quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Sobre "beijo de amor" e "amo-te"

não uma. ou duas. mas umas cinco pessoas perguntaram sobre o que eu sentia. como me sinto? quando me perguntaram, eu sorri. ora, era para sorrir; chorar é que não dava mais. aquele sorriso de quando ouvimos uma fofoca indevida que deveria doer bem ali onde não dói mais. o que sentir quando sei que minhas expressões se espalham? e são ditas pelo outro a uma outra que não a mim? ora, sinal que funciona. mas perde o valor? é sinal de maldade, de impiedade, de falta de cuidado para comigo? estas perguntas vêm junto no pacote. também vem junto um misto de desprezo e ironia. sim, um dia tudo se perde. eu sorrio de um sorriso indefinido, e entre divertida e surpresa [a surpresa é sempre uma forma de negação do horror causado pela ação inesperada do outro], esboço respostas que catalogo, agora, aqui. a quem se diz “beijo de amor” quando se diz “beijo de amor”? a quem se diz “amo-te” quando se diz “amo-te”? estas expressões me pertencem? quem mais ao redor de mim as usava antes de eu usá-las? creio que ninguém. mas isto faz com que sejam minhas? ou de certa forma eu as doei? e o que é devido? se eu as doei, elas me pertencem ainda? sempre achei “eu te amo” uma frase maravilhosa. nunca me recusei a dizê-la. eu assim digo; como assim beijo. eu beijo irmãos, sobrinhos, amigos, amores, conhecidos – todas as pessoas que amo ganham sempre de mim um “eu te amo”, e mais abraço apertado, beijo melado. o toque, este que tantos têm medo, eu toco. talvez por isso – pelo tanto dizer – algumas vezes eu sinta necessidade de dizer “eu te amo” diferentemente. então eu invento. primeiro inventei “amo-te”, aproveitando o pouco uso da proclise no português brasileiro. e doei o “amo-te” a uma pessoa. criei para ela. para ser mais do que “eu te amo”. foi também por isso que criei o “beijo de amor”. e achei tão bonito que também assim o disse a minha princesa. beijo de amor para dois. outra forma de acréscimo ao meu gosto pelos diminutivos, pelos cortes nos nomes próprios, pelo tratamento “exclusivo”; é minha alma dengosa que gosta. é de mim. é por isso que eu continuo sorrindo quando me dizem que o "amo-te" e o "beijo de amor" estão em outras bocas. falta-lhes imaginação? sobra imaginação em mim? talvez nem uma coisa nem outra. talvez seja excesso de ternura, de amor. porque estas expressões começaram a ser ditas por mim para isto: para alastrar uma ternura, um amor, que no momento da invenção se queriam e se imaginavam únicos. mas ternura é reiterativa; espalha-se e se reconstrói quando parece que se desfaz. da minha parte, por fim, convém dizer que por pruridos ou por excesso de imaginação eu não uso agora o "amo-te" ou o "beijo de amor", a não ser para alguns amigos. e sequer digo “amado”. amado ainda me parece um nome próprio. essas palavras, de certo modo, expressam a inteireza do que um dia deu certo e foi bonito. como “inventora”, como “autora”, eu me permito crer que posso inventar outras expressões e me desgarrar destas como quem sabe que o que criamos deve sair livre pelo mundo, deve se apropriar de outras ilusões, sob o risco de se perder para sempre. por isso, agora eu invento novas palavras. e quero crer que me recrio. recrio meus gestos. reaproprio-me do meu corpo. e este novo corpo que inventa pede um outro tanto. eu ando me recusando a ser igual. a dizer o mesmo. eu ando à caça de ainda mais delicadeza. e de pessoas ainda mais delicadas entre tantas que já habitam em mim. eu quero toda por inteiro me reinventar. e nessa reinvenção estar ao alcance de alguém. e para este alguém, eu me quero toda diferente. para que o amor não seja repetição. seja também algo novo.

e o que me disseram estas quatro ou cinco pessoas que me perguntaram como eu me sentia foi que ainda e por muito tempo “amo-te” e “beijo de amor” serão palavras minhas. mesmo que eu não as profira. e que sejam proferidas por outros.
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foto: minha sombra e, atrás dela, a arte de cy à espera da parede.
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1 Palavrinhas:

Eurico disse...

Tudo muito belo, muito bom gosto, e muita arte por todos os recantos do blog.
Parabéns!
Grato pela visita e te vejo no AO.