terça-feira, 3 de novembro de 2009

Sobre Kafka

Nas palavrinhas:

Olá! Quero dizer que amo seu blog mas nunca tive o ímpeto de me manifestar. Sou uma amante das letras, e dos livras, claro. Estudo biblioteconomia (!) e queria tirar uma dúvida com você. Conheci o Kafka aqui (vergonha, rs) e fui ansiosamente providenciar um livro dele. Como não conhecia nunhum, fiquei com o Metamorfose, mas como não sou tão veterana em leitura como você, não estou entendendo muito bem o livro (vergonha 2, rs). ... Não sei se você já leu esse livro, mas, em caso afirmativo, poderia me ajudar a pegar a linha de pensamento, ou a crítica, sei lá, que está escondida nesse cotidiano narrado na obra. .
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Natália Branco, quem é você? além de ser palavras, tem um corpo, uma história? E como chegou aqui? E por que nunca tinha se manifestado? Pois vejam o que é um blog, como são grandes as dimensões das suas portas. O blog é o lugar da hospitalidade por excelência; entrar e sair pode ser a qualquer hora e sem deixar rastros. Isso é tão bonito e ao mesmo tempo tão assustador para quem escreve.

Natália me pergunta sobre Kafka como se eu pudesse responder as suas questões... Sinto uma espécie de pudor que me paralisa, como sempre acontece quando pressupõem, de antemão, que eu sei falar sobre algo. Sei que essa sensação não condiz com a minha condição de professora [e quem disse que precisamos ser coerentes em tudo?] ...

Natália, você deve saber que este blog não faz crítica, que não passa de uma colcha de retalhos sobre o que leio, vejo e vivo. Não há nenhuma análise aqui, apenas devaneios. Por isso, não sei responder ao que me pergunta. Tudo que posso dizer sobre Kafka é que ele me atinge enormemente, embora tambem não o compreenda. Kafka é um escritor que nos dá machadadas sem que saibamos a razão. Eu fui em Praga buscando encontrá-lo. Isto é, buscando, através do seu mundo, das ruas onde andava, do frio que passava, das cores que via, os possíveis traços da sua literatura. E Praga é uma cidade avermelhada, nem mesmo é cinza como Paris, embora seja muito fria. Talvez Kafka seja assim: avermelhado e frio. Em A metamorfose sinto isto: por um lado, toda a frieza, por outro, o vermelho, a saída, a esperança. Não é assim? À medida que ocorre o aniquilamento de Gregor Samsa, ocorre a reestruturação da sua família. Talvez este seja, de fato, o grande absurdo na obra kafkiana: o lado terrivelmente humano.

O que ainda posso lhe dizer, de forma canhestra, é que os livros de Kafka não se deixam compreender como certa literatura se deixa - mas isto você já sabe. Ele é absolutamente real nas situações mais inusitadas. E isto causa espanto: mostrar aos nossos olhos descrentes o imponderável, o inimaginável. Mas se fosse só isto, seria pouco. Este inusitado é formado por uma fina camada grotesca, abjeta., que nos choca e ao mesmo tempo nos seduz. Ninguém fica feliz lendo Kafka - e saber disso me ajuda a constituir meu gosto literário. Explico: gosto de estar feliz. Para mim, é quase um imperativo. E por outro lado, sinto em mim a densidade do mundo, como se exisitisse algo pesado contra o qual seja sempre preciso lutar. Pois travo esta luta com autores como Kafka, Genet, Beckett, Thomas Bernhard. Não que eles me deem alguma lucidez. É o contrário. Nas interrogações abismais existentes nos textos destes autores, encontro meu tênue equilíbrio, o único possível no espaço da loucura. Veja então: Kafka é o remédio e o veneno; exatamente o que eu penso que seja a literatura.

Um abraço, Natália. E espero que você volte, mesmo que eu não tenha respondido as suas perguntas. As fotos foram tiradas em Praga. Constatei que ele está em toda parte por lá, como um fantasma. Tomara que você goste.


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5 Palavrinhas:

Cristina disse...

Oi, Miga. Eu venho a este blog porque ele sempre me faz crescer. Eu nunca tinha escutado Arnaldo Baptista e fui escutá-lo pra poder comentar no POSt anterior... e me deparei com algo que me deu uma machadada sem que eu percebesse de imediato... um pouco parecido com o Kafka... rsrsrsrs.... adorei !!! Que qui é isso ???? rsrsrsrs !! Um abração !!

Diz disse...

´Vc é uma bela surpresa. Obrigada pelo comentário tão sensível e inteligente- gostei mto do que diz aqui sobre Kafka, voltarei- agora estou caindo de sono.
bj Laura

Halem Souza disse...

Que generosidade (e modéstia) de sua parte...

E eu condordo plenamente: ninguém fica feliz lendo Kafka. E isso é que é essencial.

Um abraço.

Natália Branco disse...

Oii! Desculpe pela demora, mas muito obrigada! Fiquei imensamenta feliz e saitsfeita, você é muito atenciosa! Você não deu a resposta "na lata" que eu esperava, mas hoje, vejo que isso nem é possível, acho que não existe uma fórmula tipo "Kafka quis dizer ISSO e AQUILO" e o que você me deu foi a fórmula, o caminho que me fará seguir nessa leitura já com outros olhos. Respondendo suas perguntas: tenha corpo, história, sim! rsrsrs Tenho 20 anos, sou carioca, amante da leitura (uma história meio masoquista, já que sempre estou em busca de algo acima do meu "nível" de leitura e acabo "apanhando" pra entender), casada, diria até um pouco precoce, digamos que levo uma vida de mulher de 30 ahuahua mas o que seria isso além de uma mera convenção social?! Desculpe não ter me manifestado antes, fico meio receosa, mas já estava aflita com esse meu "problema" com o Kafka, então não resisti. Sei que seu blo é pessoal, não de crítica, mas no caso, pedi sua opinião pessoal mesmo! rsrsrs
Mais uma vez, muito obrigada!
Beijos!

meus instantes e momentos disse...

foi bom voltar aqui.
Maurizio