terça-feira, 18 de outubro de 2011

de pernas pro ar em tempos nublados

não canso de me espantar com a banalidade da vida. e com a força das escolhas que, parecendo escolhas, acabam por nos jogar num emaranhado de situações, muitas vezes, penosas. Tatupai brincou, neste fim de tarde de domingo, que eu estou em "reabilitação", reaprendendo a ter os fins de semana como meus. o que de fato acontece é que estou remodelando não as escolhas, mas o "emaranhado de situações" que me meti por causa das escolhas.

não teve um ponto x. ou uma fratura no nervo. foi o cansaço. a tensão. o quase desmaio. as decepções reiteradas. tudo isso trouxe para mim a vontade de saber parar, de não misturar a semana com os fins de semana, os dias com as madrugadas, numa luta eterna e vã contra o tempo. eu havia me prometido isso lá no hospital. e relembrei a promessa naquela recepção fria na volta ao trabalho, quando já estava até o pescoço de coisas a fazer. porém, como acontece com muitas promessas, esta foi violentamente quebrada.

a verdade é que eu sou compulsiva. ao mesmo tempo cigarra e formiga. mas nos últimos tempos muito mais formiga. no trabalho, me apeguei ao lado bom - e me cerquei de trabalho por conta disso. apaixonei-me por pessoas e fiz um investimento pessoal nos seus sonhos, nas suas necessidades, nas suas tensões. cheguei perto demais. e quando vi já era tarde, já estava machucada. talvez aí tenha sido uma nervura maior do que eu havia calculado. é que perdi o encanto, que se arranhou todo em uma situação depois da outra. talvez porque, no tempo do doutoramento, o que mais tenha aprendido com aquele que aprendi a amar, apesar da relação tensa de orientação, e com meu próprio sujeito de pesquisa (avec le Monsieur Marcos et le Monsieur Derrida), foram os sentidos da gratidão, que trago em mim com uma alegria profunda.

deixar de fazer o que devo fazer, não deixarei mesmo. eu tenho um sentido de responsabilidade com o trabalho que vem lá da educação materna. um sentimento de culpa quando as asas da borboleta se alongam demais. e mais do que isso: eu tenho uma ideia do que é dever de um professor universitário. mas a consciência que eu quero - e preciso ter - para poder criar bem meu Poeminha, cuidar bem do meu amor pelo Tatupai - é aquela que pode ser resumida na frase linda de uma amiga: "devo cuidar, antes de tudo, de quem vai me ligar no Natal".

na semana passada, enquanto eu solicitava em vão uma disciplina que, de longe, sou a mais capacitada para ministrá-la (e minhas pesquisas na universidade e tudo o que envolve este nome não me deixam pensar que essa melhor capacitação e dedicação sejam invenções da minha cabeça), e não houve uma só pessoa para argumentar a meu favor, naquele clima corporativista e passivo próprios da hipocrisia e da condescendência que reinam na universidade, como se nunca pudesse estar em jogo a escolha pelo mais bem qualificado, essa frase me veio de novo à cabeça, como já vinha há vários dias, e vi-me diante da necessidade de rever minhas escolhas para, assim, inibir as situações medonhas. e vi-me também diante da situação de inibir meu rancor, porque este, está claro, não quero que faça parte de mim.

estou agora neste compasso. adianto que não fará mal a nada nem a ninguém. a universidade, tão pouco acostumada com pessoas com meu compasso, não sofrerá um único arranhão. e talvez finalmente eu dê razão àqueles que sussurravam que todo entusiasmo não perdura (sim, é vero, as instituições são máquinas de moer sonhos e disposições). e, sobretudo, estou fazendo um bem danado a mim: nestes dias, já vi uma porção de filmes, estou no terceiro livro que queria ler há tempos, passei um fim de semana inteiro sem ligar o computador, saí para almoçar com o Tatupai, fiquei tonta um par de vezes, dormi sono pesado em tardes plenas e, alegria das alegrias, estou cuidando tanto, tanto do Poeminha. 

ainda tem uma porção de sapos em minha garganta (e talvez por isso escreva aqui sobre isto), mas estou com a sensação deliciosa de pertencimento àquilo que sou e ao que acredito. a alma avizinha-se da leveza.  e não conheço outra maneira mais feliz de reaprender a viver.
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imagem da net
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1 Palavrinhas:

Sérgio Rivero disse...

Milena, querida

Nossas escolhas, pelo que nos conheço, são movidas muito mais pela paixão que pela razão. É assim, não tem muito jeito não. E aí, muitas vezes, nos custa caro compreender que as motivações (nos departamentos universitários, por exemplo) pode ser MUITO mais mundanas...

Acho também que a universidade tem muitos tempos diferentes, e muitas esferas. Tem este tempo semestral das disciplinas (onde as conveniências e os interesses movem os arranjos), tem o tempo dos projetos (1,2, 4 anos se tiver sorte) onde a gente (e quem a gente conseguir atrair) realiza objetivos mais interessantes. E o tempo do projeto de vida, onde são anos e anos.

Não se afobe, não, que nada é pra já...
Eu sei a asfixia que é estar neste jogo diário de vaidades e interesses, se valer a pena alguma experiência (pensei agora que já são mais de 16 anos....) os tempos que contam são os mais longos...É aí que a gente faz diferença, na formação dos alunos e no que conseguimos inventar ou descobrir ou explicar....