terça-feira, 24 de novembro de 2009

O cheiro do ralo, de Lourenço Mutarelli


Lourenço Mutarelli tem arrebanhado prêmios literários por aí [Jabuti, BrasilTelecom e tal e tal]. É um querido dos cineastas. É um quadrinista super talentoso. É um escritor que "acontece". E parece ser super gente boa - e assim meio louco. É o que acho quando leio seu blog, que já teve outro endereço e que talvez nem vá para frente. Com esse currículo quem não tem vontade de ler algum dos seus livros? Eu comecei com O cheiro do ralo. Ok. Foi uma escolha óbvia, própria de quem gosta de cinema. Mas a razão é boa: Marçal Aquino, o escritor, esteve por estas paragens rondonienses. E tanto falou, tanto disse, sobre este livro/filme, que eu acabei comprando-o e lendo-o. Adianto: é uma delícia. Não é uma obra-prima com linguagem refinada. É uma obra com a linguagem descolada do nosso tempo. Leva-se um susto logo ao folhear. Visualmente, parece poesia. Cada frase em uma linha em boa parte do livro. Frases curtas de uma mente obsessiva, como é a do narrador protagonista, que, no filme, tem o rosto do Selton Mello, mas no livro é a cara do cara do comercial da Bombril. Simples assim.



Mutarelli tem coragem. Escreve um livro em que quase nada de diferente acontece. Dias após dias - fedorentos. Ele, o narrador, não tem caráter algum. Poucas coisas, até a uma certa altura, tiram-no do sério: o cheiro do ralo, a bunda que ele quer comprar, a noiva que ele dispensa quando os convites já estão na gráfica. Ele é um comprador. E as pessoas que passam por ali para lhe vender bugigangas - e sentem o cheiro do ralo - no fundo sabem que ele "chuta baixo" o valor. Ele compra, as pessoas estão à venda. Tem uma crueldade engraçada neste princípio torto. O narrador é torpe, mas é também engraçado. No fim, torcemos por ele. Mas aí já é tarde. É a solidão, a loucura, o desamparo, o azar dos malditos o que sobra. E o ralo, e não o ser.


Mutarelli faz parte daquele tipo de escritor que não está nem aí para as convenções literárias. Geração Beat anos 2000. Escreve com a linguagem das HQs, das ruas, do teatro jovem. Não é todo dia que tenho vontade de ler esse tipo de texto, mas que é uma delícia, ah isto é. Lembra minha primeira leitura - fascinada - de Feliz ano velho, do Marcelo Paiva. E tambem tem muito a ver com meu lado que gosta da Clarah Averbuck. Espero que meu filho leia esta gente toda. Eu já disse de inúmeras formas: gosto de gente esquisita. Ler Mutarelli é como ver um filme com um enorme saco de pipoca e uma coca-cola ao lado. Para o bem e para o mal, é esta a minha imagem.
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os desenhos são dele.
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2 Palavrinhas:

Natália Branco disse...

Olá! Sou eu de novo, a menina que tinha infinitas dúvidas acerca do Kafka! Decidi não ficar mais tão "anônima" em minhas visitinhas por aqui. Com relação À esse post eu não fiquei tão perdida! rsrs Já assisti ao filme O cheiro do ralo, mas nunca li o livro, sinceramente nem sabia que tinha o livro (ando desinformada). E ... nossa, também li Feliz ano velho! Quando li de primeira acho que não estava muito "madura" o suficiente, mas na segunda leitura, amei! E essa semana terminei de ler Leite Derramado, do Chico. Gostei bastante! Adoro essas obras que nos fazem passar pela histporia de forma tão sutil, sem aquela didática tradicional (que na escola me fez "gravar" pouca coisa).

Adoro esse cantinho! Beijos

Olga disse...

Sabe que eu estou morrendo de inveja de você? Uns 21 anos atrás, nesta mesma época do ano, eu tinha um menino de 15 dias que me deixava feliz e angustiada pela total transformação operada em minha vida. O que eu estranhava é que não sentia o mesmo intenso enlevo que outras mães experimentavam. Foi um amor vagaroso, que me inundou aos pouquinhos.Descobrir isso tudo, vagarosamente, foi tão delicioso que eu repeti mais três vezes!!! Agora, os filhos são gente imensa e bebês só pertencem à humanidade.
Por isso, a invejinha.
Beijo aos três!!!!