quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

sobre o ritmo


demorei para me acostumar com o ritmo, como se ele ferisse o que até então era meu ritmo ideal. não apenas os meus movimentos limitados, mas a movimentação agora própria da casa me era estranha. demorei para saber que isso que agora fazia parte do meu cotidiano era a movimentação de uma família, ou de uma família com filho. os tatus, bebedores de vinho e cerveja, amantes dos filmes e da música, haviam mudado pouco o ritmo. o que antes eu fazia só, fazia depois com ele; ele que agrega muito fácil seus grandes amigos em volta dele: a idiorritmia estava mantida. 

agora não, quase tudo mudou. tive sorte na senhora que me apareceu. cada dia ela tem uma história nova, uma história de quem tem o ritmo que um dia já foi meu. ela cuida da casa de maneira lenta e dedicada e eu, no início abismada, agora quase confortável, desarmo meu colete de ferro e me deixo dominar pelo novo ritmo. é um outro cuidar, este. tanto de mim quanto dos outros.  

há uns dois dias, sinto que me acalmei. como se as gargalhadas que eu dei ao telefone contando a minhamari as minhas tantas neuras as tivesse levado embora. como se eu, depois de tantas ruminações, fosse de novo outra, uma outra que acata um novo ritmo, não mais silencioso e brumoso. um ritmo tagarela. não sei até quando. também não me interessa. se desde sempre foi o presente que me interessava, agora ainda mais.    

em tempo: em um daqueles momentos de delicadeza, talvez eu tenha falado para o Tatu: "e se usássemos alianças?". talvez ele tenha ouvido, porque há cerca de duas semanas ganhei uma aliança igualzinha a que um dia minha mãe perdeu no terreiro de nossa velha casa e que, depois de muitos anos, encontrou no meio de tijolos velhos. uma aliança grossa, com formato antigo. trocamos nossas alianças sem cerimônia, aos risos, e me veio um susto, uma alegria. dentro da minha, está escrito "Tatupai" e dentro da dele, "Tatumãe". sim, assim, insignificâncias. assim, que significa um tanto. dengos no meio desta paralisia de pés. dengos para o novo ritmo. ainda a idiorritmia. uma outra.

* imagem: do ernesto netto, que adoro, no blog http://camilagonzatto.blogspot.com/
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3 Palavrinhas:

Sérgio Rivero disse...

Hum...

Às vezes, estes gestos delicados são o mundo inteiro. Beijos, Mi!

M. Gusmão disse...

Entre lágrimas de alegria (que fique bem claro!)e sorriso largo me peguei lendo teu texto. É bom saber que ser feliz é fácil.

Mesmo de longe te dengo,viu?

Um beijo, minha flôr.

Rubiane disse...

Este texto iluminou meu dia.