita

Foto: Untitled 129, de Cindy Sherman, 1983.

não importa quantas vezes eu o leia. ou releia. a cada vez é um espanto. choro, às vezes convulsivamente, quando o leio. não porque ele me faça chorar, mas porque sofro com tanto sofrimento contido, com tanta dor represada. choro pelo homem e pelo escritor - que deve ter sofrido para realizar a arquitetura das suas palavras. pois a cada vez desejou o silêncio impossível, o dizer nunca mais. graciliano ramos é assim. uma ferida aberta e inclassificável na nossa literatura. o mais sofrido. o mais inteiro. e o mais em pedaços. não existe nada mais dolorido, sinceramente doído, do que os mil não-ditos que antecedem o suicídio de Madalena em S. Bernardo.
eu vivo os dias. mas não quero falar deles por enquanto. vivencio-os com uma delicadeza já suspeitada. e também com muito temor. escrevo. não aqui, no blog. que é sempre uma brincadeira que vem da infância. mas escrevo um artigo e cada palavra é também doída, mas sem a transcendência de graciliano. é trabalho chifrim para pôr no currículo lattes. desimportância obrigatória. fujo o tempo inteiro, mas me encho de irritação e ansiedade quando tenho que sair da frente do computador. hoje encontrei a resposta do perrengue. está lá escrito na página 29 de um livro sobre graciliano, o que significa que foi adquirido há cinco anos. a frase: "Quando eu tocar Graciliano com minha escrita, terei feito algo importante". pois é o que agora eu tento aos 34 anos, remodelando um pequeno texto antigo. mas me dou conta de que não sou capaz de escrever algo importante sobre graciliano. ninguém ainda foi. nem antonio candido, o mestre, que diz coisas muito certinhas, bem feitinhas, no livro ficção e confissão, mas não alcança a dor de graciliano. o tempo todo sou atravessada por outros textos. e descubro que odeio a escrita de artigo. parece-me letra morta sem nenhuma paixão. análise análise análise. a escrita teórica no Brasil é de uma carolice sem fim. não há um único escritor de peso que "viaje na maionese" para servir de inspiração. cientistas socialistas estruturalistas imitadores diluidores. eu não fico atrás. por isso, fico com vontade de escrever à la alberto lins caldas, que radicaliza até me dá medo. eu concordo até a medula, mas temo o plágio. então, continuo minha escrita de neo cientista que escreve em um blog que não pode ser colocado no currículo. quem escreve em blog não é escritor nem crítico. não é nada. é só um serzinho viscoso e narcisista que escreve para o umbigo e para crer que faz algo na vida que merece ser registrado. mas os dias. os dias chovem. lá fora. aqui dentro, um sol enorme. eu olho pelo vidro da varanda. é meu xodó. como tudo que é bonito, me enternece. é uma bonita imagem. nada a ver com a imagem da cidade lá fora. eu vejo daqui apenas a rede vermelha, o cinzeiro dele eternamente confinado ao ar livre da varanda e um pedaço do céu. não é só do céu que eu gosto. gosto do conjunto. gosto de pensar que moro à beira da estrada, embora daqui eu não possa vê-la. só posso ouvir o barulho dos carros que não param de ir e vir. também gosto de pensar que qualquer dia eu irei. e não irei sozinha.
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4 Palavrinhas:

Halem Souza disse...

Eu que entendi errado ou essa postagem foi meio "raivosa"? "Serzinho viscoso e narcisista"... gostei dessa qualificação.

Quanto a Graciliano Ramos, de vez em quando também choro lendo as coisas que o alagoano escreveu (principalmente Angústia). Durante as minhas férias, reli tudo o que eu tenho de G.Ramos. E como eu não tenho vergonha na cara mesmo, vou breve, breve emendar uma série de postagens sobre ele.

Você será convidada a "descer o pau" na minha escrita... hehehehe...

Um abraço.

adelaide amorim disse...

"quem escreve em blog não é escritor nem crítico. não é nada. é só um serzinho viscoso e narcisista que escreve para o umbigo e para crer que faz algo na vida que merece ser registrado." É uma verdade graciliana, Melina =O-!
Graciliano provavelmente faria um blog, se vivesse hoje.
Mas quem escreve livros não é muito menos viscoso e narcisista, eu acho.
Escrever é uma coisa umbilical, e sempre que alguém escreve acredita que se está fazendo algo na vida que merece ser registrado.
Escrever, em suma, no papel impresso ou no monitor, é coisa de recalcado, seja lá em que sentido se entenda isso (que pode ser light ou até patológico).
Em tempo: também choro com GR, mana.
Beijo.

Johnny Dias disse...

Sabe Milena,
Às vezes penso que sou as préas, e por isso sonho transloco de uma Baleia.
Cada fresta em poeira, daquele sertão, tão grande quanto o do Guimarães Rosa, que o Graciliano Ramos bota no papel, na pupila da gente. Chego a ter sede, ao ver todo aquele sertão.
G.R? Guimarães Rosa? G.R? Graciliano Ramos?
Vpcê falou da Madalena. Eu não chorei quando ela morreu. Não! Eu sabia que ela faria isso. Sim, eu sabia. Como? Acho que eu me transfigurei. Eu era Madalena.
Ah, sim, você quer que eu fale daquela vida, da rede, que impingia barulho na madera da parede, daquela vida besta de eternamente fitar.Angústia!
G.r mostra uma regionalismo sem nome, sem paradeiro, orfão de brasileiros, que carece de ser conhecido.
Terra batida, terra que bate na gente. Irmão pequeno e grande - sem nome- sem paradeiro.
Tiro que bota Baleia sem perna, e ela que mimetiza a morte, jogando-se areia.
Baleia que é gente. Gente que é pior que Baleia.
O humano no bixo, o bixo que se travesti de humano.
A vontade do animal. a vontade do Homem. O esquecimento do animal. A memória do homem.
G.R é o sertão, ou não.

Abraços e muito obrigado por mais este texto seu. Belo!
Johnny

Anônimo disse...

Sim, provavelmente por isso e