segunda-feira, 19 de setembro de 2011

sobre as birras e o amor

com filho não adianta fazer birra. e eu sinto, por experiência como filha e como mãe, que é o que as mães mais fazem. as mães são aqueles seres abomináveis que querem tudo dentro da ordem, inclusive, ou sobretudo, o filho. e eu lhes digo que Poeminha não é de brincadeira. a palavra que ele mais fala é "não". e duvido que seja por imitação. é para tripudiar em cima das minhas birras.
*
*
de novo.
*
*
eu pirei por umas duas semanas. pirei mesmo. falei falei falei - atrás de conselhos, que não sou boba. eu seguia o manual. manual da mãe quase mamífera. mas aí o filho deu piruetas. acordou outro de um dia para a noite. nada de comer. nada de querer dormir na hora certa. e um tal de querer escalar de querer se lambuzar de querer espernear. birra birra birra. e eu? birra birra birra. só quando chacoalhei meu filho é que caí na real. quemerdaeuestoufazendo? aí, eu me acalmei. ele, nem tchum. mal percebeu minha chacoalhada. achou que eu estava brincando. mas chorou sentido quando eu, birrenta, tirei-o do banho antes que ele achasse que era a hora. mas tem hora? que a natureza me perdoe o desperdício de água, mas vou deixar meu filho tomar banho o tempo que ele quiser - e foi o que fiz. coloquei sandálias havaianas nos seus pés, para diminuir o perigo de quedas, postei-me no vaso ou no sofá próximo e lá no banho ele tem ficado sob os meus olhos quase atentos. fica lá com seus bonecos, criando seu mundo imaginário. quando ele quer, sai atrás de mim, todo molhado, pingando tudo, aí eu o pego nos meus braços, dou muitos beijos e vamos, juntos, desligar o chuveiro. depois, eu saio secando a casa.
*
*
eu não vou ser birrenta com meu filho. não vou mesmo. já basta todo o resto que quero dentro da ordem. não vou meter medo nele. não vou gritar nem bater nem chacoalhar só porque não sei exatamente o que fazer. quem me lê aqui sabe que vez ou outra eu digo que fui uma criança muito sofrida. eu era doente e minha mãe era muito ocupada. e eu não preciso repetir essa história. não com meu filho que até agora tem uma saúde de ferro. nem por isso estou com medo de criar um reizinho mandão. não estou mesmo. eu não sou boba, é isso que penso. eu vou aprender a ensinar tudo pela via da delicadeza. porque tudo que mais gosto em mim veio daí::: da delicadeza. e tudo que não gosto veio das brutalidades que a vida me impôs. vou acertar o "tom". já estou acertando. entre o sim e o não, a palavra doce. o eu te amo incondicional. a "sorte" - "que sorte, filho, você existir". não paro de repetir isso a ele. nem sou avara com "eu te amo". e com os abraços todos.
*
*
e por que? porque nada, nem ninguém, me emociona mais do que partilhar a existência desse ser. e se há toda uma cultura da ordem, todo um medo de fazer errado, de dar errado, há, sobretudo, o amor que eu sinto por ele. e é com esse amor, e não com o modo como fui criada, como fui pouco amada, que eu vou caminhar. vou caminhar com este imenso amor. com este amor imenso que sinto por estes dois homens que - cópias um do outro - completam os meus dias.
*
*
as imagens me dizem que vale a pena. um "vale a pena" refletido e amoroso. alguém duvida?




domingo, 11 de setembro de 2011

conferenciazinha no eell

estive num encontro de estudos linguísticos e literários (eell), da unemat, em pontes e lacerda. bem aqui, pertinho. fui sozinha. ou quase sozinha. meu amigo leandro foi também. meu chefe, aliás. de departamento. quase, porque nos vimos muito pouco lá. eu mesma só desenfurnei do hotel no dia da minha conferência*. coisa esquisita é gente que tem que falar sério. fica enfurnada em hotel achando que precisa descobrir o ovo de colombo. diferente de fazer comunicação, é o que quero dizer. que é coisa de 20 minutos. ideias para uma hora e meia de palavrório chegam a dar dor de barriga. não. que isso não tenho. tenho é um coração acelerado.  tipo sair pela boca sem tempo de alcançá-lo. 

a melhor parte foi ver a marinalva e nossa tetê, minha afilhada. segunda vez que encontro mari este ano. feliz. estamos felizes, as duas. dá pra crer? tanto desassossego para encontrarmos a felicidade em dois serzinhos que berram a qualquer hora. coisas de mãe. mas o desassossego permanece. por vias mais secundárias, mas permanece. eu não nos desconheço. pelo contrário. quando nos encontramos, somos mais nós do que tudo. é porque nos misturamos. uma sabe da outra. e agora, com a distância, sabemos apenas das lindezas uma da outra. aquela vontade de ficar mais perto um pouquinho mais. 

e a conferência, foi. falei sobre a figura pública do escritor na atualidade. ou melhor, na artefatualidade e na ato-virtualidade. gostei demais. assim. gostei de fazer o texto. de fazer daquele jeito. de forma inédita::: nas manhãs. antes, chorei um pouquinho, escondida, porque não dava conta de fazer como sempre faço, nas madrugadas. angústia de ver meu ser mais ser morto de sono. fiz o texto indo contra a corrente. ou achando que estava contra a corrente. contando uns causos das minhas leituras recentes e nem tão recentes.  eu queria mesmo era ter mais tempo para formalizar b-e-m d-i-r-e-i-t-i-n-h-o o que ando pensando, lendo, tentando ler. mas o que eu queria mesmo m-e-s-m-o era um povo mais atento, mais feliz, por ouvir. e ouvindo, querer falar. hoje os cursos de letras carecem de veias. mas isso é assunto pra outra hora.

não tenho nenhum registro fotográfico. e é porque levei a máquina... fica aqui, então, no meu artefato de memória. 
.
.

* foi a linda mariana responsável pelo convite. merci!

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

a vida e as poses sem pose

 sim. bastante narcisismo. esclareço::: são praticamente as únicas "poses" de um mês de férias. férias que existiram porque eu não morri. vez ou outra, eu solto o besterol sincero: !ainda bem que eu não morri!





qual é a parte bonita da vida? toda ela. fez um ano que eu quase morri. adoeci no mês do cachorro louco. um mês com um histórico enorme de dores nas minhas entranhas. nada, se comparada aquelas. como é que pode o ser humano ser tão resistente a dores tão imensas? às vezes, ainda acordo no meio da noite como se estivesse sendo esfaqueada por aquelas facas imaginárias. o menor movimento e era como se todo meu sangue escorresse. e agora o agora. apenas há pouco mais de dois meses, meus movimentos parecem normais. e eu posso pegar meu filho do chão e tomar banho com ele enganchado na minha cintura, como um dia fiz com minha sobrinhaamada. 


é por isso que não gosto das marcas sujas da vida. daquelas em que é possível estar distante. porque existe o imponderável. e o imponderável pode ser a morte. a possibilidade da morte. acho que sempre soube disso. e por isso tive certeza de que morreria. como alguém com tanto apego à vida teria a dádiva de uma vida longa? desde lá, eu vivo assaltada pelo medo de que outro imponderável irrompa. que outro roube a alegria do que agora é meu::: o sorriso do Poeminha, os cabelos espessos do Tatupai e as lindezas que por aqui passam (as nossas meninas seguindo o destino da literatura!). 


mas eu sinto, bem aqui em mim, que este medo também vai passar. que a vida dure muito, que dure pouco, o que importa mesmo é que eu  esteja por aqui, inteira, naquilo que me faz tão cheia de surpresas e obviedades. mas se houver este roubo do que agora me é mais caro, eu ainda sinto que preciso justificar a minha segunda vida. sem lamúrias. sem meios-termos. sem condescendências comigo. se vivo, vivo. e é por esta vida, por estar viva, que eu devo continuar batalhando, sem titubear. 
.
.
.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

sobre as leituras e sobre o que sinto

halem me pede para falar de livros, cinema e música. e eu lhe digo que, além de tirar muito pó de móvel, eu tenho lido bastante. e a música nunca pára de tocar na vitrola daqui de casa. cinema é que são elas. serve desenho animado? de primeiríssima qualidade? filho é quem anda mandando nesta seara. mesmo quando a gente desliga, é pensando no seu querer. 

mas como eu ia dizendo, tenho lido, à revelia da universidade, que sempre nos dá mais ordens de serviço do que tempo para a pesquisa, a leitura, o deleite da leitura. nas duas disciplinas, gestos igualmente suicidas = misturar o que já sei, o que já li, com aquilo que quero saber, que quero ler. às vezes, a incompletude fica muito evidente, mas não me importo. só assim para dar prazer. 

no campo da teoria, um plano de curso em busca de um conceito de literatura além da literariedade ou a fuga do conceito em nome do indecidível = aceitar a aporia de que a literatura, hoje, é e não é literatura. amigas acharam difícil. o que dirão os alunos, prefiro nem saber. mas eu tenho me deliciado. gozo.  para isso li O neutro, de Barthes, um livro realmente surpreendente naquilo que, aparentemente longe da literatura, é todo ele uma busca do literário, um outro literário. e ao ler Barthes, eu sinto saudades doídas. noite dessas perdi o sono e lembrei do dia - único dia - em que percorri as proximidades da casa de Barthes em Paris. e me veio um choro sentido, impotente e, ao mesmo tempo, muito bonito = aquela alegria do estive lá. lembrei que foi meu querer que me fez ir até lá. e desde esta noite, eu não paro de pensar nos meus quereres. e comecei a achar - de novo - que tudo posso, se eu assim quiser. e vieram os planos. vieram de novo.

no panorama histórico, a linha evolutiva da literatura brasileira: concretismo, tropicália, poesia marginal. assuntos, para mim, amorosos, no sentido barthesiano. se eu fosse mais normal, e soubesse escolher um campo de especialização, sem dúvida, seria este período = a intelectualidade dos concretistas, o nem aí da geração do mimeógrafo, a rebeldia alegre dos rapazes da Bahia. e fiquei como nos tempos idos: a cada segundo de sobra, eu agarrava um artigo, algumas páginas, um vídeo, um cd sobre estes assuntos. e se recebi de volta silêncio por parte dos alunos, quase esqueço. vale aquela minha já máxima: não é pessoal, não é porque sou eu; é porque simplesmente esses assuntos não lhes interessam.

e no campo da ficção, romances, romances. li eles eram muitos cavalos, do luiz rufatto e pensei que precisava dizer ao Halem que ele se enganara e que eu havia gostado muito do livro. um realismo brutal, não apenas violento, como o é, por exemplo, Rubem Fonseca. deve ser por isso que aquelas imagens de desencanto ficam dias e dias em nossa memória. me veio o desejo de saber transformar aquilo no que ele já é: teatro = cenas independentes de um cotidiano dilacerador.
e zero, do Loyola Brandão? fala-se muito do experimentalismo, mas o que me chapou de verdade - embora às vezes tenha me enfastiado - foi o tom contestador, absurdamente corajoso, se pensarmos na época em que foi escrito - e censurado, claro. não penso pelo viés da alegoria, porque muito próximo da identificação com o real. o que vejo é uma fantasia delirante e real ligada às marcas de um tempo de repressão não tão distante assim.

e agora, estou lendo avalovara, do Osman Lins. que livro lindo, meu jesuscristinho! todo cheio de volteios, de técnicas, de devaneios. a circunferência e o quadrado, como ele define, a serviço de histórias de amor sempre incompletas, como são todas as histórias de amor. e com uma completa corrupção das estruturas narrativas = espaços e tempos diferentes fundindo a minha cabeça leitora. uma surpresa feliz.

é disso que não quero abrir mão. enquanto, por um lado, a realidade me puxa e eu, desastradamente, quase cedo; por outro, batalho pela construção de lugares do desejo = lugares em que eu possa respirar longe da loucura do cotidiano.
.
.
sim, Halem, obrigada por me lembrar de que, para além do meu umbigo, existe a arte. duvido que você seja das pessoas sem sonho que tanto me assustam. você é da estirpe dos loucos que acreditam que a literatura é ainda um espaço de fuga - e dos mais lindos.


segunda-feira, 22 de agosto de 2011

estou limpando o pó de algumas neuroses. e criando outras, que ninguém é de ferro. nem super-mulher. dito de outro modo::: tirando muito pó de móveis para não me entristecer de vez. eu já disse aqui que prefiro a imagem de quem sente do que a fleuma apática de quem não faz o menor esforço para sentir. eu estou de saco cheio. saco cheio de gente sem humor. sem delicadeza. sem bondade. porque eu sinto que vou ficando feia também. porque é assim, né? a beleza é contagiosa. e a feiúra, também. eu estava tão acostumada a ter gente linda perto de mim, gente cheia de poesia, de música, de risada que desaprendi a conviver com gente sem alma, sem gana, sem sonhos. e é assim que agora eu estou, procurando beleza, procurando salvar a mim mesma, tentando me ausentar de toda a teia institucional na qual me meti. mas também não sei se é isto. sei que está frio. muito frio. também lá fora.
*
*

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

sp

são paulo continua a mesma com tudo aquilo que eu mais amo. eu que já não sou mais a mesma. custa-me falar algo tão lugar-comum. mas é verdade. perdi a urgência. num intervalo de três anos, descobri que posso deixar de ver tudo que esta cidade oferece. e foi sem urgência que me deixei levar pelos dias. olhei de forma displicente o guia cultural. e por isso deixei de ver uma porção de coisas. mas, claro, os anseios estavam latentes. lamentei uma e outra vez.

as pessoas. todas. o vaivém. são paulo quer ser o que ela já é: uma megalópole. que o diga a nova linha de metrô. tal e qual a de Paris - pois foi de lá que senti falta. daqueles dias. e não podia deixar de ir a Fnac e separar uma pilha de cds. sou uma senhora tão antiga, é o que sinto. diminuí a pilha ao passar no caixa e me senti tão bonita com aquelas referências todas.

eu quis dizer a ele, meu sobrinho, que aquela era a minha cidade, se assim eu pudesse. mas ele é silencioso, com aquele tédio já um velho conhecido. eu quis dizer a minha irmã como era bom vê-la ali, bicho acuado e sedento de vida. talvez tenha dito. ou talvez só tenhamos caminhado por longos caminhos. e assim os dias. nem me diga como é bom. não precisa. tudo à flor da pele. tudo vivido.
.
.
.
quando fui embora, dia chuvoso depois de dias de sol, senti mesmo vontade de ir, ansiosa para reencontrar as meninas Nilza e Rô, que já estavam serelepes em Curitiba. mas senti vontade de voltar. senti mesmo.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

a dor de todos nós (ou louise bourgeois)

 explicando ao taxista o que eu ia fazer no instituto tomie ohtake num domingo: "(...) é preciso gostar de arte contemporânea para gostar desta artista". uma imprecisão. a artista em questão era louise bourgeois. esta foi a outra coincidência que me causou espanto. uma exposição de bourgeois em sampa. quando soube, comecei a desconfiar que não era coincidência. e comecei a acreditar no que caetano sempre repete: sampa é o mundo. tudo o tempo todo acontece. amo esta cidade com todas as minhas vísceras. divaguei: viveria numa casinha apertada, como a que estava hospedada, tranquila, só para ter o prazer de vivenciar tal mundo: louise bourgeois. 

a exposição me causou grande impacto. só não chorei mais porque a dor, diante de bourgeois, é sempre uma dor represada. uma dor silenciosa. dor de espanto. mesmo diante do abraço apertado (há  seres que se abraçam), pressentimos que não há ali encontro. a arte de bourgeois é tomada pelo estar só - um estar sozinho visceral, original = que vem da nossa própria origem. seres que choramos quando viemos ao mundo.

os seres pendentes, os seres de panos, os seres com prótese, os seres disformes, as grutas, os quartos, as celas - há aprisionamento em tudo. é difícil atravessar o impacto das imagens, seja das esculturas, seja dos desenhos, seja das frases - de todos os lados, dói. louise bourgeois pode ter se exilado nos estados unidos, mas sua arte é europeia, sem dúvida. em nenhum outro lugar, há tanto frio.

há uma falta de afeto na arte de bourgeois. falta de afeto por quem vê, diga-se. ela não tem piedade pelo espectador. não dá para ficar impassível. como pode? esta cela com este espelho. este corpo numa posição impossível (mas quantas vezes não nos sentimos assim, dilacerados, agônicos, desesperados, numa espécie de dor que é tão psicológica como física?), este ódio a um quarto tão antigo? = todos os nossos traumas estão lá transfigurados por uma beleza transcendente e perturbadora. não é por mim que chorei. não é por ela. é porque há beleza em coisas tão horrendas: nesta aranha a agarrar tudo. é tudo tão abjeto. como a tristeza. a tristeza é abjeta. nus. nus diante de nós mesmos.

e ainda.

era tão tarde. eu sentia muita fome e, mesmo assim, permaneci lá tempo suficiente para os guardas se incomodarem com minha presença, entre uma sala e outra. eu havia me perdido na cidade que vivi por mais de um ano. eu estava com o nariz vermelho. eu queria comprar o catálogo, mas era caro para quem já estava viajando há um tempão (fechei os olhos e comprei, mas, por culpa, como uma criança, fiz questão de dizer ao vendedor que era pobre - em outros tempos, diria que era estudante), eu queria comer naquele restaurante absurdamente caro, mas entre o catálogo e comer, escolhi o catálogo. queria ver minha mãe. e, quando saí, andei, andei, com a minha mochila pesada, com meus pés doendo a cada vez que pisava. queria queria e queria. e pisei forte, muito forte, para sentir a porra dos meus dedos dormentes, olhando ora pro chão ora pra cidade ora pra nada ora pra bem longe. e para me proteger pensei muito no Tatupai. pensei muito no Poeminha. pra lembrar que não estou sozinha. que por ora estou com eles. inteira. ainda que ali, naquele instante, estivesse tão cheia de pedaços espalhados.
.
.
.
e ainda.
.
.
quem puder ir, não deixe ir. porque de vez em quando é preciso destrancar as dores. no instituto tomie ohtake, até 28 de agosto, grátis, a maior exposição de louise bourgeois já vista no Brasil, uma das maiores artistas do nosso tempo.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Sobre as coincidências (ou Trilhas sonoras de amor perdidas)



Eu gosto dos que têm fome
E morrem de vontade
Dos que secam de desejo
Dos que ardem 


Estes versos da Adriana Calcanhoto eu bem poderia continuar assim: eu gosto mesmo daqueles que não sabem muito bem o que fazer com esta sede, com esta vontade. Dito de outro jeito: gosto dos desajustados, dos chatos, dos malucos, das belezas, dos que me irritam até o último fio do cabelo, mas que de repente se redimem com uma frase, um gesto.

Em cada canto que eu vou, encontro pelo menos uma "espécime" que cabe nesta definição acima. Devo ter açúcar, sei não. O certo é que aqui em Vilhena há o Bozoca. Ah, o Bozoca, sempre fazendo algo que destoa, com jeito de menino egoísta que nunca vai crescer e capaz de proferir frases tão desastrosas quanto geniais sem mudar de tom.

A literatura também é farta destas gentes, entretanto nunca havia visto uma representação tão perfeita de um ser que conheço como a que encontrei na peça Trilhas sonoras de amor perdidas, do Felipe Hirsch, que fui ver com meu irmão no Sesc Belenzinho*. É como se eu estivesse diante do Bozoca, excetuando a altura de Guilherme Weber, que faz o protagonista. O resto é tudo igual: os trejeitos, as angústias, o deslocamento no mundo, a paixão pela música, sobretudo por uma certa cultura grunge que parece ter desaparecido no tempo, mas que continua aí para alguns. Para Bozoca, falta apenas a cara metade. 

Vivi, então, uma emoção dupla. O tempo todo "via" Bozoca e ria, e imaginava. E também  reencontrei a Sutil Cia. de Teatro, da qual eu já havia visto Educação sentimental do vampiro e Avenida Dropsie. Na Sutil Cia., eu enxergo um trabalho muito bonito sobre o que há de mais complexo no ser humano, sem paliativos e sem julgamentos. Todos fazemos parte de uma época, um lugar e encontramos gentes que nos fazem bem e nos fazem mal e, assim, construímos nossas idiossincrasias, nossos medos, nossas alegrias. E há o amor, a música, a arte para nos ajudar a superar a morte, o medo da morte, para nos manter vivos com mais inteireza. Foi assim que eu vi Trilhas sonoras de amor perdidas. Foi assim que eu senti. 


* Não posso deixar de comentar o quanto fiquei horrorizada com a reforma no Sesc Belenzinho, que virou uma coisa medonha, com cara de clube de nouveau riche sem gosto algum).

terça-feira, 26 de julho de 2011

Instantes de Itamar Assumpção


o amor que devoto a itamar assumpção explica as quase duas horas em que passei chorando ao assistir a um documentário sobre ele no espaço unibanco da Augusta. Uma daquelas coincidências que arrepiam só de pensar - como é que depois de tanto tempo sem ir a São Paulo vou logo na semana em que está passando um documentário sobre este músico que há tanto tempo está em mim? 

Daquele instante em diante, de Rogério Velloso, é um filme para quem sente falta. E para quem a vida e a música, embora dissonantes, são uma aventura das mais viscerais. É uma homenagem, em que os amores de Itamar estão ali para dizer como ele faz falta. Todos que estiveram ao seu redor parecem demonstrar espanto::: espanto porque ele existiu, do modo como existiu. Ninguém diz, mas é como se dissessem: por que este filhodaputa tão adorado foi embora tão cedo? Daí a carga de emoção - emoção agridoce, palavra várias vezes dita. Não há nostalgia, no entanto. É uma saudade quase raivosa. Ou tão delicada quanto raivosa - o que é uma boa definição também para a sua música. 

Como é que pode um homem que cultivava orquídeas! Como é que pode, não é? É o que penso desde aquela tarde, com um aperto no coração. 
*
*
*

segunda-feira, 25 de julho de 2011

a maluquete amy

que tarde triste. fiquei tão brava com esta maluquete. como é que ela nos deixa com esta batata quente na mão? este mundo ficando cada vez mais careta, tudo encaixotadinho, politicamentecorreto, os guetos cada vez mais acentuados, até os fumódromos ao ar livre desaparecendo, intolerânciamil, as pessoas cada vez mais feias, aí amy inventa de morrer para dar mais munição a esta gente toda policialesca. tristetristetriste.

lembro do dia em que perguntei, desolada: "tatu, por que não tem ninguém para cuidar dela?" talvez ela não tenha deixado. talvez ninguém tenha tentado. como é que se suporta tamanha dor? ou como ter suporte para as loucuras todas? deve ter sido um inferno. e isso estava muito evidente. mas havia ali um mistério. uma beleza. que vinham daquela voz sofrida. daquele corpo desajeitado. 

eu fico com a impressão de que todos morremos um pouco. que o luto encobriu a todos que amamos a música. a arte. e que o mundo ficou ainda mais feio sem a sua tristeza funda. tudo cedo demais.
.
.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

das alegrias de São Paulo

Rio de janeiro ficou pra qualquer outro dia. Eu, Manamácia e Pedro, meu sobrinho, viemos de Paraty para São Paulo. Ficamos uma semana. Falei para mana que, não importava nosso itinerário, seria bom do jeito que já estava sendo. E foi. Viajar tem disto: é preciso estar aberta ao inesperado. Como na vida, deixar livres os caminhos. E aprender com as paradas. 

Foi assim que é provável que eu tenha ido a mais shoppings nesta viagem do que durante todo o tempo que morei por "estas bandas". Não que eu não goste. Talvez seja mesmo o contrário. Eu sou compulsiva - e as inúmeras "coisas" que eu gosto de comprar aos montes estão aí para confirmar. Acho que por isso desenvolvi uma resistência em ir às compras. Porque se vou, para usar a expressão da minha amiga Rô, não passo vontade. Então fizemos comprinhas, várias comprinhas, com direito a uma passagem pela 25 de março. Meu irmão Ferdinando se reuniu a nós durante toda a semana. E a sensação de estar com a família, e de ser este um momento raro, tomou conta de mim. 

Antes que eu achasse que a viagem seria um grande shopping, já estávamos envolvidos em outras delícias. Seguimos, então, meu itinerário pessoal - aquilo que, para mim, faz de São Paulo A cidade, com maiúscula mesmo.  E também visitamos o tio e a tia, aqueles que um dia foram meus tios-sogros. E eu gostei demais de ficar ali perto deles, de contar minhas histórias, e ouvir suas histórias. 

Como estava perto da mana que salvou minha vida, brinquei várias vezes::: "ainda bem que não morri". Ainda bem que pude viver esta semana para guardá-la no meu enorme baú de grandes alegrias.
.
.
.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

a macumba antropófaga de zé celso

a nudez do teatro de zé celso martinez não espanta ninguém, porque o modo de sentirmo-nos em comunhão com o ritual tribal do teatro de zé  celso é naturalizarmos a nudez. mesmo quando não temos coragem de arrancar as vestes precisamos de alguma forma nos desnudar. e estando bem perto, sentimos todos aqueles odores de gente, de modo que aqueles cheiros são também os nossos. como numa festa, nos entregamos ao delírio da longa noite, ainda que seja dia. é bonito. muito bonito. ainda aqui, senti-me mais uma vez parte de um momento histórico. não tão decisivo quanto a encenação de O rei da vela, que definitivamente mudou os rumos da recepção da obra de oswald de andrade. uma outra cena, é fato, a da macumba antropófaga, que encerrou a FLIP. mas, ainda assim, arrebentadora.  não esquecerei.






domingo, 17 de julho de 2011

oswald e antonio candido


Homenagear um escritor é criar um factóide. E quando é num evento em que ele mesmo é um factóide, tudo fica meio exagerado. Broches, camisetas, canecas, cartazes, Oswald de Andrade estava em todo lugar em Parati. Ainda com meus botões, eu pensei::: e por que não? e se um factóide criar a possibilidade de um escritor não ser esquecido? e se pessoas, a partir de agora, lerem o Oswald, devido a esse falatório todo? Que mal há nisso? Antonio Candido, na primeira conferência da FLIP, apresentou-se como um sobrevivente. E contou histórias sobre o irrequieto Oswald como alguém que sabe que a morte está mais próxima do que longe. Senti-me parte da História - algo como::: não fui contemporânea de Oswald, mas esta voz me faz próxima de sua beleza agridoce. A primeira lágrima de emoção na FLIP veio daí. Da emoção de ouvir Antonio Candido, que, de forma unânime, é o mais influente crítico literário brasileiro, embora a minha formação não tenha me encaminhado para a veneração unânime que todos têm por ele. Diante da sua voz, isso ficou sem importância, porque veio de chofre a certeza de estar diante de um homem que dedicou toda a sua vida à literatura.
.
.
.
A aula do meu concurso para ingresso na Universidade foi sobre a prosa de Oswald e Mário de Andrade. E sob o risco de ser questionada pela banca, eu pautei meu discurso defendendo a originalidade de Oswald, tão ou mais transgressora do que a de Mário de Andrade. A ideia que tenho de "moderno" é uma representação clara da figura de Oswald - um criador que é também uma obra. Então, eu me senti em casa nesta "homenagem".
.
.
. 

sexta-feira, 15 de julho de 2011

pola e mãe


A essas alturas, todo mundo que se interessa pela FLIP sabe que valter hugo mãe, escritor português pouco conhecido no Brasil, mas suficientemente reconhecido para ter seu livros publicados pela editora 34 e Cosacnaify, roubou a cena. a sua conversa foi, de fato, muito emocionante. daquelas emoções que tocam em algum ponto muito sensível. que falam do humano que há em nós. ainda não sei se ele é um bom escritor. não li nenhum dos seus livros. mas a confiar no que dizem, e no modo bonito com que ele expressa sua alegria - uma alegria tímida, que mais parece tristeza - de estar na vida, vale a pena ler algum dos seus livros. eu já comprei o(s) meu(s), devidamente autografado. 

depois da emoção, fiquei pensando sobre a reação do público, que, diante de um escritor de tamanha sensibilidade e uma escritora por demais cerebral que dividia a "mesa" com ele - a argentina Pola Oloixarac -, escolheu rapidamente de que lado estava. pois, apesar de ter me emocionado muito com valter hugo mãe, não me vi entre um e outro. achei que eles ocupam lugares diferentes. e que estão em trincheiras que batalham com armas diferentes, não necessariamente opostas. Pola deu a dica: quando hugo mãe expressou sua vontade de ter um filho, ela meio que lamentou a impossibilidade de dizer o mesmo e ter a mesma receptividade do seu colega. Pois uma escritora mulher, ao expressar o desejo de ser mãe, causa mais desconfiança do que acolhimento; o exato contrário do que acontecia ali com hugo mãe. e Pola parece construir literatura desse modo: contra a maré. por isso, a voz na defensiva, as explicações teóricas. as frases frias no jeito tímido. acho que é preciso fazer essas diferenças para acolher um e outro. a literatura de um e outro.
*
*
agora é lê-los. 
*
*
crédito da foto: walter craveiro

quarta-feira, 13 de julho de 2011

longe de casa

longe de casa há mais de uma semana. e longe do meu filho há mais de duas, me vem uma sensação grande de desalento. acordo na noite e fico buscando na mente quantas janelas há na casa da avó e se há telas de proteção. tento afastar rápido o pensamento. desde que me dispus a deixar o Poeminha ficar um mês na casa da avó materna, eu tento "deixar livre" o caminho. já me doeu uma porção de vezes. mas mantenho a serenidade. onde ele está o que não faltam são amor e cuidado. o que assusta, de fato, são os perigos do mundo. o imponderável. como se, perto de mim, eu pudesse protegê-lo de todo e qualquer senão. mas deixei que ele fosse. Poeminha é um garoto extremamente livre, qualquer um percebe de longe. no FALE, ele caminhava entre centenas de pessoas, chamava a atenção de um, de outro, pegava, olhava, subia ali, acolá. a curiosidade a mil: uma lindeza de ver. e quando vejo isso, mais tenho certeza de que é assim que quero ajudá-lo a crescer. dando-lhe a possibilidade, desde agora, de amar outros que não a mim e ao Tatupai. porque gostar de gente ainda é a grande beleza da vida.


poeminha e inildo, a quem ele adora.

com a rosana.

e com a bisa.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Em Paraty

Imaginei que daria para escrever todos os dias enquanto estivesse na FLIP. Por isso, o marcador "Crônicas da FLIP". Ocorreu o exato contrário: não consegui nenhum dia. Fiz duas descobertas interessantes por lá: não seria uma boa jornalista nem uma boa fotógrafa, duas profissões que, em tempos diferentes, já quis chamar de minhas. Para as duas, falta-me a disposição do intervalo. Na FLIP, não quis parar nem para escrever nem para tirar fotografias, esta última agravada pelo fato de que eu e minha supermáquina continuamos inimigas de morte. 

Tentei ver o máximo possível da programação, o que, diga-se, não quer dizer grande coisa: para cada programa que escolhi, deixei de ver outro tanto - algo como não ver Ferreira Gullar porque não tenho o dom da onipresença. 

A FLIP foi, para mim, uma lindeza. Fiquei emocionada em vários momentos.  De chorar. De escorrer lágrima. Não me envergonho: se eu tivesse a predisposição de fazer uma crítica negativa a FLIP, eu não teria ido. Aliás, tenho horror as gentes que olham tudo com enfado, sempre com uma crítica sarcástica e aparentemente muito inteligente, que teria o dom de mostrar o "horror" daquilo que os reles mortais deslumbrados não teriam o poder de ver. Eu até sei que a FLIP é, evidentemente, um evento para gentes endinheiradas ou esforçadas (incluo-me nesta segunda categoria, claro) que se dispõem a pagar os tubos por uma hospedagem em pousadas nem tão confortáveis assim. Sei também que qualquer gesto - positivo ou negativo - dos escritores convidados pode virar um factóide que, no momento imediato, circulará em toda a Internet e, na manhã seguinte, estará nos principais jornais de papel ainda em circulação. A Folha de São Paulo tem uma "casa" por lá. Assim como a Companhia das Letras, o Instituto Moreira Salles e muitos tais. E a livraria oficial da Festa é a Livraria da Vila, que, como já falei por aqui, é muito charmosa, mas cobra bem alto pelo seu charme. 

Eu sei de tudo isso, mas não me esqueço do meu primeiro impulso, que era o desejo de ir, o que,em outras palavras, significa "aceitar as regras do jogo". Foi assim que a trupe de cinco - Rosana, Nilza, Pedro, Manamácia e eu vivenciamos estes cinco dias: com olhos livres, como dizia Oswald de Andrade, o homenageado da vez.
*
*

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Depois da FLIP, sobre a ida para a FLIP

Há uma certa histeria na FLIP, é inegável. Pude sentir bem isto quando tentei comprar os ingressos para assistir às conferências. 40 minutos depois de aberta a “bilheteria” virtual”, praticamente tudo estava esgotado, restando apenas a “Tenda do telão”.  É provável que seja um saco assistir às conferências na tal tenda, mas o fato é que, movida pela histeria, comprei vários ingressos, não só para mim, mas também para quem vai comigo.Não sei bem o que fazer com os tais ingressos, se assistirei realmente às conferências, ou se apenas perambularei por lá, fingindo ser rica (já que tudo, dizem, é o “olho da cara”) e fingindo ter lido todos aqueles escritores, embora eu não conheça a maioria.

Simbolicamente, quero que a FLIP instaure um novo tempo na minha vida. Estou decidida a me voltar cada vez mais para o ato solitário da leitura. Gesto esquisito o meu. Marcar a busca essencial da solidão no meio da multidão. Tem explicação não. Só se explica porque quero voltar, nem mesmo sei se quero ir, para pôr logo em prática minhas novas determinações.  Ser “promoter” de eventos é por demais cansativo. E é assim que me senti neste semestre que findou:  a concepção do FALE é linda, mas a sua realização é estafante e contraditória.

Então, eu vou com o espírito de reclusa, atrás da leitora que a professora universitária me tirou. 
*
*

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Os dias do FALE chegaram. E por isso estou insone, depois de dias e dias e noites e noites... Vai ser bonito do jeito que já está sendo:


domingo, 19 de junho de 2011

Bernardo Carvalho pensa

exausta, sem saber mais exatamente como me manter acordada, ou, na impossibilidade, como me manter sentada com esta dor tamanha embaixo da costela, resultado de dias e dias diante deste computador, vago pela internet atrás de algo que faça qualquer coisa com esta minha vontade - já quase insana - de entrar em off, que se fodam todos os meus compromissos pré-FALE. Encontro, então, esta postagem de Bernardo Carvalho e, de repente, descubro porque continuo lendo seus livros, apesar da antipatia por seu cerebralismo. Adoro esta sacada de que os provincianos são os outros e que temos mais é que ignorar este modo tosco de classificação dos lugares:

"(...) A coisa vai mais ou menos bem (mais para menos do que para mais) quando minha amiga me pergunta sobre as viagens, sobre a urgência de estar do lado de fora, no exterior, sobre a atração pelo estrangeiro como uma forma de estranhamento. E eu caio na asneira de responder com um exemplo recente – que, depois de uma leitura no norte da Alemanha, o mediador me perguntou: “Mas, afinal, onde está o Brasil na sua obra?”. E que isso tinha a ver com um preconceito, pois ele nunca faria a mesma pergunta a um americano ou a um inglês ou a um francês que tivesse escrito um romance sobre o Japão ou a Mongólia. O exótico não pode falar do exótico. É insuportável, não tem credibilidade. Um clichê não pode falar de outro, porque se anula. Prossigo (embora tudo – a começar pela cara da minha amiga – me alerte de que é hora de calar a boca), dizendo que as identidades nacionais também são ficções, mas ficções vividas como religião, como crença, transparência e normalidade, e que a ficção literária, ao mostrar sua construção, sua fragilidade, sua opacidade, pode servir como uma alternativa e um antídoto à crença nas identidades – e não apenas nacionais. É essa a literatura que me interessa, uma literatura desconfortável, cuja força vem da sua fragilidade".

A postagem completa está aqui. Em tempo: Bernardo Carvalho está em Berlim. E uma de suas obrigações de escritor residente é escrever um blog (algo que ele não gosta).
*
*

sábado, 11 de junho de 2011

Álbum de memórias - Canoa Quebrada

Canoa quebrada, no Ceará, é um pequeno pedaço do paraíso. Verdade que não tem o mesmo encanto de Jericoaquara. E eu não sei especificar bem por que. Talvez a distância de Jeri conte a favor. Canoa é bem ali, se estamos em Fortaleza. E quando eu estava ainda bastante doente, minhaPrincesa foi para Fortaleza. E eu achei que não devíamos ficar entre quatro paredes só porque eu não estava bem. Todos eles vibravam de vida, engavetados de tédio. Fomos a Canoa então, bem ali. A viagem foi muito sofrida. Senti cada osso. Mas o que são os ossos, se podemos ainda viver? Se podemos ver um ser muito amado voar? Registrei o voo da Princesa. Quando eu voltar em Canoa Quebrada, prometo, vou voar também.











*
*

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Vou pra FLIP



Flip. Desejo antigo. Não sei como é. Mas vivenciar a literatura como uma festa sempre foi uma tentação. Ando em crise com minhas escolhas acadêmicas, já que me roubaram o que de mais precioso eu tinha em mim: a leitura literária. Então vou me dar ao direito de passar um mês no universo da literatura. Vou também para a Abralic falar sobre um escritor que é estranho.  É  estranho e por isso gosto um tanto. Aqui e ali. Joca Reiners Terron.  Vou conhecer Curitiba. Embora. Embora quando pense em Curitiba, penso na Curitiba de Adriane Hernandez, a Driamada, que me fez ver a desumanidade de uma cidade planejada. Poderia lembrar de Paulo Leminski, e sentir Curitiba como a palma da minha pica que não tenho. Mas penso em Adriane. E compreendo bem por que. Qualquer um que morou na casa do Brasil, em Paris, sabe o que há de desumano na “casa planejada”. Para manter o plano, que todo excesso seja contido. Seja restrito ao sótão. 
.
.
Mas vou. E é certo que me deixarei fotografar naqueles lugares tão turísticos. Vou à ópera de arame. E lá me lembrarei de Madri, onde tem uma ópera igual. A daqui, réplica de lá, talvez?  Lembrar daqueles dias de Madri. Ali eu vi Guernica e O jardim das Delícias. E duvido que exista ser no mundo que não se dilacere diante. E eu estava cambaleante nas suas ruas. Como só ficamos quando alguma dor martela. Senti um tanto de dor e um tanto de poesia naquilo que sentia em mim. Noites em claro num bar tão babel - e no sótão. Diverti-me horrores com a minha solidão. Tem um quê de aventura ficar bêbada numa cidade estranha em que apenas um e outro turista como você fala a sua língua ou a língua que agora lhe serve de sua. Algumas experiências são muito libertadoras, e por isso voltam de forma mais constante do que outras. Assim é minha memória de Madri. Mas era da Flip, em Paraty, que eu falavra. E da Abralic, em Curitiba, não?
.
.
A ideia era entre Paraty e Curitiba passar uma semana em São Paulo – a Sampa que eu amo. Mas julho, será? Me deu uma desvontade. Paraty está entre o Rio de Janeiro e São Paulo. E meio de repente deu uma vontade doida de sentir o sol do Rio. O Rio, onde só fui para ser feliz.  Mas agora. Agora eu estou tão institucional. Vou morrer de saudade do meu filho, que não vai. Morrer de saudade do Tatupai, que também não vai. Eu vou. Mas de repente não amo mais São Paulo. Nem o Rio. Nem Curitiba. É assim. É o tempo. O que ele faz conosco. Isso assombra. E ao mesmo tempo é o que nos acalenta. Nos redime.
.
.
.


terça-feira, 7 de junho de 2011

luz amarela




poeminha é meio água. para ele, tudo é motivo de. e a luz na nossa casa amarela é amarela. amarela como a cadeira. quem diria.
*
*

domingo, 5 de junho de 2011

bicicleta na parede - e sobre o que é bom


a bicicleta foi parar na parede. o bacana é que não está apenas na parede. tatupai procurou, procurou até encontrar a atividade  física que lhe dava prazer. agora já está até fazendo trilhas. acorda cedo aos domingos. ele diz que a paisagem não é de brincadeira - de alumiar. a turma também. há algum tempo a busca pela vida saudável bateu a porta aqui em casa. Poeminha é, em larga medida, responsável pelas mudanças. e nos contagiamos. frutas de todas as cores. refeições balanceadas. e tatupai, pouco a pouco, foi percebendo a necessidade de se cuidar.  sobrepeso, cansaço. logo ele, um cozinheiro de mão cheia. é bom porque os sabores agora experimentam outros sabores. longe da gordura, das massas de todos os dias. é difícil - a começar pelo preço. produtos de qualidade são sempre os mais caros das prateleiras::: ainda mais aqui na mata, em que o monopólio dos supermercados mantém os preços nas alturas. mas não dá para abrir mão. e tenho que agradecer esta "consciência", mais uma vez, às pessoas que tive a sorte de encontrar. ninguém na minha família pensa com amor na alimentação. heranças. de certo modo, comer sempre me pareceu nada mais que uma necessidade fisiológica... até encontrar carla, mariamada, tatupai. não descarto a possibilidade de Poeminha um dia querer viver à base de sanduíches, mas não vai ser aqui em casa que ele vai aprender. todas as noites, eu faço um "resumo" a ele das "delícias" do dia. o abraço apertado. o livro. o filminho. a brincadeira demorada. a ida a  bisavó - e agora a avó que está aqui. o almoço. a bicicleta do pai. o a ida a praça. o jantar - e repito: "filho, a vida é bonita. vale a pena gostar de gostar; você ouviu aquela música em que dancei com você? pluct plact zuum. mamãe chorou porque no tempo dela tudo era falta. agora não, filho. você não tem tudo. nem precisa. mas amor e cuidado não lhe faltam. você sente?" e ele se espalha todo em cima de mim. seguro. inteiro. e às vezes, nesses momentos de ternura, eu lembro daquela longa estrada ao meio dia de muitos desejos. quase nunca satisfeitos. e ainda bem que o tempo passa - tantas vezes ao nosso favor. 

e a bicicleta na parede. a busca pelo saudável. o cuidado com o filho. a parada contrariada, mas necessária. tudo isso faz parte do savoir faire. de um desejo de viver bem - que se concretiza porque a história existe, mas nem sempre perdura. ainda bem. 
*
*

quinta-feira, 2 de junho de 2011

o micróbio do samba da adriana

a música é mais forma do que conteúdo. porque prescinde das palavras. e não há quem duvide disso. porém algumas vezes é preciso abrir exceção para esta lei. quando a novidade é tamanha. desde que ouvi pela primeira vez o micróbio do samba, o novo cd de adriana calcanhoto, pensei nele como uma exceção. e uma exceção muito bonita. vigorosamente bonita. adriana veste-se de samba, invertendo seus sentidos. e o faz dando voz a mulher - uma (in)certa mulher que se apropria do discurso masculino. até aí tudo bem. quem acompanha, sabe que esta apropriação às vezes é vista mesmo como um retrocesso. não neste caso, é certo. muitas cantoras, nos últimos tempos, flertaram com o samba, mas nenhuma com o vigor de adriana::: marisa monte e maria rita talvez sejam os primeiros nomes que vêm à mente. mas tem teresa cristina e martinália, a quem amo desde muito (mas elas não apenas flertaram; elas são o "próprio" samba). só que nenhuma delas incomodou-se de dar voz à submissão da mulher. ou se incomodaram pouco::: o eu lírico reproduziu aquilo lá: a dor, a saudade, o silêncio da mulher. a malandragem, a sedução, a esperteza do homem. o vigor da adriana está neste contrário: aqui a mulher comanda. reiteradamente. música após música é uma mulher forte e linda que comanda seu próprio mundo de desejos. e a singeleza que é seu samba não deixa que essa escolha resvale em nenhum momento para o panfletário. a que canta é a mulher de agora. pode ser eu. e pode ser você, tão lindas para o mundo, no mundo. e não tenho como não me apaixonar por este universo-mulher: pode se remoer/ se penitenciar/ eu encontrei alguém/ que só pensa em beijar. uma mulher liberta dos anseios tão firmemente sedimentados. com tudo aquilo que advém da beleza de ser mulher::: segura livre leve. um risco, claro: te deixo a geladeira cheia e sem promessa/ que findo o carnaval eu tô de volta/ não chora, neguinho, não chora/ ... / tá na minha hora, tá na minha hora. um risco delicioso - com gosto de invenção que veio pra ficar. certeza que qualquer outra cantora que resolva se arriscar daqui em diante no micróbio do samba não vai ignorar a voz - o tom da voz - de adriana. se o homem tiver voz, que se aproprie do que um dia foi a voz da mulher: ... por você seria aquele que você mandasse ser/ nunca chegaria tarde com a barba por fazer/ vem cá, vem ver, vem ver. a voz da tradição está toda aí. mas o tom agora é outro.
*
.:)