sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

O último metrô

Saí com meu irmão dia destes. Um dia antes de ele ir morar em Campo Grande. Fomos flanar por Sampa. No início da noite, ele foi embora e me vi sozinha na Paulista. Sozinha. Fui-me invadida por uma pequena alegria. Se não fossem tantos arranha-céus, poderia imaginar que estava em Paris como em uma daqueles tantas noites em que vagava sozinha. O que era bom nas minhas longas horas sozinha em Paris é que a alegria que eu sentia não foi percebida depois, como uma espécie de nostalgia. Eu a sentia no momento mesmo em que a vivia. Amava sair da BNF já noite, ver aqueles 4 livros abertos, sentir uma rajada fria de vento no rosto; e daí decidir se ia para o cinema ou para casa. Lá me perdi um pouco. Literalmente, muitas vezes. Descobri o prazer de vagar sem rumo pela ville sem nenhuma obrigação, sem ter para quem voltar. Muitas vezes pegava o último metrô e ficava a imaginar se alguns daqueles rostos iam para casa como eu: sem ninguém para dizer boa noite. Os rostos do último metrô são sempre indescritíveis. Cansaço, fadiga e certo brilho no olhar. Uma morosidade que não chega a ser impaciência. Ninguém parece ter pressa de chegar, como se o descanso começasse ali, no assento dos vagões semi-desertos. Era o atrás do brilho do olho que me fascinava. Silenciosos. Raro ter um barulhinho bom. Aqui sinto falta enormemente disso. Aprendi a alegria da solidão. Depois que voltei já andei algumas vezes por Sampa sozinha. Porém Sampa é barulhenta. O salvo-conduto termina sempre nas salas de cinema; na nostalgia da observação de outros rostos, de outras memórias.

Foi assim neste dia que me vi sozinha na Paulista. Acabei em frente ao Espaço Unibanco. Assisti A culpa é de Fidel, de Julie Gavras; e adorei o filme. Inteligente e engraçado. Eu implico sempre com filme de crianças (exceção para os iranianos); acho que apelam para uma identificação imediata com o espectador. A culpa é de Fidel tem a criança, mas não é gratuito: o filme só funcionaria com uma personagem criança; a história depende totalmente dela. E é muito, muito bom. Depois vi Conversas com meu jardineiro. Talvez porque ainda estava imersa no outro filme, não achei tão bom. Porém o final é terno, emocionante, embora seja possível prevê-lo. Derramei algumas lágrimas. Talvez tenha sido apenas saudade de Paris. Do último metrô. Os dois filmes se passam na França.
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6 Palavrinhas:

Renata disse...

agora sim consigo comentar! =D
tô doida pra ver esse Conversas com o Meu Jardineiro, adoro o Daniel Auteuil. Você viu Caché?
como vc já pode ver lá no bicho, também gosto muito dessas oportunidades, caminhar sozinha sem saber para onde ir, sem programação, entrar num cinema, escolher o filme na hora... hoje, com duas pequeninas em casa, não sobra muito tempo pra isso, mas quando sobra é bom demais.
bjo

eurídice disse...

oi, querida, vim retribuir a visita e também gostei um bocado do que vi por aqui. me identifiquei com a solidão poética de paris e dos últimos metrôs. quem enxerga poesia em tudo é do meu naipe. voltarei. beijinhos.

Halem Souza (Quelemém) disse...

Gostei do novo espaço! "Alegria da solidão": também experimento essa sensação às vezes. Vi muitos filmes (em DVD) nessas minhas férias. Vou falar de alguns deles depois. E assisti ao filme do Eduardo Coutinho que você recomendou. Adorei. Um abraço.

eurídice disse...

ah! tb coleciono corujas!

edu disse...

Oi, retribuindo a visita aqui também. E fuçando locamente os cinemas do Brooklyn para tentar entender, também, por que cargas d'água A Culpa é de Fidel.
(:
adorei os textos,
obrigado pela visita,
Edu, do Brooklyn

osrevni disse...

É engraçado, lembro com uma certa incredulidade de quando eu trabalhava na Paulista, e tentava ficar sozinho no meio daquele mercado persa. Será possível mesmo que toda aquela agressividade de que me lembro seja verdadeira?