segunda-feira, 19 de outubro de 2009

O fetiche dos livros

Fazia tempo que não lia páginas tão primorosas sobre o fetiche produzido pelos livros, como li agora em Bibliomania, de Flaubert, um pequeno grande conto inspirado em uma suposta notícia judicial. Sempre digo que possuir livros, constituir uma biblioteca, tem muito a ver com aquilo que Caetano Veloso chama de "amor tátil". É também um fetiche, uma assombração, uma obsessão, escravidão até.

E que conto! Flaubert faz uma pequena obra-prima aos 15 anos de idade. A história de Giácomo, o livreiro:

"Tinha trinta anos e já passava por velho e acabado; possuía alta estatura, mas curvado como a de um ancião; ... Raramente era visto nas ruas, a não ser nos dias em que eram vendidos em leilão lotes de livros raros e curiosos. Então, não era mais o mesmo homem indolente e ridículo, seus olhos se animavam, corria, caminhava, saltitava, mal podia moderar sua alegria...

À noite, os vizinhos podiam ver, através das vidraças do livreiro, uma luz que vacilava, depois progredia, afastava-se, crescia, e a seguir, uma vez ou outra, se apagava... Tais noites ardentes e febris, ele as passava com seus livros. Circulava entre suas estantes, percorria as galerias de sua biblioteca com êxtase e encantamento; depois detinha-se, com os cabelos em desordem, os olhos fixos e faiscantes, as mãos trêmulas ao tocar a madeira das prateleiras; que eram quentes e úmida.
Apanhava um livro, folheava suas páginas, manuseava seu papel, examinava suas douraduras, a capa, os tipos, a tinta, as dobras, e o arranjo dos desenhos para a palavra finis; depois, trocava-o de lugar, colocava-o numa prateleira mais alta, e permanecia horas inteiras a observar-lhe o título e a forma. ...

Oh! ele era feliz, esse homem, feliz em meio a toda essa ciência cujo alcance moral e valor literário mal penetrava; era feliz, sentado entre todos esses livros, passeando os olhos sobre as letras douradas, sobre as páginas gastas, sobre o pergaminho desbotado; amava a ciência como um cego ama o dia. Não! não era de modo algum a ciência o que ele amava, mas sua forma e expressão; amava um livro porque era um livro; amava seu cheiro, sua forma, seu título".

Algum leitor pode negar que seja assim? pode negar que não se viu, ao menos uma vez, no lugar deste livreiro?


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2 Palavrinhas:

Halem Souza disse...

De fato, não há como negar. Vou procurar este conto por aqui. Minha (ainda) minúscula biblioteca vai gostar deste incremento. Um abraço,

P.S. Estou enviando um e-mail solicitando um pequeno favor, OK?

Cristina disse...

Uouuuu... era euzinha ali... como sabiam que sou assim ?? rsrsrsrs... Só não era eu por falta de organização... mas amo os livros desse jeito inexplicável !!!