Eu escrevi para um amigo que, no nosso imaginário, quando uma pessoa escapa da morte, inevitavelmente, vai mudar - e para melhor, como se o dom da doença fosse levar todos os defeitos. E eu sentia agora em mim que não era bem assim. Jogar fora o que emperra parecia mais com as promessas de ano novo, as que nunca cumprimos.
Porque nossa casca não é uma mera peça de roupa. Está tudo entranhado. Os vícios e virtudes em sangria desatada. Daí que decidi me concentrar ainda mais nas pequenezas, mas dessa vez tentando aparar aqui e ali oqueatrapalha. Mínimas promessas: gastar menos, ficar muito perto do Tatupai e do Poeminha, ler mais os livros que compro, tecer dias bons. E assim caminho, ora sim, ora não.
Tenho lido obstinadamente literatura brasileira contemporânea. E tenho gostado. Diz-se disso ser mais responsável pelas minhas escolhas. Mas tem sempre o mas. Me danei a pensar que faltava algo. E com isso veio o desejo de ler livros comprados há muito tempo. Lembrei então do que fiz durante quase todo o doutorado: Um filme e 30 páginas de um romance nadaavercomatese por dia. Impossível repetir tal feito querendo ficar muito perto dos meus. Então adaptei. E assim nasceu o 25 páginas por dia. De preferência, literatura estrangeira. E ainda: volumoso. Porque são estes que nunca lemos quando achamos que não temos tempo. Fiquei tempão parada diante da estante pensando por onde começar. Opções não me faltavam. Sempre comprei as melhores traduções dos livros clássicos acreditando piamente que os leria em seguida. Engano doce. Por fim, decidi começar por Ana Kariênina, que na edição brasileira tem nada menos que 801 páginas. Fiz as contas e, se tudo der certo, terminarei de lê-lo daqui a 32 dias. Achei um tempo bem razoável.
Comecei ontem. No entretempo, Bisa veio almoçar e eu tive que ir também, Tatupai deitou do meu lado e ficou fazendo dengo, Poeminha apareceu enciumado e tivemos que despistá-lo mostrando a máscara acima da porta. E ele haja pisar em nós para alcançá-la. Tudoaomesmotempo. Doce. Lindeza. Se rolar, escreverei as minhas impressões de leitura no correr dos dias. Sim. Sempre, e ainda por muito tempo, esta sede. Assim desejo. Com desejo.
























