terça-feira, 2 de setembro de 2008

Adolescente procura namorado

Estou como uma adolescente à procura de namorado, mas, no meu caso, estou atrás de um sujeito, de um assunto, para eu começar a rascunhar meu projeto de pós-doutorado. Como disse, chegou uma dezena de livros aqui, como se os que já se espalham por toda parte não fossem suficientes. O problema é que, depois de mestrado e doutorado em teoria da literatura, decidi que o pós-doc seria em literatura brasileira contemporânea. Até aí uma decisão muito sensata, porque supostamente me abre portas (aquela velha história de colocarem a quilômetros de distância a teoria e a ficção). Sensata se minha ignorância sobre estes dois qualificativos não fosse flagrante. Brasileira, porque cai sobre mim o imperativo de conhecê-la, afinal é minha profissão (não à toa estou no quinto livro de Machado por estes dias e percebendo que todos lêem o "grande" teórico tupiniquim Antonio Candido, menos eu, eu esteja me esforçando para nas noites insones ele me atrair). E contemporânea porque não suporto a idéia de me debruçar sobre escritores pra lá de revirados em estudos competentíssimos ou não tão competentes assim. O que é uma bobagem, porque sempre se tem algo a dizer, alguma linha a ser assumida e defendida.

Nos dias que penso assim, olho para a prateleira e sinto vontade de descer todos os livros do Graciliano Ramos e me embrenhar por eles, afinal ele é minha grande paixão na literatura brasileira. É verdade que cada vez que esbarro em Clarice, Lúcio Cardoso, Murilo Rubião, Raduan Nassar, Caio Fernando Abreu, Ana Cristina César, Leminski, Manoel de Barros ou Hilda Hilst eu tenho imensidões de gozo, porém não me vejo fazendo um trabalho sobre nenhum deles. Os poetas por uma razão óbvia: não sei escrever sobre poesia. E ainda bem que tenho a sensatez de saber disso, porque ouvi uma vez de um professor que a maioria das pessoas que se mete a escrever sobre poesia não é capaz de reconhecer uma figura, quanto mais as milhares de figuras que qualquer grande poeta espalha. Nos prosadores, às vezes também penso em Lúcio Cardoso, quando me vem aquele cheiro de violetas podres de Crônica da casa assassinada. Eu seria feliz escarafuchando toda aquela loucura e toda aquela carne apodrecida. E por que não faço? Porque eu não suporto... vocês já sabem.

O grande problema nas minhas decisões é que elas são sempre meio suicidas. Como aquela em que decidi fazer o doutorado sobre Derrida quando eu não entendia uma única linha do que lia nos seus livros. Tudo bem que aparentemente tudo correu muito bem, com direito a momento barata e borboleta no fim das contas. Porém, agora que estou como uma adolescente atrás de namorado, eu percebo o que qualquer garota nesta idade percebe: o que eu vejo até me agrada nos primeiros momentos, até vira paixão instantânea, mas logo vira enfado, bocejo. Eu quero estudar alguém vivo, mas minhas obsessões literárias estão todas mortas há mais de décadas.

O que fazer então se minha decisão cai sobre mim como um imperativo? Com o auxilio de meu amigo supersabido Marcio, fiz uma lista de livros, comprei-os e comecei a vencer a minha ignorância. Agora leio Bernardo Carvalho e Cristovão Tezza – e já cheguei a algumas conclusões: apesar de Bernardo ser um fofo, sua literatura é muito cerebral. Nenhuma porrada realmente certeira no meu fragilizado estômago bebedor de coca-cola e cerveja. E como toda mulher que gosta de um cafajeste, Cristovão Tezza me atrai. Sua ironia afiada, seus golpes certeiros na nossa suposta arrogância de superpotências me fazem rir e pensar um bocado. Enviei um resumo para um congresso em que falarei sobre O filho eterno, seu último livro. Tezza então tem sido a paquera mais promissora até agora, mas, tenho que admitir, paquero já com certo muxoxo, antevendo o bocejo.

...

Alguém poderia me dizer se existe um similar de Beckett, de Artaud, de Kafka nestas terras brasileiras que não seja o Graciliano nem o Lúcio Cardoso e que não esteja morto há décadas e seja um pouco relevante para a academia a ponto de ela aceitar meu projeto de pos-doc? Ou será que há alguém que poderia me convencer que ir ali plantar milhos como fez Raduan Nassar me deixaria bem feliz ao invés de achar que só serei feliz se continuar a vida toda estudando, de preferência em uma universidade que não seja rodeada pela floresta como esta que agora me encontro? Se tiver alguém capaz de me convencer disto, eu agradeço. E meu estômago também. Porque vou confessar: oh coisa cansativa é adolescente procurando namorado!

3 Palavrinhas:

Sérgio Rivero disse...

Já que vossa senhoria pediu...Lá vai..risos

Que tal?

"A Amazônia nos Relatos dos Viajantes?"

(NÃO ESTOU FALANDO DE "LITERATURA AMAZÔNICA...EHEHEH")

Euclides da Cunha (ele esteve por aqui..)
Mário de Andrade
Frank Kravigny
Rondon
Koch-Grünberg
Kurt Nmendaju
TODOS os Naturalistas...
etc...etc.

eheheh....

Em vez te repisar o chão batido..Por que não entrar no território novo e desconhecido...e falar das visões do outro (outro mundo, outras identidades, outros...) que esse povo encontrou quando chegou aqui?

È teoria literária da BOA!
(Se vc não fizer...um dia eu vou acabar fazendo)...ehehe

Ah! Pode ser a Mulher e o Erotismo no João Cabral, Lembra?

S disse...

Esqueci do Levy-Strauss...eheheh

Viagem Inesquecível disse...

querida mi, pode parecer louco, mas eu conheço alguem assim! Politizado como beckett, louco e incompreendido como Artaud e totalmente kafkano na vida e na literatura: não é famoso: e tem uma grande obra! Nem um terço publicada, mas o que se tem já dá um caldo: Alberto Lins Caldas!
beijos

ps- ah ele está vivo, lembro que essa foi uma das condições, se vc não tivesse feito essa exigencia eu indicaria tb Nelson Rodrigues, adoraria escrever sobre ele, mas não tenho nenhuma competência!