sábado, 25 de abril de 2009

a-dios

eu fui uma aluna relapsa. no início, bem mais. e sempre sentei de qualquer jeito. ainda hoje. os alunos fazem graça da dança que minhas pernas protagonizam embaixo da mesa. como aluna, era pior. colocava-os em cima da mesa e abria qualquer livro que me interessasse mais do que as aulas. e ele era um professor discreto, que falava baixo, mas tinha um método que eu como professora gosto muito de aplicar para fugir das cópias de internet. talvez tenha copiado dele. daquele professor com nome de cantor popular. ele nos mandava escrever em sala. e como um professor do ensino fundamental, se gostasse do texto, pedia para que fosse lido em voz alta. foi assim que ele me notou. ou que eu o notei. era o primeiro semestre de Letras. a ordem para que eu lesse meu texto veio acompanhada de uma confissão: ele só acreditava que era eu a autora porque os textos haviam sido feitos em sala. e acrescentou: "como uma aluna que tinha coragem de por os pés em cima da mesa e abrir uma revista na cara do professor, sabia escrever um texto como aquele?" talvez tenha sido aí que eu tenha ganhado confiança. depois a perdi. só muito depois a readquiri. ou nada disso. meu modo de ser não mudou. nem o dele. ele continuou falando baixo e devagar. eu continuei com meus pés sobre a mesa. mas desde então desenvolvemos um código. dois tímidos nos corredores, sorríamos e baixávamos a cabeca quando nos encontrávamos. como se partilhássemos um segredo. ou uma confidência inapropriada e intempestiva. ou uma resposta sempre suspensa. a última vez que nos vimos não foi diferente, embora já fôssemos colegas de profissão. o sorriso que não se sustentava. o respeito mútuo. ontem, soube que ele se foi. cedo demais, como sempre achamos sobre aqueles a quem queremos bem.
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3 Palavrinhas:

Sérgio Rivero disse...

É...eu também fiquei bem triste...Uma pena mesmo. Sempre gostei bastante de R.

Caco disse...

Li isto num blog amigo (http://blecaute.zip.net/):
"Amigos de verdade são difíceis de se achar. Eles deviam ser difíceis de se perder também."
Sinta-se abraçada.Beijodaí.

Eliz disse...

Lindo...o texto e o sentimento que evapora dele.