sábado, 10 de agosto de 2013

Na XIV Fenearte

vimos só um pouco da XIV Fenearte, no Centro de Convenções, em Olinda, mas foi suficiente para querer transformarmos nossa casa num grande celeiro do artesanato pernambucano. saí de lá com uma linda colcha de retalhos. retalho mesmos. nada de patchwork forrado com cada quadrado no seu lugar. uma colcha de retalhos como aquelas que cansei de ver na minha infância no Ceará. 

nós = rô, sandra, manaMácia, Tatupai, Dudu. 









sexta-feira, 9 de agosto de 2013

pausa

estava de férias. não foram as minhas férias. não como eu havia planejado. porque, na verdade, eu só havia planejado a Abralic e, depois, ficar na rede na casa da minha irmã Morg, que mora pertinho do mar, mas, desconfio, ver pouco o mar e, menos ainda, sente o seu sal.

não foram as minhas férias, mas foram boas. ainda estão sendo, pois fico em casa mais um pouco de dias. foram boas, mas uma gripe forte e uma inflamação medonha na garganta me perseguem há mais de mês. foram boas, mas continuo pensando nas férias que não vivi. e ao mesmo tempo me é tão estranho querer umas férias para tão-somente deitar na rede. acho que o desejo tem muito a ver com a gripe::: meu corpo pede descanso. faz tempo.

andando na praia, falei pro Tatupai que a cada viagem imagino ao menos umas vinte postagens - e às vezes não escrevo nada ou, no máximo, duas ou três. mas como o sumidouro da memória me leva tudo, sinto vontade de escrever, ainda que por tópicos.

daria uma postagem, nós - Sandra, eu, Dudu, Rô, Tatupai - em Recife, praia de Boa viagem, Sandra olha o mar e chora. e diz o que nós, nordestinos, tanto sabemos como ansiamos::: o mar é lindo, a praia arregaça nosso olhar. e a lágrima vem. ou o sorriso. porque a beleza está posta. é só senti-la.

tenho medo que ele morra com este cigarro. mas só por isso. porque o sinto tão lindo. e tão meu.


e ele mesmo. e ela. o jogo e a contemplação. n o agora estava todo ali. na sua beleza. e na sua escuridão. e isso bastava. sim. 



 e ele. tem nome: amigo.

sábado, 15 de junho de 2013

texto sobre poesia

terminei o texto sobre marcos. noites e noites sobre a palavra de um outro. um outro determinante na minha formação acadêmica e mesmo no modo como tento me colocar no mundo. 

o que aprendi com o marcos só fui processar muitos anos depois. o que aprendi com mariamada também. na época, eu estava muito absorta exercendo meu egoísmo e meu deslumbramento diante das coisas do mundo. acho que nunca vou me arrepender daquela intensidade toda. mas quando olho para trás sinto imensa vontade de dar um passo atrás e me deixar levar pelo braço. o que teria sido meu doutorado se tivesse deixado que marcos e mariamada fossem ainda mais presentes?

acho que é por isso que volta e meia peço para ele ler um texto meu e que agora esteja empolgada com a possibilidade  de desenvolver um trabalho com ela. quando vim para cá perdi todas as pessoas que determinavam a minha vida de uma maneira muito intensa. e também só fui sentir falta disso muito tempo depois. agora, o que me vem são todos esses aprendizados. e amo estas pessoas de um modo ainda mais forte. agora sobreponho a esse sentimento de deslocamento uma vontade ainda mais bonita de estar com eles. e de estar com todos de uma forma ainda mais inteira. ainda que eu me ausente.

só queria registrar isso. que continuo firme. e estou inteira. já fez um ano que, perdida lá em Belém, carregando as dores todas de uma vida dos últimos três anos, ao invés de sucumbir, eu resolvi sair dali, daquele lugar incômodo de desesperança. contou muito a risada do meu amigo Rivero, que me fez recordar quem eu era antes. foi fácil não. mas o que é fácil? e ainda que eles não saibam, foi neles que mirei. mirei naquela manhã remota em que marcos me disse que sabidinha como eu havia muitas e a diferença não estava ali, mas no que eu deveria fazer a partir dessa condição. ninguém nunca me havia dito nada parecido.  talvez só Manamácia, quando eu tinha 15 anos e saía da casa dos meus pais para nunca mais voltar. na época, ela me escreveu dizendo que havia um mundo a enfrentar e que eu o fizesse com coragem. também mirei na mariamada e nas tantas vezes em que ela apostou todas as fichas em mim, mesmo quando egoísta e teimosa eu me recusava a ouvi-la, como se ouvi-la significasse sucumbir a um mando que fugi toda a minha vida. agora sei que tudo isso foram ensinamentos que me levaram ao movimento, ainda que intempestivamente.

será que envelhecer é isso? ver tudo com tanta clareza? minimizar os próprios acertos e maximizar o dos outros?  talvez sim. e se for, estou gostando muito da experiência. 
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(e o título se explica porque o texto que eu fiz é sobre a poesia de marcos).  

quinta-feira, 6 de junho de 2013

cena caseira

como diz o Tatupai, agora temos um filho e uma gata. ela veio. recusou-se a ir embora. e agora, sonolentamente, acompanha meus dias e minhas noites enquanto escrevo.





sábado, 18 de maio de 2013

café



em 2010, viajei para casa. porque estamos sempre voltando para a casa da infância. queria que meu pai visse meu filho, então com alguns meses. e vi. ele andou com meu filho no colo pelas ruas que já não são as mesmas da infância. e são. porque tudo fica. ele lá no colo do meu pai. nesta volta, dolorosamente, vi a cara da morte. e me deu uma tristeza funda. como eu morreria se meu filho estava ali para ser cuidado? quem cuidaria? a vida passa. e o que me consolava era ter vivido. e vivido bem. a dor é tão silenciosa.

nestes quase três anos depois da quasemorte, não prolonguei minha vida como desejei ali, cara a cara com ela. tropeços. mas sinto que nunca faltou amor ao meu Poeminha. nunca. mesmo quando ele me chama "só um pouco", escancarando a falta, sinto que ele sabe que há em mim um amor imenso. que eu sou feliz, como ele diz. e que ele mesmo é feliz. como aprendeu a verbalizar a diferença? eu não sei. sei que pergunta: "mamãe, você está feliz?". e eu respondo. às vezes sim, às vezes não. às vezes. e ele diz: "eu estou feliz". fiiz.

em 2010, sentia mesmo que voltava para casa. que era uma volta diferente das outras. porque pela primeira vez eu tinha uma família. uma familinha. queria mostrar meu filho àqueles que eu amava. entre eles, Arev, a amiga que me ensinou o que é ser amiga. ela está lá e quase nunca nos falamos. mas meu amor por ela é tão presente que chega a doer. sinto que ela sabe tudo de mim, como Mariamada sabe.

então, eles entenderiam esta noite. mariamada, arev, meu pai. meu pai que agora sofre. que agora perdeu o irmão. o irmão que eu fotografei naquela manhã de 2010. fotografei na área da casa da minha mãe. ele que foi lá ver meu filho, o Poeminha. e agora, foi embora, num repente. naquela manhã, tudo ainda existia. meu pai e minha mãe juntos. minha casa da infância. os móveis já outros que sempre odiei e ao mesmo tempo amei. tudo estava ali. registrei a elegância do meu tio lembrando que na infância ia para a casa dele e roubava as bolachas escondidas no armário. e ali eram todos tão bonitos, tão discretos, que nem demonstravam exasperação por uma ladra mirim de bolachas salgadas. eu, que sentia fome de tudo, principalmente daquela paz que parecia existir ali, naquele ermo longe da cidade.

lembro bem. e se agora doi, sei por que. a família do meu pai tem um olhar profundo. olha-nos como quem sabe. como quem diz. não há véus. ou é amor ou é nada. sabem cultivar o silêncio e exasperam todo e qualquer barulho maledicente. os mais antigos, os que estou vendo partir aos poucos, sabem. por isso, a travessia desta noite triste. eu pergunto sem medo e com a cabeça meio tonteada::: você está aí? você me vê? e me vem uma vontade de reafirmar minhas promessas. e de... tio, lembra daquela casa? lembra do corredor estreito? e dela arrastando seus chinelos? e comendo como um passarinho sentada no fogão de lenha? lembra, tio? era nossa vida. e isso ninguém nos rouba. é nosso. está aqui. ainda que agora tudo nos falte.


foi quase ali, como o que fica nos rastros da memória. as cãimbras nas pernas. o rio. a serra. a serra que não escalei. a água represada. as bolachas. os queijos prensados. o terreiro enorme que dava para o rio. as tias dele que se foram bem antes. a casa grande. sua mulher tão bonita. seus filhos tão louros. a manteiga batida na tigela. a minha meninice quase sempre triste. é nossa história. e se hoje, ele nos falta, se ele se foi, ele, o herdeiro do nome do meu avô, este Inácio como o outro também era, o mundo todo parece acabar junto, mas ficará nos seus, em nós. só posso então atravessar esta noite e desejar que seja assim comigo, que eu vá, sem hora marcada. sem a lenta agonia como a daquela doença de sobrinha que certamente assustou o meu tio naquele agosto de 2010. neste agora, o susto é nosso. e eu me pergunto como não trair aqueles que carregavam a beleza do silêncio. e desejo ser uma herdeira à altura de todos aqueles ensinamentos. de saber manter vivo o que sempre reconheci como o que há de melhor no humano. se foram eles que me ensinaram, herdar. por Poeminha, por eles, por mim, por quem eu amo.
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quarta-feira, 8 de maio de 2013

Kevin, ainda quero falar


O que há, precisamente, num filme como Precisamos falar sobre o Kevin (2011), de Lynne Ramsay, que só agora assisti, é uma contenção a que nos acostumamos a amar no cinema. Uma contenção que, ainda assim, está mais no corpo, nos gestos, da mãe. Talvez porque esteja próximo o dia das mães, talvez porque a relação com a minha nunca tenha sido a que eu desejei, senti-me profundamente tocada por esta mãe - a do filme. 

As resenhas que passei o olho pela Internet insistem que o filme faz uma relação muito direta com a inabilidade da mãe em lidar com a personalidade difícil do filho (e isso é quase um eufemismo). Não acho! Há essa inabilidade, há o filho com a personalidade doentia e, ainda assim, há o não-saber. Ainda que por diversas vezes o tempo vá e volte reconstituindo a vida de Kevin, a cena final ainda é que melhor especifica as razões do filme. Quando se pergunta a razão da barbárie, que é o mesmo que perguntar por que foi daquele jeito, e não de outro, Kevin já não sabe responder. As certezas que conduziram ao horror já não estão ali e resta uma reconciliação impossível. 

No fundo, estão todos mortos - sobretudo os vivos - e, por isso, o vermelho tinge a tela. E aí é preciso pensar no cinema como uma estética, mais do que como uma ética. Há o vermelho, mas também o branco.  Há beleza nessa ausência de rastros que só passa a existir depois do tingimento de vermelho. Ou seja, depois da dor. Até mesmo o quarto dos pais que era o único que trazia algo de próprio, do desejo do sujeito, é respingado pelo "antagonista", daí a assepsia dos outros lugares, desde o quarto de Kevin até a cozinha e a sala da enorme casa, que especificam bem a frieza das relações que não se completam: os pais que se amavam veem o amor interrompido pelo filho; a irmã que ama o irmão, que a odeia; a mãe que não chega a amar o filho que a odeia e a comunidade incapaz de compreender aquela mãe - porque ela própria vítima. E não deixa de incomodar este papel da comunidade - como se o horror estivesse mesmo em ter que viver ali, depois da perda de tudo, daí não poder ser diferente o fim - que parece encaminhar para o vazio, ainda que o branco da luz. O oposto do banho coletivo de sangue do início.

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Fui dormir doída. Sem Poeminha por aqui, que foi para a casa da avó a quilômetros de distância, só me restou uma dor difusa. 
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domingo, 7 de abril de 2013

resíduos


muito do que disse na postagem anterior, tem  a ver com os resíduos de inúmeros trabalhos maçantes que acabo agregando por causa dqueles que, na universidade, realmente dão prazer. há algo de perda da inocência. 

e por outro lado, ontem, eu me senti realmente emocionada por não ser o Bartebly - quem entende? pode vir a ser também uma história de frustração (há sempre paredes), mas há um movimento vivo no aprender, no sair da zona confortável da especialização. por isso, sinto uma espécie de embriaguez junto com o desejo de me envolver em mais um mundo. a isso se dá o nome de alegria.

então vale a pena. não é a aridez dos espaços sem afetividade que deve prevalecer. é preciso contar com o "próprio taco" e dar garantias a mim mesma de que não me transformarei naquilo que rejeito. é a isso que tenho procurado dar valor::: um caminho ainda verdadeiro.

porque há caminhos que parecem tão mais poderosos que o meu::: foi o que senti terça-feira ouvindo duas mulheres especializadas em cegos e surdos (sim, são as palavras, segundo elas. aquilo que é). achei bonito. aprendi um tanto de coisas. me emocionei. chorei mesmo. imaginei que há ali uma espécie de gratidão que não é fácil de ser encontrado.

então, ontem, enquanto meus homens dormiam, passei a manhã lendo a autobiografia de Bergman, Lanterna mágica, lançamento da Cosac Naify. Esqueci as tarefas atrasadas, os livros que realmente precisava ler, os filmes a que queria assistir (assisti à noite), a casa que precisava de uma faxina urgente. Ficamos ali, eu e Bergman. Eu leitora, e ele narrador. 

Causa-me um espanto medonho como tanta dor é colocada em suspenso, ou colocada a serviço, para que toda uma obra se faça. Uma obra que há muito tempo é uma das mais importantes para a construção de mim - e por que não? para além de toda a teoria que sustenta a crítica, não é para se espantar que lemos? e junto com o espanto vir algo. indefinível que seja. o indefinível que sustenta, por fim, os longos dias de trabalho enfadonho, como o dia de hoje.
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* a foto não tem a ver com o texto. mas lembrei de belém. do rivero. e deu saudade.

domingo, 31 de março de 2013

das horas

        imagem da bienal de artes de são paulo que eu esqueci o nome do artista
o problema do excesso de trabalho, às vezes, nem é o excesso. é a vontade de não fazer. há sempre um momento em que dá vontade de ser um Bartebly e sair espalhando: "acho melhor não". e essa vontade de não fazer advém da constatação de que toda a vida está girando em torno do trabalho. eu não sei como me meti nessa roubada. eu que sempre fui tão desatenta com as coisas do cotidiano, envolvida num mundo interior que eu julgava tão conturbado quanto bonito, tamanho o excesso de lindezas a que eu me permitia - um pouco todos os dias.

eu levava tão a sério uma vida voltada para a belezuras que fazia listas e mais listas. do que fazia e do que ia fazer em breve, muito breve. as listas persistem, mas não tenho vontade nem mais de atualizá-las. compro livros que não têm a ver com os estudos muito mais por compulsão do que por acreditar que vou lê-los. teimosa, separei uma pilha desses livros e fiz a lista com um título irônico de "lista-deleite" (uma das bobagens que ando precisando saber para poder não morrer de fome), com a esperança de que... O último leitor, de Ricardo Piglia; A filosofia da composição, de Edgar Allan Poe; Andy Warhol, de J. C. Danto. Reparem que nem são livros de literatura. São ensaios que até servem para os estudos, mas que por não se relacionarem diretamente com as mil atividades que caem diariamente sobre a minha cabeça, têm poucas chances de serem lidos, apesar da minha boa vontade de separá-los em pilhas "especiais".

minha vida tem parecido isto: pilhas especiais de desejos não cumpridos: domingo com os dois homens da minha vida, sono de 10 horas seguidas, 3 a 4 filmes por semana, 50 páginas de leitura por dia, alguma viagem (Inhotim continua lá e eu aqui descascando batatas...), parecem não caber mais; assim, coisas que eu fazia bem, tudo muito, como já me disse Mariamada.

agora, eu só cumpro a lista de "Tarefas diárias". e ainda assim, malemale. quando eu vejo, já há muita coisa acumulada: relatório com prazo estourando, monografias a serem lidas, orientações não dadas, emails não respondidos, organização de evento super atrasada, e os anais do Silic anterior. como assim, ainda não foram enviados aos participantes? e a organização da revista, também nem comecei? e já venceu o prazo da revista que enviaria um artigo? venceu hoje? pois é. uma colega de trabalho, com o mesmo acúmulo desumano de trabalho, me disse que estava com medo de virar uma farsa. ou melhor, já estava se sentindo uma, tamanha a falta de tempo para o exercício da reflexão. assino embaixo. houve um tempo em que eu pensava que ser professora universitária era o grande lance para ter tempo  de estudar, ler, pensar. agora, pareço um camelo. 

daí que volta e meia eu me pego pensando em fazer de novo um concurso que me levaria de volta àquele empregodeassinarpontotodososdias, como o que eu tinha há alguns anos e ganhava mais ou menos o que ganho hoje e tinha tempo de passar longas noites de festas e tempo para ler meus livros, e tinha dinheiro para viajar e também para jantar quase toda noite no que eu considerava o restaurante de peixe mais saboroso de Porto Velho. tudo bem que eu era jovem e gastava mesmo só com estas bobagens. não me importavam em nada as espinhas no rosto, o cabelo oleoso na raiz e as roupas compradas nas lojas Marisa. agora, com quase 40 anos, até as espinhas irritam, para não falar sobre as tais gordurinhas que teimam em se apossar no meu outrora corpo magro. Mariamada, que me conhece como ninguém, não leva a sério estes meus resmungos. no telefone, eu reclamo, resmungo, ameaço chorar e, quando menos esperamos, já estamos dando gargalhada e traçando planos para... mais trabalho (!). assim, nem eu posso me levar muito a sério. de todo modo, hei de encontrar um jeito de refazer o meu percurso para poder me livrar de um tanto de tranqueira. 
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segunda-feira, 25 de março de 2013

a aridez


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Nosso hino canta essa aridez
- um canto cavo e pesado
feito de sopa, cipó e aço
que afoga os cantores

(Nuno Ramos)

cada vez que algo bem pancada acontece, meu primeiro gesto é ficar meio histérica, falando pelos cotovelos, pensando mil vez mais rápido do que a capacidade humana pode suportar. mas meu segundo gesto, que - ainda bem - vem sempre de forma rápida, quase um tiro certeiro na histeria, é embarcar no meu imaginário. ou seja:::: acionar que sou uma pessoa para quem a arte conta.

isso me leva a buscar bem longe de mim as soluções para a incompreensão. com o tempo descobri que a amargura não passa. ando cada vez mais descrente com as pessoas no mundo. cada vez mais uma dúzia e meia de pessoas são as que me protegem. e cada vez é mais difícil acrescentar alguém a esse grupo seleto. sinceramente, não era isto que queria para mim.

não sei se foi o percurso, mas a descrença não me faz querer embrutecer. só assumir que, sim, há muito gente que me são desprezíveis. que me são. mas há a literatura. sempre há. e há a música. e há os filmes. todos esses dramas que, exteriores a mim, devolvem o meu interior.  
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não se pode amar a arte, qualquer que seja ela, sem reconhecer - ainda que de forma parca - a condição humana e tudo que há nela de inapreensível. é como enrolar esta corda::: deixá-la a serviço da próxima ação; isto é, pronta para desenrolar. lembrei agora dos dias em que li Barba ensopada de sangue. foram dias felizes, ainda que tudo que há ali de inapreensível me intrigasse. lembro dos dias que li. e me vem uma vontade de me afastar, como um recomeço que por ora me é interdito
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quinta-feira, 21 de março de 2013

estou lendo ana c.

estou lendo Ana C. suas  cartas. fico toda dolorida. como é que não teve forças para envelhecer? um pouquinho mais de - coragem?. sei que fico com dor no peito. uma intimidade quase ultrajante. é isso ler cartas, não? invadir a privacidade do outro. ainda que o outro não se desfaça do estilo, como ela confessa - culpada - diversas vezes.

na semana, vi Cesar deve morrer, dos irmãos Taviani, enquanto dormitava. quem sou? tem algo dessa pergunta em todo Shakespeare. e é o que possibilita toda a entrega dos presidiários no filme. ser outros. ser. é tudo tão contido que custo a acreditar que não há ali atores - o traço limítrofe da especialização, da profissionalização. me deu vontade de querer outra coisa. e desde lá, uma frase não sai de mim: "falta tempo para sermos o que queremos ser".

onde estará aquela moça em frente à janela com cortinas de tecido cru? sinto falta dela, ainda que agora as portas sejam amarelas. 
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quinta-feira, 7 de março de 2013

filminhos

assisti a muitos dos filmes que concorreram ao oscar. se as leituras continuam aquém do desejado, deixando-me sempre aflita com essa demora, com o tempo encolhido, ver filmes tem sido um modo de recuperar uma vida que roubei de mim, envolvida entre tantas tarefas.

e ao ver os filmes oscarizados, com esse peso do que é muito importante, instantaneamente recuperado, fez com que eu fosse mais crítica do que geralmente sou. ou antes:::: por um lado, empolgação por estar me dando este tempo, por outro, uma certa decepção diante dos "resultados". não sei bem definir.

não há do que duvidar que Amor, de Michael Haneke, é um filme dolorido, que provoca uma espécie de horror que só a dor pode causar . há ali uma incrível coragem de mostrar a inevitabilidade do tempo que passa. como se. como se não importasse o quão interessante possamos ser, próximo do fim, se ele não chega de modo inesperado, seremos sempre um fardo. Amor só não me impressionou mais do que A fita branca, do mesmo diretor, que também assisti agora. Assisti também a Tempos de lobo e, embora tenha gostado bem mais do que Lilian e Rô que viram comigo, o certo é que Amor é muito mais impactante do que essa fábula dos fins do tempo que é Tempos de lobo. Dentre todos, Amor é o que deveria ter ganhado a estatueta de melhor filme. E é um filme que depura toda a disposição para o segredo de Haneke.

e eu gostei muito de Argo. O suspense, a tensão, o manter teso o "arco da promessa" é uma grande qualidade do filme. mas ainda agora me pergunto o que o fez ganhar todos os outros grandes prêmios que culminaram no prêmio de melhor filme. e teimo em pensar que, apesar de ter o dom de manter a atenção em alta, não, não é um filme excepcional, não é o "melhor", mesmo que não haja um outro para ocupar o lugar. não entre os que constavam na lista como "oscarizáveis". fiquei com a impressão que é gesto desesperado de hollywood para nos fazer crer na perspicácia e na eficiência da inteligentsia americana. e por outro lado, se pensarmos cinema como entretenimento, sim, talvez.

e lincoln. ah, gostei. inclusive do escuro. e do tédio. sim, é um filme que entedia. se era para lincoln ser o grande homem carismático, ficou mais a imagem de um homem que entende da dor. e entre argo e lincoln para melhor filme, eu teria escolhido o último. acho que há também aí uma espécie de revolta:::: a cada vez que spielberg faz um filme "sério", há um levante contra, como se ele não pudesse fazê-lo. e isso me cansa.


alguns filmes não entendi porque estavam lá. O que é A indomável sonhadora e mesmo O lado bom da vida, como oscarizáveis? bem, a própria academia já deu a resposta, ignorando-os quase que solenemente, embora tenha dado o oscar de melhor atriz para Jennifer Lawrence. O roteiro de O lado bom da vida parece ser um daqueles de sessão da tarde, só que com mais drama. O desajustado que se recupera porque encontra o amor de sua vida (que lhe mostra como a vida pode ser bonita quando se tem um objetivo "bonitinho") é um enredo "universal". Nesse sentido, As vantagem de ser invisível é muito mais interessante, porque trabalha com as mesmas estereotipia do gênero e coloca ali um dado totalmente surpreendente. E A indomável? Gosto muito da estranheza, mas quando fica parecendo muito over, sem um objetivo claro, me incomoda. 

e ainda teve Os miseráveis, Django livre (Tarantino é uma história de amor antiga)... E outros filmes antigos, não tão antigos. safra realmente boa. 

mas se pareço rabugenta, não é que eu não goste da ideia do Oscar, ou de premiações. pode parecer fora de moda, mas eu não sou daquelas que discorda da força dos especialistas, dos críticos. em tudo há um filtro, uma perspectiva. a perspectiva do Oscar é clara = a de legitimar o que é feito no solo norte-americano e, mais ainda, em Hollywood, com a força do que isso significa. o que me incomoda mesmo é essa indecisão, que advém fatalmente da obrigatoriedade de se adequar aos novos tempos. ficar pondo filme com jeito de "independente", mas já mostrando de cara o que de independente pode entrar, não vai apagar os traços conservadores dessa instituição. e convenhamos::: algumas instituições só têm graça, se é que têm, porque são o que são.

afora a isso, que prazer assistir a filmes, nem que não possa ser mais no silêncio - Poeminha está sempre por ali a demandar algum tipo de atenção. E há as amigas que vêm, os horários que não batem, a vontade de ver mais. 
 
é bom ainda assim. ou porque é  assim. ponto.



quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

familinha


 meu amor é bem maior do que todo posto

dias de paz. pode não ser verdade (não em outro momento), mas mergulhada no mundo da casa, estando o tempo todo com "meus dois homens", me vem o pensamento de que seria feliz assim::: só cuidando deles, só cuidando da casa, só lendo meus livrinhos, só assistindo aqui e ali  a algum filminho. planejando, cumprindo. tudo "inho". é bobagem, claro. mas é desejo. é uma sensação de estar no mundo com as pessoas certas. de sentir aquela sintonia que não houve em nenhum outro lugar, em nenhum outro tempo.

e sim, queria mudar aqui e ali. em mim e no tatupai (Poeminha por ora só nos encanta - nada a reclamar). mas para além disso, vem uma... vem. e dizer o quê? como nomear isto? como não temer que isso um dia acabe?

dias destes, estava no quarto e vi o tatupai passar com um punhado de verduras na mão. ele estava preparando o almoço e veio ali colher cheiro verde na sua horta improvisada na antiga banheira do Poeminha. e sem querer, senti o olho lacrimejar. uma emoção antes mesmo que eu soubesse nomeá-la. e achei que a vida era isto também, que esta também era uma boa razão para estar no mundo::: para poder ver o parceiro colher verdura para o almoço que preparava para nós - uma familinha. 

uma familinha.

não não. não é a instituição que defendo. esta, que esconde tantos podres nos seus tapetes ordenadamente limpos (e eu gosto de tapetes ordenadamente limpos, embora quase sempre esteja pronta para pôr para fora os tantos podres). esta que para se sustentar precisa fingir que aguenta todas as terríveis palavras, as terríveis ações e, pior, as terríveis omissões. o que defendo é este momento. é esta possibilidade de estar assim, a dois, a três, e sentir esta ternura. esta alegria. esta (a)ventura.

será possível pedir o impossível? se for, peço para que seja sempre assim::: esta lindeza bem maior do que.
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quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

A barba ensopada de Daniel Galera (e mais)


queria ter composto uma lista dos livros lidos na ilha. e depois da ilha. mas os dias foram passando e já não faz mais sentido. a ilha foi na virada do fim do ano. muito calor, rio, pessoas bacanas ao redor, cerveja que ora havia aos montes, ora desaparecia.  daqueles dias que rendem boas histórias para contar aos netos. não posso deixar de dizer que Poeminha se sentiu "o dono da ilha", como se para ir de um lugar a outro não tivesse que passar por pontes suspensas. foi, de fato, uma lindeza.

e eu, com ele tão à vontade, tão amado, tão cuidado pelos outros, li de manhã à alta noite (com lanterna). foi lá que li Barba ensopada de sangue, de Daniel Galera. e muito provavelmente por tê-lo lido, numa noite, desandei a chorar enumerando todas as minhas dores; todas que poderiam não ter existido e todas que teimam em perdurar ad infinitum. uma expurgação.

por que o livro me causou esta reação, não sei. por que gostei tanto do livro, também não sei. são perguntas que me faço desde lá. e quanto mais o tempo, menos sei a resposta. eu já havia lido os outros livros de Galera e me impressionado bastante com Mãos de cavalo, que saiu em 2010. E recentemente, havia lido Até o dia em que o cão morreu, comprovando que o livro é bem melhor do que o filme Cão sem dono, sua adaptação. 

provavelmente não foi o cálculo que me fez gostar. ou o que chamo de cálculo na literatura brasileira recente. porque isso é o que, de fato, mais me incomoda. toda uma leva de autores que escreve muito bem, mas incapaz de produzir uma emoção sequer que não pareça friamente calculada, como se saída daqueles manuais de retórica. e tudo parece milimetricamente calculado em Barba ensopada de sangue, criando passagens belíssimas, e sem me causar o incômodo costumeiro.

também não foi a forma como a passagem do tempo se dá no romance (embora disso tenha gostado). eu sinto falta disso. histórias de um dia só, de um mês só, se mal feitas, são uma chatice de doer. imagino que todo escritor queira ser um james joyce, mas muitos romances por aí são a prova de que nem sempre dá para fazer uma história marcante que se passa em um único dia.

talvez tenha sido o nada-a-acontecer. a astúcia (calculada ou não) de o próprio enredo ser também a forma como o romance é composto, como se a "memória problemática" do protagonista estivesse formalizada no próprio esquecimento da história a ser contada, restando-nos saber o que acontece no entremeio de uma busca: um cotidiano de adaptação a um lugar, novidades, difícil reconhecimento, relações quase nunca solidificadas, afetos que guardam segredos nunca contados; tudo pelo filtro do protagonista (e no entanto a narração é em terceira pessoa, o que também me agradou).

(lembrei agora de uma das cenas "calculadas" - a da visita da mãe. e aquela mãe, na sua maldade inconsciente, na sua futilidade tão à vista, me pareceu uma das mães de Bergman. é a mãe de Sonata de outono, mas com um filho capaz de suportar. não é uma cena tão importante como a primeira - a do encontro com o pai -, mas ajuda a explicar a razão de o protagonista acatar o que é dito nesse encontro, que é o próprio inaceitável). 

o livro é a promessa de uma história que, feita no início, é quase esquecida no seu decorrer e que só se cumpre quando não parece ser mais importante. e não. não se trata de um romance em que nada acontece. mas o que acontece nesse lugar de passagem pouco tem a ver com a busca. dá para sentir o peso do esquecimento. e isso me pareceu muito poderoso. e se essa é a razão de eu ter gostado, é porque penso que a literatura deve se desviar do previsível, ainda quando pareça se aproximar dela. é preciso "girar em torno" do assunto principal. e isso Daniel Galera fez muito bem.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

acúmulo. coisas. memória.



de novo, cuidando da casa. aliás, nunca deixei de cuidar. é uma paixão (mas há um tempo que até as paixões mais mundanas cessam). d. antônia foi embora pela enésima vez, embora sempre volte. então, tenho me dedicado ao cuidar. e também ao aprender não cuidar tanto assim. este último aprendizado é o mais difícil. uma vida toda condicionada à limpeza, à organização. a mente demora a acostumar-se com a poeira que acumula, com os brinquedos que se espalham, com os sapatos que teimam em ficar onde não devem. a difícil empresa da mudança. da promessa cumprida.


o que me fascina é o impermanente. o que pode mudar. embora raramente eu me disponha a fazer qualquer mudança. tatupai mudou a sala depois de muita resistência da minha parte. e eu tive que admitir que ficou bem mais bonita. no lado certo. é o outro lado::: a memória. nossa casa é repleta de memória. cada objeto lembra uma passagem. um momento. um outro lugar. aqui, o quadro do joéser ganho numa noite de reencontro. e a fotografia da lan (e fora do enquadramento da foto, clarice e cy), o banco comprado depois de uma noite divertidíssima com nosso amigo celso, o quadro-cadeira comprado em recife. a luminária que pende do teto toda feita pelo tatupai. nossa amada estante de cds. o sofá finalmente da cor que sempre deveria ter sido. é tudo história. é acúmulo, mas é memória.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Arquivo 4: Adriana Varejão

Para atacá-la como se ataca também um sujeito, deve-se atentar contra o subjétil mesmo, deve-se tratar e às vezes maltratar o sujeito da representação sob o sujeito da representação, violar esse debaixo do debaixo; e já que viemos assistir a tal "bombardeio", a esse "dilaceramento"... (Jacques Derrida)

embora não seja uma especialista em artes plásticas, isso não me impede de distinguir, de escolher, de amar. uma amadora. e quando vi a exposição de Adriana Varejão no MAM, soube de imediato que a amaria para sempre. há na sua obra aquela estranheza que me interpela, que me choca::: o que não se dá de modo plácido - e é como uma estocada a cada novo olhar. as mesmas estocadas a que Adriana submete o seu suporte. ou seu subjétil, como diria Derrida.

ainda agora, quando olho as fotos que tirei (meras sombras), um arrepio me percorre. sim, esta mulher de fendas, de brechas, de feridas, de cortes, de vísceras expostas. o que poderia ser uma imagem plácida, é de repente cortada, bombardeada, cindida, atravessada -  e o suporte não suporta e precisa vir para frente, atingindo o espectador de um modo tão violento que demoro a me recompor. o que deveria estar dentro está fora, como se depois dela nunca mais fosse possível observar um quadro sem que imaginássemos que dali vai jorrar o sangue da violência da nossa História.

uma composição do absurdo::: o mar, ainda que mar, tem algo de ameaçador, de sombrio, como o lugar perfeito para ir às profundezas. o mar de onde chegaram para nos colonizar (uma sinonímia de violência). e o azulejo, no que tem de asséptico, é manchado de sangue. a História é corrompida, quando se mostra o quanto de violência há "debaixo" dela. uma "força de destruição" que dilacera e destrói o que um dia foi sereno (como as paisagens daqueles que passaram por aqui, pintando um Brasil idealizado). e se a serenidade é desfeita é por que a história passa a ser contada por uma subjetividade marcadamente ameaçada (que se torna, então, ameaçadora). 









entretanto, nada me pareceu mais terrível do que aquilo (uma úlcera na pedra quando explode). mas havia, ainda, o fino corte. finos cortes no azul da paz, da tristeza::: ou seja, da imagem estagnada da tradição. é ali, na História, que o corte é dado para fazer irromper as entranhas, como se tudo que há tivesse no seu "dentro" vísceras - que estão vivas. corpo. o que pode ser ferido, machucado, violentado, violado. o que pode ser morto e, ainda assim, parecer tão vivo. nada é agradável ali. tudo que se viu antes agora está separado, retirado da sua origem, como na paisagem tão antiga em que boa parte está separada do "corpo" do quadro e exposta na mesa, autopsiando um e outro suporte::: o que está na parede e o que, já morto, está na mesa como uma oferenda terrível. não há possibilidade de redenção em nenhum. tudo é rasgo, perfuração, dobras. 

e nada é agradável porque nada está a salvo ali. um tormento medonho trespassa tudo, de modo que a abjeção se alastra por tudo que existe. por toda arte.

(e ainda assim foi um momento tão feliz. mariamada estava por ali. sentada, como que me esperando, com um pouco de horror, como o que eu sentia, mas sem insistir em olhar, como eu insistia. mariamada estava ali e tudo me parecia muito bonito, como naqueles anos em que sempre estávamos ali).

(hoje meus dedos estão como "chumbo". fazendo-me lembrar quando estavam dormentes devido àquela doença já tão distante. e não. nada de ser "solidária de plantão". é tão sem emoção todas essas milhares de palavras de compaixão diante da tragédia. passei o dia pensando no que li no blog do zeca camargo. e minha resposta é quase a mesma. diante do horror do mundo, só nos resta, da nossa parte, viver bem. no sentido de não dar trabalho - nem para os outros, nem para nós mesmos. e tentar que o coração esteja em paz, para não fazer nenhum mal. para que a arte ainda seja o melhor dos mundos, para quando o nosso mundo for tirado de nós, for violentado, possamos dizer que não foi em vão estar por aqui).

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Arquivo 3: bienal de artes de são paulo


o título da bienal expressava bem o momento pela qual as artes passam. há uma generalidade do risco, como parece afirmar o título: a iminência das poéticas. como já disse: um título muito bonito, que nos evoca a tomar uma posição, a refletir sobre a nossa própria posição em relação às artes. o que queremos hoje das artes? o que esperamos? o que dizemos? o que ouvimos? lemos? vemos? num mundo com tantas imagens, quais escolhemos? penso que a única saída para não entrarmos na generalidade das afirmações seria pensar sobre a nossa disposição de compreender o fazer de cada artista; buscar ali, nas propostas, o diálogo que estabelecem (ou não) com as questões do presente. e foi o que tentei fazer.  

Como define o curador Luis Pérez-Oramas no texto que abre o catálogo::: "A iminência é a atitude da espera: esperar palavras das imagens; esperar imagens das palavras. E em outro momento::: "A iminência é nosso destino: o que não sabemos, o que acontecerá e está além de nós, independentemente de nossas faculdades, histórias e decisões". Este texto, que li após ter visitado a bienal por dois dias seguidos (com tantas atividades não vi os outros espaços além do prédio da bienal) é tão próximo do que tenho refletido sobre a contemporaneidade que por diversas vezes me deixou embasbacada, como se::: "é o que eu teria escrito, se soubesse".

Porque (sinto) há um movimento, ainda quase imperceptivel, de pôr em dúvida o que está aí posto como verdade, naquilo que diz respeito a um certo desprezo pelas poéticas a favor das políticas, como se desde sempre uma coisa não estivesse agarrada a outra, como se de repente coubesse às poéticas cuidar de todas as dores do mundo, fazendo deste mundo um globo miniaturizado (não seria isto a chamada globalização?). Não à toa a palavra poética, que parecia já uma palavra proibida, tem aparecido aqui e ali. E por mais que fosse difícil constituir uma ideia ante uma quantidade tão grande de artistas e obras, era perceptível a "sobriedade" que recobria a proposta, dando-me mesmo a impressão de que havia ali um conjunto de artistas que deliberavam sobre umas tantas concepções apressadas que revestem nosso tempo. E quando parecia que a bienal estava destituída de emoção (como a que senti naquela que chamei de "bienal do vazio"), surgia-me um artista que me tirava um pouco o meu chão, como  Hans Eijkelboom, Guy Maddin, Eduardo Berliner, ciudad aberta e, claro, Arthur Bispo do Rosário, que assim como outros deixa em todos nós aquela interrogação infinita:::: para ser artista, é preciso ter consciência do ser artista?" 

O que mais gostei foi o fato de poder se "demorar" sobre um artista, não apenas devido à ida dois dias seguidos, mas porque havia como que uma pequena exposição de cada um. Para uma amadora como eu, isso gera um outro movimento::: além do querer ver, o querer conhecer, o querer pensar no diálogo que cada um dos artistas acaba por realizar com outro.



ps1.  (Fiz uma pequena sessão de "pessoas no museu". Sempre este gosto por ver - também - o movimento das pessoas enquanto veem ou passam). 

ps2. (Mariamada passou todo o dia comigo e com a Rô. Vimos juntas parte da bienal. E nos dois dias seguintes, perambulamos em São Paulo. Relembramos um pouco nossas tantas viagens - das quais sinto muita saudade).


quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Promessas

promessas. fiz duas, para gerir este ano. duas apenas. talvez três. não vou proferi-las aqui. vou guardá-las para melhor realizá-las. o certo é que para cumpri-las vou ter que ir contra mim. contra minha natureza, como diriam os mais velhos. talvez seja por isso que as promessas de novo ano quase nunca sejam cumpridas. porque a promessa tem algo de impossível. é o impossível que queremos ver materializado. como um caminho que traçamos antes de caminhar por ele. ou de saber se conseguiremos caminhar. mas é preciso buscar o impossível. encontrar o impossível possível. sobretudo, é preciso de vez em quando retorcer "nossa natureza", forçá-la, forjá-la em nosso proveito, para não virarmos fósseis. caricaturas de nós mesmos. é triste quem passa a vida com as mesmas ideias, os mesmos movimentos, como se só trouxessem em si certezas. 

quanto a mim, tenho algumas certezas. mas insistentemente coloco-as à prova. ao menos, as que dou conta. quase nunca é fácil. mas tenho me dobrado. não me desdobrado. mas, sim, me curvado sobre mim para me pôr à prova. o que posso fazer para que eu possa fazer? é o que me atormenta. e o que faz com que eu tenha cuidado mais de perto do que aqui chamo de promessas. 

então, no anonovoqueinicia, vamos às promessas. não por uma vida perfeita nos moldes que aí está posto. mas por uma vida alegre -  alegria no sentido barthesiano. uma vida pensante. uma vida que se pensa. 

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Arquivo II - Oscar Niemeyer



Eu estava no show da Madonna, quando Tatupai me disse que a notícia triste era a de que Niemeyer havia morrido. Senti vontade de chorar, com aquele sentimento de familiaridade que deve ter acometido tantos brasileiros. Mas resolvi que não. Chorar por quem, se a vida que havia ido parecia ter sido tão completa?  E não é pela falta de inteireza que devemos chorar? Pois vida longa à herança de Niemeyer. Aos seus sonhos, às suas curvas, aos seus brancos-cor.

Dois dias depois, no Ibirapuera, como já fiz outras vezes, fotografei alguns dos seus traços materializados. Arquivo-os aqui, então, como já havia feito quando ele fez 100 anos.