quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Pedra do Ingá

Tenho em mim umas sementes de loucura. Guardadas, elas afloram por vezes saudosas. Porque há noites cheias de lirismo e beleza, eu quis conhecer a Pedra do Ingá. Noites de vinho música amigos. Eu fui na Pedra numa tarde chuvosa com meu Tatu, meu Poeminha, minha mana e meu sobrinho-afilhado, depois de atravessar os estados de Pernambuco e Paraíba. Não me importava que fosse apenas uma pedra com inscrições desconhecidas, tão antigas como não se sabe imaginar. E de fato é apenas uma pedra à frente das águas. Vi-a assim: uma pedra desnuda daquela loucura que guardo em mim as sementes. Mas durante todo o tempo que estive em volta da Pedra, com minha máquina em punho, as noites de vinho música e amigos estavam em mim, eu sentada naquela varanda que tem um rio que se chama preto, com aquela moça que tem amor e espanto pelos discos daquele moço que é seu. Eu vi o que vi através das sementes. E por isso fiz da tarde, noite. Só assim pude estar na Pedra com meus amigos loucos, e com eles acampei e dancei em volta do fogo e me banhei nas suas águas, tão terra, ar, água e fogo como o disco na vitrola que me levou até lá, o disco feito no ano em que nasci.  Pois é por isso que vale a vida, para sonhar e cuidar do sonho. E ter outro sonho no momento em que o sonho se faz real. 


Alguns dos arquivos:












Lula Côrtes e Zé Ramalho criaram lá o LP Paêibiru, hoje objeto raro e renegado pelo Zé. Meu amigo Weldon é um dos seres raros que tem e ama um destes vinis.

sábado, 20 de novembro de 2010

Tatumãe

 Pedro - saudade! - e Poeminha no primeiro dia em que demos água no canudo e ele prontamente aceitou 


Li agorinha no blog da Rê sobre amamentação, e resolvi também escrever. Já quis muitas vezes falar sobre este assunto. Pois foi um dos maiores espantos da minha história de mãe descobrir que não era "natural" apenas amamentar nos seis primeiros meses de vida do bebê. Ainda bem que sou teimosa. Entraram por um ouvido e saíram pelo outro os milhares de conselhos que recebi para dar chazinho, um pouquinho d'água, um mingauzinho, um leitinho na mamadeira ao Poeminha. Mas como assim, se desde que me entendo por gente ouço que o bebê não precisa mais do que do leite da mãe? 

Uma só vez caí na besteira de dar um chá, pois ele estava febril, mas ele vomitou. Era só o que eu precisava para ficar surda de vez aos apelos das pessoas a minha volta. E por que caí? Porque a pressão realmente é grande. Eu me sentia maltratando-o. Por outro lado, tinha certeza de que ele não sentia fome. E não posso dizer que amamentá-lo foi tranquilo desde o início. Aquelas propagandas lindas de aleitamento materno, mãe toda de branco, com bebê sorridente, não rolaram aqui em casa. Cheguei a odiar estas propagandas, chamando-as de mentirosas ou, no mínimo, escamoteadoras das dificuldades. Algo como aquelas sobre leitura com o slogan "ler é prazer". Nos dois primeiros dias eu não tive leite, mas devia ter algo lá que o satisfazia, sei lá. E durante mais de um mês meu peito direito ficou ferido. Ferido MESMO, com direito a casquinha que saía a cada nova mamada. Nada que eu colocava sarava o danado.  Um dia, quando percebi, a boca do Poeminha estava cheia de sangue - e uma bola de sangue no meu então enorme bico de peito. E haja pesquisar na net a melhor maneira, a posição mais adequada, até que meu obstetra, e não o pediatra, acertou a pomada.E doía? Doía pracaralho. Mas eu trincava os dentes e continuava. E por que continuava? porque não concebia fazer diferente. E porque, apesar das dores, logo me apaixonei pela delícia que era amamentar. A cumplicidade destes momentos não tem igual. Para mim, foi uma forma de continuar doando o corpo ao meu filho, de criar este vínculo que só vem de verdade se houver proximidade, entrega, emoção. 

E já havia decidido amamentar até quando ele quisesse, quando veio minha doença. Nos primeiros cinco dias no hospital, em Porto Velho, ainda burlamos a segurança e o Tatupai levava-o para amamentar. Mas já na viagem de volta para Fortaleza, eu percebi que quase não tinha mais leite. Ele já mamava por carinho, dengo, mas olhava tristonho para o peito e resmungava. Nem eu aguentava mais segurá-lo, nem havia mais leite. Ele tinha então  dez meses e já comia tudo. Ainda assim, foi um baque grande. Pior do que isso só ficar em seguida 12 dias sem vê-lo e mais de dois meses sem conseguir segurá-lo nos braços. 


E ainda tem a novela depois que ele completou seis meses: decidimos seguir uma dieta que eu também achava que toda mãe razoável seguia: sopinhas, comidinhas, muita fruta, sucos sem açucar e nenhum mingau, já que ele continuava amamentando. Desde o início, Poeminha foi bom de colher. Mesmo assim, foi bombardeio de todo lado. Diziam que sem mingau, ele passava fome, que suco sem açúcar era um horror, que fruta não alimentava, que tirávamos todo o "direito" da criança e por aí vai. Ainda hoje há cobranças, mas continuamos como dantes: sem dar ouvidos. 


Quero esclarecer que não sou xiita. Se dão um suco com açúcar, não faço escândalo; se alguém está tomando sorvete, e ele fica com cara de cachorrinho pidão, eu deixo dar um pouco, e eu mesma já dei. Afinal, ele é um glutão, faz um barulho danado, bate os pezinhos de alegria antevendo a delícia da comida, seja ela qual for, e não raro abre largos sorrisos enquanto come. Mas peloamordejesuscristinho o que passa na cabeça das pessoas? que a criança vai aprender a comer comida saudável se for empanturrada de doces, massas, biscoitos? Dia desses, tomávamos coca-cola e estenderam o copo para eu "colocar um pouquinho" para ele. Como disse o Tatupai: aí já é demais. Coca-cola para um bebê de um ano? é claro que sabemos que ele vai tomar coca-cola, empanturrar-se de guloseimas, mas que seja num tempo mais adequado. Enquanto eu puder adiar, não terei o menor pudor de fazê-lo. Já bati o martelo: antes de dois anos, ele não vai sentir gosto de refrigerante. E biscoitos chocolates balinhas massas, só quando passam por cima do meu cadáver. E tem sempre quem passe, infelizmente. 


Então, acho assim: se uma mãe não quiser amamentar seu filho ou quiser dar cinco mingaus por dia porque dá menos trabalho do que fazer sopas, é uma decisão dela. E não posso fazer nada. Mas lamento. E sou taxativa: a mãe erra quando não amamenta, a mãe erra quando não cuida da alimentação do filho. Eu nem digo para que se sinta culpada, pois sentir culpa não é mais do que uma forma de criar uma discursividade que escamoteia o erro. Mas se a ditacuja não se envergonha de posar de coitadinha dizendo que está sendo pressionada a ser "politicamente correta", eu também não me envergonharei de dizer, como diriam os antigos, de que isso é uma baita safadeza. É um discurso próprio do nosso tempo, em que as pessoas querem fazer tudo do modo mais fácil, sem que isso tenha consequência.


Enquanto eu tiver boca, vou repetir o mantra de que dar o peito a um bebê é um dos grandes prazeres da vida. E lamento muito por aquelas mães que não percebem isto. E acho, sim, que o aprendizado de ser uma boa mãe deveria passar pela experiência da amamentação. 
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quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Relatinho do Silic


O Silic foi mesmo bonito. Esta sensação: três dias com a alma nas mãos. E se eu tinha que falar na abertura, falei que os conferencistas tinham isto em comum: eram todos gente boa. E não menti. Cada vez mais tenho sentido vontade de estar perto de quem me interessa. Sorte poder estender isto para mais pessoas. Sorte ter cruzado com tanta gente sabida.

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Neste ano, as conferências aproximaram-se mais do tema que surgiu como surgiu o anterior (de uma vez): as aporias do contemporâneo. A sensação foi de uma grande cantoria, em que uma repercutia na outra. A primeira foi por conta de Valdir Barzotto, professor da USP. Ele sempre certeiro: quem ganha e quem perde quando afirmamos que o jovem de hoje não lê? quais máquinas de silenciamento estão aí em movimento? Por que ensinar e pesquisar literatura? A que será que se destina? A existirmos, foi a sua resposta.

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No outro dia bem cedo foi a vez de Binho, da Unir, entortar a cabeça dos bem pensantes, ao analisar a obra/persona da Clarah Averbuck.Ficção? Fricção? Ele sentiu o baque, mas titubeou pouco. É texto, mas quem escreve é uma moça pra lá de performática. O que a Universidade vai fazer com isto, é o desafio.

À tarde, houve uma conversa com professores do ensino médio. Esta eu perdi. Mas o burburinho foi grande. Valdir não é de brincadeira. Sem papas na língua, ele faz mais é incomodar. E quem não precisa se sentir instigado?

E Arnaldo Franco, professor de literatura da Unesp, de certo modo, continuou à noite com o aspecto "marginal" da empreitada, ao falar sobre o que há entre as experiências e os experimentalismos na literatura brasileira, focando na obra da Clarice, Roberto Drummond e Caio Fernando Abreu. 

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E as comunicações dos alunos? De dar lágrima no olho. Demais sentir o amadurecimento de cada um. Os volteios, as certezas, as belezuras. E a gente do Silic faz ficar com cara de mesa-redonda, todo mundo juntinho numa grande mesa.

Depois veio a Madalena, da Unemat. Mas eu, exausta de doença, não pude assistir. Sei que foi bom, com a moçada da plateia perguntando. Aliás, as pessoas estão tão perguntadeiras, o que demonstra que há aí um movimento de intimidade, de à-vontade, com o Silic.

Osvaldo Gomes iniciou a noite com sua teatralidade poética sempre a nos deixar com vontade de guerra. Aí veio o Marcos. O Siscar, agora na Unicamp. E cada vez mais poeta. Saiu um livro maravilhoso dele: Interior via satélite. Tenho-o aqui, agora, com um autógrafo tão tão tão bonito. Eu fiz possível para não me derreter demais. Binho diz queéfeio e eu, boba, acredito. Mas falei assim, da minha grande admiração por ele, não poderia deixar de falar. E ele falou sobre a questão da crise na poesia. Mas ninguém ache que ele o fez sem problematizar, sem colocar um grande ponto de interrogação nesta questão, destoando do que se ouve a toda hora por aí.

E exaustos de alegria, assistimos ao show do Binho no encerramento. Chuva veio, chuva foi... e sentimos com muita alegria que fizemos a coisa certa, do jeito certo, na medida certa. 
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Então acabou em festa até às 3h da manhã aqui em casa. 
Próximo ano tem mais.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

fase anfíbia

minha doença está em uma fase anfíbia. movimento-me bem melhor. por outro lado, não consigo fazer muita coisa. sinto uma fadiga "ancestral". e tenho a impressão doída de que nunca mais meus pés e mãos deixarão de estar dormentes. o equilíbrio pé como o andar do Poeminha. tem sua delícia: aprendemos a andar juntos.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

2º SILIC

No SILIC, é tudo tão bonito...



está tudo aqui: www.silic.unir.br
10, 11 e 12 de novembro deste ano.
Vai ser bom demais!
E vai me permitir voltar para casa.
Nem que seja por pouco tempo!

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domingo, 24 de outubro de 2010

Vou dilmar


* Peguei a expressão e o cartaz da Olga, sempre sabida em suas análises do mundo

As razões são muitas. Dilma, nem de longe, me emociona como Lula, mas é bobagem pensar que ela não tem cacife para ser presidenta. Ela será uma "mulher fêmea" cheia de vontades e ousadias. E é assim que as coisas boas devem ser feitas. Se ela foi a escolhida, resta-me assinar embaixo. 

E por que? Porque as mudanças feitas pelo governo Lula são por demais vigorosas para que fiquem para trás, como um hiato. Eu sei que muita gente é cética em relação a essas mudanças. Entretanto acompanhei muito de perto as realizações do governo ao menos em uma área, que foi a do ensino superior, e digo sem temor: nada se compara ao que aconteceu nestes oito anos. Uma efervescência tão grande que é impossível medir em números, embora estes sejam muitos. A minha trajetória profissional não seria a que está sendo, se não fossem os investimentos no ensino superior. Doutorado com bolsa de estudos, estágio na França também com bolsa, concurso público logo após o doutorado (é sempre bom não esquecer que no primeiro ano do governo Lula foram abertos mais concursos nas universidades do que em todo governo FHC). E numa universidade da "mata" (interior de Rondônia), como costumo brincar, meu grupo de pesquisa teve dois projetos aprovados, com ajuda financeira para o que chamamos de nossos "sonhos": o II Silic vem aí. E muitos livrinhos, computadores... E galerinha fazendo pesquisa, dando oficinas em escolas, discutindo, crescendo, sofrendo, rindo, ganhando suas bolsas de estudo para chegar bonita na seleção de mestrado, na seleção natural da vida. Não é preciso ser esperto para perceber que uma nova visão de Universidade está sendo construída. Uma visão muito mais democrática.

Há muita coisa torta? Há. Às vezes, o excesso de produtividade que nos é exigida nos faz entrar em uma roda viva tamanha que sobra pouco tempo para a maturação das ideias. O curriculo lattes vira um demônio de mil cabeças com seus dentes prontos a nos devorar... Mas confesso que agora sou menos revoltada com isto, porque de fato há na universidade muita gente acomodada, que nunca faz pesquisa, deitada sob os braços plácidos das suas aulinhas repetidas ano a ano...  Estas continuarão por muito tempo ainda, mas a sua mediocridade fica mais evidente quando em volta há gentes se mexendo.

Enfim, não dá para correr o risco de perder tudo isto. A campanha eleitoral está muito feia (e por conta da doença, tenho acompanhado tudo, desde o horário eleitoral gratuito!). Não precisaria ter chegado a este vale-tudo vergonhoso. E chegou porque, infelizmente, ainda há muita desinformação sobre a política, o que dá margem a todos esses jogos manipulatórios. Mas ainda vale continuar acreditando.  Porque tem muita coisa bonita que não pode se perder.
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segunda-feira, 4 de outubro de 2010

guillain-barré

adoeci no fim das férias. mantive umas tiradas irônicas diante do medo, para não perder de todo a elegância, mas o certo é que sofri de dor diante da possibilidade da morte e chorei bem alto em alguns momentos. me ver diante de tantas dores causaram-me um espanto inominável. não vou tentar descrever-me naqueles dias. não conseguiria. mas digo que nem sempre deu para me manter serena. oh year! vou "morrer de forma digna e serena" aos 80 anos. deve ser mais fácil. aos 35, achei que ainda era muito cedo.

guillain-barré não é uma doença incurável. o problema é que aniquila o corpo em poucos dias. e o diagnóstico, em geral, demora a vir. e é esta demora que pode causar a morte. no meu caso, demorou um tanto. mas o aniquilamento do corpo também demorou mais do que o habitual. ouvi diversas vezes que contraí guillain-barré na forma atípica e branda. alguns anjos estavam a postos, enquanto outros dormiam.

os homens é que não estavam muito atentos. voltamos das férias para Porto Velho comigo já cheia de dores e dormências nas mãos. em Porto, passagens pela emergência de hospitais, internação por vários dias, diagnósticos errados, dias em casa da Maneca esperando melhorar. neste entretempo, piorei muito: perda parcial da visão esquerda, dormências em todas as extremidades, perda de força muscular e muitas, muitas dores. angustiada, vi-me impossibilitada de levantar o Poeminha do chão. depois, não subi mais escadas e, mais depois, deixei de me levantar da cama sem ajuda. voltamos, então, para Fortaleza. dois dias depois, sabia o diagnóstico.  fiquei 14 dias internada.  e agora, aqui ainda estou, pés e mãos dormentes, acampada na casa da minha anja, longe de retomar a vida normal, mas recuperando-me um pouquinho a cada dia.

sim, uma anja transvestida de irmã. devo este segundo tempo da minha vida a mana Mácia. acho que por ser enfermeira, ela foi a primeira a perceber a gravidade da minha doença. não descansou até me ver de volta em Fortaleza. e foi incansável na busca pelo diagnóstico. e ficou comigo durante todo o tempo no hospital. como eu disse, tive muito medo, mas ao mesmo tempo me senti muito segura tendo-a ao meu lado. agradecida agora estou. e estarei  pelo resto da minha vida.

porque eu gosto muito de viver. não precisei estar perto da morte para saber disto: amo viver. e eu tive medo por causa disto: porque viver é bom, é bonito.
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quinta-feira, 26 de agosto de 2010

pausa

je suis malade.
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quando eu estiver melhor, volto e conto estes dias.
ou nao. dias assim doem e metem medo.
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domingo, 25 de julho de 2010

Em Natal


Em Natal, tenho muitas histórias. Mas a que construo agora é muito doce. E a mais feliz de todas.
Viajamos eu, meu filho, meu amorTatu, minha irmã e meu sobrinhoafilhado.
E eu percebo que é mais do que uma viagem de férias. É um aprendizado entre pessoas que estão em constante reorientação dos seus limites, dos seus desejos.
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Até mesmo com o Tatupai é um reconhecimento, já que é nossa primeira viagem de férias. 
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Então assim: o significado desta viagem advém das janelas que tento deixar abertas para o mundo.
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sábado, 24 de julho de 2010

Em Jericoacoara


Fomos ao paraíso.
Isto é, em Jericoacoara.
Eu li em algum lugar que ir em Jeri não é uma viagem, é uma experiência.
E só vivenciando aquele lugar para entender o que isso significa.
Porque é muito, muito poderoso.
Nenhum guia explica a sensação de alegria que nos assalta quando atravessamos as dunas, aos solavancos, e sentimos um outro mundo aparecer.
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Nem mesmo o burburinho da grande quantidade de turistas diminui a exuberância da natureza.
Pôr do sol nas dunas, caminhada de charrete até a pedra furada, ida ao mangue para tentar ver cavalo marinho,espiada nas muitas lojinhas artesanais, comidas deliciosas, incluindo a torta de banana da dona angelita, tudo faz parte do ritual de estar em Jeri, mas que logo viram experiências pessoais de enorme densidade emocional. E por que? Simplesmente, porque é lindo. Porque tanta beleza arrebenta a retina.  

Viemos nóstatus e o Poeminha, mais mana Mácia e amiga dela, a Fátima. Ficamos em um hotel maravilhoso, de frente para o mar. Num dia, nós, tatupais, saímos apenas os dois para andar de bugue. E apesar de termos pensado no Poeminha várias vezes, delícia um tempo só nosso para namorar.
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Acho que encontrei bons companheiros de viagem. Às vezes, ansiosos outras, impacientes, mas sempre com um olhar bonito sobre as belezas do mundo. E, no fundo, é isso que importa em toda viagem: a capacidade de se espantar diante do visto e sentido.
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Feliz.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

a casa do avô

Iracema, no seu miolo, mudou pouco.
Uma ou outra casa diferente.
Uma ou outra fachada a anunciar uma loja, um supermercado, um bar, que não havia no meu tempo. 
Mas a casa do meu avô praticamente desapareceu.
Queria ter fotografado esta desaparição, mas uma camionete atrapalhou.
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As casas que desaparecem levam um pouco de nós.
De nossa história.
Como se estivéssemos continuamente desaparecendo.
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para o filho


Poeminha, seu avô adentra cada vez mais no seu mundo particular.
É de lá que ele nos olha com espanto.
(Um espanto que me espanta).
E ainda assim tem os beijos e abraços mais doces que eu conheço.
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Eu quis tanto ver isto: você com ele.
Ele a lhe chamar de hominho.

um tio


De perfil, não dá para ver, mas ele é muito elegante.
Talvez seja seu modo de sentar.
Ou sua magreza de faquir.
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E sua camisa sempre aberta no peito.
Que também não dá para ver de perfil.
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segunda-feira, 19 de julho de 2010

em casa

(fotos depois)

muitas coisas me fazem lembrar que nasci aqui, em Iracema. e muitas outras me fazem lembrar que parti. gosto sobretudo das pessoas. é como se voltasse a ter quinze anos. havia muito amor a amparar o pouco amor. era bonito. hoje sei que era bonito. talvez por isso me venha esta moleza. para além da crise da garganta que me deixou no fundo da rede nos primeiros dias de férias, sempre que venho há como que uma parada no tempo.  sinto vontade de mudar uma porção de coisas e, ao mesmo tempo, me é tudo familiar. 

nunca sinto que estou de passagem (e estou de passagem há vinte anos). tenho vontade de ficar. e ficar por muitos dias. meses, talvez. até que viesse a saturação e eu tivesse certeza de que já não sou daqui. pois o que eu sinto é que jamais deixarei de ser daqui. as loucuras, as carências, as alegrias, o riso solto, o choro alto, o medo de que nada dê certo, tudo veio daqui. muitas lembranças me assaltam. e eu as conto ao Tatupai, aos risos, para, talvez, deixá-las definitivamente no passado.

e quando aos risos, minha amigaamada da infância, me lembra que eu era uma adolescente que fantasiava poses e posses, um pensamento me parte ao meio: hoje minhas fantasias são outras. assumo a pobreza que castigou minha infância e minha adolescência não como uma forma de me tornar heroína de uma vida que "deu certo", mas como uma forma de dizer que a sorte ou o acaso ou os encontros ou um pouco de perseverança fazem toda a diferença.

tudo bem. talvez não seja nada disso. na volta para casa, eu só queria mesmo ver meu pai carregando meu filho no colo, sentir o abraço da minha arev, comer buchada e queijo, repetir mais de uma vez que não gosto de coalhada e ficar olhando para a casa e como no jogo de sete erros tentar adivinhar quais móveis apareceram e quais desapareceram, quais saíram de lugar,  quais eu mesmo faria desaparecer, como um modo de reconhecer minha mãe, que está aqui, a brincar com meu filho.


sábado, 3 de julho de 2010

diário de viagem

Os tatupais começam assim uma viagem::: um tatu pai ansioso demais para ajudar a tatumãe a arrumar as malas. E uma tatumãe enlouquecida entre o que levar e não levar para uma viagem de 45 dias. A tatumãe quer se redimir e não levar mil tranqueiras desnecessárias... Por fim, a tatumãe se redime em parte. E mesmo assim, a bagagem fica grande. Culpa do Poeminha, o filho. O tatupai faz noitada de despedida com os amigos. A tatumãe aproveita para ir ao salão fazer mão, pé, cabelo, sobrancelha, como se tudo já não estivesse feito.
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Depois de 30 horas, e uma pausa para ver os minutos finais da seleção brasileira na Copa, em um aeroporto emudecido de emoção, chegamos aqui:::


Eu acho meio over. É trauma. Todo parque temático me lembra a Disney e as descerebradas que para lá correm em suas férias. Meio over, mas delícia. Eu já decidi que o Poeminha vai ter todos estes programas de criança. Se um dia ele me pedir para ir a Disney, eu levarei. Nunca meu filho vai me esperar em vão à porta da escola. Talvez por isso eu não pensei duas vezes quando a mana Mácia nos propôs, no primeiro dia de férias, ir ao Beach park, aqui em Fortaleza. Eu nunca tinha ido. 
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Poeminha se divertiu à beça. E os tatupais também. E as manas estavam no aeroporto. E os sobrinhos também. Acho que vai ser bom demais. É que vim para casa. Mostrar o Poeminha para minha mãe, meu pai, minhas duas irmãs que moram aqui. Vim para vê-los. E apresentar minha familinha. Quantas histórias sairão deste baú? Quantas vezes voltamos ao útero ao longo da vida, sem nunca mais de fato poder retornar? Ou retornar como mãe é uma forma de?

Tão bom.
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quinta-feira, 24 de junho de 2010

livro aberto


começo aqui uma seção. mais uma. existe já "para o filho". porque os livros fechados me incomodam. um livro fechado é um morto encerrado em seu caixão. à espera de. sobretudo, porque quero compartilhar os livros que eu amo. e no momento em que descubro que a parte técnica da fotografia me parece cifrada, mais me apaixono pela foto em si. tenho agora a máquina dos sonhos e eis que não nos entendemos. talvez por isso. amar bresson para uma amadora de fotografias é um lugar comum. mas eu já disse aqui::: não tenho medo do lugar comum. desde que ele me leve sempre mais longe. uma seção, então.

* Henri Cartier-Bresson: fotógrafo. São Paulo: Cosac Naify, 2009.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Sobre Saramago e as lembranças


Fico grávida de memórias quando penso em José Saramago. E quis o acaso que, depois de muito tempo sem lê-lo, eu tivesse na cabeceira da cama um livro dele quando soube da sua morte. Quis ficar triste, vazia toda por dentro. Mas logo em seguida pensei que quem soube viver como ele, poderia ir quando fosse a hora, se existe a hora.
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Quando fazia Letras, eu planejei ler toda a sua obra, tamanho o meu espanto diante de O evangelho segundo Jesus Cristo. Este livro ajudou a formatar meu gosto pela leitura. Nunca posso esquecer o que senti quando o li. Trago em mim uma convicção que surgiu daí e não mais me largou: não tenho medo da linguagem da literatura, não importa qual  seja o seu grau de dificuldade.
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Lembro de mim e da Mari, em uma daquelas enormes rodoviárias de São Paulo, exaustas, depois de perambular o dia inteiro. E entre ir ou não assistir a O evangelho segundo Jesus Cristo, que então era encenada, olhei para ela e disse:  "Agora que estamos cansadas, estamos propensas a não ir. O que decidiríamos se não estivéssemos cansadas?". Essa pergunta em tom de desafio foi determinante para que meia hora depois cochilássemos no teatro. Não posso afirmar com certeza se a peça era boa. A lembrança mais nítida que tenho é do frio que sentia nas minhas pernas, que subia para a bunda, que fazia doer minha garganta, que não me deixava dormir quando era o que mais desejava.
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Li Ensaio sobre a cegueira em um dos momentos mais confusos e ao mesmo tempo mais lindos da minha vida. Nunca mais fui tão interessante e tão desesperadoramente contraditória. Ali rompi com tudo que eu era. Caí na noite, bebi muitos porres, menti, fui feliz demais, vivi só. Tudo, muito. Ali fiz e disse as coisas das quais mais me orgulho e das quais mais me arrependo. Hoje já não  sou aquela menina, mas continuo pensando que todo mundo merece viver um tempo em que se acha a pessoa mais poderosa do mundo.  Era tudo tão intenso que eu literalmente senti os cheiros de Ensaio por dias seguidos. Encontrei muitos outros cheiros fértidos - em Lúcio Cardoso, em Artaud, em Bernhard, em Suskind, mas nenhum como aquele. Talvez porque nenhum tempo mais foi como aquele.
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Memorial do convento é a história de amor mais bela que já li. Nenhuma  havia me dito antes que podemos carregar o amor nas vísceras; que depois de andar milhares de léguas, podíamos senti-lo antes mesmo de vê-lo. Blimunda e Baltasar me ensinaram a amar, se o ensino tem a ver com o desejo de. 
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Paro por aqui, quando muitas outras lembranças ainda me agarram. Professora, hoje leio Viagem do elefante. Brado aos ventos surdos que é um pecado sair do curso de Letras sem ter lido um livro inteiro do Saramago. No fundo, procuro em cada aluno o gosto agridoce da aluna que eu fui.  
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Obrigada, Saramago, por estar na minha vida há tanto tempo. Acho que sempre estará. 
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terça-feira, 22 de junho de 2010

Objeto de desejo



E nem é tão cara assim...
Proibida, no entanto!

sábado, 12 de junho de 2010

Meus


Amo.
Simples assim.

Para ouvir


Não é medo, nem é riso/ Não é raso,
não e pouco, nem é oco/ Não é fato,
nem é mito / Não é raro, não é tolo,
não é louco / Não é isso, não é rouco
Não é fraco, não é dito, não é morto

Móveis coloniais de acaju.
Vale a pena

terça-feira, 8 de junho de 2010

dias


então assim. louise bourgeois morreu. eu senti como se alguém muito próximo.  kazuo ohno também - antes que eu fizesse quadros dos seus retratos que tenho há muito tempo. é uma pena que o corpo se deteriore com o tempo. até se esvair. fiz quadro do yellow submarine dos beatles, e o poeminha continua dando risadinhas quando olha para. são assim os dias. cada vez mais longe do passado. cada vez mais fincada no presente. soltei desaforos via email. e recebi desaforos de volta. antes, sofri um bocado. agora, às risadas, reconheço que morei dois dias na minha cabeça, acumulando rancores para depois soltá-los ao vento, que não vale a pena. não vale a pena alimentar nenhuma loucura. nem a minha. nem a dos outros. a não ser a loucura produtiva. a loucura dos que têm fome.  foi assim que reencontrei valdir. as ideias do valdir. e me contaminei com elas. vale a pena registrar este tipo de beleza. já estava escrito, só pode. espero que eu consiga ter no 22º FALE os mesmos sonhos e as mesmas ousadias que eu e mari, quase meninas, tivemos no 10º FALE. só agora reparei como foi bonito. foi bonito "eu não tenho nada, apenas a mim". teria sido arrogante, se minha voz não tivesse tremido. se o mar não fosse meu rival. então. 22º FALE aqui, no próximo feriado de corpus christi. neste, estivemos no 21º. bonito como sempre. e ainda mais com nós três. tatupai, tatumãe, poeminha. falei em público e não fiquei nervosa. talvez porque meu filho estivesse ali e eu o procurasse todo o tempo, enquanto estava presa à mesa. e tem as amigas. deixo lastros. faço amigos. e gosto cada vez mais. e, sim, não ganhamos o tão desejado edital. chorei. pelas noites em claro, pelo lindo projeto por ora suspenso. cada centava seria tão bem empregado, se eles soubessem. seja lá como for a seleção, eles não poderiam adivinhar todos os desejos que a sigla GEPEC congrega, como trabalhamos com alegria e com tesão. quem sabe o próximo? porque dá vontade de desistir diante do não, mas apenas por algumas horas. depois. depois tudo recomeça. como esta tentativa do poeminha. por várias vezes, tentou agarrar o girassol, até que.

sim, à vida.
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terça-feira, 1 de junho de 2010

Precisos líquidos, de Louise Bourgeois

"O significado da arte moderna é que você tem de encontrar sempre novos meios para se expressar, para expressar os problemas, que não há meios definitivios, nem uma abordagem fixa. É uma situação dolorosa, e a arte moderna trata dessa dolorosa situação de não haver absolutamente uma maneira definitiva de se expressar. É por isso que a arte moderna continuará, porque essa condição permanece; é a condição humana moderna... É sobre a dor de não ser capaz de se expressar adequadamente, de expressar suas relações íntimas, seu inconsciente, confiar no mundo o suficiente para se expressar diretamente nele. É tentar manter a sanidade nessa situação, ser prudente e temporariamente são expressando a si mesmo. Toda arte vem de fracassos terríveis e de necessidades terríveis que temos. É sobre a dificuldade de ser um self, porque somos desprezados. Em todo o mundo moderno há desprezo, a necessidade de ser reconhecido que não é satisfeita. A arte é um modo de reconhecer a si mesmo, e é por isso que sempre será moderna".

BOURGEOIS, Louise. Desconstrução do pai, reconstrução do pai: escritos e entrevistas 1923-1997. São Paulo, Cosacnaify, 2000. p. 166.


Preciosos líquidos, no Centro Georges Pompidou, toscamente fotografados por mim.