terça-feira, 26 de agosto de 2008

Noite de popstar

Na semana passada, acho que dei uma palestra do caralho (continuo influenciada pelos roqueiros!). A primeira como professora na universidade. E eu juro: não sabia qual seria a reação de quem a ouvisse. Havia dias que eu precisava preparar o que dizer no seminário de integração na abertura do semestre. E eu estava na merda, como meus três raros leitores devem ter sacado. Tão na merda que não conseguia ler nem uma linha. Então fui escrever que é coisa que qualquer alfabetizado consegue fazer mesmo quando está na merda. E escrevi em uma única noite 19 páginas, que tive de reduzir para 13 para ficar dentro do meu tempo. Sem crise. Havia muita bobagem para ser jogada fora, além das que eu deixei. Então lá fui eu com meu texto, com minha blusa nova, achando que, se fosse cantora, assim que eu começasse a falar, começariam a voar tomates na minha direção. Qual o quê! Se minhas ouças não me enganaram, fui aplaudida como uma popstar (roqueira, evidentemente!) Li meu texto sem nenhum tremor, apesar do temor, levantando os zóinhos vez ou outra para poder desviar dos tomates antes de eles estourarem na minha blusa nova.

E os tomates não vieram. Era para eu ter falado sobre pesquisa. Importância da pesquisa. Mas eu não sabia falar direito sobre isto. Então falei torto. Tintim por tintim porque eu me considerava uma pesquisadora; desde lá do início quando eu era aluna no curso de Letras. E como tia disfarcei conselhos no meio da confissão. Falei de Sampa. De Paris – e de como eu me relacionava com estas cidades. Falei de minha compulsão por coisas novas. Das minhas lágrimas. Da minha paixão por Barthes. Da traição que fiz a ele quando preferi escrever a tese sobre Derrida. E das angústias dos impasses. E chamei tudo isso de pesquisa, de pesquisa para a vida, e disse-lhes que esta era a que realmente importava, que era realmente a que fazia sentido se não quiséssemos ser amebas pela vida afora. Disse-lhes também que a maior parte das pessoas prefere ser ameba, porque não sê-lo dá muito trabalho, mas que eles acreditassem: podia ser tudo muito divertido se eles realmente sentissem desejo, porque sem desejo nada valia muito a pena. Disse-lhes tudo com minha voz de pato e mesmo assim deu tudo certo.

E escrevi tudo que escrevi, disse tudo que disse, porque precisava me lembrar de quem eu era e por que estava aqui. E acho que os alunos se identificaram porque, embora o que eu disse em tese deveria interessar apenas a mim, todo mundo acaba se identificando com quem tem alguma noção do que quer fazer para preencher os dias neste mundo besta. Depois dessa façanha acho que mereço férias. De preferência, em Paris, por favor! Mas antes darei três disciplinas no semestre, preparando tudo bem direitinho para honrar com minha nova posição de popstar. Sim, sim, porque como uma popstar ganhei muitos abraços e muitas pegadas depois da palestra, com direito a me dizerem que foram entrando, entrando na minha conversa até se sentirem totalmente lá dentro do que eu dizia. Oh yeah! Estou me achando, mas, convenhamos, não é todo dia que isso acontece. Não comigo.
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5 Palavrinhas:

Anônimo disse...

Milena, sua produtividade tá tão grande aqui que é só ficar um tempinho sem visitar, e já aparecem tantas coisas e textos novos e ótimos (vou pintar mais amiúde).

E todo mundo tem direito a uma dia de popstar (embora eu ache que no seu caso, isso vai acontecer várias e várias vezes, rs).

Um abraço.

Anônimo disse...

Milena!!! Que delicia te saber popstar! rs...
Achei demais a história da palestra. E me vi exatamente como vc qdo fiz a primeira da minha vida. Diferente, foi o público. O meu eram professores (nós, professores somos uns chatos!!! rs...)
Gosto demais deste seu humor na escrita, sabia? Deixa o texto leve e super interessante!!!
Interessantissimos tb os outro textos, em especial o que fala de Nina Simone e do horror domundo! Concordo com o Halem, vc está hiper produtiva e com a qualidade lá em cima!!!
Beijos querida

Cristina Soares disse...

oi, Milena. Escute os meus aplausos pra vc (clap, clap, clap!). Ó, eu tbém quero ir pra Paris, só que com o agravante de que nunca fui. Mas estou mexendo os meus pauzinhos !!!!! Ai, ai... Beijocas

renata penna disse...

vixe, menina.
fiquei foi com vontade de estar lá pra te ouvir falando...
:-)

Contemporânea I disse...

hahaahh!! Adorei isso! Entendo demais essa sua sensação! è algo mesmo inexplicável a gente ser tão sincera, ter voz de menina chorona (eu tb tenho), engasgar com a propria fala, se emocionar pra caralho e ainda ser aplaudida e reconhecida!
Mi, tu merece muito viu?
beijos
Fa