quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Historinha de água


Peixe ainda na água. Antes de pular do aquário e morrer no ladrilho amarelo. Acoplei-me como há tempos. À falta de cerveja hermeticamente gelada, iogurte desnatado. Consola a voz de samba e também o velho retrato acima da minha cabeça. Sorrio para mim mesma. Uma mão sorridente agarra meu peito e sussurra loucuras doces. O quadro da loucura seria o da boneca queimada de Farnese ou o rosto disforme de Bacon? Questões sempre amargas. De todo modo, não é qualquer samba. É a voz de Teresa Cristina cantando outro velho sambista tranvestido de galã. Sempre achei que Chico com seu sorriso tímido cabia perfeitamente como herói das noites insones. Pelo menos vivi um dia de vício para agüentar a lentidão dos outros. Nunca a vida passou tão rápida. Sinto pontadas da velhice precoce por toda parte. Bloco de gelo não derrete nunca a não ser quando colocado em ambiente estranho. No café da manhã, nada além de bolinhas marrons sobre o branco gelado como se fosse possível agüentar a própria imagem durante toda uma vida. As toalhas e os lençóis brancos esperam pendurados no varal. Nenhum vento para enxugá-los a tempo. Se ficarem mais um dia é capaz da fuligem os deixarem cinza. O cheiro de flores me faz espirrar. Mesmo assim lamento vê-las partir. Os corpos sentem frio porque os lençóis estão pendurados. As roupas no guarda-roupa estão perfeitamente equilibradas, separadas cor a cor. Quando abandonarei as velhas obrigações, senão quando o abandono não for mais importante? O peixe ainda se debate no ladrilho amarelo.
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5 Palavrinhas:

Olga disse...

Oi, Milena,
Retribuindo sua visita. Tá Tão lindo teu blog. Visual, idéias, cores e cheiros imaginados.
beijo

Edson Marques disse...

O peixe ainda se debate no ambiente estranho...

Um texto repleto de metáforas impressionantes, mais uma vez!


Gostei dos teus comentários sobre a perda.

Abraços, flores, estrelas..

Fictícia disse...

coincidentemente, tenho roupas brancas no varal a espera de um vento... ou de fuligem !! Obrigado pela visita no blog ! Um abraço

osrevni disse...

Faz tempo que não ouço Teresa Cristina. Boa lembrança, lá vou eu!

IgorVilla disse...

Oi Milena!! adorei o texto!! já me senti como esse peixinho tb!!! rs...

Bjo!!