domingo, 4 de novembro de 2012

Das memórias da infância

(todo dia 26 do mês, escrevo aqui. a postagem deste mês foi esta. e foi especial, porque era o dia do meu niver).
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Num dia raro, meu irmão me disse: “Um dia, será assim: eu arrastanto os pés; você segurando nas paredes. Tavarim e Tia Elita. Ou vó Adauta. Ou tio Delbrando e tia Mariah”. Fui longe com esse dizer. Eu tinha 11 anos e uma imagem forte de amor: a do pai. Talvez duas: a da madrinha. Todo o resto eu sentia como uma nebulosa – até minha família mudar de cidade e eu estreitar os laços com meus avós e meus tios-avós paternos. Naquela época, a menina triste e alegre que eu era finalmente encontrou um lugar no mundo, o que é o mesmo que dizer que encontrei pessoas para amar. A família do meu pai sempre foi silenciosa. Entretanto um silêncio que acolhe. E tenho a impressão de que toda minha noção de família está contida nesses silêncios e naqueles poucos anos de convivência diária com eles, quando tive que partir aos 15 anos. Desde o princípio, um acolhimento mútuo: eles aprenderam a gostar de criança; eu aprendi a gostar de velhos. Velhos, sim, que, naquela época, ainda podíamos usar as palavras. Idosos seriam uma ofensa. Para mim, eles já haviam nascido velhos. Uma vez, espantei-me quando ouvi dizerem que minha avó havia sido enérgica e brava. Eu só conheci a delicadeza, os pés arrastando, as mãos amassando os farelos de pão, antes de levá-los à boca, sentada naquele velho fogão de lenha onde ela comeu até morrer.O único instante de morte que presenciei até hoje. Um longo minuto triste,  logo depois daquela correria que passou pelo átrio da igreja.
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Com minha voz estridente, eu corrompia os seus silêncios, até mesmo o de tio Manuel, um dos mais silenciosos, que às vezes vinha do sítio com balas no bolso. Nunca esqueci a última vez que o vi já despedida; ele montado em sua bicicleta, e eu, ao lado, em um equilíbrio precário. Nos abraçamos num soluço conjunto e ele disse: “Agora vá. E não esqueça este velho”. Talvez seja por isso que, apesar de estar sempre indo desde aquela época, eu nunca esqueço. E havia tia Expedita, casada com tio Sebastião, um dos homens mais delicados que já conheci. E dos que mais amei, daquele amor que adentra. Ainda hoje lembro de cada recanto da casa no fundo da igreja. Dela e dele. Ela tinha os pés tortos e pequenos e era engraçado vê-la equilibrando-se como que por magia. Era uma das mais falantes. Eu a ouvia contando suas histórias sempre com aquele pente na mão até deixá-lo na cabeça num equilíbrio também misterioso. Ela nunca foi capaz de me ver  como a magrela que eu fui na adolescência. Guardava nela meu corpo de bebê: tão gorda a ponto de me dar o apelido de um bicho nada bonito. Na última vez que a vi, ela já não se levantava da rede, mas continuava a fazer a pergunta que me presenteava a cada vez que eu voltava: “É Pebinha, é?” Os nomes e seus múltiplos. Para eles, nunca fui Milena. Tia Mariah me anunciava com a memória voltada para longe: “Ah, Delbrando, é Cláudia”. E ele respondia: “É mesmo, é Claudinha”. E da casa de tio Delbrando e tia Mariah, nunca saí sem algum trocado no bolso. Por mais que explicasse que não precisava mais, eles não entendiam. Se nunca deixei de estudar, então nunca deixei de precisar de dinheiro; é a lógica do cuidado que não ousava ferir quando já adulta e professora universitária. 
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De todos, a mais próxima foi tia Elita. Conversávamos horas a fio, sentadas em uma calçada alta que havia no fundo da casa e de onde eu via o pé de goiabeira do vizinho. E ela sempre respondia: “Eh, Cláudia, é você que tem que saber”. O que eu tinha que saber naquela idade já não lembro. Herdo seus gestos estranhos que ainda nos mantêm próximas, apesar da longa distância: ela com o lençol na cabeça; e eu, com ele na boca. As senhas com que ela me anunciava: “Lá vem bode velho arrastando os pés, igual à avó”. Depois, cuidávamos da casa dos meus avós onde ela sempre morou; uma casa estreita cheia de portas que ainda está lá, mas que não mais pertence à família. Jogávamos baldes e mais baldes de água que escorriam pelo longo corredor e desciam como cascata para a cozinha de piso inferior. Eu ainda esfregava com esponja um a um os fitilhos de plástico das cadeiras para tirar a sujeira das moscas. Em troca, ganhava amor, gorjetas e um prato de comida vez ou outra. Em suas casas, eu podia assaltar os potes de bolacha. Por isso, bolachas salgadas são minha madeleine. Elas trazem até a mim esses senhores e senhoras que me ensinaram e me ajudaram em um tanto de coisas. E assim como eu pensava que já nasceram velhos, ainda hoje costumo pensar que todos ainda estão lá e que a qualquer hora eu terei novamente 11-15 anos. 
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quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Para o filho





Na delicadeza da hora de dormir, Poeminha, você se vira para mim e diz: "Mamãe, te amo". E antes que eu morra de emoção, você se vira para a Galinha pintadinha, que está ali para dormir com você, e, com a mesma voz doce, diz: "Piu-piu, te amo". Tem nada não, filho. Tá valendo. Dividir o seu amor com a galinha pintadinha não é nada, se você também me ama.
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segunda-feira, 15 de outubro de 2012

O espirito da prosa, de Cristovão Tezza

Numa viagem para Campina Grande, dei conta de ler dois livros e boa parte de um outro. Morar na mata cria distâncias medonhas: 30 horas de deslocamento. Li Faca, de Ronaldo Correia de Brito e O espírito da prosa, de Cristovão Tezza.  Estou tentando escrever sobre minhas leituras. Tentando enquadrar no sistema as minhas leituras e a minha escrita. Mas isso é assunto para outra hora. Por agora, fico com O espírito da prosa, de Cristovão Tezza. 

É um livro casmurro. Um livro de quem passou a vida tentando descobrir por que alguém vira escritor e apenas, agora, ainda que com desconfiança, parece ter encontrado alguma resposta. Tezza, muita gente sabe, é o autor de O filho eterno, que há uns três anos causou alvoroço no mundo da crítica, levando todos os grandes prêmios na área. Também senti um certo  alvoroço e, modéstia às favas, embora ainda estejam em minha gaveta, penso que escrevi algumas das palavras mais acertadas acerca do livro. Mas isso também é assunto para outra hora. 

O espírito da prosa. Se os críticos se detiverem sobre esse livro, Tezza vai levar umas boas cacetadas.  Não é um livro pra agradar. Com a mesma virulência com que fala de sua formação, com o mesmo descrédito que dá as suas primeiras tentativas de escrita, ele disserta sobre a literatura brasileira, sobre o que a constituiu, apontando como se sentiu sempre muito distante das grandes verdades de nosso tempo. Um inadequado. Abarca, para si, uma vontade de realismo. Ou um realismo. E diz que foi assim que pôs em pé suas personagens e sua literatura.  É um ensaio não sobre a literatura, mas sobre como ele, de forma persistente, colocou-a em sua vida.

Concordo com ele num ponto que, ultimamente, volta e meia vira pauta de discussão no meu entorno: a adesão irrestrita à ideia do apagamento do sujeito - e da representação - na literatura funda-se sobre uma inconsistência. Há muito o que se discutir sobre isso, sobretudo se pensarmos sob que bases esse pensamento foi constituído. Talvez ele tenha razão, e aderir sem nenhuma discussão a esses dois apagamentos seja de fato negar toda a história da prosa. Para pensar.

Agora dá para entender um pouco mais como ele conseguiu escrever um livro como O filho eterno. Há uma sequidão nas suas escolhas, e mesmo uma tristeza modelar. A mesma que compõe a sua literatura que, claro, não se resume apenas ao seu hit parade, mas a outros que igualmente valem a pena serem lidos. Eu aponto apenas três que já li: O fotógrafo, Juliano Pavolini e Trapo. 
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sexta-feira, 12 de outubro de 2012

o verbo "botar"

Bráulio Tavares no SELL
bráulio tavares veio aqui em vilhena. para o sell - evento acadêmico organizado pelo departamento em que trabalho. bráulio tavares me emocionou muitíssimo. que me desculpe o durval, autor do belíssimo livro "invenção do nordeste", que estou lendo, e talvez não concordasse com o que vou dizer, mas o "arrastado" do sotaque nordestino é bonito, é bonito, é bonito. talvez eu ache porque sou de lá, deste lugar fantasmático::: Nordeste. fiquei ali ouvindo, emocionada, o bráulio, por diversas vezes, usar o verbo "botar", quando normalmente se usa "colocar". havia musicalidade no seu jogo de palavras. no seu jeito contundente de dizer o que dizia. como dizia.

bráulio veio. e cantou numa manhã que seria cinzenta se não fosse a sua presença. e falou do ofício de escritor. falou do ofício da vida - a vida quando se tenta unir o que se quer e o que se pode. e eu, tão abestalhada fiquei, nem me importei em chorar ali, no meio daquela moçada. é porque bráulio me lembrou que na vida é preciso ter alegria, é preciso estar junto de quem inspira, de quem diz. e este aprendizado não tem preço. ele fica em nós pela vida inteira. e nos serve quando daqueles dias duros.

* Percebi, espantada, como escrevi pouco no blog durante este ano. Pouco mais de 10 postagens. E no meio do espanto, prometi a mim mesma que vou voltar a escrever com assiduidade. Muita coisa boa tem voltado, sobretudo dentro de mim.


quarta-feira, 19 de setembro de 2012

No ENLIJE e no GELNE

eu sempre achei tacanho o sistema de eventos acadêmicos. ou o sistema de apresentação de trabalhos em eventos acadêmicos. é como pedir por dois seguntos, peloamordedeus, a pessoas que estão surdas ao que você tem a dizer. mas minhas primeiras viagens, ainda na graduação, foram para participar de eventos. e há viagens memoráveis. como aquela em que eu e mari vimos uma peça de teatro pela primeira vez. como aquela em que viajamos eu, mari e manu. como aquela, com ida e mari. no frio de araraquara, no frio de são paulo. no tamanho da unicamp. ou no rio de janeiro. e em curitiba. e na bahia. e naquele evento em natal que encontrei arev e ed. e nos muitos que deixei de ir. e estas experiências sempre foram como um entremeio, pois nunca deixei de acompanhar os eventos de perto. gosto da experiência de ouvir. no último congresso da abralic, ouvindo márcio selligman, me veio uma alegria intensa, uma espécie de gratidão por poder estar ali, naquela manhã.

agora como organizadora do silic*, um evento acadêmico que, embora pequeno, numa cidade pequena, começa a ganhar corpo (e agora, quando tenho certeza do que quero), voltei aos eventos. não quero me alongar nisso. não quero mesmo dar explicações. estou provando das minhas resoluções. uma quase senhora disciplinada que agora escreve, que agora segue as normas, em nome de. em nome de. em nome de.

fui então ao gelne e ao enlije. siglas. encontros. pessoas. dizeres... e foi muito bom. muito bonito. mesmo o dia inteiro no hotel escrevendo o texto que já estava em mim. e que agora está nos anais do gelne. não sei quem lê. mas isso tem mesmo importância?

Poeminha foi junto. eu e a rô fomos cuidar dele. no nordeste. o nordeste é meu lar. dias antes, eu tentava dizer a um grupo de professores desesperançados que isso nada tem de determinista. o nosso lar nunca sai de nós. o sertão. isso não quer dizer que estamos presos a ele. há muito com  o que se rebelar. e é preciso se rebelar. sair de lá e voltar com aquela dor no peito. voltar para não ficar.

e encontrei mari. e nossa mariateresa. e carmi e makarios. e marcio e minha xará. e minha família. paimãeirmãssobrinhos. e manamácia ficou conosco pelas estradas.

eu gostaria de registrar tudo. é para isso que deve servir a escrita. para dizer sobre as tantas alegrias. mas me dá preguiça. quero guardar só para mim, embora saiba que vá esquecer daqui a pouco. então digo aqui. mas digo aos poucos. para guardar. 

* Simpósio de Literatura Brasileira Contemporânea. 

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

cenas da disciplina


Cena de confissão: Entre a proposição da disciplina e a sua organização, um hiato. Desaparece a ambição de catalogação para dar lugar a uma obsessão ainda mais perigosa: a reflexão arbitrária ou intempestiva, como crianças que desistem de colecionar carrinhos para se dedicarem ao trabalho minucioso e exasperante de desmontagem. 

Como em todas as disciplinas, um reconhecimento com espanto da biblioteca. E com isso a impossibilidade de despregar da imagem de Barthes: “Biblioteca de um sujeito = uma identidade forte, completa, um ‘retrato’”. Diferente do despregar do conhecimento acerca de Barthes, cada vez mais distante. É a imagem que nos perfura. E é com a junção de duas bibliotecas que o curso se desloca.

Figura da disciplina: A amizade. Por diversas razões. A impressão de que a Universidade não consegue mais realizar a proximidade com essa figura (Derrida, Blanchot, Agamben). Colocar em cena o que está fora da cena (Derrida, Jean-Luc Nancy). Perfurar, rasurar, sustentar o subjétil da amizade, naquilo que ela tem de ambiguidade: uma necessidade e uma certa desconfiança (Nietzsche, Derrida, Artaud). O que pode sair daí? Quais sentidos poderão se constituir a partir da declaração da amizade?
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foi assim. foi uma experiência muito bonita. aquela, de dar aula no mestrado em estudos literários. tenho certeza de que para mais ninguém foi mais bonito do que para mim. a junção de duas coisas: o querer-fazer e o gostar muito de algumas pessoas que lá estavam. bonito estar num espaço em que mais se ama do que se é amado. sempre essa dissimetria entre professor e aluno. não contei quantas vezes tive que me deslocar de vilhena a porto velho. 12 horas de viagem. e um desejo: o de ensinar na pós-graduação. não fiz nenhuma exigência e aceitei todas as cláusulas. não sei muito bem o teor desta importância. mas me emocionou. e muito. quase passei pelo vexame de chorar em sala de aula no último dia. emoção e saudade são os nomes. criei uma figura para o curso: a da amizade. ministrei junto com binho, meu amigo de muito tempo. um amigo que amo. talvez aquela moça bonita que tenha me dito que meu lugar é na sala de aula daqui a um tempo vai me desferir algum golpe certeiro como outras fizeram, mas no momento eu só consigo pensar que ela tem toda a razão. porque é na sala de aula onde eu mais penso, onde mais quero aprender, onde mais estou em casa.
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domingo, 19 de agosto de 2012


a senhora que veio ontem ao meu lado no ônibus tinha problemas nas pernas. foi o seu marido, que muito carinhosamente a colocou no banco, deu uma injeção em sua barriga e se despediu demoradamente, beijando-a e "embrulhando-a" com um cobertor. por causa disso, das suas pernas sem movimento, fiz toda a viagem de porto velho a vilhena sem ir ao banheiro, apesar da grande vontade de ir. não quis incomodá-la. ela só queria dormir, foi o que logo constatei. numa cidade próxima de vilhena, uma filha apareceu procurando-a: "aí está minha mamãezinha". também muito carinho. afastou as suas pernas delicadamente, dobrou o cobertor que a cobria, segurou-a pelos braços e a levou. eu tampouco dormi. também não sei quanto tempo chorei.  pensei nos meus próprios pés há dois anos. e também no carinho de tatupai e manamácia. ainda tenho meus dedos dormentes. manamácia disse que vai ficar assim. acho que me acostumei. dos males o menor. mas e se não tivesse recuperado os movimentos? às vezes penso no quão tão perto cheguei da morte. e ainda me assusto. um tio meu morreu neste ano. e soltei um choro alto e desconsolado. mas depois senti o horror do esquecimento. pareceu-me que todos esqueceram muito rápido, como se houvesse urgência para que a vida continuasse. senti um susto de quem quase desapareceu. é assim? é assim que se esquece uma vida? veja:::: nenhuma cobrança nesse horror. só uma melancolia indistinta. uma certeza de que à vida só interessa a vida. quando desci do ônibus era no que pensava. na vida. em viver. como aquela senhora com seus pés deve também querer viver, de tão envolta em carinho. como eu com meus dedos dormentes e com meus dois homens e mais um tanto de sonhos. existir se destina a existir (parafrasendo valdir).
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sexta-feira, 10 de agosto de 2012

sobre o esquecimento. e sobre nada.


tudo é afeto. inclusive quando ele nos faz falta. ou quando nos roubam. ou sobretudo. porque é quando temos que fazer o retorno. dar a volta. não necessariamente recomeço. mas continuidade. reestabelecer a rede de afetos e lançar um olhar amoroso sobre os acontecimentos. mesmo aqueles que apunhalam. 

tenho feito assim. não me dedicar ao cultivo da mágoa. nem tentar advinhar quanto de veneno se espalhou. alguém que eu amo, no meio de tanto vendaval, retirou a mão de que eu precisava para sair dele? ninguém. para alguns, eu cheguei mesmo a perguntar: "você me vê fazendo algo assim?". e se sofri, é porque a dor é pra quem sente. e se agora me propus a estabelecer algum distanciamento, para quem mesmo o distanciamento? porque eu sempre vou acreditar em gente. sempre. sempre vou querer amar. sempre vou querer bem. sempre vou pensar que há gente muito linda. não importa quanta gente feia há no mundo.

acho que é uma espécie de maldade (e até acho bom porque não gosto de ser boazinha), mas me dá uma certa alegria saber que é o outro que destila sua maldade - contra mim. mesmo que o veneno respingue, aprecio o meu não-movimento, que nem de longe é sinal de covardia. não. eu sou brava. muito brava. e muito petulante. mas ao invés do esforço da briga, eu prefiro o não-movimento. a observação. jujuba me disse uma vez, e eu nunca esqueci::: como é terrível a minha indiferença! todos os seus músculos em carne viva, debatendo-se diante de mim como uma galinha que acabara de perder o pescoço e eu, impassível. e quando fui eu a "perder o pescoço", era um cálculo. joguei todos os pratos no chão para que ele os visse espatifando enquanto lhe lançava palavras de desafio: "é isso que você quer ver, é isso que você quer fazer? pois faça se tem coragem". acho que hoje sou ainda mais comedida. não quebraria meus pratos nem minhas xícaras. sou impulsionada apenas ao movimento de fala ou de escrita (como o de agora) que tem o intuito de produzir esquecimento. nem mesmo compreensão, porque não sou boazinha. mas esquecimento. falo (com aqueles que sabem me recompor). pergunto (àqueles que me conhecem mais do que eu a mim). ouço (os que amo). e de repente parece que tudo ganha sentido. e já estou de novo fora do alcance.

como fico surpresa com quem guarda ódios eternos! uma vez que discuti com uma pessoa de quem eu gostava e que gostava de mim. ficamos muito tempo sem nos falarmos e nos vermos. um dia, andando na rua, a pessoa passa de carro por mim. e eu aceno alegremente. e só em seguida lembro da briga. e acho graça e me encho de alegria porque a outra pessoa também acenou para mim, talvez pega de surpresa pelo meu esquecimento. tenho em mim essa alegria do esquecimento.

de onde será que tirei tudo isso? quem ou o quê não deixa que eu more por muito tempo na minha própria cabeça? arrrisco: foram os livros. e dois ou três amigos. é por isso que quando me alcançam é sempre por muito pouco tempo.
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quinta-feira, 2 de agosto de 2012

para o filho

Poeminha, dois meses que você está na casa da sua avó. a mãe do seu pai. eu gosto desse contato, filho. aprendi o que é amor com a família do meu pai. e não precisou que eles fossem pessoas extrovertidas, alegres, divertidas. pelo contrário. eles eram pessoas silenciosas, discretas, severas, fechadas. mas com um senso de família inigualável. eles eram leais, filho. amavam incondicionalmente a famíla. falo no passado, porque alguns já se foram. mas trago-os em mim. trago, sobretudo, o cuidado. aquele cuidado, filho, que eles tinham com o meu pai e, por sua vez, estendiam a nós, filhos de meu pai. meu pai sempre precisou de mais cuidados. é um passarinho. ainda hoje é. e no meio daquela família silenciosa, espalhava seus gritos de euforia ocasionados pela alegria e pela bebida. e eles, silenciosos, percebiam e compreendiam esse modo de ser. e agora, que escrevo, me pergunto como meu pai consegue viver sem eles::::::

acho bonito tudo isso. e acho bonito você estar na sua avó. mas não vou deixar mais. não por tanto tempo. quando você for, a data de volta já deverá ser marcada. e mais próxima. e porque:::: você nos faz uma falta inominável. eu ando pela casa repetindo as suas palavras, os seus gestos. e falando como se você estivesse aqui, comigo, a me ouvir. já não sei viver sem a identidade de mãe. não me interessam a solidão, o tempo que sobra, a tal libberdade. o que preciso mesmo é da sua presença. 

mas não vou transformar este registro numa lamúria. você foi. e agora já sabemos o que é saudade. o modo como você me interpela no msn e no celular me dizem que a saudade está não apenas em mim. remexendo nos seus arquivos de fotos, encontrei umas bem curiosas. entre estas, as que coloco aqui. explico::: tenho a impressão de que foi a primeira vez que você externou uma fantasia, transvestiu-se de personagem. você mesmo colocou estes óculos bizarros, esta touca, e me impeliu a fotografá-lo. foi bonito, filho. foi bonito. enquanto aguardo que seu pai lhe traga de volta, observo-as e sorrio. e de  novo.certa de que não sei mais viver sem você.







terça-feira, 31 de julho de 2012

I don’t give a shit


encontrei esta frase no facebook da lígia, uma moça muito linda que conheci no tempo do doutorado. linda mesmo. por dentro e por fora::: "não existem pessoas más ou pessoas boas, apenas sincronismo ou assincronismo... melhor ver as coisas como relações, não como coisas :)". não sei se a frase é dela, mas me apropriei porque ando precisando. tem momentos em que é difícil acreditar no humano. mas é preciso acreditar. não naqueles que é preciso enterrar. mas naqueles que ficam. também li em algum lugar o que nietzsche diz sobre o esquecimento. pois estou em processo de esquecimento. enterrando os mortos. para esquecê-los. não aqueles que realmente morrem. porque para esses o luto é para sempre. mas aqueles que é preciso matar. não podemos ter medo do seguir. seguir em frente ao podar as plantas do jardim. "eu acho que é isso que eles precisam saber" - também ouvi isso nestes dias. do feio, do desleal, do dissimulado do outro me afastar. da mentira, da falsidade me ausentar. não dá a mínima. apagar até mesmo os resíduos.  ninguém pode mesmo tirar o que é nosso, se não deixarmos. é o que tenho feito. quanto mais assinconia, mas me afasto para o lugar que é meu. o que ninguém pode tirar. quem tem hoje um lugar tão bonito? sentar na rede e ler um livro. encostar no ombro e ver um filme. ler um texto e dizer do caminho que já está ali. tudo é movimento. tudo é sentimento.
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quinta-feira, 12 de julho de 2012

Belém... e a amizade


fui a belém. belém sempre fez parte de meu imaginário. tenho amigos músicos que sempre disseram da cena da noite de lá. eu vi pouco da cena da noite. mas vi a música 11h da manhã, banda sinfônica do pará no teatro da paz de lá. e a cidade toda de repente me pareceu tão bonita, com aquela decadência de um passado que já se foi.

eu estava triste pra caralho e nada tinha a ver com belém. tinha a ver com as coisas irresolvidas das minhas escolhas. mas vou dizer::: tinha meu amigo rivero lá. e ter amigos no mundo faz toda a diferença. e me enche de uma alegria doida. às vezes, me senti deslocada naquela casa tão linda que é dele e daquela moça que teve de aguentar a amiga do marido. e porque aguentou de forma muito bonita, muito humana, me senti acolhida, com vontade de ficar por lá (obrigada, oriana; uma mulher com nome tão lindo não poderia ser diferente!). e guardei em mim aquele bar onde pude ficar ali com meu amigo falando de coisas triviais, de coisas bonitas, e, de repente, um quase tudo dizer: "você está feliz?" e éramos nós dois ali, e todo nosso passado. e todo nosso presente. e o porvir. sim, já vivemos muito. já quase morri. já vimos o ir do rio muitas vezes. e as distâncias pareceram nada. isso se chama amizade. é o que me faz ir. é o que me faz sentir bem. é o que me faz pensar que vale estar no mundo.

e tinha a mariflor, aquela moça que me dava comida em paris e que me levava para as lojas de departamento para comprar roupas por 5 euros. era tudo tão bonito e eu sabia que era bonito. por isso, pude agarrá-la com força - na casa linda que é dela - e sentir a mesma beleza. a mesma de quando tudo estava a nosso dispor.é também a lindeza da amizade. eu quis estar lá - no seu mundo, no seu lugar, no seu tempo.porque onde existem amigos é onde devemos estar.
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sim, foi bom. foi muito bom.  belém. tem que ir lá. tomar sorvete. beber cerveja. caminhar. ver o forte. e os prédios todos que um dia foram bonitos. e descobrir que cerâmica marajoara não se encontra em qualquer esquina. e que todo turista é uma grande anta que não sabe ver nada além da unidade. que o mercado não é nada bonito, mas é. porque quando deixa de ser imaginário, fica um pouco desse imaginário na vivência. agora vivência.
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quarta-feira, 27 de junho de 2012

tenho estado assim::: sangrando. pois tenho feito um esforço muito grande para ser outra e ao mesmo tempo não me perder. não me deixar só. não me perder - eis. como é possível? de onde vem tanta necessidade de calar quando talvez o grito fosse o que mais agora me deixasse inteira? é que tenho visto os cachorros ladrarem na noite e me assalta uma vontade de ir em sentido contrário. não deixar que agarrem meus calcanhares e os façam sangrar. e isso sem correr. ficar ali, bem no meio - mas com a alma e as armas de jorge.  e só então ir em sentido contrário.

vai ter que ser assim. lembrar do que demoradamente construí, mesmo que tenha sido nada. manter a serenidade para que com ela eu possa continuar com quem importa ao meu redor. é tanta coisa que quero agregar em torno de mim. e por isso, este silêncio. não quero falar nem deixar passar em branco. quero só seguir meu caminho - qual é mesmo ele? tenho em mim mais perguntas que respostas. mais vontades do que realizações. mais desvãos do que certezas. e não quero esquecer deles - dos desvãos. e o único modo, tenho sentido, é manter-me assim::: com quase nada.

eu sei que não devia vir aqui e escrever desse jeito depois de tanto tempo. é que ainda não sei como dizer. ainda não sei se o que faço é mesmo o que devo fazer. e enquanto esta resposta não vem, eu fico achando que as palavras são desnecessárias.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Pina



assisti a Pina, de Wim Wenders, e morri um pouco. pequena morte. ali, tão cercada de amor, morri um pouco. como já havia morrido ao ver Bandoneon em Paris, na última noite em que estava por lá há mais de um ano.  as cenas de Pina são como um soco no estômago que nos atravessa - o corpo todo, para dali saírem pétalas de flor, ou o jorrar da água ou o enigma dos gestos. ao vê-las, esquecemos um pouco de nós e nos deixamos penetrar pela beleza. a beleza do enigma. por que sentimos assim? porque nenhuma cena tem uma chave. uma resposta. ou um fluxo narrativo que não seja interrupção. ou um passo de dança que não seja já surpresa e reelaboração. jesuscristinho, é tão bonito!obrigada por me permitir ver tanta lindeza.

* Imagens da net

sexta-feira, 6 de abril de 2012

estou. andei enxugando lágrimas, até que me deitei na rede branca e fiquei ali observando meu filho pular na cama como se fosse cama elástica. era tão bonito e tão despretensioso o seu gesto. vez em quando ele olhava para o quadro com vidro que tem ao lado da cama e ria alto vendo a sua imagem pular na cama como se fosse cama elástica. achei tão bonito que fui me enchendo de paz. uma paz leve. como nuvem branca que se desloca do céu. me veio a ideia dos "pecadinhos". e eu que não sou religiosa, não tive medo algum. não fui eu que os cometi. agora, embora ande pelos corredores com o peso da dor, quase rio desta dor. ainda não. mas quase. se fiquei nua ali, no meio daquela cena crua, foi a nudez sem pudor. não era minha vergonha que deveria ser escondida. nunca tive medo da escrita. nem da leitura. nem de estar em carne viva. nem de derrida tive medo. só um respeito feliz por tudo que ele me ensinou. cheguei em casa e contei para aquele que me falou de derrida. e aguardei sua opinião. e quando ela veio, tive certeza de que era de paz que eu deveria me completar. de paz e das certezas silenciosas que um dia me levarão para bem longe.

quinta-feira, 15 de março de 2012

para o filho

poeminha, eu tenho muito medo de errar. dito assim, parece assinalar um atestado de culpa. um diagnóstico antecipado. mas não é, filho. juro. eu acho que um dia você vai me dizer que queria mais. e eu vou dizer que queria ter dado mais. o que estou deixando de ver, filho, eu não sei. as mães são cegas porque se veem semideusas. como não se sentir assim se são elas que o filho procura quando acorda no meio da noite? se é com ela que se enrosca quando uma queda, uma contrariedade imprevista, acontece e o choro vem?  filho, de uma coisa eu sei::: nem sou superprotetora nem sou desligada. estou no meio do caminho. você caminha pela casa - muitas vezes sozinho. mas se me chama, eu acolho. acolho sempre. nem que seja por minutos. e mesmo quando não me chama, eu me certifico: "poeminha, onde você está?". é porque também tenho esse medo generalizado de lhe perder. e já formulei teorias acerca disso. porque, irracionalmente, estou sempre à cata da racionalidade::: filho, é porque ter você é uma inteireza tão grande, uma alegria tão completa, que me assalta o medo::: "não, não pode existir algo tão completo sem que nada de ruim aconteça". eu amo você, poeminha. e não me canso de dizer. por isso, uso esta voz imbecilizada, algumas vezes, ao falar com você. tchu tchu tchu tão lindo oxi, tão bonito amo. amo filho você demais. azi tão gostoso. que delíciaquedelicia ter você. amo amo amo. vem nego, deixa de conversa, vamo logo. sei lá que língua é esta, filho, sei que é idiota, e peço perdão por ela. mas saiba que isso é acalanto. eu sei que você sabe por que me imita. imita de um jeito doce. vira a cabeça de lado. faz bico pra beijar. agarra minhas pernas num abraço que só se completa quando eu o abraço.

não conheço nossa vizinha da esquerda, filho. conhecemos apenas os seus gritos. e o choro da criança. às vezes, juntos, ouvimos estupefatos tanto os gritos quanto o choro da criança. e eu, poeminha, covarde, não tenho coragem de dar um telefonema que poderia acabar com isso (não tenho coragem de dar telefonema algum). mas por vezes, sobra um lágrima. uma lágrima de dor e também de agradecimento. não sou nem serei, poeminha, uma mãe perfeita, mas me consola e me comove o fato de não ser eu a dar esses gritos nem você a soltar esse choro sentido. não que às vezes eu não tenha ímpeto de. você é um carrossel que não para de rodopiar. mas pode acreditar, poeminha, até agora, dois anos e cinco meses depois de você ver o mundo, nunca, jamais, transformamos o ímpeto em ato. para quê, poeminha, se a vida toda há de ser tão difícil? agora mesmo, às vezes, choro escondido pela falta de mãe. por que farei isso com você? e não, poeminha, como lhe disse, você perambula pela casa e sorri pedindo mais colo que nem sempre tem. ainda assim, filho, pode acreditar::: nessa sua memória que logo mais vai ser subterrânea, não haverá opressão nem pancada nem grito histérico nem castigos levianos. porque o que eu quero mesmo é que lá muito depois você só desencave as minhas mãos no seu cabelo, o modo doce e lento com que eu leio pra você todas as noites antes de dormir ou o modo desencantado e frio com que eu bato vitaminas no liquidificador na incapacidade de preparar o sal da vida. este, fica com o seu pai. ainda agora, filho, quando eu tenho que me reinventar inteira, tão descrente de tudo, é com você, e para você, que eu vivencio o melhor em mim.   

em tempo, filho::: agora, eu consigo correr. uma corrida desajeitada, em que os pés vão cada um para um lado. mas uma corrida. acho que nem preciso dizer como isso me faz feliz. dia desses quase caímos juntos na grama que plantaram há poucos dias no quarteirão que costumamos caminhar. quase é quase nada, filho. e isso me deu uma tremenda alegria. consegui lhe acompanhar, enquanto você dava gargalhadas.

* (tem sido difícil manter uma constância no blog. tudo tão rápido. aqui e ali alegrias grandes. aqui e ali tristezas fundas. e a pele toda descarnada em busca de mim).

** as fotos são antigas. lá na academia da tiairmãdopai.. 

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

O moralismo anacrônico na arte

Nestes tempos de sexo embaixo dos edredons no já tradicional programa da família brasileira, que é o Big Brother (como não dizer isso de um programa que está na 12ª edição?), andei pensando no que aconteceu comigo e ManaMácia quando fomos ver a exposição Em nome dos artistas, no ano passado. Ao chegarmos, acabamos aceitando a companhia de uma “educadora”, que faria o percurso junto conosco. Acabei me irritando enormemente com o seu discurso e só não a deixei falando sozinha porque apareceram umas estudantes de arte que pareciam estar bem interessadas no seu discurso. De fato, a arte contemporânea não é fácil. Entretanto esse “lugar comum” não deveria permitir que os curadores de uma exposição como Em nome dos artistas permitissem que “educadores” supostamente colocados ali para instruírem o público para uma melhor fruição dissessem barbaridades moralizadoras, preconceituosas e desprovidas de qualquer conhecimento teórico acerca.  É melhor que educadores digam nada, ou nem estejam ali, se tudo que tiverem a dizer diante de “Mãe e filho divididos”, de Damien Hirst, for que eles “não podem aceitar” um tipo de arte que corta animais ao meio e que mata borboletas, para, logo em seguida, num tom moralizador, contar uma história de como, numa ocasião, teve cuidado com umas borboletas que se alojaram sem querer no seu quintal.

É claro que é permitido não gostar, e mesmo se opor, ou sentir repúdio, por essas obras. Até o que é visualmente belo, pode ser motivo de escândalo, como as centenas de borboletas mortas que, juntas, formam um dos mais lindos quadros da exposição, também de Hirst, este artista que não pára de escandalizar o mundo das artes. O que me causou revolta e impaciência foi o moralismo – acompanhado de total desinformação –  que vi embutido no que queria parecer piedade. Cheguei a dizer um “Você não pode dizer isto. Não deste modo”. Mas quando as estudantes de arte fizeram um pequeno clamor em favor da “educadora”, agarrei ManaMácia pelo braço e desapareci dali, certa de que, apesar do meu parco saber, ele estava em melhor companhia se estivesse só comigo. Outras coisas também me desagradaram, como as salas proibidas a menores nas quais estavam quadros de Cindy Sherman [eu já disse aqui que, para mim, ela é tudo e mais um pouco] e de Jeff Koons. 

Se não for instituída uma proibição draconiana, causadora de muito stress como toda proibição, qualquer criança hoje pode ver um close microscópico da bunda de Deborah Secco, vestida com roupas sadomasoquistas (este é um dos poucos exemplos que eu posso citar, visto por acaso, já que não assisto a novelas), num capítulo final de novela, mas não pode ver, numa exposição, um nu, uma cena de sexo ou um pingo de esperma no momento mesmo em que pinga da vagina, mesmo se for uma imagem de uma beleza estonteante, o que era o caso do quadro de Sherman, como se estivéssemos vendo o próprio momento da concepção, aquele momento em que um espermatozóide encontra um óvulo e nos permite o milagre do existir.

E por que parece que eu tenho certa ojeriza ao close da bunda de uma atriz num canal aberto de TV e questione a proibição a menores de certas obras numa exposição? Pela simples razão de que um contexto de uma exposição é, ou deveria ser, ele mesmo questionador. Nele, podemos refletir sobre o sempiterno embate entre ética e estética, ou sobre a relação da arte com o consumo, ou ainda a recomposição do objeto cotidiano que retalha a nossa visão costumeira. Assim como podemos meditar sobre o real ou a suposta espetacularização da intimidade, a exposição do corpo, tudo isso definidor do atual estado de coisas.
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Quando “educadores” não dão esse tipo de informação, que poderia fazer o público compreender o que é aparentemente incompreensível ou inconcebível, perdem a oportunidade de o público que se vale deles sair dali mais informado, mais afim com as propostas da arte contemporânea, apesar de seus espantosos procedimentos. O que se nega, e é o que eu acho mais terrível, é o contato com a própria história da arte; cujo conhecimento poderia levar a questões como por que uma pintura hiperrealista de Sherman, ou uma fotografia de Nan Goldin, ou mesmo os quadros gigantes de Jeff Koons, causam mais escândalo do que O nascimento de Vênus, de Boticelli ou a Olympia, de Manet, eles mesmos, à sua época, dignos de escândalos.
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É o que eu me perguntava diante daquelas placas, para mim, totalmente sem sentido. Ou ao fugir da "educadora". Por um lado, as rédeas parecem soltas a uma proporção inimaginável, por outro, a mistificação da desinformação.  É o horror! O horror!
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sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

dos nós que devem ser feitos


neste fim de tarde, aqui, rodeada dos meus livros, com Gal Costa neste belíssimo "recanto", me vem uma palavra que não sei o nome. um sentimento. eu deveria trabalhar, escrever dois ou três emails importantes, mas o que eu faço mesmo é ouvir o CD. letargia, talvez seria a palavra, se ela se carregasse do indefinível. é que ando num trabalho solitário. ando à procura de novas alegrias que a universidade poderá me dar. trabalho solitário, mas inexplicavelmente tranquilo. (re)descobrir que ainda é isto. estou sentindo cada detalhe para não me perder no emaranhado. porque eu preciso da sensação de que o caminho não é vão, pelo menos para quando a morte chegar de novo eu ter a mesma sensação que tive:::: de que não queria ir porque a vida era boa. e porque havia feito muito do que queria fazer. achei que não era a hora porque ainda havia muito a fazer, a ver, a querer, a sentir, e eu me sabia capaz de me dar isto - e dar aos outros. se nos últimos seis meses eu lutei contra um desânimo nunca sentido antes é porque nunca deixei de acreditar. e mesmo agora, que os acontecimentos gelaram meu peito por dias seguidos, me veio uma tranquilidade. uma certeza de que não semeio nem espalho dores. e aqui e acolá sei que amarrei relações muito bonitas, tão próximas a ponto de inspirar. e ser inspirada por elas. se há desvios, e se constantemente quebro minhas próprias promessas, não perco a capacidade de sonhar. às vezes, é tão bizarro. a cada vez que bebo umas cervejas, sem um tostão no bolso, planejo duas ou três viagens. é muito bizarro. mas não tenho a menor dúvida de que se a morte não chegar de novo eu as farei - por mais que demore. é assim::: sem maldade alguma, seguir.

e agora sou bicicleteira. minha bicicleta, escolhida pelo tatupai, quase voa. e eu que não sei dirigir carro, e estou sempre adiando aprender, de repente experimento uma liberdade de menina. ao revés da estranheza dos alunos que dão risinho nervoso quando me veem chegar à universidade, promovo um encontro comigo mesma enquanto cruzo as ruas da cidade. e mais prazer ainda quando saímos nós três, e o Poeminha faz uhhhuuuu a carda curva mais arriscada.

noite dessas, ao rever O ovo da serpente, de Bergman, me veio a sensação doída de que aquela opressão toda não se restringe àquele período histórico. faz parte mesmo das relações sociais - há sempre alguém apontando o dedo para o diferente, num jogo subterrâneo de preconceitos e imbecilidades que revelam o pior do humano. e Bergman, capaz de mostrar isso de modo tão contundente e definitivo, é essencial. ninguém deveria morrer sem a experiência dos seus filmes, foi o que pensei. e também noites dessas, vimos, extasiados, o Arnaldo Antunes ao vivo lá em casa. primeiro, eu amei a casa. Uma casa... de verdade: linda, cheia de histórias (um corredor repleto de fotografias), cheia de livros... e ainda assim uma casa comum: bagunçada, parecida com as casas paulistanas, com uma laje no fundo e grades na janela. E Arnaldo, lá, com toda sua inquietação. amo-o há tanto tempo que, sinceramente,  não sei mais distinguir o que nele, artisticamente, é bom ou bobagem. porque o que eu gosto mesmo é dele - da vontade de fazer que ele expressa em cada coisa que faz. meio da semana e eu tive que beber um vinho para comemorar aquela celebração.
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é bom existir assim.    


domingo, 29 de janeiro de 2012

Hatoum, Kundera e os acordes requintados

Não foi por um gesto vago de amor - cada vez mais raro em tempo de tantas leituras obrigatórias - que acabei de reler Órfãos do Eldorado, de Milton Hatoum. Havia uma razão para a releitura. Havia um propósito. E o que eu quero comentar, antes de mais nada, é de que talvez tenha sido essa "obrigação" que me fez ler melhor o livro do Hatoum. Talvez meus dois ou três leitores se lembrem de que, mais de uma vez, já escrevi sobre esse autor. Na última vez, expressei meu desencanto - e expus as razões. Continuo encontrando problemas insolucionáveis nos seus romances pós Relato de um certo oriente e Dois irmãos. Mas um texto de Milan Kundera, lido logo em seguida à leitura de Órfãos, e a própria leitura, proporcionou-me uma pequena reconciliação com ele. No texto, Kundera comenta que todo romancista convive com o "esquecimento devastador" do leitor que percorre um romance construído como um "indestrutível castelo do inesquecível, apesar de saber que o leitor só vai percorrê-lo distraído, rápido, esquecido, sem jamais morar nele". 

E talvez por não ter lido distraída, tendo que fazer inúmeras anotações à cata de possíveis trechos passíveis de análise (que, no fim, nem será feita por mim, nesta tarefa espantosa que é ser orientadora de textos de outros!), eu tenha visto mais "acordes requintados" nesta leitura do que na feita anteriormente. Em Órfãos do Eldorado, em pouco mais de 100 páginas, Hatoum conta uma história perpassada ora superficialmente ora de forma brilhante por uma lenda da Amazônia. Uma narrativa muito próxima de uma discursividade oralizada, sobretudo porque o artifício é o de um narrador que conta para um passante a sua história de riqueza, amor, incompreensão e perda. Não há nada, aqui, que cause o espanto de Grande Sertão Veredas, que parte do mesmo artíficio. E só no finalzinho da narrativa, a linguagem se aproxima do que deveria ser a fala de quem conta: um homem perturbado, que perdeu a riqueza e o grande amor, e a quem toda a cidade chama de louco. Não é a voz de um louco a que lemos.  E lamento por isso. 

Por outro lado, as redes de relações estão bem amarradas, deixando várias indícios que só fazem sentido se o leitor... prestar atenção! Hatoum como que faz o seguinte: como seria esta lenda se fosse um romance? E faz o romance, contando a vida de um homem fraco e uma mulher misteriosa. E a Manaus que surge daí, a história com seus jogos de identidade, não me causaram tanta antipatia como antes. Talvez porque minha própria concepção de literatura esteja mudando aos poucos, talvez porque simplesmente seja uma boa história. E Hatoum seja mesmo um grande escritor contemporâneo.
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quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

As praias de Agnés

As praias de Agnés é um dos mais belos documentários a que já assisti. E ao dizer isso logo penso que não me expressei bem. Poderia dizer, sem titubear::: um dos mais belos filmes. E ainda assim, falta-me a palavra exata, porque As praias são um exercício de dizer de si própria na forma de um ensaio visual. Em vez da escrita, a imagem. E que imagens? A da vida da cineasta Agnés Varda, que assina o filme. E a vida, aqui, está de tal modo entrelaçada com o fazer artístico que é impossível não se apaixonar por essa senhora tão cheia de fantasias. E mais ainda::: é impossível não desejar uma vida com tantas experiências-acontecimentos. A sua expansividade, a sua paixão, a sua intensidade pertencem a um mundo que me parece cada vez mais inabitado. E ao dizer isso logo penso que não me expressei bem. Talvez tenha sido sempre assim. Os artistas, os verdadeiramente tomados por uma força criativa e criadora, são quem vive da forma mais inteira possível, desligados do comezinho da vida.

Posso estar sendo idealista, mas é o que o filme da Agnés me suscitou. Ao tratar de tempo e memória, como toda autobiografia, ela me fez lembrar de outro autor-personagem, muito mais do que de seus colegas da Nouvelle Vague. Lembrei de Federico Fellini. Não especificamente dele, mas das personagens de seus filmes, aqueles loucos cheio de esperanças, apesar das dores. Nada é totalmente estranho ao discurso autobiográfico, mas o que emana daí é uma alegria genuína diante daquilo que escapa desse discurso. Diferentemente do que normalmente acontece, não vemos apenas os fatos "marcantes" de sua vida. Aquilo que, inicialmente, não lhe diria respeito muitas vezes toma conta da tela, e justo essa "colagem", esse "inesperado" se transforma, bem diante de nós, numa cena inesquecível que diz respeito ao outro, e não a ela mesma, a autobiografada. Assim, o outro é o protagonista deste documentário que, filmado em 2008, é uma espécie de testamento de uma vida dedicada à arte. Um testamento que é também testemunho.
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Tudo essa declaração apaixonada para anunciar que estou empenhada em voltar a assistir filmes com a constância desejada - que o diga Cildo, documentário de Gustavo Moura, que vi sábado assim que acordei, com o Poeminha transitando para lá e para cá, como se também tivesse adorando o filme. Queria muito escrever sobre A ilha de Bergman, documentário de Marie Nyrerod, para relembrar aos meus três ou quatro leitores o quanto sou apaixonada pelo cinema desse cineasta. Ou escrever sobre Bob Dylan - Dont look back, de D. A. Pennebaker. Mas deixa pra outra hora::: que as horas sejam minhas amigas, é o meu desejo.  

domingo, 22 de janeiro de 2012

os dias com ela

o fim de ano foi mesmo, para mim, fim de feira. queria escrever, mas calei. e já estamos quase chegando ao fim de janeiro. tempo tempo tempo. escrevi para mariamada: "conviver com amores partidos é como caminhar num campo de flores com cacos de vidros escondidos". eu passei anos me cuidando para não me sentir assim em relação a ela. aí, ela veio. e algo se partiu, sem palavras, sem grandes gestos. e quase sem nenhuma lágrima. e agora... é agora. jámeiodistanciadadosdiascomela, eu me pergunto ora por que ora se precisaria ser assim. ela -  que tem nela uma amargura atávica àquelas a quem pôs no mundo. 

e se um silêncio indeciso toma conta de meus dias, algumas alegrias apontam para o porvir. porque o tempo - e o horror que ele nos impõe - às vezes nos faz desviar do travo amargo. e ainda que reste em mim cinzas que teimem em não desaparecerem no ar, que existam sobras que exalem um cheiro de podre, eu carrego amores imensos. e são eles que protegerão meu filho de mim, uma mãe também. assim:::: um buraco na fechadura, um afagar de mãos antes que o sono tome de conta, um abraço que só alcança a perna, mas que se balança e pede um minuto de amor - que se estende por dias infindos. um passarinho. e eu me esforço para enxugar as asas que por ora, molhadas, pesam sobre mim. para ser, de verdade, uma mãe. não uma mãe triste. uma mãe. que ama.
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quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

perto da casa da infância i e ii

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

mimo



que eu gosto de decoração, meus dois ou três leitores que passam por aqui já sabem. Nem por isso, marinheira de primeira viagem, deixei de errar ao arrumar o quarto do Poeminha. Mandei fazer baús que até agora, por serem pesados e grandes, não servem para nada. Os brinquedos, indomáveis, migram para todos os cômodos e a mim cabe pisar neles, quase escorregar e, no fim da noite, recolhê-los para no dia seguinte deixar livre os espaços para as novas cirandas. Comprei o berço maior e mais bonito da loja e ele usou dois meses. Vieram os deslocamentos, as distâncias, os mimos. E agora só ocupa espaço. Mandei fazer uma cama com um marceneiro que eu não conhecia, e ficou simplesmente horrível. Um coisa medonha que quando a conta corrente ficar mais amiga será substituída de imediato. O guarda-roupa, mandado fazer sob medida, é mal distribuído e não parece lá muito branco, sua cor que deveria ser.

Por essas e outras, o quarto do Poeminha, solenemente ignorado por ele, que prefere dormir conosco (ops! comigo!!! eeeeeeehhh), é mais um depósito de brinquedos do que qualquer outra coisa. Porém, lá tem três objetos bem bacanas: a cadeira Charles Eames, ocupada pelo Cebolinha e o Woody; o quadro do Yellow submarine e o cabideiro Hang it all, também dos Eames.

E este último tem uma história daquelas.  Demorou demais a chegar. Eu moro na mata, como todos sabem. E o frete para mata não é de brincadeira. Eu comprei na Desmobília online e enviei para a casa de uns amigos, em São Paulo, que me prometeram enviar para cá a preços bem mais aceitáveis. Mas meus amigos  - leitores e malemolentes - deixaram-no lá, esquecido. E só quando eu fui, em julho passado, com mais de um ano de comprado, é que eu o trouxe. Finalmente, ele ocupa seu lugar de direito. Adoro. Gosto de tudo dos Eames! Tudo é delicado, como pronto para habitar uma casa de boneca. E é útil, muito útil. Ao contrário das outras coisas...

(ando assim neste início de ano::: querendo casa, amando a casa, cuidando da casa...)
e
m

p
a
z
!