domingo, 14 de setembro de 2008

Em Natal

Natal, para mim, é uma cidade mítica. Há mais de dez anos vivi aqui como 'hippie" durante três meses. Vejam o que esta que vos escreve já fez por amor! Naquele tempo, na praia de Ponta Negra, havia um camping, e foi lá que instalamos a barraca, todos os dias acordando com o mar bem à frente. Dizem que hoje, no lugar, há hotéis luxuosos. Vou conferir daqui a pouco. Naquele tempo ainda se podia descer o Morro do Careca em pranchas fabricadas artesanalmente pelos moradores. E Herbert Vianna, dos Paralamas, ainda cantava Óculos, o hit de todas as míopes como eu, em pé. Pude conferir. Eu também estava na van que os levou para o hotel. O contratado para levá-los morava no camping e eu fui de carona... Histórias de Natal! Na praia, havia festas maneiríssimas que rolavam a noite toda, então a escolha era ir ou ir, porque não dava para ficar na barraca sem escutar o barulho das ondas e das vozes. Naquele tempo, era tudo tão bonito, tão terno e, ao mesmo tempo, tão violento, tão extremado, como toda história de amor. Eu passava os dias vendendo artesanato nas praias. Com um corpinho de 20 anos bronzeado naturalmente pelos dias exposto ao sol e um sorriso sempre a postos, eu costumava vender o dobro do 'verdadeiro' hippie. E ele ficava puto comigo e/ou com os turistas bobos, geralmente estrangeiros, que compravam umas pulseirinhas pelo dobro ou triplo do que valiam apenas para ficarem me xavecando. Ao menos, era o que ele pensava. E, às vezes, o que realmente rolava. Mas era assim que sobrevivíamos sem um tostão no bolso. Dava para pagarmos o camping, comer cachorro-quente no almoço e no jantar e ele tomar suas biritas, porque naquela época eu bebia muito pouco. Alguém precisava de lucidez, era o que eu pensava - bestamente. Eu também sabia fazer pulseiras e alguns colares, mas o artista mesmo era o Juba. Tanto que ele continua. Eu era uma hippie de óculos, de férias, geralmente com algum livro na mão. No fim da farra, eu voltei para o curso de Letras. Se não tivesse voltado, provavelmente não estaria aqui hoje. Vim para um congresso sobre autobiografia - o III CIPA. Amanhã falarei sobre a autobiografia em Derrida. Chupeta no mel, afinal é minha tese de doutorado. E o congresso está cheio de franceses. Hoje à noite vou conferir se ainda consigo ao menos ouvir em francês. E amanhã, minha amiga de infância chega. Engraçado isto da escrita. Parece normal dizer: "estou aqui em Natal e minha amiga, que mora na cidade dos meus pais, no Ceará, está vindo me encontrar". Ficaremos aqui por uns dias e depois iremos de carro para Iracema, onde encontrarei meus pais, minha afilhadinha, que é a filha da minha amiga... Putz, mas quero dizer que isto não é 'normal'. Pelo contrário, é uma puta emoção estar aqui em Natal com tantas lembranças, esperando minha amiga e também seu marido, que é também um amigo de infância. Pensei em algo agora: sempre acho que mudei muito desde aquele tempo, mas talvez eu ainda tenha muito daquela garota de 20 anos que ficou aqui três meses dormindo em uma barraca e comendo cachorro-quente todos os dias. A diferença é que agora eu caio no mundo com uma certa 'oficialidade' e posso pagar um hotel com água quente, embora já esteja arrependida de não ter trazido minha barraca. De fato, o 'oficial' procura meus afetos, que são muitos. Cumpro as regras de uma professora que acha importante participar de congressos, pesquisar, 'cuidar do currículo', mas o que tem sido mais importante para a minha vida é cuidar dos meus afetos, encontrar meus amigos, falar com minha família. Como Manoel de Barros, eu fiz doutorado em formigas. E tenho andado muito lentamente para cuidar bem destas formigas através da linguagem do amor.

*
*
Então tá: "Milena com espírito de 20 anos deixará o vento bagunçar seus cabelos pelos próximos 10 dias". Beijo aos meus dois ou três leitores ocasionais que passar por aqui.
Categories:

4 Palavrinhas:

loba disse...

eu sabia que em algum lugar eu me veria! rs... tb vivi numa comunidade hippie. mas qdo tinha 16 e por mais de um ano. deste tempo guardo muitas lembranças e um grande aprendizado!
Delicia ler este texto seu!
Beijos, mocinha!

Ana. disse...

Meo, da próxima vez que vc for fazer turismo me leva com você (piadinha cretina, mas acho digno, rs.). Passando pra deixar um sorriso, ainda que meu dia não seja sorriso. Beijos.

Halem Souza disse...

Poucas vezes eu encontrei um blog com nome tão apropriado quanto esse. Tem dia que a blogueira está no Norte; parte pro Nordeste; sai do país. Êta ferro!

Vai, minha cara, vai rever Natal e curtir o Congresso e a diversão e a saudade e os amigos e a família...

Um abraço e espero breve retorno.

Caco disse...

Que legal! Isto é história para contar para os netos...
Aproveite Natal. Nem sei como pode estar isto aí hoje em dia. Fui aí há uns 25 anos atrás (wow uma vida atrás)... era um moleque.