sábado, 27 de setembro de 2008

Uma história do CIPA – o congresso

Eu não gosto de congressos. Reclamo. Resmungo que não servem para nada, a não ser para colocarmos no currículo, ainda mais para mim que fala sofridamente de assuntos que aparentemente ninguém sabe do que se trata. E em sessões de comunicação, que são aquelas salas com dois ou três gatos pingados que estão ali porque também apresentarão algo que normalmente nada tem a ver com os outros trabalhos e sobre o qual ninguém quer ouvir, e por aí vai. Porém, quero registrar que este foi diferente.

Ao contrário do que pensei, a maioria dos conferencistas eram belgas, e não franceses. E compreendi muito bem o francês. E eu falei sobre a “concepção” de autobiografia em Derrida em uma destas tais salas de comunicação, mas, milagre dos milagres, havia umas 20 pessoas e, entre elas, alguém que sabia do que eu estava falando. Dizendo porcamente, eu joguei pedra nos bons samaritanos que crêem que autobiografia serve para reconstituir ou resgatar a vida dos seres que “vivem à margem”; o que quer dizer que, se eu fosse famosa e conferencista, estaria apedrejando meio mundo no congresso. Eu detesto todo e qualquer discurso salvacionista. Não sei se ingênuos ou perversos, esses discursos que se servem de histórias de vidas servem muito mais a um arquivamento de vida de pessoas do que de reorientação, reinterpretação e reinvenção destas vidas. E quem pode medir o que pode ser feito com estes arquivos? Quanta barbárie já não se produziu a partir destes arquivos? Ninguém parece preocupado com isto. Todos espalham idéias do tipo: vamos fichar os negros, os marginais, os suburbanos; e eu quase escuto: como os judeus, coloquemos uma estrela amarela nos seus braços, confisquemos os seus bens para que os administremos, nós, que somos quem pensamos, porque assim eles serão notados, dissecados, e em seguida? é o que me pergunto: perseguidos? colocados em gueto? é por aí, não é? Mas todos querem ser o salvador, todos querem fichar os índios, os mamelucos, as putas, as bichas, as criancinhas carentes, ... pois eu espero que todos os "bem-intencionados", os "politicamente corretos", os "messias", queimem no fogo do inferno, isto sim, antes que liguem o gás do crematório onde estariam ordenados todos os marginalizados, porque sabemos muito bem do que o inferno está cheio... ao menos no nosso imaginário. Aff!

Então! O moço que me ouvia jogava pedras como eu, mas por intermédio do documentário Santiago, do João Salles. E foi o bate-bola mais bacana de todas as minhas histórias de congresso, senão o único até hoje. Foi até hilário. Ele me interrompia. Eu o interrompia. E foi ótimo. Eu o pediria em casamento se tivesse demorado um pouco mais, porque um homem que entende de Deleuze, Foucault e Derrida e diz tudo aquilo sobre um documentário que eu amo e sobre meu próprio trabalho só pode ser merecedor que eu lave suas roupas pelo resto da vida. Yeah!

Hormônios à parte (cof, cof!), o que quero dizer é que se os congressos fossem montados para que houvesse realmente a discussão, a participação de todos, a política do CNPq que exige que professores e alunos participem de congressos e publiquem poderia realmente ser eficaz. Porém, na maior parte das vezes, o que ocorre é apenas um cumprimento de obrigações. Nas conferências deste congresso, por exemplo, não houve o momento das perguntas do público. Enfim, ainda falta muito para que seminários, semanas e/ou congressos cumpram realmente sua função de serem lugares de debates e circulação de saberes. Mas eu continuarei participando. Quem sabe um dia eu chegue às conferências, não é? Se bem que encontrar um moço deste em cada congresso que eu for já me deixaria muito satisfeita. E isto nada tem a ver com hormônio, tem a ver com diálogo, com a necessidade de ouvir a voz do outro e ser ouvida também.
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4 Palavrinhas:

Halem Souza disse...

É, Milena, eu também não gosto desses congressos, exatamente pelo que você aponta: eu sou um desses descerebrados que faz parte da audiência e que não tem a menor idéia do que as pessoas estão falando, e fica lá com aquela cara de paisagem...hehehehe.

Mas para quem se dedicou muito a um tema, a um objeto de pesquisa e reflexão (como acredito ser o seu caso) é sempre frustante esse tipo de platéia zumbi. Ainda bem que se pode encontrar, ainda que raramente, um outro alguém que está "surfando a mesma onda" como você acabou encontrando.

Um abraço.

Cris Madame disse...

opaaaaa, conta mais sobre a parte dos hormônios.... rolou um café ao menos com o Mr. Interruption depois do batepapo-palestra a dois e o resto que escute se quiser... ???????? hehehe !! Brincadeira , Milena !!!!!!!!

Ana. disse...

Que bom que foi proveitoso, mas como a moça acima eu faço parte dos decerebrados, no entanto, tenho boa vontade e até me esforço as vezes. Mas é sem dúvida muito bom encontrar alguém que fale a nossa língua.

Eliz disse...

Uhuuuu, lavar as roupas...Empolgante... contou sem contar hem moça das meias palavras. Agora compreendo as frases ditas e sublinhadas dos últimos dias.kkk Adorei.