sábado, 16 de agosto de 2008

Aquela moça

É aqui
por enquanto
ainda não tem
cortina
tapete
luz indireta
amenizando a noite
quadro nas paredes


Ana Cristina César

O moço pinta as paredes. Sorri quando passo. Gostas de azul? Não, mas estou começando. Se na vida fosse fácil, deixaria tudo azul com uma pincelada. Passaria a tinta em toda a sujeirada e retiraria esta dor que tem me feito andar elegante pelas ruas – à moda de Leminski. Eu havia mudado, mas agora percebo que o mais interessado não soube. Apenas meu amigo do MSN sabia. Eu quase escutava sua respiração de contrariedade quando eu lhe contava que aquela moça antiga não existia mais. Ele se ferrou com aquela moça, chorou suas noites vazias, mas me prefere daquele jeito. Então eu vou cair na noite com alguma paixão de uma nota só, bebendo longos goles de cerveja enquanto escuto concentrada algo que no dia seguinte será minha prioridade. Eu não sirvo quando fico boazinha. Eu não sirvo quando quero aprender a cozinhar. Eu não sirvo quando digo sinceramente que amo. Ontem comi miojo. E antes de ontem chupei uma manga bem madura e passei a noite toda lendo Nietzsche. Exatamente como aquela moça fazia. Talvez deva começar a gostar de azul. Talvez na penumbra da noite insone, eu me reencontre naquela casa com cortina de tecido cru. Ali eu gostava de mim; toda entregue à sutileza. Ali eu era aquela moça que meu amigo gosta. Agora, sem cortina, ando a achar que vou ler todos os livros que ainda não tive tempo de ler. Sem cortina, repasso as mentiras, os enganos e entendo finalmente a impaciência, o descaso, a ironia; estas espécies filiadas da loucura. O entendimento devassa com dor profunda, perfurando todas as minhas fragilidades. Respiraria aliviada se ao mesmo tempo a gengiva não sangrasse. Eu compreendo bem a loucura, meu amigo também; já fiquei louca e sempre foi muito melhor do que qualquer sanidade. Sei do que estou falando. O que não entendo é a brutalidade, a hipocrisia, as dores e as devassidões da minha loucura repetindo-se. Um pouco pior. Um pouco melhor. Sinto o gosto das maçãs podres corroídas por vermes que sobem nos meus calcanhares. Perguntas difíceis demais. E sem resposta, as loucura me ferra de tal modo que eu demoro a encontrar o prumo. Talvez por isso eu tenha querido mudar. Mas agora vai ser diferente. Eu vou pôr cortinas de tecido cru e desenhar um telhado na varanda. E voltarei a habitar aquela antiga casa até ser atingida por algum raio que me tire de lá e me convença de que talvez até valha a pena aprender a fazer ratatouille para os dias de ternura e de silêncio e de calma. Vai ser melhor do jeito que já está sendo.
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3 Palavrinhas:

adelaide amorim disse...

Quando uma te cansa, a outra fala e te escuta, faz comidinhas e decora a casa. Até que se encontrem num espelho qualquer e a rachadura se aprofunde. Mas tudo recomeça sempre - é um destino.
Beijo, Milena.

Halem Souza disse...

Se você já foi louca e sabe como é, qual o problema então?(rs)

P.S. O disco da V. da Mata é mesmo triste, mas eu gosto disso.

loba disse...

Gosto um tantão desta sua forma de se autobiografar, dialogando com a ficção. Gosto desta auto procura posta em letras!
Como vc pode não querer mostrar o erótico, hein? Já imagino o qto será bom ler! rs...
Beijocas mocinha